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Reportagem especial de Nicolás Cabrera para ON CUBA / Tradução Thais Tostes

O passado da Rússia é imprevisível. Winston Churchill, famoso em frases de calendário, definiu o gigante europeu como “um enigma envolvido em um mistério dentro de um enigma”. É que a Rússia parece ser uma das nações mais estudadas e menos compreendidas. Se conhece suas greves de trabalho e as vanguardas artísticas. Há lembranças de lutas camponesas e czares excêntricos. Os líderes políticos são contados em quantidade, bem como as canetas literárias que empoeiram as bibliotecas. E, mesmo assim, a história da Rússia é criptografada como um código da KGB.

Há outra chave para a leitura: o esporte. Se pensado como pão e circo, ou como uma grande feira de nações, o esporte sempre fala das sociedades que o praticam. Poucas semanas depois do início da Copa do Mundo no maior país do planeta, nós nos juntamos à onda que pergunta por que o evento esportivo mais global será disputado na Rússia. Tradição ou novidade? De Lênin a Putin, o que há com os russos e o futebol?

Nem o esporte nem a Revolução Soviética começaram em 1917. As causas do ataque bolchevique ao céu czarista devem ser procuradas, pelo menos, na Primeira Guerra Mundial. Para o esporte e o futebol, você precisa retroceder ainda mais. Os primeiros jogos de futebol datam de 1860.

Quando o século 20 estava apenas começando, os russos já tinham uma liga nacional de futebol, que tinha o primeiro campeão em São Petersburgo. Nesse mesmo, ano o selecionado estreia contra a Finlândia nos Jogos Olímpicos de Estocolmo. Nos peitos empinados de atletas, lê-se Российская Империя: Império Russo.

Com a tomada do palácio de inverno em 1917, começa outra etapa. A Rússia czarista começa a morrer, enquanto a URSS tenta nascer. Uma transição foi transformada em guerra civil. O esporte assume um papel pedagógico, militar e moral. Procura educar, ensinar e curar.

Nikolai Podvoisky, responsável pelo treinamento militar, incorpora a obrigatoriedade da ginástica. Xadrez, passatempo fetiche de Lênin, tem o seu primeiro campeonato nacional em 1920. Confrontado com a Liga da Juventude Comunista, Vladimir Ilyich Ulyanov disse que o esporte deve servir para o trabalho, defesa e criatividade. Os camaradas serão atléticos ou não serão.

Como diz Rainer Matos Franco, o esporte dos primeiros anos da URSS é marcado pelo isolacionismo mundial em relação às nações capitalistas. O Comitê Olímpico Internacional e a FIFA são “instituições burguesas”. Os bolcheviques fundaram sua própria associação esportiva internacional por meio da Internacional Comunista.

Em 1921, foi criada a “Associação Internacional de Associações de Esportes e Ginastas Vermelhas” ou Sportintern. Nascem as Spartakiadas, as Olimpíadas comunistas. Em 1922, com a consolidação da URSS, foi criada a equipe de futebol “nacional”, que estreia-se perante a Federação Desportiva dos Trabalhadores Finlandeses. Na guerra, na fábrica, no campo: une-se.

Durante os anos 1930, a URSS não participa de nenhuma copa do mundo de futebol. No entanto, com Stalin, a competição internacional contra o Ocidente burguês começa a se tornar mais flexível. As Olimpíadas vermelhas desaparecem e as “quebras de recorde” são instigadas em franca competição contra as nações capitalistas. O sucesso aumenta. A produtividade de cinco anos atinge um esporte que é exportado como propaganda. O internacionalismo socialista de Lênin dá lugar à carreira competitiva de Stalin.

O fim da Segunda Guerra Mundial não modifica a política stalinista em relação ao esporte; mas sim o poder. Em novembro de 1945, há um evento que marca a globalização do futebol russo: a turnê do Dinamo Moscou, na Inglaterra. A amizade anglo-soviética e o desejo de Stalin de derrotar o Ocidente são o pano de fundo. O passeio também serve como uma desculpa para a cultura letrada da época sobrepor o estilo de jogo com a idiossincrasia nacional. O “coletivismo, organização e determinação” do Dinamo mostra sua “superioridade” contra o “individualismo” inglês. Na nascente Guerra Fria, você joga como vive.

Em meados do século 20, a URSS começa a participar regularmente dos Jogos Olímpicos e das copas do mundo de futebol organizadas pela FIFA. Sua inclusão em mega eventos esportivos globais é total. Os sucessos olímpicos, principalmente nos jogos de inverno, vão na contramão da pobreza futebolística, com exceção do seu primeiro e último Campeonato Europeu, conquistado em 1959.

Seleção da União Soviética posa antes da partida da Copa do Mundo entre URSS e França, em León, México, em 6 de junho de 1986. Da esquerda para a direita, de pé: Vladimir Bessonov, Pavel Yakovenko, Oleg Kuznetsov, Sergi Aleinikov, Rinat Dassaiev, Anatoli Demianenko. Primeira fila, de esquerda para a direita; Ivan Yaremchuk, Nikolaj Larionov, Igor Belanov, Alexandr Zavarov, Vasili Rats. A partida terminou empatada em 1 a 1. Foto: Michel Lipchitz / AP.

Já no crepúsculo do século 20, a URSS agoniza ao pulso da Perestroika. O colapso é inevitável. Dos escombros do muro, doze novas repúblicas se rearmam, mas apenas a Rússia receberá os pergaminhos esportivos da URSS.

Em 1992, nasce a união do futebol russo e sua equipe nacional. Boris Yeltsin, em 1993, propõe um novo hino patriótico, cuja melodia, sem letras, foi composta pelo monarquista Mikhail Glinka, do século 19. Os jogadores reclamam que nos jogos internacionais não há nada para cantar.

A Rússia nunca parou de fantasiar sobre sua grandeza. Czarista, soviética ou emergente, recusa-se a enterrar seu passado, como o Lênin embalsamado. Carrega um DNA imperial. E o esporte sempre foi uma trincheira a se expandir. Não por acaso, eles são os melhores na estratégia do xadrez. Vladimir Putin, soberano e estadista do século 21, que desafia o Ocidente, doma os ursos e varre as eleições. Parece determinado a restaurar o status internacional perdido. Nada melhor do que a Copa do Mundo de Futebol para demonstrar o orgulho nacional. Ninguém deve duvidar que o esporte é a continuação da política por outros meios.

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