Gif: Mídia NINJA

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O mundo discute o futuro da sala de cinema. Com a chegada de Netflix, Amazon, HBOGO, NOW, Globoplay, e a possibilidade de escolher o filme no conforto do sofá, qual o destino da sala tradicional?  “Como cineastas, criamos filmes que convidam os espectadores a adentrar em outros mundos”, saiu em defesa da sala escura de cinema Steven Spielberg.

Pensando nisso, quero falar da experiência de implantar e gerir salas públicas de cinema em São Paulo.

Sou aficionado por séries e usuário de Netflix, logo não quero reivindicar uma visão nostálgica do cinema, mas repensar seu papel nos dias de hoje.   

Faz um ano inauguramos o Circuito Spcine. Ele viria a se tornar (para minha surpresa) a maior rede municipal de salas públicas do mundo, com 20 pontos e programação regular em São Paulo. O país deu uma reviravolta desde a primeira inauguração lotada no CEU Butantã, o que faz parecer mais tempo. O circuito também se estabeleceu e chega hoje perto dos 500 mil espectadores, podendo chegar a 1 milhão de pessoas em breve, maior parte jovens da periferia sem condições de pagar o ingresso de uma sala de shopping.

Com ingressos gratuitos ou preços populares, o circuito se tornou uma das políticas públicas culturais de maior alcance nas periferias dessa desigual metrópole que é São Paulo.

O circuito tem 5 características: uma oferta regular de cinema nos bairros sem salas comerciais (quase a periferia inteira da cidade); uma programação balanceada com lançamentos populares de boa qualidade (animações como Minions e Snoopy, terror, comédias) e filmes atuais de países como Argentina, Itália e Colômbia; e é claro, Brasil. Garante-se 50% do espaço para o cinema brasileiro.  Qualidade de exibição, projeção e som tecnicamente igual ou melhor a da sala de shopping. E – ponto fundamental – aproveita espaços públicos já existentes, como CEUs e bibliotecas, fortalecendo sua ocupação e uso.

A experiência de implantar a Spcine e esse circuito foi cheia de momentos emocionantes.

Ouvimos diversos relatos sobre a primeira ida ao cinema, em especial de crianças e jovens. E também idosos, cadeirantes, professores estudantes, todos indo pela primeira ou segunda vez.

30% da população das classes D e E de São Paulo nunca foi ao cinema. Mas há o avesso deste número.

Em pleno século XXI  – uma era em que filmes cabem no celular, a periferia ensina o quanto uma sala de cinema pode ser necessária, e  num sentido mais profundo. Ano passado, enquanto circulávamos pela periferia de São Paulo para inaugurar os cinemas, os gerentes das salas (eles também oriundos das comunidades) descreveram alguns frequentadores do circuito:

“Um garoto que mora em Ferraz vai sempre a pé até Itaim (uma caminhada de aproximadamente uma hora) para assistir as três sessões de domingo.”

“Tivemos um caso muito interessante de um rapaz, com cerca de 40 anos, que assistiu conosco pela primeira vez o filme e saiu da sala chorando. Ao ser questionado pela equipe se estava tudo bem, respondeu ser a primeira vez na vida tendo a experiência com o cinema e por isso estava muito emocionado com a sensação que presenciou.”

“Um pai que pediu pra passar 3 sessões infantis no mesmo dia porque ele iria ficar o dia todo com os 6 filhos no cinema e deixar a mãe de folga.”

“O dono da Lanchonete que fica em frente ao Céu, continua levando a esposa toda sessão e aplaudindo todo final de filme. Mesmo quando ele não gosta, ri e  fala: ´Esse filme eu não vou pagar não´.”

“Em Aricanduva, a turma da pista de skate já ‘bate cartão’ toda quinta feira para as estreias e  virou um evento passarem nas quartas-feiras para verem as trocas de cartazes. E assim saber quais os filmes que vão estrear.”

“No CEU Três Lagos custa sair da cabeça a mulher com seus 5 filhos que religiosamente vai todo domingo assistir as duas primeiras sessões. Dois de seus filhos tem deficiência cognitiva e ela leva as crianças porque percebe que eles ficam mais calmas no decorrer da semana.”

Minha percepção desses poucos meses de atividade se resume com a frase que escutei de um senhorzinho ‘japonês’ que vai todos os dias no CCSP: “O cinema não tem fronteiras nem limites, ele é um constante fluxo de sonhos”.”

São depoimentos que trazem ao primeiro plano a paixão pelo cinema. E revelam usos do cinema como um espaço de qualificação das relações sociais.

A possibilidade de paz, convívio e lazer em meio a um contexto urbano agressivo, carente de espaços públicos e culturais.

Uma espécie única de deslumbramento e concentração que pode ser um fator de equilíbrio na saúde mental das grandes cidades.

O circuito colocou em evidência as barreiras sociais. O preço do ingresso e da pipoca no Brasil é alto, mas há a distância dos equipamentos, a falta de hábito, interesse e de tempo. Filhos de pais que não frequentam salas de cinema tendem a não frequentar, assim como filhos de pais não leitores tendem a não ler livros. Essa reprodução da desigualdade pode ser quebrada por uma sala de cinema próxima, com uma programação que dialogue com a comunidade e garanta espaço para os grupos culturais locais.

A transformação subjetiva que o cinema é capaz de produzir nas pessoas é essencial para um cidadão do século XXI.  

O sucesso de público nas salas Spcine mostra que no escurinho do cinema a população busca o próprio sentido de viver em grandes cidades.

É a busca por qualidade de vida, oportunidades, informação, autonomia e liberdade.

Programas assim seriam importantes em todas as grandes metrópoles brasileiras, assim como o resgate de salas antigas nos centros históricos. Digo isso com absoluta consciência de ter contado com ótimas condições “meteorológicas”: uma equipe preparada, um Prefeito a frente de seu tempo (Fernando Haddad) e secretários de cultura (Juca Ferreira, Nabil Bonduki e Rosario Ramalho) que ofereceram todo o suporte necessário. Fizemos o balanço de 2 anos desse trabalho, ano passado, logo antes de eu me despedir da empresa. Desde o início do ano, a Spcine continua com sucesso esse trabalho, já numa nova gestão.

Por tudo isso acredito que as salas continuam necessárias no mundo de hoje, e tendo a concordar com Marin Karmitz (criador de uma das maiores redes de salas da Europa) que defende o caráter multiuso das salas e articulado com outras funções sociais e culturais.

É fundamental a experiência social e estética nesse mundo antissocial, em que o tempo é fragmentado, simultâneo e instantâneo.  A experiência de adultos que, em pleno século XXI, foram pela primeira vez a uma sala escura me estimulou muito a repensar a sala de cinema em grandes cidades.

Como geradora de qualidade de vida e desenvolvimento local.

São evidências de que a sala de cinema não apenas tem futuro como será ainda, por bastante tempo, capaz de mudar o mundo e a vida das pessoas.  

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