Foto: Mauricio Savarese, AP

Pergunte a qualquer mulher trans quais as duas frases que a gente mais ouve quando sai à rua e a resposta será justamente “vira homem” e o seu oposto, “é homem” (ou então essa modalidade ainda mais radical que encontrei num tweet sobre a Tifanny, jogadora de vôlei do Bauru: “essa Tifanny é mais homem do que eu”). Ambas as coisas, ditas pela mesma pessoa às vezes, o que chega a ser desconcertante. A primeira delas diz que não somos ou não estamos sendo homem (e implicitamente parece defender que deveríamos sê-lo, nosso dever), a outra parece querer nos lembrar do genital que temos ou que já tivemos (não se esqueçam das cirurgias cada vez mais comuns, feitas no SUS inclusive).

Nem precisa dizer que 100% das vezes quem grita essas frases pra nós, quem sente a necessidade de gritá-las, é um homem cis. E basta ir fuçar nas redes sociais pra descobrir que são também homens cis os maiores incomodados não só com a existência da jogadora Tifanny, mas com sua autorização para disputar as modalidades femininas do vôlei. E por que mulheres trans deixam esses homens assim tão mexidos, por que a Tifanny os amedronta tanto?

Sobretudo, por termos nascido com o mesmo genital que esses seres e termos sido criadas para ser exatamente o que eles são. Mas eles são o que são, nunca tiveram ou se permitiram dúvida, nunca puderam se imaginar outra coisa (pra isso é que serve o bullying, as violências todas que recebem desde o berço até começarem eles próprios a conseguir repeti-las em cima de seres mais frágeis, criados pro mesmo destino), enquanto nós somos o exato contrário.

Nós recusamos esse caminho, recusamos inclusive a palavra “homem”, e inventamos outras formas de existir que não essa, formas livres demais, formas que não têm regra fixa, eis o risco. Se for possível nascer como eles, mas ir por outro caminho, se for possível ter pênis como eles têm e nem por isso ter que obrigatoriamente ser homem, as verdades que guiaram suas vidas e que eles repetiram feito mantra de repente entram em xeque.

Ao legitimarem nossa existência, ao deixarmos claro que genital não diz o que somos, como devemos ser, junto vamos desafiando as pessoas que existiam de acordo com essas verdades a terem que buscar outra explicação para o que elas são. E se nós, além de ocuparmos as ruas, além de sermos vistas em cada vez mais lugares, também formos nos tornando referência nos debates, artes, esportes, imagina o pânico!

[Nascer com pênis já não é garantia de nada, ainda mais quando homens trans, homens como Thammy Miranda, Tarso Brant, Buck Angel, João W. Nery, começam a disputar a palavra homem e mostrar outras formas de sê-lo, formas de inclusive sê-lo sem pênis.]

Há algo na nossa existência que ameaça a ordem e essa ameaça é amplificada quando a sociedade passa a reconhecer como legítima a nossa forma de existir. Tifanny receber autorização para jogar as modalidades femininas é um sinal explícito desse reconhecimento, é a sociedade tendo que se reinventar, rever suas normas para que caibamos nela, para que não sejamos mais excluídas, violentadas. E é nessa hora que esses homens criados para serem homens trarão ao debate todo o acervo de verdades que orientou sua existência:

  • mesmo se mutilando, nunca vai ser mulher
  • usar vestido não te faz mulher
  • opção sexual não te faz mulher
  • não existe mulher com pênis

E por aí vai. Percebam: é preciso vociferar isso tudo, reavivar tais verdades, pois se alguma delas cair, isso significaria que corpos como os que eles têm podem talvez vir a ser corpos de mulher, e mulher é tudo o que a cultura machista mais os ensinou a desprezar (“não perco pra mulher nem de brincadeira”, frase comum de se escutar entre homens, bastante ilustrativa).

O mais engraçado é ver que, na hora do desespero, vão apelar inclusive para uma das entidades que mais abominam, a das feministas (“cadê as feministas que não se revoltam contra esse homem?”, “as feministas têm que lutar pelas mulheres biológicas!”), e vão começar ainda a conceber a possibilidade de oportunistas se submeterem a cirurgias de redesignação sexual pra poderem jogar contra mulheres (“o que vai dar de homem fracassado operando pra se dar bem no esporte”)… justo eles que acreditam que o mundo gira em torno do pênis, justo eles sendo capazes de imaginar alguém recorrendo a essa operação, já pensou?

E, aliás, você já deu uma olhada em quem tá desse lado da luta? Te incomodaria descobrir que na cruzada contra a Tifanny já garantiram lugar Malafaia, Feliciano, Fernando Holiday, Alexandre Frota e toda espécie de bolsominions?

Vão de todas as maneiras te tentar fazer acreditar que estão se posicionando assim por uma finalidade altruísta, o “bem das mulheres” (“covardia um marmanjo desses dando pancada em mulher”), mas no fundo a gente sabe bem que estão fazendo esse barulho todo só pra se protegerem dessa verdade incômoda, dessa verdade que fica escancarada onde quer que nossos corpos surjam: a de que o genital não define o que somos, não define como podemos viver. Querem continuar acreditando que você é o que o seu genital diz, mas genital não fala e nós não vamos mais viver nas sombras.

Amanhã é dia de ver o Bauru da Tifanny brilhar em Barueri, às 19h30, contra o Hinode do técnico da seleção Zé Roberto Guimarães, amanhã é dia de mais uma caravana saindo às 18h das catracas da Barra Funda pra encher o ginásio de pessoas trans gritando:

 

“TEM TRANS NA ARQUIBANCADA,

MAS TEM TAMBÉM NA QUADRA”

Nos vemos lá! <3

Vôlei Hinode/Barueri vs Vôlei Bauru

Ginásio Poliesportivo José Corrêa (perto da estação CPTM Barueri)

Dia 16/02, às 19h30 (entrada gratuita)

 

https://www.facebook.com/events/195707904513570/

 

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