Negar o Funk é negar as diásporas africanas, nossas raízes e ancestralidade cultural, é não entender a escravidão no nosso país, nem a resistência ao sistema covarde e opressor que vivemos.

Arte sobre foto de Vincent Rosenblatt

 

Eu só quero é ser feliz
Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é
E poder me orgulhar
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar
Fé em Deus
Diversão hoje em dia não podemos nem pensar
Pois até lá nos bailes, eles vem nos humilhar
Fica lá na praça que era tudo tão normal
Agora virou moda a violência no local
Pessoas inocentes que não tem nada a ver
Estão perdendo hoje o seu direito de viver
Nunca vi cartão postal que se destaque uma favela
Só vejo paisagem muito linda e muito bela
Quem vai pro exterior da favela sente saudade
O gringo vem aqui e não conhece a realidade
Vai pra zona sul pra conhecer água de côco
E o pobre na favela vive passando sufoco

TIRAR O TEMER, uma nova esperança

Sofri na tempestade, agora eu quero a bonança
O povo tem a força, precisa descobrir
Se eles lá não fazem nada, faremos tudo daqui.

Ao som do tamborzão, letras reflexivas e politizadas de MCs Cidinho e Doca nos fazem enxergar uma realidade do que é viver em São Paulo, no Rio de Janeiro, Belo Horizonte ou Espírito Santo. É na região sudeste do país que historicamente está o maior número de “oportunidades de emprego”, mas é também na região sudeste que se concentra a maior desigualdade social. Ainda é um sonho para o retirante nordestino e sulista do país, imigrantes latinos e africanos, vir a selva de pedra buscar uma “oportunidade de uma vida melhor”.

São nas quatro capitais que se concentram o maior número de riquezas, mas também o maior número de favelas e descaso do poder público, um verdadeiro caos social.

Em meio as favelas, no vácuo do Estado responsável pelas mazelas do sistema e da opressão policial, surge o Funk, gênero musical representado por mais de 20 milhões de pessoas em todo Brasil: ritmo contagiante, alegre, combativo às desigualdades e opressões, e hoje o maior movimento cultural do país, que dialoga diretamente com jovens de todas classes sociais, das periferias até a classe média alta do nosso país.

É o Funk Consciente do Mc Menor do Chapa, ou Neurótico de Mc Pôneis, ou Pop de Ludmila, ao Ousado de Mister Catra, ou Ostentação de Mc Guime, o Contagiante de Mc Kelvinho até o Verde Cabuloso do Mc Neguinho do Kaxeta. Nosso patrimônio cultural é representado por todas essas vertentes dentro do mesmo gênero musical.

Entender o Funk é entender a estrutura social que vivemos. Um espelho real da vida concreta: com sua diversidade de gênero, sua polifonia étnica, das pessoas que curtem o ritmo musical ao reflexo de políticas públicas feitas nos últimos 13 anos de governos Lula e Dilma. Negar o Funk é negar as diásporas africanas, nossas raízes e ancestralidade cultural, é não entender os mais de 500 anos de escravidão no nosso país, da chegada das caravelas em nossas terras, à passagem do tempo por todas as eras, até a resistência ao sistema covarde e opressor que vivemos.

Em 2010, com a chegada do Funk Ostentação e as aparições positivas nos veículos da grande mídia, o Funk tem ocupado espaços que jamais pensaríamos estar ocupando, das passarela da São Paulo Fashion Week com lançamento da coleção da grife Amapô em 2015, acompanhado das cornetadas do som Show das Poderosas de Anitta, ao Passinho do Volante do quarteto Ah Lelek Lek Lek Lek Lek dançado pela Diva do Pop Americano Beyoncé na abertura do seu show no Rock in Rio de 2013.

Por essas e outras razões tentam proibir, criminalizar, discriminar e estigmatizar o Funk. É um diagnóstico cultural míope e preconceituoso, vindo de uma estrutura de pensamento eurocêntrica, que tenta impor uma hierarquização da música e das formas de produção cultural pautada pelo “erudito”.

De perto ou de longe, é importante conhecer sem preconceitos o que fazemos e produzimos, sob o risco de desconhecer a própria realidade. Afinal, somos responsáveis pelas coisas que falamos e fazemos e não por aquilo que as pessoas vêm ou acham que entendem.

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