Mais de 50 mil pessoas ocuparam a Praça Santos Andrade em Curitiba no dia 10 de maio. Foto: Luciano Luz / Mídia NINJA

Mais de 50 mil pessoas ocuparam a Praça Santos Andrade em Curitiba no dia 10 de maio. Foto: Eduardo Figueiredo / Mídia NINJA

“Eu não vim a Curitiba para defender o Lula.” Quando disse essa frase durante minha participação numa mesa de debates no acampamento da democracia em Curitiba, um silêncio se fez entre os presentes. Na sequência, expliquei lá e explico aqui!

O Brasil vive hoje um golpe de estado. Deram um golpe porque perderam as eleições em 2014 e não tolerariam mais um governo que estabelecesse mais direitos à maioria da população. O golpe veio pelo Parlamento. Há muito tempo empresários investem financeiramente nas eleições de deputados e senadores para representarem seus interesses.

A ruptura democrática tem como objetivo a retirada de direitos da classe trabalhadora. Nada a ver com pedaladas, que comprovadamente não existiram.

Deram o golpe para garantir que a maior parte do orçamento público vá para o setor privado, seja pelo pagamento da dívida, seja pela privatização de direitos como previdência, saúde e educação.

Estão impondo outro Estado Brasileiro, rasgando a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e fazendo uma nova Constituição, com as Propostas de Emendas Constitucionais (PECs 241 e 287). Não cabemos neste novo Estado Brasileiro. O povo não está inserido nele. Sem democracia, não avançamos em direitos. Não é figura de linguagem dizer que “nós pagaremos o pato!” Querem que o povo pague a conta de uma crise que não foi ele que criou, enquanto continuam mantendo seus lucros. A crise econômica que vivemos não é vivida por todos, é vivida somente pelo povo na sua luta diária por sobrevivência!

Numa democracia, temos condições de fazer as lutas, resguardadas pela Constituição. Sem democracia, entramos no vale tudo.

Vale atirar em criança, vale quebrar o cassetete na cabeça de um jovem, vale prender militantes sociais sem que tenham cometido nenhum crime, vale matar trabalhadores do campo, vale decepar as mãos de índios, vale processar um homem sem provas, vale utilizar prisão como mecanismo para alcançar delação com alvo previamente determinado, vale perseguir um ex-presidente da República pela ideologia que ele representa, vale fazer propaganda ironizando o nome de uma ex-primeira dama que morreu recentemente. Porque, se fôssemos debater a necessidade de processar ex-presidentes, estamos muito atrasados e começando pelo presidente errado.

O ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso, comprou a sua reeleição, vendeu a Vale do Rio Doce a preço de banana e outras privatizações que trouxeram prejuízos aos cofres públicos e lucros para os amigos que compraram (com dinheiro público) o patrimônio brasileiro. Mais de 200 deputados federais e senadores respondem processos de corrupção ou de caixa dois.

A lista de Furnas, comprovando a corrupção ligada a um partido político que perdeu as eleições em 2014 não foi apurada até agora! E temos um atual presidente que, além de ilegítimo, já foi condenado como ficha suja. Mas ele continua lá e nenhum PowerPoint conseguiu explicar isso até hoje!

Sei que, se este governo do Michel Temer continuar, o desemprego vai aumentar; as campanhas salariais não terão mais saldos positivos, o salário mínimo não será valorizado, o piso salarial da educação será sucateado. Com este governo, a CLT e a carteira de trabalho deixarão de existir, a Reforma da Previdência deixará milhares sem o direito à aposentadoria. A Universidade pública voltará a ser o que era: para os ricos.

Estar em Curitiba, nos dias 9 e 10 de maio, tiveram estes significados. Se uma pessoa inocente é condenada por sua origem, por suas opções ideológicas, pelo o que fez para a parcela excluída do povo brasileiro; se um homem é condenado para que não ameace o jogo político que só eles querem jogar, o próximo passo é a barbárie, o próximo pode ser você!

Por isso, estive em Curitiba. Por mim, pelos 14 milhões de desempregados, por uma sociedade democrática e inclusiva e para que o fascismo não crie raízes em nossa sociedade. Porque a ideia de negação da política, a criminalização e a destruição de quem pensa diferente são elementos estruturadores de uma sociedade fascista.

A criminalização e a destruição do Lula faz parte do jogo daqueles que deram o golpe.

Se eles tiverem sucesso neste objetivo, quem de fato pagará mais esta conta será o povo brasileiro. Defender o Lula agora é defender cada um de nós e qual futuro de país teremos!

Estar em Curitiba é defender o retorno da nossa democracia, é fazer uma correção histórica da injustiça praticada contra a primeira mulher eleita presidenta da República, Dilma Rousseff. Sem democracia, perdemos nossos direitos. Sem democracia, não andamos nas ruas sem o medo de uma emboscada, de um tiro ou prisão arbitrária. Por isso, a sua defesa é intrínseca à luta de cada categoria profissional. Se continuarmos com este governo, teremos apenas pautas e agendas defensivas! Sem avanços que melhorem a vida de milhões de brasileiros e brasileiras.

Ninguém terá êxito em suas lutas locais se perdermos a luta geral. Saíamos da luta de categoria e ingressemos na luta de classes.

Nós pertencemos a uma classe social; eles pertencem à outra e estão defendendo os seus interesses, que não são partidários, mas, econômicos e de projeto de sociedade. Façamos o mesmo. Ou perderemos! Um trabalhador me disse: “os ricos não precisam de presidente. Nós é que precisamos!”

Diferente da narrativa inverídica da mídia, a praça em Curitiba se encheu de povo, pessoas que viajaram 72 horas, trouxeram marmitas e passaram mais de 10 horas no ato pela democracia, debaixo de chuva, no frio!

Há dias que valem mais do que vários livros de história. Dia 10 de maio foi um destes dias!

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