Foto: Marcha das Favelas

No histórico sábado de 9 de junho de 2018, defendendo a legalização da maconha e das drogas, foi realizada a primeira Marcha das Favelas do Brasil. Em torno de 200 ativistas saíram da favela de Manguinhos, passaram por trás e pela frente da Cidade da Polícia, recuaram e atravessaram a favela do Jacarezinho, voltando pela boca de fumo de Manguinhos, onde alguns aproveitaram para fazer compras, tendo a marcha terminado no mesmo lugar da partida: o campo de society de Manguinhos, onde a bola rola sem parar, ao lado do maior centro de pesquisas do Brasil, a Fiocruz. Foi nessa fundação que o saudoso Pacheco realizou, antes de sua passagem, um curso de agente comunitário de saúde.

Morador do seu amado bairro do Jacaré, apelidado pelo próprio de Jahcaré, Pacheco foi um dos organizadores do movimento e sua alma estava lá. Em vida, o “velho barbudo”, como era carinhosamente chamado pelos sócios do primeiro Coffee Shop das favelas, ele marcava diariamente a sua presença no “Stuffa”. O copo vendido na Marcha das Favelas levava sua foto e sua famosa caricatura, maravilhosamente desenhada pelo grande artista Zanon.

O evento teve a participação fundamental do brilhante advogado Ricardo Nemer e dos incansáveis David e Felipe. O Coffee Shop do Xandão de Manguinhos, sob o embalo dos batidões selecionados por Raoni Mouchoque, formou a grande concentração. Roncos de motos do tráfico armado passavam no meio da mobilização fazendo o som e a performance do ato. Um pouco depois de 4:20 h. da tarde, após marcantes discursos de pessoas do lugar de fala, Felipe comandou a democracia direta. Com a necessária cautela que merecia o momento, perguntou aos presente se preferiam realizar um ato parado ali ou seguir a passeata. Por unanimidade, em votação, ganhou a proposta de saída da Marcha das Favelas. A corajosa e esperada decisão muito agradou os pioneiros da Marcha da Maconha de São Paulo, que vieram da capital paulista, pois não queriam perder esse momento histórico. O evento partiu acompanhando várias marchinhas do maravilhoso e engajado bloco da maconha “Planta na Mente”, cantando “um, dois, três, quatro, cinco, mil, vamos legalizar a maconha no Brasil.

O cenário das antigas fábricas e do histórico movimento sindical de trabalhadores foi o palco da primeira Marcha das Favelas pela legalização da maconha e de todas as drogas ilícitas vendidas nas comunidades. No mesmo lugar, operações policiais racistas são realizadas por rasantes de helicópteros a metralharem moradores negros e pobres em suas lotadas vielas perto da linha do trem da Central que cruza por dentro da favela do Jacarezinho.

Em plena intervenção militar, foi realizado o evento mais ousado contra toda essa política racista de Estado. Ao contrário da repressão policial militar, confessada por seus próprios comandantes e interventores como uma ação de “enxugar gelo”, a Marcha das Favelas levantou a proposta concreta e séria da legalização da venda do varejo das drogas. Enfrentou e pagou pra ver se um evento realizado todos os anos na orla de Ipanema seria proibido na Favela. O evento foi tranquilão: como em Ipanema, a polícia acompanhou o ato de longe, sem repressão. Muito moradores observaram que a maconha é fumada abertamente nas favelas, assim como na orla do Leme ao Pontal. No entanto, muito diferente de Ipanema, a repressão policial é muito mais violenta com quem fuma maconha na favela. Por isso, a igualdade de tratamento foi cobrada pela pioneira Marcha das Favelas pela Legalização.

Rio de Janeiro, 13 de junho de 2018

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