Somos mais de 20 milhões de funkeiras e funkeiros espalhados por todo território nacional. Ou seja, cerca de 10% da população brasileira unida em torno de um mesmo movimento. Antes de qualquer coisa, te convidamos a conhecer a nossa história.

Foto: Mídia NINJA

Por Bruno Ramos e Andressa Oliveira

O dia 7 de julho é oficialmente o dia do Funk no estado de São Paulo. E para nós, é dia não somente de comemoração, mas de reflexão. A data foi escolhida em memória do MC Daleste, grande nome do Funk Paulista, que perdeu a vida no palco, no dia 7 de julho 2013. Mc Daleste é o único artista brasileiro a ter sido baleado durante um show. Um episódio que marcou não somente a história do funk, mas da música nacional como um todo. A data serve para homenageá-lo ao mesmo tempo em que nos lembra da responsabilidade que temos como movimento de evitar que situações como essa venham a se repetir. Além, claro, de se tornar mais um momento para discutirmos as tentativas de criminalização e repressão contra o Funk.

Grande parcela da sociedade conhece a cultura funk somente pelas letras mais polêmicas, mas é importante dizer que muita coisa vem passando despercebido.

Este texto não é para falarmos mais uma vez sobre os ataques que sofremos ou sobre as mazelas que colocam na nossa conta. É, na verdade, um desafio, um convite para que VOCÊ se permita conhecer o Funk, sua essência e pluralidade.

A expansão do funk para espaços antes inacessíveis vai além da novela das oito, do programa do Faustão e das baladas da classe média alta. Hoje, estamos no cinema, no teatro, no audiovisual, na dança contemporânea e na academia, disputando narrativas e somando não apenas como objetos de estudo, mas como intelectuais.

Estamos no centro das atenções também quando o assunto é visibilidade nas plataformas digitais ou nas redes sociais. Estamos até na Forbes! Os números atingidos no Youtube, plataforma que derrubou a era analógica dos “discos vendidos” e consolidou a era digital dos “milhões de views”, são impressionantes, começando pelos resultados do Canal Kondzilla, que hoje é o maior canal do Brasil, está no top 10 do mundo e já tem na conta o 1° vídeo do Brasil a bater 1 bilhão de views: MC Fioti – Bum Bum Tam Tam. A música foi produzida pelo próprio MC, que transformou a famosa flauta de Bach, da música erudita, em beat. O funk também foi pioneiro em outros recordes no Youtube, como o primeiro 1 milhão de vizualizações com MC Boy do Charmes – Megane e o primeiro 100 milhões, com MC João – Baile de Favela.

Diversidade

A cena feminina também está cada vez mais forte. Apesar de ocuparem os palcos em menor número, são muitas as mulheres com grande impacto e importância em toda a história do funk, da nossa rainha Tati Quebra Barraco à Anitta, que hoje é a maior artista internacional do país e a 2º maior da América Latina.

Se pensarmos no polêmico “funk putaria/ funk ousadia” outra ideia pré-concebida aparece: a de que apenas homens constroem essa vertente objetificando o sexo feminino. Mas a real é que mulheres de peso desenvolvem essa tendência há muitos anos, falando elas mesmas sobre o que querem, gostam ou esperam não só no campo da liberdade sexual, mas da autonomia financeira e do poder feminino em suas distintas formas. Quem não conhece as letras de Valesca Popozuda, Ludmilla, MC Byana, Deize Tigrona, MC Carol e Mc Marcelly está desconectado do mundo.

A ONErpm analisou recentemente os dados de 130 canais de funk no Youtube e descobriu que as mulheres hoje já são quase maioria do público somando 49,5%. Para se ter uma ideia, em 2014 esse número era apenas de 32%. Músicas como MC Pocahontas – Não Sou Obrigada e MC Rebecca – Cai de Boca são ótimos exemplos desse sucesso.

E não só as mulheres têm ganhado espaço na cena funk. Bem antes do universo LGBTQI+ cair no gosto da indústria cultural brasileira, o Funk já tinha figuras como Lacraia e a Mulher Feijoada.

E é, ainda hoje, um dos poucos estilos musicais que abraçam a comunidade e permitem que figuras como Jojo Todyynho, MC Loma, Linn da Quebrada, Kaya Conky, Pepita, MC Trans, MC Carol, MC Xuxu e muitas outras, tenham espaço para desenvolver e apresentar seu talento. São pessoas negras, gordas, LGBTs, nordestinas, fora dos padrões estéticos e comportamentais e que têm, de fato, a cara da nossa sociedade que as mídias tradicionais tanto tentaram esconder.

A (r)evolução dos beats

Em toda a história do funk uma das grandes transformações é a própria musicalidade, mais especificamente a produção, que hoje é quase sempre 100% digital. Entre os anos 90 e os anos 2000 a batida era o Volt Mix, primeiro beat de funk criado no Brasil e que ganhou força com Cidinho & Doca – Rap da Felicidade, Mc Marcinho – Rap do Solitário e Tati Quebra Barraco – Boladona. Na sequência, se tornando cada vez mais brasileiro, letra e produção foram se organizando em vertentes junto a chegada a São Paulo. Entramos aí em uma nova fase: o tamborzão, com sua maior expressão nos sucessos Gaiola das Popozudas – Agora eu sou solteira, Mc Daleste – Gosto Mais do que lasanha 2, Samuka e Nego – Ta bombando.

Com a variação dos beats veio a variação das danças. Depois do rebolado, quem manda é o Passinho, que também conta com um time de representantes de peso: Imperadores da Dança, Bonde das Maravilhas, Dream Team do Passinho, além de dançarinos-referência de Fezinho Patatyy (Passinho do Romano/SP) até ao MV Oliveira (Malado/BH). O Passinho – e suas várias caras pelo Brasil afora – é hoje reconhecido em Pernambuco como patrimônio cultural do estado através do Brega Funk. O que nos leva mais a fundo na reflexão, podendo considerar o Passinho “o primeiro estilo brasileiro de dança urbana” como diz a Companhia Suave, ao apresentar seu espetáculo CRIA.

Ocupando TODOS os espaços

Além da música, a criatividade e capacidade de inovação desse movimento têm nos levado longe. Funkeiras e funkeiros criam e criam muita Coisa Boa. Começando pelas profissões que “tomamos de assalto” para produzir nossos próprios conteúdos. Costumamos dizer que, não adianta perguntar o que uma pessoa quer ser na vida quando as profissões que a cercam são pedreiro, padeiro, cabeleireiro, etc. Quando não se tem referências, dificilmente a resposta será médico, cineasta, empresário. Ao aproximar design, fotografia, audiovisual e jornalismo para o movimento de forma tão intensa, o funk tornou essas profissões possíveis, atuando como um mecanismo de transformação social. Para entender mais do que estamos falando, procure conhecer o trabalho dessa galera Beco Filmes, Doug Filmes, Jeferson Delgado, Portal Kondzilla, Funk TV.

No campo político, a atuação vem muito antes das letras do chamado “funk consciente”. As equipes de som tiveram um papel fundamental no histórico de luta do movimento ao organizar politicamente o Funk desde o final dos anos 1980. Apesar da forte repressão do estado pela polícia militar nos anos 1990, grupos como Espião, Cash Box, Dudas, Pipo’s, Crazy Music, Las Vegas e Pitt Bull chegaram aos anos 2000 organizando grandes bailes e até competições de equipes principalmente em clubes cariocas. Essas equipes defendem pautas como a ocupação do espaço público, geração de renda para a comunidade, liberdade de expressão e direito ao lazer (direito assegurado pela nossa constituição), atuando contra a repressão policial do Estado, o extermínio e genocídio da juventude negra e contra o olhar manipulado e conservador de boa parte da mídia.

As equipes de São Paulo têm seguido a mesma linha de organização carioca, buscando se reunir dentro de espaços fechados onde possam ter mais tranquilidade na hora da festa, sem precisar sair correndo da polícia, como nos fluxos de rua. O movimento recente tem como objetivo a organização política em defesa dos sistemas de som e levanta a bandeira de que SOM AUTOMOTIVO NÃO É CRIME!.

Iniciativas politizadas como essas abriram espaço para outras tantas frentes que atuam até hoje em prol do movimento: A Liga do Funk, conhecida como Escola do Funk, existe desde 2012 e formou centenas de MCs e DJs em São Paulo; Do projeto da Liga, derivou a Morada da Liga, que também voou alto. A casa de formação e moradia coletiva revolucionou a cadeia produtiva do Funk criando e orientando novas(os) artistas e empreendedora(es) do ramo; O Observatório do Funk, de Belo Horizonte, também é uma grande referência. O grupo pesquisa e promove desde 2017 debates sobre a pluralidade do movimento e a constante criminalização que sofre pelo país. Como o Funk é, inegavelmente, também um estilo de vida – com moda e linguagem próprias – dele também derivam conceitos, como é o caso da Mecnologia, que nada mais é que uma gíria para definir a tecnologia que moradores das periferias do Rio de Janeiro desenvolvem para estarem tranqüilos em meio à violência e à escassez de serviços básicos. A ideia tem circulado as comunidades e tem sido estudada por intelectuais das comunidades cariocas.

É por isso e por MUITO MAIS que nós, funkeiras e funkeiros, nos propomos a pensar o futuro do funk. E aproveitamos para chamar a atenção do poder público para o fomento da produção e do desenvolvimento do movimento, principalmente, na formação e educação da juventude envolvida e na regularização e criação de espaços públicos que garantam a preservação de características importantes do movimento, como nossos velhos e consagrados bailes de rua, hoje ameaçados. É preciso pensar coletivamente em políticas públicas que colaborem para que cultura e sociedade não virem inimigas. O Funk é hoje uma das nossas grandes ferramentas de transformação social, patrimônio cultural da nação brasileira. O #funknãoécrime.

Aqui vai um feliz Dia do Funk para toda nação funkeira.
Uma homenagem especial aos saudosos MCs Suel, Goró, Claudinho, Lacraia, Catra, G3, Naldinho, Zoio de Gato, Felipe Boladão, Duda do Marapé, Primo, Careca, Sapão e Daleste.

E aquele grande desejo #LIBERDADEDJRENNANDAPENHA!

“Somos responsáveis por aquilo que falamos e fazemos e não por aquilo que às pessoas vêm ou entendem sobre nós”

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