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Por Tainá de Paula, arquiteta e urbanista

Entendo-se os fatos políticos como o incêndio da Triangle Shirtwaist Company ou as jornadas das mulheres Russas em março de 1917, as reivindicações das mulheres acumuladas ao longo dos anos continuam sendo significadas. As mulheres se colocaram como agentes políticos na sociedade, tensionando mudanças e criando fatos histórico-políticos paradigmáticos, desde o sufrágio, passando pelo enfrentamento ao racismo de Rosa Parks, ou se inserindo no cenário político dominado pela lógica patriarcal como Antonieta de Barros.

Nesse momento faz-se necessário uma breve janela sobre o que defendo aqui como política, haja vista que nossa mera existência já é um fato político. O que é fundamental dissociar aqui é o estado de representação eletiva e mais: é condição sine qua non entender que todo ente político é o conjunto de condutas e ações que constroem sua vida política, relevante ou não em seu tempo. Afinal de contas, o “fazer política” é, antes de mais nada, uma concertação entre pares e a capacidade de promover agendas e consensuar pautas oriundas de um projeto político maior, que pode perdurar ou se esvaziar de acordo com sua capacidade ou não de transformação social, cultural e econômica.

Isto posto, é importante entender também que o(s) feminismo(s), apesar de presente na agenda neoliberal desde as sufragistas, têm no Brasil grande trajetória com o campo da esquerda, e mais ainda com a discussão classista e emancipacionista desse campo. O feminismo marxista, presente em lideranças femininas do antigo Partido Brasileiro ou do atual PCdoB na figura de Jandira Feghali, se enraíza até hoje dentre os partidos que compõem este campo, e é importante entender a gênese dessa estrutura.

A partir do final da década de 1960, início da década de 1970, a tríade gênero, raça e classe ganham força no Brasil, reverberando nacionalmente vozes como Angela Davis e Bel Hooks. Na década seguinte, os movimentos sociais invadem os partidos principais do processo de redemocratização do país, e com o movimento de mulheres negras não é diferente. A figura de Lélia Gonzalez, filiada ao Partido dos Trabalhadores, propõe uma agenda feminista afrolatinoamericana dentro do partido. O “pretoguês” de Lélia propõe uma narrativa preta e uma forma feminista no fazer político.

Incomodada com a estrutura partidária que invisibiliza as diferentes identidades, Lélia se desfilia do partido, tentando ainda se organizar junto ao PDT, mas termina seu ativismo na docência.

(…) Caro companheiro. Pelo fato de discordar das práticas desenvolvidas pelo PT/RJ (expostas em carta dirigida ao companheiro Lula, datada de 07/11/85), sobretudo no que diz respeito ao estreitamento de espaços para uma política voltada para as chamadas minorias, peço meu desligamento do PT, declarando ao mesmo tempo, que estou encaminhando minha filiação ao PDT, onde acredito poder melhor trabalhar em termos de implementação da política supracitada (…).

Trecho de carta de desligamento do PT de Lélia Gonzalez, em 1985.

Apesar de figuras femininas representativas no campo político, nomes como o de Lélia Gonzalez, Benedita da Silva, Luiza Erundina são exceções à regra. Os partidos políticos do campo da esquerda ainda não alcançaram a equidade de narrativas e de pautas, ainda classificando o feminismo como uma pauta identitária menor frente a uma suposta mudança estrutural no sistema de produção por exemplo, ou a uma luta de classes “superior” fechada em si mesma.

A partir da Primavera das mulheres e das jornadas pelo Fora Cunha em 2015, partidos políticos reativam a necessidade de pactuação de suas agendas com suas mulheres. Afinal, percebe-se publicamente mais uma vez no fio condutor da história que as mulheres são capazes de criar fatos políticos, e um protagonismo histórico que diuturnamente lhes é ceifado no cotidiano da vida público-política. Partidos como o PSOL, veem um crescimento de sua agenda feminista e um levante de mulheres internas e externas ao partido reivindicarem não só o protagonismo sobre seus corpos mas também a condução das práticas decisórias intra partidárias.

É portanto evidente afirmar que cada vez mais se faz necessária uma articulação suprapartidária de mulheres na política, uma vez que todos os partidos (incluindo os do campo da esquerda) se organizaram de modo a subalternizar as pautas específicas e a narrativa das mulheres. Afinal, para além do essencialismo que nos define enquanto corpos (ou que tenta nos definir), quem poderia propor uma revolução nos modos de vida e de produção? Os mesmos que partem de um sistema milenar patriarcalizado e vertical em relação às mulheres? Como propor revolução ao povo, se parte dele continuará subjugado (no caso nós)?

A eleição de Marielle Franco com um total de 46.502 votos na cidade do Rio de Janeiro é parte sem dúvida do levante feminista em curso, que alavanca o debate sobre a ausência de mulheres na política e reforça a possibilidade concreta de se estabelecer um mandato feminista atrelado a um projeto político não-essencialista, empenhado na supressão das desigualdades do exercício do poder entre gêneros.

Nesse sentido, Marielle se revela como um novo grande fato político que pode, assim como em outros momentos de nossa história, reorientar paradigmaticamente a forma como as mulheres se localizarão no cenário político. Relembrando a notória ex-escrava Sojourner Truth em seu discurso de 1851:

(…) Se a primeira mulher que Deus (sic) fez foi forte o bastante para virar o mundo de cabeça para baixo por sua própria conta, todas estas mulheres juntas aqui devem ser capazes de conserta-lo, colocando-o do jeito certo novamente. E agora que elas estão exigindo fazer isso, é melhor que os homens as deixem fazer o que elas querem.(…)

É preciso estar atentas para as estruturas que nos dividem e que nos distanciam da possibilidade de estarmos unidas. Eu, como boa feminista negra radical e anticapitalista, acredito que os partidos são o meio, não o fim para nossos intentos. Que sejamos capazes de nos tornar Marielle Franco e garantir que sua figura política se configure no estopim de um levante afrolatinoamericano feminista, como previu Lélia Gonzalez e como foram tantas outras mulheres, algumas citadas aqui.
Avante.

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Referências:

BORGES, Rosane. Feminismos negros e a renovação política do “Dia Internacional das Mulheres” In: “Dossie: Feminismo e política“, Blog da Boitempo, 8 de março de 2016.

CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. São Paulo, 2001LIMA, Daniela. “Às que vieram antes de nós: histórias do Dia Internacional das Mulheres“. In: “Dossie: Feminismo e política“, Blog da Boitempo, 7 de março de 2016.

GONZALEZ, Lélia. “Por um feminismo afrolatinoamericano.” Revista Isis Internacional. (8), out. 1988.
http://www.projetomemoria.art.br/leliaGonzalez/vida/tomando-partido.jsp

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