*Por Pedro Henrique França, jornalista, roteirista e ativista LGBT+

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Foi um estrondo: “Nego do Borel beija homem em novo clipe”. Milhões de views, furor nas redes, como ele provavelmente nunca experimentou. Fui conferir. Ele começa o clipe travestido de mulher numa referência às bichas afeminadas, muito popularmente conhecido agora como POCs (apesar de ser um termo antigo). Um homem hetero como esses milhares que se travestem de mulher em bloco de carnaval para fazer piada (ou liberar algo que vivem oprimindo).

Cara gente hetera, bichas afeminadas – especialmente pretas – são motivos de piada todos os dias, na rua, na favela, nas escolas, nas comunidades. Não bastassem as piadas, que matam por dentro, elas são também alvos de discurso de ódio e muitas vezes assassinadas – vale lembrar sempre que somos o país que mais mata LGBT+ no mundo.

Adiante, ele simula um beijo mais técnico do que novela das 8 há 40 anos. Visivelmente constrangido, para não dizer com nojo, e possivelmente constrangedor para quem assiste. Logo se desvencilha do boy, canta “me solta”, para no frame seguinte se desmontar e voltar a ser quem ele é: homem hetero. A música até é boa, a batida é dançante, deve ser sucesso na pista. Mas seu clipe é desnecessário e profundamente desrespeitoso. Claramente oportunista.

Nego do Borel não tem nenhum histórico de apoio à causa LGBT+. Nunca se envolveu com qualquer temática ou evento relacionado às manas. Não é representante, simpatizante, jamais associado às cores da bandeira LGBT+. O que faz ele então? Pinkwashing – ou oportunismo em cima das gays. Seu clipe é uma soma de erros.

Primeiro faz piada com as bichas afeminadas – porque uma hetero simulando uma bicha afeminada reforçando todos seus estereótipos nada mais é do que escárnio. Depois faz um beijo forçado e engata numa repulsa. Por fim, de quebra ainda engana umas gays que acham que ele tá sendo friendly. Oras, trata-se de um método muito eficaz do sistema opressor. Você morde, assopra, traz o oprimido para o seu lado e ainda faz ele acreditar que isso tá certo.

Te lembrou alguém? Sim, é o que faz por exemplo o candidato Jair Bolsonaro, que acumula muitos eleitores gays, negros, nordestinos e mulheres – mesmo ele já tendo declarado aversão a todos esses grupos diversas vezes em eventos, palestras, etc. A última dele foi dizer que no Brasil não existe racismo – tudo intriga dos comunistas.

Nego do Borel já fez foto com Bolsonaro, já fez comentário na maior brodagem com o candidato à presidência mais extrema-direita, à beira da loucura que temos hoje. Mas isso pra mim nem é o agravante ao contrário do que tanta gente tá querendo atacar. Eleitor do Bolsonaro tem aos montes, você mesmo com certeza conhece vários. Inclusive pessoas aparentemente sãs, ludibriadas por seu discurso calhorda, supostamente apolítico quando é uma das raposas mais velhas do sistema.

Me atenho primeiro à piada. “Mas gente, eu acho que ele só quis gastar, que mundo careta, agora não pode mais nada”. Oras, realmente deve ser muito triste ter de parar de fazer piada dos outros. Que pena ter de se esforçar para tentar um humor mais inteligente que não dependa da humilhação do outro para conquistar audiência. Deve ser muito difícil ter de pensar em vez de apenas apontar o dedo e rir. O mundo mudou. E o humor é um dos primeiros alunos que precisa voltar pra escola ou fazer um supletivo bem intensivo para voltar à sociedade. Piada do outro é um instrumento opressor, uma arma que pode ser fatal.

Todo mundo deveria assistir à Nanette, show de stand up comedy da britânica Hannah Gadsby, em cartaz no Netflix. Mulher, lésbica, “gorda e feia” (em suas palavras). Durante anos, essa mulher fez do humor um lugar de autodepreciação. E ela diz isso logo no início. “Eu construí uma carreira com base no humor autodepreciativo. Vocês entendem o que autodepreciação significa quando vem de alguém que já existe à margem? Não é humildade. É humilhação. Eu me coloco pra baixo para poder falar, pra pedir permissão”. Querer que aceitemos esse tipo de piada não é humildade, é humilhação.

Segundo, o oportunismo baseado em exploração indevida do pink money. E é preciso, aqui, deixar um recado bem claro às marcas e artistas que viram no pink money (o mercado LGBT+ que gira em torno de 3 trilhões de reais ao ano no mundo) uma possibilidade de abocanhar uma fatia do bolo. Queridxs marcas e artistas, todo apoio é bem-vindo para fortalecer a causa de uma turma que sofre pra caralho pra estar vivo aqui hoje. E eu digo vivo, porque inteiro mesmo ninguém pode estar vivendo na pele o preconceito que LGBT+, negros, mulheres, deficientes, gordos, entre outras minorias vivem nesse mundo.

Mas estar junto é muito mais que colorir o seu logo ou pintar uma camiseta com arco-íris, ou um homem hetero se vestir de mulher ou dar um beijo forçado num outro boy. Isso não é marketing social, nem arte: é forçação de barra para fazer barulho. Não apenas se apropriem ou explorem essa causa. Querer fazer dinheiro ou oba oba em cima das manas que ralam e morrem diariamente na tentativa de ser visibilizadas é oportunismo, má-fé, falta de caráter.

Sugiro uma outra ideia. Em vez de fazer dinheiro, deem dinheiro, doem para instituições que realmente estão na luta por essas causas. Patrocinem artistas que buscam espaço para sobreviver, financiem turnês e espetáculos que endossem o seu suposto compromisso com a representatividade.

Porque de verdade, caso contrário, deixa pra lá. É mais coerente. A gente já tá na luta e morrendo há décadas sem a ajuda (ou com a omissão) de vocês. De golpistas, já estamos infelizmente fartos. Queremos respeito. Me solta Nego do Borel.

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