(FOTO: JULIA RODRIGUES)

(FOTO: JULIA RODRIGUES)

Enquanto a ciência falava de nós, pessoas trans, e estávamos quietinhas em nosso lugar, felizes pela atenção recebida, parecia estar tudo indo muitíssimo bem. Mas à medida que esses discursos falando de nós ou, melhor, mesmo falando de nós foram se firmando um campo de estudos relevante para se pensar o gênero e a própria condição humana, acabamos nos dando conta da importância do nosso olhar, da nossa perspectiva privilegiada, e sentindo a necessidade de começar a pleitear participação nesse espaço, agora não mais como objetos de estudo apenas e, sim, como produtoras de conhecimento.

E nisso o primeiro choque: passarmos a acreditar não só que podíamos falar de nós (o que somos, o que deixamos de ser), como também que isso que tínhamos a dizer merecia atenção, ser levado em conta. À psiquiatria devemos o nome que nos permitiu existir, transexualismo, travestismo, mas assim que tomamos as rédeas de nossa existência, junto fomos nos apercebendo das limitações desse olhar patologizador e de o quanto ele nos impunha um eterno estado de subserviência em relação aos saberes médicos (laudos, cirurgias, terapia hormonal, tratamentos estéticos) e em relação às noções pré-estabelecidas de homem e mulher.

Sim, primeiro tivemos que virar doentes mentais (“pessoas que sofrem de transtorno de identidade de gênero”) para, só então, podermos começar a reivindicar um lugar ao sol.

Hoje, no entanto, quanto mais nosso lugar ao sol vai se assegurando, mais ganhamos confiança para questionar os limites estreitos do cercadinho que puseram à nossa volta, cercadinho que, no fundo, tudo o que quer é evitar que ameacemos a estrutura opressora, sexista que nos forma a todos, trans e não-trans.

“Ser mulher é ter ou querer ter vagina”, “ser homem, pênis”, “trans de verdade odeia o próprio genital”, “tem horror a se masturbar”, “precisa ser hétero” (senão é só caso de fetichismo, vê se pode!)… a psiquiatria cria essa ficção para nos dar nome, mas trata como inatos esses atributos todos, nunca os pondo em questão, nunca se perguntando o quanto a sociedade em questão (suas verdades, seus dogmas) não seria responsável por fazer com que tivéssemos uma relação complicada com nossos corpos e sexualidades.

Dez anos atrás, você só conseguiria retificar seus documentos se tivesse passado por uma cirurgia de redesignação sexual (a famosa “mudança de sexo”), mas hoje cada vez mais a justiça vai se apercebendo do quão absurdo é estabelecer cirurgia como pré-requisito para a retificação, uma vez que as filas no SUS podem levar décadas, uma vez que não é tão simples termos 40 mil reais sobrando para fazer no particular, uma vez que muitas pessoas trans só desejam fazê-la por ela permitir que o Estado reconheça oficialmente a nossa identidade, uma vez que nem todo mundo quer cirurgia.

O “trans de verdade” dos manuais médicos já não encontra respaldo nos discursos que a comunidade trans constrói sobre si.

A gente está cada vez afirmando com mais força a verdade das expressões “mulher com pênis” e “homem com vagina” (verdades que vão garantindo que as próximas gerações trans possam pensar a si mesmas para além desses discursos patologizantes). O primeiro choque foi quando se deram conta de que o que tínhamos a falar de nós merecia atenção, imagina quando descobrirem que a gente não sabe falar só de nós, mas também do não-nós, eles.

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