Texto: Tainá de Paula

Monumento da Renascença Africana

Narrar a história de um lugar e de uma determinada cidade é um privilégio. Digo isso a partir da ótica de uma arquiteta e urbanista que há algum tempo percebeu como a história das cidades é contada, a partir do olhar eurocêntrico, ocidental e em sua maioria esmagadora branco, narrada a partir de episódios e períodos que privilegiam essa perspectiva.

Contamos o tempo pelo calendário romano (judeus e indígenas possuem outros marcos e outra temporalidade por exemplo). Toda a Idade Moderna (do final do Feudalismo à Queda da Bastilha) é estudada a partir de guerras e acontecimentos do mundo ocidental, quando sabe-se que toda uma sociedade oriental, extremamente avançada e cheia de especificidades acontecia. Os povos ditos primitivos guardam até hoje história pouquíssimo estudada nos livros e nos registros oficiais. Cidades como Ollantaytambo e Cusco guardam artefatos que comprovam os avanços de toda uma civilização. Os indígenas americanos como os Cheyenne e os Cherokee, assim como os  indígenas chilenos mapuche, desenvolveram altíssima capacidade de sobrevivência, criando avançadas tecnologias de cultivo e de irrigação, desconhecidas até hoje por conta do extermínio e apagamento sociocultural. Da mesma forma isto ocorreu com sociedades africanas.

Nesse sentido, a História deve ser entendida como uma síntese contada pelo colonizador,  que é branco e europeu. A partir da análise do pós-guerra, Pierre Norat fará uma análise sobre a seletividade da memória e como a narrativa do lado “ganhador” da(s) Guerra(s) constrói toda o registro histórico posterior. Como seria a História ocidental se o Japão tivesse saído vencedor da Segunda Guerra Mundial, temos que nos perguntar.

Bem, o texto de Emerson Caetano (o grande gatilho pra esse texto), publicado recentemente pela Mídia Ninja, falava em parte isso. Afinal, onde está a contra-narrativa, ou a real narrativa da arquitetura, se o que temos até aqui é o constante exercício do poder e do apagamento?

Por isso, que para além de identificarmos o apagamentos e os seus ícones, seus Coliseus e Parternons, temos a tarefa de ressignificar os valores que constroem os símbolos e imagens da cidade, mas também dão protagonismo aos construtores de narrativa. Afinal, o valor, entendido aqui como uma categoria de análise, varia de acordo com seu promotor e o que temos são valores referenciais criados por um seleto grupo etnico e/ou social.

Isto dito, é preciso construir uma memória citadina equitativa, com a cara de seus múltiplos cidadãos. É urgente criar cidades onde um Museu Nacional de Belas Artes eclético seja tão preservado e conhecido como seus quilombos, uma vez que ambos representam simbolicamente o extrato cultural de uma sociedade. Afinal, a quem interessa o apagamento o histórico? Seria a supremacia de uma narrativa em detrimento de outra o cerne a da questão? A quem interessa uma cidade com uma memória tão desigual?

Para além dessa análise, lanço uma provocação não para os apagadores, mas para os apagados da história (onde me incluo): quem além de nós (negrxs, indígenas, mulheres, ou seja, a maioria avassaladora) pode emergir a importância e os símbolos que são caros à nós e às nossas cidades? Quem contará a história da diáspora africana na cidade? Quem escreverá sobre a revolta dos Malês ou as marchas de mulheres?

Cares, abaixo os Coliseus. A cidade é feita de Pedras do Sal, invisíveis ainda à grande maioria. É preciso criar um desapego retórico ao que vemos e criar uma cidade nova, definitivamente nova. Deixem de nos apagar e nos deixem ressignificar nossas cidades.

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