Teremos acabado com a supremacia do macho nos palcos da periferia?

Baco Exu do Blues: amor e desgraça no Favela Sounds, em Brasília (DF) / Foto: Mídia NINJA

Por Clayton Nobre da Mídia NINJA

Não é só um dos melhores discos do ano, o show de Baco Exu do Blues foi umas das experiências mais energizantes já tida nas plateias. Que momento! Foi no Favela Sounds, 2017. A área externa ao Museu da República, em Brasília, já estava entupida.

Também estavam Tati Quebra Barraco, Larissa Luz, e performances surpreendentes de mulheres trans como Linn da Quebrada, Rosa Luz e a angolana Titica. Poderia falar como aquele line up mostrava a abertura da música periférica à valorização de identidades que nunca assumiam o protagonismo dos palcos do funk ou hip hop. “Minorias” que puxam multidões. Nos fazem entrar no break sem pedir licença. Mas isso não é mais novidade. Já discutimos quando veio Dalasam, Lia Clark, Luana Hansen, e não param de aparecer novidades como Glória Groove, Triz, Pepita.

Mas queria falar do contrário. Retornar a Baco. Assim como também poderia falar de Rincon, Racionais, Projota, Rashid ou outros do primado masculino que levaram o rap ou funk às multidões. Naquele show um casal gay se beijava ao som de “Te Amo Desgraça”, com a mesma liberdade com a qual extasiávamos ao abrir caminho a Exu do Blues. Talvez este é o ponto que tenha surpreendido, pois o som e a performance de Baco não deixam de apresentar os elementos de uma forte virilidade masculina, de quem tem “o mundo nas mãos, na outra a buceta dela”, impulsoras de uma energia que faz vibrar milhares de jovens.

Nada vai me parar, irmão. O código animal e a energia viril nos palcos do rap. / Foto: Mídia NINJA

Por que conectamos experiências que poderiam parecer tão distantes entre o rapper e aquela plateia, e ainda nos faz ter a sensação de liberdade plena? Talvez não tão distantes. O fato é que Baco já evidencia, em performance ou em música, as contradições de uma masculinidade que se esbarra em um mundo cada vez mais exigente com a transparência de quem canta, atua, performa. Já fizeram com Emicida, quando foi à tevê falar sobre o bullying. O estereótipo do rapper macho se desfaz às suas próprias fragilidades.

“Homem não chora, foda-se eu tô chorando”, canta Baco. O homem-animal que se relega ao que seria “feminino”, abre-se contra tudo o que se impõe às masculinidades do corpo negro que, carregado de forte racismo, precisa sempre demonstrar força com bastante violência: pois talvez sejamos fracos. Quais angústias e sofrimentos se guardam sob a pressão da virilidade? “Sua expectativa em mim está me matando”. Escutem “En Su Mira”, a menor e mais cruel canção de Esú.

No palco, Baco recusa-se a cantar Sulicídio. De todo seu repertório, é a música que mais sustenta este estereótipo violento do macho negro. Justificou citando as polêmicas com travestis (“não é comendo traveco que se vira fenômeno”) e mulheres vivendo com HIV (“mandei algumas fãs soropositivo pro seu camarim”). Mais que isso, a música é reflexo de como a trivial rivalidade entre os homens do rap reforça preconceitos. Sulicídio abusa de códigos da masculinidade cis heterossexual como armas de combate aos rivais, tais como vemos constantemente nas batalhas de MCs.

Em outra ocasião, estávamos em Ceilândia, Casa do Cantador, Festival Elemento em Movimento. 2017 ainda. Os cantores do rap se reuniam na última roda do dia, as mulheres entraram sem precisar de autorização abrindo o debate sobre as feminilidades hip hop junto a GOG, Inquérito, Rafuagi, Viela 17, Síntese e outros mais, tendo a Batalha das Gurias uma das forças constantes no debate. Foi lindo! Para além dos palcos e das rodas de break, já se avista um horizonte possível de diálogo.

Esta resistência contra o machismo das periferias tem se traduzido de forma exemplar na ocupação de mulheres, de gays, lésbicas ou pessoas trans na música de domínio tipicamente masculino. Mas a resistência também tem se refletido na desconstrução dessas masculinidades, sem que precisemos separar os palcos, criar nichos, ou ainda fruir e vibrar com os dois olhos bem abertos. Infelizmente, isso ainda fazemos. Pois também nos identificamos, quem quer que sejamos, com as desgraças de Baco, a solidão de Emicida, o amor distante de Mano Brown. Também nos queremos homens e mulheres livres, citando de novo Baco.

“Alguém que nunca sentiu o que eu sinto
Me julga como um pai, em posse do cinto
Eu amo quem eu quiser
Vivo como eu quiser
Faço o que eu quiser
Nada vai me parar irmão
Dedos molhados não apontam e não julgam”
Senhor do Bonfim, em Esu.

A nossa experiência. Público ao som de “Te Amo Desgraça”.
Foto: Mídia NINJA

As mulheres no Diálogos em Movimento, junto aos homens do hip hop. Desconstruindo posições. / Foto: Mídia NINJA

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