Manifestação do povo Guarani e seus parentes na Av. Paulista, em São Paulo, em reação à desdemarcação do Jaraguá. Foto: Eduardo Figueiredo / Mídia NINJA

Por Comissão Guarani Yvyrupa (CGY)

Os Guarani, um grande povo entre os tantos que originalmente habitavam essas terras, há muito operam sofisticados movimentos para lidar com as agressões de seus inimigos. Durante esse longo processo de existir entre diferentes, mas também de resistir a uma força agressora descomunal, que busca violentamente exterminar as diferenças, onde se situam os Guarani? Entre a guerra e a diplomacia, o embate e a dispersão, a proximidade e o isolamento, qual seria sua posição?

Levando em conta sua grande população e a ampla extensão do seu território, os Guarani viraram o milênio relativamente desconhecidos pela sociedade brasileira, eventualmente encarnando a identidade de um povo pacífico. Contudo, tal identidade é apenas uma das múltiplas encarnações possíveis e concomitantes na ação política Guarani.

Foto: Eduardo Figueiredo / Mídia NINJA

É neste contexto que emerge um novo ciclo de manifestações e lutas pelas demarcações que os Guarani empreenderam na última década. Frente à morosidade dos processos demarcatórios que os mantinha confinados a minúsculas e inférteis terras, os Guarani do Sul e Sudeste do país, embalados pelo contexto de revolta que inflamou o mês de junho de 2013 e articulados por meio de sua organização autônoma, a Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), realizam uma série de trancamentos de rodovias, atos públicos e retomadas de antigas áreas tradicionais.

Uma das mais icônicas dessas ações foi o trancamento da Rodovia dos Bandeirantes, em setembro de 2013, quando os Guarani das aldeias de São Paulo interromperam por mais de duas horas com suas danças e cantos essa importante via de acesso à cidade. Nomeada em homenagem aos escravizadores de índios, tal rodovia foi construída sobre a Terra Indígena Jaraguá, até então a menor Terra Indígena do país.

Foto: Eduardo Figueiredo / Mídia NINJA

A cidade de São Paulo, palco estratégico dessa luta, ainda viu uma série de ações com que os Guarani desestabilizaram a lógica identitária de sua suposta passividade: entraram sorrateiramente no Pátio do Colégio, enganando os jesuítas e fazendo uma retomada simbólica desse local onde a cidade fora fundada; utilizaram-se da produção farsesca na abertura da Copa de 2014 que queria ter um índio em seu show e realizaram o único protesto dentro de campo durante o evento, erguendo a faixa “demarcação já!”.

Além disso, estenderam faixas na Av. Paulista e sobre o Monumento às Bandeiras, transformando-o em monumento à sua resistência; dançaram e cantaram durante seis horas ininterruptas no escritório da Presidência da República, em São Paulo, ato com o qual conseguiram, em maio de 2016, a assinatura da portaria declaratória da Terra Indígena Tenondé Porã.

Foto: Eduardo Figueiredo / Mídia NINJA

Inspirados pelos parentes de São Paulo e pelas mobilizações que vinham ocorrendo ao redor do país, diversas lideranças Guarani passaram a realizar manifestações em suas próprias regiões. Do Rio Grande do Sul ao Espírito Santo, passou-se a conviver com essa singular presença dos Guarani tomando as principais ruas e rodovias das grandes cidades.

A CGY, que ingressou na Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) em 2014, também participou desde então de uma série de mobilizações nacionais: pelas demarcações, contra a PEC 215 e outras medidas anti-indígenas propostas pela bancada ruralista, contra o sucateamento e a ingerência política do Governo na Funai, contra a desestruturação da Sesai.

Sem dúvida, muitas dessas manifestações tiveram êxito. Exemplo disso é que, apesar dos diversos ataques dos ruralistas, os Guarani conseguiram fazer com que 17 processos de identificação fossem iniciados, sete estudos fossem publicados pela Funai, quatro portarias declaratórias assinadas pelo Ministério da Justiça e uma terra indígena fosse homologada pela presidência entre os anos de 2014 e 2016, tudo por meio de muita luta.

A grande mobilização nacional contra a proposta de desestruturação da Sesai realizada em 25 de outubro de 2016 conseguiu reverter a proposta do Governo que seria realmente devastadora para as políticas de atenção à saúde indígena.

Foto: Eduardo Figueiredo / Mídia NINJA

No entanto, mesmo essas conquistas têm se mostrado incertas no atual cenário de esfacelamento das políticas públicas chefiado pelo governo Temer. O que fazer quando, de um dia para o outro, o Estado pode aprovar uma lei que faz regredir um processo de demarcação que foi fruto de anos de luta? Como lutar se as mobilizações do movimento indígena conseguem reverter a portaria do Ministério da Saúde que enfraquecia a Sesai mas, ao mesmo tempo, o Congresso aprova a PEC 241, que terá o efeito de sucatear todo o SUS por décadas?

São questionamentos como esses que vêm sendo feitos pelas lideranças Guarani. Se por um lado não há dúvidas de que se deve lutar contra os retrocessos aos direitos que foram conquistados, desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, torna-se também necessário buscar cada vez mais o fortalecimento da autonomia das comunidades indígenas.

“Se fortalecer na base”, como dizem muitas das lideranças que, nos últimos tempos, têm retomado suas terras tradicionais e plantado os tembi’u ete’i (os alimentos verdadeiros) independentemente do reconhecimento de um Estado para o qual é cada vez mais improvável reconhecer algo que não soja e petróleo.

Desse modo, mais uma vez, a resistência Guarani se compõe de diferentes ações e posições, entre a visibilidade e a invisibilidade, a luta no Estado e a luta a despeito dele, sem, no entanto, se deixar cristalizar em nenhuma delas. Numa época em que marcos temporais e fronteiras territoriais tentam confinar o tempo e o espaço, manter-se em movimento, nos ensinam os Guarani, é o que permitirá seguir atravessando a história.

Foto: Eduardo Figueiredo / Mídia NINJA

*A Comissão Guarani Yvyrupa (CGY) é um importante protagonista político do movimento indígena nacional, realizando suas assembleias anuais e garantindo vitórias importantes na longa luta pelo reconhecimento dos direitos territoriais de nosso povo.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Dríade Aguiar

Pretas, Gordas, na Praia!

Fatine Oliveira

Acessibilidade nos afetos

Luiz Henrique Eloy

Povos indígenas e acesso a justiça na pauta do Supremo

Caetano Veloso

Caetano Veloso entrevista Baco Exu do Blues

Juca Ferreira

Juca Ferreira: É difícil ficar calado diante deste horror

Ivana Bentes

A Classe Média no poder

Juca Ferreira

Levanta, Brasil!

Daniel Zen

A falácia do projeto de “lei anti crimes” de Sérgio Moro

André Barros

André Barros: Brumadinho não foi tragédia

Daniel Zen

Daniel Zen: Milícias e Facções

NINJA

“O samba está muito bem representado”, afirma Rubem Confete

Daniel Zen

Daniel Zen: O que esperar do Governo Bolsonaro?

Gabinetona

Tem um rio no meio do caminho

Ricardo Targino

Começou a Recolonização do Cinema Brasileiro!

NINJA

Opinião: Cai de vez a máscara de Moro