Podem ter roubado seus dados do Facebook para alterar o resultado da eleição

Podem ter roubado seus dados do Facebook para alterar o resultado da eleição

Alerta! Podem ter roubado seus dados do Facebook para alterar o resultado da eleição para Presidente do Brasil, divulgando mentiras e desinformação de forma massiva pelo WhatsApp com recursos ilícitos.

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Por enquanto a afirmação acima é apenas uma suposição, já que não há dados suficientes que me permitam afirmar que isso ocorreu de fato. Mas o alerta é fundamental e o questionamento muito pertinente, já que se trata de uma interferência grave que pode alterar o resultado da eleição, e isso é um crime contra a democracia.

O tema é ainda mais relevante porque não parte de uma teoria conspiratória, parte da premissa de que isso já aconteceu, pelo menos na eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e do resultado do plebiscito para que o Reino Unido se retirasse da União Europeia, que ficou conhecido como Brexit.

Nos dois episódios acima e na eleição brasileira há um personagem comum: Steve Bannon.

Além disso, em todos os casos ocorreu um fato importante – o vazamento de dados de usuários do Facebook, que ficou conhecido como escândalo do Cambridge Analytica.

Uma breve retrospectiva do escândalo

Em 2015, dados de mais de 80 milhões de usuários do Facebook foram coletados de forma indevida por um aplicativo que tinha autorização para realizar uma pesquisa acadêmica sobre comportamento baseado em psicometria na rede social. Esses dados foram vendidos para uma empresa de tecnologia britânica, Cambridge Analytica, que os usou para influenciar de forma definitiva as eleições nos Estados Unidos em 2016. Parte dos dados também foram usados por outras empresas para influenciar na campanha do Brexit no Reino Unido.

E quem foi o estrategista e mentor intelectual desse processo? Steve Bannon, que foi vice-presidente da Cambridge Analytica, e conselheiro e estrategista da campanha de Donald Trump. Bannon foi braço direito do presidente norte-americano até agosto de 2017, quando foi demitido.

Quem é Steve Bannon

Bannon é um ultraconservador de direita que tem atuado para desestabilizar governos em várias partes do mundo. Ele é o fundador do site de ultra-direita BreitBart News e é um dos articuladores de um movimento nacional-populista na Europa.

Bannon tem trabalhado para produzir uma onda nacionalista, de caráter xenofóbico e racista. Para disseminar suas mensagens e atingir a emoção das pessoas a seguir a sua ideologia populista de direita antistablishment, como ele mesmo denomina, o estrategista utiliza os dados pessoais coletados de forma indevida das plataformas — principalmente o Facebook.

Com informações como gênero, faixa etária, religião, interações, buscas realizadas e outros dados, é possível traçar um perfil psicológico, e com os números de telefone vazados direcionar desinformação, mentiras que reforcem os medos e preconceitos e, assim, alavancar candidaturas ou destruir outras através do submundo do WhatsApp.

E o que tudo isso tem a ver com a eleição no Brasil?

Bom, vamos a cronologia dos fatos.

Em agosto de 2018 Eduardo Bolsonaro se encontra com Steve Bannon em Nova York, onde acerta uma “contribuição” do estrategista político a campanha do pai. Ele tuitou o encontro no dia 03 de agosto: “Conheci hoje Steve Bannon, estrategista da campanha de Trump. Conversamos e concluímos ter a mesma visão de mundo. Ele afirmou ser entusiasta da campanha de Bolsonaro e certamente estamos em contato para somar forças, principalmente contra o marxismo cultural”.

À revista Época, o filho de Bolsonaro afirmou: “Bannon se colocou à disposição para ajudar. O suporte é dica de internet, de repente uma análise, interpretar dados, essas coisas”.

Bem, entre os dias 14 e 18 de setembro ocorre um ataque ao Facebook explorando três falhas de segurança nos tokens de acesso de quase 90 milhões de contas. A informação só veio a público no dia 25 de setembro, uma semana depois, quando a plataforma desconectou automaticamente cerca 90 milhões de usuários, mas sem fornecer maiores detalhes do vazamento.

Nesta quarta-feira, 17 de outubro, uma atualização da notificação de segurança foi enviada pela plataforma para os usuários que tiveram comprovadamente suas contas afetadas. Eu sou uma delas. Nesta notificação, há um detalhamento de quais informações foram coletadas. 

Minha conta do Facebook foi afetada por esse problema de segurança?

Sim. Com base no que descobrimos até o momento em nossa investigação, os invasores acessaram as seguintes informações das contas do Facebook: Nome, Endereço de e-mail principal, Número de telefone mais recente adicionado, além disso, os invasores acessaram outras informações das contas, como:

  • As seguintes informações associadas à conta do Facebook: Nome de usuário, Data de nascimento, Gênero, Tipos de dispositivos usados para acessar o Facebook, O idioma escolhido para usar no Facebook.
  • Se você adicionou as seguintes informações específicas à conta do Facebook, elas também foram acessadas: Status de relacionamento, Religião, Cidade natal, Cidade atual, Trabalho, Educação, Site.
  • As dez localizações mais recentes nos quais você fez check-in ou foi marcado. Essas localizações são determinadas pelos locais mencionados nas publicações, como pontos de referência ou restaurantes, e não pelos dados de localização de um dispositivo.
  • As 15 pesquisas mais recentes inseridas na barra de pesquisa do Facebook.
  • Páginas ou pessoas que você segue no Facebook.

Com base no que descobrimos até o momento em nossa investigação, os invasores não conseguiram acesso a determinadas informações, como: Senhas de contas, Informações de cartão de crédito ou de pagamento.

Será que estamos diante de uma interferência na eleição brasileira?

Até 18 de setembro, Bolsonaro estava crescendo dentro da margem de erro nas pesquisas. Ele estava em segundo lugar oscilando entre 26 e 28% das intenções de voto. No dia 14 de setembro, Fernando Haddad assume oficialmente a candidatura a presidente e começa a crescer.

Bolsonaro começa a despontar no final de setembro e é na primeira semana de outubro que cresce uma onda conservadora que resulta numa votação expressiva do candidato do PSL à presidência e de outras candidaturas ligadas a ele, algumas desconhecidas e que nem apareciam nas pesquisas como o candidato ao governo do Rio de Janeiro, Wilson Witzel e no Rio de Janeiro, Romeu Zema.

Nesta quinta-feira, 18/10, o jornal Folha de São Paulo trouxe reportagem de capa dizendo que empresários estão comprando envios em massa no WhatsApp para divulgar os conteúdos de Bolsonaro. Além de o fato ser crime eleitoral, porque configura caixa 2, é preciso perguntar: como estão construindo essa base de contatos telefônicos de WhatsApp? Lembre-se que o Facebook já confirmou acima que um dos dados vazados é exatamente o número de telefone dos usuários.

Claro que tudo pode ser apenas mera coincidência. Mas o papel de um jornalista e das organizações sociais é questionar, fazer perguntas. Como se desenvolve essa campanha de Bolsonaro? Como a campanha está conseguindo esses contatos telefônicos para envio de mensagens em massa de mensagens de WhatsApp? Como Steve Bannon está ajudando de fato na campanha?

E ainda:

  1. Há ou não relação entre a enxurrada de mentiras e desinformação que o candidato do PSL coloca na rede com o vazamento dos dados do Facebook?
  2. Quantos usuários brasileiros foram afetados pelo vazamento?
  3. De que regiões do Brasil?

Ainda não há informações de quantos usuários brasileiros foram afetados, mas pipocam relatos de pessoas em todo o país dizendo que receberam a notificação do Facebook. Esse episódio configura gravíssima quebra de privacidade dos usuários e a rede social deveria prestar informações mais detalhadas além da origem do ataque.

Isso é relevante porque o padrão de campanha de difamação utilizando o WhatsApp e o Facebook promovido por Bolsonaro se assemelha muitíssimo à campanha de Trump e do Brexit.

O TSE, que até o momento está inerte diante de uma campanha impulsionada por mentiras e difamação, deveria cobrar explicações mais rigorosas do Facebook – principalmente porque a Lei eleitoral beneficiou essa plataforma ao permitir que as campanhas pagassem para impulsionar posts de candidatos no Facebook.

O Tribunal deveria, também, cobrar explicações de Bolsonaro sobre a participação de Steve Bannon em sua campanha, um homem que está atuando em vários países de forma no mínimo questionável.

O envio massivo de mensagens via WhatsApp também tem que ser apurado. O ex-diretor do DataFolha, Mauro Paulino, diz que as pesquisas no final do segundo turno são incompatíveis com o resultado da eleição e que os institutos identificaram na reta final uma onda que pode estar relacionada ao uso massivo e indevido de mensagens via whatsapp para impulsionar as candidaturas no RJ, DF e MG.

Não podemos ficar numa zona cinzenta e cheios de dúvidas sobre se houve ou não uma intervenção indevida no processo eleitoral do país.

Precisamos saber, ou melhor, temos o direito de saber se o vazamento de dados pode estar sendo utilizado para manipular as eleições no Brasil.

 

 

Jean Wyllys: Operação Lava-Zap

Jean Wyllys: Operação Lava-Zap

#Caixa17 | Arte: Ribs

Parte da imprensa está preferindo, sabe-se-lá a troco do quê, omitir o escândalo denunciado por Folha de São Paulo em sua edição de hoje. O jornal obteve acesso a materiais claríssimos sobre a atuação de grandes empresários para financiar de forma ilegal a estratégia de campanha da equipe de Jair Bolsonaro.

Folha teve acesso a dados que apontam para quem pagou, quem recebeu e de que forma foram entregues os chamados pacotes de mensagens distribuídas por whatsapp e perfis falsos no Facebook, boa parte delas notícias falsas.

Estima-se que os pacotes teriam custado até 12 milhões de reais cada, valor muito superior ao montante até agora declarado pela campanha de Bolsonaro, o que configura #Caixa2doBolsonaro

O assunto, claro, não é surpresa para ninguém. Nos últimos dias as redes foram inundadas de materiais absurdos. Desde boatos que associavam Haddad à pedofilia até falsas mensagens e declarações de sua vice, Manuela D’Avida. A novidade consiste na demonstração de provas cabais.

Eu, mesmo, como muitos sabem, fui um dos alvos preferidos desta quadrilha. Aproveitando-se da pré-disposição das pessoas em acreditar em calunias sobre LGBT’s orgulhosos das suas identidades, a campanha de Bolsonaro tentou me associar a um filme apócrifo sobre a Bíblia, à suposta tentativa de autorizar crianças a trocar o próprio sexo e também à pedofilia, entre outras manchetes criminosas.

Por este motivo tomei a iniciativa de protocolar junto a Procuradoria-Geral Eleitoral um pedido de instigação da matéria de Folha de São Paulo e dos seus argumentos. Se tudo for comprovado, e parece muito difícil que não o seja, a obrigação da justiça é punir todos os responsáveis e reparar os danos causados pela organização criminosa.

Bolsonaro é acusado de caixa dois para envio de mensagens contra o PT no whatsapp

Bolsonaro é acusado de caixa dois para envio de mensagens contra o PT no whatsapp

Investigação diz que 12 milhões foram investidos por empresários para divulgação pelo app

Foto: Alessandra Angelis

Jair Bolsonaro (PSL) está recebendo investimento de empresários para campanha contra o PT no whatsapp, de acordo com investigação do jornal Folha de S. Paulo divulgada nesta quinta-feira, 18. Segundo o periódico, o candidato teria recebido em torno de 12 milhões para a campanha, prática que é considerada crime eleitoral.

A reportagem ainda indica que na próxima semana, que antecede as eleições, os empresários estão planejando uma ofensiva em massa, tanto para divulgação de Bolsonaro, quanto para campanha contra o PT.

A intensa e milionária movimentação no whatsapp mostra como a rede é importante para a construção do eleitorado bolsonarista: pesquisa do Datafolha, publicada no último dia 02/10, mostrou que 61% dos eleitores do militar acompanham informações sobre política no app, e 40% compartilham essas notícias.

Além disso, a distribuição de boatos e notícias falsas já marcam a eleição, tanto porque analistas apontam que o TSE falhou em contar a onda de mentiras distribuídas pelo whatsapp, quanto pela influência delas no resultado final das eleições.

Entre os grupos empresariais que estariam investindo na campanha de Bolsonaro, está a Havan, de Luciano Hang, notório apoiador do militar nas redes sociais, e que chegou a ser acusado de coagir funcionários da rede a votarem em seu candidato.

Eles compram um serviço chamado “disparo em massa”, usando bases de usuários tanto comprados em agências, quanto do próprio Bolsonaro. As agências que realizam os envios conseguem segmentá-lo por território e por classe social dos usuários.

O custo de envio varia, conforme o dono da lista. Se a lista for do próprio contratante, cada disparo fica de R$ 0,08 a R$ 0,12. Se a base for da agência, o custo vai de R$ 0,40 a R$ 0,50. Em alguns casos, as bases são vendidas clandestinamente por funcionários de empresas de telefonia.

A legislação permite o envio de informações apenas para bases construídas voluntariamente, ou seja, quando o eleitor dá o seu número. Em todos os outros casos a prática é ilegal.

As empresas que, conforme informa a investigação, estão prestando serviços para os disparos são a Quickmobile, Yacows, Crock Services e SMS Market.

Na prestação de contas da campanha de Jair Bolsonaro, consta apenas a empresa AM4 Brasil Inteligência Digital para a comunicação, no valor de R$ 115.000,00 para mídias digitais. Sendo assim, caso se confirme, o candidato estaria fazendo caixa dois, o que se configura como crime eleitoral.

Tanto Hang, dono da Havan, quanto as agências e a AM4 negam as acusações, alegando que o alcance das publicações são orgânicos, e não houve investimento ilícito para promover os conteúdos.

Economia pelo bem viver

Economia pelo bem viver

Foto: Juliana Afonso

por Áurea Carolina

Em suas diferentes facetas, o golpe político-jurídico-midiático consumado em 2016 afeta profundamente as lutas por justiça econômica e pelo bem viver no país. Uma das suas expressões mais nefastas é a aprovação, pelo Congresso Nacional, da Emenda Constitucional 95, o “Teto dos Gastos” (derivada da PEC 241/55), que congela o gasto público real por 20 anos. A longa duração da medida, sua vinculação à Constituição e sua inflexibilidade, que impede a correção pelo crescimento ou aumento populacional, fazem com que seja uma política de austeridade sem precedentes no mundo.

Em paralelo, políticas sociais muito importantes de enfrentamento à pobreza e às desigualdades sofrem as consequências de um processo deliberado de sucateamento. Importantes ministérios e secretarias são unificados e/ou extintos, equipes são reduzidas e orçamentos são contingenciados em favor de um novo regime fiscal supostamente dedicado a “salvar o país” da recessão e da crise. Em conjunto, o que se observa é um desmonte acelerado (e invisibilizado) das políticas sociais no país, conquistadas no processo de redemocratização brasileira.

Essa situação tem aprofundado as já abissais desigualdades socioeconômicas da nossa sociedade, com impactos desproporcionais para quem já está em situação de vulnerabilidade. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo: de acordo com pesquisa da Oxfam Brasil, os cinco homens mais ricos concentram a mesma riqueza que os 50% mais pobres da população. Para piorar a situação, especialistas têm apontado um risco iminente de retorno ao Mapa da Fome da ONU, que o país havia deixado em 2014.

Além disso, a dinâmica da economia em nosso país está estritamente ligada ao histórico de opressões sofridas por diversos grupos sociais. Segundo o IBGE, os indicadores de pobreza são maiores em função da cor, do sexo e da estrutura familiar: uma mulher preta ou parda sem cônjuge e com filho, por exemplo, tem alta probabilidade de ser pobre (64% das mulheres nessas condições estão abaixo da linha da pobreza estipulada pelo Banco Mundial), enquanto as chances de um homem branco ser pobre é bem menor (dos declarados brancos, 15,3% são pobres). O genocídio da juventude negra é outro fenômeno cujas consequências podem ser vistas à luz da economia, tendo em vista as milhares de vidas produtivas precocemente perdidas. Por isso, é fundamental debater justiça econômica e outras questões estruturais enfatizando as dimensões de raça, gênero e sexualidade, faixa etária, território e outros marcadores sociais.

Injustiça econômica

A crise do atual modelo econômico que vivemos também se assenta no modelo de arrecadação do Estado brasileiro. Sabemos que tributos importam e sua incidência tem impactos de gênero, raça, classe. O Brasil opta por um sistema majoritariamente regressivo, tendo como base principal a tributação por consumo (como o ICMS e o ISSQN). A conta aperta para quem está já em situação de vulnerabilidade: as pessoas pobres pagam proporcionalmente mais impostos.

Já fontes de arrecadação que poderiam contribuir mais efetivamente para a diminuição das desigualdades – como tributos sobre o patrimônio (IPVA e IPTU) e, especialmente, sobre renda, doações e heranças –, são pouco priorizadas como base fiscal. Outro gargalo é o imposto sobre grandes fortunas, previsto na Constituição mas ainda não regulamentado, embora exista um projeto de lei sobre o tema tramitando no Congresso.

O cenário no Brasil é de injustiça econômica. Organismos internacionais têm alertado que o atual modelo de tributação e de execução dos gastos públicos e as transferências de renda não têm sido eficientes na redução das desigualdades. Ao não se utilizar do sistema fiscal para garantir oportunidades equivalentes a todas as pessoas – corrigindo, assim, opressões históricas associadas a fatores como o gênero, a raça e a classe – o Estado atua para concentrar riquezas e impedir que as pessoas possam viver suas vocações e seus talentos. As mulheres, a população negra, a juventude, as comunidades LGBTIQ, indígenas, quilombolas, pessoas que vivem nas periferias, ou seja, as maiorias sociais, são as mais afetadas por isso.

Cenários possíveis

A economia também é política e a (re)democratização de qualquer nação passa, necessariamente, pela busca da democracia fiscal. Além da arrecadação/tributação (receitas), é fundamental acompanhar o orçamento e os gastos públicos (despesas), que refletem as prioridades e as escolhas de uma determinada gestão. A ausência de investimentos também é significativa. Assim, é necessário acompanhar limitações e cortes no orçamento, em termos quantitativos (quanto está sendo cortado e/ou não executado) e qualitativos (quais áreas sofrem tais cortes e por quê). Mantemos a defesa firme de políticas de ação afirmativa e de redistribuição de renda, que jamais devem retroceder. Também defendemos uma reforma tributária consequente, participativa e atenta à democracia fiscal, e que viabilize a distribuição de renda, o provimento de serviços de qualidade à população e a correção de desigualdades históricas.

As saídas para esse quadro tão desfavorável passam pela construção de alternativas econômicas com participação da sociedade. Acreditamos na economia solidária, na economia criativa, no empreendedorismo social e em outros arranjos produtivos que buscam superar a lógica tradicional de mercado, desde que estejam a serviço do empoderamento econômico e social dos sujeitos. O impacto local/territorial de tais iniciativas deve ser levado em conta, bem como seu potencial de articulação em redes. Outro ponto de atenção é a informalidade: lutamos por condições dignas para trabalhadoras e trabalhadores, o que nem sempre implica formalização a todo custo – vide a questão dos trabalhadores informais ambulantes em BH e o compromisso da Gabinetona com essa luta.

Estamos integralmente comprometidas com o enfrentamento à pobreza e às desigualdades. É nosso papel qualificar essa discussão, sempre em perspectiva interseccional.

Perdemos bem mais do que as eleições

Perdemos bem mais do que as eleições

“Querer ser livre é também querer livres os outros.” Simone de Beauvoir

Medo. Essa tem sido uma das palavras mais repetidas pelos meus amigos em suas timelines. Rolo a tela do celular e vejo postagens carregadas de um forte sentimento de desesperança. Textos feitos com o coração nos dedos na tentativa de causar o despertar naqueles que, sem pudor, apresentam sua predileção pelo horror. Sem falar nos diversos links de matérias sobre como o mundo avalia este momento, ignorados por vídeos torpes e montagens mal feitas no whatsapp.

Tento buscar em mim alguma força para enfrentar estes dias, mas principalmente ajudar meus amigos a não perder o brilho no olhar. Sinto-me resistente, porém ao mesmo tempo triste em presenciar tal realidade. Jamais imaginei experimentar um cenário distópico como nos filmes e, apesar de conhecer o roteiro básico destas narrativas não sei dizer como ou o que fazer nestes casos. Talvez a vida tenha extrapolado os limites.

Acompanho outras pessoas eleitoras do Bolsonaro. Sim, direi o nome dele porque a ameaça já não é mais uma sombra. É real e datada. Bolsonaro. A boca amarga quando a palavra sai, os dedos embolam, mas é preciso dizer. É preciso entender como essa criatura chegou ao lugar de destaque de modo tão avassalador.

Seu eleitorado não é homogêneo em sua composição. Nem todos são fascistas, mas todos estão tomados pelo medo. Quer dizer, todos estamos. Do lado de lá há os que temem a falta de segurança nas ruas, os que temem o diferente, as mudanças. Tem aqueles que estão cansados de tanta corrupção, especialmente as relacionadas e midiatizadas em torno do PT.

É comum em momentos de crise surgirem a figura do vilão e do mocinho. Hoje o antipetismo alimentou-se do medo e criou um novo Messias. Essa figura messiânica é bem diferente da outra. Nada de amor ao próximo, ao dar aos pobres e acolher aos aflitos. Para ele a máxima é que se dane o próximo, que se virem as minorias e viva aqueles que eles julgarem ser “de bem”.

A quantidade de pessoas com deficiência a favor do Bolsonaro é assustadora, mas resume muito bem a condição do nosso movimento no país. Somos fragmentados e presos em nossas realidades. Não nos vemos no outro. Não há representações consistentes. A maioria das pessoas com deficiência ainda não se veem como cidadãos, entendem seus direitos como favores e sua condição como penitência. Seu corpo é para ser escondido e assim vivem uma vida de lamentações e ausência total de amor próprio.

Claro que temos diversas outras realidades que atravessam esse cenário, a falta de educação de qualidade desde o ensino infantil, a falta de socialização, o super protecionismo familiar e a ausência de infraestrutura arquitetônica e sociais contribuem para essa apatia de muitos.

Porém, como disse, eleitores do Bolsonaro não são homogêneos. E considero de suma importância fazer esta distinção, pois se defendemos a diversidade devemos aprender a enxergá-a no próximo também. Principalmente se este possuir ideias diferentes. Se queremos e precisamos lutar pela nossa democracia, precisamos estar dispostos a enfrentar o embate de ideias.

Contudo, há uma diferença entre ser ingênuo e agir com sabedoria. Ser ingênuo é considerar que devemos tentar conversar com quem não está interessado em ouvir. É perder tempo com aquele colega fascista que tem prazer em falar mal de minorias.

Agir sabiamente é observar com quem estamos relacionando, tentar identificar o que motiva as ideias daquela pessoa tão diferente de você. É saber a hora de não dizer nada. Às vezes, por mais que doa admitir, existem aqueles que apoiam esse candidato por gostar das ideias dele.

Dói demais quando descobrimos alguém bacana apoiando e fazendo campanha para Bolsonaro. A gente perde a admiração, há um lamento miúdo e uma decepção única. É como se vivêssemos o bolsoluto.

Primeiro nos tiraram a alegria e nos deram medo. Acredito que nesse momento perdemos bem mais que as eleições porque perdemos a empatia. Tiraram a capacidade de se importar com o outro e deram o egoísmo. Aquele estado de “tudo bem ele ser (insira aqui algum preconceito), pelo menos vai (insira aqui alguma fake news).

Entretanto, não é mais tempo de luto. É tempo de resistir. Seja qual for o resultado do segundo turno precisaremos agir em conjunto, alinhados com um mesmo pensamento de mudança e preservação dos nossos direitos.

Encontre seus amigos, renove suas energias, cuide de sua saúde mental, de sua integridade física e se prepare. Podem nos chamar de minorias, mas juntos somos muito mais fortes.

Leandrinha DuArt: Quem é a próxima vítima do ódio?

Leandrinha DuArt: Quem é a próxima vítima do ódio?

Ninguém está sentindo medo? Sério!?

Foto: Reprodução

Quem é a próxima vítima do ódio? Eu? Você?

Uma das minhas tombou.

Ninguém está sentindo medo? Sério!? Porque eu temo a minha vida quando estou em lugares abertos ou superlotados. Quando entro no metrô também. Eu ando de janelas fechadas, prefiro carro de vidro fumê. Minha cadeira de rodas tem cinco níveis incríveis de velocidade, eu ando no cinco correndo para que eu não seja parada em momento algum, porque dependendo do lugar, eu tenho medo.

Não converso com todo mundo que me aborda. Se alguém me grita na rua eu aceno, às vezes. Nunca conversei, mesmo sendo a coisa que eu mais amo fazer, e já ia me esquecendo, também ando de cabeça baixa se estou sozinha.

Me esquivo de toques surpresas, e às vezes reajo mal, porque tenho medo que alguém queira me puxar. Se estou de joelhos na cadeira de rodas pra conversar, como sempre fico, quem me conhece sabe, prefiro que alguém fique próximo a mim, me sinto mais segura.

Quando algum macho hétero branco me elogia ou pede foto, fico receosa. Se daqui a algumas horas minha página ser bombardeada de ataques, idem. Quando tem muita gente no local e eu não consigo visualizar a saída, devido estar sentada e mais baixa, peço para alguém abrir caminho para que eu passe, não só por causa da acessibilidade, mas também porque consigo andar com mais agilidade para sair da multidão, nunca sei o que pode acontecer.

Estrelismo!? Parece neh? Antes fosse… Agora me dei conta que ser quem eu sou me torna um alvo fácil. Parece uma loucura, mas neste momento está muito mais palpável a insana brutalidade cega, disfarçada de posicionamento político alienado.

Meu país não é um lugar seguro para mim.

Welcome to Brazil.

Jean Wyllys: Legado dos governos petistas foi mais importante na educação

Jean Wyllys: Legado dos governos petistas foi mais importante na educação

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A chegada das esquerdas ao poder em 2002, foi importante em vários sentidos. Um dos mais importantes foi a educação, e um dos grandes protagonistas das conquistas desse período foi Fernando Haddad.

Com Haddad a frente do Ministério da Educação, houve universalização do ensino básico e salto de um percentual irrelevante de jovens matriculados no ensino superior para uma porcentagem muito maior, que começou a incluir pobres, negros, indígenas e moradores das favelas e das periferias. Programas como REUNI, que ampliou muio a oferta de vaga em universidades públicas, o FIES e o PROUNI, que ampliaram a oferta de vagas nas universidades particulares, foram importantíssimos para dar a oportunidade a milhares de jovens de obter pela primeira vez em suas famílias um diploma.

A unificação dos vestibulares em torno do ENEM significou não só uma simplificação do acesso como também uma democratização, a medida que barateou os antigos custos elevados com várias provas diferentes e viagens.

O sistema de cotas, implementado progressivamente, para alunos pobres e oriundos de escolas públicas, com recortes de raça, para negros e indígenas, modificaram o perfil social das instituições de ensino e, ao fazê-lo, modificaram também as comunidades de onde saíram estes alunos. Modificaram a relação de todo sistema de ensino com as comunidades dos alunos.

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Agora médicos negros atendem mais pacientes, antes um fato raríssimo. Filhos e filhas de empregadas domésticas, uma profissão que foi a de milhões de pessoas em gerações passadas, agora fazem cursos de arquitetura ou direto, antigamente associados exclusivamente às elites.

A transformação pela educação que experimentamos ainda reverbera e está na raiz de um nível maior de exigência com relação às políticas públicas.

É certo que também há resistência, aqueles que agora falam em falta de necessidade de diplomas e na necessidade de cortas disciplinas nas escolas, mas todos os sinais apontam para uma mudança irreversível, uma nova era de brasileiros mais críticos e socialmente responsáveis. O legado petista na educação será fato social para qualquer novo governo e é maior do que o próprio partido poderia controlar. E com Haddad na presidência, esse legado pode ser ampliado para novos avanços e desafios, por uma educação pública cada vez mais inclusiva, democrática e de qualidade!

Milagro Sala: Os mil dias de uma prisão injusta

Milagro Sala: Os mil dias de uma prisão injusta

Foto: Telesur

Os mil dias de prisão de Milagro Sala,mesmo sem condenação, chegam como demonstração que a Argentina se encontra mais próxima ao autoritarismo. A análise este processo aclara que o judiciário do pais se encontra enfermo manuseado pelo executivo. Cada papel que cai sobre a mesa que possa envolver o governo Macri evapora-se automaticamente, enquanto dos seus opositores são criados a cada dia. Um exemplo aparente é a tentativa de prender a ex-presidente Cristina Kirchner baseada por cópias de um caderno. O objetivo é se prender a carne e osso, para impedir um ideia .

A caçada judicial sobre Milagro e movimento La Tupac começa com a chegada do Partido Cambiemos no executivo nacional e no estado de Jujuy em dezembro de 2015.Os argumentos vão desde organizar um movimento pacífico nos jardins da sede do governo de Geraldo Morales,até mal uso do dinheiro público na construção de habitações. As cooperativas construíram 16 bairros inteiros e 2800 casas, o maior projeto da história da província.

A líder do maior movimento social argentino, serve de laboratório para o uso do judiciário como arma política. Uma justiça injusta para aprisionar opositores de um modelo liberal que levou o país a insolvência,hipotecou a soberania ao FMI e transformou Macri num mandatário impopular. Em verdade , ao construir milhares de habitações num modelo solidário para os mais necessitados, Milagro gerou emprego para os desocupados e arruinou o negócio de construção para empresas privadas golpeando a especulação imobiliária. Uma prática “imperdoável” na cadeia de acumulação de capital.

Presa numa casa na região de ” La Ciénaga”, Milagro escreve um livro a quatro mãos com seu esposo Raul Noro, enquanto ler sobre ascensão de Evo Morales e suas políticas que recuperaram a Bolívia. A líder reafirma sua pretensão de ser governadora justificando que a justiça só voltará,incluso a social, com a mudança na administração. A ação de Milagro é comprovação que existem muitos que pensam e fazem para os que menos tem.

Demostrando total conhecimento do processo histórico que decorre na Argentina e no continente, Milagro clama neste dia:”Desejo que os governos administrem para seu povo e não para o FMI. Pátria sim, colônia não.”

Caetano Veloso responde a Olavo de Carvalho

Caetano Veloso responde a Olavo de Carvalho

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Olavo de Carvalho sugere em texto que, caso Bolsonaro se eleja, imediatamente à sua posse seus opositores sejam não apenas derrotados mas totalmente destruídos enquanto grupos, organizações e até indivíduos.

Ele diz que os que consideram Bolsonaro uma ameaça à democracia não estão lutando para vencer uma eleição e sim “pela sobrevivência política, social e até física”. Isso é anúncio de autoritarismo matador.

Bolsonaro já disse que a ditadura matou pouco, já apareceu usando tripé de câmera como fuzil a metralhar petistas, já louvou o torturador e assassino coronel Brilhante Ustra. Quando atacado a faca por um maníaco, todos os outros concorrentes à presidência condenaram veementemente o atentado e seu autor; quando um eleitor seu matou um artista baiano que declarara voto no PT, Bolsonaro disse que não tinha nada a ver com isso.

Esse texto de Olavo anuncia uma escalada de ações violentas e conclama seus seguidores a perpetrá-las tão logo Bolsonaro chegue (se ele chegar) ao Alvorada.

É evidente que todo cidadão brasileiro que mereça esse nome –seja ele Fernando Henrique Cardoso, Roberto Carlos, Roberto Schwartz, Suzana Vieira, Chico Buarque, Luiz Tenório de Oliveira Lima, Letícia Sabatela, Fernando Haddad, Zezé de Camargo, Miriam Leitão ou ACM Neto– deve agir contra a possibilidade de eleição de Bolsonaro. A não ser que este desautorize publicamente o texto de Olavo. Único modo, aliás, de dar credibilidade a suas tentativas de amenizar o sentido de seus antigos brados.

Olavo, o sub-Heidegger do nosso sub-Hitler (ou sub-Spengler do nosso sub-Goebels), diz que petistas, artistas, mídia, professores, jornalistas e intelectuais apelam a recursos ilícitos e imorais para obter vitória. No entanto, acabo de ler um texto em letras grandes, produzido pelos correligionários do capitão, que diz: “o PT quebra imagens, esfrega o crucifixo nos órgãos genitais, urinam (sic) na Bíblia e agora quer apoio católico”.

Deve ser a milionésima fake news expedida pela campanha bolsonarista. Olavo é figura histórica da anti-esquerda. Catequizou gerações de jovens brasileiros a um anticomunismo delirante e ressentido.

Faz décadas uma jovem conhecida minha tinha se convertido ao islamismo através dos ensinamentos de Olavo, seu carismático professor. A força dos parágrafos de Fritjof Schuon, autor que li fascinado, devem ter chegado com beleza aos ouvidos da moça, através das explanações brilhantes de Olavo. Mas desconfio de que o que o animava não era a beleza do Islã, sua tradição, sua riqueza espiritual. O que o entusiasmava eram as teocracias tardias que o desfiguram.

Olavo hoje posa nos EUA segurando arma pesada. Quão útil será sua cruzada para a indústria armamentista? É-se inocente útil mesmo quando se torna paranoicamente suspicaz. Para ele, o que há na aventura da modernidade é necessariamente o mal.

Intelectual erudito e mente insana, nem sabe que eu só sei de um caso de artista que masturbava-se com um crucifixo (ele o declarou em entrevista na TV) –e era justamente um que hoje aparece ao seu lado.

Eu nunca fui petista. Nunca fui comunista. Odeio ter ouvido de Dirceu que o caso não é de ganhar eleição mas de tomar o poder. Meu pai me ensinou a ser anti-stalinista e, vendo a discrepância entre a vida real dos trabalhadores e os planos das “vanguardas” políticas, aprendi a ser anti-leninista (diante das filas para ver a múmia de Lenin em Moscou, reafirmou-se meu desprezo: detesto o mais ínfimo resquício de culto à personalidade que ronda Lula). Mas farei o que me for possível para vencer o crescimento da desigualdade e, acima de tudo, defenderei os direitos da pessoa humana.

Considero o texto de Olavo incitação à violência. Convoco meus concidadãos a repudiá-lo. Ou vamos fingir que o candidato dele já venceu a eleição e, por isso, pode mandar matar quem não votou nele? Respeitarei como presidente quem quer que se eleja. Mas exijo dele que exiba compromisso com os direitos da pessoa humana e, como os outros cidadãos, rejeite o que foi sugerido por Olavo de Carvalho.

É o Whatsapp, estúpido!

É o Whatsapp, estúpido!

Foto: Divulgação

Por Wilson Gomes, publicado na Revista Cult

Dizem que Lula disse que Haddad tem que ir às ruas, para ganhar a eleição. Ruas são legais e, afinal, não já combinamos que todo político popular tem que ir aonde o povo está? Na verdade, contudo, ruas são boas mesmo é para gerar tomadas para os programas eleitorais e para se conquistar “free media” nas coberturas dos jornais e telejornais. Além disso, não foi nas ruas que a campanha pró-Bolsonaro achou 49 milhões de eleitores.

Dizem que a esperança agora é uma campanha televisiva com mais tempo e com apenas dois adversários. O PT, afinal, sempre foi bom de propaganda na televisão, desde o longínquo 1989, quando parodiou com grande sucesso de público e crítica a arqui-inimiga Globo ao inventar a Rede Povo. Mas, não, não foi no sofá em frente à TV que os bolsominions encontraram 49 milhões de eleitores e ainda tomaram eleitores de Alckmin, que tinha 40 vezes mais tempo de tela do que o seu candidato. Nem certamente foi nas entrevistas e debates televisivos que o deputado simplesmente ignorou quando quis, que Bolsonaro foi buscar os votos de que precisava para quase liquidar a fatura da corrida eleitoral no primeiro turno.

Dizem que a campanha do PT decidiu que vai ser preciso dar mais atenção às redes sociais digitais e aos blogs (que petistas digitais tem uma crença enternecedora em blogs), dando um “up” nos perfis públicos do candidato e, quem sabe, investindo em impulsionamento. Bolsonaristas e o próprio Bolsonaro mandaram muito bem no Twitter e no Facebook, inclusive trocando entrevistas em redes de televisão por “lives” no Facebook e por vídeos improvisados postados no Twitter. Até mesmo, forçando o centro da visibilidade pública nacional, o prime time do telejornalismo, a reproduzir vídeos mambembes publicados digitalmente pelo próprio candidato, em direto, provocador e inusitado desafio à televisão. Mas a campanha em redes sociais foi apenas a superfície da campanha digital, cujo centro foi constituído por um aplicativo de comunicação instantânea e não por uma “rede social”. Sim, desculpem os petistas, mas não foi exatamente em redes sociais digitais que a campanha pró-Bolsonaro capturou, motivou, mobilizou e transformou em ativistas os bolsominions que foram à cata dos 49 milhões de votos depositados na conta do deputado no primeiro turno da corrida presidencial.

“Redes sociais” são um negócio antigo, totalmente 2017. O termo do ano em 2018 é “mídias digitais”. Se quisermos ser mais específicos, a palavra é WhatsApp. A campanha digital pró-Bolsonaro é centrada no aplicativo, para onde e de onde se dirigem os fluxos de tráfego que vão e vêm das e para as redes sociais digitais, sites de fake news, YouTube, portais dos jornais e telejornais.

Há evidentes vantagens em se preferir WhatsApp a redes sociais digitais. A visibilidade nas redes sociais é gerenciada por algoritmos fora do controle dos seus usuários, o WhatsApp não tem algoritmos controlando a distribuição e o alcance dos conteúdos. Redes sociais são públicas e, portanto, as pessoas podem ser chamadas a responder pelo que publicam, enquanto o WhatsApp é privado e facilmente passa sob o radar da autoridade eleitoral. O que é publicado em redes sociais digitais chega às pessoas se elas ativamente se conectarem a essas redes e procurarem tais conteúdos, enquanto o material publicado no WhatsApp chega aos telefones pessoais até de forma passiva, inadvertidamente. É um conteúdo invasivo e onipresente que chega aos bolsos e às mentes das pessoas por meio dos hoje indispensáveis e altamente disseminados aparelhos celulares.

Grupos de WhatsApp de apoio a Bolsonaro (há dois meses frequento alguns deles) serviram basicamente para fins de veiculação de teorias da conspiração, fake news de desmascaramentos de fantasiosos complôs, fakes news para disseminar mentiras sobre os adversários, declarações de “já ganhamos”, mobilizações para “vamos atacar fulano que não gosta de nós” e ampla oferta de memes e áudios para serem distribuídos, a partir dos grupos, para os formigueiros digitais. O WhatsApp é a superfície comunicacional, o ambiente digital, que conecta e articula dezenas de milhões de telefones celulares, portanto, de pessoas. Demora poucos segundos apenas para que um meme, um áudio, uma fake news inserida no sistema linfático dessa rede gigantesca de smarphones e militantes por meio de um grupo de WhatsApp de apoio a Bolsonaro passe para os grupos de família, de amigos, de colegas de trabalho ou faculdade, da turma do futebol ou do tênis e, enfim, chegue a todas as pessoas listadas nos contatos do meu telefone. Não há precedentes históricos para um sistema tão eficiente de disseminação de conteúdo de campanhas.

A campanha no WhatsApp é muito peculiar: é de baixo para cima, funciona independentemente da coordenação de campanha (se há), apoia-se em uma infraestrutura enorme de grupos hiperativos, tem extrema capilaridade, um alcance inigualável e uma velocidade de difusão até então desconhecida. Por outro lado, não conhece limites morais: mente-se, falsifica-se, forja-se, inventa-se, faz-se o que se julgar apropriado para defender o próprio candidato ou para atacar adversários. Como as moderações são mínimas, e servem basicamente para banir infiltrados, podem imaginar como esses grupos são um vale-tudo incessante.

No sábado, véspera do primeiro turno, por exemplo, circulou amplamente que o TSE estava armando uma cilada para anular os votos dos bolsonaristas que fossem votar com a camisa do Mito e que Rui Costa havia proibido que os militares fossem votar na Bahia. Tudo postado em tom de urgência e conspiração. Quatro minutos depois que o áudio “denunciando” o recolhimento dos militares aos quarteis por obra do governador, o mesmo material já estava em todos os meus grupos pessoais de amigos que conta com algum bolsominion (e quem não os tem?). No domingo pela manhã, a mesma febril e paranoica atividade de “denúncias” da conspiração das urnas eletrônicas: que em 70% das urnas ou não havia o nº 7 ou não aparecia a foto do deputado ou não foi convalidado o voto nele. E que faltava pouco para uma intervenção militar. O resto da energia foi empregado para o acompanhamento de eventos, em tempo real, como a retumbante vitória do Mito na Ásia e na Oceania. E depois, à noite, para celebrar o fato de que Jean Wyllis não havia sido eleito, provavelmente o mais desejado prêmio da campanha, depois da vitória de Jair. Tudo isso, fora os feitos na Ásia, era falso, mas quem se importa?

Os grupos de WhatsApp enfrentaram a TV e ganharam, mas também não fizeram menor estrago nas ruas. A campanha digital baseada em dispositivos móveis passou por cima de mobilizações de protestos de rua sem grande esforço no seu primeiro teste, quando ressignificaram completamente o #elenão e ganhou do movimento como quis, no modo como o editaram, empacotaram e o distribuíram online. Inclusive o foram desconstruindo em tempo real, enquanto as manifestações ainda estavam acontecendo. Assim, um belíssimo movimento de rua foi desconfigurado e reeditado, para fins de mobilização da rede ultraconservadora, disparando (não falei causando), paradoxalmente, a corrida para o voto em Bolsonaro a que assistimos na última semana da campanha antes do primeiro turno.

Desde a eleição de Obama em 2008, a gente esperava que alguém de esquerda no Brasil fosse entender e dar valor à campanha digital “de baixo para cima”. Nunca a entenderam, nunca a valorizaram. Nem a esquerda nem a direita. Aí veio a extrema direita digital em 2018 e anulou os efeitos da campanha televisiva, derrotou o único grande movimento de rua acontecido nesse período, passou por cima de todas as barreiras que as empresas de plataforma quiseram impor à distribuição de campanha negativa e conteúdo falso e ainda ganhou de goleada das formas tradicionais de articulação política de base.

Os petistas foram muito ágeis em 1989, ao adotar rapidamente a gramática da televisão, que era o meio dominante. Por isso ganhou de Brizola, um homem de palanque e rádio, e disputou o segundo turno com Collor, um homem-TV. Mas nunca foram bons no mundo digital nem o entenderam. Chegaram no máximo à fase dos blogs, o instrumento preferido dos “bloqueiros sujos” – ou lulistas, segundo as más línguas. Nunca se deram bem em redes sociais. Um desastre. Dilma deixou o seu perfil no Twitter abandonado por, literalmente, 4 anos. É, portanto, claro que ainda não compreendem os paranauês de uma campanha baseada no WhatsApp. O ano que vem eles os entendem, não os apressem.

Táticas místicas de ataque ao fascismo

Táticas místicas de ataque ao fascismo

“Acreditar na ameaça torna ela mais poderosa”. Foto: Thaysa Paula.

Por Meio da Terra

Primeiramente #elenao #elenunca #elejamais

Muitas pessoas estão entrando em contato conosco para pensar táticas místicas de ataque ao fascismo. Como bloquear o crescimento desse tumor que está sempre tentando tomar conta da terra. Tenho alguns conselhos.

A coisa mais importante é o entendimento do coletivo, pensar a magia coletivamente, acreditar no nosso poder de criadoras da realidade. Parece besteira, mas o papo de que nós criamos a nossa realidade coletivamente está mais do que batido. É verdade, acontece na nossa cara. O verde é verde porque concordamos que ele é verde. Sei que o momento é assustador, e com isso vem o medo de se posicionar, mas acreditar na ameaça torna ela muito poderosa.

Devemos mandar mensagens de força e apoio para nossas manas e manos que estão acabadas, e nos unir não para chorar, mas sim para lutar. Se reunir em pequenos grupos, cantar juntas. Conversar sobre a realidade que queremos. Escrever sobre as nossas capacidades revolucionárias. Usar o passado como acessório. Ser sinceras e firmes com nossos familiares, colegas de trabalho, relações cotidianas. Não estou com medo, estou com sede de transformação. Não estamos com medo, estamos com disposição.

Individualmente é importante se proteger. Arruda, alecrim, louro. Estar sempre limpa, aura brilhante. É hora de ser rainha, rainha da nossa energia individual. Precisamos nos cuidar para que, na hora de nos unir, sejamos cada uma um raio luminoso. E juntas vamos cegar essa besta.

É importante agradar a cidade, alimentar as esquinas e as encruzilhadas. Agradecer às ruas, e lembrar os ladrilhos com cachaça, que o chão é lugar da diferença. Que a rua é patrona do movimento, e que nenhum fascismo vai se instalar no país em que na noite quem reina é Exu.

LAROIÊ

Texto publicado na página @meiodaterra e enviado para colaboração com a Mídia NINJA, por Luísa Lentz (mulher cis, mãe, astróloga) e Mel Bevacqua (travesti, mãe, taróloga).

Força, manas! O que os astros nos dizem sobre a atualidade

Força, manas! O que os astros nos dizem sobre a atualidade

Imagem: The Collage Empire

Por Meio da Terra

Mercúrio entrou em Escorpião e a Lua também. Os primeiros graus desse signo fixo de água são como uma queda, da Vênus esvoaçante (Libra) pro Plutão magnético.

Plutão é o planeta referente ao deus que negou o Olimpo e foi criar seu próprio mundo, no subsolo. Lá, ele é livre pra fazer o que quiser, nas profundezas onde tudo o que é renegado se esconde.

Escorpião representa então os cortes com situações que nos aprisionam, a busca dentro de nosso submundo pelo que representa liberdade para nós. O segredo, a independência, as sombras. O lado B, o psiquismo, a dominação. Transformações.

Mercúrio e Lua nessa posição nos despertam inicialmente um choque, uma queda da leveza, para em seguida trazer a revolta e a força para lidar com o que é denso, seja abandonando, seja criando uma estrutura emocional resistente o suficiente para passar por tudo.

Num dia em que recebemos notícias de torturas, espancamentos, mortes, essa configuração faz doer no fundo do estômago, mas faz também crescer ali um calo, que nos fará enfrentar tudo de cabeça erguida.

O medo não é da alçada desse signo que sabe morrer e renascer. O sofrimento aqui ensina a rebrotar. A luta continua, e a malícia, poder e discrição de um Mercúrio escorpiano será nossa arma que não nos deixará morrer por dentro. Força, manas!

Texto publicado na página @meiodaterra e enviado para colaboração com a Mídia NINJA, por Luísa Lentz (mulher cis, mãe, astróloga) e Mel Bevacqua (travesti, mãe, taróloga).

A democracia enquanto um risco ao estado democrático de direito

A democracia enquanto um risco ao estado democrático de direito

Bandeira em manifestação em Santiago do Chile. Foto: Georgina Matta.

Por André Ladeia

A criação de um inimigo comum sempre esteve presente nos processos de desestabilizações políticas dos Estados. Primeiro, elege-se um inimigo para combatê-lo; depois, paulatinamente, vão sendo propagados fatos, boatos, informações inverídicas que, amiúde reiteradas, transformam-se em axiomas sociológicos.

Escolhido o inimigo, que pode ser uma pessoa, etnia, instituição política, religiosa, etc, dissemina-se um sentimento de ódio e intolerância a ele e a todos que com ele se relacionam.

Com a animosidade enraizada, instaura-se a desconfiança generalizada. Investidores retiram suas aplicações e deixam de investir no país, a inflação sobe, os índices de desemprego aumentam e, enfim, o caos tanto desejado é instalado.

Os exemplos acima ilustram alguns dos instrumentos utilizados por Estados totalitários no decurso da história.

O pensador alemão Erich Fromm demonstrou bastante preocupação com a problemática da ideia de despersonalização do indivíduo, tão presente nos discursos ditatoriais.

O processo de despersonalização e nomeação dos indivíduos afigura-se como um mecanismo esquizofrênico na busca da formação de suas identidades baseadas na exclusão do outro. Não muito distante, o outro já foi o cristão, o judeu, o muçulmano, as mulheres, para citar apenas alguns exemplos.

Vivemos tempos difíceis em que a desconfiança impera no país sob a roupagem de um ódio disfarçado sob a égide inexpugnável de um falacioso discurso de combate à corrupção, que coloca em risco as bases do regime democrático.

O problema que emerge é que, gradualmente, estamos presenciando laivos ditatoriais no seio dos poderes constituídos.

O eminente constitucionalista português J. J. Gomes Canotilho, lembrando Cruz Villalón, alerta-nos de que “onde não existir constituição não haverá direitos fundamentais”.

Na mesma linha, posiciona-se Bobbio ao destacar que “O problema fundamental em relação aos direitos do homem, hoje, não é tanto o de justificá-los, mas o de protegê-los”.

Mais do que uma simples votação em prol de Haddad, o segundo turno representa uma defesa suprapartidária à estabilização das instituições democráticas que se encontram na iminência de ruir.

Há muito não se trata mais de uma manifestação político-partidária; o problema é bem mais grave: é o de preservar o mínimo do estado democrático de direito.

André Ladeia é poeta e advogado.

Por que não ele?

Por que não ele?

Foto: Cobertura Colaborativa #EleNÃO

Muita gente me questionando, nos comentários das postagens e no pv, por que adotei uma postura republicana, com relação ao resultado das eleições aqui no Acre; e por que insisto em prosseguir combatendo, de forma tão veemente e contundente, nosso adversário no plano nacional.

Explico: em minha vivência no parlamento, aprendi que temos de saber respeitar as posições divergentes e conviver com as diferenças. Por outro lado, reforcei ainda mais a minha convicção de que não dá pra tolerar posições machistas, racistas, homofóbicas, misóginas e anti-democráticas. Como já dissera o Luiz Fernando Veríssimo, em um texto que todos deveriam ler, “o fascismo não se discute, se combate”.

Também me convenci ainda mais que não dá pra abrir mão de direitos sociais. É um absurdo querer alterar a tabela do imposto de renda, de forma que os pobres passem a pagar mais e os ricos passem a pagar menos impostos (a menos que fosse o contrário). Não dá pra aceitar a extinção do 13° salário, do 1/3 de férias, a volta da CPMF…

Além de todos os impropérios e absurdos que saem da boca do candidato contra negros, índios, mulheres, homossexuais; e de todas as suas ideias cruéis com relação a economia, tem a estratégia suja, da qual ele se utiliza, de elaborar e difundir fake news sobre seus adversários, utilizando algoritmos para espalhar tais notícias para aquelas pessoas que, pelos dados e informações constantes em seus perfis nas redes sociais, têm maior propensão a acreditar em tais mentiras. Isso é jogo sujo, é corrupção. A corrupção que ele diz combater e que ele pratica e praticou, quando lavou dinheiro de doação da JBS para sua última campanha a deputado federal, por intermédio do partido, para parecer que a “doação” era “legalizada”.

Você sabia que os mais pobres vão pagar mais na nova tabela de IR proposta por Bolsonaro?

Tem várias outras coisas: o desprezo pelos valores e princípios democráticos, a apologia a tortura, torturadores, ditadura e ditadores; sua atuação parlamentar medíocre (apenas 2 projetos de lei de sua autoria aprovados em quase 28 anos de mandato de deputado federal)…

E, o principal: o voto dele contrário a PEC que garantiu o direito ao FGTS e INSS das empregadas domésticas; assim como o voto dele a favor da PEC que congelou investimentos na Educação por 20 anos; e o voto a favor da reforma trabalhista, que retirou direitos da classe trabalhadora. Ou seja: além de não produzir nada de bom em termos legislativos, de autoria própria, ainda votou sempre contra os interesses do povo, nos projetos de lei de autoria do Governo Federal.

Todo mundo que me conhece sabe que sou petista e que minha trincheira de atuação política está localizada no campo do progressismo de esquerda. E antes que alguém me mande pra Venezuela, pra Cuba ou Coreia do Norte, vou logo dizendo que não sou comunista, socialista, chavista, castrista nem bolivariano. Não compactuo com nenhum regime ditatorial, seja de direita ou de esquerda. Repito: sou um social-democrata de esquerda e progressista.

Por fim, eu diria o seguinte: minha família sofreu muito na mão de gente como ele, durante a Ditadura Militar, dentre eles o meu tio-avô e ex-Senador da República, Mário Maia (MDB/PDT/PMDB); assim como meu tio, Everaldo Maia (MR-8/PMDB), dois políticos honrados e honestos, sem nenhuma nódoa em suas vidas públicas.

Nessas eleições, sou Haddad, por convicção de que é o melhor e mais preparado para governar nosso país. Mas, votaria no Ciro e no Boulos com muito gosto. E, confesso a vocês: votaria na Marina, no Meirelles, no Amoedo, no Álvaro Dias e até no Alckmin, se necessário fosse, para evitar a tragédia anunciada que pode ser o governo de um cabra desses, caso ele venha a ganhar as eleições.

Grindr sinaliza aumento de ataques homofóbicos após resultado do primeiro turno

Grindr sinaliza aumento de ataques homofóbicos após resultado do primeiro turno

Em meio a casos de homofobia na rede social, Grindr, voltada para o encontro de homens gays, divulgou lista e medidas de segurança para usuários.

A rede geosocial Grindr, voltada para o encontro da população LGBT, especificamente homens gays, emitiu um alerta de segurança aos usuários do aplicativo no Brasil, em vista da alarmante quantidade de denúncias sobre ataques homofóbicos registrados depois do resultado do primeiro turno das eleições. Em alguns dos casos assinalados desde o último domingo (08), os agressores atraíram suas vítimas por meio da própria plataforma.

No pop-up direcionado às pessoas cadastradas, o Grindr reconhece o aumento da violência contra LGBTs brasileiros devido às eleições e pede para que os usuários tomem “as medidas necessárias para se manterem seguros essa semana”.

As dicas de segurança são de proteção de identidade, ou seja, cuidados para não dar seus dados para estranhos, senso crítico com fotografias, cautela no compartilhamento do seu endereço, evitar mentiras, procurar contar para amigos quando sair com alguém, e denuncias de casos de violência ou agressões físicas e mentais.

Confira as dicas divulgadas pelo Grindr.

O aplicativo é um um dos mais populares entre os gays de todo o mundo e utiliza a geolocalização para facilitar encontros de pessoas a curta e média distância, à semelhança do Tinder. Além das medidas, o aplicativo também sinalizou sua campanha e acolhimento aos usuários com um banner contra os discursos de ódio.

Berlin, Germany – February 26: In this photo illustration the app of Grindr is displayed on a smartphone on February 26, 2018 in Berlin, Germany. (Photo Illustration by Thomas Trutschel/Photothek via Getty Images)

 

Boaventura de Sousa Santos: Democratas brasileiros, uni-vos!

Boaventura de Sousa Santos: Democratas brasileiros, uni-vos!

A vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno significará a detonação simultânea destas três bombas-relógio, e dificilmente a democracia brasileira sobreviverá à destruição que causarão.

29.09.2018 – #EleNão em São Paulo. Fotos: Márcia Zoet / illumina

A democracia brasileira está à beira do abismo. O golpe institucional que se iniciou com o impeachment da Presidente Dilma e prosseguiu com a injusta prisão do ex-presidente Lula da Silva está quase consumado. A consumação do golpe significa hoje algo muito diferente do que foi inicialmente pensado por muitas das forças políticas e sociais que o protagonizaram ou dele não discordaram.

Algumas dessas forças agiram ou reagiram no convencimento genuíno de que o golpe visava regenerar a democracia brasileira por via da luta contra a corrupção; outros entendiam que era o modo de neutralizar a ascensão das classes populares a um nível de vida que mais tarde ou mais cedo ameaçaria não apenas as elites mas também as classes médias (muitas delas produto das políticas redistributivas contra as quais agora se viravam).

Obviamente, nenhum destes grupos falava de golpe e ambos acreditavam que a democracia era estável. Não se deram conta de que havia três bombas-relógio construídas em tempos muito diversos mas podendo explodir simultaneamente. Se tal ocorresse, a democracia revelaria toda a sua fragilidade e possivelmente não sobreviveria.

A primeira bomba-relógio foi construída no tempo colonial e no processo de independência, foi acionada de modo particularmente brutal várias vezes ao longo da historia moderna do Brasil mas nunca foi eficazmente desativada. Trata-se do DNA de uma sociedade dividida entre senhores e servos, elites oligárquicas e povo ignaro, entre a normalidade institucional e a violência extra-institucional, uma sociedade extremamente desigual em que a desigualdade socioeconômica nunca se pôde separar do preconceito racial e sexual. Pese embora todos os erros e defeitos, os governos do PT foram os que mais contribuíram para desativar essa bomba, criando políticas de redistribuição social e de luta contra a discriminação racial e sexual sem precedentes na história do Brasil. Para a desativação ser eficaz seria necessário que essas políticas fossem sustentáveis e permanecessem por várias gerações a fim de a memória da extrema desigualdade e crua discriminação deixar de ser politicamente reativável. Como tal não aconteceu, as políticas tiveram outros efeitos mas não o efeito de desativar a bomba-relógio. Pelo contrário, provocaram quem tinha poder para a ativar e a fazê-lo quanto antes, antes que fosse tarde de mais e as ameaças para as elites e classes médias se tornassem irreversíveis. A avassaladora demonização do PT pelos média oligopolistas, sobretudo a partir de 2013, revelou a urgência com que se queria pôr fim à ameaça.

A segunda bomba-relógio foi construída na ditadura militar que governou o país entre 1964 e 1985 e no modo como foi negociada a transição para a democracia. Consistiu em manter as Forças Armadas (FFAA) como último garante da ordem política interna e não apenas como garante da defesa contra uma ameaça estrangeira, como é normal nas democracias. “Último” quer dizer em estado de prontidão para intervir em qualquer momento definido pelas FFAA como excepcional. Por isso, não foi possível punir os crimes da ditadura (ao contrário da Argentina mas na mesma linha do Chile) e, pelo contrário, os militares impuseram aos constituintes de 1988 28 parágrafos sobre o estatuto constitucional das FFAA. Por isso, também muitos dos que governaram durante a ditadura puderam continuar a governar como políticos eleitos no congresso democrático. Apelar à intervenção militar e à ideologia militarista autoritária ficou sempre latente, pronta a explodir. Por isso, quando os militares começaram a intervir mais activamente na política interna nos últimos meses (por exemplo, apelando à permanência da prisão de Lula) isso pareceu normal dadas as circunstâncias excepcionais.

A terceira bomba-relógio foi construída nos EUA a partir de 2009 (golpe institucional nas Honduras) quando o governo norte-americano se deu conta de que sub-continente estava a fugir do seu controlo mantido sem interrupção (com excepção da “distração” em Cuba) ao longo de todo o século XX. A perda de controlo continha agora dois perigos para a segurança dos EUA: o questionamento do acesso ilimitado aos imensos recursos naturais e a presença cada vez mais preocupante da China no continente, o país que, muito antes de Trump, fora considerado a nova ameaça global à unipolaridade internacional conquistada pelos EUA depois da queda do Muro de Berlim.

A bomba começou então a ser construída, não apenas com os tradicionais mecanismos da CIA e da Escola Militar das Américas, mas sobretudo com novos mecanismos da chamada defesa da “democracia amiga da economia de mercado”. Isto significou que, além do governo dos EUA, a intervenção poderia incluir organizações da sociedade civil vinculadas aos interesses econômicos dos EUA (por exemplo, as financiadas pelos irmãos Koch). Portanto, uma defesa da democracia condicionada pelos interesses do mercado e por isso descartável sempre que os interesses o exigissem. Esta bomba-relógio mostrou que já estava operacional no Brasil a partir dos protestos de 2013. Foi melhorada com a oportunidade histórica que a corrupção política lhe ofereceu. O grande investimento norte-americano no sistema judicial vinha do início dos anos de 1990, na Rússia pós-soviética e também na Colômbia, entre muitos outros países.

Quando a questão não é de “regime change”, a intervenção tem de ser despolitizada. A luta contra a corrupção é isso. Sabemos que os dados mais importantes da operação Lava-Jato foram fornecidos pelo Departamento de Justiça dos EUA. O resto foi resultado da miserável “delação premiada”.

O juiz Sergio Moro transformou-se no agente principal dessa intervenção imperial. Só que a luta contra a corrupção por si só não seria suficiente no caso do Brasil. Era suficiente para neutralizar a aliança do Brasil com a China no âmbito dos BRICS, mas não para abrir plenamente o Brasil aos interesses das multinacionais. É que, em resultado das políticas dos últimos quarenta anos (e algumas vindas da ditadura), o Brasil teve até há pouco imensas reservas de petróleo fora do mercado internacional, tem duas importantes empresas públicas e dois bancos públicos, e 57 universidades federais completamente gratuitas. Ou seja, é um país muito longe do ideal neoliberal, e para dele o aproximar é preciso uma intervenção mais autoritária, dada a aceitação das políticas sociais do PT pela população brasileira. E assim surgiu Jair Bolsonaro como candidato “preferido dos mercados”.

O que ele diz sobre as mulheres, os negros ou os homossexuais ou a tortura pouco interessa aos “mercados”, desde que a sua política econômica seja semelhante à do Pinochet no Chile. E tudo leva a crer que será porque o seu economista-chefe tem conhecimento direto dessa infame política chilena. O político de extrema-direita norte-americano Steve Bannon apoia Bolsonaro, mas é apenas o balcão da frente do apoio imperial. Os analistas do mundo digital estão surpreendidos com a excelência da técnica da campanha bolsonarista nas redes sociais. Inclui micro-direcionamento, marketing digital ultra-personalizado, manipulação de sentimentos, fake ews, etc. Para quem assistiu na semana passada na televisão pública norte-americana (PBS) ao documentário intitulado “Dark Money”, sobre a influência do dinheiro nas eleições dos EUA, pode concluir facilmente que as fakenews (sobre crianças, armas e comunismo, etc.) no Brasil são tradução em português das que o “dark money” faz circular nos EUA para promover ou destruir candidatos. Se alguns dos centros de emissão de mensagens estão sediados em Miami e Lisboa é pouco relevante (apesar de verdadeiro).

A vitória de Jair Bolsonaro no segundo turno significará a detonação simultânea destas três bombas-relógio. Dificilmente a democracia brasileira sobreviverá à destruição que causarão.

Por isso, a segunda volta é uma questão de regime, um autêntico plebiscito sobre se o Brasil deve continuar a ser uma democracia ou passar a ser uma ditadura de tipo novo. Um livro meu muito recente circula hoje bastante no Brasil. Intitula-se “Esquerdas do Mundo, uni-vos!” Mantenho tudo o que digo aí, mas o momento obriga-me a um outro apelo mais amplo: Democratas brasileiros, uni-vos! É certo que a direita brasileira revelou nos últimos dois anos um apego muito condicional à democracia ao alinhar com o comportamento descontrolado (mas bem controlado noutras paragens) de parte do judiciário, mas estou certo de que largos sectores dela não estarão dispostos a suicidar-se para servir “os mercados”. Têm de unir-se ativamente na luta contra Bolsonaro. Sei que muitos não poderão recomendar o voto em Haddad, tal é o seu ódio ao PT. Basta que digam: não votem em Bolsonaro. Imagino e espero que isso seja dito publicamente e muitas vezes por alguém que em tempos foi um grande amigo meu, Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do Brasil e, antes disso, um grande sociólogo e doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra, de quem eu fiz o elogio. Todos e todas (as mulheres não vão ter nos próximos tempos um papel mais decisivo para as suas vidas e a de todos os brasileiros) devem envolver-se ativamente e porta-a-porta. E é bom que tenham em mente duas coisas. Primeiro, o fascismo de massas nunca foi feito de massas fascistas, mas sim de minorias fascistas bem organizadas que souberam capitalizar nas aspirações legítimas dos cidadãos comuns a viverem com um emprego digno e em segurança. Segundo, ao ponto que chegamos, para assegurar uma certo regresso à normalidade democrática não basta que Haddad ganhe, tem de ganhar por uma margem folgada.

Isa Penna: Violência contra feministas é tática nas eleições

Isa Penna: Violência contra feministas é tática nas eleições

Foto: Mídia Ninja

 

“Vai procurar um macho pra dar o rabo vai, sua puta”.

“Gostei do teu silicone”.

“Ela poderia fazer um protesto feminista com os peitos de fora que eu apoio”.

Comentários como esses são muito comuns nos perfis do Facebook, Twitter, Youtube e Instagram. No Whatsapp, conta que criamos esse ano, recebemos nudes e comentários bem mais gráficos e diretos. A medida que domingo, dia da eleição, se aproxima, as mensagens deste tipo que recebo nas redes só ficam mais frequentes e progressivamente mais pesadas. São mais de 10 por dia.

Não é só comigo. Os relatos de situações de intimidação, constrangimento ou ameaça fazem parecer que o medo virou instrumento para o convencimento político no Brasil.

Estudante que estava no banheiro da faculdade tem o banheiro invadido por um homem que tira uma foto dela. Militante do MTST que é constrangida por eleitor do Bolsonaro a parar de fazer campanha em seu bairro. Jovem lgbt que é abordado por homem que o ameaça de morte.

Não se enganem. Essas mensagens de assédio, que nada tem de lisonjeiras, são uma contra reação à um feminismo que se popularizou e fortaleceu. São provas diárias do porquê vamos eleger mais mulheres e combater essa cultura. Cultura que legitima esse tipo de assédio como “comportamento que deve ser esperado” dos homens. Não é. E nós não vamos nos calar mais.

O feminismo colocou 500 mil pessoas na rua em São Paulo e lotou as ruas de mais de 300 cidades no mundo todo, contra o fascismo e o machismo da velha política. Mostramos ao mundo que, não importa quem esteja na presidência em Brasília: nós não vamos ser silenciadas.

Somos mulheres e enfrentamos o medo do machismo, todos os dias, várias vezes ao dia.

Somos fortes!

Mais de nós no poder

Mais de nós no poder

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Por Áurea Carolina

A expressão “renovação política” tem sido esvaziada de sentido. Ela foi capturada por setores que não se preocupam verdadeiramente com as transformações que se fazem urgentes em nosso país. Renovar a política não é apenas mudar as caras de quem está nos espaços de poder – é preciso uma mudança real de práticas. A política é o espaço da diferença, mas há um patamar ético que não pode ser negociado. Esse patamar é a justiça. Portanto, a democracia é incompatível com a violência, a desigualdade e a negação de direitos.

Somente com outras formas de fazer política conseguiremos alcançar justiça social e o fim da estrutura de privilégios que está posta hoje e que faz com que poucos controlem a riqueza e o poder que deveriam ser compartilhados coletivamente. Somente com essa mudança será possível falar em democracia real.

O Brasil presencia uma persistente degradação das suas já frágeis instituições democráticas. Políticas públicas que poderiam assegurar direitos fundamentais têm sido arruinadas em uma velocidade assustadora. A reforma da Previdência, a reforma trabalhista e a aprovação da Emenda Constitucional 95 – que limita os gastos em saúde e educação por 20 anos – são alguns exemplos do desmonte que tem piorado dia após dia as condições de vida da população, sobretudo das mulheres e das pessoas negras, seja no campo ou nos centros urbanos.

As consequências dessa política de exclusão, que é feita por engravatados que desprezam o bem comum, e cujos efeitos são sentidos pelas periferias desde sempre, cada vez mais tem atingido outros setores da sociedade. Ninguém vai ficar a salvo, pois não há paz social se a maioria está sofrendo. Impedir que essa política nociva avance é uma responsabilidade coletiva, mas também individual, e não pode ser transferida para um “outro” imaginário. O problema é de todas e de cada uma de nós. Não podemos acreditar na neutralidade – mais autoengano é impossível neste momento. Não há política neutra.

Por isso, precisamos sustentar construções democráticas que emerjam de baixo, que sejam feitas por quem mora nas quebradas, por quem pega busão, por mulheres e pessoas negras, pela comunidade LGBTIQ, pelos povos indígenas e quilombolas, pela população em situação de rua, por esses grupos que sempre foram excluídos do sistema político. Precisamos de mulheres nos espaços de poder que enfrentem o machismo, precisamos de pessoas negras que enfrentem o racismo. Precisamos de mulheres negras que enfrentem o machismo, o racismo, a transfobia, a pobreza e todas as formas de violência. A ação política precisa partir de um projeto coletivo que dê conta de conectar as lutas em uma perspectiva interseccional.

Dentro da movimentação MUITAS nos perguntamos sempre qual é a cidade, qual é o estado, qual é o país que nós queremos. Essa é uma indagação que nos move com muita sinceridade. Nós queremos que as pessoas não passem por situações de violência, que um jovem negro não seja abordado por ser considerado um suspeito em potencial, que as mulheres não sejam assediadas, que existam oportunidades de trabalho para todas, que os carros não tenham preferência em relação às pessoas, que o meio ambiente esteja integrado à vida, que exista respeito a todas as criaturas. Nós queremos um sistema político diverso, poroso, democrático e, para isso, precisamos ocupá-lo.

O seu sim vai te custar o direito de dizer não

O seu sim vai te custar o direito de dizer não

Foto: Mídia NINJA

Ansiedade. Esta é a palavra que define o sentimento da maioria dos brasileiros nesta semana. Domingo iremos as urnas escolher um novo destino para nosso país. Alguns de nós guarda aquele sentimento de receio, um pouco de insegurança em saber se seu voto será respeitado dessa vez. Afinal, fomos golpeados recentemente.

Estranho pensar que a pouco tempo vivenciamos um dos períodos mais estranho de nossa história. É como se tivessem pausado nossa vida e desde então permanecemos parados, boquiabertos assistindo tudo sem agir. O céu foi mudando sua tonalidade, anunciou um tempo de escuridão, antigas ameaças foram ganhando espaços e seguidores.

De repente ser contra as diferenças tornou-se piada, o repúdio as mudanças não ocupam mais os espaços televisivos e virtuais nas figuras dos “humoristas”, o riso agora é de raiva. Historicamente, tempos de transição costumam ser turbulentos, caóticos porque nem todos compreendem a necessidade de abandonar velhos costumes e entender a importância de novas configurações.

O embate de ideias é fundamental para democracia, todos apresentam suas ideias, argumentam com informações e após discussões tomam uma decisão que esteja alinhada com a maioria. Contudo, muitos costumam confundir preconceito com opinião, ou até mesmo não entender bem quais são as atitudes que tornam uma ação preconceituosa.

Essa confusão é muito comum quando tratamos do assunto deficiência, especialmente por ser um tema rodeado por estereótipos e poucas pessoas para falar sobre eles de modo direto. Talvez, por esse motivo encontramos pessoas com e sem deficiência repetindo atitudes capacitistas ou até mesmo extremamente preconceituosas com a diversidade do outro.

Quando lidamos com pensamentos esperamos encontrar divergências, mesmo em grupos que compartilham de uma realidade semelhante em alguns pontos. Porém, ainda assim, me assusta ver a quantidade de pessoas com deficiência que defendem atitudes conservadoras e preconceituosas com o outro. Em grupos de pessoas com deficiência no facebook costumamos encontrar muitas postagens e comentários homofóbicos e machistas de todo tipo de pessoa. Não era de se estranhar que a maioria destes perfis estão a favor do coiso.

Muitos pautam suas ideias em palavras bíblicas defendendo pensamentos excludentes como se estivessem denunciando uma infração ou como se ocupassem uma posição de superioridade espiritual não compartilhando da mesma falta com Deus. Os princípios de amor ao próximo são para um segundo momento, aquele em que são vítimas do preconceito ou, quem sabe, quando a sociedade homogeneizar os corpos eliminando as diferenças.

O debate se encerra quando confrontados de sua incoerência, irritam-se, ameaçam e praguejam amparados pelo distanciamento virtual. O ciclo se repete em outros grupos. Confesso não saber direito o que pensar deste tipo de situação, por um lado vejo pessoas desinformadas, a maioria sem acesso a educação sem um estilo de vida ativo participando socialmente de outros grupos. O isolamento proporcionado pela deficiência e o excesso de cuidado da família acaba contribuindo para a formação de pensamento dessas pessoas.

Entretanto, por outro lado, refuto meu próprio raciocínio. Esse tipo de leitura não capacitismo de minha parte? Considerar a incapacidade de alguém como resultado do modo de vida que ela possui? Não será esta pessoa, de fato, incapaz de lidar com o outro por não conseguir lidar com a própria diferença?

Exponho aqui essa reflexão, mas ela vale para qualquer pessoa pertencente a um grupo considerado minoria. Mulheres, negros, LGBTs e pessoas que vivem em periferia estão sujeitas a defender ideias que as excluem, afinal vivemos todos em um sistema que nos aglutina. Desejamos a ele pertencer e para isso nos submetemos as suas regras sem questionar.

Sem pensar ou fundamentados em razões pessoais essas pessoas dizem sim, sem compreender que nessa afirmação abrem mão de muitas coisas. Especialmente, do direito de dizer não quando os seus direitos forem ameaçados. Esquecem que em uma escalada de recessões os mais afetados são os mais vulnerabilizados, no meu caso como pessoa com deficiência já vivi os resultados dessas ações. Um tempo em que não via meus iguais nas ruas, pois eles permaneciam em casa.

Sinceramente, não desejo reviver isso. Aliás, não desejo esta vida para ninguém. A vida está aí, nos pertence e temos o direito de fazer parte dela. Por esse motivo, continuarei a dizer não, mesmo se não for permitido dizer. Porque acredito que amanhã vai ser outro dia.

Ivana Bentes: Uma das imagens mais estarrecedoras desta eleição

Ivana Bentes: Uma das imagens mais estarrecedoras desta eleição

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Uma das imagens mais estarrecedoras desta eleição! Luciano Hang, dono das Lojas Havan constrange os funcionários, todos vestidos com camisas pro-Bolsonaro durante uma fala que viralizou na internet e na mídia. O dono das lojas Havan (Loja de Departamento me informei) faz ameaças de desemprego e anuncia o apocalipse caso seus empregados não votem em Bolsonaro.

A cena fala por si e é estarrecedora, pois está na cara e nos corpos o constrangimento. Agora que o bispo Edir Macedo entrou na disputa também, podemos imaginar o tipo de comandos acionados nos mais diversos campos que querem uma era de retrocessos e obscurantismo!

“Segundo Hang, a Havan tem hoje 15 mil funcionários e planeja alcançar 30 mil em 2022, mas a condição para tal expansão seria a derrota do PT. (…) No vídeo, o empresário aponta que a empresa fez pesquisas de intenção de voto entre seus funcionários e concluiu que ainda há 30% de trabalhadores querendo votar em branco ou nulo. ” (FSP)

“Depois não adianta mais reclamar. Se você não for votar, se anular o seu voto, se votar em branco, e depois do dia 7, lamentavelmente, ganha a esquerda e nós viramos uma Venezuela, vou dizer para vocês: até eu vou jogar a toalha”, disse o empresário no vídeo endereçado aos funcionários. (FSP)

Será que não aprenderam nada com o fracasso do golpe para o Brasil e para a economia? Com um impeachment que destruiu o país? A imagem contrasta com a celebração que vimos nas ruas e nas rede pelo #EleNao

A estética fascista e militar, robótica, colada na cara e paralisando os corpos dos trabalhadores.

 

Isa Penna: Ele Não, o grande encontro das lutas

Isa Penna: Ele Não, o grande encontro das lutas

Foto: Mídia NINJA

500 mil pessoas foram às ruas em São Paulo convocadas pelo movimento feminista e em pelo menos 200 cidades no mundo atos aconteceram.

No dia 29 de setembro, encontraram-se nas ruas as jornadas de junho de 2013, a primavera feminista, os movimentos sociais e os partidos que fizeram luta na última década.

O movimento feminista nunca esteve tão forte e popular na história do Brasil. E nunca a história do Brasil foi tão forte dentro do movimento feminista, que foi às ruas posicionado em defesa das mulheres, mas também da democracia, da liberdade, da diversidade e da igualdade.

Ontem foi uma vitória histórica e também um recado em alto e bom som: Seguiremos juntas de braços dados e não daremos um passo atrás!

É tempo de por amor na ordem e inclusão no progresso

É tempo de por amor na ordem e inclusão no progresso

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Por Fatine Oliveira

Seria senso comum iniciar este texto falando sobre a importância das eleições para o país. Que este é a festa da democracia, onde escolheremos nossos representantes e fazer valer nosso voto. Sim, talvez seria ingênuo dizer para ficarmos atentos ao perigo da intolerância nas redes sociais, do discurso de ódio alimentado nas ruas e as consequências disso em nossas vidas.

Entretanto, acredito que teremos de resgatar velhos conceitos ao lidar com velhos perigos. “A história se repete” essa é uma expressão antiga entre os historiadores, porém não poderia ser mais correta. Em ciclos vemos a razão e a emoção tomarem conta das pessoas influenciando completamente o modo de se relacionarem e transformarem suas vidas. Em um desses períodos vimos o quão poderoso pode ser o medo, pois com ele negociamos nossa liberdade.

Quando nossa segurança é ameaçada, nosso lugar de conforto, recorremos de forma imediata a primeira mão que nos “socorre”. Entretanto, nem sempre essa mão será amiga. A maioria das vezes pode ser a mão que intitula o filme “a mão que balança o berço”.

Hoje vemos um tal candidato ganhar espaço com seu discurso de ódio, com suas ameaças a bandidagem, em uma saga pela defesa dos cidadãos de bem. Esse homem sustenta suas ideias na palavra de um deus, muito mais parecido com aquele tirano das primeiras páginas da bíblia, do que com Jesus e seu discurso de amor ao próximo. Aliás, bem sabemos como o Messias foi tratado pelos mesmos que seguiam as ideias do Antigo Testamento.

O problema é que ficamos um pouco anestesiados após o golpe. Aquela cena de festa na câmara dos deputados, as ruas tomadas pelas camisas amarelas da seleção e a retiradas a galope dos direitos nos deixou desesperançosos com a mudança.

Lutamos, resistimos e vimos uma de nossas companheiras sendo morta e, até o momento em que escrevo esse texto, ainda não foi investigado.

Como disse, pode ser clichê dizer sobre a importância das eleições, mas olha, terei de correr este risco. Temos muito a perder. Não dá para permitirmos que nosso país, um dos mais ricos culturalmente, sucumbir ao discurso do padrão. Não dá para abrir mão da diversidade, ela está nas ruas. Em nossa vida todos os dias.

Nós, pessoas com deficiência, vivemos durante anos com nossas escolhas definidas por um diagnóstico médico e cerceados pela superproteção de uma família. Não somos mais esse tipo de pessoa. A deficiência está no modo como somos recebidos pela sociedade, na falta de espaços acessíveis para todos os tipos de corpos. Somos antes de tudo pessoas que também tivemos nossos direitos afetados por toda esse momento em que vivemos.

Por esse motivo, precisamos nos posicionar. Entender que se colocar contra esse candidato não quer dizer que somos contra sua pessoa, mas sim ao seu discurso e tudo aquilo que ele representa. Se quiseram transformá-lo em um mito, em verdade o tornaram símbolo e referência de tudo que devemos combater seja na política ou no dia a dia.

Se colocar contra esse candidato não quer dizer que somos a favor deste ou daquele, contudo que não toleramos mais esse tipo de discurso. Conquistamos nossa liberdade de expressão a custo de muito sangue de jovens estudantes, de filhos desaparecidos, de artistas e não aceitaremos mais o cale-se.

Neste país não teremos mais o “ame-o ou deixe-o”, seremos o “ame-o e lute por ele”. Queremos ordem sim, mas com muito amor e inclusão no progresso.

Como frear o encarceramento em massa no Brasil e nos EUA?

Como frear o encarceramento em massa no Brasil e nos EUA?

Evento em São Paulo une ativistas e pesquisadores sobre o tema para ampliarem luta continental

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O Brasil possui atualmente cerca de 720 mil pessoas encarceradas, e ocupa a terceira posição na lista de maiores populações carcerárias do mundo, superado apenas pelos Estados Unidos, com 2,1 milhões, e China, com 1,5 milhão de presos. Esse cenário aponta a gravidade do encarceramento em massa, que atinge principalmente a população negra e de baixa renda.

No último dia 11, no centro de São Paulo, o debate “As lutas anti-prisão no Brasil e nos EUA” reuniu pesquisadores e ativistas, na livraria Tapera Taperá, para propor alternativas ao aprisionamento, com o chamado abolicionismo penal, que consiste em “construir e não destruir” o sistema atual, conforme aponta a norte-americana Micol Seigel, pesquisadora da Universidade de Indiana.

Além disso também houve o lançamento da pesquisa “A Luta Antiprisional no Mundo contemporâneo: estudo sobre experiências de redução de população carcerária em outras nações”, realizado pelo pesquisador Rodolfo de Almeida Valente em parceria com a Pastoral Carcerária.

“O cárcere não tem a ver com o crime. O cárcere é usado para resolver problemas que os governos querem esconder, como a pobreza, a desigualdade social, a falta de assistência a pessoas com doenças mentais, etc. O crime é a justificativa”, afirma Seigel.

A pesquisadora norte americana diz que abolir as prisões por alternativas que dê liberdade, ou mesmo atuar na diminuição ou paralisação do encarceramento, não é uma utopia, nem teoria, e é possível colocar em prática, basta haver vontade política para executá-la.

O relatório da Pastoral Carcerária vem com o objetivo de mostrar como essas experiências não só são possíveis como estão sendo testadas em diversos locais. O estudo trouxe os resultados da prática em quatro locais: Califórnia (EUA), Portugal, Rússia e Chile.

“Partindo-se das premissas de que as estatísticas carcerárias são produtos de decisões políticas e de que os projetos de reforma, em si, são parte do mecanismo de reprodução (e muitas vezes de expansão) do dispositivo carcerário, as experiências dos diversos países e estados que adotaram “políticas de desencarceramento” serão abordadas não somente do ponto de vista das mudanças institucionais, mas com ênfase, sobretudo, no complexo de relações e tensões sociais que constituem a base dinâmica das “decisões políticas”’, relata Rodolfo na introdução do relatório.

Essa tensões sociais foram mostradas na sua forma mais dura a partir da vivência da ativista Miriam Duarte Pereira, da Associação de Amigos e Familiares de Presos (AMPARAR) que deu o seu depoimento durante o encontro.

“Filho de pobre, na periferia, a gente só espera [morte e prisão]. Eu mesma perdi três filhos assassinados pela polícia”, conta a ativista. “Estão matando os nossos filhos. Não é justo a gente colocar eles no mundo, dar amor, e ele acabar nesse sistema. Eles dizem que a gente não cuida, mas no sistema eles os matam. O estado tem que responder por isso, ir para a cadeira dos réus. Não é justo o que fazem com a gente na periferia”.

Atualmente trabalhando no CEDECA (Centro de Defesa da Criança e Adolescente), Miriam atua na denúncia de casos de maus tratos nas penitenciárias e nas casas de custódia de jovens infratores, ela diz que são recorrentes as reclamações devido às constantes violações de direitos, sejam dos encarcerados, seja de seus familiares.

“Eu tenho denúncias de mulheres que não aguentam mais terem que passar pela humilhação de uma revista vexatória, de ter que se agachar nua diversas vezes e ainda ser tocada durante as visitas”, relata a ativista do AMPARAR.

A advogada e feminista negra abolicionista, Dina Alves, chama atenção para o número de jovens negros vítimas de homicídios e do encarceramento, e aponta para o racismo institucional do judiciário brasileiro.

“Um sistema judiciário composto majoritariamente por homens, brancos e velhos, produz sistematicamente corpos matáveis nas ruas”, afirma Dina, que é autora da pesquisa ‘Rés negras, juízes brancos: Uma análise da interseccionalidade de gênero, raça e classe na produção da punição em uma prisão paulista’.

Foto: Divulgação Tapera Taperá

Em sua pesquisa, Dina chama atenção justamente para o contraste da aplicação lei nos tribunais, expedida por homens brancos, sofrida por mulheres negras nas penitenciárias superlotadas.

“Pode a vida de uma mulher negra –pobre, carroceira e vendedora de drogas– nas mãos de um juiz homem –branco, classe média alta– nos ajudar a entender o regime de dominação racial presente no sistema de justiça penal no Brasil? (…) Suas experiências podem ser entendidas a partir do que a socióloga norte-americana Julia Sudbury tem chamado de feminizacão da pobreza e da punição, isto é, de como as vulnerabilidades sociais, a criminalização e a punição fazem parte do mesmo processo de subordinação racial das mulheres negras”.

Em sua tese, Dina argumenta que “o sistema penal funciona como instrumento de dominação racial, pois é na sua administração que se manifesta de forma explícita a intersecção dos eixos de vulnerabilidade –delineados por raça, classe e gênero– na produção de categorias de indivíduos puníveis”.

Para a pesquisadora Micol Seigel, apesar do desenvolvimento do sistema carcerário no Brasil e nos EUA ter se dado de formas diferentes, as motivações para o aprisionamento são as mesmas.

“O capital requer a pobreza e por isso tem aumentado o cárcere. Cada vez mais vemos a diminuição de instituições para o desenvolvimento social e a proliferação de instituições para o encarceramento”, aponta Seigel. Além disso, ela crítica a chamada “humanização do cárcere”, em que as prisões passam a ter melhores condições para os presos. “Não precisamos de melhores, precisamos abolir o cárcere. Não tem prisão melhor ou pior, toda prisão é ruim”.

Uma das soluções desenhadas para frear o processo de encarceramento em massa vem com o lançamento da plataforma da Agenda Nacional pelo Desencarceramento, lançado também pela Pastoral Carcerária.

De acordo com Paulo César Malvezzi Filho, representante da pastoral, a agenda, em si, não traz pontos novos para o debate sobre o encarceramento, mas ela consegue aglutinar as diversas demandas de dezenas de movimentos sociais.

“A agenda consegue colocar em 10 pontos as principais demandas dos movimentos sociais que lutam pelo desencarceramento. Nós sabemos que vitórias isoladas não mudam nada. Só vamos conseguir realmente mudar se todos os pontos forem atendidos”, argumenta Paulo.

Confira os 10 pontos:

1. Suspensão de qualquer verba voltada para a construção de novas unidades prisionais ou de internação

2. Exigência de redução massiva da população prisional e das violências produzidas pela prisão

3. Alterações legislativas para a máxima limitação da aplicação de prisões preventivas

4. Contra a criminalização do uso e do comércio de drogas

5. Redução máxima do sistema penal e retomada da autonomia comunitária para a resolução não-violenta de conflitos

6. Ampliação das Garantias da Lei de Execuções Penais (LEP)

7. Ainda no âmbito da LEP: abertura do cárcere e criação de mecanismos de controle popular

8. Proibição da privatização do sistema prisional

9. Prevenção e Combate à Tortura

10. Desmilitarização das polícias e da sociedade

O documento é ratificado por 43 organizações, movimentos sociais e coletivos. Confira a agenda ponto a ponto.

Debate na íntegra aqui.

Pastor Ariovaldo: Trabalho como estímulo para o progresso da comunidade

Pastor Ariovaldo: Trabalho como estímulo para o progresso da comunidade

No quarto episódio da série A Bíblia e os Direitos Humanos, Pastor Ariovaldo conta que segundo um texto bíblico, aquele que furtava, não furte mais. Antes trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom para que tenha com o que acudir ao necessitado. A função social do trabalho é para enriquecer a sociedade. O contrário de roubar no novo testamento é trabalhar em função do progresso de todos, logo o empreendedorismo que a bíblia apoia é chamado de empreendedorismo social. Assista!

Ericka Gavinho: Em que sociedade nos transformamos?

Ericka Gavinho: Em que sociedade nos transformamos?

Foto: Guilherme Prado

No último domingo (02/09), recebi a notícia do incêndio no Museu Nacional pelo whatsapp. As notícias chegavam muito rápido e, a cada nova mensagem, a situação ia se agravando. Busquei na internet mais informações e a situação era, de fato, desoladora.

Publiquei, na minha página do facebook, a primeira das muitas matérias que li, em que eu, no ímpeto de todos nós de termos uma pronta resposta aos acontecimentos que ocorrem, comentei tratar-se de uma tragédia, diante da perda inigualável para a Cultura, a Memória, a História e a Ciência do Brasil e da Humanidade.

Na sequência destes fatos, liguei a TV. Fiquei em choque diante daquele fogaréu que tudo consumia numa velocidade inimaginável, com dois bombeiros lá no alto e uma mangueira d’água, absolutamente impotentes diante da força do fogo. Enquanto, atônita, assistia a tudo aquilo e ouvia os comentaristas, os entrevistados e as autoridades, um turbilhão de pensamentos passava pela minha cabeça, combinado com um misto de sensações horrorosas pelo meu corpo. Entre tudo isso que me ocorria, um pensamento me martelava: em que sociedade nos transformamos?

Mais uma vez, mantendo o hábito recém adquirido, em razão da velocidade que as informações tomam nas redes, o que nos empurra a opinar sobre tudo e sobre todos em pouco tempo, sem muita reflexão, ainda, naquela noite de domingo, publiquei: “Esse incêndio diz muito do que nos transformamos enquanto sociedade.” Quero, então, passados alguns dias dessa inominável tragédia, voltar neste ponto, agora, com a possibilidade de um pouco mais de reflexão, através de um dos aspectos a ser analisado, entre tantos.

A má conservação do Museu Nacional e do seu acervo não se deu de um dia para o outro. Há anos, gestores, pesquisadores e demais interessados diretos vêm denunciando a falta de recursos, as péssimas condições do museu, que, inclusive, já tinha sido fechado, num determinado período. Essas condições não são/eram exclusivas do Museu Nacional. A quase totalidade do patrimônio histórico e cultural do Brasil está em péssimas condições.

Ora, por que cuidamos tão mal de nossa História, de nossa Memória, de nossa Cultura?

É, exatamente, neste ponto, que fica, para mim, clara a deterioração dos valores de nossa sociedade. Se nosso patrimônio histórico e cultural fosse importante para uma parcela significativa de todos nós, a pressão sobre os órgãos responsáveis por sua preservação já tinha acontecido, o que teria obrigado uma mudança de rumos, já que nossos governantes só têm, em regra, agido sob pressão da opinião pública e publicada.

É certo que andamos muito opinativos nas redes. Cheios de razão! Sentimo-nos quase que obrigados a ser “especialistas”, mesmo que temporários, em relação a toda nova polêmica que pulula nas telas de nossos telefones e computadores, mas é só na superfície das coisas que tocamos. A velocidade dos acontecimentos e de sua divulgação não nos permite aprofundar em nada e, quando tentamos, um novo fato ocorre e já nos obrigamos a postar sobre este também.

No essencial, a gente não tem conseguido tocar e alterar. O atual governo, de legitimidade questionada, passou uma PEC (proposta de emenda constitucional) que congelou os gastos em educação e em saúde por 20 anos. Pode-se não se acreditar, mas intervenções como essa tem ligação direta com o que aconteceu no Museu Nacional, que é uma questão de gestão, mas é, primordialmente, de orçamento, de recursos.

Embora eu até considere a possibilidade de parcerias com a iniciativa privada para a manutenção e gestão de nosso patrimônio histórico e cultural, não pode haver ingenuidade de que o grosso do investimento há de vir do Estado. É sua obrigação constitucional e não pode fugir dela. Ademais, o “Deus” mercado quase nunca se interessa por investimentos em que não haja retorno significativo e rápido aos seus aportes.

Com isso, considerando, inclusive, a situação estrutural em que se encontrava o Museu Nacional com fios aparecendo, cupins nas madeiras, sem sistema de combate a incêndio, necessitando de reforma elétrica, entre outras necessidades que fomos descobrindo após a tragédia, é evidente que cabia ao Estado, em especial, ao Governo Federal, tomar medida, inclusive, emergencial para tirar o Museu do risco iminente de se perder, o que, lamentavelmente, terminou por acontecer.

Ora, mas como pressionar por isso quando, repito, a grande maioria de todos nós não se mobiliza efetivamente pelo que é essencial?

Para ficar, apenas, em dois exemplos:

Temos um candidato à Presidência da República, com índice expressivo de intenção de votos, que afirma que vai acabar com o Ministério da Cultura, que seu Ministro da Educação será um ator-pornô, que, acredito, não ter lido nem meia dúzias de livros na vida, diante das sandices que fala, e cuja a única cultura que cultivou foi a dos músculos.

Ademais, fôssemos uma sociedade preocupada com o nosso passado e também com o nosso futuro, a PEC do congelamento dos gastos em Educação por 20 anos deveria ter sido motivo para pararmos o país, deixando claro aos governantes as nossas prioridades.

Ou alguém acredita que atingiremos patamares civilizatórios sem Educação de qualidade e para todos, sem o cuidado com nosso Patrimônio Histórico e Cultural e sem a regular e indistinta Difusão da Cultura e das Artes?

Mas a velocidade de nossas tragédias pessoais e coletivas é grande e, na sequência, já temos mais um assunto a opinar. Enquanto isso, o país é devastado por falta de recursos, de prioridades, de tudo, inclusive, de uma sociedade organizada, capaz de se mobilizar, efetivamente, por nossa Cultura, pelo nosso Patrimônio Histórico e Cultural, pela Educação de nossas crianças e jovens, pela produção de Ciência.

Todos nós acendemos um fósforo e jogamos no Museu Nacional.

Caso Bolsonaro: vamos conversar sobre fascismo e ódio?

Caso Bolsonaro: vamos conversar sobre fascismo e ódio?

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Todos, independentemente da opinião que têm sobre este ou aquele político ou partido, precisam parar, respirar fundo e recompor suas posturas e comportamentos, sem precisar abrir mão de suas opiniões, antes que seja tarde demais para o convívio entre diferentes. Ter uma visão crítica sobre os acontecimentos — mesmo sobre aqueles que vão ao encontro das suas opiniões – é fundamental neste momento.

Ao longo desse conturbado processo político que o Brasil vive, pelo menos desde 2013, um fenômeno perigoso tem sido o protagonista: o discurso de ódio. Ele emergiu das profundezas para se tornar o principal ingrediente da acirrada disputa entre dois projetos antagônicos de país, de sociedade.

O discurso de ódio é aquele que ataca de forma deliberada setores da sociedade, aprofundando preconceitos e induzindo a intolerância a partir da inferiorização, da criminalização de grupos específicos – mulheres, negros, índios, comunidade LGBT, por religião, ideologia, nacionalidade.

Esse ódio social, cultural, político, econômico que é gestado em situações particulares da conjuntura política é o gérmen do fascismo. E, infelizmente, é isso que estamos vivendo neste exato momento no Brasil.

Quando o discurso de ódio ganha escala e é de alguma maneira chancelado e até estimulado por grandes meios de comunicação de massa, o que se produz em consequência é a proliferação desse ódio, contaminando o tecido social até que o ódio discursivo se materialize em violência.

Isso ocorreu porque os meios de comunicação de massa, ao adotarem de forma explícita uma posição na disputa política, deixaram de fazer jornalismo para informar, e passaram a construir um discurso para validar sua posição.

Para isso, a mídia utiliza uma narrativa cujo objetivo é causar indignação nas pessoas. E quando se manipula a informação com o intuito de gerar medo, raiva, indignação ou empatia, a discussão perde objetividade. Ela deixa o campo racional da opinião e passa para o campo da emoção, das paixões. Então, não há mais espaço para mudar de opinião, porque na verdade não há uma opinião a ser debatida, o que há é uma crença, é uma paixão por este ou aquele representante, este ou aquele argumento, esta ou aquela posição. Não importa mais se é verdade ou mentira, se é razoável ou não, o que vale é se vai derrotar meu “inimigo” ou favorecer meus “aliados”.

A mídia transformou a discordância contra a Dilma e o PT em ódio. Os opositores passaram o odiar o PT, odiar a Dilma, a odiar o Lula. Ou você que seguiu a leitura deste texto até aqui e discorda do PT nunca se referiu a Lula, Dilma e ao PT com o adjetivo ódio? Esse ódio pavimentou o impeachment e criou um ambiente fértil para o surgimento dessa violência que estamos vivendo.

A medida que vão se plasmando essas paixões, elas são reverberadas e potencializadas em redes sociais. Nas redes, uma falsa noção de impunidade permite que o discurso de ódio aumente de tom, se transformando explicitamente em ameaças, xingamentos, acusações. Numa espécie de vitamina para a violência.

Uma vez consolidado dois campos de guerra, os de camisa verde e amarela e os de camisa vermelha, os coxinhas e os petralhas, e por aí vai, a intolerância e o ódio transbordam para a violência física. Além disso, posturas autoritárias ganham força nesse ambiente.

E, desde 2013, o principal porta-voz desse discurso de ódio e dessas posturas tem sido Jair Bolsonaro. O militar da reserva se orgulha de fazer apologia a torturadores, não cansa de tecer elogios ao regime militar e às Forças Armadas, defende abertamente a liberação do porte de armas, tem atacado deliberadamente direitos humanos, reiterando preconceitos contra pobres da periferia, negros, LGBTs, mulheres e estimulado o ódio contra ativistas de esquerda, falando sem pudor que é preciso exterminar essa gente.

Seus discursos jogam combustível num ambiente político já em chamas.

Pessoas vestidas de vermelho são agredidas nas ruas, tiros foram disparados contra os ônibus da Caravana Lula pelo Brasil em Santa Catarina, aumentam as agressões e violência nas manifestações, cresce a repressão policial, aumentam os casos de assassinatos políticos como o de Marielle Franco e Anderson, comunicadores sociais e jornalistas são assassinados e, infelizmente, um candidato a presidência da República é esfaqueado.

E a mídia já está aproveitando esse caso para seguir essa linha de cobertura emocional, acusando setores políticos sem prova e transformando Bolsonaro num mártir. A falta de equilíbrio informativo dos meios de comunicação de massa está se transformando num perigo real para a democracia.

Está escancarado que ou fazemos alguma coisa, ou vamos continuar caminhando numa estrada que vai nos levar para o abismo autoritário do fascismo. Nós já estamos nela, vale dizer. Mas ainda é possível fazer o retorno.

Para isso, é preciso recompor de forma democrática as instituições. É preciso parar de disseminar o ódio como argumento político. A fragilidade do Estado Democrático brasileiro não comporta golpes na soberania popular. O impeachment de Dilma Rousseff sem crime de responsabilidade conforme previsto na Constituição — o que já é abertamente reconhecido por setores que apoiaram a deposição — nos colocou nessa estrada.

Não se derruba uma presidente “pelo conjunto da obra”, não se retira um governante de um posto porque ele foi eleito por pequena vantagem de votos. Não se depõe um presidente por baixa popularidade ou porque um setor da sociedade – por maior que ele seja – acha que seu governo está sendo péssimo para os seus interesses ou para o país. O lugar de fazer isso é depositando o voto nas urnas.

E vamos às urnas em menos de 30 dias, com o líder das intenções de voto preso sem provas, num processo político conduzido por um juiz que não tinha isenção para estar à frente do caso, com o segundo colocado nas intenções de voto esfaqueado, um Supremo Tribunal Federal totalmente capturado por interesses e sem capacidade de cumprir o seu papel de defender a Constituição, uma sociedade contaminada pelo ódio e pela intolerância e que ficou cega a qualquer argumento, e com setores das Forças Armadas assanhados para assumir um protagonismo nesse processo.

O Brasil passa por uma de suas mais agudas crises institucionais desde a proclamação da República. A responsabilidade do povo neste momento é gigante. Temos que a qualquer custo garantir a realização das eleições, impedir que qualquer tipo de arbítrio retire o direito inalienável do povo de decidir os rumos do país. Temos que ir às urnas de forma mais consciente, compreendendo que não há solução para os conflitos e para o país fora da política. Que diferentemente do que pregam a mídia e o senso comum, os políticos não são todos iguais. Que se nós, o povo, abrirmos mão de participar do processo político – ainda que seja apenas na forma do voto — outros o farão em nosso nome.

Por isso, temos que fazer um esforço individual e coletivo para dialogar, para que a diferença e a divergência permaneçam no campo racional. Não vamos deixar que o ódio abra o caminho para o fascismo. No pasaran!

Monique Prada: Pode a puta de luxo falar?

Monique Prada: Pode a puta de luxo falar?

Foto: Jennifer Andreas

O debate sobre a prostituição vem se tornando, nos últimos tempos, terreno de disputas acirradas e mesmo violentas, fenômeno muito estimulado pelo aumento do uso das plataformas sociais por trabalhadoras do sexo, grupo historicamente marginalizado e deixado à parte do debate político.

De um lado, pessoas que defendem direitos para a categoria e lutam também contra o estigma.

De outro, grupos que acreditam na necessidade urgente de abolição da atividade e que, para tal, atacam violentamente ativistas desse primeiro grupo, formado em boa parte exatamente por pessoas que exercem o trabalho sexual, em suas várias modalidades.

Uma das principais estratégias usadas para deslegitimar as falas das pessoas envolvidas em trabalho sexual e luta por direitos tem sido justamente a de classificar essas pessoas como prostitutas de luxo.

Mas o que está por trás quando alguém usa como ofensa a expressão “prostituta de luxo”, quando usa essa qualificação falha e flutuante para dizer que determinadas trabalhadoras sexuais não devem ser ouvidas sobre o trabalho que exercem e o meio onde atuam por “não representarem a maioria”? Quem representaria essa maioria quando mesmo profissionais que atuam em nichos menos privilegiados, como os hotéis da Guaicurus e as ruas do Jardim Itatinga, têm as suas vozes silenciadas sob tal “acusação”? Remuneração adequada e melhores condições de trabalho não devem fazer parte das lutas da classe trabalhadora? E se devem, como sabemos que devem, por que é que não deveriam fazer parte das lutas das profissionais do sexo?

O problema real talvez seja exatamente o fato de uma trabalhadora sexual dita de luxo mostrar ao mundo que não é necessário viver de modo precário para exercer esta atividade, o que poderia ainda inspirar outras prostitutas a almejar uma vida de menos privações.

Mas, antes de tentar responder essas questões, é preciso entender o que significa ser uma puta de luxo, no imaginário dessas pessoas que nos atacam. O que temos percebido é que essa designação fala da mulher que tem acesso a tudo o que as outras mulheres têm, ou deveriam ter, mas conquistou essa posição exercendo a prostituição como modo principal de sustento. Poder fazer três refeições ao dia, ter um lugar pra morar, custear os próprios estudos, cuidar dos filhos, eis que de repente essas características tornam indignas as nossas palavras, as nossas lutas, mas não as de nenhuma outra classe de trabalhadoras. É como se prostitutas classificadas como “de luxo” tivessem já a vida ganha e não mais pudessem se organizar nem se pronunciar sobre a própria atividade que exercem. Essa classificação, como se vê, é antes de mais nada moral. Não importa como essa mulher chegou a tal posição ou de onde ela saiu: o que importa é que ela está ali, a mostrar que uma outra condição é possível para quem a sociedade quer que siga à margem, para quem o único lugar que essa sociedade reserva é o da violência.

Ser enquadrada dessa forma por certa militância parece significar que não temos condições de falar senão de nós mesmas, talvez das prostitutas que trabalham nas mesmas condições, enquanto que nada impede essa militância, muitas das vezes formadas por mulheres da mesma classe social à qual nos “acusam” de pertencer, de querer falar por toda uma categoria à qual não pertencem, nunca pertenceram e nem cogitam fazê-lo um dia. Às vezes, parece mais fácil acreditar que a condição ideal para que se possa falar pelas prostitutas, defendê-las com propriedade, seja exatamente essa, ser classe média e nunca ter exercido a atividade – caso contrário, seu posicionamento com certeza será “viciado” e, pior, danoso para as que exercem a atividade de forma mais precarizada.

“Não ouçam essas mulheres, não deixem que falem, que se organizem!”

E como se consegue isso? Acusando-as de ser prostitutas de luxo, desacreditando suas palavras, suas narrativas. Nisso já vamos vendo que, mais do que poder fazer três refeições ao dia, o que de fato nos classifica como prostitutas de luxo é acreditarmos que podemos falar por nós mesmas e que devemos ser protagonistas da luta que nos diz respeito. Se ela fala, se ela não se vitimiza, então só pode ser prostituta de luxo.

Essa postura se aproxima muito de um modo de proceder tipicamente machista, que acredita que mulheres que fazem sexo, que não tem vergonha de fazer muito sexo, e em especial as que cobram por isso, não podem falar por si. Postura frequente nos fóruns de avaliação de serviços sexuais, parece estar agora começando a ser aceita e defendida por alguns feminismos. Talvez haja uma questão de classe aqui: não por acaso estes homens pertencem à mesma classe social que aquelas que nos acusam de ser “prostitutas de luxo”.

Fake News: A apologia da verdade como instrumento de censura

Fake News: A apologia da verdade como instrumento de censura

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Desde a eleição de Donald Trump, uma nova “ameaça global” tem espalhado insegurança pelo mundo: a disseminação de notícias falsas, mais conhecidas internacionalmente como fake news. Rapidamente, elas foram classificadas como as novas pragas da era digital e têm inspirado governos e empresas (principalmente grandes conglomerados de mídia) a adotarem medidas para combater a sua distribuição, utilizando o que for necessário para exterminar as “mentiras” que circulam pela internet. Mas todo esse debate está perigosamente contaminado por interesses políticos e econômicos que precisam ficar mais explícitos para que a sociedade não seja manipulada e a liberdade de expressão atacada em nome de uma verdade que sequer seja possível determinar.

Vivemos numa sociedade hiper conectada que ampliou de forma exponencial o volume de conteúdos disponíveis, produzidos pelas mais variadas fontes e sobre todos os assuntos que se possa imaginar. A internet permitiu a ampliação das vozes na arena pública de debate, possibilitou o surgimento e fortalecimento de meios alternativos, independentes, colaborativos, que passaram a disputar com os tradicionais meios de comunicação — mesmo sem o mesmo poder econômico — o “mercado de notícias”. São centenas, milhares de jornalistas, comunicadores sociais, comunidades, pessoas e organizações que estavam historicamente excluídos do sistema de mídia privado monopolizado — principalmente no Brasil — e que puderam passar a exercer de forma mais efetiva o direito à comunicação, tal qual previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos que completa 70 anos em dezembro: o direito de procurar, receber e transmitir informações e opiniões.

Esse ampliação de vozes gerou incômodo para a mídia hegemônica tradicional, que viu seu monopólio do discurso ameaçado, seu modelo de negócios baseado na monetização da notícia obsoleto, e que começou a perder vultosos volumes de recursos publicitários para a internet. De outro lado, também começou a incomodar empresas de vários setores econômicos, a elite política, como também muitos governos e instituições que passaram a ser confrontados pela nova mídia independente.

Com essa explosão informacional, também cresceu a quantidade de informação de baixa qualidade e surgiram oportunistas que abusam da liberdade de expressão para espalhar desinformação, calúnias, difamação e preconceitos na internet.

Nesse contexto, o desafio de produzir informação de qualidade se torna ainda maior. Também se amplia a responsabilidade dos intermediários — aqueles que distribuem os conteúdos produzidos — e dos próprios leitores, internautas, ou melhor dizendo, dos indivíduos que precisam adotar uma postura mais crítica com relação aos conteúdos que recebem.

Verdade ou mentira?

O debate sobre fake news — termo que tem sido cada vez mais criticado por especialistas e substituído por outro que é mais adequado para explicar o fenômeno que se deseja de fato combater, a desinformação — precisa levar em consideração esse cenário bastante novo e muito complexo.

Precisa, também, fazer uma reflexão sobre a própria noção de verdade, disputada amplamente por várias correntes filosóficas desde os seus primórdios. A complexidade intrínseca de definir A verdade, como algo uno e inquestionável, é derivada do próprio reconhecimento filosófico de que uma verdade pode ser atribuída a algo a partir de diferentes juízos culturais e históricos.

Trazendo essa reflexão para o campo jornalístico, atribuir a uma notícia — que por si só já é produto de um processo de seleção e recorte de um fato — a classificação de verdadeiro ou falso é algo ainda mais complexo e delicado, uma vez que o que se está analisando já não é o fato em si, mas uma narrativa de outrem sobre ele.

A busca de mais objetividade e clareza na produção de uma notícia deve ser sempre uma preocupação de quem produz conteúdo, seja para a mídia tradicional ou para a internet. Mas a existência de conteúdos de baixa qualidade não pode ser pretexto para se iniciar uma cruzada em busca do “Santo Graal da verdade”. Esse é o movimento que tem se construído por veículos da mídia hegemônica e poderes políticos com o objetivo de reposicionar a velha indústria jornalística no mercado ou reprimir críticas e calar vozes dissonantes.

É a partir dessas complexidades, dos vários interesses envolvidos, e das muitas camadas que se podem construir entre uma suposta verdade e a mentira factual — algo mais facilmente identificável — é que devemos discutir o fenômeno das fake news, ou melhor, da desinformação.

Outro aspecto que precisa ser contextualizado nesse assunto é o reconhecimento de que a produção e divulgação de desinformação não é algo novo na história da humanidade, muito menos do jornalismo e, desta forma, não nasceu com a internet e com as redes sociais. Episódios envolvendo a publicação de notícias que não tinham o apreço necessário com a busca da objetividade — essa sim uma premissa básica da atividade jornalística — são bastante abundantes nos anais dos mais variados veículos de comunicação tradicionais (jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão). Dessa forma, a desinformação não é um fenômeno restrito ao ambiente digital, mas que ganhou nova dimensão a partir dele.

E se é assim, a manipulação de disputas eleitorais a partir da disseminação da desinformação também não é novidade. São inúmeros os casos que podemos citar envolvendo desinformação e manipulação da informação pela mídia tradicional que interferiram no resultado de uma eleição, ameaçando a democracia e a soberania popular. Podemos citar a edição do Jornal Nacional do último debate entre os candidatos Lula e Collor no segundo turno da eleição presidencial de 1989, ou a tentativa de relacionar a campanha de Lula, nesta mesma eleição, ao sequestro do empresário Abílio Diniz. Mais recentemente, a antecipação da capa da revista Veja “Eles sabiam de tudo”, encartada em jornais de todo o país, também foi uma tentativa de alterar o resultado da eleição de 2014. Ou o clássico exemplo da cobertura da Rede Globo sobre o comício das diretas no Vale do Anhangabaú, em 1984, deliberadamente noticiado pela emissora como uma festa de aniversário da cidade de São Paulo.

A desinformação pode ser fruto de erro de apuração, erro de edição e portanto não intencional ou pode ser, como apontado em recente documento da Comissão Europeia, “criada, apresentada e divulgada para obter vantagens econômicas ou para enganar deliberadamente o público”1. As duas formas de informação podem causar danos à sociedade, mas precisam ser tratadas de forma distinta.

Além disso, é preciso considerar que na internet (assim como na sociedade) não circulam apenas notícias jornalísticas, mas também muita análise e opinião, que não podem e nem devem ser passíveis de classificação dentro de um “espectrômetro” da verdade ou da mentira. E aqui há outro desafio: separar informação e notícia de análise e opinião neste debate, sem desconhecer que também no campo da análise e opinião, e talvez principalmente neste, ocorre a manipulação.

Ou seja, a manipulação da informação no jornalismo ocorre e sempre ocorreu a partir da seleção do que deve ou não ser notícia, da perspectiva adotada pelo repórter que vai narrar o acontecimento, das escolhas feitas para fazer essa narrativa, dos “eleitos” para serem os personagens da matéria e os especialistas ouvidos. O noção de imparcialidade e neutralidade em torno do qual se erigiu as empresas jornalísticas já está bastante desmistificada. Foi com base nessa falsa ideia que os grandes conglomerados de comunicação construíram sua credibilidade e monetizaram a notícia.

Ministério da Verdade?

Diante do que foi exposto, será possível, ou melhor, será desejável criar alguma instância — pública ou privada — que terá o poder de definir o que deve ou não circular de informação na sociedade, sob o pretexto de combater a desinformação e suas consequências? Vamos enveredar para a validação de um Ministério da Verdade ou para autorizar agências privadas de checagem de fatos e notícias decidirem o que é notícia/informação de qualidade, ou ainda pior, o que é verdade ou mentira?

A pergunta não é meramente retórica. Porque esse é o modelo que parece estar se delineando na prática. Desde a eleição de Trump, já mencionada aqui, houve um boom de agências de checagens de fatos pelo mundo, e de iniciativas envolvendo veículos de mídia, plataformas e essas agências para adotar medidas contra a circulação de “notícias falsas”.

A checagem de informações jornalísticas é tarefa essencial e permanente para o aprimoramento da atividade de jornalistas, comunicadores sociais, blogueiros, enfim, de todos e todas que produzem e distribuem conteúdos na sociedade. Essa não é uma atividade nova. Nas redações, sempre existiu um departamento de checagem composto por profissionais que checavam as informações contidas nas notícias produzidas pelos repórteres. A existência dos observatórios da imprensa — apesar de não terem o intuito de classificar as notícias — sempre contribuiu para o debate da qualidade da informação. Ombudsmen, ouvidorias e as sessões de erramos também cumprem, em níveis diferentes esse papel.

Na internet, com o aumento exponencial do volume de informações em circulação, o surgimento de agências de checagem de fatos pode até prestar um serviço importante para ajudar o cidadão na busca de mais informação sobre determinado conteúdo. O que é muito preocupante, é a tentativa de transformar essas agências em certificadoras de notícias.

As agências de fact-cheking alardeiam que possuem um sistema neutro e imparcial de classificação. Elas colocam informações em caixinhas que vão de notícia verdadeira até falsa, passando por exagerada, imprecisa, contraditória, insustentável, discutível, distorcida, sem contexto, de olho e por aí vai. Todos critérios bastante subjetivos, que nada têm de imparciais, pelo contrário, são passíveis de interpretação a partir de valores e viés editorial.

Além disso, boa parte das principais agências são iniciativas ou possuem parcerias com grandes e tradicionais veículos de comunicação. Um estratégia bastante interessante para quem quer “remonetizar” a notícia como mercadoria, recuperando o discurso da imparcialidade, isenção e apartidarismo. Nesse processo se resgata com força o argumento de que notícia de qualidade é aquela produzida nos grandes veículos de comunicação, que fazem um jornalismo profissional.

Dessa forma, pretende-se claramente fazer uma distinção entre o que é produzido pela mídia hegemônica (jornalismo profissional e de qualidade) e todo esse novo ecossistema de comunicação surgido na internet, a mídia alternativa, independente que é taxada pejorativamente de jornalismo engajado e, portanto, de baixa qualidade.

Além de estarem vinculadas à veículos da mídia tradicional (a Lupa, por exemplo, tem vínculo com a revista Piaui, e está hospedada no Uol, que é do Grupo Folha; a Aos Fatos também tem parceria com o Uol e com a revista Nova Escola, esta do grupo Abril), e ainda têm parcerias com as plataformas de internet como Facebook e Google.

E as plataformas estão utilizando a classificação das notícias feitas por essas agências para definir quando um conteúdo deve ou não ter sua circulação reduzida ou mesmo ocultada. O Google indica na sua busca quando uma notícia foi checada — e neste caso ela pode ter preferência no retorno da primeira página. O Facebook pode punir páginas que tenham suas notícias classificadas de forma negativa pelas agências, e reduzir seu alcance na plataforma.

As experiências internacionais e nacionais já existentes nesse campo mostram que essas agências e suas alianças com as plataformas têm atingido exatamente o que a internet produziu de melhor – a possibilidade da existência de outras fontes de informação, independentes e alternativas, e que tem dado visibilidade para setores historicamente silenciados pela mídia hegemônica se expressarem. O alcance de páginas da mídia alternativa e independente tem sido afetado negativamente por estas classificações.

Por tudo isso é preciso ter muita cautela ao propor medidas. Conferir ao Estado ou ao setor privado a prerrogativa de ser o Supremo Tribunal da Verdade pode levar a um cenário de graves violações à liberdade de expressão, de restrição da diversidade e pluralidade, e até de censura.

Dados, Inteligência Artificial e Desinformação

Se a desinformação sempre existiu, o que há de novo no fenômeno atual é a sua forma de distribuição, que ganhou escala e velocidade jamais vistos antes em função do modelo de negócio das redes sociais e dos agregadores de conteúdo. A partir da coleta e tratamento de dados pessoais é possível traçar um perfil político, ideológico, psicológico dos usuários da internet, que possibilita o direcionamento quase que individualizado de conteúdos. O outro aspecto que precisa ser considerado é o atual contexto político de polarização extrema dos posicionamentos e de intolerância no debate de ideias.

O modelo de negócios e a forma de funcionamento das plataformas e aplicações da internet são em grande medida os principais impulsionadores da desinformação no ambiente digital. Baseado na economia da atenção e do “like”, a monetização dos conteúdos se dá pelo tempo que as pessoas permanecem nas plataformas, pela quantidade de reações (likes) e compartilhamentos dos conteúdos. Então, quanto mais reagimos e compartilhamos determinados conteúdos — mesmo se o fizermos para discordar dele — mais relevante aquele conteúdo se torna e maior será a sua rentabilidade para quem o produziu e para a plataforma.

Essas manifestações e cada clique que damos em um site na internet, cada busca que fazemos, cada site que visitamos, cada compra que fazemos geram uma quantidade enorme de dados que são coletados, armazenados e tratados pelas plataformas e aplicações que são utilizadas pelos algoritmos de programação para nos direcionar mensagens cada vez mais específicas, com o intuito de nos proporcionar “uma melhor experiência de navegação”.

Esses algoritmos são as fórmulas matemáticas utilizadas para determinar o que aparece no meu feed de notícias, qual o grupo de pessoas que eu visualizo e com as quais eu interajo, criando bolhas de afinidades por posições políticas, religiosas, etárias, de gênero, raça, interesses culturais etc. O objetivo explícito dessas plataformas é juntar as pessoas (connecting people) que pensam igual e têm interesses comuns. Ao fazer isso, é possível direcionar conteúdos para reforçar discursos, preconceitos, ressaltar medos, ou seja, plasmar posições já existentes.

Foi isso o que aconteceu no escândalo Cambridge Analítica-Facebook, quando o vazamento de dados de milhares de usuários da plataforma foi parar nas mãos de uma agência de publicidade política que as utilizou para direcionar mensagens a favor ou contra Trump e Hillary na disputa eleitoral norte-americana.

Num cenário de crise e “guerra ideológica”, perde-se boa parte da racionalidade, o importante é validar a sua opinião, reforçar os seus argumentos para derrotar o outro que pensa diferente de você. Este é um ambiente propício para a proliferação da desinformação e do discurso do ódio. As pessoas ficam mais suscetíveis a acreditar em qualquer história que favoreça o seu argumento.

Nesse sentido, é urgente debater a responsabilidade das plataformas na disseminação da desinformação e questionar o seu modelo de funcionamento, de confinamento das pessoas em bolhas ideológicas. Essa ideia de que a melhor experiência de navegação é reunir os que pensam igual e nos apartar dos que pensam diferentes é um total desserviço à democracia. A sociedade precisa do confronto de ideias, de uma dose de desconforto diante do que o outro pensa para ser mais crítica e democrática. Sem isso não é possível construir pontes de diálogo respeitosas e que permitam, a partir da diferença, produzir novas ideais e sínteses sociais. Toda a unanimidade é burra e cheira a autoritarismo.

Exigir das plataformas e agregadores de conteúdos transparência sobre os seus algoritmos, sobre os critérios e parâmetros de indexação e distribuição de conteúdo, transparência de informações sobre os impulsionamentos é indispensável para a restrição da circulação de conteúdos caça-níqueis e de desinformação de todos os tipos.

E o que fazer?

A sociedade precisa tomar cuidado ao propor soluções de caráter punitivista, que atentem contra direitos fundamentais e que, provavelmente, não irão solucionar o problema que está se querendo sanar.

Praticamente todas as iniciativas em curso no Brasil têm esse caráter. O Tribunal Superior Eleitoral constituiu, no final de 2017, uma comissão para combater “fake news” nas eleições deste ano com a participação da Abin e da Polícia Federal. Declarações recentes do ex-presidente do TSE, ministro Luiz Fux, ressaltando que é preciso vigiar a ação dos internautas demonstram isso. Ele chegou a dizer em mais de uma ocasião que se ficar comprovado que houve influência de “fake news” no resultado da eleição que esta poderia ser anulada. Bravata ou não, a declaração mostra o perigo que isso representa para a soberania do voto popular num momento de grave crise política e restrição democrática.

Também as mais de 20 propostas legislativas em tramitação no Congresso Nacional sobre o tema dão uma ideia de como os projetos flertam perigosamente com a criminalização generalizada de cidadãos. As propostas de penas para quem distribui “fake news” variam de multas que partem de R$1.500 e chegam a oito anos de reclusão. Mas não só, muitos desses projetos criminalizam, também, as pessoas que compartilham fake news, o que é gravíssimo. Isso pode gerar uma vigilância massiva de discursos na rede, autocensura, e censura.

Parte desses projetos também propõe colocar as plataformas (Facebook e Google) como promotores da censura privada, com propostas equivocadas de alteração do Marco Civil da Internet. O objetivo é obrigar as plataformas a retirarem conteúdos sempre que houver um pedido, mesmo sem ordem judicial, medida que é conhecida pelo termo “notice and take down”. Vale dizer que o MCI já permite que as plataformas retirem conteúdos com base nos seus termos de uso, mas elas só são obrigadas a fazê-lo se notificadas por ordem judicial. Ou seja, só se tornam responsáveis por conteúdos de terceiros caso se recusem a cumprir uma notificação judicial.

Criar novos tipos criminais para combater desinformação ou mesmo discurso de ódio é muito prematuro e bastante temerário. O país já possui leis suficientes para enfrentar esses problemas, como o Marco Civil da Internet. No código penal, já há previsão de penas para crimes de injúria, calúnia e difamação.

Um importante passo para combater o problema na sua origem foi dado recentemente, com a sanção da Lei de Proteção de Dados Pessoais, que será fundamental para garantir a privacidade e restringir o direcionamento de conteúdos. A lei 13.709/2018 é fruto de um amplo debate e o relatório final do projeto proposto pelo deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) foi aprovado por unanimidade na Câmara e no Senado. No entanto, um aspecto essencial para a efetivação da lei foi vetado pelo governo federal. Temer vetou a criação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados e o Conselho Nacional de Proteção de Dados Pessoais e Privacidade, sem os quais a lei nasce desgovernada, sem um espaço concreto de “governança” dos dispositivos da lei. Garantir a recomposição de uma autoridade independente e autônoma com caráter multissetorial e técnico é indispensável para que a legislação seja efetiva e o direito à privacidade seja respeitado.

Para combater desinformação na internet é preciso ter proteção de dados pessoais, mais transparência das principais plataformas de distribuição e agregadores de conteúdos, enfrentar o debate sobre a governança e ética de algoritmos e adotar políticas públicas de educação para o uso das novas tecnologias de comunicação, além de de leitura crítica da mídia.

Só se combate desinformação com mais informação, com mais pluralidade e diversidade na produção e circulação da informação. Para isso, é fundamental enfrentar os velhos monopólios privados da mídia, conforme previsto no artigo 220 da Constituição, mas também os novos monopólios digitais da internet.

1 – Documento da Comissão Europeia ao Parlamento Europeu: Combater a desinformação em linha: uma estratégia europeia. Disponível aqui.

*Artigo publicado originalmente no número 155 da Revista Princípios.

Plano diretor e a luta pela gestão democrática das cidades

Plano diretor e a luta pela gestão democrática das cidades

Foto: Mídia NINJA

por Bella Gonçalves

Que existe um abismo entre as propostas legislativas e sua efetivação não é novidade para ninguém. Essa realidade não pode nos impedir, porém, de apoiar e construir leis em benefício da maioria da população. Em Belo Horizonte, nosso mandato coletivo na Câmara Municipal tem travado uma batalha árdua pela aprovação do novo Plano Diretor de BH, junto a entidades civis, instituições de pesquisa, grupos e movimentos sociais.

A nova proposta prevê diversos instrumentos de redistribuição da renda fundiária urbana para democratização da cidade. Estes instrumentos, porém, não agradaram o setor empresarial, que discordou dos encaminhamentos aprovados pelos delegados e abandonou a Conferência, substituindo o debate democrático pela tentativa de impedir a votação do plano através de lobby e pressão política.

O ponto mais polêmico do novo Plano Diretor é a instituição de um coeficiente de aproveitamento básico, parâmetro construtivo que determina quantas vezes a área do terreno pode ser construída de forma gratuita. Os delegados presentes na IV Conferência de Política Urbana determinaram que esse coeficiente seria igual a 1 para toda a cidade, ou seja, que todo terreno poderia comportar um empreendimento do mesmo tamanho do lote. O coeficiente de aproveitamento básico está associado à outorga onerosa do direito de construir, instrumentos de política urbana que estabelece uma contrapartida a ser prestada por aquele que desejar construir além do limite estabelecido.

Este instrumento, previsto pela Lei 10.257 (conhecida como Estatuto da Cidade), é baseado no princípio de recuperação dos investimentos públicos que impactam na valorização fundiária. Normalmente, os proprietários de terra e as empresas de construção civil são beneficiados pelo investimento de dinheiro público para a construção de vias e equipamentos, pois seus imóveis se tornam mais atrativos, situação que leva ao aumento da especulação imobiliária e ao “enriquecimento sem justa causa”.

A outorga onerosa prevê, então, que os proprietários paguem uma taxa caso queiram construir acima do limite estabelecido por lei, uma espécie de contrapartida para a coletividade. Por exemplo, se uma construtora quer construir um edifício de 10 andares em uma área que permite a construção de apenas 2, ela terá que adquirir essa área adicional. Os recursos arrecadados são utilizados para implementar políticas de habitação de interesse social e investimentos em infraestrutura urbana. A outorga onerosa não prejudica o cidadão comum. Na verdade, beneficia toda a cidade.

Alguns municípios já aplicam a outorga onerosa do direito de construir, como é o caso de São Paulo, que regulamentou o instrumento em 2010. Hoje, as moradoras e moradores colhem os frutos dessa decisão: um acordo recente entre as construtoras Cyrela e Setin e o Ministério Público propõe a doação do lote onde hoje está o Parque Augusta (com cerca de 24,mil m²) em troca do direito de construir em outras áreas da cidade.

Entretanto, mesmo diante de argumentos que comprovam a importância deste instrumento e a legalidade da sua aplicação, setores empresariais de Belo Horizonte se colocam contrários à aprovação do Plano, lançando uma campanha falaciosa, na qual insistem em dizer que a outorga é um novo imposto. Vale repetir: a outorga onerosa NÃO é imposto, mas um instrumento legal de reparação das desigualdades no espaço urbano.

O novo Plano Diretor de Belo Horizonte prevê ainda diversas propostas para a efetivação de uma cidade mais justa, como a proteção do patrimônio cultural da cidade; a geração, recuperação e preservação de áreas verdes; a criação de um fundo municipal de mobilidade urbana para melhorar o sistema de transporte coletivo e subsidiar a tarifa; e o reconhecimento de diversas ocupações urbanas. O documento foi construído por mais de 6 mil pessoas em 2014, em encontros que duraram mais de oito meses. Desde que chegou na Câmara se iniciou uma ampla e diversa movimentação de grupos em defesa do plano, levando a criação do movimento ‘Vereador Aprove o Plano Diretor’, que realizou diversos seminários, aulões, manifestações e cartilhas com o objetivo de envolver a população na aprovação do plano e enfrentar as mentiras do setor empresarial. Aprovar o Plano é fazer valer a participação popular e a efetivação de uma política construída de forma democrática.

Teatro Oficina: Nota pública sobre o Museu Nacional

Teatro Oficina: Nota pública sobre o Museu Nacional

Foto: André Mantelli

Nós, Teatro Oficina Uzyna Uzona
nos solidarizamos ao Museu Nacional,
Y nos inflamamos, em coro de reexistência, para uma longa luta COSMOPOLÍTICA contra as políticas de destruição das ciências, dos saberes, da memória, da arte y da cultura em curso neste país.

Hoje, transfigurados em cinzas, 200 anos de história arrancados de nós.

É urgente encarnar a força da INSURREIÇÃO nos corpos diante da sucessão de tragédias nesta terra, brasil.

A queda vertiginosa no orçamento – e do pensamento ligado à ciência, arte, cultura e transe – neste país, é diretamente proporcional à altura e ao calor das chamas que comem nossa memória em carne viva.

Aqui agora: museu nacional e tantos outros de nós, humanos e não-humanos: símbolos atômicos em perigo! aparecemos e desaparecemos, acendemos e apagamos, cardioeletricamente plugados, em contracenação com as políticas de morte do Estado contras os povos, aliadas à tabela periódica das políticas de emburrecimento geral da nação.

Até abril deste ano, foram aplicados somente 54 mil reais na instituição
info via Tarcísio Motta

VEM
JUSTIÇA JUSTA DE XANGÔ
VISÍVEL
RAIA JÁ!
DE MACHADO LUMINADO!
– canto pra xangô em Bacantes, no Teatro Oficina Uzyna Uzona.

SEJAMOS FÔLEGO Y FORÇA
UNS AOS OUTRXS
A LUTA É COSMOPOLÍTICA

Museu Nacional: Não é acidente, é barbárie!

Museu Nacional: Não é acidente, é barbárie!

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Que tragédia! A história do Brasil queimando! 20 milhões de peças e documentos destruídos! Museu Nacional da UFRJ queimando inteiro, séculos de arqueologia, peças, esqueletos, cultura indígena, fauna, flora, tudo! Camadas de tempo e de história e conhecimento. 200 anos de documentos, toda a história do império queimado, paleontologia, antropologia do Brasil. Prédios históricos, tombados, muitos deles dentro dos quais damos aula, pesquisamos, orientamos. Essa precariedade não é descaso da UFRJ, não existe política pública para manter e conservar nosso patrimônio.É o mesmo descaso com o patrimônio, a pesquisa, a ciência e tudo que é PUBLICO. O Museu sobrevive com o mínimo de recursos do Estado. O público fazia vaquinha para ajudar na manutenção! São incêndios e tragédias que não são ainda mais frequentes nem sabemos porquê. Na adversidade vivemos e as universidades fazem muito e muitíssimo com muito pouco. Damos aulas em palácios, castelos, museus, hospícios históricos. O MAM queimou, o acervo de Helio Oiticica queimou, a Cinemaca Brasileira pegou fogo, o Museu da Língua Portuguesa queimou! É muita falta de amor ao Brasil e sua cultura exuberante. Às vezes as metáforas se tornam literais . Um Brasil que está dando as costas para sua história e para seu futuro, queimando tudo o que prezamos! Imagem não de um acidente, mas da barbárie! É essa a política que está destruindo o país: Estado mínimo, plataformas privatizantes, odiadores da cultura, politicas de desinvestimento no comum!

P.S.E não venham dizer que a culpa é da UFRJ! Patrimônio público precisa de recurso e investimento público. Se o Museu não fechou antes foi graças aos pesquisadores, público e comunidade acadêmica !!

Mattis e o roubo do século

Mattis e o roubo do século

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O mundo contemporâneo estabelece cada vez mais uma relação de dependência dos recursos naturais, na economia e na política, seu controle é sinônimo de poder. Nesta abordagem, se torna imprescindível as fontes de petróleo e gás, insumos determinantes para mover a cadeia produtiva atual. Elaborou-se assim, a teoria intitulada de “Maldição dos Recursos Naturais”, onde se estuda as turbulências internas e externas oriunda de nações que possuem originalmente fonte destas riquezas em grande escala.

Internamente pela disputa da forma de distribuição desta renda, e externamente a ambição das potências mundiais de apropriarem destas reservas para incentivar suas economias. Caso se estes recursos como no Brasil englobem a maior floresta do mundo , o aquífero máximo do planeta , vastas terras agricultáveis , estoques fartos de minérios,um mercado de 210 milhões de pessoas e grandes companhias desvalorizadas, se fomenta uma cobiça ainda maior.

A visita do Secretário de Defesa dos Estados Unidos, James Norman Mattis, arremete sobre tudo isto. Neste conjunto de ideias ainda se apresenta o interesse sobre a base de Alcântara, que por estar próximo a Linha do Equador exige menos tempo e custos para lançamento de satélites. Na geopolítica, se apresenta o interesse de terceirizar uma invasão à Venezuela com seus 296 bilhões de barris de reserva bem como desconstruir a UNASUL. Mas o maior propósito é afastar o Brasil do seu maior parceiro comercial: China. Estes foram os pilares do objetivo do discurso estadunidense em sua visita ao país:

Os EUA e os países da América Latina, em especial o Brasil, tem uma história partilhada por proximidade geográficas e democráticas, outros não podem dizer o mesmo.Washington tem disposição de ter uma relação mais forte com o Brasil, que precisa saber a importância de escolher seus sócios. Possuímos o dever de advertir sobre a dependência tecnológica e econômica com países que não estão alinhados com nossa forma democrática de proceder.

Os Estados Unidos declararam que 2018 seria ” o ano das Américas”, procurando restabelecer o antigo controle militar e político da região. Na prática, uma advertência a influência crescente da Rússia e China no continente. A visita ao Brasil, Argentina, Chile e Colômbia visou acelerar o desmantelamento das instâncias autônomas da integração regional. Nesta perspectiva, a fidelidade de governos de direitas no hemisfério sul garante o comando aos anglo-americanos.

James Mattis é conhecido também como “cachorro louco” pelo seu poder e modo de matar, um representante da indústria bélica e seus interesses violentos. Em 1991 comandou a Guerra do Golfo, em 2002 a invasão ao Afeganistão e no ano posterior a do Iraque. Foi nesta última chefia ao aniquilar grupos sunitas e xiitas, que profetizou a sua frase histórica:” Se me incomodarem, matarei todos eles”. O resultado foi a eliminação comunidades inteiras, no caso iraquiano , passados 15 anos ainda se tenta reconstruir seu Estado depois da destruição e o saque promovido pelo governo estadunidense.

Aparentemente James Mattis , ao discursar na Escola Superior de Guerra, poderia parecer estar discorrendo sobre estratégia e segurança, mas na verdade procura aprofundar o maior roubo do século. Assim como realizou no Iraque, desta vez no Brasil, apossaram-se de poços de petróleo,absorveram a Embraer,enquanto ambicionam o Centro de Lançamento de Alcântara e o Aquífero Guarani. Na incapacidade de competir com a China numa globalização que eles mesmos criaram,retornam a colonização de “Nuestra America”, reforçando mais um ciclo de acumulação do seu capitalismo em detrimento do futuro dos latinos.

Vinícius Lima: O Que Aprendi Conversando Com O Invisível – Luís

Vinícius Lima: O Que Aprendi Conversando Com O Invisível – Luís

“Opa, tudo bem? É trabalho de igreja? De que igreja vocês são? Então, se eu falar pra você que não bebo, é mentira, mas também o álcool é a única droga que eu uso, não cheiro, não fumo, nem nada. Sou trabalhador, tenho hora pra beber, pra pegar latinha e também tenho hora pra me ajoelhar, todo dia leio a Bíblia.

Igreja pra mim é só a de Deus, e Deus é só um, naquela igreja vai ter maloqueiro, cachaceiro, vai tá todo mundo lá. Eu era da igreja do R. R. Soares, mas eu saí, hoje eu sou desviado.

Esses dias atrás, eu perdi minha mãe e meu irmão numa tacada só. Meu irmão era novo, tinha 23 anos e descia as ladeiras a milhão na motinha dele depois de dar uns tiros, na ultima curva o corpo dele foi e ele deixou a cabeça numa caçamba que não tinha visto. Assim que contaram a notícia pra minha mãe, a velha caiu dura, com 94 anos.

Olha, você fica três dias sem dormir, trabalhando, não desrespeita ninguém, e ainda vem alguém e coloca veneno na sua água, acredita? Essa é a vida na rua, não é mole não cara. Isso que eu só tô há 30 dias na rua. Meu nome é Luis.”

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O Luís é um cara sensacional! Lembro do dia em que o conhecemos estávamos em nossa formação inicial (eu e o André Soler) e foi só gargalhada, rimos muito porque ele era muito engraçado, mesmo sua história sendo bem triste. Esse papo foi na Barra Funda, logo no começo da rua do Bosque. Como, na época eu trabalhava na Rede Record, muitas histórias do SP Invisível eu ouvia por lá.

Nossa conversa foi muito em torno de questões sobre igreja e religião porque logo que ele nos viu, ele perguntou se nós éramos de alguma congregação. Não lembro se estávamos com alguma camiseta que nos denunciava, mas foi logo a primeira coisa que ele falou. Nós respondemos o que sempre falamos – “nós somos da igreja batista, mas o projeto não é de igreja nenhuma. Nele tem gente de várias religiões”.

Nós não gostamos de falar que somos evangélicos ou que o SP Invisível começou de um grupo de evangélicos, apesar de isso ser a verdade, pois na rua, na maioria das vezes, ser evangélico pode te fechar algumas portas, assim como pode também te abrir, pois tem instituições cristãs que tem um trabalho muito significante e efetivo, mas também tem outras que envergonham e mancham o trabalho de todas as outras nas ruas, orando com a mão na cabeça da pessoa, obrigando-a a orar, expulsando demônio de todo mundo, menos os que tem nele, sem falar dos pastores que ficam na praça da Sé fazendo o seu show. Quase nenhum irmão de rua gosta deles. Por isso que temos sempre que nos perguntar – “Quem passou por essa pessoa com o mesmo discurso que o meu para ela ter essa imagem? Qual foi o evangélico que ela conheceu e o que essa pessoa falou para esta que está na rua?”.

Bom, mas no caso do Luís, a nossa fé era algo que não impedia o nosso dialogo no momento. Inclusive, como é mostrado no relato, ele diz que era da igreja do R.R. Soares (pastor neopentecostal com diversos programas na televisão), a Igreja Internacional da Graça de Deus, mas que saiu por “estar desviado”. Na rua, existem muitas pessoas que são evangélicas, frequentaram igrejas, mas que foram expulsos devido a uma conduta que a instituição julgava ser inadequada. Acho que é até por isso que eles ficam bravos, quando vem algum “crente” querendo converter a pessoa sem nem perguntar nada, porque ás vezes eles sabem muito mais de Bíblia e do relacionamento com Deus do que a gente.

O Luís se orgulhava de dizer que não tinha nenhum vício. Segundo ele, ele não fumava nada, não cheirava, não injetava e estava quase parando de beber. Dizia isso até com um ar de superioridade, chegava a ser engraçado. Isso acontece bastante, para “conquistar” alguém que vem falar com ela, a pessoa nega várias coisas, como se estivesse “vendendo seu peixe”, algo como “se você tiver uma moeda, não dê pra ele porque ele vai fumar, eu vou comer”. O que no fundo é uma besteira dos dois lados. Eu acredito que temos que dar o que nós temos, se pudemos e quisermos, independente do que a pessoa for fazer com o que você deu para ela. Do lado de quem está na rua, também, as pessoas podem pedir de uma maneira mais sincera, acho mais legal. É que infelizmente ainda existe um moralismo e um preconceito muito grande. Quem nunca ouviu aquelas clássicas como, “eu só dou comida” ou “para que você vai usar esse dinheiro?”?

Só para finalizar essa observação sobre o moralismo que existe nas relações de doação, entre nós e as pessoas da rua, gostaria de compartilhar uma história que não foi contada no SP Invisível, mas que eu acho que foi o pedido mais sincero de dinheiro que eu já ouvi. Um dia, um rapaz jovem branco, devia ter a minha idade, me parou na praça da República e me disse – “Mano, eu preciso de 5 reais para fumar uma pedra. Ou você me dá ou eu vou assaltar alguém”. É logico que eu dei, não queria ver uma senhora ali na praça gritando para polícia, “pega aquele cara, ele pegou minha bolsa”. Já imaginei isso, quando ele me falou aquilo. Moral da história? Você dar ou não o dinheiro não vai fazer a pessoa largar o vício ou não. É maior que você.

Voltando para a história: nós acreditamos no que o Luís nos disse sobre não ter nenhum tipo de vício. Nessa época, como éramos bem diferentes do que somos hoje, isso era um ponto muito importante para saber se ajudaríamos ou não a pessoa. Hoje, como disse acima, acho isso uma grande besteira. Então, no final ele pediu para nós um dinheiro para comer durante a semana e nós demos 50 reais para ele, 25 meu e 25 do André.

Num outro dia, depois de meses, nós o reencontramos. Ele comentou com a gente que estava com muitas saudades da família dele e que queria voltar para a sua cidade. Nesse dia ele até chorou na nossa frente. Perguntamos onde que tem a passagem para a cidade dele e quanto que era. Ele disse que poderíamos comprar na Barra Funda mesmo e que era 100 reais. Foi o que fizemos naquela manhã: compramos uma passagem e nos despedimos, achando que nunca mais o veríamos. O seu ônibus sairia as 21 horas e ele chegaria lá na manhã seguinte, quase na hora do almoço.

No dia seguinte passei por lá e quem estava na praça? Exatamente, o Luís. Ele estava dormindo e aí eu perguntei para o Alemão, um amigo seu que estava por lá também – “O que aconteceu que ele não foi para casa? Não embarcou?”. O Alemão me disse o seguinte – “Cara, o Luís fuma pedra. Ele é viciado. Ontem a noite, ele trocou a passagem por droga. Chegou agora pouco aqui, ele estava no centro até pouco tempo atrás.”.

Essa resposta foi frustrante. Naquele momento me veio uma raiva muito grande, não do Luís, embora ele tivesse mentido para mim, mas do crack. Sempre ele, sempre essa maldita pedra. O crack é um genocídio lento para população em situação de rua, é literalmente uma pedra no meio do caminho da vida dessas pessoas. Essa frustração, depois de um tempo, foi boa. Antes, eu me achava um super-herói, queria resolver o problema de todas as histórias que eu ouvia. Hoje, entendo mais minha missão e sei os meus limites. Aprendi que não existe uma única pessoa que vai resolver tudo, mas o mais importante de tudo e o mais rico de tudo, nesse dia aprendi sobre relacionamentos e sobre o ser humano. Relacionamentos são frustrantes, às vezes, e seres humanos tem suas falhas e seus vícios. Uma coisa são nossas expectativas, outra é a realidade.

André Barros: 50420 foi visto por 1 milhão em uma semana

André Barros: 50420 foi visto por 1 milhão em uma semana

https://www.facebook.com/advandrebarros/videos/1849677675139545/

 

O vídeo mostra a força da causa da maconha com quase 20 mil compartilhamentos no Facebook, sem termos a possibilidade de saber a quantidade que circulou por WhatsApp. Trata-se de um vídeo político de um candidato que está há muitos anos na luta pela legalização da maconha e, com ela, a mudança dessa política racista de segurança pública. É importante registrar que a única forma de mudar esta sociedade brutalmente desigual é através da política. No entanto, a mídia oficial é concentrada nas mãos de poucos, e irresponsavelmente presta um enorme desserviço à nação ao imputar à política a causa de todos os males.

Essa mídia do capital, que não pode informar que esses políticos das quadrilhas dos milhões, na realidade trabalham e prestam enormes serviços às quadrilhas dos bilhões. Formadas por capitalistas milionários e bilionários, que assaltam bilhões do erário em obras e serviços públicos, combinando o preço e quem vai vencer a concorrência.

Com boa dose de ironia contra toda a hipócrita criminalização da maconha, o vídeo consiste numa apresentação, e é muito sério. Com termos jurídicos, apresenta o currículo acadêmico e de lutas de André Barros, candidato a Deputado Estadual do Rio de Janeiro. O número da candidatura é símbólico. O 50 do PSOL, que é o número do Partido Socialismo e Liberdade, e o 420 da planta, pois 420 era o código que a polícia de Nova Iorque usava para casos relacionados à maconha e também a senha de estudantes da Califórnia para fumar maconha. Por isso, 20 de abril virou o Dia Internacional da Maconha, que, em inglês, é escrito na forma 4/20, em função do mês 4 e do dia 20.

É um vídeo de enfrentamento de alguém que tem base jurídica e está na luta há muito tempo e tem consciência do que está fazendo. Quando digo que sou advogado da Marcha da Maconha pode parecer esquisito, pois esta “pessoa jurídica” não existe e a Marcha é um evento político. Mas sou um dos autores e signatários da representação encaminhada à Procuradoria-Geral da República em 2009 contra 10 decisões judiciais que proibiram a realização da Marcha em 10 cidades do Brasil. Essa representação gerou a Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF 187, julgada em 15 de junho de 2011, e garantiu a realização da Marcha da Maconha em todo o Brasil pelo Supremo Tribunal Federal.

A decisão do STF garantiu que nenhuma autoridade brasileira pode interpretar que a Marcha da Maconha está praticando o crime de apologia e que o evento está garantido pelo direito de reunião e manifestação, exercício direto da democracia,onde todas e todos têm o direito de lutar pela mudança de uma lei. Trata-se apenas de uma pequena demonstração do que vou fazer no plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – ALERJ.

A dolarização e o neocolonialismo

A dolarização e o neocolonialismo

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Olhando em retrospectiva, a primeira visão de nações que enfrentam processos inflacionários recorrentes ,crise cambial e incapacidade de alterar esta inércia é de recorrer a teoria da dolarização como antídoto. Em nosso continente se apresentam dois exemplos de desequilíbrio econômico mas com características diferentes: Argentina e Venezuela.

É importante ter em mente que a grave crise econômica pelo lado argentino tem razões ligadas a politicas de desregulação cambial e financeira. quando se discute a Venezuela, se aclara o reflexo do inconsistência do fluxo da renda petroleira, de uma sociedade partida e uma guerra econômica aplicada pelo capital financeiro representada por países líderes mundiais.

A Argentina depois de implementar as medidas neoliberais de abertura das importações, livre circulação de moedas e acentuado processo de privatização e desnacionalização viu sua liquidez esvair-se. O peso que no final do governo Cristina Kirchner (12/2015) tinha proporção de 9,5 para um dólar, saltou para 31 para um, pulando 226%. As reservas cambiais diminuíram para US$ 55,07 bilhões (bcra.gov.ar) computado um aporte do FMI de US$50 bilhões. A inflação anualizada chegou ao patamar de 35% para uma taxa básica de juros(LEBACS) de 45% a.a. embora se projete para 60%.

No sentido de ilustrar sua trajetória, a Venezuela sofre de uma guerra híbrida contra seu Estado e suas instituições como a petroleira PDVSA que representa 90% da economia. EUA e a União Europeia impedem qualquer ajuda do sistema financeiro internacional, incluso FMI, Banco Mundial e instituições de crédito privado. Esta realidade na prática inviabiliza qualquer ferramenta que possa financiar projetos de desenvolvimento. Em que pese a administração central se valer de emissão de moeda para cobrir o déficit fiscal, a manipulação do câmbio dólar-bolívar e o contrabando na extração do crudo e comercialização da gasolina geram descontrole das contas públicas.

Para melhor compreender esta dinâmica, existe a coexistência entre problemas de gestão e eficiência em paralelo com grande peso da sabotagem econômica acionada pelos oligopólios, monopólios,oligopsônios e monopsônios que origina redução de oferta ao passo que a distribuição de renda cresceu aumentando a demanda. A inflação que fechou em 2017 com taxa de 2616%(Assembleia Nacional)é reflexo do descontrole monetário e o descompasso entre a oferta e a procura com escassez de bens. A diminuta reserva cambial , no patamar de US$ 10 bilhões, deixa o governo sem muitas opções diante de praticamente uma fonte: venda de petróleo a China e Rússia.

De maneira mais geral, neste ambiente de instabilidade apresentam-se abordagens tecnocratas , como a dolarização da economia. O argumento principal é de que o risco cambial cessaria, entretanto o país perde a possibilidade de implementar políticas regulatórias. No mesmo caminho de raciocínio, esta escolha reduz a necessidade de remessa de dólares para fora, mas em contradição, dificulta as exportações possibilitando repetidos déficits comerciais, mantendo o fluxo financeiro negativo e um novo ciclo de falta da moeda estadunidense.

Deste modo, não se deve ter a escolha da retirada instrumentos de políticas fiscais e monetárias e sim se reportar as causas do desequilíbrio como fugas de capitais de grandes conglomerados para paraísos fiscais,regular monopólios e enfrentar o bloqueio financeiro paralelo a uma abertura das importações.

Esta mecânica insustentável da convertibilidade cambial, desmorona a cadeia produtiva nacional retirando o poder de concorrência com outros países desenvolvidos e de eficiência comprovada diante dos custos internacionais. Políticas inclusivas seriam impedidas pelos bancos internacionais com a preocupação única de gerar superavit nas contas públicas de forma garantir recebimento dos empréstimos. Programas de melhoria na condição de vida da população seriam inviabilizados pela dependência de recursos escassos em moeda estrangeira. Não é contraditório perceber que a Grécia, que enfrenta este processo, continua dependente da União Europeia com a dolarização. Os Estados Unidos , em situação de crise mundial, são os primeiros a sair exatamente por ter a capacidade de emissão de sua moeda e assim implementar políticas anticíclicas.

Uma conclusão realista é que mesmo possuindo trajetórias distintas , as duas nações enfrentam escassez cambial que pode levar a insolvência. A Venezuela, que sofre um bloqueio do sistema financeiro internacional com objetivo de romper o modelo petroleiro estatizado e assim participar majoritariamente da extração de uma reserva de 296 bilhões de barris, tem no lançamento da criptomoeda Petro a possibilidade de romper este cerco. Nesta ordem de ideias, se torna cada vez mais necessária o intercâmbio comercial e financeiro com a China, Russia, Índia e Turquia , beneficiando de créditos novos e produtos que são impedidos pelo lado dos EUA e UE.

A Argentina que cumpriu o receituário do neoliberalismo , enfrenta um vertiginoso caminho para o “default”. Mauricio Macri que recebeu uma nação com baixo endividamento segue o sentido de dependência do bancos estrangeiros e perda de soberania para o FMI. A desconstrução do Estado argentino seguiu com a liberalização extrema do mercado cambial, a abertura sem restrições do ingresso e saída de capitais especulativos bem como, a desarticulação do comercio exterior prejudicando a competitividades das companhias nacionais e a capacidade de gerar divisas. Durante anos ,bancos e fundos de investimento se saturaram de bônus da dívida argentina e ante ao fiasco da política de Macri começaram a liquidar suas posições nestes últimos 5 meses. O risco-país dobrou para 700 pontos e os títulos sofreram desvalorização entre 25% a 35% em dólar. Macri que prometeu o paraíso com a desregulamentação financeira , agora corre para pedir compaixão a Wall Street diante do estreitamento do crédito e de uma eminente insolvência.

A lição geral que se faz premente ,mesmo com a enfermidade cambial, é refutar a conversibilidade ao dólar, já que sem resolver a questão, gera uma situação ainda mais difícil e traumática. A melhor forma de se enfrentar a crise é não perder os instrumentos para realizar políticas fiscais e monetárias transformadoras. Abdicar de controlar a taxa de juros ou regular o câmbio é de fato terceirizar a gestão financeira ao Banco Central estadunidense. Simplesmente levar estes países as condições de um neocolonialismo.

Globo pratica censura ao ignorar campanha de Lula

Globo pratica censura ao ignorar campanha de Lula

A emissora interfere no direito das pessoas receberem informações sobre a realidade da campanha eleitoral no país: uma obstrução grave à democracia e ao livre debate público.

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A emissora dos Marinho tomou a decisão editorial — anunciada com poupa, circunstância e muito orgulho ao vivo por Willian Bonner — de não cobrir a agenda de campanha da candidatura que está em 1º lugar em todas as pesquisas de intenções de voto.

Ao tomar esse decisão, a Globo rasga completamente todas os parâmetros que definem a atividade jornalística. Do ponto de vista do que deveria ser uma cobertura jornalística objetiva e — como eles adoram bradar imparcial e neutra — o ex-presidente Lula estar preso, ter a homologação de sua candidatura aguardando decisão do Tribunal Superior Eleitoral não são motivos para ignorar deliberadamente a campanha desenvolvida por Haddad, Manuela D’Ávila e por milhares de pessoas em todo o Brasil. Ao contrário, o fato é de profundo interesse jornalístico e social.

Não é novidade que a emissora adote padrões de manipulação da informação como algo permanente na sua cobertura jornalística. Mas, ao assumirem editorialmente essa manipulação, nestas eleições, demonstram como a absurda concentração econômica na comunicação e a ausência de mecanismos de regulação para garantir diversidade e pluralidade nos meios de comunicação são perigosos para a democracia.

Perseu Abramo em seu ensaio sobre o Significado Político da Manipulação na Grande Imprensa, escrito em 1988, discorre sobre os padrões de manipulação utilizados: ocultação, fragmentação, inversão e indução. A Globo abusa desses padrões e escancara a sua tentativa desesperada de alterar o cenário da disputa eleitoral no Brasil.

Além disso, a emissora viola gravemente o direito à comunicação, conforme estabelecido no Artigo 19 da Declaração dos Direitos Humanos – “Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; esse direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”.

Ao se negar a cobrir a agenda de campanha de Lula-Haddad-Manuela, a Globo interfere de forma discricionária no direito das pessoas receberem informações sobre a realidade da campanha eleitoral no país, o que é uma obstrução grave à democracia e ao livre debate público. Nenhum meio de comunicação precisa concordar com o tema para divulgar e dar tratamento jornalístico a ele. Se a concordância for pressuposto para decidir a pauta dos veículos, passaremos de um padrão de manipulação para um cenário de censura prévia.

A decisão da Globo também viola o artigo 37 da Resolução 23.551 do TSE: “é vedado às emissoras de rádio e de televisão, em sua programação normal e noticiário (Lei no 9.504/1997, art. 45, incisos I, III, IV, V e VI): inciso III)  dar tratamento privilegiado a candidato, partido político ou coligação”.

Ao decidir de forma unilateral ignorar a campanha de uma coligação, a Rede Globo está dando tratamento privilegiado às demais coligações e partidos, uma vez que está eliminando da sua cobertura a campanha que está em 1º lugar nas pesquisas.

O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação lançou na primeira semana de agosto a campanha “Eleições Democráticas só com Liberdade de Expressão” . Certamente, essa postura da Globo é censura privada e como tal precisa ser denunciada.

Pastor Ariovaldo: Toda criatura é digna em si

Pastor Ariovaldo: Toda criatura é digna em si

No terceiro episódio da série A Bíblia e os Direitos Humanos, Pastor Ariovaldo conta que a bíblia entende que toda a criação tem direito ao descanso e a recuperação. Nenhuma criatura deve ser exaurida, todos os limites e processos devem ser respeitados. A bíblia defende que o trabalhador e a trabalhadora deve ser o primeiro a desfrutar do resultado de seu trabalho, ou seja, o trabalho não é para o ganho do patrão e sim para o sustento do trabalhador e da trabalhadora. Assista!

Lindbergh Farias: Globo não me representa

Lindbergh Farias: Globo não me representa

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Recebi 15 perguntas do Jornal O Globo com o suposto objetivo de divulgar as opiniões dos candidatos.

Minhas opiniões e posições a respeito dos 15 temas apresentados são de conhecimento público e divulgadas permanentemente nas minhas redes sociais.

Decidi não atender à demanda do jornal carioca como uma forma de protesto contra a sua postura sempre parcial na cobertura dos fatos e dos principais personagens da política em nosso país.

O Grupo Globo é um dos grandes responsáveis pela ruptura democrática que colocou Michel Temer no poder.

Eles também são co-responsáveis pela aprovação da reforma trabalhista e por essa política econômica que beneficiou banqueiros e grandes empresários às custas do sacrifício e da perda de direitos do povo trabalhador.

Por último, sua influência junto ao poder judiciário é o que provocou a prisão ilegal, covarde e injusta de Lula, o maior presidente da história do Brasil.

A perseguição da justiça promovida pelo Grupo Globo não se restringe ao presidente Lula. Ela se estende a todos aqueles que defendem ele e seus ideais de justiça social, sobretudo às lideranças do PT.

Eu mesmo, apenas no último mês, fui alvo de duas notícias fantasiosas (fake news) a respeito da minha conduta como parlamentar e de quando fui prefeito de Nova Iguaçu.

Acredito que todos aqueles que lutam pela verdade e pela democracia, não deveriam dar nenhum tipo de colaboração a um grupo midiático que há 50 anos, faz uso de seu imenso poder para distorcer fatos e manipular nossa população (muitas vezes com Fake News).

Sempre fizeram isso para influenciar o resultado das eleições e fazer prevalecer seus interesses econômicos, quase sempre antagônicos ao interesse público.

Por isso, como forma de protesto, decidi não atender à demanda de O Globo.

Não vou contribuir com um veículo parcial e que tanto mal faz à nossa democracia e ao nosso povo.

Israel Do Vale: O que será da Folha nas mãos do irmão que sempre cuidou da área comercial?

Israel Do Vale: O que será da Folha nas mãos do irmão que sempre cuidou da área comercial?

Morre Otávio Frias Filho, diretor de redação da Folha

 

A Folha foi minha escola. Meu sonho de moleque realizado, pra quem era adolescente em plena redemocratização – e insistia em ter esperanças, esse artigo em desuso. Lá eu aprendi quase tudo que sei sobre jornalismo, para o bem e para o mal…

Foi onde entendi que o maior patrimônio de um veículo de comunicação é a sua credibilidade, e onde me desencantei com a vida em redação, mais de vinte anos depois de transitar por várias delas – oito deles, na Barão de Limeira.

O motivo foi este que nos trouxe aonde estamos. Vivi de dentro os acessos de fúria da elite nacional contra Lula, ali encarnados na figura de Otavinho – como a falsa intimidade nos permitia chamar.

Estava no jornal, como editor-adjunto da ilustrada, no dia em que Lula pediu licença ao Seo Frias e levantou-se da mesa de almoço, no andar da diretoria, depois de ser seguidas vezes desrespeitado por OFF – uma das manias entre os “coleguinhas” era nos chamarmos pelas iniciais.

Na prática, Otavinho insistia em dizer a Lula [olho no olho] para colocar-se em seu lugar: se tinha pretensões de ser presidente, porque não foi estudar? Como esperava atuar na política internacional se sequer falava inglês?! No mínimo uma descortesia, para com um candidato a presidente com chances reais de vitória.

A partir deste dia, o jornal desfigurou-se. e até a ilustrada foi cobrada de combater a hipótese da presidência de Lula – num dos momentos mais tristes e decepcionantes que já vivi em três décadas de carreira, ao ver um título de capa de reportagem (que já tentava forçar a mão para queimar a gestão Marta e atingir Lula e o PT) na ilustrada ser virado do avesso, pra dizer o contrário do que a apuração mostrava. [afinal, a maioria das pessoas só lê o título mesmo…]

Foi um marco, pra mim. O início do fim de uma era, que só fez esfarelar a reputação e, por decorrência, o negócio da comunicação – o último passaralho na editora ABRIL, em sua mirada para o abismo, que o diga.

Foi quando caiu a ficha [ainda embebido em certa ingenuidade, talvez], de que o jornalismo [como, de resto, a justiça] tem lado, sim, e que a balela da “isenção” e da “objetividade” precisaria ser encarada.

Tenho cada vez mais convicção disso: o problema não está em ter lado, mas em não admiti-lo com clareza.

Para sobreviver hoje, um veículo precisa de coragem para assumir seus posicionamentos – que são, evidente, os do dono. a diferença é que alguns donos são mais espertos, e sabem manejar isso na direção dos interesses negociais.

A Folha começou a se perder, como quase todos os veículos, quando a nova ordem digital desestabilizou a lógica e implodiu os paradigmas. mas já seguia um rumo claudicante quando deslumbrou-se com seu “poder” ilusório e deixou a empáfia e o preconceito de classe tomarem conta dos caminhos editoriais e negociais.

Terei pra sempre toda gratidão pela oportunidade – e, indiretamente, o suporte de OFF, que me encorajou a investir na cobertura teatral, como repórter e [veja só o disparate, para um menino de 19/20 anos] “crítico”, numa área que ele acompanhava de perto como “candidato a dramaturgo”.

Seguirei mantendo meu respeito a ele pela inteligência, a tenacidade e o papel importante que desempenhou [aprofundando diretrizes definidas pelo gênio de Claudio Abramo] nas Diretas Já – mesmo que, naquele momento, fosse o mais conveniente para o caixa. é pena que o bom-senso [ao menos para os negócios] tenha se perdido pelo caminho.

A #PERGUNTAqueNÃOquerCALAR é: o que será da Folha agora, nas mãos do irmão que sempre cuidou da área comercial?

Torço, de verdade, pra que seja uma chance de retomar seu rumo.

#ripOFF

Paes é Cabral. Cabral é Paes

Paes é Cabral. Cabral é Paes

https://www.facebook.com/advogadoandrebarros/videos/322698015140663/

 

Inspirado no livro “A Farra dos Guardanapos”, de Silvio Barsetti, fiz o 25º programa Fumaça do Bom Direito sobre o seguinte tema: Cabral, Paes, ALERJ e TCE limparam os cofres do Estado, não deixaram qualquer legado e ainda querem ganhar a eleição. Recordamos que, às vésperas do Rio de Janeiro ter sido escolhido como sede das Olimpíadas, Cabral e seu secretariado festejaram em Paris os bons negócios realizados. Fizeram um trenzinho com guardanapos na cabeça simbolizando o capital que seria aplicado na obra do trem-bala que ligaria o Rio de Janeiro a São Paulo.

Além da arrecadação tributária, bilhões de capital nacional e estrangeiro entraram no estado do Rio de Janeiro, mais que em São Paulo e Minas Gerais. Todos esses bilhões sumiram dos cofres do estado, que chegou a atrasar 3 meses os salários de aposentados, médicos, professores e policiais.

O ex-governador Sérgio Cabral não teria como limpar os cofres do Estado sozinho. Teve o apoio direto de ampla maioria da Assembleia Legislativa e do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. Ambos têm a competência de fiscalizar e julgar as contas do Estado. Cabral está na cadeia condenado a penas a perder de vista, Picciani está em prisão domiciliar e, de sete conselheiros do TCE, seis foram afastado, presos e processados, todos em razão de corrupção. Essa é a quadrilha dos milhões que trabalhavam para a quadrilha dos bilhões, formada por empresários. Foi mais do que comprovado que os capitalistas combinavam quem ganharia as licitações públicas e o preço. As quentinhas podres, os preços das passagens, as obras do Maracanã ao Porto Maravilha e os materiais hospitalares e escolares, tudo era decidido em reuniões de empresários, que embolsavam bilhões e pagavam propinas de milhões aos ocupantes do Palácio, Assembléia e Tribunal.

A população apoiou e votou, acreditando que a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 trariam riqueza e um grande legado ao Estado, como foi prometido. Mas tudo não passou de uma farsa, ou melhor, de uma farra das licitações, nenhum legado foi deixado à cidade, só elefantes brancos abandonados e um monte de asfalto desencapado. O povo acreditou tanto que elegeu Cabral em 2006, 2010, e seu sucessor Pezão, em 2014.

Agora, querem fechar o cerco com seu direto colaborador Eduardo Paes, que foi Secretário de Estado do governo Cabral e Prefeito de 2009 a 2017, apoiado pelo mesmo. Colocando Paes no governo do Rio de Janeiro, Cabral, ALERJ e TCE ficam blindados, pois Eduardo Paes poderá nomear o Procurador-Geral de Justiça, a partir de uma lista tríplice encaminhada pelos promotores e procuradores. Ao Procurador-Geral, chefe do Ministério Público, compete instaurar investigações e mover ações contra o governador, secretários e parlamentares. Se Paes não nomear o candidato mais votado, o Ministério Público estará em suas mãos e nenhuma investigação para recuperar as riquezas assaltadas de nosso Estado será realizada. Assim, ao menos no âmbito do estado, o ciclo da corrupção será prolongado. O povo do Rio de Janeiro não pode continuar a ser tão enganado! Chega de MDB e seus aliados!

Um judicialismo político para salvar Macri

Um judicialismo político para salvar Macri

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Compreender a Argentina requer trabalhar com premissas nas quais um governo neoliberal ao aplicar um modelo clássico de desregulamentação da economia e destruição das políticas sociais, colapsou o país hipotecando o futuro ao subdesenvolvimento.

Assimilar o contexto do confronto entre o presidente Maurício Macri e a senadora Cristina Fernandez Kirchner é visualizar uma economia em frangalhos, desnacionalizada e uma inviabilidade política do atual governo, deste modo o Partido Cambiemos recorre a ‘franquia’ da judicialização da política com o objetivo de impedir a vitória de CFK em 2019.

O país que é tutelado pelo FMI depois de décadas, se encontra com 60% de taxa de juros básica, um dólar a 30 pesos em Buenos Aires e 40 fora do país, para uma inflação de 35%, onde a pobreza cresceu 33% nesta gestão.O risco país subindo a 745 pontos e as companhias nacionais valendo 40% menos que em abril deste ano. Se é na economia que o trabalhador enfrenta os reflexos mais duros como desemprego, fome e incapacidade de pagar até pelo gás, medicamentos e energia, é na política que está a origem desta situação. Macri prometeu em 2015 desenvolvimento e transparência, entregou a maior recessão de 30 anos e uma cadeia doações do empresariado com favores do governo.

Debruçado numa impopularidade crescente, o partido de Macri se encontra num processo que pode destruí-lo. Comprovaram que no quesito arrecadação financeira, os depósitos de doações milionárias usaram pessoas humildes ,sem condição alguma de colaborar, a investigação trouxe a luz indivíduos que negaram qualquer relação com “Cambiemos”. A fraude desnudou escritórios onde circulavam grandes montes de dinheiro, que envolve a governadora de Buenos Aires, Maria Eugenia Vidal e o senador Esteban Bulricch. Corroboram com a enorme farsa o depoimento “arrependido” do primo do presidente, Ángelo Calcaterra que confirmou ter pago suborno ao governo.

Em verdade as famílias Macri e Calcaterra são uma só! Sócias e envolvidas em fraudes de remessas de dólares para o Panamá, Ángelo é laranja de Macri em diversos negócios.

A estratégia das grandes empresas em financiar a política é como um seguro sistêmico de impedir que campos políticos possam chegar ao executivo governando contra o capital. Por conseguinte, preferem financiar os potenciais condutores de políticas que lhes são favoráveis num grande acordo sem registros contábeis. Neste modelo, Macri e Cambiemos estão nas duas pontas, sendo parte do empresariado bem como titular no governo, que por nenhuma coincidência está repleto de executivos e endinheirados.

Questionado sobre este submundo de fantasmas doadores que capitalizaram o partido desde a sua formação em 2015, o senador Bulricch respondeu: ‘Não sei explicar, mas não chantageamos, eles apareceram’. Bulricch, assim como Vidal e Macri, são os principais interessados no encarceramento de CFK, pois perdem nas pesquisas para senadora.

Envolto na decadência política, o governo resolveu sair do problema por cima. Viabilizou um ‘macartismo tropical’, exportado para América Latina pelos EUA para perseguir líderes progressistas, que oficialmente na Argentina é uma denúncia geral sobre o financiamento político.

Os axiomas na Argentina são uma cópia de um caderno escrito acéfalo onde narra estória de transferência física de valores na época de Néstor Kirchner, um motorista chamado Oscar Centeno que buscava valores, e o empresário Óscar Lóson doador de Macri que inclusive empresta seu helicóptero ao presidente. Em que pese todas estas convicções com controle do Cambiemos já que os empresários são do raio de relacionamento do macrismo, foi escalado o dublê de Juiz e militante liberal, Claudio Bonadio. O magistrado é conhecido como o juiz do guardanapo. Este título se remete ao governo Carlos Menem (1989-95/95-99) quando o ministro da justiça entregava a relação dos juízes protegidos num papel de restaurante. Bonadio, inimigo dos Kirchner, era um dos onze da relação. O togado foi rápido e determinou a prisão de 15 empresários, mas o objetivo é CFK que fez depoimento por escrito e ainda teve seu apartamento no bairro da Ricoleta invadido e vasculhado sem autorização do senado.

Se Cristina foi convocada, por quê Macri, estando suas empresas no vicioso caderno, não? A constituição virou pura interpretação particular de um juiz de primeiro piso.

Mesmo com reduzidos indícios, como Néstor é falecido, o processo precisaria chegar a sua viúva. Neste sentido o motorista recordou que ouviu alguém dizer que era para continuar arrecadando para Cristina. Centeno, de lembranças rupantes, diz ter contado 150 mil dólares em plena avenida Uruguai, uma via de grande movimentação da capital. Declarou também que sabia de valores pelo peso do pacote, sequestrando o direito de apontar qualquer montante ao processo. Não existe qualquer exame grafotécnico, nem comprovação de quem é o autor do caderno entregue pelo chofer.

O objetivo na Argentina não é punir o sistema antigo de beneficiários destas doações. O calapso da economia com Macri e a cogestão com FMI, entrou num estágio de aceleração de efeitos sociais negativos. Em dezembro de 2015 ainda se podia justificar a distribuição regressiva da renda a herança passada, mas em 2018 seria a hora de mostrar as “conquistas ” do Cambiemos. Mas com o projeto econômico fracassado, o governo foi obrigado retomar a demonização da oposição através do discurso anticorrupção. Um jogo difícil de se praticar, já que ao contrário de 2016, seus atos de corrupção inviabilizam culpar terceiros. Quando se ‘falta os pães, damos o circo!’ Uma frase portenha para desviar atenção com a mentira.

Assim, o objetivo do governo é reverberar antecipadamente que o problema do país não é a eminência de insolvência, nem a taxa básica de juros básica de 60% ou o dólar que beira os 30 (era 9,5 no final governo CFK/2015) pesos em Buenos Aires e 40 pesos nas nações vizinhas. Nem mesmo o crescimento da pobreza em 33%, e sim a corrução do adversário. Por isto se avança o Estado totalitário, levam a líder social doente Milagro Sala presa sem provas . Grampeiam-se até os telefones da família de Maldonado, morto pela polícia por defender o povo mapuche.

Mas ao contrário de outras cassadas no continente, a perseguição contra Cristina enfrentará outras premissas. CFK é senadora e lidera as pesquisas, no mesmo campo de análise, o ex-presidente Menem envolvidos em décadas de falcatruas inclusive em beneficiar o juiz Bonadio, está também no senado e envolveria maioria da classe política de direita. Desvincular a família do presidente dos maiores escândalos é uma difícil tarefa. Isto posto, as pesquisas retratam a razão. Kirchner, segundo o Grupo de Opinião Pública (GOP) possui 43,5% de imagem positiva, na frente a governadora Vidal com 42,3%, de Sergio Massa (peronista) com 38,11% e o desgastado Macri com 29,11%. A população ainda aponta preferência ao total da oposição,59% , do que o oficialismo que tem 25%.

O problema da Argentina é que concentraram a renda, depois via sonegação remeteram para o exterior gerando crise cambial, endividaram o país, destruíram a economia produtiva nacional, entregaram a soberania ao FMI e brevemente o país será insolvente. Dentro deste contexto se aclara não retornar ao passado em curto prazo, mas semear algum futuro, aprendendo com a experiência devastadora do liberalismo clássico de Macri que tenta ser o primeiro presidente da história em não ser destituído depois do default.

Teatro Oficina: Uma aposta na Cultura-Infra-Estrutura da vida!

Teatro Oficina: Uma aposta na Cultura-Infra-Estrutura da vida!

OFICINA 60 RODA VIVA: SONHA E INVESTE QUE DÁ!

 

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#QueroRodaVivaNoTeatroOficina
#SonhaQueDáRodaVivaNoTeatroOficina

16 de agosto de 2018, lua crescendo em sagitário, começam as campanhas políticas para as eleições no Brasil. O Teatro Oficina Uzyna Uzona celebra os 57 anos de seu espaço, na rua jaceguai, 520, Bixiga, São Pã. Nesta quinta-feira se inicia uma grande campanha de financiamento coletivo, um gesto cosmopolítico, de alegria y de luta, para que a celebração do 60º aniversário da companhia, em outubro, aconteça em plena potência e abra os caminhos para uma longa continuidade desse núcleo de trabalho.

O lançamento dessa campanha sincrônica com a campanha eleitoral não é coincidência. Ela põe em cena a CULTURA, que esteve ausente dos temas do primeiro debate dos candidatos à presidência, no centro das discussões políticas, porque CULTURA é INFRA–ESTRUTURA da VIDA.

Nesse dia, também celebramos nossa estreia como colunistas da Mídia Ninja.

Uma coluna que é a cara do Teatro Oficina – um coro de colunistas, multi–artistas.

Neste momento de grande efervescência no país de lutas antropofágicas em contracenação com forças de asfixia sobre a arte y a cultura, clamamos a todxs os povos, movimentos, desejos, pensamentos, pessoas, plantas, potências, pássaros, poetas, cientistas dos saberes da vida e dos corpos, para que celebrem conosco esse momento de reexistência investindo na potência do OFICINA 60 chamando Roda Viva. É preciso restaurar o prédio, obra de arte de Lina Bo bardi e Edson Elito, onde vive e cria a Companhia de teatro mais longeva em atividade no país;  é preciso cuidar do corpo técnico e artístico dessa Uzyna; é preciso equipar as áreas de criação neste teatro: vídeo, luz, som, arquitetura cênica; é preciso recuperar o fôlego para, em plena potência, receber RODA VIVA.

Mais que um grupo, o TEAT(R)O OFICINA é um movimento, uma eletricidade, que coloca em cena a arte e a cultura como infraestruturas da vida. Criamos incessantemente, tendo a antropofagia como linha estética da Companhia e uma perspectiva cosmopolítica como seiva que nos desperta para a cidade e afia as encenações com o aqui agora da pulsão da vida.

Faça parte dessa histórica mobilização em direção à vida! O crowdfunding que dará vida às comemorações dos 60 anos do Teat(r)o Oficina permitirá a continuidade do trabalho de criação e pesquisa da mais longeva companhia de teatro do Brasil e a manutenção de seu edifício obra de arte. Esse trabalho tem um valor incomensurável para a arte e cultura.

PRECISAMOS ATINGIR A META-TESÃO-DESSA-FESTA!
ESTE FINANCIAMENTO COLETIVO É UMA APOSTA NA CULTURA!
É TUDO OU NADA!
A CULTURA É INFRA-ESTRUTURA DA VIDA!

Somos um patrimônio vivo do teatro, da arquitetura, da liberdade e estamos em festa pelos 60 anos de reexistência dessa obra de arte! Estamos vivos! e precisamos do fogo de vida de cada uma e de cada um de vocês, criando um cordão dourado de co-produtores dessa existência cosmopolítica!

Criado coletivamente há 6 décadas por quase 2000 artistas, o Oficina tem como diretor o maior encenador brasileiro, José Celso Martinez Corrêa. Um dos expoentes dessa criação é a sede da companhia, o prédio, obra de arte de Lina Bo Bardi e Edson Elito, tombada como patrimônio nacional, localizado no bairro do Bixiga, um mangue fértil da cidade, que luta para não ter toda forma de vida, diversa e potente, esmagada pela especulação imobiliária. No Teat(r)o Oficina arquitetura e encenação são indissociáveis y por essa alquimia, em 2015, foi reconhecido pelo jornal britânico The Guardian como o teatro mais bonito e intenso do mundo, seguido por Epidaurus, na Grécia!

Arte, cultura y imaginação são infra–estruturas da vida, fundamentais para viver y enfrentar momentos de crise y instabilidade como os que atravessamos agora. Há 60 anos a companhia Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona produz, ininterruptamente arte, ciência y cultura. Somos um movimento, uma potência.

Essa campanha é um movimento coletivo de amantes da arte e da vida! Um movimento que deseja o Teat(r)o Oficina forte! Calibrado técnica e artisticamente em sua plena potência para receber o fogo histórico e sempre presente de RODA VIVA. A valoração econômica, através dessa campanha de crowdfunding, é fundamental para a manutenção do edifício, obra de arte tombada pelo CONPRESP, CONDEPHAAT e IPHAN e premiada na Quadrienal de Praga.

A crise política que vivemos se revela na grave e sintomática falta de políticas públicas de incentivo à cultura. Em 2016, perdemos o patrocínio da Petrobras, que por 11 anos nos fomentou o trabalho, a pesquisa y a criação. O resultado dessa interrupção ameaça a continuidade, em plena potência, deste trabalho tão valioso. Sem o patrocínio está comprometida a manutenção do espaço, dos equipamentos e principalmente a montagem de novos espetáculos. Vivemos neste momento uma ascensão moralista no Brasil (e no mundo) que criminaliza a arte e a cultura. O investimento público nessas áreas nos últimos dois anos teve uma drástica redução e pode deixar uma cicatriz irreversível na formação cultural brasileira. Caminhamos a passos largos para um emburrecimento geral da nação. Artistas estão sendo perseguidos, censurados y proibidos de trabalhar por governos y por parte da sociedade civil. Com o Teat(r)o Oficina não é diferente. Somos hoje a Companhia de Teatro mais longeva em atividade no país y, no entanto, pela nossa linguagem, pela nossa dimensão, pela nossa maneira de existir, vivemos uma real ameaça de extinção: como as Baleias Azuis, os Recifes de Coral, ESTAMOS VIVOS, lutando para continuar.

Fernanda Montenegro, xamã do Teatro, em entrevista recente nos alerta: quando o teatro vai mal, o país vai mal. Neste 2018, RODA VIVA, peça de CHICO BUARQUE encenada pelo TEATRO OFICINA, completa 50 anos. A primeira montagem foi atacada y interrompida brutalmente pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC) na Ditadura Civil Militar. RODA VIVA é acontecimento. Nesse momento de censura, perseguição y criminalização de artistas, de linguagens, de liberdades, desejamos RODA VIVA no Teat(r)o Oficina, no AQUI AGORA de 2018. Somos labaredas em tempos de insurreição! Para receber RODA VIVA na nossa terra, o Teat(r)o Oficina, será preciso restaurar, preservar y dar fôlego à manutenção do espaço, como um ato cosmopolítico de reexistência.

O TEATRO É A ARTE DO ENCONTRO AO VIVO. Somos um teatro de coro que atua com a multidão, ligado à vida, às cidades, à terra. Em abril deste ano, um coro de artistas unido à uma pequena multidão ávida de viva, financiou a temporada de O REI DA VELA, espetáculo icônico da companhia, no Rio de Janeiro, em um crowdfunding bem sucedido na Benfeitoria. Essa empreitada foi coroada com um enorme sucesso de crítica e público, que lotou todas as sessões da magnífica Grande Sala da Cidade das Artes. Essa experiência nos dá fôlego para mais uma vez CHAMAR O CORO DA MULTIDÃO para esta CAMPANHA COLETIVA, ainda mais ousada. Queremos criar, juntxs, um cordão dourado de amantes que financie coletivamente essa arte praticada desde 1958 e seu espaço, patrimônios artísticos brasileiros.

FAÇA PARTE DESSA HISTÓRIA DE 60 ANOS! Participe dessa CAMPANHA COLETIVA DE FINANCIAMENTO: OFICINA 60 #QueroRodaVivaNoTeatroOficina

 

Boaventura de Souza Santos: As esquerdas e as eleições do desconhecido

Boaventura de Souza Santos: As esquerdas e as eleições do desconhecido

Estão a acelerar-se as urgências típicas de um ciclo eleitoral que se vai prolongar entre o fim de agosto e o fim de outubro. Estas urgências são particularmente desafiadoras para as esquerdas brasileiras porque o seu principal candidato e, de todos o mais bem posicionado nas sondagens,  está preso e pode vir a ser considerado inelegível.

Ilustração: Cristiano Siqueira para Socialista Morena

 

As irregularidades óbvias do processo Lula da Silva têm tido alguns efeitos surpreendentes. A obsessão punitiva foi neste caso tão excessiva que o sistema judiciário degradou a sua imagem e a sua legitimidade, tanto nacional como internacionalmente, a um nível e com consequências que, por agora, são difíceis de avaliar. Por sua vez, a imagem política e humana de Lula saiu desta húbris político-judicial fortemente fortalecida e melhorada.

Vítima de uma flagrante injustiça e, para muitos, um preso político—talvez o mais famoso preso político do mundo– Lula da Silva viu aumentar exponencialmente o seu crédito político e a sua popularidade junto das classes populares. Paulatinamente, os erros ou desacertos dos governos do PT por ele hegemonizados  no período 2003-2016 foram sendo minimizados ou esquecidos — para o que contribuiu também  o agravamento da crise e económica e  a política de austeridade que entretanto desabou sobre as classes populares—e Lula da Silva foi-se consolidando como o pre-candidato de longe mais bem posicionado para ganhar as próximas eleições presidenciais. Isto, apesar de estar preso, não poder dar entrevistas nem gravar videos e ser muito provavelmente inelegível nos termos da lei da ficha limpa.

Se objectivo político-judicial era destruir a imagem do ex-presidente, tudo leva a crer que a estratégia seguida pela elite conservadora falhou e foi mesmo contraproducente.

Terá, no entanto, atingido com êxito o seu objectivo principal: retirar Lula da Silva da  próxima contenda eleitoral e fazê-lo sem uma alteração qualitativa do regime político e sem níveis incontroláveis de perturbação social.

Mas mesmo neste domínio o objectivo pode ter sido apenas parcialmente atingido. Resta a dúvida  sobre a influência que o ex-presidente pode ter na escolha do próximo Presidente da República e na governação do país no próximo ciclo político. Para além deste  fator de imprevisibilidade dois outros devem ser considerados:  endurecimento geral do regime político; e as dificuldades de construção de hegemonia tanto à direita como à esquerda.

O endurecimento geral do regime político

Nos últimos meses o regime político endureceu consideravelmente. Aumentou a violência política de que a manifestação mais visível foi o assassinato da deputada municipal Marielle Franco em 14 de março deste ano. Para além disso, ocorreram outras execuções  de lideres políticos locais, aumentou a violência contra lideres sociais sobretudo no meio rural, acentuou-se o verdadeiro genocídio de jovens negros e pobre das periferias urbanas, foi decretada a intervenção militar no Estado do Rio de Janeiro com o pretexto da luta contra o crime organizado, têm vindo a ser perseguidos judicialmente professores e investigadores com acusações chocantes contra os resultados da sua pesquisa científica (por exemplo, no domínio dos efeitos danosos para  a saúde pública decorrentes do uso irregular de agrotóxicos na agricultural industrial).

O golpe institucional que levou à destituição da Presidenta Dilma Rousseff em 2016, a prisão  de Lula da Silva e a condução global da operação Lava-Jato têm vindo a consolidar um regime de excepção que, à semelhança do que tem ocorrido noutros países, parece ocorrer em suposta normalidade democrática.  Sem mudar qualitativamente, o regime político  tem vindo a acentuar os seus traços reacionários e autoritários. Tenho defendido que  a democracia brasileira, já de si uma democracia de baixa intensidade, tem vindo a transformar-se numa democracia de baixíssima intensidade. Isto significa que o carácter socialmente excludente e politicamente restritivo das liberdades democráticas se acentuou nos últimos tempos.

Sem se transformar num regime ditatorial de tipo fascista, tem vindo a abrir espaço para forças políticas neofascistas, forças de extrema-direita que usam os instrumentos políticos que restam da democracia para fazer a apologia de práticas típicas da ditadura (apologia da tortura, justificação da violência extrajudicial contra populações pobres racializadas, retórica de violenta intolerância contra  lideres políticos de esquerda, etc).

A face mais visível desta pulsão neofascista é Jair Bolsonaro, militar na reserva, deputado federal.

Depois de Lula da Silva é o pre-candidato a Presidente da República mais bem posicionado nas sondagens. Trata-se de um populista de extrema-direita tão mal preparado para dirigir o país e tão improvável como vencedor das eleições como era Donald Trump poucos meses antes das eleições nos EUA em 2016.

Outros traços do endurecimento do regime político referem-se ao modo como se tem acentuado o protagonismo do sistema judicial em detrimento do Legislativo e do Executivo e à consequente judicialização da política. O Judiciário é hoje no Brasil o factor principal da insegurança jurídica que atinge todos e sobretudo as grandes maiorias que mais precisariam de um sistema judicial acessível e comprometido com os objectivos constitucionais da defesa dos direitos civis, políticos, económicos e sociais. Este endurecimento não se pode explicar sem  considerar o papel da crise económica, uma crise de rentabilidade do capital que impôs o fim da política de conciliação de classes que os governos do PT e muito particularmente Lula da Silva, tinham vindo a defender  e a praticar (o chamado lulismo ou lula-petismo).

As elites dominantes, com o apoio activo do imperialismo norteamericano e do capital financeiro global, estimularam (quando não provocaram)  a crise financeira  e política do Estado para impor uma versão mais agressiva do capitalismo, socialmente mais excludente e mais dependente da criação de populações descartáveis,  na prática, sub-humanas, por via do recrudescimento da dominação colonialista (racismo, extermínio de jovens negros, colonialismo interno, violência contra os que lutam pela terra e pelo território, sejam eles camponeses, povos indígenas e afro-descendentes, populações ribeirinhas e piscatórias) e da dominação patriarcal (aumento da violência contra as mulheres, tentativa de liquidação das conquistas pela igualdade e pelo reconhecimento da diferença dos anos mais recentes).

Esta foi a condição imposta pelas elites nacional e internacionalmente dominantes para não recorrer a um regime explicitamente ditatorial. Note-se que o contexto em que ocorreram os fascismos na Europa eram muito distintos. Tratava-se então de conter um movimento operário muito militante e muito organizado ou de neutralizar o “perigo” comunista. As ameaças  à dominação capitalista eram então percebidas como tendo uma dimensão existencial que não tem hoje. Pelo contrário, a dominação capitalista e colonialista parece hoje temer menos do que nunca possíveis inimigos.

Conseguiu, pelo menos aparentemente, uma hegemonia por via da qual o slogan das esquerdas dos anos de1920 “socialismo ou barbarie” foi substituído pelo slogan “capitalismo ou barbárie”, ao mesmo tempo que as barbaridades cometidas pelo capitalismo se tornam cada vez mais evidentes e perigosas, atentatórias do mais elementar direito humano, o direito à vida, para nem sequer falar do direito à vida digna.

 

Dificuldades de construção de hegemonia tanto à direita como à esquerda

Historicamente, as forças políticas de direita sempre mostraram mais unidade nos momentos decisivos que as forças políticas de esquerda. Frequentemente, nem sequer tiveram de se preocupar em detalhar as condições da sua unidade porque contaram sempre com um apoio surpreendente para a conquista ou manutenção do poder político: a divisão entre as forças de esquerda. Esta assimetria não decorre de uma qualquer deformação intrínseca que impeça as esquerdas de fazer diagnósticos correctos nos “momentos decisivos” e de contabilizar  as perspectivas do médio prazo nas urgências da auto-preservação no curto prazo. Decorre antes de uma outra assimetria que é constitutiva das sociedades capitalistas e colonialistas em que vivemos desde que a opção (consensual) pelo regime político democrático deixou de poder contemplar a opção por um regime económico alternativo ao capitalismo, o socialismo. A partir de então, a direita, quando governa, detém o poder político, económico e social, enquanto a esquerda, quando governa, detém o poder político mas não o poder económico nem o poder social. Esta assimetria permite à direita ter, em geral, mais certezas nos “momentos decisivos”,  por exemplo, a de manter intacto o poder económico e social mesmo quando se vê obrigada a perder o poder político. Pelo contrário, as forças de esquerda tendem a sobrestimar o seu poder quando estão no governo (como se o poder político acarretasse, por si, o poder económico e social)  e a subestimá-lo quando estão na oposição (a perda do poder político é vista como perda total e convida a um refúgio em estratégias isolacionistas de sobrevivência partidária). Este desequilíbrio é factor de confusão e miopia oportunista  nos momentos em que seria mais importante a clarividência de  objectivos estratégicos hierarquizados.

No Brasil, esta assimetria é hoje mais visível do que nunca embora se devam ter presentes os antecedentes que levaram ao suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e ao golpe militar dez anos depois. Na crise que se instaurou depois das eleições de 2014, a direita esteve sempre mais unida que a esquerda. No momento em que, devido à crise internacional, se apercebeu que o seu poder económico estava em perigo decidiu que, para o salvaguardar, seria preciso reconquistar em pleno o poder político, ou seja, pôr fim à política de alianças com os governos do Partido dos Trabalhadores que tinha mantido desde 2003. Daí, o golpe institucional que levou ao impedimento da presidenta Dilma Rousseff, à prisão atrabiliária de Lula da Silva e ao desmantelamento rápido e agressivo das políticas mais emblemáticas do período anterior. A facilidade com que a direita tirou do caminho o petismo mostra que o período anterior assentou num equívoco.

O que para o PT era uma política de conciliação de classes mais ou menos duradoura era para a direita uma mera política conjuntural de alianças.

O ódio classista e racista que se propagou de imediato como gasolina incendiada é prova disso mesmo.

Mas também ficou evidente que a unidade das forças de direita era sobretudo uma unidade negativa, isto é, uma unidade para eliminar a presença do petismo da cena política. A unidade para construir uma alternativa positiva (a configuração específica das relações entre o poder político, o poder económico e o poder social) teria de ter outro ritmo, o ritmo do ciclo eleitoral de 2018.

Tomadas de surpresa (o que, em si, já é significativo), as forças de esquerda levaram algum tempo a reagir, tanto mais que já vinham divididas  no que respeita à avaliação das políticas  e das práticas da governação dos governos petistas. No entanto, os “excessos” da contra-reforma facilitaram a emergência de uma unidade entre as forças de esquerda, também ela uma unidade negativa: o consenso no repúdio do ritual sacríficial de que foi vítima Lula da Silva e, consequentemente, o consenso na campanha do “Lula Livre” e na reivindicação do seu direito a ser candidato no ciclo eleitoral de 2018.

O ciclo eleitoral está a entrar na sua fase decisiva e as assimetrias anteriormente anotadas estão, de novo, bem presentes. No que respeita à direita, muitos analistas salientam a falta de unidade  positiva patente na ausência de um candidato óbvio à liderança política do próximo período político.  Em meu entender essa análise está equivocada. A aparente falta de unidade é uma armadilha bem urdida para garantir que no segundo turno das eleições presidenciais seja decidida entre dois candidatos de direita. No momento em que isso ocorrer a direita saberá tornar claras  as suas escolhas. A destruição do candidato rejeitado pode ser brutal. A menos que as condições económicas internacionais se deteriorem acentuadamente, optará por uma política conservadora sistémica em detrimento de uma política de ultra-direita com uma pulsão anti-sistémica. Obviamente que não está garantido que esta estratégia resulte plenamente. As dinâmicas da política do ressentimento actualmente em vigor podem soltar os demónios do populismo de extrema direita. De todo o modo, esta solução garantirá o principal, a congruência mínima entre o poder político democrático de baixíssima intensidade e o poder económico e social de cariz particularmente excludente e repressivo.

No que respeita às forças de esquerda, à medida que se intensifica a lógica eleitoral, a falta de unidade positiva (para garantir uma alternativa política minimamente de esquerda) torna-se cada vez mais patente. A lógica tacticista de sobrevivência partidária a curto prazo domina e o paradoxo mais chocante a qualquer observador atento parece escapar às lideranças partidárias: o paradoxo de se apregoar a unidade das esquerdas no segundo turno e, ao mesmo tempo, fazer tudo para não haver candidatos de esquerda no segundo turno. Neste domínio, a responsabilidade do PT é particularmente forte por ser o principal partido de esquerda e ter como pre-candidato o político mais adiantado nas sondagens, ainda que essa pre-candidatura não se possa eventualmente converter em candidatura.

As assimetrias entre esquerda e direita que assinalei acima são agora particularmente dramáticas.

Se é verdade o que afirmei acima—que o que o PT viu como conciliação de classes era, para a direita, uma mera aliança política conjuntural—resulta particularmente  incompreensível que se insista em políticas de aliança com  as forças de direita que apoiaram o golpe institucional quando é evidente que não há agora quaisquer condições para a conciliação de classes, nem mesmo como ilusão credível. Ou seja, as condições que permitiram ao PT ser a esquerda hegemónica no período anterior deixaram de existir. Faria, pois, sentido que a hegemonia  fosse reconstruída sem alianças com a direita e, pelo contrário, com alianças construídas horizontalmente com outras forças de esquerda e  centro-esquerda.  Em vez disso, impera o tacticismo da sobrevivência partidária no próximo ciclo político mesmo que isso implique desperdiçar a oportunidade de eleger um Presidente da República que estanque a vertigem de exclusão e repressão que se abateu sobre as maiorias empobrecidas e racializadas. Esta posição é, no entanto, mais complexa que o puro tacticismo. Constitui o cerne da identidade política que Lula da Silva costurou para o PT nas últimas décadas. O facto de estar agora preso faz com que Lula a Silva seja agora mais do que nunca o fiador dessa identidade. O pós-lulismo e o lulismo não podem coexistir.

De algum modo, o PT está refém do Lula e o Lula está refém … do Lula.

Deve, no entanto salientar-se que Lula da Silva é um líder político de génio. A partir de uma cela está  a influenciar de maneira decisiva a condução da política brasileira. Não é fácil encontrar na história contemporânea outro líder carismático que consiga ampliar a sua aceitação  popular (subir de maneira tão espectacular nas sondagens) apesar de preso há vários meses e depois de uma campanha de demonização mediática e judicial sem precedentes. Diz certamente muito sobre Lua da Silva mas também revela algumas complexidades  insondáveis da estrutura social brasileira e do modo como as mensagens mediáticas são recebidas pelo público a quem se destinam.

A aposta de Lula da Silva é a mais arriscada de todas as que fez até agora.  Consiste em permanecer na disputa eleitoral o mais tempo possível e confiar que, no caso de ser declarado inelegivel, haverá uma transferência massiva de votos para o candidato que ele indicar, certamente o candidato a vice-presidente na sua chapa, Fernando Haddad. Provavelmente só assim se garantirá a presença de um candidato de esquerda no segundo turno. A hipótese mais segura de tal acontecer seria a de ter havido um entendimento entre Lula da Silva e Ciro Gomes (PDT), uma hipótese que foi descartada (definitivamente?).  Se a aposta de Lula tiver êxito, a direita vai ter de reavaliar  a eficácia e os custos políticos do golpe institucional, uma vez que sem ele talvez assumisse  o poder nestas eleições de maneira mais segura e limpa. No caso de decidir não adulterar ainda mais o jogo democrático, terá certamente de investir tudo em agravar os custos políticos  da reversão das leis (a contra-reforma) que entretanto conseguiu aprovar durante o interregno do golpe institucional.

Se a aposta de Lula falhar e um candidato de direita for eleito, as classes populares vão ver ainda mais agravadas as suas condições de vida e com isso o génio político de Lula não poderá deixar de ser questionado. Seguir-se-ão intensas disputas no seio do PT e  provavelmente algumas cisões. Abrir-se-á então o período pós-Lula.

Em face disto, tudo  indica que, com base no PT,  não será possível, por agora, pensar  numa renovação das forças de esquerda a partir de uma nova  política de construção de hegemonia. Fora da esquerda hegemonizada pelo PT o PSOL  está a construir uma alternativa junto com o movimento Vamos, oriundo da Frente Povo Sem Medo, o MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Tecto), a APIB (Associação dos Povos Indígenas do Brasil) e o Partido Comunista Brasileiro  (PCB). Os candidatos à presidência da República são Guilherme Boulos (presidente) e Sonia Guajajara (vice-presidente). Esta candidatura aposta na renovação das esquerdas com base em novas lógicas de aliança e de articulação programática e com exclusão de alianças com as forças de direita. Parece, pois, estar a  tirar as conclusões correctas de tudo o que aconteceu nos últimos anos. No entanto, deve estar cada vez mais consciente que tal renovação só é pensável depois das eleições de 2018 e a sua construção é totalmente contingente, na medida em que dependerá de resultados eleitorais, por agora imprevisíveis, e das consequências sociais que dele decorrerem.

No plano da contingência, deverá estar certamente incluída a possibilidade da criação de um novo partido, um partido que seja  também um partido novo, um partido-movimento, construído internamente por mecanismos de democracia participativa para ser verdadeiramente novo e inovador no plano da democracia representativa.  Na base desse partido estarão eventualmente movimentos e organizações sociais, bem como  sectores mais movimentistas do PSOL e  sectores de esquerda do PT e de outros partidos.  Para esta aposta fazer sentido é preciso que o trabalho político de base das forças sociais e políticas de esquerda continue a ser possível no próximo ciclo político. A ausência das ameaças ao capitalismo que existiam há cem anos parece indicar que se manterá o regime democrático mesmo que de baixíssima intensidade.

Deve, no entanto, considerar-se uma incógnita perturbadora.

Afinal o fascismo e o neofascismo têm razões que a razão desconhece.

 

Milhões irão se candidatar à presidência ao lado de Lula no dia de hoje

Milhões irão se candidatar à presidência ao lado de Lula no dia de hoje

Juristas, artistas, escritores e lideranças de organizações levam ao STF sua indignação

Foto: Reprodução

Depois de 15 dias de greve de fome, Frei Sérgio entrou naquele suntuoso espaço acompanhado por um médico e recebendo auxílio para se deslocar. Ele, Adolfo Perez Esquivel (prêmio Nobel da Paz) e uma delegação composta por representação dos movimentos sociais, Igrejas, uma deputada do Podemos/Espanha, artistas e juristas fomos todos recebidos pela Presidente do STF, Carmen Lúcia. Para defender a liberdade do Presidente Lula.

Esquivel foi contundente e magnífico ao afirmar que Lula é um preso político, vítima de um golpe de estado que depôs a presidenta Dilma Rousseff, golpe que tem a complacência do Poder Judiciário. Destacou o que Lula representa para a América Latina e para o mundo. Ressaltou que democracia e direitos humanos são indivisíveis. Resgatou os golpes de estado com caráter jurídico e outras lideranças que foram seus alvos como Lugo, Rafael Corrêa e Manoel Zelaia. À ministra também lembrou “são 50 anos lutando pela liberdade do povo.”

A articulação dos juristas pela democracia, através da Carol, resgatou a situação de exceção que vivemos ao lembrar que no Brasil hoje quem é inocente tem que provar a sua inocência e não mais o contrário. Entregou um abaixo assinado com mais de 240 mil assinaturas de intelectuais e juristas do mundo pela liberdade do Lula. Também resgatou todo o diálogo que a articulação tem feito com o Papa Francisco.

Pelos movimentos sociais e Frente Brasil Popular eu relatei à ministra um diagnóstico do resultado do golpe de 2016: 28 milhões de pessoas desempregadas ou subempregadas sendo 3 milhões em Minas Gerais, 12 milhões de famílias que já não conseguem comprar um botijão de gás, a educação e saúde que tiveram os investimentos congelados e perdemos o recurso do pré-sal, as pessoas estão perdendo a condição de moradia. Morando na rua como em Belo Horizonte que já são mais de 6 mil pessoas nesta situação! Reafirmamos nosso compromisso de continuar a luta contra o golpe e pela liberdade do Lula. As eleições se ganham nas urnas, não retirando quem tem a preferência do povo de concorrer!

O ator Osmar Prado questionou à ministra quantos cadáveres ainda teremos como resultados do golpe que estamos vivendo. Lembrou Dona Marisa Letícia, lembrou o reitor Luiz Carlos Cancellier. Reforçou o pedido de todos nós “faça valer a presunção de inocência”! E terminou perguntando “quem tem medo de Luiz Inacio Lula da Silva?

Frei Sergio emocionou todos que tinham coração naquela sala. Da sua profissão de fé disse a ministra de onde vem, as casas que frequenta (do povo pobre e humilde) e diagnosticou: a vida do povo piorou, a estrutura do estado brasileiro está deixando nosso povo no abandono, nossa justiça está ficando desacreditada. Falou representando os outros 6 companheiros que também estão em greve de fome.

Esquivel nos disse que em setembro fará o pedido de indicação do Presidente Lula para Nobel da Paz por tudo o que fez de combate à fome em nosso país!

A greve de fome dos 7 companheiros continua! A Marcha Lula livre já chegou em Brasília!

Hoje será o maior registro de uma candidatura da história brasileira pois será feito por milhares de brasileiros e brasileiras em Brasília!

Beatriz Cerqueira – presidente licenciada da CUT-MG

Jean Wyllys: Não se faz fofoca com o assassinato de Marielle

Jean Wyllys: Não se faz fofoca com o assassinato de Marielle

Foto: Jéssica Moreira

Recebi hoje com muita surpresa a coluna publicada pelo jornal O Globo, com fofocas sobre um suposto desentendimento meu com o deputado estadual Marcelo Freixo por declarações dele à revista Veja, como parte de uma reportagem sobre o assassinato de Marielle Franco. Eu não sei se quem caiu mais baixo foi a política ou o jornalismo, mas não se faz fofoca com o assassinato de uma pessoa. Marielle era minha amiga, minha companheira, e a ausência dela é uma dor que não acaba nunca, um sorriso que falta, uma saudade difícil de explicar com palavras.

Eu sei que estamos em campanha, que há interesses políticos em jogo, linha editorial e tudo o mais, mas deveria existir um limite ético para certas coisas.

Eu não sou apenas um deputado, um político; sou antes de mais nada uma pessoa que tem sentimentos, afetos, dores. Não caiam tão baixo, não com ela!

Para que fique bem claro: eu nada disse, em lugar nenhum, sobre as declarações de Freixo à Veja. Não dialogo com meus companheiros de partido pelos jornais, mas pessoalmente. E, de fato, o que tem me incomodado muito, nos últimos meses, é a maneira com que as informações sobre o crime, que vitimou minha amiga, estão circulando.

Sou coordenador da Comissão Externa da Câmara dos Deputados (CEXVERIO) que acompanha as investigações dos assassinatos de Marielle e Anderson, criada por minha iniciativa e integrada por parlamentares de diferentes partidos da situação e da oposição. E, como coordenador da comissão, tenho questionado, inclusive publicamente, os vazamentos estranhos de informações desencontradas e inconsistentes, que chegam aos jornais antes que à família, à Comissão Externa e às demais autoridades.

Enquanto a Polícia Civil nada nos informa, “fontes” vazam dados sensíveis à imprensa, inclusive alguns que podem atrapalhar a própria investigação.

Se, por um lado, as autoridades policiais respondem oficialmente à comissão que não podem fornecer nenhuma informação, sob o risco de prejudicar a elucidação do caso, por outro lado, dados cruciais sobre supostas testemunhas e (poderosos) suspeitos-chave (vereadores, deputados, policiais, etc.) são publicadas por diversos veículos de comunicação, extraoficialmente.

Assim, a pergunta que fica é: esses vazamentos são parte da estratégia dos investigadores, balões de ensaio ou algo do gênero? Se sim, as autoridades da CEXVERIO deveriam ser avisadas, para que possamos agir com a cautela necessária. Se, pelo contrário, não fazem parte de uma estratégia dos investigadores, deveria se instaurar imediatamente uma sindicância ou procedimento investigatório similar para descobrir o que está acontecendo dentro da própria Polícia Civil.

Eu lamento muito que, num tema tão sensível, com uma família no meio que está sofrendo a dor inimaginável da perda de uma filha, as autoridades policiais e até ministros do governo – que dão entrevistas e contam o que souberam extraoficialmente – ajam com tanta irresponsabilidade, podendo inclusive prejudicar as possibilidades de saber a verdade sobre esse crime horrendo e punir os responsáveis, tanto os que mataram quanto os que mandaram matar.

Eu lamento também que o jornalismo vire fofoca e esteja mais preocupado em divulgar supostas brigas e desentendimentos partidários que em investigar e procurar informações relevantes que permitam que haja justiça. Lamento que a política caia tão baixo, que tudo seja tão sujo.

As relações promíscuas entre o MDB, seus governos, o crime organizado, as milícias e a corrupção policial já é um problema sério demais para que, acima de tudo, transformemos este caso tão grave em uma competência de fofocas. Se alguém quiser lucrar politicamente com esta tragédia, que reflita melhor. Não vale tudo na política, mesmo. A luta pelo poder faz parte do jogo democrático, mas deve ser feita de forma ética e responsável, e, sobretudo, com afeto, sensibilidade, amor.

Tenham, todos, mais respeito pela memória de Marielle!

Segurança pública e eleições

Segurança pública e eleições

Foto: Mídia NINJA

Este assunto sempre embala as campanhas políticas, em especial, no Rio de Janeiro. É tema certo em debates, sabatinas e programas eleitorais. Não sou especialista no tema, mas sou bem curiosa, há muitos anos. Portanto, o que escrevo aqui é fruto de minhas angústias como cidadã e eleitora no Rio de Janeiro, Estado que eu amo e aonde vivo por toda a minha vida.

Hoje (12 de agosto de 2018), tratando-se de assunto de meu maior interesse, dediquei-me a ler, atentamente, as respostas de todos os candidatos a governador do meu querido Rio de Janeiro, no jornal O Globo.

Deixo, então, algumas breves observações:

1 – Embora alguns tenham tangenciado o tema, nenhum deles tratou, em detalhe e com a relevância que deve ter, o imprescindível controle externo das polícias, que deve envolver, necessariamente, a participação efetiva da sociedade civil.

Sem isso, junto a outras providências, fica impossível pensar em tratar, de verdade, o drama da corrupção policial e outros desvios dos integrantes das polícias militar e civil, do sistema penitenciário e do corpo de bombeiros, enfim, do sistema de segurança como um todo;

2 – Também não li nenhum deles (nenhum!) tratar do tema da política de drogas. Sei que este é um tema delicado, que se procura evitar em campanhas eleitorais, em especial, ao Governo do Estado, cujo Governador não tem competência constitucional para propor, se assim entender necessário, mudança na legislação, que é federal. Mas não é preciso ser especialista para se perceber a interferência direta deste tema na segurança pública.

Ora, para ficar, apenas, num exemplo de como os Estados podem ajudar neste tema, deixo a questão das abordagens policiais, totalmente, diferenciadas quanto a brancos, negros, pobres e ricos, quando portam drogas ilícitas.
A superlotação carcerária no Brasil está em muito ligada às prisões por tráfico de drogas. Segundo recentes dados divulgados pelo CNJ – Conselho Nacional de Justiça, no início deste mês de agosto, 24% da enorme massa de presidiários brasileiros estão presos por tráfico de drogas.

Ademais, esse mesmo estudo revela que a população carcerária brasileira é composta por 95% de homens e 5% de mulheres. Quanto às mulheres, sabe-se que a quase totalidade delas está presa por envolvimento com o tráfico de drogas.

E como, então, os Estados devem ajudar neste estado de coisas?

Bom, não é de hoje que branco, na zona sul, portando droga, é enquadrado como usuário e liberado… Enquanto que um jovem negro, descendo a favela, é enquadrado como traficante de drogas e encarcerado, ainda que porte uma quantidade de entorpecente menor do que a do branco, neste caso hipotético(!).

Esta discriminação da abordagem e da condução de casos como esses é uma questão que o Governador pode resolver, investindo no treinamento de suas polícias, de forma a construir uma nova mentalidade para situações aparentemente simples, mas que têm como consequência o encarceramento em massa, que, já se viu, problema algum de violência resolveu.

O Brasil tem hoje a terceira maior população carcerária do planeta e nem, por isso, conseguimos resolver a questão da violência que a todos atormenta;

3 – Por fim, o confronto armado para combater o tráfico de drogas também não resolveu e tende a trazer ainda mais prejuízos ao Estado, notadamente, financeiros.

Em recente decisão do Tribunal de Justiça do RJ, considerando que a política de confrontos é inconstitucional, decidiu-se que a responsabilidade do Estado é objetiva, ou seja, o Estado tem que indenizar vítimas alvejadas por tiros, independentemente de onde tenha saído a bala, se da polícia ou de terceiros.

Estas foram as questões imediatas que me vieram ao ler as respostas dos postulantes ao Palácio Guanabara sobre segurança pública, preocupação recorrente de fluminenses e cariocas.

Segundo o já citado estudo do CNJ, o Rio de Janeiro possui mais de 77 mil presos e, ainda assim, todo o Estado sofre situações de violência, que tomam o noticiário todos os dias, gerando uma sensação de insegurança ainda maior.

Mesmo não sendo especialista no assunto, arrisco-me a dizer que não podemos alcançar resultados diferentes fazendo a mesma coisa. Sei que alguns dos nossos candidatos à Governador fazem uma análise crítica das angústias que trago aqui, mas estamos num momento bem delicado da vida nacional.

Neste contexto, é imprescindível deixar bem claro tudo o que se pretende fazer em relação aos temas considerados “delicados eleitoralmente”, pois, ainda que, infelizmente, haja uma horda querendo “tiro, porrada e bomba”, há, do mesmo modo, um contingente considerável de eleitores que já sabe o quão complexas são estas questões e não esperam milagres, mas uma posição firme diante do massacre e do derramamento de sangue em curso em nossa sociedade, com a justificativa do “combate às drogas”.

Pastor Ariovaldo: As relações de trabalho

Pastor Ariovaldo: As relações de trabalho

No segundo vídeo da série A Bíblia e os Direitos Humanos, Pastor Ariovaldo fala sobre como o trabalho deve proporcionar o ganho necessário para a sustentação da dignidade do trabalhador e da trabalhadora, e para o seu desenvolvimento econômico. A bíblia não concebe uma sociedade onde o trabalhador ou a trabalhadora não desfrutam do resultado do seu trabalho. Para além do salário, se tem direito de participar do resultado de todo o processo que tornou possível a produção do bem, ou seja, de tudo que tal movimento produziu. Assista!

SP Invisível: Maria aparecida de Jesus, mas pode me chamar de Doidinha

SP Invisível: Maria aparecida de Jesus, mas pode me chamar de Doidinha

Foto: SP invisível

“Quem tá na cadeia tá livre, tem visita e tudo. Aqui a gente tá preso, aqui é a verdadeira prisão. A gente tá preso em vaidade, em vício, orgulho. Temos que pensar em coisas boas: amor, carinho, alegria, felicidade. Meu nome é Maria Aparecida, mas pode me chamar de Doidinha.”

Meu sonho é que as pessoas sejam iguais a vocês: amem as pessoas, não o dinheiro. Se eu fosse rica e tivesse muito dinheiro, eu investiria muito em trabalhos como o de vocês, trabalhos que espalham sentimentos bons.

Eu gosto da vida! Eu amo a vida! O problema é que a gente tá preso, não só preso no vício da droga, tem o vício da rua também! Quem tá fora da rua também tem vícios, todo mundo tá preso.
Hoje sou feliz. Tenho pouco, mas sou feliz. Sou feliz até porque tenho pouco. Não sei se eu seria feliz com um carrão e uma mansão, acho que seria deprimida. A felicidade não tá nisso.” #SPInvisivel #ACidade QueNinguemVe

"Quem tá na cadeia tá livre, tem visita e tudo. Aqui a gente tá preso, aqui é a verdadeira prisão. A gente tá preso em vaidade, em vício, orgulho. Temos que pensar em coisas boas: amor, carinho, alegria, felicidade. Meu nome é Maria Aparecida, mas pode me chamar de Doidinha. Meu sonho é que as pessoas sejam iguais a vocês: amem as pessoas, não o dinheiro. Se eu fosse rica e tivesse muito dinheiro, eu investiria muito em trabalhos como o de vocês, trabalhos que espalham sentimentos bons. Eu gosto da vida! Eu amo a vida! O problema é que a gente tá preso, não só preso no vício da droga, tem o vício da rua também! Quem tá fora da rua também tem vícios, todo mundo tá preso. Hoje sou feliz. Tenho pouco, mas sou feliz. Sou feliz até porque tenho pouco. Não sei se eu seria feliz com um carrão e uma mansão, acho que seria deprimida. A felicidade não tá nisso." #SPInvisivel #ACidadeQueNinguemVe Podemos ajudar a Doidinha e mais pessoas ainda nesse inverno! Colabore com a campanha #SPSemFrio link na bio

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Nunca entendi direito o que o apóstolo Paulo quis dizer na Bíblia ao dizer que “as coisas loucas deste mundo são usadas para confundir as mais sábias”, até que numa andança pelo centro da cidade, eu conheci a Maria Aparecida de Jesus ou, como ela prefere ser chamada, a “Doidinha”. Durante nosso papo, esse versículo vinha direto na minha cabeça e vocês vão entender o porque disso.

Era um sábado cinza no Vale do Anhangabaú. Tudo estava meio deserto, uma cena não muito comum pensando que, de segunda a sexta, aquela região é tomada por uma correria maluca. No meio dessa calmaria, vimos uma mulher que estava conversando sozinha. Isso é muito comum na rua devido ao fato da solidão ser, às vezes, a única companhia dessas pessoas. São essas que sempre me chamam atenção. Dessa vez não foi diferente, fui abordá-la junto com as pessoas que estavam comigo. Além do Gabriel Catite, fotógrafo voluntário do SP Invisível, um grupo de faculdade nos acompanhava para um trabalho.

Assim que chegamos perto, como de costume, fui explicar o projeto para ela. Sempre faço isso e algumas vezes as pessoas não topam conversar, outras topam e é bem difícil do papo fluir, mas poucas invertem a situação e começam a puxar o assunto com a gente, normalmente é nós quem perguntamos, nós que puxamos o assunto. Com a Doidinha foi diferente, ela nem respondeu se topava participar ou não e já foi falando:

“As pessoas não gostam de mim porque não gostam de ouvir verdades. Eu sou muito verdadeira comigo mesma e com os outros”.

Hoje, quando ouço essa fala dela no áudio que gravamos, lembro da cena e penso em como a Doidinha é, eu acredito que tenha entendido melhor o que ela quis dizer: a “Doidinha” é de verdade, ela é a vida real, ela é um ser humano que está morando na rua, essa é a realidade que tanto incomoda a gente, por isso fechamos nossos olhos e escolhemos não ver as “doidinhas e doidinhos” que são colocados na nossa frente, eles nos mostram “a verdade da vida que é insuportável”, como diz o Kivitz, rapper, primo e irmão, em seus versos.

Acredito que foi essa verdade que nos conectou ali naquele momento, uma verdade que nos pegou desprevenido, uma verdade silenciosa, que ninguém vê ou ouve, mas ao mesmo tempo tão gritante e tão na nossa frente que assim que assim que alguém vê, é impossível não fazer alguma coisa. Ninguém que passa por ali durante a semana imagina a potência da história de uma Doidinha. Aí que está a loucura dos sábios, ou também, a sabedoria dos loucos.

Não coloquei na história que foi postada na página, mas ela também comentou sobre a sua trajetória de vida, não apenas suas reflexões. A Doidinha é mineira da cidade de Frei Jorge. Segundo ela, veio para São Paulo muito nova procurar a liberdade que a cidade oferecia. Logo depois, ela conheceu a pedra (crack) e aí ficou presa nesse vício. Ela fala de uma maneira muito poética e até melancólica. “Liberdade” e “prisão” foram exatamente os termos que ela utilizou ao se referir à cidade e à droga. Achei que eu tinha alterado alguma palavra devido à repetição (às vezes faço isso, mas sem alterar o sentido – ex: vim morar na rua/vim morar na calçada/caí nessa situação de rua), mas dessa vez não foi, na entrevista ela disse exatamente desse jeito.

Esse paralelo entre liberdade e prisão foi muito frequente na nossa conversa, até utilizei de uma fala dela que ela nos disse no final do papo para começar o seu texto:

“Quem tá na cadeia tá livre, tem visita e tudo. Aqui a gente tá preso, aqui é a verdadeira prisão. A gente tá preso em vaidade, em vício, orgulho”.

Depois, ela também estende isso não só para quem está na rua – “Quem tá fora da rua também tem vícios, todo mundo tá preso”. Se me pedissem pra desenhar essa reflexão que a Doidinha fez, penso na seguinte ilustração: uma pessoa andando em direção a algo que simbolize a liberdade (pra mim é um campo, algo como uma fazenda), mas com uma bola de ferro no pé. Em qualquer lugar que ela estiver, ela vai estar presa se não tirar essa bola do pé. Foi para isso que a Doidinha me abriu os olhos e tenta abrir os seus, para quais são as nossas prisões e onde a gente busca nossa liberdade.

Algumas pessoas eu reencontro, tenho a oportunidade de mostrar a repercussão da foto, bato outro papo, mas nunca mais vi a Doidinha em nenhum lugar. Não tive esse privilégio. Não sei também como ficou o trabalho de faculdade das meninas que acompanharam esse dia, mas elas deram a sorte grande de terem encontrado alguém como a Maria Aparecida neste dia, foi uma aula, bem melhor do que a entrevista que concedi ao grupo delas depois. Espero que elas tenham feito bom proveito dessa conversa com ela, até porque a minha entrevista é o de menos. Se o trabalho era sobre o SP Invisível, era sobre a Doidinha. Ela é o SP Invisível, ela é a verdade.

O que aprendi conversando com o invisível: Genival

O que aprendi conversando com o invisível: Genival

Foto: SP invisível

É com muita alegria que volto a escrever aqui na minha coluna e a contribuir com a Mídia Ninja. Fiquei um tempo parado na escrita, cuidando de questões pessoais, me cuidando, focando em outros projetos, mas o mais importante: sempre na rua, sempre com os invisíveis e com os excluídos e excluídas da cidade. Quer me encontrar? É ali que estou. Essas redes aqui acima são só um detalhe.

Bom, deixa eu primeiro me apresentar, antes de apresentar esse novo projeto. Eu sou o Vinícius Lima, mais conhecido como Vini Lima. Sou co-fundador, junto com o André Soler, do SP Invisível, um movimento de conscientização da sociedade através de histórias de pessoas em situação de rua ou de moradores de rua, como quiserem chamar (na dúvida, pergunte a um deles).

O projeto existe a 4 anos e já contamos mais de 500 histórias que nos ajudou a crescer de uma maneira muito gratificante, tornando-se o maior projeto atuante na causa, em se tratando de alcance nas redes. Hoje, além de contar histórias, também fazemos ações para conectar pessoas como eu e vocês (gosto de chamar de “pessoas em situação de casa”) com as pessoas que estão na rua, então já fizemos o Natal Invisível, o SP Sem Frio, o Carnaval Invisível e até a Páscoa Invisível.
Só que apesar de termos contado tantas histórias de quem está na rua, sempre senti falta de contar as minhas histórias, mostrar alguns bastidores dessas conversas, algumas impressões e pensamentos que eu tinha. Essas coisas são muito ricas, mas nunca soube o momento certo de mostra-las, nem como fazer isso.

Foi aí que tive a ideia de escrever um livro com essas histórias. Um livro que comente cada história que me marcou e mostre “O Que Aprendi Conversando Com o Invisível”. Achei isso uma ótima oportunidade de voltar a contribuir com a Ninja e quando falei com o pessoal, na hora toparam fazer um livro-coluna. Todos os textos que eu fizer para o livro, vou publicar primeiro aqui e no final vou compilar todos e mais alguns e lançar esse sonho. Com certeza, ele vai ser maior do que pensei, com o apoio dessa galera da Ninja!

Espero muito que vocês acompanhem e gostem! Vamos nos ver muito ainda nesse segundo semestre. Torço para que essas histórias te incomodem a ponto de não conseguir mais fechar os seus olhos para o invisível. Muito obrigado.

GENIVAL – 17/03/2014

“Eu sou o Genival. Tenho 50 anos. Nasci e cresci em São Paulo, não tenho mulher nem filhos. Sou o filho mais velho. Quando eu tinha 14 anos meu pai morreu e tive que trabalhar de pedreiro para bancar minha mãe e meus irmãos.
Quando tinha 20 anos recebi uma proposta de emprego no interior que prometia mudar minha vida! Pensei: “vou ganhar muita grana!”. Cheguei lá e não era nada daquilo, nada mesmo, porque a tal empresa nem existia.

Como estava lá, tentei tocar a vida por aqueles cantos, mas não consegui. Decidi voltar pra São Paulo e aqui estou. Procurei minha família e nunca mais achei. A rua virou minha casa e passei a ser invisível para os que são “visíveis”. Esse pessoal não me dá bom dia, você acha que vão me dar oportunidade?”

Eu sou o Genival, tenho 50 anos. Nasci e cresci em São Paulo, não tenho mulher nem filhos. Sou o filho mais velho….

Publicado por SP invisível em Segunda, 17 de março de 2014

 

Não me lembro bem da primeira vez que conversei com alguém que estava em situação de rua. Deve ter sido entre meus 12 e 14 anos em algum projeto social da escola ou da igreja que visitou a Missão Cena, uma ONG muito querida que tem um trabalho maravilhoso com essa população no centro da cidade de São Paulo, especificamente na região da Cracolândia.

Tanto o meu colégio, quanto a igreja que eu frequento sempre tiveram projetos lá que proporcionavam aos adolescentes essa experiência de servir pessoas excluídas desse nosso sistema.

Porém, embora eu tenha algumas lembranças sobre esse primeiro contato como o lugar, minha idade e o contexto, eu não me lembro muito bem da pessoa com quem eu conversei naquele dia. Não sei se era um homem ou se era uma mulher, se era jovem ou idoso, se ainda está na rua ou não, e vergonhosamente, nem me lembro do que essa pessoa me contou.

Pensando dessa maneira, pode até parecer que eu a ignorei ou que nem prestei atenção em nada do que ela disse, mas a verdade é que talvez, pra mim, aquela pessoa ainda era invisível, por isso sua história não fixou em mim.

Hoje, eu consigo ver que isso aconteceu porque eu estava condicionado a pensar que “nós” aqui da igreja, da escola, com estudo, os “desconstruídões”, os justiceiros, vamos ajudar “eles” que estão necessitados. Eu não tinha nenhuma noção do fato de quem estava naquele dia recebendo o serviço da Missão Cena era igualzinho a mim e a você, não era nem melhor, nem pior. Pelo contrário, tinha uma visão totalmente verticalizada desse dialogo com o outro. Isso o invisibilizava. Na minha frente, eu não via um ser humano, mas um coitado.

Embora, eu não aconselhe ninguém que interaja com alguém dessa maneira que fiz acima, tenho plena consciência de que isso não deslegitima o quão marcante foi essa experiência para mim naquela época, pois não posso exigir essa compreensão de alguém de 14, 15 anos. Talvez ali tenha sido plantada uma primeira semente pra eu me tornar o que tenho me tornado.

Contei essa história para mostrar que, mesmo na nossa frente, as pessoas podem ser invisíveis se não enxergamos a sua história e sua trajetória. O relato acima é um exemplo claro de como não ler esse livro, não leia achando que as pessoas acima são coitadas, mas também não leia acreditando que são os erros que cometeram, não as rotule de “noia”, “bandido” ou seja lá o que for… Leia através das lentes do amor, a lente que enxerga o invisível. Cada dia que passa, tenho ajustado essa lente nos meus óculos para ver a vida e as pessoas.

A primeira vez que usei essas lentes do SP Invisível foi em 2014, quando conheci o Genival. A sua foto na página tem uma qualidade bem pior do que as que tiramos hoje, mas é muito significativa e foi postada no dia 17 de março daquele ano. A imagem foi tirada na Praça Cornélia, na Vila Romana, um bairro de classe média na Zona Oeste de São Paulo. A tal praça onde encontrei o Genival fica ao lado da casa da minha avó. Hoje, a postagem tem 360 curtidas, o que nunca quis dizer nada, mas isso só fomos aprendendo com o tempo. Na época, achávamos esse número enorme e ficamos vislumbrados com isso.

No dia em que encontrei com o Genival, eu me lembro que não foi na Praça Cornélia que eu o vi exatamente, mas uns três quarteirões antes de chegar nela. Só que o nervosismo e a inexperiência me fizeram travar, e não consegui fazer nada, além de segui-lo. Não sabia como aborda-lo, não queria ultrapassa-lo e estava animado demais para deixar de lado essa missão.

Eu queria muito começar o SP Invisível. Estava nervoso porque não sabia o que falar, não sabia como falar e nem o que ele ia responder. Já a inexperiência, ela ficava evidente porque eu não sabia como explicar o projeto, uma vez que ele não existia, não sabia até que ponto eu era invasivo ou não e também não sabia tirar uma foto (não que hoje eu faça isso muito melhor, rs).

O que mais me chocou nessa conversa foi a história da proposta de emprego que era mentira numa empresa fantasma. Na minha ingenuidade, só tinha visto isso acontecer em filme ou na novela, nunca tinha visto na prática uma vítima tão cruel desse sistema, do capital. Hoje sei que toda pessoa em situação de rua, independente da história, independente se chegou na calçada por algum problema financeiro, familiar ou com drogas, é uma vítima da maneira que o capital atua. Além disso, com o tempo, fui vendo que são muito comuns esses golpes com as pessoas que estão na rua por ser uma mão de obra barata e que topa qualquer coisa para sair dessa situação.

Outra coisa que me chamou muita atenção, não na hora, mas hoje ao reler essa história é a quantidade de pessoas que tem a família desestabilizada quando perdem o pai. Sempre que ouço isso, eu fico extremamente grato, mas ao mesmo tempo eu vejo como sou parecido com essas pessoas que estão na rua porque eu perdi também o meu pai quando eu tinha 5 anos, mas graças a uma rede de apoio enorme que eu tive, não aconteceu nada comigo: não precisei trabalhar, muito menos fui morar na rua. Muitas vezes, antes de perder tudo, alguém que foi parar na rua, perdeu seus relacionamentos.

Por último, admito aqui que esse “visíveis” foi algo que acrescentei. Ouvi o áudio do nosso papo novamente enquanto escrevo isto e o que o Genival tinha dito quando perguntei se ele se acha invisível (pergunta muito comum nos bate-papos) foi, “a rua virou minha casa e eu sou invisível sim para essas pessoas”. Para não repetir várias vezes, “pessoas”, usei o “visíveis”. Algo que não muda o sentido, apenas a palavra. Peço licença aqui, a vocês visíveis para chamar vocês desse jeito. Muito obrigado!

Fazia tempo que eu não rolava o feed das postagens do SP Invisível até a primeira história que contamos. Porém, acredito que não exista uma maneira melhor de começar um projeto como esse em que pretendo mostrar alguns pensamentos, impressões, lembranças e bastidores sobre as histórias, do que o começo, do início desse movimento que busca abrir os olhos das pessoas e sensibilizar os corações para o invisível. Espero que gostem.