Tema da redação do ENEm de 2015 foi a violência contra a mulher.

ENEM às vésperas de ocorrer e surge uma decisão judicial determinando a inconstitucionalidade da norma que estabelecia nota zero, sem direito a correção, às redações que atentassem contra os direitos humanos. O enunciado (invalidar a norma que zera redações que atentem contra os direitos humanos) é por si só assustador e me faz pensar em como ainda é possível dizer esse tipo de frase em voz alta.Foram zeradas no último ENEM redações, por exemplo, que defenderam a supressão da liberdade de expressão como forma de combater a intolerância religiosa ou, então, que propuseram a implantação de uma doutrina única para todo o país, para além de casos mais radicais como o da proposta de proibição de todas as religiões e também o do retorno do olho por olho, dente por dente: “que a cada agressão cometida o agressor receba na mesma medida, tanto agressões físicas quanto mentais”.

O que levaria o critério que anulou essas redações a ser considerado por demais subjetivo (motivo que orientou a decisão do magistrado sobre a inconstitucionalidade da norma do ENEM), mas não o que recentemente levou às diversas proibições da peça teatral em que Jesus é vivido por uma travesti, “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu”?

É como se a liberdade de expressão de alguns (e sabemos bem quais “alguns” seriam esses) devesse ser resguardada, assim como o direito à liberdade religiosa de algumas religiões específicas, não todas. É como, também, se disséssemos que os estabelecimentos de ensino (orientados que estão pelos conteúdos que caem no ENEM e nos vestibulares) não devessem se pautar por construir uma sociedade onde grupos os mais diversos conseguissem conviver respeitosamente.

A retirada do debate de gênero dos Planos de Educação, o avanço do Escola Sem Partido Brasil afora, a autorização do ensino religioso em escolas públicas (e, novamente, sabemos quais as religiões que serão “ensinadas”), aí agora o ataque ao ENEM, instituição que vem se notabilizando por querer peitar tanto o fundamentalismo religioso (não à toa o tema da redação passada, “intolerância religiosa”), quanto o machismo que permeia nossa cultura (redação sobre violência contra a mulher dois anos atrás, exercício discutindo Simone de Beauvoir, etc).

Tudo isso se trata de retaliações ao que mulheres, pessoas negras e LGBTs têm conquistado nos últimos tempos.

Nunca se falou tanto de gênero, sexualidade e da questão racial, nunca esses movimentos tiveram tanta voz quanto hoje, tanto alcance, seja em escolas, redes sociais ou mídia, e a resposta a isso é uma tentativa de nos calar por decreto, de cima para baixo, inviabilizando as brechas que construímos para também poder chamar de nossa a sociedade.

O conservadorismo vem sentindo a necessidade de se organizar para frear nossas conquistas, para nos varrer de volta pra debaixo do tapete, e isso é sinal evidente da nossa força, sinal de que incomodamos e de que já não nos bastam os guetos.

Prova disso é a importância que a literatura de autoria feminina vem assumindo, o debate feminista e negro impactando os vestibulares, a aprovação de cotas étnico-raciais em cada vez mais universidades públicas. Quatro anos atrás, no ápice das discussões sobre racismo na obra de Monteiro Lobato, a Unicamp (que possui o acervo desse escritor) decidiu colocá-lo na sua lista de livros obrigatórios, mas, agora, a mesmíssima universidade julgou por bem tirar esse autor da lista e colocar no lugar “Quarto de despejo — Diário de uma favelada”, de Maria Carolina de Jesus, para o desespero de racistas e machistas que sequer consideram literatura a obra dessa mulher incrível.

Acham que foi por acaso, por serem bonzinhos?

Sinal da nossa força, não nos esqueçamos disso.

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