Por Daisy Fragoso.*

Foto: Tuane Fernandes / Mídia NINJA

Foi em 2013 que os Guarani me receberam pela primeira vez na aldeia Tenondé Porã. Até esse momento, eu sabia muito pouco – quase nada – sobre os povos indígenas do Brasil. Por meio do termo de busca “índios no Estado de São Paulo” na internet, encontrei a aldeia guarani Boa Vista, em Ubatuba. Nesta aldeia, foi-me dito da existência de índios Guarani na cidade de São Paulo, o que me levou até o bairro do extremo de sul da cidade, onde fica a aldeia Tenondé Porã. Esta aldeia faz parte da Terra Indígena Tenondé Porã, composta por sete aldeias: as tekoa Yrexakã, Guyrapaju, Kuaray Rexakã, Kalipety, Krukutu, Tape Mirĩ, Tenonde Porã, estas cinco últimas todas na capital paulista.

O que me levou até a Tenondé Porã foi meu trabalho de pesquisa de mestrado realizado entre os anos de 2013 a 2015. Ao longo deste período, amizades foram feitas e, mesmo com o término da pesquisa, os Guarani continuam me recebendo, somando cinco anos de convívio.

Quando convidada para escrever sobre o meu trabalho lá com os Guarani, logo pensei que não havia trabalho algum meu ali. E, de fato, não há. O que há, hoje, é o convívio com aqueles de quem me aproximei. Por isso, fiquei muito tempo pensando sobre o que escreveria já que não há um trabalho sobre o qual escrever.

Cheguei a pensar, provavelmente influenciada pelos posts recentes no meu feed de notícias no Facebook, em escrever sobre as “comemorações” escolares realizadas no Dia do Índio, época em que minha rede fica um pouco mais desanimadora. Postagens, por exemplo, com crianças (e, às vezes, professores) vestindo cocares de cartolina, com duas linhas paralelas pintadas no rosto, dentro de barracas, comendo pipoca: tantas questões a serem problematizadas!

Foto: Tuane Fernandes / Mídia NINJA

Comecei o texto e não consegui terminá-lo. Fiquei pensando que já muito se falou disso e que essas práticas estereotipadas, descontextualizadas, que nada significam para os alunos e que mais prejudicam os povos indígenas que os homenageiam, continuam existindo mesmo havendo tanta informação disponível. Ainda assim, espero que a insistência nessas “abordagens” por parte de alguns educadores e educadoras esteja mais associada a algum tipo de despreparo que aos desinteresse e descaso pelas questões indígenas.

De todo caso, como entrei no assunto, vale dizer que a lei federal nº 11.645, de 2008, prevê que os conteúdos referentes à história e cultura dos povos indígenas, bem como suas lutas, sejam trabalhados no âmbito de todo o currículo escolar. Assim, como educadora, não acredito que haja condições de desenvolver um trabalho consistente e significativo com os estudantes em um dia ou em um momento só.

As questões indígenas poderiam, ao contrário do que se propõe em algumas escolas, fazer parte de projetos a serem desenvolvidos ao longo da vivência escolar dos estudantes, de forma transdisciplinar, com tempo para reflexão e para a construção de conhecimentos outros acerca deste assunto; e que, provocadas pelo contato com essas questões, as impressões prévias, geralmente formadas a partir de estereótipos e preconceitos veiculados pela mídia e pelos livros didáticos (e fortalecidas em algumas práticas docentes), fossem rearranjadas, dando lugar a outras novas, mais fiéis à situação atual dos povos indígenas.

Foto: Tuane Fernandes / Mídia NINJA

Mas este era o assunto sobre o qual eu não gostaria de escrever… Chego a pensar que é muita pretensão e arrogância nossa, isto é, daqueles que ocupam o posto histórico de opressores e colonizadores, querer escrever e dizer algo sobre os povos indígenas.

Penso assim, boa parte das vezes, porque é totalmente possível que os indígenas falem por si. Então, como eu 1) não vinha realizando trabalho algum na aldeia sobre o qual falar; 2) já estava cansada de falar do trabalho com questões indígenas em sala de aula; e 3) não queria tomar a voz de nenhum indígena, fiquei sem assunto. Porém, na minha última visita aos Guarani, que aconteceu nesta última semana de abril, e que coincidiu com esta minha escrita, pensei em algo que talvez eu quisesse dizer.

Fui com uma amiga guarani e dois jurua (termo utilizado pelos Guarani para se referir aos não indígenas) até a aldeia Tape Mirĩ. Lá, revelando minha dificuldade para manobrar o carro, essa amiga sugeriu que eu fizesse determinada manobra com o carro, mas eu estava totalmente confusa. Então ela me disse: “faça como você acha que consegue fazer”, de modo que eu decidi, aliviada, parar o carro como estava, já que não atrapalharia ninguém.

Depois da sensação de alívio de não ter que fazer algo que estava muito difícil para mim, o primeiro pensamento que tive foram os meus alunos. Sou professora de música em escola regular, e quando um aluno ou uma aluna não está conseguindo realizar alguma tarefa, como tocar determinado ritmo em um instrumento ou executar determinado movimento, desdobro-me para encontrar uma explicação que faça sentido para ele ou ela: “tum tum pá”, “bate duas vezes rápidas e uma lenta”, “um, um, dois”, “um, dois, três”, “escuta e tenta repetir” etc.

Foto: Tuane Fernandes / Mídia NINJA

Já pensei sobre isso muitas vezes, e, inclusive, digo aos meus alunos que se alguém não está entendendo algo, é tarefa do professor encontrar um jeito de explicar de uma forma que ele entenda. Mas nunca tinha me ocorrido “faça como você acha que consegue fazer”. Imagino que muitas alunas e muitos alunos em momentos de dificuldade teriam se sentido aliviados com essa frase, assim como eu me senti.

A maneira como os Guarani concebem o ensino e a aprendizagem e, por relação, a infância, me fascina. Às crianças é dado o direito de serem crianças, para começar. Para exemplificar, exponho aqui alguns dos momentos dos cantos que presenciei. Participam deles tanto os adultos quanto as crianças, e estas podem, se quiser, participar tocando um instrumento musical ou dançando e cantando, a seu modo, sem interferência dos adultos na maneira como elas executam a atividade. Se o pé, durante a dança, está desencontrado, se o ritmo executado no mbaraka mirĩ não é o correto, não importa. Adulto algum virá corrigir a criança, porque a este grupo, cabe-lhes fazer, e, às crianças, vivenciar e experimentar.

Além disso, entende-se que se a criança pegou o instrumento musical, por exemplo, ela o fez porque quis. Não vi, em nenhum momento em que estive com os Guarani, um adulto obrigar uma criança a tocar um instrumento ou a dançar, dizendo a ela que ela precisava fazer aquilo para aprender. À criança é dada a liberdade de escolher o que aprender quando se quer aprender. Assim, se ela pegou, neste caso, o instrumento, é porque ela quis participar deste momento, e, participando dele, entre os mais velhos, é que ela aprenderá.

Vejo ali que ninguém precisa aprender as mesmas coisas, nem ao mesmo tempo; que ninguém precisa aprender tudo, e que se pode, como dito acima, aprender do jeito que se achou que vai conseguir aprender. Se repararmos bem, todos estes itens são marcados por uma ideia de liberdade e de autonomia da criança. O que se aprende, o tempo em que se aprende, quem aprende e o modo como se aprende parecem ser todos coordenados pela criança, baseando-se em sua liberdade e autonomia, e, ao mesmo tempo, reforçando-os.

Foto: Tuane Fernandes / Mídia NINJA

Em relação aos educadores guarani, isto é, aqueles que trabalham na escola – a Escola de Educação Indígena Guyra Pepo – percebo neles uma incansável militância. Comprometidos com seu nhandereko (termo que se refere ao modo de viver dos Guarani), estes educadores fazem do espaço e tempo escolares um lugar e momento de resistência, por meio de uma educação que, elaborada pela comunidade para que responda às suas necessidades, foge dos padrões escolares dominantes.

Assim, se é comum aos jurua uma ideia de escola que formata e padroniza currículo, práticas, saberes, conteúdos, espaços físicos, estudantes e professores, a ideia de escola dos Guarani contempla uma educação em que resistir a esta formatação, bem como transformá-la a seu modo, é a maneira como escolheram operar.

Certa vez, um dos líderes ali da aldeia me disse que ser educador é ser educador o tempo todo, não somente nos momentos escolares, quando se está junto com os estudantes. Para ele, a função de educador é estendida a outras circunstâncias e a todos os membros mais novos da comunidade. Assim, ser educador não é uma ocupação ou função, é uma causa; uma causa comprometida com o ser guarani e que envolve muitos aspectos dentre os quais os políticos são um dos principais, tenho a impressão.

Enfim, penso que há muito que nossos estudantes, isto é, os estudantes não indígenas, podem e devem aprender sobre as questões e povos indígenas – e que não cabem no dia do índio. Mas tenho a impressão de que há muito também sobre o que os educadores e educadoras não indígenas podem refletir. Pelo menos é o que a convivência com os Guarani tem provocado em mim.

Acho que era isso que eu gostaria de dizer.

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Por Daisy Fragoso é educadora musical, etnomusicóloga, compositora e arranjadora. Pesquisa com as crianças guarani Mbya da aldeia Tenondé Porã (SP) as músicas e brincadeiras desta etnia. É doutoranda em Musicologia na ECA/USP, onde também fez o curso de Licenciatura em Música na ECA/USP e o mestrado na mesma área. Atualmente, trabalha como educadora musical em escola particular da cidade de São Paulo e é regente de coro infantil.

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