Queria nunca ter assistido o insuportável Urso Branco, episódio do seriado Black Mirror disponível no Netflix. Mas eu assisti.

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(Sim, eu vou contar a história. Quem tiver afim da loucura de assistir isso, gentileza ficar por aqui, que neste caso o spoiler é fatal. Beijas, valeu! rs)

A estória é tensa. Vou contar do jeito que ficou na memória, que é uma coisa importante: o que fica das estórias dentro da gente…

Não vai rolar de reassistir pra garantir a fidedignidade. Nem nem. Não fica com raiva da Mídia Ninja se eu contar errado. A culpa é só minha.

Aliás, quando alguém tenta consertar causo de mineiro dizendo que não foi bem assim porque também tava lá, a gente diz assim: quando eu tô contando, a estória é minha, xô contar do jeito que eu quiser, né?

Aliás, só lembrar do Manoel de Barros que daí nem nem: “Tudo que não invento é falso”.

Então, a estória da minha memória é assim:

Começa com uma mulher, negra, acordando. Ela olha ao redor e não consegue saber onde está. Ela não lembra quem é. Não lembra como foi parar ali. Umas imagens esquisitas vêm na cabeça dela tipo relâmpago e somem, de um jeito super perturbador. Nas imagens aparece um urso branco de pelúcia e uns símbolos esquisitos. A lembrança vem como relâmpago. Dói a cabeça.

Ela sai da casa e anda por uma cidade deserta, estranhando o fato de que as poucas pessoas que encontra olham para ela de um jeito esquisito, filmando com o celular, mas não conversam, não respondem o que ela pergunta.

Os próximos muitos minutos vão ficando insuportáveis.

Do nada, a mulher é ameaçada por pessoas muito violentas, estranhamente fantasiadas. Quebram vidros, armados, correndo atrás dela.

A partir daí, é caçada: ela e algumas poucas outras pessoas fugindo. Correria, aperto, tensão, angústia, desespero.

A caçada tem cenas bizarras, como a descoberta de um bosque cheio de cadáveres espalhados pelo chão e pendurados nas árvores.

Enquanto isso, as pessoas filmando com celulares são onipresentes, sempre perto das cenas de violência, indiferentes em relação aos cadáveres, ao sofrimento dos fugitivos e aos pedidos de socorro repetidos e desesperados da mulher negra, que continua sem entender do que está fugindo.

Depois de muita correria, aperto, desespero, angústia, tensão, medo, correria, aperto, desespero, angústia, tensão, medo, correria, tensão, aperto, medo, angústia, desespero, a fuga chega ao fim.

Abrem-se as cortinas e vem a revelação que deveria ser alívio: a caçada é um teatro.

Todos os perseguidores e companheiros de fuga sorriem pro público. São ótimos atores. O público aplaude.

Só não sorri a mulher negra. Ela não é uma atriz. Está ali parada, aterrorizada como um bicho, olhando pro público. Exausta. Fraca.

Cada minuto de desespero da longa fuga foi sofrimento real pra ela.

O mestre de cerimônias agradece ao público do dia, tira a mulher do palco.

Uma multidão acompanha a sua saída na rua.

O mestre de cerimônias, ator famoso, explica o espetáculo.

A mulher negra é acusada de um crime. Teria auxiliado o companheiro no assassinato de uma criança.

Seu castigo, desde então, é dormir todos os dias com uma lavagem cerebral que acaba com sua memória.

Quando ela acorda, todos os dias… a amnésia e a fuga desesperada.

A plateia são os cidadãos de bem, que podem acompanhar a caçada violenta e filmá-la, como bons espectadores do espetáculo do castigo.

Todos os dias, uma nova plateia.

Todos os dias, aquela mesma mulher sofre o mesmo sofrimento: lavagem cerebral, acordar e fugir: correria, aperto, desespero, angústia, tensão, medo, correria, aperto, desespero, angústia, tensão, medo, correria, tensão, aperto, medo, angústia, desespero.

O castigo é um espetáculo de crueldade assistido de perto pelas pessoas de bem.

A ficção é mesmo bizarra.

Na vida real brasileira, é assim:

Todos os dias, o noticiário policial de horário de almoço. Mais tarde, fim da tarde, o noticiário policial de fim da tarde. Provavelmente, no jornal do horário nobre, à noite, vamos assistir mais umas matérias sobre a violência que mostram que precisamos perseguir e castigar duramente os criminosos.

Na televisão, então, temos o alívio de assistir que os jovens bandidos foram caçados. Como são pessoas más, devem ser castigadas. O único castigo disponível é a prisão.

Essa prisão, quando aparece na tela, a gente pode conferir bem nas imagens: a prisão é suja, com comida azeda, ratos. As celas são bem superlotadas, dá pra ver aqui em 3D nesse site.

Os presos se resolvem ali com facas, quando brigam. Morrem nas rebeliões. São cenas fortes, dá pra ver na televisão e no jornal. Tem até cabeça decepada, no chão da cadeia, em foto que alguém sempre manda no grupo do celular. Quando um adoece na cela, pegam tuberculose, todos. O governo diz que a chance de ter AIDS ou de morrer ali é muito muito maior do que entre os cidadãos de bem. Claro, né? Ali é a imundice mesmo.

Mas mesmo a prisão não costuma ser um castigo suficiente.

O apresentador do espetáculo do castigo, no noticiário policial do horário de almoço ou no noticiário policial de fim da tarde, lamenta conosco, plateia, o absurdo de não podermos castigar com prisão perpétua. Ou muito melhor: castigar com pena de morte, porque ele não acredita nesses dados gringos que mostram que a pena de morte não ajuda a reduzir a criminalidade.

A lei penal brasileira é frouxa e o castigo não é longo o suficiente.

Ainda bem que, no mundo da internet, o apresentador jornalista não é o único que pode defender o castigo e pressionar para que os políticos das bancadas da bala, cidadãos de bem (às vezes injustamente acusados), aprovem castigos mais rigorosos. Na internet todos os cidadãos de bem podemos falar, defender castigos duros nos posts e comentários das redes sociais. Defendemos o castigo duro, a prisão superlotada, a prisão perpétua e a pena de morte.

Quem é castigado precisa sofrer porque é culpado pelo sofrimento de outras pessoas.

Sem castigo duro, não conseguiremos ser uma sociedade de pessoas boas, que vivem honestamente e não causam sofrimento nem fazem crueldade com outras pessoas.

Enfim, como eu falei lá no começo, não queria ter assistido Urso Branco no Netflix. A ficção delirou muito nisso de mostrar o castigo como um espetáculo de crueldade assistido de perto pelas pessoas de bem. Bizarro. Não recomendo.

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