Camila Pitanga, em “Por que não vivemos?”. Foto: Nana Moraes.

A Cia Brasileira de Teatro encerra nesse final de semana, no Rio de Janeiro, a temporada do espetáculo “Por Que Não Vivemos?”, que esteve desde o início de julho no teatro do CCBB. Integra, em sua equipe, um elenco com interpretação de peso e o diretor Márcio Abreu, que vem acumulando prestígio na carreira à frente da Companhia, com troféus como Shell, Bravo!, APCA.

A peça é uma tradução brasileira do texto antigo, o primeiro, do escritor russo Tchekhov. Era um manuscrito sem capa, portanto sem título, encontrado em 1920 conforme conta Giovana Soar, que adaptou o texto para a Companhia junto a Márcio e Nadja Naira. “Por Que Não Vivemos?”, frase-trecho do próprio espetáculo, foi escolhido como título que nos adianta quais provocações nos serão feitas naquele contato com o palco remontado do CCBB.

Meu primeiro contato com a Companhia foi em Vida, espetáculo de 2010. Desde então, a experiência continua viva na memória. Entrar no teatro e deixar que suas paixões e preconceitos mais banais de uma vida cotidiana sejam convocados à cena, transformados num drama sem pé nem cabeça. A poesia do teatro. Vida parece a palavra-chave para as performances da Companhia. Em “Por Que Não Vivemos?”, a primeira cena é a chegada de convidados para a celebração na casa de uma jovem viúva. É literalmente uma celebração de chegada ao teatro.

Quem ama o teatro certamente o faz por conta de alguma experiência, ou de várias acumuladas, no contato com a arte da interpretação, ou qualquer que seja o conceito de teatro que podemos mencionar aqui. Há uma tradução da enciclopédia britânica que fala do teatro como uma experiência intensa, envolvente, meditativa, inquiridora, a fim de descobrir o significado mais profundo, uma cuidadosa e deliberada visão que interpreta seu objeto.

Quem não gosta do teatro, infelizmente são muitos, certamente o faz pelos motivos inversos. E também são várias as oportunidades de frustração, em diversos lugares, com a experiência teatral. Se você encara a ida a um espetáculo como uma fuga cujo envolvimento é necessário para preencher de ilusão ou de entretenimento seus momentos de folga, a boa experiência é quase uma exigência. Folga é para privilegiados, diremos isso no futuro? Por que não vivemos? Abertos, portanto, ao envolvimento, proibidos de ver o celular por 150 minutos, o público do teatro há que despertar algum sentimento.

O último a chegar ao teatro, eu não sabia encontrar a minha poltrona no início do espetáculo. Alguém me socorreu e apontou para a arquibancada montada sobre o palco, em um lugar posicionado acima de um sofá. Da plateia, subi para os holofotes, tirei alguém que sentava em meu lugar achando que eu não mais viesse. De cara, o espetáculo se conformava nos desajustes de palco e plateia. Nada está dado. Nada disso – a disposição do público nos palcos contemporâneos – também é novidade, mas ao mesmo tempo sempre é.

Naquela celebração, as personagens começam a aparecer e para quem, como nós, já está condicionado à narrativa do drama, tenta a algum custo encontrar quais as relações se mostram ali, os parentescos, os que se amam, os que se odeiam, vilões e patifes. A peça de Tchekhov traz uma série de personagens que se misturam entre quem são e quem poderiam ser. Como nós sempre nos vemos diante dos outros.

Platonov é um personagem-chave para a geração dessas paixões. Galanteador, provoca a seu redor as frustrações de uma vida que poderiam ter vivido, sobretudo em Sofia, a quem amou na juventude. Sob a festa e os encontros, vemos burgueses festejantes, falidos, típicos personagens de Tchekhov. Na pré-revolução russa, eles se mantêm inertes diante da crise. Seria a nossa atual classe média? Em uma sonoridade envolvente, a voz das personagens ecoa como se estivéssemos todos juntos presos num espaço-tempo distante. Ou uma caverna realmente sem saída, ou somos fracos demais para encontrá-la.

Em muitos momentos do espetáculo, se repete a sensação de que aquele eco já ressoou e a cena é a mesma. Até que em um momento bastante nítido, alguns códigos ficam evidentes e o ritual se mostra à cena. Em um looping contínuo, os personagens mantêm as falas e atitudes. E a gente ri, igualmente, todas as vezes. Difícil não relacionar às angústias dos tempos modernos, em que tudo se repete e a vida apenas permanece. No ritual da vida cotidiana, nossos ídolos são os mesmos, as aparências não enganam. Mas apesar de tudo o que vivemos, ainda somos os mesmos?

O baque do teatro é aquele em que o ator desliga o aparelho sonoro que faz a voz ecoar. Ou aquele momento em que os atores, repentinamente, reagem com silêncio quando enlouquecidamente só riam e bebiam. De repente nos percebemos no jogo de ilusões. A crise não é do passado, ela ainda é viva. Muito se tem dito sobre o estado de imobilidade social diante de um estado crítico sem precedentes sob o qual sobrevivemos. Diante desta crise, o medo sempre aparece com chances graduais de vitória.

Mas felizmente, por aqui também se vê muito um espírito de proatividade, um interesse ainda vital de provocar pequenas vitórias, boas narrativas, rumo a um horizonte utópico que não se constrói apenas por sua contemplação e jamais de forma individualista. “Felicidade pessoal é egoísmo”, dizia Tchekhov. Quais métodos poderia o teatro nos ensinar para vencer o medo, bloquear o looping constante de nossas vidas e estimular alguma atitude?

Serviço
Espetáculo teatral: Por que não vivemos?
Da obra Platonov, de Anton Tchekhov
Direção: Marcio Abreu
Elenco: Camila Pitanga, Cris Larin, Edson Rocha, Josi Lopes, Kauê Persona, Rodrigo Bolzan, Rodrigo Ferrarini e Rodrigo dos Santos
Adaptação: Marcio Abreu, Nadja Naira e Giovana Soar
Temporada: de 3 de julho a 18 de agosto de 2019
Local: CCBB Rio – Teatro I (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro).
Duração: 150 min.
Classificação indicativa: 16 anos.

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