Arte: Mídia NINJA

Arte: Mídia NINJA

Pensei em tantos assuntos pra este segundo texto da coluna. Era pra ser um papo que segue. (Essas violências do Direito são mesmo muitas. Nessa conjuntura de crise política aguda, eita, os exemplos são gritantes, em especial nos últimos dias…)
Mas tinha uma pedra no meio do caminho. Grande. Não tinha como não tropeçar nela. E não tinha como não doer.

Esse texto precisa ser sobre a Rita, que sofreu um abuso escroto esta semana, na rodoviária. Quando me contou, ela se emocionou e me pediu:

– Sei que é nojento, mas conta o meu caso no jornal, por favor?
– Não quer contar você mesma, Rita? Algumas mulheres têm contado na internet…
– Conta pra mim, por favor. Pode falar meu nome. Pode contar do jeito que eu contei.
– Tá. Não vou falar seu nome [que não é Rita]. Mas prometo que vou contar sim. Vou tentar contar do jeito que você contou, num lugar bem especial da internet: o Mídia Ninja.

A história é mesmo muito nojenta, mas eu não tenho opção.

Rita me pediu pra contar porque ela ficou com o grito entalado, e quer gritar pro mundo, ainda que seja pela voz de uma outra mulher, branca e privilegiada. Vai que os privilégios podem servir pra alguma coisa útil. Vai que alivia a sua dor. Vai que os outros homens escutam e percebem que, nessa realidade machista, ser mulher dói demais. Será? Mas eu preciso contar, porque ela pediu.

Rita estava indo pro trabalho, ônibus cheio, rotina de sempre. Desceu na rodoviária e percebeu que um homem estava andando atrás dela. Ela andou, andou, andou. Ele andando atrás dela. Sentiu medo, olhou ao redor, sem olhar pra trás. Apertou o passo e escolheu a escada rolante mais cheia de gente. Achou que seria mais seguro.

O homem veio atrás, no degrau mais perto. Ela sem olhar pra trás. Com muito medo. Foi aí que ela se sentiu molhada. Ele esporrou nela.

O sofrimento da Rita, a partir daí, vou tentar contar do jeito que ela contou.

– Suja. Eu tava toda suja. Fiquei horrorizada, em pânico, e quis gritar. Mas não gritei porque pensei que tinha muito homem ali e eles iam espancar o cara. Esperei a escada chegar até lá em cima, a pesada, humilhada, e vi que a polícia tava ali no fundo. Talvez eles não deixassem o cara apanhar demais. Talvez agora eu pudesse gritar. Mas eu não gritei. Senti muita vergonha. Se eu gritasse, todo mundo ia ver que eu tava imunda. Todo mundo ia ter nojo de mim. Fui vendo ele ir embora caminhando. Ele tava de roupa bem passada e o crachá do trabalho dele. Eu vi bem a cara dele. Mas não dava pra gritar porque todo mundo ia olhar pra mim e sentir nojo.

Quando a Rita chegou, tremia o corpo todo e tentava contar. Foi tomar banho. Suja. Nervosa. Triste. Não sabia nem ficar nem ir embora.

No dia seguinte, me perguntou como uma mulher estuprada dá conta de acordar no dia seguinte.

Conversamos sobre as mulheres que têm coragem de contar na internet, a primavera feminista, e ela me pediu que mandasse pra ela todos os relatos do mundo, porque ela precisava ler tudo tudo tudo.

Vergonha, humilhação, nojo, tristeza. Todos os relatos do mundo têm isso tudo que ela sentiu na rodoviária. O machismo enquadra a gente nesse lugar esquisito de ter a culpa de ser vítima. E o sofrimento se repete tantas vezes, nos escutamos mil vezes mulheres falando sobre abusos de todos os tipos.

Mas a história da Rita tinha uma coisa que mexeu comigo de um jeito diferente. Na história de abuso da Rita tinha também cuidado: “não gritei porque pensei que tinha muito homem ali e eles iam espancar o cara.”

Aquela mulher achou que precisava proteger o seu abusador da violência dos outros homens. Aquela mulher sabia o quanto os homens podem ser violentos.

Tanta generosidade tinha nesse ímpeto de cuidado. Mas, ao mesmo tempo, quanto peso. O cuidado é uma obrigação de todas as mulheres, todos os dias. A mulher que cuida é cumpridora de seus deveres, elogiada pelos homens no dia das mulheres, agradecida pelos homens no dia das mães. Os rituais de homenagem a essa capacidade “especialmente feminina” (oi?) de cuidar são reforços de um sistema em que cabe às mulheres a disposição de servir sempre. As mulheres servem à casa, aos filhos, ao companheiro, e, claro, ao trabalho, já que somos reconhecidas como capazes de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, “heroínas” que fomos para o mercado mas continuamos dando conta de tudo em casa.

O dever de cuidar é um dos principais ensinamentos do sistema machista, me aponta uma amiga militante do movimento feminista, que admiro muito.

O machismo nos cobra todos os dias o papel de preocupação com o outro, de atitudes nobres como especiais responsáveis pela harmonia de nossas famílias e da comunidade. E me lembra o lado mais perverso disso: nos casos de abusos e estupros dentro do ambiente familiar, o dever de cuidado muitas vezes aprisiona a mulher no cálculo entre um suposto bem-estar da família (pensando nas consequências de uma denúncia para o abusador marido, filho, tio, primo, etc) e a sua própria integridade física (ou de sua filha) ou sua dignidade (ou a de sua filha). A obrigação de cuidado cobrada da mulher numa sociedade com (tanta) violência doméstica pode, no limite, custar sua própria vida ou a vida de sua filha.

O machismo mata.

Uma outra mulher querida escutou a Rita contar a história. Também se entristeceu e então nos perguntamos por que tantos homens têm assim essa relação tão doente com o sexo e enxergam as mulheres como objeto, depósito de sua ejaculação.
Essa outra mulher sofreu abusos na infância e ficou perturbada nos dias que se seguiram. Conversamos muito. Ela reviveu o seu sofrimento sentindo o sofrimento de Rita. Vergonha, humilhação, nojo, tristeza. O de sempre, infelizmente.

Mas essa outra mulher, como eu, não fala dos abusos que já sofreu. Não tenho a coragem da Rita. E ela não quer falar. Explicou:

– Tô cansada de não conseguir esquecer.

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