Personagens como a bicha travestida e ridicularizada por Nego do Borel já não passam mais pelo crivo crítico de um público feminista e LGBT. Bons tempos!

 

Nega do Borelli, a caricatura da bicha poc idiotizada não convence mais.

Por Clayton Nobre, Mídia NINJA

Em seu novo clipe Me Solta, o funkeiro carioca Nego do Borel é Nega do Borelli, personagem que o mesmo cantor já havia usado em outras oportunidades. Saudosa Lacraia, muitos assim mencionavam nos comentários com teor visivelmente LGBTfóbico. A bichinha da favela que o macho ama odiar (e vice versa?). Essa personagem já conhecemos.

Diferente daquelas que se forjam com naturalidade simplesmente porque são genuinamente travestis da quebrada, como Xuxu ou Leona Vingativa, a caricatura de Nega do Borelli é uma só. Quando o homem se porta como mulher ou como gay, utiliza sempre o mesmo código, numa tendência a perpetuar uma imagem de mulher ou de “bichinha” engraçada por ser ridícula. Peça o homem para imitar sua mulher, os códigos aparecem.

Esta imagem que tanto perdura na televisão e nas mídias de massa, tomara, tem seus dias contados. Em tempos de ampla expressividade dos “corpos diversos” nos palcos da música e de outras artes, personagens como esta já não passam pelo crivo crítico de um público feminista e LGBT.

Aquela bichinha poc, chave do mais banal preconceito, o “viado mais baixo”, aquela que passa e todos riem dela, começa a virar a chave do orgulho quando ganha os espaços de expressividade na cultura. Esta bichinha poc, um parêntesis útil, é a expressão viva, dizem, de uma identidade que amedronta o homofóbico enrustido – ele se torna macho e violenta os demais justamente pelo medo de chegar à sua expressão mais feminina. O caminho mais útil é ridicularizar.

Hoje as identidades genuinamente LGBT ganham muito mais valor não somente para a representatividade, mas por uma estética reputada entre os mais severos críticos, e nós, público. Já não vale mais homens héteros e cisgêneros argumentarem “homenagem” às mulheres, como ainda escutamos de humoristas como Paulo Gustavo (as mulheres mais ridículas da TV e do cinema).

No caso da bicha preta, o poço de preconceitos e privilégios ainda é mais profundo. Quem já foi a bailes funks sabe que resiste uma expressividade de pessoas LGBT que quanto mais expostas, mais estão abertas à violência. Sabemos, portanto, qual valor há quando nos sentimos representados com artistas como Xuxu, Pepita, Linn da Quebrada. Assim como as mulheres ou outros grupos que têm ganhado ascensão a partir da invisibilidade.

Além de colocar nossas identidades em outra escala de valor, elas movimentam temas que dificilmente outros fariam. Muito diferem do másculo Nego do Borel, numa abordagem “Me Solta” sobre um assédio um tanto estranho. Um beijo gay cuja polêmica poderia traduzir um debate tão mais valioso, acaba por reforçar algumas intolerâncias.

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