Autêntica, impulsiva, ignorante, coração mole. Ganha aquela amiga racista que todo mundo tem, cujo preconceito fingimos não ver.

 

Sim, todos têm um amigo ou um parente igual a Paula, a escolhida do público para levar o prêmio do reality. Para sermos sinceros, a maioria de nós deve ter a ignorância sobre o racismo que Paula tem. Talvez você demore a notar, mas é um exercício interessante para perceber como o racismo resiste nos pequenos gestos, em lugares de fala bastante específicos, espalhando-se como vento, quase invisível.

Talvez em outros tempos teria sido mesmo invisível a estrutura racista que conforma os participantes da casa mais vigiada do Brasil. Quando se falava sobre vigilância, quase 20 anos de Big Brother atrás, não tínhamos ainda na conta os preconceitos de identidade que começaram se tornar visíveis com a lupa dos novos tempos. A tecnologia das câmeras de vigilância sobre nossos corpos se expandiu de forma a captar até os nossos preconceitos mais profundos.

E de repente, a fala torpe sobre o cabelo crespo, sobre a religião que não conhece, te define em um lugar que você antes não conhecia. “Eles não sabem o quão profundo é o preconceito”, confidenciou Jean Wyllys à colega de confinamento em 2005, desconfiado que foi escolhido ao paredão pela grande maioria da casa por ser gay, ainda que todos negassem.

Em um programa que, sendo televisivo, necessita do drama para sobreviver, desenhando histórias maniqueístas, os heróis e vilões começam a ter mais elementos para se identificarem com a lupa identitária dos tempos que chegam. E como todo drama, vence o protagonista que passou pela jornada completa, aquele que sofreu desde o primeiro episódio, ou aquele que no clímax do drama, rendeu-se à transformação ou à autodescoberta. O big brother sem filtros. É quando vemos no perfil do vilão um resquício de bondade, gente como a gente.

Ok, mas Paula foi assim? Para muitos foi um BBB bem diferente, chato pacas, justamente o drama não funcionou bem. Mesmo com a insistência do Grande Irmão, os confinados não estavam lá muito a fim de entrar no jogo real oficial. Na metade da narrativa, a vitória já estava visível e certa. Por que Paula, com todos os defeitos, não seria a vilã?

Não sei se sou a melhor pessoa para definir e analisar, mas podemos elaborar um pouco. As redes sociais, pelos menos de alguns usuários, ajudaram a dar o zoom in em alguns elementos que mostram as atitudes racistas, misóginas e LGBTfóbicas não “enxergáveis” por homens brancos, cis, héteros.

Por sorte, Paula e outros confinados encontraram quem pudesse oferecer o contraponto com a paciência revolucionária que temos construído há anos de resistência. “Ruim é o preconceito”, retruca Gabi a Paula sobre o cabelo. “Você diria ‘que branca linda’?”, Rodrigo e Gabi sobre um elogio ingênuo de Elana à cantora Iza. A minha desconfiança sempre foi que o público cativo do Big Brother é aquele que enxerga para além dos takes que ganham reverberação nas redes. Teríamos encontrado o racismo em Paula fora do mundo das lentes?

Aqui no “mundo real” ainda continua muito difícil indicar aos amigos qual seu lugar de fala, explicar por que aquele comentário machuca, mostrar de onde vem aquela atitude arcaica contra os mais pobres, negros, mulheres, LGBTs. São gestos que convivem conosco cotidianamente, definem nossa subjetividade e muitos aprendemos a esquecer para suportar. E são gestos que não encontram no drama o perfil ideal de vilão, pois residem até nos amigos e parentes mais próximos.

Numa maioria racista e que desconhece seu lugar de fala, não é difícil todos nos identificarmos com o jeito ignorante de Paula, que de supetão pergunta se aquele gesto era de fato preconceito. Pois o racismo não está nas pessoas. Em uma fala incrível sobre masculinidades negras na Casa da Mídia Ninja no Rio, disse o pastor Henrique Vieira, incomoda a pessoa que identifica seu racismo como um problema casuístico e de caráter.

Desta forma o racismo não se combate, já que ele é estrutural. Ou seja, não é um problema exclusivamente seu. A personificação pura do racismo, portanto, é tarefa praticamente impossível.

“A imperfeita”, foi anunciada Paula a campeã. Ela foi a primeira a vencer a prova de resistência, subestimada pela voz fina, vive com seu porco de estimação. Já nos primeiros dias de confinamento, as diferenças já começavam a brotar e o público já se dividia no tribunal das redes. Pois, para muitos é difícil punir nosso amigo racista, que pode não compreender a lógica da escravidão moderna, a história de nossos corpos negros, as diferenças de gênero e de identidade.

Aquela pessoa que se embanana pra entender por que travesti não é gay, é a típica figura do brasileiro que ainda temos em casa.

Pra finalizar, compartilhando um tweet que fiz há dois meses: “Sabe qual seria a melhor ‘penalidade’ pelas falas racistas de Paula #BBB19? A convivência. Confinar-se com 4 negros, algemar-se com eles, ouvir a diferença entre ubanda e candomblé e acabar em algum momento falando, emocionada, “obrigada” pelo zelo. Escreve aí, o milhão é dela.”

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