Juntas, o grupo Moça Prosa mostra resistência no samba de mulheres. Foto: Marcelo Costa Braga

Por Eduardo Sá.

Feminista e politizado, o grupo de samba Moça Prosa, composto por seis mulheres e convidadas, promove não só rodas de samba mas também debates sobre temas contemporâneos. Tudo começou em 2012, na Pedra do Sal, reduto tradicional de samba no centro do Rio, durante uma oficina de percussão com o músico Vagner Silveira. Desde então não parou mais, apesar das dificuldades que encara para tocar na rua e ter acesso às casas tradicionais de cultura na cidade.

Quatro integrantes do grupo estão desde sua fundação, mas poucas das nove que tocam e cantam vivem exclusivamente da música. A entrevista foi realizada antes de um samba delas no Dida Bar, na Tijuca, zona norte da cidade, com quatro integrantes: Ana Priscila, Jack Rocha, Tainá Brito e Luana Rodrigues. Neste mês, a convidada para o debate nas pausas da roda é a escritora Conceição Evaristo, veja o evento aqui. Negritude, cultura e gênero, dentre outros temas, sempre são abordados por elas.

Na entrevista, elas relatam as dificuldades por conta do machismo institucionalizado na sociedade e também no samba. Falam também sobre as burocracias para realizar atividades nas ruas, embora seus eventos tenham forte apelo na cultura e na economia da cidade gerando renda e empregos para muitas famílias. Assim como outros grupos de mulheres, o Moça Prosa vem ocupando espaço com qualidade musical e posição política, mas sem partidarizar ou institucionalizar o movimento. Não poupam críticas aos governos federal, estadual e municipal que, segundo elas, não dão nenhum incentivo à cultura, muito pelo contrário.

Quais foram os desafios para ganhar projeção e ser chamadas a outros espaços?

Ana Priscila: A gente ia formar um grupo, mas a ideia era muito frágil e conforme nos organizamos e tocamos as coisas foram dando uma potencialidade que nem a gente mensurava. Até hoje enfrentamos muita resistência de aceitação com algumas pessoas e espaços. A Roda que acontecia na Pedra do Sal é hoje no Largo de São Francisco da Prainha, teve uma época que se não tocássemos na Pedra não conseguíamos mais em lugar nenhum.

Jack Rocha: O Moça Prosa ainda não tinha essa visibilidade no início, foi ganhando corpo aos poucos, quando a gente passa ao Largo da Prainha começa a ter entendimento do tamanho da nossa roda. Ganhamos mais visibilidade e corporeidade lá. Hoje temos uma roda todo primeiro domingo do mês em Paquetá e em outros espaços do Rio de Janeiro.

Ana Priscila: Já tocamos no Trapiche da Gamboa, Baródromo, tanto na Praça Mauá como no atual da Lapa, alguns teatros do Sesc, na Portelinha e na Portela com o Projeto de Asas Abertas, Teatro Rival, Bar do Bigode, Bar do Zeca Pagodinho e por aí vai. Tem o evento Viva Zumbi em Niterói, que acontece todo ano no dia da Consciência Negra. Crescemos com os anos, mas isso foi sendo calejado a cada evento.

Elas em samba. Foto: Marcelo Costa Braga

Em relação à profissionalização, o grupo tem assessoria, produção, essas coisas?

Ana Priscila: Essa é uma conversa mais intensa ultimamente, porque as coisas do Moça Prosa foram acontecendo de forma muito orgânica. Nem sempre investimos nisso, então a gente vai vendo a necessidade de se estruturar para atender uma determinada demanda. Muita coisa do grupo é a gente que administra, como nossas mídias sociais, o evento no Largo da Prainha, as contratações para os eventos, ainda está tudo muito sob o nosso controle.

Essa questão do Dia da Consciência Negra, isso se reflete na música e militância de vocês?

Ana Priscila: Já eram coisas nossas, mas foram se tornando bandeira e pauta de fala com o tempo. Não sei se organicamente ou conscientemente vimos que precisamos fincar uma posição enquanto mulheres negras, que estão realizando um evento e reproduzindo uma cultura que era maciçamente produzida por homens. Lutamos para isso porque as coisas não são fáceis de chegar à gente.

Temos dificuldade de ter uma assessoria não porque a gente não queira, mas o retorno do trabalho ainda não possibilita. Seria ótimo. Galgar essas posições é ainda mais complicado. Isso ocorre em virtude de que viemos de outra origem, porque somos negras e as coisas vêm com dificuldade maior, como o acesso a algumas casas. Esse é um debate que sempre fazemos para trazer à luz aos outros e para a gente mesmo.

Muita gente do samba e pesquisadores têm comentado sobre uma crescente participação de novas compositoras na cena. Como vocês enxergam isso?

Luana Rodrigues: Temos uma preocupação muito grande com o repertório, e com esse garimpo de músicas que não trate a imagem da mulher de forma pejorativa e que a apresente com uma posição de destaque ou fale da cultura negra. Nessa busca visitamos compositoras tradicionais que nos trazem inspiração, mas também várias novas, tanto da nova geração mais conhecida como dos grupos que surgiram quase ao mesmo tempo que nós.

Cantamos muitas músicas das meninas que estão no rolé e outras compostas por nós. Então nosso repertório é uma grande mistura.

Ver essas meninas compondo e falando o que a gente se propõe a transmitir desde as mulheres de antigamente é incrível.

Poder falar na nossa linguagem e compor nossas mensagens é maravilhoso. É uma maneira de fortalecer ainda mais o movimento, mostrar que, além de tocar e cantar, podemos também compor músicas que os grupos podem utilizar.

Vocês acham que o meio do samba é machista?

Luana Rodrigues: Totalmente, desde sua origem à sua continuidade. Historicamente é machista, apesar de ter todo um matriarcado por trás: na formação, na origem, de ter nascido na casa dessas mulheres, delas terem sido pilar de sustentação e de colocarem muitos sambas pra cima na origem e na decorrência dele. A mulher sempre ficou no entorno: cozinhando, batendo palma, sambando, fazendo parte da beleza e estética da roda, mas na maioria das vezes fora do lugar de produção ou tocando o samba.

Quando você vira o jogo e vai ao outro lado recebe os olhares de cobrança, críticos, não acreditam que você vai conseguir.

Muita gente achava que não teríamos repertório, perguntavam: como vocês vão cantar samba sem ter nenhum conteúdo machista? Porque são muitos, mas estamos aí com um repertório imenso.

E ainda assim numa roda masculina, por mais que os caras já estejam ganhando consciência, você vai ouvir pelo menos um samba machista. Porque é muito inerente, nós mesmas cantávamos nas beiras das rodas e não nos dávamos conta.

Jack Rocha: O que o Moça Prosa tem feito é utilizar o samba como um ato legítimo de denúncia das mazelas da sociedade, utilizamos nossa narrativa para construir as composições que ressignificam dando outro ponto de vista. Nossa primeira composição, Por ser mulher, damos claramente um recado às mulheres: lugar de mulher é aonde ela quiser, quebrando esse paradigma de “olha só como o samba é só feito pra homens.”

Luana Rodrigues. Foto: Marcelo Costa Braga

Ana Priscila: Uma coisa interessante de termos um samba tão machista, é que apesar dele ter nascido dentro da casa dessas mulheres, as matriarcas do samba, como a Tia Ciata e a Tia Eulália, foi na sua casa onde o Império Serrano foi registrado, etc.

Segundo pesquisa recente realizada pelo Doutor João Grand, através da Rede Carioca de Rodas de Samba, mais de 55% dos frequentadores de samba no Rio são mulheres e ainda assim vivemos um processo de reprodução de um machismo dentro das rodas de samba. Ainda tem este estigma de que mulher que frequenta roda é isso ou aquilo, então estamos num momento muito legal de desconstrução dessas discussões mas ainda é muito latente e há muita resistência.

Há algum movimento institucionalizado ou é algo mais orgânico entre esses grupos?

Luana Rodrigues: Rola uma interação geral entre os grupos, eles confraternizam nas ruas e todos de certa forma se conhecem e se visitam. Galera vem na nossa roda e damos abertura para sentar, tocar e cantar, ou vice-versa. Isso se reflete também nas redes sociais no fortalecimento coletivo dos trabalhos.

Tainá Brito: Somos seis pessoas, mas para compor a roda precisamos de nove, então agregamos outras pessoas. Sempre escolhemos mulheres de outros grupos, como a Ciça (Cecília Cruz) que sempre toca com a gente e é do Samba que elas querem. A Claudia Coutinho também, que é do Império Serrano, assim como a Gisele Sorriso e a Michele Souza. É uma política de fortalecimento e troca porque são musicistas de muita potência!

Não tem nenhuma relação de concorrência ou coisa parecida?

Ana Priscila: Não, já é tão difícil para a gente, não faria sentido. Se não abrirmos as portas para nós mesmas, outros grupos historicamente masculinos não vão abrir. É um papel nosso enquanto roda de samba formada por mulheres, que tem essa predileção de fortalecer a imagem da mulher no samba. Temos que abrir e fazer o possível para abrir portas a outras mulheres, seja tocando com a gente, visitando, compartilhando nas mídias sociais ou só falando bem em outras entrevistas. Sem isso o fortalecimento não virá de fora.

Luana Rodrigues: Aquele clichê que se uma sobe todo mundo sobe nesse caso é real. Se a gente consegue tocar em mais espaços que só homem tocava, pode ajudar a abrir portas para outros grupos de mulheres e vice-versa. Os grupos estão muito juntos nesse sentido.

Tainá Brito: O samba é uma expressão cultural centenária, é difícil falar que o movimento está começando agora. Mas infelizmente essa nova proposta de ter a mulher como protagonista só ganhou destaque há pouco tempo. Sempre teve, mas antes era muito velado. O Moça Prosa só tem sete anos e antes tinham poucos grupos formados majoritariamente por mulheres, e mesmo assim não temos uma abrangência tão grande. Alguns grupos resistem até hoje, como o Negras Raízes. Nos últimos anos vários outros grupos vieram e assim o movimento começa a se fortalecer. Fizemos esse trabalho massivo nos últimos anos e tudo se pauta na representatividade.

Ana Priscila. Foto: Marcelo Costa Braga.

Vocês atribuem a esse movimento um processo político, como se fosse parte do conjunto dos fenômenos que estamos vivendo nos últimos anos?

Luana Rodrigues: Acho que sim. Os grupos já existiam e tinham sua força e representatividade no seu campo, mas o que diferencia é que eram pequenos e só nos seus espaços. A gente vem pra fazer samba, mas não só isso. Trazemos todo um discurso por trás, na nossa roda mensal a gente discute temas políticos: homofobia, feminicídio, doença mental, etc. Levamos algum especialista para falar sobre os assuntos no meio do samba ou nós mesmas abordamos nas nossas falas, já lançamos livros de mulheres, muitas vezes sobre a questão de como é ser negra no Brasil.

Não é uma militância, mas é uma postura que traz uma política atrelada ao samba. Trazemos essas coisas de forma bem leve construída do nosso jeito. Cada uma tem sua vida pessoal, mas ali no grupo ninguém faz militância falando nomes ou palavras incisivas. Trazemos as questões para dentro do samba, o que é uma construção também. É difícil, porque às vezes as pessoas só querem ouvir samba. Não querem discutir ou falar.

Tem muita gente que vai ao samba por conta da pegação, às vezes nem tem tanta afinidade com a proposta ou a música.

Luana Rodrigues: Nosso público é muito autêntico, temos muitas senhoras, senhores, ao mesmo tempo que muitas crianças, além dos jovens que vão curtir na noite. Todo mundo está muito junto, tem a ver com samba, mas também com essa coisa do momento da mulher que está se empoderando e falando que é empoderada.

Tainá Brito: Fazemos parte do mundo contemporâneo, onde qualquer atitude é um ato político. Fazemos de fato samba, mas à nossa maneira. Tem gente que faz samba político nas letras, outros com versos, a gente para a roda e faz um debate com a galera. Nosso movimento é na rua e nos dias de hoje não tem como separar política da vida. Ela faz parte de tudo, do cotidiano, principalmente sendo mulher, não tem muito como fugir. Infelizmente temos que ficar batendo nas mesmas questões, pois assim como o samba já existia antigamente ainda precisamos reafirmar muita coisa.

Jack Rocha: Nosso samba é completamente agregador, a gente utiliza essa narrativa legítima empoderadora, articulando isso sem ser só uma roda de sentar e cantar, trazendo questões quebrando estigmas, preconceitos e paradigmas, levando pessoas para falar na roda, sobretudo mulheres! É o movimento da roda construindo-se, algo muito maior que apenas uma roda de samba, isso é algo particular do nosso grupo.

Tainá Brito. Foto: Marcelo Costa Braga.

Vocês falam que o samba de vocês é na rua, vocês enfrentam alguma dificuldade nesse sentido com burocracias ou falta de incentivo para realização dos eventos?

Luana Rodrigues: Ficamos de outubro de 2018 a abril deste ano sem fazer a roda por falta de autorização, sendo que outros eventos aconteciam no mesmo lugar que o nosso.

O Festa da Raça e o Pede Teresa já foram embargados, né?

Ana Priscila: Em 2017 conseguimos um decreto vindo de um movimento anterior criando o Circuito de Rodas de Samba com um calendário e as rodas isentas de pedir alvará. Só que quem controla o espaço é a Prefeitura, mas quem determina a segurança é o Estado. A Prefeitura deu autorização mas o Estado não, e tem uma resolução conjunta de 2014 (PM, bombeiros, defesa civil, juizado da infância e juventude) fazendo com que qualquer evento de rua precise pedir autorização. E a PM em particular tem o direito de embargar o evento, independente de qualquer autorização.

Foi nessa malha fina que caímos, aí vem um problema porque o samba ao mesmo tempo que é um patrimônio cultural reconhecido na cidade, um dos maiores produtos culturais de exportação, é impedido de ser realizado por causa de trâmites burocráticos. Isso é um grande equívoco, porque, aliás, gera renda com barracas de artesanato, comida, etc.

Existe uma enorme dificuldade de se entender as rodas de samba como um processo de investimento de mercado, uma coisa que gira a economia criativa, como um mecanismo dentro de uma realidade onde as pessoas estão perdendo os empregos todos os dias.

Ser uma forma de sustento direto e indireto para várias famílias. Ainda se encara como uma ocupação irregular, tem pessoas que sequer entendem o trabalho que uma roda de rua dá para ser realizada. No Largo da Prainha começamos a nos organizar com quase um mês de antecedência, é muito trabalho, um monte de gente, muito dinheiro que circula ali. Então, essa falta de expertise seja do poder público e do setor privado, que tem dificuldade em investir nesse movimento cultural e econômico, dificulta muito as coisas. Cada roda que vai à rua é uma batalha e uma vitória.

Qual avaliação vocês fazem da conjuntura política nacional?

Ana Priscila: Vivemos um momento muito complicado, principalmente no que diz respeito à cultura e mais ainda em relação à cultura negra. Estamos sendo extirpadas de todas as possibilidades de se promover cultura. Quando promovemos uma roda de samba, que é um bem imaterial, ancestral, que temos de mais cultural e nacional, só acontece porque seus membros querem muito colocá-la na rua. Não existe nenhum apoio, investimento ou fomento.

Os integrantes são os que correm mais riscos, porque são os que mais investem e podem sair sem um centavo no bolso, além de ser taxados de marginais ou vagabundos. O momento político atual reduz a cultura a vagabundagem e não facilita em nada nesse processo, só deteriora uma coisa que poderia ser crescente. Fomentar mais investimentos, gerar mais renda, mas que na verdade acaba caindo numa ignorância cultural e política.

Luana Rodrigues: É um momento de retrocesso, que traz o samba e a cultura de rua para esse lugar atribuído antigamente à vagabundagem. Um momento político em que temos que ficar caladas, de censura. Se esse movimento político, que infelizmente está numa crescente, chegar na gente não poderemos fazer nossa roda. Com certeza não agradamos o parâmetro que a política acha que tem de ser, porque não atende a boa família brasileira, o cidadão de bem, levanta a bandeira LGBT, feminista, com professores, muita balbúrdia, etc.

Estamos totalmente fora dessa nova política que, obviamente, condenamos. Apesar de não levantarmos bandeira de partidos e afins, levantamos muitas não bandeiras, do que a gente não quer. Não concordamos com nada que está acontecendo no município do Rio, no Estado e no país.

Jack Rocha. Foto: Marcelo Costa Braga.

E como a mídia trata o samba e esse processo todo?

Luana Rodrigues: Em relação ao samba a mídia tem sido mais propícia a mostrar tanto no ambiente da TV em programas específicos, como o que participamos, quanto em jornais escritos, etc. Mas quando falamos de política aí já são dois pesos duas medidas. Vai andando conforme a maré, aquele morde e assopra, que sabemos como funciona e é complicado.

Se você vai tocar em determinados lugares tem que ter uma preocupação com isso, o que posso ou não falar ali. Mas o mais importante é ninguém querer reprimir a nossa expressão. Temos uma moderação, não vamos falar “Ele não” na televisão, mas também não queremos que ninguém chegue e nos fale o que podemos ou não falar. Isso para a gente não interessa.

Ana Priscila: No nosso discurso às vezes nem precisa soltar a frase. Sempre vamos às mídias, porque lugar vazio é espaço conquistado. Se a pessoa chamou, por mais que tenha pensamento contrário, está dando liberdade e vamos para falar mesmo porque queremos ser ouvidas

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