Foto: Mídia NINJA

“a religião (monoteísta), historicamente, apresenta-se como categoria autoritária que traduz as diversas culturas entre si, hierarquiza-as e desqualifica-as” (René Girard)

Por Fábio Py*

Notícia nova para um assunto que, tragicamente, tem se tornado comum: novamente recebemos a informação de mais um templo de religiões de matrizes africanas violentado por fieis de igrejas evangélicas. Dessa vez, o foco da ação foi o terreiro Vó Benedita, Casa de umbanda que fica na Vila Ipê em Campinas, São Paulo. A nota publicada pela Casa atacada traz os detalhes da violência. O templo foi alvejado por pedras, os carros estacionados tiveram pneus furados. No desfecho, os umbandistas chegaram a ser ameaçados de morte.

Nas redes sociais, a repercussão maior foi nos grupos de umbanda. Segundos os testemunhos, as hostilidades duraram uma semana. De acordo com a narrativas, o foco das agressões seria uma igreja evangélica vizinha ao terreiro. Os problemas começaram na sexta-feira, 27 de abril, quando no culto, a partir de uma mensagem, foi incentivado o apedrejamento das Casas de Santo. No sábado posterior, a Casa foi apedreja. Ao longo da semana, integrantes do terreiro tiveram três carros com pneus furados. Na quinta-feira, dois de maio, uma adepta da igreja visitou a proprietária do imóvel questionando a razão pela qual alugava sua casa aos “macumbeiros”. A conversa terminou quando a proprietária recebeu o convite para ir à igreja.

Os apedrejamentos ao terreiro continuaram até o sábado, quatro de maio. Além disso, duas pessoas do terreiro foram assediadas. Agora, o mais sério. Um dos integrantes da igreja evangélica proferiu ameaças de morte, anunciando que iria buscar uma arma para matar os membros do terreiro, pois, segundo o “cristão”, os umbandistas não teriam “Deus no coração”. Por conta das intimidações, os religiosos do terreiro fizeram um Boletim de Ocorrência (BO) denunciando os agressores e a igreja.

Intransigência evangélica e a crítica bíblica da vocação exclusivista de Isaias

Após esse conjunto de ações e de intimidações ao povo do terreiro Vó Benedita, praticados por evangélicos, foi feita uma postagem na rede social sobre o ocorrido. A postagem alcançou o apoio quase completo nas redes. Contudo, uma das mensagens merece destaque. Nela, um seguidor evangélico disse literalmente: “Nós, crentes, que temos a unção de Isaias, devemos profetizar tal como o profeta fez na sua vocação, Deus não se mistura com o satanismo”.

A postagem envernizada com preconceito foi rapidamente rechaçada pelos seguidores. Contudo, as palavras do comentário estão longe de serem uma exceção no movimento evangélico. Na verdade, mostram uma faceta difundida por grande parte dos cristãos, marcando uma mentalidade discriminatória com uma postura exclusivista em relação à fé de pessoas de diferentes religiões. Basicamente, tal postura se apoia na ideia e que o Deus cristão é único e verdadeiro.

Enquanto teólogo, preocupado com as consequências da intransigência evangélica, gostaria de contestar esse exclusivismo justamente a partir do elemento que supostamente lhe dá base, ou seja, a leitura dos “originais” bíblicos tal como a Reforma Protestante insistia. Para isso, busca-se desarmar tal mentalidade exclusivista aproveitando o comentário do fiel citado, praticando-se um exercício traditivo de algumas características do texto da “vocação de Isaias” – Isaias 6.

A narrativa bíblica é ambientada no Templo de Jerusalém. Contam os versículos, que o profeta Isaías vê Deus sentado sobre o trono, cercado por anjos serafins. Gostaria de chamar a atenção a essa figura: os serafins. Em hebraico, serafim pode ser traduzido numa primeira vista por nehustan. Sobre as nehustan, as versões da Bíblia Almeida, contam que são seres alados: “Serafins (nehustan) estão parados acima dele, seis asas para cada um. Com duas cobrem seu rosto. Com duas cobrem seus pés. Com duas voam”.

Saindo um pouco do mundo protestante das versões de Almeida, a versão católica de “A Bíblia de Jerusalém”, muito se aproxima dessa tradução ao também destacar as asas dos anjos: “Acima dele, em pé, estavam serafins (nehustan), cada um com suas assas: com duas cobriam a face, com duas cobriam os pés, e com duas voavam”. Ocorre que em uma observação mais atenta à Bíblia de Jerusalém se percebe uma indicação no mínimo sugestiva sobre as nehustan. Na nota de rodapé, em tradução, os serafins poderiam ser qualificados “abrasadores” (“seres envolvidos de fogo”).

Para melhor entender a enigmática figura dos “abrasadores”, é necessária a leitura de outro texto bíblico, o de Números 21,6. Nele, para surpresa, está escrito: “Então Deus enviou contra o povo serpentes abrasadoras (nehustan) cuja mordedura fez perecer muita gente em Israel”. Ou seja, a figura mitológica dos serafins se refere a serpentes. Uma imagem diferente da concepção pueril dos anjos que ocupa o imaginário cristão. Na verdade, a categoria serafim remete à Idade Média, quando, a partir da teologia de Agostinho, se consolidou uma rica angeologia, abordando um conjunto de anjos e suas hierarquias. Portanto, a angeologia é algo muito posterior aos tempos bíblicos. Ora, usando a coerência ao seguir os originais bíblicos, nehustan deveriam ser traduzido simplesmente como: “serpentes aladas abrasadoras”. Ou seja, divindades femininas em forma de cobras que voavam pelo Templo de Jerusalém sendo adoradas como parte do culto de Judá. Assim, na visão do profeta Isaías, Deus está rodeado de serpentes aladas. Claro, que isso é um problema teológico sério para o monoteísmo, afirmado sobre o lastro de uma divindade.

Nesse esforço de tradução de um pequeno trecho dos originais bíblicos, se percebe, com as serpentes aladas posteriormente convertidas em serafins na Idade Média, que existiam outras divindades nos cultos a Deus entre os povos bíblicos, algo absolutamente impensado pelo imaginário cristão no Brasil de hoje, fortificada absolutamente sobre a perseguição às demais tradições religiosas.

Caminhos de critica na luta contra a violência

Como consequência, esse pequeno exercício teológico parece revelar que a ideia de um monoteísmo puro, tão caro à mentalidade evangélica, não se mantém.

Ao contrário, uma interpretação teológica mais aprofundada aponta que o monoteísmo cristão se recriou a partir de outras referências religiosas.

Relendo, recriando e trazendo divindades para dentro do seu sistema religioso, nesse caso, as nehustan na vocação de Isaias.

Penso que percepção das veleidades do monoteísmo cristão em sua relação com outras referências teológicas pode auxiliar no desarme das práticas belicosas do protestantismo-evangélico preocupado em promover uma caça dos territórios de outras tradições religiosas, principalmente, aos povos de terreiro.

Portanto, o exercício feito junto ao texto da vocação de Isaias se ajusta no inverso das pretensões exclusivistas. O livro de Isaías não depõe contra a “mistura” religiosa, mas, sobretudo, propõe a abertura pluralidade de divindades de diferentes tradições dentro das celebrações vocacionais.

Diante de um cenário que aponta para a ampliação da intransigência evangélica, percebe-se que exercícios teológicos visando o desarme do exclusivismo deveriam se multiplicar, principalmente a partir de textos-chaves (ou, mais conhecidos) para apresentar ao menos outra narrativa muito mais de ponte e diálogo do que afirmação incisiva da fé. É claro que as casas missionárias protestantes e católicas não têm interesse de patrocinar esse projeto. Pois, sobretudo, suas estruturas religiosas estão enraizadas no exclusivismo, que normalmente se banha da afirmação truculenta religiosa. Cabe, então, ao caminho de uma teologia crítica, construir canais em prol da promoção de paz religiosa.

Assim, volto a afirmar que, enquanto teólogo, não gostaria de oferecer (apenas) as desculpas pelo ocorrido no terreiro de Vó Betina, mas, também indicar que mesmo os próprios povos bíblicos cultuavam a diferentes divindades.

Por isso, a crítica teológica é tão urgente e necessária. Pois, ajuda o questionamento monoteísta. Portanto, se entende que não adianta o protestantismo-evangélico ser revisto apenas ‘por fora’, pois pouco vai dizer as suas igrejas e fieis. Mas, deve ser construir um movimento de revisões e críticas internas para descolar de sua vocação ocidental dura, preconceituosa, em prol de uma possível convivência com as demais tradições religiosas.

*Fábio Py é Doutor em teologia pela PUC-RIO e professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da UENF.

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