O antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro e a questão indígena nacional foram os temas do debate realizado nessa terça-feira (26/03), no Instituto Cervantes, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro.

.

por Eduardo Sá

O evento faz parte de uma série de conversas chamada Palavra por Palavra, realizada pela Editora Batel com apoio de diversas entidades, visando divulgar a cultura através da palavra e do bom debate com artistas dos mais amplos setores. Darcy Ribeiro – somos todos índios abordou discussões em torno da Aldeia Maracanã, no âmbito estadual, e as posturas do novo governo federal em relação aos nossos povos nativos.

Além de antropólogo, Darcy Ribeiro se tornou imortal da Academia Brasileira de Letras e teve forte participação na educação nacional com a criação dos CIEPs fluminenses e na construção de universidades.

Na política foi assessor do presidente João Goulart antes do golpe militar em 1964, participou do governo de Salvador Allende no Chile e foi vice-governador de Brizola no Rio, dentre tantas outras atividades através da sua militância. Mas foi na causa indígena que dedicou maior parte de sua vida participando de momentos importantes até os dias de hoje, como a criação do Parque Indígena do Xingu.

A mesa abriu com uma crítica à educação eurocêntrica em nosso país, que dedica páginas a Idade Média e aborda superficialmente a história dos nossos povos tradicionais, de modo que os professores desconhecem a trajetória dos indígenas na opinião de Marize Guarani, Presidente da Associação Indígena Aldeia Maracanã (AIAM). É cultivado um sonho de consumo sempre voltado ao norte ou a Europa e assim não olhamos para a construção da nossa identidade, criticou a ex-sindicalista.

“Sem conhecer o indígena não dá para conhecer nosso país. Vemos a Amazônia vendida, o clima cada vez mais quente, o perigo em relação a nossa inércia sem lutar pelas florestas, águas, etc. O ataque hoje não é só no Brasil, a ganância dos mineradores, agricultores, dentre outros agentes que promovem esse progresso de morte”, criticou a militante.

A Aldeia Maracanã ocupou oficialmente no dia 20/10/2006 o antigo Museu do Índio, ao lado do Estádio Maracanã, local onde foi criado por Darcy Ribeiro e Marechal Rondon o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) que anos depois virou a Funai.

De acordo com a representante do movimento, o objetivo é realizar um Centro de defesa da história e da cultura indígena. A expectativa à época era de que o governo federal, dono do terreno, dialogasse com os movimentos mas até hoje não foi dada nenhuma solução ao edifício.

“Fizemos vários debates e tivemos algumas conquistas: tombamento do prédio pelo INEPAC e a criação do Conselho Estadual de Povos Indígenas, o segundo do país depois de Curitiba. Nossa proposta de restauração foi feita por vários indígenas de todo país. A documentação foi protocolada no gabinete do presidente da Alerj e estamos dialogando com os deputados, e se não for votado acionaremos o MP”, afirmou Guarani.

Presidente da Funai durante o primeiro governo Lula, o antropólogo Mércio Pereira Gomes fez questão de destacar que Darcy Ribeiro não fracassou com a causa indígena, pois fez realizações homéricas se levarmos em consideração as condições brasileiras.

Através dos estudos e atuação política dele para a construção do Xingu, as terras indígenas passaram a ser pensadas como território e não pequenas glebas englobando as características locais com nomes das plantas e bichos, costumes, etc.

“Foi uma novidade internacional, conceito que nem mesmo os militares conseguiram fugir. Temos demarcados 13% do nosso território, está havendo um afunilamento desde o segundo mandato do Lula com a pressão dos fazendeiros e a sociedade civil perdeu o sentido de importância dessas terras, além do discurso negativo das propagandas. O esforço do Darcy merece nossa luta para dar continuidade à nova Roma que ele acreditava”, destacou.

O pensamento de Darcy buscava a raiz do Brasil, a nação desde a chagada dos Jesuítas, conforme José Bonifácio já falava na Constituinte de 1823 na perspectiva de integração dos povos no território nacional. Nessa época, acrescentou Mércio, os EUA expulsavam os índios de suas terras.

“No Brasil apesar de tanta desgraça, da escravidão e sua elite, temos a ideia de que os índios são nossa raiz. Uma mestiçagem não só biológica, mas também cultural. Essa mistura era o que ele sonhava como uma grande nação”, concluiu.

Quando o indígena sai de sua aldeia de origem para a cidade ele perde sua identidade e passa a não ser mais considerado índio, relatou o Cacique Carlos Tukano, presidente do Conselho Estadual dos Direitos Indígenas (Cedind).

Ele lembrou de quando veio da Amazônia há décadas atrás ao Rio de Janeiro, onde também participou da ocupação Aldeia Maracanã.

“Somos destribalizados, perdemos nossos dialetos e a proteção do estado. Só em 1988 tiraram a tutela sobre o índio da Constituição. Estava lá com o Ulisses e ele disse que os índios queriam liberdade e fazer com que os direitos fossem preservados. Fui catequisado pelos salesianos, passei a vida rezando, porque o homem da cidade destrói as coisas achando que está destruindo o invisível e hoje sofre consequências gravíssimas”, afirmou.

O cacique defende que no século XXI um novo movimento de resistência está se formando e os indígenas estão escrevendo sua própria história. É por essa falta de representatividade nas instâncias de governo, segundo ele, que o Museu abandonado desde 1975 foi ocupado.

“Foi o primeiro museu do índio no Brasil e no mundo para lutar contra o preconceito. Ali tinha essa raiz, a história do nosso país, queriam mostrar a toda sociedade. Então defendemos ali como o epicentro de movimentos sociais, diálogo dos povos e a sociedade”, defendeu Tukano.

Com um tom mais intimista, o escritor e jornalista Eric Nepomuceno, autor de vários livros e tradutor dos maiores escritores na América Hispânica nas últimas décadas, lembrou de seu convívio com Darcy Ribeiro. O conheceu com apenas 10 anos, quando seu pai participava enquanto professor de física das reuniões na casa do geógrafo Josué de Castro, que se consagrou como uma das maiores autoridades no mundo no combate à fome na época.

Reencontra o mestre anos depois já trabalhando nos jornais, e lembrou de quando Darcy voltou do exílio com a permissão dos militares que acreditavam no estado terminal do intelectual por conta de um câncer. A visita em companhia do escritor Eduardo Galeano despistou na portaria a verdadeira localização, pois tudo era controlado pelos militares.

“A gente falava com a vizinha e ia pela escada. Ele mostrava aquelas cicatrizes da cirurgia com humor e capacidade de auto deboche. São memórias para sempre, sua personalidade e humor permitiram que ele realizasse tudo que fez. Até 1997, quando ele morreu, convivi bastante e pude vê-lo exilado, triste, conspirando, conspirava muito, derrotado, vitorioso, mas nunca vi ele quebrado ou resignado. Na América Latina só temos dois destinos, ser resignado ou indignado e eu não vou me resignar nunca, falava Darcy”, relembrou.

O escritor citou esse primeiro encontro através de seu pai para ressaltar que naquela época esses intelectuais, com menos de 40 anos, estavam apostando no país. Hoje qual seria o tamanho da ira de Darcy frente a este governo e o Brasil, se indagou o jornalista?

“O que é esse chanceler e o ministro da educação? Dos brasileiros ameaçados por esse período de trevas em Brasília talvez os índios sejam os mais frágeis, porque são os mais esquecidos pelo resto da sociedade. Mas acho, como Darcy, que eles têm fibra e não vão se resignar”, finalizou.

PALAVRA POR PALAVRA trata de um ciclo de palestras, apresentações e manifestações culturais seguidas de debates, organizadas e coordenadas pelos editores Carlos Barbosa e Solange Trevisan e realizadas pelo Instituto Cervantes. Os mais variados artistas, entre escritores, autores, atores, cineastas, músicos, dramaturgos, editores, ilustradores e leitores participam do PALAVRA POR PALAVRA, apresentando seus trabalhos.

O evento visa divulgar a cultura através da palavra e do bom debate. Ao longo deste ano são abordados temas como a literatura na tela do cinema, o Rio de Janeiro e seus autores, João Cabral de Melo Neto e Juan Rulfo, A mulher na literatura, o negro na literatura, Camões e Cervantes na epopeia ibérica, além das diversas efemérides relativas a grandes escritores e artistas brasileiros, latino-americanos e espanhóis.

Durante cada evento, os participantes poderão trocar livros entre si, na chamada MESA LIVRE DE LIVROS, além de participar de sorteio de livros dos autores ou temas em questão. PALAVRA POR PALAVRA acontece, durante o ano de 2019, uma vez mês, das 18h às 20h30min, no Instituto Cervantes. Os eventos são gratuitos e contam com o apoio da Fundação Darcy Ribeiro, da Academia Carioca de Letras, da União Brasileira de Escritores e do PEN Clube do Brasil.

PALAVRA POR PALAVRA acontece, durante o ano de 2019, uma vez mês, das 18h às 20h30min, no Instituto Cervantes. Os eventos são gratuitos e contam com o apoio da Fundação Darcy Ribeiro, da Academia Carioca de Letras, da União Brasileira de Escritores e do PEN Clube do Brasil.

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Luiz Henrique Eloy

Carta de Ipegue: Não devemos temer os Puxarará!

Spartakus Santiago

Porque a Princesa Isabel não é a Elsa de Frozen

Anielle Franco

Mulheres que cuidam, criam, e muitas vezes sozinhas, vencem!

Leandrinha Du Art

O ser sexy nunca foi uma dificuldade

André Barros

A primeira marcha da maconha com Bolsonaro

Anielle Franco

Respeitem a nossa história e nossa luta!!!!

Daniel Zen

A reforma da Previdência prejudica a todos os trabalhadores

Vinícius Lima

O SP Invisível agora tem um podcast: SP Cast

Pedro Borges

O movimento negro brasileiro é foda!

Benedita da Silva

1º de Maio: Unidade na Luta!

Margarida Salomão

Balas e Chocolates: o ataque de Bolsonaro à Universidade brasileira

Fatine Oliveira

Sinto muito, Damares. Meu lugar é na universidade federal

Jorgetânia Ferreira

Para um feliz dia das mães

Tainá de Paula

Uma catástrofe no estado do Rio de Janeiro

NINJA

Cannabis Medicinal: A história do menino que voltou a andar