Iemanjá, para o povo de candomblé, é, “a mãe do mundo”. Portanto, não é estranho que em sua festa caiba um mundo de possibilidades e sensações.

Perfomance Oferenda L.A.V.A.G.E.M. por @gameleiraintegra Foto: Mariana David

Aparentemente, a Festa de Iemanjá, ocorrida anualmente em Salvador no dia 2 de fevereiro, no bairro do Rio Vermelho,  pode ser resumida em um rito: os pescadores oferecem um presente àquela que é considerada a governante do mar. Mas da madrugada até às 16 horas, momento em que o barco leva a escultura com os agrados que possuem natureza reservada ao campo dos segredos do candomblé, cabe uma diversidade caleidoscópica dentro deste evento, que é uma festa com perspectivas múltiplas, como indica as análises dos atuais estudos da antropologia da festa.      

A Festa de Iemanjá, portanto, comporta na madrugada do dia 2, o presente para Oxum no Dique do Tororó, uma área localizada a cinco quilômetros do Rio Vermelho. Mas também a chegada do presente principal- a escultura onde está o agrado dos pescadores- por volta das cinco horas da manhã à sede da colônia de pesca. A partir daí, enquanto devotos fazem filas para entregar suas ofertas no espaço preparado especialmente para recebê-las em balaios que serão levados nos barcos que seguem a procissão principal, o entorno da Casa do Peso é tomado por uma profusão de manifestações culturais.   

Senhor Vítor, há 57 faz arriamento de oferenda pra Oxum no Dique do Tororó. Foto: Maíra Cabral / Mídia NINJA

Foto: Heitor Salatiel

Tem o desfile das mais variadas linguagens artísticas: bandinhas de percussão; blocos organizados por amigos, gente da vizinhança ou donos de bares para festejar com sua freguesia. Cabe o “samba raiz”, aquele que a gente dança “miudinho” sem tirar o pé do chão e com um movimento cadenciado dos quadris- coisa que só especialista de Cachoeira e Santo Amaro faz à perfeição-, e também as rodas de capoeira.

No âmbito religioso vêm os muitos presentes: eles chegam trazidos por terreiros de candomblé de Salvador, de outras cidades da Bahia, mas também de muitos outros estados brasileiros. O afoxé Filhos de Gandhy dá um espetáculo quando desfila com o seu agrado para a Rainha do Mar ao som do irresistível ritmo característico da sua trajetória: o ijexá.

Foto: Jonas Eduardo Santana

O povo da umbanda monta suas tendas na areia. Ali cantam, dançam e os caboclos, especialmente os que são originários das áreas de porto, como os marujos, tomam o corpo das suas filhas e filhos. O cheiro do charuto se mistura ao de alfazema que devotos de Iemanjá distribuem em meio aos desfiles dos presentes.

E na edição deste ano teve até manifesto político lembrando outras duas festas bem proeminentes na Bahia: a Lavagem do Bonfim e o 2 de Julho. Estas manifestações incluíram performance-protesto em solidariedade a Brumadinho e Mariana e o  “Lula Livre”, um bloco que desfilou em defesa do ex-presidente preso em Curitiba. Não adiantou, portanto, a Prefeitura de Salvador ter divulgado nota dizendo que estavam proibidas manifestações com faixas, banners ou balões alusivos a políticos.

Foto: Holanda Cavalcanti

Aliás, a prefeitura soteropolitana teve o seu próprio imbróglio político para resolver. A história começou de mansinho com protestos em grupos de Whatsapp e no Facebook: um repúdio à propaganda oficial da festa espalhada ao longo do circuito em que acontece com a chamada “2 de Fevereiro”. Cadê a “Festa de Iemanjá?, bradaram as redes. Como uma onda, o protesto cresceu a partir da tarde do dia 1º e até o Ministério Público, via o Grupo de Atuação Especial de Proteção dos Direitos Humanos e Combate à Discriminação (GEDHDIS), sugeriu que a propaganda oficial usasse a denominação “Festa de Iemanjá”. A prefeitura respondeu em nota com um certo atraso em relação à polêmica defendendo-se com argumentos de que não houve desrespeito ao evento, mas deve ter aprendido que o protagonismo conquistado por Iemanjá ganhou mais um ambiente de defesa: o ciberespaço.   

Tanto barulho se justifica. Só o povo de candomblé sabe o que passou e passa nessa cidade da bela Baía de Todos-os-Santos para manter sua prática religiosa, mesmo quando ela está dispersa em uma festa feita na rua, portanto muito diversa do que acontece no aconchego dos seus templos que insistem e resistem.

Foto: Felipe Iruatã / Mídia NINJA

Um exemplo: tem apenas 43 anos que já não é necessário conseguir uma autorização policial para fazer uma festa pública de candomblé. Era assim até 1976 quando o então governador Roberto Santos assinou o decreto acabando com o controle sobre o ambiente dos terreiros que estava com a Delegacia de Jogos e Costumes. A unidade era a mesma que controlava os  jogos de azar e prostituição.      

Esta é apenas uma amostra da relação dúbia que o poder público e vários segmentos da Bahia mantiveram e ainda mantém com o candomblé e as manifestações que subvertem os roteiros das elites. Se esta prática religiosa é usada pelo estado, de forma mais articulada para “vender a Bahia” a partir da década de 1970, como mostra o antropólogo Jocélio Teles dos Santos em seu livro O poder da cultura e a cultura no poder, na hora de manter seus direitos, o povo de santo, na esmagadora maioria das vezes, se vê sozinho. A defesa é a sua inteligência na construção das próprias estratégias de resistência. É esta experiência que lhe serve de escudo contra os variados ataques que continua sofrendo em variadas frentes, especialmente os desencadeados por denominações neopentecostais e suas variadas alianças de poder.    

Multidão no multi-espaço Lalá. Vídeo: @hedernovaes

Por isso a Festa de Iemanjá é um caldeirão multifacetado, mas, sobretudo um monumento à resistência das devoções que nascem do povo. Ortodoxias e normatizações quase sempre não conseguem manter controle por muito tempo. Há disputas narrativas, variadas tensões e sempre novas faces, como as da economia em torno deste evento. A movimentação de dinheiro nesta festa vai desde a poderosa indústria do entretenimento baiana com as chamadas “festas de camisa” capitaneadas por astros como Carlinhos Brown até aquelas que surgiram na movimentação do “black money”. Um exemplo desta última é a Yemanjá é Black.

Foto: Taciana Pereira

Foto: @OlaAudiovisual

Foto: Clarissa Beretz

O surgimento ou transformações de negócios são dinâmicas próprias destes eventos que não se submetem a controles rígidos. Ainda bem porque têm aqueles que não dispõem de meios de produção ou financiamento público para se virar na cidade que sofre como tantas outras com o desemprego. A informalidade, outra marca da festa, é alternativa para muita gente . O isopor de cerveja já não é um negócio tão seguro diante da normatização da prefeitura que estabelece a venda apenas de uma marca.  Mas há os ambulantes que insistem em correr o risco. Outra possibilidade de renda é a venda de rosas por R$ 2 a unidade, que uma comerciante me disse ter melhorado em relação ao ano passado.

Foto: Diogo Andrade

Um negócio que bombou este ano foi a venda de chapéus com abas bem largas. Eles são realmente ótima proteção contra o sol ardente, enquanto se anda para lá e para cá buscando acompanhar tudo que movimenta o Rio Vermelho em dia de festa.

Mas sempre tem aqueles negócios bem inusitados. O meu eleito deste ano na categoria “criatividade” foi o “banho para os pés”.  O serviço estava sendo oferecido nas escadas de acesso ao calçadão para quem decidiu ir colocar sua rosa diretamente nas águas. O valor do “banho” variava de R$ 1 a R$ 2 dependendo da capacidade de pechincha dos clientes e o tamanho do anseio para livrar os pés do incômodo de areia molhada.   

Foto: Diogo Andrade

E como registrar, catalogar, conceituar e escrever tudo isso? Foi esta umas das perguntas que me inquietaram durante a pesquisa para a minha tese sobre as festas de verão em Salvador; e que agora reapareceu nesta colaboração com o projeto de cobertura realizado de uma forma bela e responsável pelo Mídia Ninja, a partir de um bate-papo descontraído. A minha resposta é múltipla como a festa: andando por ela, observando, experimentando e seguindo. Iemanjá, para o povo de candomblé, é, “a mãe do mundo”. Portanto, não é estranho que em sua festa caiba um mundo de possibilidades e sensações.

Foto: Muntaser Khaziz

Conheça outros colunistas e suas opiniões!

Felipe Milanez

Assassinato de indigenista da Funai na Amazônia precisa de investigação federal

Mônica Horta

Moda democrática e o novo mundo

Estudantes NINJA

O Brasil está em chamas e a rua te chama

Benedita da Silva

Benedita da Silva: Bolsonaro imita Nero

André Barros

Não se combate o tráfico na favela

NINJA

Toninho Geraes: “Sou a favor do grito de liberdade contra essa tirania que assola o país”

NINJA

O escândalo das eleições gerais em Trinidad & Tobago

NINJA

“Precisamos ter voz para acabar com essa onda da extrema direita”, alerta Teresa Cristina

NINJA

Feminismo nas igrejas: "não queremos tomar o poder dos homens, mas destituí-lo"

Liana Cirne Lins

Brasil abaixo de fezes, cocô por cima de todos

Estudantes NINJA

Um (quase) final de ano de tantos retrocessos

NINJA

“Não colem em mim esse discurso da meritocracia”, diz Conceição Evaristo

Preta Rara

A senzala moderna é o quartinho da empregada

NINJA

A criminalização do aborto e o feminicídio de Estado

NINJA

“O samba é a coisa mais importante na cultura brasileira”, ressalta Zé Luiz do Império