Eu ainda sinto a presença dela nos ajudando a tomar decisões e a seguir em frente mesmo na dor. Às vezes dói tanto que eu prefiro parar e lembrar somente os momentos felizes que tivemos.

Marielle com sua família na Maré durante sua campanha em 2016. Da direita pra esquerda, irmã, sobrinha e afilhada, mãe e filha de Marielle, respectivamente Anielle Franco, Mariah, Marinete Silva e Luyara Santos. | Foto: Mídia NINJA

Um ano se passou desde o momento em que eu cheguei naquela rua no Estácio e vi a mão de minha irmã pendurada, com seu sangue escorrendo, e seus pertences no chão. Um ano se passou desde que eu recebi uma ligação que mudaria completamente minha vida. Um ano se passou desde que fui reconhecer o corpo de minha única irmã no IML. Um ano se passou desde que eu ouvi e vi seu último sorriso largo, me chamando de “naninha”. Um ano se passou desde que almoçamos pela última vez e falamos sobre todos os nossos medos, anseios, expectativas, amores, sonhos e metas. Um ano se passou desde que ela pegou no colo minha filha, que era, além de sua sobrinha, sua afilhada, e mordeu suas bochechas dizendo que a amava. Um ano se passou desde que meus pais disseram “Deus te abençoe, minha filha, e cuidado por aí”. Um ano se passou desde que eu acompanhei toda sua força e potência ao vivo naquela câmara. Um ano se passou desde que eu a vi olhando para Luyara, sua filha, e a admirando por ter passado no vestibular.

Um ano se passou dessa tragédia fatídica, e tudo mudou. Tudo mesmo!

Nesse ano, o que fizemos com nossa saudade e nosso luto foi algo que aprendemos com a própria Marielle. A força daquela mulher veio da força da própria família, que, desde nossa bisavó, sempre lutou contra o machismo e estereótipos em anos difíceis. Uma força que eu particularmente, não acreditei ter visto em ninguém. Uma força que todo mundo percebia e admirava no momento em que chegava.

Eu hoje lembro de nossa trajetória de vida, e vejo como, desde a minha infância, Marielle sempre foi minha inspiração, junto com minha mãe. Aos oitos anos, era ela quem me levava da escola para o meu treino de vôlei ou para a natação. Eu tinha o máximo respeito por ela e sempre tive. Admirava a esperteza dela e desejava crescer naquele formato. Eu olhava e pensava: caramba, minha mãe confia muito nela. Ela era ainda uma menina, mas já com tantas responsabilidades. Ela cuidava de mim, sua única irmã, caçula, com maestria e responsabilidade. Anotava toda as instruções em minhas reuniões de escola a que ela comparecia, por conta do trabalho dos meus pais, e quando chegava a casa, repassava tudo para eles de forma esplêndida.

Hoje trago comigo memórias de uma irmã que sempre teve caráter, valores, um coração gigante, força, afeto, e que lutou incansavelmente por dias melhores.

Dói-me muito saber que minha parceira não volta mais. Dói saber que não teremos mais nossos almoços de domingo regados a risadas e muita comida, sempre cheio de palavrão e brincadeira. Mas eu sei que de alguma forma ela está comigo. Hoje eu sinto que temos uma conexão de sangue e ancestralidade inexplicáveis. Eu ainda sinto a presença dela nos ajudando a tomar decisões e a seguir em frente mesmo na dor.

Às vezes dói tanto que eu prefiro parar e lembrar somente os momentos felizes que tivemos.

O pior de tudo é que não mataram somente a Marielle a tiros. Tentaram matar também a reputação e toda uma história que ela mesma tinha orgulho de contar. Foi por isso que nós decidimos agarrar esse legado e honrar o que sempre tivemos: caráter e força. Para nós da família, aquele sangue derramado aos poucos vai sendo vingado. Não vingado com violência ou ódio, mas sim com luta, amor, afeto, esperança e honra. Esse legado é nosso. Esse legado é de todas as mulheres negras, faveladas, bissexuais e de tantos outros grupos que lutam para serem aceitos e que sofrem há décadas na própria pele. Esse legado é de todos aqueles que gritam o nome de Marielle e lutam por dias e tempos melhores.

Foi um ano de luta, de mudança, de dor, de saudade, mas também de aprendizado e orgulho. Orgulho pelo o que ela tornou esse mundão. Orgulho por ver seu trabalho alcançando diversos países. Orgulho de saber que minha mãe gerou aquela mulher e eu convivi por 35 anos ao lado da maior e melhor política, mãe, esposa, filha, amiga e irmã. Por aqui seguiremos lutando. Lutando por justiça e dignidade.

Não nos calaremos diante de tantas atrocidades, e não recuaremos mesmo em tempos de fascismo. Por Marielle, eu luto, tu lutas e nós lutaremos.

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