Corinthians vence Flamengo e está na final do Brasileirão

Corinthians vence Flamengo e está na final do Brasileirão

 Imagem: Bruno Teixeira/ Ag. Corinthians

Para essa importante decisão Arthur Elias pelo Corinthians escalou Lelê, Katiuscia, Mimi, Pardal, Juliete, Erika, Gabi Zanotti, Vic Albuquerque, Tamires, Grazi, Millene.

Ricardo Abrantes escalou Kaká, Larissa, Day, Andressa e Fernanda Palermo, Bia Menezes, Ju e Gaby, Flávia, Ana Carla e Rafa Barros.

Nos primeiros minutos de jogo, as meninas da Gávea estavam com um frequente ataque mas eram sempre neutralizadas pelas corinthianas. O primeiro gol saiu só aos 41, Tamires carrega a bola e faz um belo gol à esquerda da goleira rubro negra.

Com uma bela vantagem já conquistada na casa do Flamengo, o Timão administrou a partida no segundo tempo. E dessa forma, aos 45, Ingryd livre na área, fechou o placar para classificar o Timão.

Corinthians está classificado para final do Brasileirão. Mas sua próxima partida é pelo paulista, semifinal contra a Ferroviária, quarta-feira, às 19h, na Arena da Fonte, em Araraquara (SP).

Jair Bolsonaro e Gladson Cameli: o tiozão do churrasco e seu sobrinho dileto

Jair Bolsonaro e Gladson Cameli: o tiozão do churrasco e seu sobrinho dileto

Foto: Reprodução / Juruá Em Tempo

Os governos de Jair Bolsonaro (PSL) e Gladson Cameli (PROGRESSISTAS), apesar de eleitos pela via democrática, com o discurso da mudança, são extremamente autoritários: não conseguem realizar as mudanças prometidas e fazem de tudo para calar e manchar a honra daqueles que os criticam.

Os recentes episódios envolvendo o youtuber Felipe Neto, o jornalista Guga Chacra e tantos outros casos anteriores são a prova cabal de que a máquina de moer reputações, comandada pelo “heichmarshall digital”, Carlos Bolsonaro, não parou desde as eleições e não poupa ninguém que a eles se opõe.

Aqui no Acre não é diferente: a forma como o governo Cameli enfrentou a recém decretada greve dos trabalhadores em Saúde foi de muita truculência. Olha que os governos da Frente Popular do Acre – FPA, liderados pelo Partido dos Trabalhadores – PT, também tiveram os seus momentos de duro acirramento com grevistas. Mas, nada comparado ao comportamento da atual equipe gestora da Secretaria de Estado de Saúde – SESACRE.

As declarações do secretário adjunto de Saúde do Acre, Cel. Jorge Resende, chamando os servidores da pasta de “vagabundos”, bem como a sua postura de agressão frente a um parlamentar que, além de médico e servidor público da área, é o vice-presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Acre – ALEAC, demonstram a pouca disposição do governo para com o diálogo fraterno e democrático.

A seguir assim, mais preocupados em fazer de tudo para desacreditar aqueles que deles discordam do que fazer com que seus governos dêem certo, não tarda e a paciência do povo, seus eleitores, acaba.

O que pesa contra Bolsonaro, porém, não é apenas o seu autoritarismo e sua disposição para destruir seus opositores. Também não é somente a sua falta de capacidade e habilidade para lidar com os problemas brasileiros. Também não é, sozinha, a autoria do desmanche dos sistemas de políticas públicas de áreas sensíveis, como Cultura e Meio Ambiente, tão arduamente construídos ao longo de décadas e desconstruídos com meia dúzia de canetadas. Tampouco é a sua tara por travar guerras ideológicas contra todos aqueles que pensem diferente dele. E também não são as bobagens proferidas diariamente, por ele ou por membros do governo, ou mesmo os fortes indícios de envolvimento, dele e de toda a sua família, com milícias, milicianos e com a prática de crimes diversos.

É tudo isso, mas, tem algo a mais. É a quebra de um padrão civilizatório que todos os outros ex-presidentes, anteriores a ele, mantinham e com o qual ele rompeu. Independente de partido, o fato é que do pior ao melhor dos nossos ex-Chefes de Estado e de Governo, todos reuniam as condições mínimas para exercer o múnus público presidencial, obedecendo aos protocolos e à liturgia do cargo.

Diferente disso, Bolsonaro é o tiozão do churrasco: ogro, tosco, que fala merda e acha isso bonito. Só que o tiozão do churrasco, apesar de engraçado e divertido, não serve para governar um país. Só serve mesmo para fazer rir, ser desagradável e comprar briga com os outros membros da família. Por mais que você ache “bacana” ter um presidente que é a sua imagem e semelhança, a ode ao grotesco, a apologia à ignorância não podem preponderar.

O governador do Acre, Gladson Cameli, não chega a ser tão ogro e tão tosco quanto Bolsonaro. Mas, em 9 meses de governo, já demonstrou ser igualmente despreparado e incapaz de gerir a complexa máquina administrativa de um estado federado. Ele acredita, piamente, que o seu carisma e simpatia durarão para sempre. Porém, simpatia e carisma, apesar de atributos essenciais a um político (sobretudo para vencer uma eleição), têm prazo de validade: não são suficientes para o sucesso de uma gestão. Para isso, é preciso conhecimento, capacidade técnica e política, sagacidade, perseverança e liderança. Coisas que o nosso charmoso e sempre sorridente governador aparenta não ter.

Toninho Geraes: “Sou a favor do grito de liberdade contra essa tirania que assola o país”

Toninho Geraes: “Sou a favor do grito de liberdade contra essa tirania que assola o país”

Foto: Marcelo Costa Braga

Por Eduardo Sá

Mineiro de alma carioca, Toninho Geraes tem mais de 250 sambas gravados. Aos 57 anos, tem parcerias com muitos dos bambas e suas composições foram eternizadas nas vozes de artistas do quilate de Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e Martinho da Vila, dentre outros. Está entre os grandes compositores deste gênero musical. Canta em todas as casas de shows da cidade e vive com a agenda lotada percorrendo o país.

Hoje, sexta-feira (13/09), ele lança nas plataformas digitais o primeiro dos três discos do seu último DVD: Tudo que sou. Fragmentos (clique aqui) antecederá os outros dois volumes, Africanidade e Caciqueando. O evento amanhã, sábado (14/09), contará com a participação do Moacyr Luz e o Samba do Trabalhador, na quadra da Portela. Toninho tem estudado também a possibilidade de gravar um Afro Samba, buscando elementos do jazz para dentro do samba, algo próximo da Bossa Nova, mas ainda está ensaiando este novo estilo com seu parceiro Chico Alves.

Na entrevista à NINJA, ele revela suas inquietações frente ao cenário político e cultural no país. Segundo ele, é preciso enfrentar o atual obscurantismo e a classe artística tem um papel importante a exercer neste sentido. Fala também sobre a nova geração do samba e a polêmica em torno da sua música Mulheres, consagrada na voz de Martinho da Vila, que foi reinterpretada pelas novas compositoras do samba e se tornou um hino feminista.

Ao invés de resgatar as raízes, gostaria que você falasse sobre o cenário atual do samba.

Não está muito diferente do que via há 30 anos: é o samba sem espaço na mídia e fazendo acontecer nas rodas. Tivemos um momento talvez no final da década de 80 e início de 90, que aqui no Rio pelo menos tinha a Rádio Tropical e outras AM que faziam umas coisas pelo samba. Isso foi se perdendo e hoje o samba se refaz e se constrói dentro da periferia ou até mesmo na zona sul, mas com o mesmo instrumento: o boca a boca.

Já vi você comentando sobre a diferenciação do samba de raiz pro pagode, e dentro do próprio samba que é considerado mais tradicional tem algumas variações. Como você vê isso?

Tem uma diferença gritante, porque o pagode usa os instrumentos do samba mas não a mesma poesia, melodia e harmonia. Posso chegar num bar e ver os caras cantando Élton Medeiros, mas pelo jeito dá pra ver que não são do samba tradicional. Aprenderam a cantá-lo, mas não a interpretá-lo: o sentimento é diferente. No sertanejo há uns 20 anos você identificava quem era Chitãozinho e Xororó, hoje não consegue mais. Forçam demais e fica tudo igual, as temáticas são as mesmas.

Quando o Bolsonaro foi eleito, acordei no dia seguinte como se tivesse acabado de enterrar minha mãe, e a minha mulher tinha visto uma foto do grupo Molejo com o presidente. Nos comentários muita gente estava falando: como vocês do samba estão apoiando o Bolsonaro? Não acho que Molejo seja samba, mas cada um tem sua opinião, se acha que é, beleza. Os bolsominions vieram para cima, nunca fui tão ofendido na minha vida. Imagina, se eu acho que Legião Urbana é pop vem uma turma do rock me detonando. Cara, é só uma opinião. Já estive com o Anderson em rodas e ele conhece samba até melhor que eu, mas optou por caminhar nesse segmento. Zeca Pagodinho, por exemplo, canta samba, mas Exaltasamba canta pagode.

Foto: Marcelo Costa Braga

Tem surgido muitos novos e novas compositoras, você tem acompanhado?

Tem um pessoal chegando, mas como viajo muito não consigo ficar tão atento às músicas novas. Tem esse samba da Mangueira, por exemplo, com a Manu da Cuíca e o Tomaz Miranda, que é um cara que já está há mais tempo. Tem também o DiCaprio, que tem um samba interessante, o João Martins, Inácio Rios, Mosquito, etc. Uma rapaziada que está chegando com uma proposta boa e tem muito a evoluir, embora ache que também tenho muito a evoluir. De dez em dez anos olho para trás e acho que posso ser melhor. Então estão chegando bem, só falta mais mulheres tocando no palco. Mas isso não é só no samba não, no rock e outros estilos também.

Pelo contrário, tem muita mulher chegando, inclusive grupos só delas, até refizeram sua clássica música Mulheres que virou um hino por aí…

Todo movimento é bem vindo, principalmente das mulheres, que são assassinadas porque o feminicídio no país tem crescido devido a várias questões sociais e ao discurso de ódio dos governantes. Mas penso que as meninas não foram felizes, faltou um pouco de sensibilidade para antes de classificar a música como machista analisar a letra.

Quando me ligaram pedindo autorização para a Gabi Amarantos gravar, disse: por que vocês escolheram a minha música para fazer esse desabafo? Ela não é machista, era uma leitura da minha relação com as minhas ex-mulheres. No final coloquei: você é a mulher da minha vida a minha vontade! Percebi que tinha um machismo, daí mudei para você é o sol da minha vida. Não tem gênero nenhum: pode ser uma mulher cantando para outra, uma mulher para um homem, um homem para um homem, etc. Ou seja, como que uma música que prestigia todos os gêneros pode ser machista? Então, as meninas foram infelizes e não perceberam isso.

Tem muitas mulheres chegando, inclusive você citou a Manu da Cuíca, não só intérpretes, grupos delas tocando e muito mais.

Às vezes o pessoal fala que no nosso meio só tem pontinho potinho pontinho, mas você já viveu no meio dos advogados, contabilistas, bancários? Em todos os setores tem, o machismo está em todo lugar. Nos outros segmentos de música também tem pouca mulher, então acho maior barato as mulheres estarem cantando mas têm que estar tocando também. Você pode questionar que não tem nenhuma mulher na minha banda, mas tem a Juhssara e a Alê Maria no coro. Foi algo natural devido às minhas parcerias com amigos.

Esse movimento grande tá vindo com qualidade e somando?

Acho que as mulheres estão cantando mais dentro do samba. Para tocar é preciso ter uma linhagem mais consolidada, que está chegando com uma pegada mais forte. Mas como já é tradição, as mulheres cantam muito mais que os homens. Tem muito músico que estudou muito, a questão é que muitas delas estão chegando agora e precisa de tempo para se aprofundar no instrumento. As meninas estão tocando e evoluindo bem na questão da teoria musical. Adoro ver, por exemplo, a Roberta Nistra tocando cavaquinho. No violão de seis cordas tem a Ana Costa, que amo cantando e tocando, já no pandeiro tem um monte tocando bem pra caramba, como a Jéssica Araújo. Então elas estão chegando com força, mas o forte da mulher no samba ainda é cantar, inclusive melhor que os homens.

Você já falou por aí que tem feito composições no silêncio direto no papel. Queria que você falasse mais sobre método de criação.

Compor é como garimpar, você vai ao rio, começa a entender um pouco o que ele é. Quando fiz a minha primeira achei que era a melhor de todas, hoje não consigo nem mostrar. Então para garimpar você precisa entender o curso da água, o que significa você bateiar. E começar a dividir experiências com os parceiros do seu nível, e na medida em que vai evoluindo você vai atraindo parceiros que até então seria inimaginável fazer parceria.

Por exemplo o Nelson Rufino, a primeira música que cantei no microfone foi um Samba Vazio, que o Roberto Ribeiro gravou dele. Jamais imaginaria que ele seria meu parceiro, nós compusemos vários sambas sendo que quatro deles viraram sucesso. É não parar de compor, hoje com o advento da internet você pode alcançar o seu público de uma forma muito espontânea.

Tinha uma tradição histórica de gravadora, mas os novos artistas estão explorando muito as novas ferramentas. Qual a sua opinião sobre esse novo mercado?

Eu saí um pouco das cavernas né, então não entendo muito mas tento dentro da minha inquietação. Se você não entender o mínimo não consegue nada, a comunicação mudou e a internet chegou para mudar tudo. Até nas profissões, você vê hoje um taxista com os aplicativos, então o músico precisa entender o mínimo para trabalhar. Dialogo com pessoas que entendem, pergunto bastante, trabalho com pessoas que dominam, mas é complicado. Mas no geral acho melhor hoje.

Fiz uma parceria com meu amigo Chico Alves e o Paulinho Resende e hoje de casa bebo meu vinho ou minha cachaça, e a gente vai tocando e compondo como se tivéssemos um olhando o outro. Vamos trocando, mexendo nas palavras. A internet ajuda em muita coisa, tive muita dificuldade e resisti muito, mas uso owhatsapp falado porque é muito mais dinâmico.

Numa entrevista você fala que compôs no zap com o Moacyr Luz, que é um cara mais velho também.

Fiz várias com ele, e é o maior barato compor pelo whatsapp. Posso cansar do parceiro, ir tomar um banho, voltar e continuar o papo. No botequim não tem essas coisas, dar uma ração pro cachorro, você está em casa e um espera o outro no seu tempo. Vira a madrugada, dormi e acordei, o parceiro mandou outro pedaço, é outra dinâmica: uma coisa muito mais rápida.

Foto: Marcelo Costa Braga

Quais são as temáticas que mais te encantam?

Eu e o Moacyr compusemos um samba chamado A cara do Brasil, que representa aquele brasileiro que está meio perdido e não sabe pra onde ir. Ele foi de tudo, de esquerda, direita, não sabe mais de qual lado é, a cara do Brasil, influenciado pela mídia, pelo amigo. Já foi vidraça e agora é pedra, e vice-versa. Mas tenho Devastação, que é um tema muito atual. Já esperava isso do atual governo, porque antes da eleição ele já tirava foto com os caçadores, tudo que ele prometeu está sendo feito. É muito triste, sabia que seria trágico mas não tão descarado.

O artista deve se envolver na política ou falar sobre isso nas músicas?

É direito de cada um, o Paulinho da Viola do ponto de vista artístico não ficou nem menos nem mais importante porque não fala de política. Tem o Chico e o Caetano que estão sempre botando a cara para bater, até acho que podem ser considerados mais brasileiros ou patrióticos que o Paulinho, mas ele tem o direito de ficar na dele. Prefiro errar por ter uma opinião, não dar uma de Roberto Carlos, por exemplo, que nunca se meteu desde o tempo da ditadura. É um artista com um puta alcance e podia estar se manifestando. Mas o artista tem que fazer o que está na alma, a minha é de inquietação, revolta, uma pessoa constrangida e atacada.

Tem essa coisa de estereótipos também né, que acaba influindo no seu público e mercado.

Já aconteceu comigo de dar uma declaração no Facebook e aparecer comentário de deixar de me seguir, que antes me admirava. Será que tá legal ter admiração dessa pessoa por ela pensar desta forma? Aí você liga o “foda-se”. Se ver a sua agenda de show caindo, será que não tenho o poder de fogo ainda ou uma situação financeira privilegiada para falar o que penso? O artista chegando tem essa insegurança, já apanhei muito por dar minha opinião porque sou de esquerda declarado. Tenho amigos de direita e nem por isso deixaram de ser meus amigos, mas com esse tempo de intolerância e de ataques fulminantes da internet me afastei um pouquinho.

Em relação ao mercado, quem olha de fora acha que você tem uma carreira consolidada. Você se sente numa situação financeira confortável enquanto músico profissional?

Viver de música é muito difícil, assim como um professor, que estuda muito também. Nossa profissão é como jogar futebol, tem uns que conseguem ser um Neymar e outros não. Passei por muita coisa nessa vida para construir um pouco para chamar de meu, então não é tão fácil cantar vitória porque se não continuar trabalhando minhas contas não fecham. Talvez me sinta um privilegiado, mas quando olho toda a minha luta, ter passado pelo que passei para chegar onde cheguei, é muito. Hoje sou compositor, que rala pra caramba, está nos palcos toda semana, viaja, pega avião e ônibus, dirige, pega carona.

A gente faz de tudo para os shows, mas felizes são aqueles que trabalham. Sem trabalho não tem honra. Se olhar do ponto de vista de quem está chegando, o negócio é acreditar no seu barato, não ir em modismo nem efeito dominó. Seja você, acredito que eu esteja dando certo mas o meu padrão de vida é comer e beber o que quero na hora que quero, no lugar que quero, esse é meu grande barato.

Como você vê o tratamento da mídia em relação ao samba tradicional e à cultura popular?

O samba está sempre esquecido, é o gênero que às vezes os caras precisam fazer um filme e não sei o quê vai ter um samba e botam. Hoje na favela tem funk, que é o grito legítimo do favelado. Embora não seja brasileiro genuíno, tem toda a sua estrutura norte-americana, mas é através deste tipo de música que eles podem gritar e falar da verdade e cotidiano deles. O samba cumpria este papel lá atrás, o Candeia tinha uma música que dizia: os blacks de hoje serão os sambistas de amanhã, se referindo aos black power. A linguagem da negritude através de outro tipo de música, ele já percebia algum tipo de movimento que estava vindo e antecedeu o funk.

Foto: Marcelo Costa Braga

Em relação à negritude, você evoca em algumas letras a questão da religiosidade. Existe até hoje a ligação dela com o samba?

É o afro né, que se manifesta desde Tia Ciata ali pela Praça Onze. Os baianos chegavam e traziam essa influência para dentro do samba, que ficou por muito tempo sendo o gênero que falava deste tema, das etnias, da africanidade, o povo banto. Tudo isso o samba trouxe desde a época do Estácio, nasceu ali na época de Ismael Silva e tinha essa africanidade forte demais, isso se perdeu um pouco mas depende de onde também.

Se você pega o pagode, por exemplo, hoje ele canta o amor, relacionamento e um pouco do cotidiano, mas o samba ainda traz inclusive nos novos compositores. Sempre tem algo que remete ao sincretismo africano, essa questão mística dentro do samba. O Roque Ferreira foi um grande gênio e incentivador disso, porque quando a coisa estava morrendo ele trouxe músicas maravilhosas. Tenho o privilégio de ser seu parceiro até hoje, e isso é uma coisa que faço também com o Moacyr Luz e o Chico Alves.

O Brasil é um país racista?

Muito! Nessa semana passei por uma banca e tinha uma propaganda institucional da prefeitura dizendo caçamba livre, referente à retirada de entulho, e você via uma mão branca segurando um celular e dentro um negro gari. O Lázaro Ramos e a Thaís têm uma bandeira muito linda, de que o sistema não tem que ser só eles. Se recusam a pegar papeis de empregado, mas tem aqueles que ainda estão chegando não têm muito como não aceitar o trabalho.

Como você tem avaliado o cenário político nacional na questão da cultura?

A cultura tem sofrido de forma devastadora em todos os aspectos, a perseguição a pessoas que têm opinião nunca esteve tão presente. Nem mesmo na época da ditadura, porque lá você sabia quem era o inimigo. Hoje eles estão aí escondidos e se você tem uma opinião e quer expressá-la começa a perder espaço, mas você não sabe de onde vem essa máquina que quer te travar. Hoje o cinema e o teatro, que precisavam tanto dos incentivos, estão sendo podados. Acho que a cultura de um modo geral, porque o governo atual já faz um discurso muito escancarado que é anticultura. Realmente o momento é muito difícil.

Você já se envolveu com política nalgum momento da sua vida?

Lá em Minas na época da fundação do PT era próximo a uma família muito ligada à política, mas era muito novo e não me interessava muito. Quando vim de Minas não tinha interesse, estava com o meu parceiro no ônibus e tinha um vereador do PCdoB dentro, o Edson Santos, daí fui lá conversar com ele. A minha luta é contra os empresários dos ônibus e a favor das pessoas usuárias, se eu andar de carro não verei o que está errado, então para defender uma questão tenho que estar participando de perto, me disse ele. Gostei muito e passei a ser militante do PT, não diretamente do partido.

Comecei a me interessar em política, meu amigo me emprestou uns livros, e quando me vi estava apaixonado por política dentro do movimento de esquerda. Fui filiado ao PDT no tempo de Leonel Brizola, mas com um coração dentro do PT. Mas quando o PT fez sua primeira coligação com o PMDB vi que estavam vendendo a alma. Daí comecei a conhecer o pessoal do movimento negro, dando apoio de longe. Conheci o pessoal da Juventude Rebelião, me chamavam pra cantar em todas as suas festas para arrecadar fundo para as viagens. Ali comecei a conhecer o MST e dar apoio, comecei a ter esta postura de alguém de esquerda. Pensei em me candidatar, mas acho que faço mais dentro do samba que no parlamento. Porque ser sambista já é ser político, e lá vou ficar engessado.

A Marina Iris, da nova geração, é filiada ao PSOL, mas é uma exceção porque é raro sambista se envolver nesse meio, não?

Sou filiado ao PSOL, quem escreveu o prefácio do meu livro O compositor brasileiro foi o Chico Alencar, sou amigo do Eliomar Coelho, todos eles são muito bons. Mas essa coisa de se filiar talvez seja porque os partidos não vão atrás dos artistas, né? Perguntar o que acham sobre essas coisas, se quer fazer parte disso. Acho que o partido também poderia estreitar isso.

Como você vê nosso país e a sociedade hoje?

Acho que ser militante de internet é mole, tem que ir pra fila do gás, pra frente das bombas de borracha, como já tomei duas na Lapa. Tem que estar ligado e bater de frente, já até passou da hora. Sou a favor do grito de liberdade contra essa tirania que hoje assola o país, os neopentecostais em nome de Deus matando, roubando e fazendo as coisas como fez Hitler, Mussolini e Pinochet em nome de Deus. Com todo respeito às pessoas religiosas de igrejas evangélicas sérias, as pessoas estão sendo sufocadas pelos neopentecostais que têm milicianos no meio aprendendo a bíblia para dominar esse povo sofrido. As pessoas não estão percebendo que no Congresso Nacional hoje quase a metade é de neopentecostais.

Tem também as queimadas, todo um pacto com a bancada ruralista, o agronegócio que já não está gostando tanto das merdas que o governo está fazendo. Sabem que vão perder espaço, o desastre está sendo maior do que aqueles que apoiam esse governo imaginaram.

Foto: Marcelo Costa Braga

Você pegou alguns resquícios da ditadura na abertura, tem alguma preocupação disso voltar?

Estamos vivendo uma ditadura, mas sem pau de arara. É uma ditadura que mata nas favelas e nas ruas, uma das PMs que mais mata no mundo. Os anos de chumbo voltaram de uma forma diferente, mais oficializada e institucionalizada. Agora o preto correr é tiro, bala, tem muita gente morrendo. A PM do Rio de Janeiro matou só neste ano mais de 900 pessoas. Morre também, mas quantos deles quando apreendem um fuzil não vendem para ganhar dinheiro? Não tem como a bala não voltar contra eles. Mas não é só este aspecto, temos uma polícia despreparada, que ganha pouco, não é protegida, instruída ou educada. Ela é utilizada como ferramenta de opressão, pobre matando pobre.

Não há nada acontecendo de bom, não há nenhum sinal de transformação deste cenário?

A Juventude Rebelião é um movimento de esquerda que se organiza de forma clandestina, faz política de conscientização dentro da classe estudantil. O Movimento Sem Terra, que é marginalizado por todos os donos de rádio e televisão, que também são os donos de muitas destas terras que eles ocupam. O MST não tem televisão e jornal para dizer que aquilo tudo ali é um circo, porque uma terra improdutiva tem que ser ocupada.

A mídia tem todos os instrumentos para fazer uma mentira virar verdade, e uma verdade virar mentira. Esses donos dos telejornais estão interessados em destruir um movimento que para mim é legítimo e nacionalista demais. É o maior movimento que existe, é atacado sistematicamente como os direitos humanos. Esses jornalistas sensacionalistas ficam dizendo “cadê agora os direitos humanos?”, como se fossem defesa de bandido. Não falam sobre esse tratado feito diante do mundo, eles destroem a imagem. Então o Brasil que a gente vê é isso aí.

Um (quase) final de ano de tantos retrocessos

Um (quase) final de ano de tantos retrocessos

Imagem da primeira edição do Programa Estudantes NINJA. Foto: Mídia NINJA

Por Victória Henrique / Estudante NINJA

Há pouco mais de um mês, nasceu uma iniciativa – de outra – que foi o Programa dos Estudantes NINJA. Inicialmente, uma rede que integra estudantes de todo o Brasil foi criada para possibilitar que estes alunos pudessem narrar, através de diferentes linguagens, o dia a dia nas instituições de ensino. Pessoas que vivenciam o prazer e o desconforto de usufruir do ensino público brasileiro, tornaram-se as próprias produtoras de conteúdos da sua rotina que, muitas vezes, é desgastante, mas ainda assim, prazerosa.

Foi a partir desse anseio de mostrar o que tem de melhor e também denunciar a ausência de investimentos nas universidades, institutos e colégios públicos, que os Estudantes NINJA fizeram a cobertura do Primeiro Tsunami da Educação que resultou em mais de 700 publicações no Instagram da rede com alcance de cerca de 5 milhões de pessoas. O resultado se repetiu e, pode-se afirmar, que até superou as expectativas nos atos seguintes que aconteceram a favor da educação pública, de qualidade, gratuita e socialmente referenciada por todo o país.

Com isso, foi nutrida uma grande comunidade de alunos “NINJA” que produzem todos os dias conteúdos que são postados nas redes sociais da Mídia NINJA e dos Estudantes NINJA. Como resultado desse crescimento insaciável de mostrar mais o outro lado da história, que se diferencia daquela contada pelo atual governo, foi criado o programa dos Estudantes NINJA, que acontece toda terça-feira, às 20 horas, no canal do Youtube da Mídia NINJA.

Já com mais de um mês de vida, o programa fornece rodas de conversas sobre temas que são invisibilizados nos grandes veículos de comunicação. Assuntos como “Pessoas com deficiência nas instituições de ensino”, “Cotas para quê?”, “Sem pesquisa, sem futuro” e “Autonomia universitária em risco” foram debatidos por professores e estudantes, trazendo a perspectiva daqueles que atuam na linha de frente contra os ataques à educação.

Em um momento que a comunidade acadêmica sofre constantes boicotes e é criminalizada, dar voz a ela resulta em um claro ato de resistência aos retrocessos que estão sendo implantados.

O programa dos Estudantes NINJA, daqui a pouco, completa os seus dois meses. No entanto, parece mais velho ao pensar que foram inúmeras recessões impostas pelo governo ao sistema educacional que fizeram com que se discutisse tanto sobre educação. Por um lado, sinto que, como estudante, cumprimos o nosso papel. Mas por outro, tenho a certeza que o governo está longe de cumprir um dos seus papéis fundamentais: o de proporcionar educação gratuita e de qualidade como direito básico a todos.

Clique aqui e confira a playlist completa do Programa Estudantes NINJA em nossa TV.

Glenn Greenwald: “A diferença entre nós e a grande mídia é a mentalidade deles”

Glenn Greenwald: “A diferença entre nós e a grande mídia é a mentalidade deles”

Glenn Greenwald em sessão no Congresso Nacional. Foto: Mídia NINJA

Entrevista de Glenn Greenwald a Juan Manuel Domínguez
Transcrição: Gustavo Conde

O Brasil tem o privilégio de contar entre seu repertório de jornalistas atuantes com Glenn Greenwald, ganhador de um Pulitzer e um dos jornalistas mais influentes, em sentido global, desse momento. Nessa primeira semana de setembro foi convidado para realizar uma entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura. Grande parte dos que assistimos ao programa ficamos abalados ante tamanha falta de responsabilidade e profissionalismo. Como dito por Mauricio Stycer, do UOL, “a entrevista de Glenn Greenwald no Roda Viva nesta segunda-feira (02) foi muito frustrante para quem tinha interesse em entender melhor o impacto e os desdobramentos do furo de reportagem do site The Intercept Brasil. O programa rumou em outra direção, mais técnica, sobre os bastidores da série que ficou conhecida como Vaza Jato”.

Esses questionamentos técnicos, éticos e quase morais que Glenn teve que rebater deixaram a sensação da entrevista ser bastante hipócrita. Muitos desses jornalistas que pertencem ao jornalismo corporativo e hegemônico nunca questionam sobre o papel mesquinho e o modus operandi que favorece os interesses de elites e coloca a população contra setores vulneráveis e marginalizados.

Outro grande questionamento a essa entrevista é a precariedade das temáticas tratadas. O que também acredito que é uma discussão necessária para se fazer dentro do jornalismo: essa necessidade de moldar a linha editorial ao mainstream do momento e não tentar abrir-se para outros temas e ampliar, assim, a informação que colocamos à disposição do público consumidor.

Decidi então aproveitar essa oportunidade para me aprofundar nessa figura tão importante, divisora de águas aqui no Brasil, e conhecer sobre suas influencias, sua visão sobre jornalismo, sua amizade com a Marielle Franco e para ler um pouco de geopolítica. Confira a entrevista na íntegra:

Grande parte do jornalismo considerado independente se sentiu um pouco insatisfeito com a entrevista que a Roda Viva fez com você. Qual é sua avaliação disto?

Foi interessante porque jornalisticamente eu sou uma pessoa que faz uma crítica muito feroz, muito dura da mídia, não só aqui, mas também nos EUA, no Reino Unido. Muitas vezes, durante a reportagem do Snowden, eu denunciei fortemente as entrevistas que jornalistas fizeram comigo.

Mas para ser totalmente honesto, depois dessa entrevista no Roda Viva, minha reação não era tão crítica. Obviamente, eu preferiria que nós conseguíssemos discutir mais as revelações que nós estamos reportando e o conteúdo das denúncias que estamos fazendo. Mas, por outro lado, acho que tem muitas pessoas que já conhecem as denúncias. Eu também tive muita oportunidade de discutir as revelações.

É a mesma coisa no caso do Snowden: eu sempre achei que uma grande parte do trabalho que estávamos fazendo não era só sobre as revelações jornalísticas de espionagem e privacidade – e também no caso de Sergio Moro e a Força Tarefa da Lava Jato – mas questões um pouco maiores do que isso.

Por exemplo, o que é uma imprensa livre e como os jornalistas funcionam numa democracia e qual o papel desses jornalistas, quais são as obrigações e os direitos dos jornalistas e qual é a diferença entre a grande mídia no Brasil e os jornalistas independentes.

E esse debate que nós conseguimos discutir muito tempo no Roda Viva, para ser honesto, acho que é bem importante. Eu estava muito feliz com a oportunidade em discutir isso e responder para as críticas que pessoas estavam fazendo nos últimos 3 meses. Então, eu não estava tão zangado como a internet com as pessoas que estavam me entrevistando, mas eu entendo perfeitamente as críticas também.

No ano de 2008, o presidente Lula anuncia a exploração do Pré-Sal. Segundo ele, essa descoberta permitia ao Brasil estabelecer um diálogo de igual a igual com as nações mais importantes do mundo. Curiosamente nesse mesmo ano, os Estados Unidos reativam a Quarta Frota, ou Fourth Fleet, encarregada de vigiar os mares do Caribe e da América do Sul. Essa frota tinha sido dissolvida em 1950, após a finalização da Segunda Guerra Mundial. Lula reage fazendo um acordo com a França (com Sarkozy) para a construção em parceria de um submarino nuclear que vai ser o encarregado de proteger as riquezas recentemente descobertas. Uma das empresas encarregadas da construção desse submarino é a Odebrecht. Em 2013, você vai denunciar, junto a John Snowden, a espionagem que o governo dos Estados Unidos fazia do governo da Dilma e do particular interesse que eles tinham na Petrobrás. Nesse mesmo ano se iniciam os protestos massivos no Brasil, organizados na sua maioria por grupos com discurso neoliberal, e logo sairia à luz a operação “Lava Jato” que conseguiu, entre outras coisas: desprestigiar a Petrobrás e a Odebrecht e criminalizar o Partido dos Trabalhadores e as políticas protecionistas. Hoje, o Bolsonaro parece ter o capital político suficiente para finalmente entregar o Pré-Sal para a exploração privada. Com a reportagem “Vaza Jato”, você tem informação suficiente para fazer essa ligação entre a operação Lava-Jato e a descoberta do Pré-Sal em 2006?

Primeiramente, só como uma regra mais ou menos absoluta, eu não posso discutir ou falar mais sobre o conteúdo no arquivo que ainda não reportamos ou divulgamos porque, muitas vezes, isso não é responsável. A gente pode errar muito facilmente se falamos sobre um conteúdo que ainda não passou pelo processo jornalístico e editorial.

Mas eu vou falar o seguinte: eu entrevistei a ex-presidente Dilma em 2016, a primeira entrevista depois que a Câmara votou a favor do impeachment dela. Eu perguntei a ela exatamente isso, se ela achou que foi os EUA que estavam planejando o impeachment. Ela me disse que não achava isso, ela achava que a causa principal era a doméstica, que são “desenhadas” pelos inimigos domésticos do Partido dos Trabalhadores.

Mas também não existe alguma coisa que aconteça dentro de um país como o Brasil nesta região sem, pelo menos, o conhecimento e a aprovação dos EUA. Por exemplo, o golpe em 1964 foi construído sim, foi desenhado sim, foi implementado sim pelos EUA.

Eu acho que, sinceramente, o PT, o presidente Lula e a presidente Dilma não incomodaram tanto o governo dos EUA durante o governo Obama como o governo em 1964 estava incomodando o governo dos EUA. Mas, obviamente, o governo dos EUA sempre prefere partidos à direita que vão ser mais “capitalistas”, que vão fazer menos pelos pobres do país, que vão fazer mais pelos mercados internacionais, financeiros internacionais.

Então, eu acho que, se os EUA não lideraram o impeachment de Dilma, com certeza eles tinham conhecimento, aprovaram e deram o sinal verde para sua execução.

Nós conseguimos revelar naquela época, por exemplo, que lideres do PSDB no Senado estavam viajando para os EUA durante a votação, obviamente para discutir isso.

Então, é a mesma coisa com a Lava Jato. Eu não acho que os EUA eram líder do processo da Lava Jato, mas com certeza estavam envolvidos. Obviamente, nós sabemos, como você disse, que eles tinham muito interesse na Petrobras. Eles negociaram muito com Deltan Dallagnol e os procuradores da Lava Jato sobre como eles poderiam receber bilhões de reais da Odebrecht, da Petrobras, que é o dinheiro do povo brasileiro. Portanto, acho que tem muito envolvimento dos EUA em quase tudo de importância que acontece aqui no Brasil.

A reportagem Vaza Jato abriu a porta para uma grande polêmica sobre ética jornalística, embora pareça que o problema real é que a reportagem incomoda os interesses de um establishment do jornalismo e de um setor particular da sociedade brasileira. Como você avalia essa agitação?

Na realidade, esse debate sobre ética jornalística não me interessa muito porque acho que não é um debate. Para qualquer jornalista de verdade, essa questão de que ‘quando você é um jornalista e você recebe informação que é obviamente relevante para assuntos públicos sobre políticos poderosos e você sabe que essa informação é autêntica e genuína’, essa questão não existe, a saber, se nós devemos divulgar, revelar e denunciar essa informação ou não.

Não existe um debate assim para jornalistas. O papel dos jornalistas é muito simples: é revelar, divulgar e publicar informação do interesse público independentemente de como o repórter conseguiu receber essa informação.

Obviamente, o jornalista não tem o direito de cometer um crime. Para obter informação, eu não tenho o direito, por exemplo, de invadir escritório do Sergio Moro ou grampear as conversas do Deltan Dallagnol sem permissão. Isso é um crime para mim como para qualquer outro cidadão. Obviamente, eu não fiz nada assim, ninguém acha que eu tenha feito alguma coisa assim.

Mas quando eu recebo informação de interesse público, independentemente de como a fonte obteve essa informação, na forma lícita ou cometendo um crime, não tem importância nenhuma, é uma obrigação de publicar todas as informações até o final exatamente como eu estou fazendo.

Para ser honesto, eu não consigo acreditar que um debate exista entre jornalistas sobre essa questão. Eu não entendo como a gente pode chamar a si mesmo de jornalista e depois questionar se um jornalista deveria publicar informação de interesse público. Para mim, é como ser médico e questionar um outro médico: ‘por que você está tratando essa pessoa doente?’.

A resposta é óbvia: é porque médicos tratam pessoas doentes. Para mim é a mesma coisa. Quando um jornalista me pergunta ‘como você pôde publicar?’, minha resposta é ‘como você não pôde publicar?’. Estou publicando porque isso é jornalismo e jornalistas publicam, simplesmente isso.

Sim, parece que na real o que incomoda é a visibilidade de outras mídias que não pertencem ao establishment do jornalismo.

É exatamente isso. Você pode olhar, por exemplo, para o programa Roda Viva ou para outros jornalistas criticando o programa por isso. Ora, eu acho que isso é muito benéfico, acho que é a diferença entre nós e a grande mídia, a velha mídia é a mentalidade deles. Essa diferença é muito grande e deve ser mostrada. É exatamente isso que eu quero fazer e por causa disso eu gostei muito daquele programa.

Em 2013, durante uma onda de protestos, aparece no cenário jornalístico a Mídia Ninja, que deu voz aos manifestantes, fez uma cobertura ao vivo inédita e quebrou o paradigma de estigmatização dos reclames populares. Você acha que isto contribuiu de alguma forma na democratização da formação de opinião publica?

É importante lembrar que quando a internet foi criada ou, pelo menos, quando ela se tornou popular na sociedade, e talvez eu tenha idade para lembrar disso e alguns de vocês não… Hoje não tem mais pessoas tão empolgadas, tão animadas com a internet porque a principal promessa era que a internet iria eliminar a necessidade de se ter a grande mídia controlada por grandes empresas para comunicar com outros cidadão e vai ser muito mais fácil para disseminar ideias para comunicar com nossos cidadãos e vizinhos para organizar sem necessidade de ter uma equipe muito grande, muita cara, e eu acho que finalmente isso está acontecendo.

Na realidade, está acontecendo mais devagar, mais lentamente aqui no Brasil do que em outros países como, por exemplo, os EUA e também na Europa, porque a desigualdade aqui no Brasil está impedindo o crescimento da mídia independente.

Nos EUA e na Europa, é muito mais fácil para ser financiado mesmo como mídia independente. Então, tem muito mais veículos independentes lá do que aqui no Brasil, onde infelizmente o Globo, a Veja e o Estadão ainda têm muito poder.

Mas eu acho que tudo está mudando. A Mídia Ninja conseguiu construir uma audiência muito forte, tem um impacto grande. Então, agora, quando temos um protesto político, não estamos só vendo “uma pessoa” que a Globo quer mostrar iniciando um tumulto, usando violência, para desacreditar o protesto.

Nós podemos ver o protesto na realidade, pessoas com reclamações válidas, trabalhadores que foram maltratados. Então, essa informação que anos atrás foi quase censurada, a gente nunca ouviu e agora todo mundo está ouvindo por causa de sites como Mídia Ninja.

A minha perspectiva mudou muito durante o debate do impeachment de Dilma quando fiquei chocado com o fato de ver a grande mídia quase sem pluralidade de opinião, quase sem dissidência. A dissidência foi quase totalmente proibida, havia uma unanimidade a favor do impeachment de Dilma. E, na verdade, tratava-se de um debate importante para a democracia, se um presidente eleito deve ser removido ou não.

Lá fora havia o processo democrático mas aqui a mídia brasileira não permitiu o debate. Isso foi uma grande razão para criar o The Intercept Brasil.

Então eu acho que o The Intercept Brasil, a Mídia Ninja e os blogs independentes na esquerda estão ajudando muito a qualidade do debate e o acesso à informação aqui no Brasil.

Noam Chomsky e Michael Moore permanentemente denunciam como o jornalismo americano é responsável pelo sentimento de belicismo, a xenofobia e, em alguns casos, pela aparição de atiradores contra civis. Pensa de forma parecida?

A pessoa que me influenciou sobre minhas opiniões políticas, sobre mídia, era Noam Chomsky. Eu jantei com ele 5 ou 6 dias atrás em São Paulo porque a mulher dele é brasileira, ele está ficando aqui no Brasil muito tempo e estamos sempre discutindo exatamente isso.

Antes de me tornar jornalista eu era advogado e eu decidi ser jornalista ou, pelo menos, escrever sobre política, em 2001, durante a guerra ao terror do governo Bush, que ainda está continuando inacreditavelmente 18 anos depois. Eu comecei a atuar nesse campo exatamente porque a mídia americana não estava permitindo outras opiniões.

Para a televisão americana, foi uma obrigação apoiar a Guerra, e aplaudir todas as coisas que o governo norte-americano estava fazendo. Foi uma “obrigação” ter a opinião de que os EUA eram o maior país no mundo livre, no mundo democrático, e que tentava levar democracia e liberdade [para o mundo]. Toda essa propaganda, a gente tinha que afirmar se a gente quisesse ter acesso, colocar nossa voz, à televisão.

Então foi [um jornalismo] totalmente fechado. Ainda hoje é ruim assim, mas eu acho que a internet mudou isso de uma forma muito significativa e, por exemplo, agora é possível ter um candidato presidencial como Bernie Sanders que é abertamente um socialista e que agora está denunciando todas essas políticas dos EUA sobre Guerra, e ele tem uma chance real de ganhar as eleições. Dez anos atrás isso seria impensável.

E você também está vendo novos políticos como Alexandria Ocaso-Cortez e outras mulheres que são chamadas de socialistas sem problema nenhum e que estão com muita influência. Acho que isso é quase que totalmente por causa da internet e jornalismo independente.

Então, para mim, alguém que tecnicamente é um cidadão dos EUA – mas que no meu coração e na minha vida o Brasil é o meu lar – isso é uma prioridade grande: mudar o jornalismo aqui para mostrar a corrupção, como esses temas do jornalismo aqui no Brasil estão totalmente truncados e criar outra mentalidade de como o jornalismo deve funcionar. Talvez, por causa disso estava feliz com essa oportunidade que o Roda Viva me deu “sem querer”.

Você é morador de Rio de Janeiro e foi um grande amigo da Marielle Franco. Gostaria ter algumas palavras de você sobre ela e sobre o atual governador Wilson Witzel.

O assassinato de Marielle é uma coisa me influencia de uma maneira muito forte. Eu me lembro como se fosse ontem, naquela noite, 22h15 mais ou menos, quando meu marido estava em casa e recebeu essa ligação. Ele começou a gritar e chorar sem parar durante 10 minutos, não conseguiu me falar o que tinha acontecido porque ele não conseguia parar de chorar. Finalmente, ele conseguiu me falar o que tinha acontecido.

Ela era uma das nossas melhores amigas mas, além disso, era uma pessoa muito inspiradora pessoalmente. Quando eu penso sobre o futuro deste país, dessa cidade, para os meus filhos, eu pensei muito sobre Marielle.

E o fato é que até agora não sabemos quem mandou matar ela, e a mulher dela continua a ser nossa melhor amiga. Discutimos muito esse fato. E eu lembro muito bem naquela eleição, na noite da eleição de 2018, estava com Mônica, mulher de Marielle, quando foi anunciado que Bolsonaro ganhou, mas também que Witzel ganhou, que também esse cretino, esse monstro que quebrou a placa da Marielle do PSL foi o candidato mais votado para a Alerj. Nós percebemos naquele minuto que tudo mudou neste país.

Mas por outro lado, olha o que está acontecendo. Tem três mulheres negras que vêm da favela que trabalhavam no gabinete de Marielle que estão ocupando a Alerj com muita coragem. Tem muitas pessoas resistindo ao governo do Bolsonaro com esse espírito que Marielle ensinou e que passou para muitas pessoas que antes disso não tinham voz.

E assim podemos ver as duas diferenças, os dois extremos de Marielle, que era uma defesa antes de tudo de direitos humanos. Não era só um caso de feminismo, um caso de negros, um caso de LGBT. Ela era uma defensora de direitos humanos, ponto. Tudo vem depois disso. Esse era o princípio fundamental dela.

E agora tem um governador, Wilson Witzel, que é muito mais inteligente que Jair Bolsonaro, muito mais capaz politicamente, que é exatamente o oposto: ele e o inimigo absoluto dos direitos humanos. Ele não acredita nessa ideia, ele não finge para que se dê crédito a ele. Lembra quando tinha pessoas inocentes que foram mortas na favela há duas semanas atrás? Ele culpou os defensores dos direitos humanos.

Então, para mim, esses dois extremos, Marielle Franco e Wilson Witzel representam as duas escolas, os dois caminhos que o Brasil tem pela frente. Ainda não sabemos qual caminho esse país vai escolher. Essa questão ainda não está resolvida.

E, para mim, todo o trabalho que estou fazendo como jornalista, como cidadão, como comentarista, como alguém envolvido na carreira do meu marido, deputado federal pelo Psol, trata apenas disso: qual caminho o Brasil vai escolher? O caminho de Marielle Franco, com igualdade e direitos protegidos e garantidos ou caminho de Wilson Witzel, do fascismo, do autoritarismo, do desrespeito pelos direitos humanos, pelas minorias, pelos pobres? É exatamente isso que esse país está enfrentando agora.

O Steve Bannon, que deu assessoria ao Bolsonaro durante a campanha de 2018, já foi denunciado como alguém que usa a manipulação de dados privados obtidos de forma ilegal para a criação de fake news e para criar estratégias de campanha para candidatos de direita e extrema direita. Considerando o perigo que o mundo vê, a volta da Cristina Kirchner ao governo, você acha que ele vai atuar nessas próximas eleições no pais vizinho?

Acho que esse Bannon é muito explícito sobre essa intenção. Na realidade, ele tem um protocolo muito perigoso. Trump usou essa estratégia durante a campanha e provavelmente ganhou por causa disso, mas depois que ele ganhou, não quis mais trabalhar com Steve Bannon, porque a filha de Trump… o marido dela, que tem muita influência no governo, não gostava de Bannon e forçou para que ele saísse.

Eu acho que isso é uma coisa muito boa porque se Trump seguisse a estratégia de Steve Bannon, provavelmente este teria uma posição muito mais forte, porque a estratégia de Steve Bannon é a seguinte: ser muito nacionalista – sempre fala como Trump: “ah, vamos deixar os EUA grande de novo e vamos botar os EUA no primeiro lugar contra todos os outros países”.

E também o Jair Bolsonaro, obviamente, copiou isso falando “Brasil acima de todos”. É a mesma coisa. E, ao mesmo tempo, falando que nosso país é o primeiro, que todos os outros países são inferiores ou vêm depois, prometendo melhorar a vida dos trabalhadores contra o establishment, contra a elite.

É essa ideologia que está contaminando, machucando e prejudicando milhões de pessoas em vários países. O neoliberalismo que infelizmente prevaleceu aqui no Brasil, também nos EUA, Reino Unido, Argentina, está criando esse espaço para essa narrativa: de que todo o sofrimento na sua vida é causado pela elite política, o establishment, o sistema político. Então, a única solução ‘é fechar nosso país, botar nosso país no primeiro lugar e declarar uma guerra contra os ricos, a oligarquia, a elite, globalistas, em favor dos trabalhadores, em favor dos pobres’.

É claro que isso não é genuíno, mas como uma estratégia política é muito forte. Eu acho que até agora a esquerda atual tem grandes dificuldades para se comunicar com os pobres trabalhadores, a esquerda está bem limitada para pessoas com muita educação formal, para os bairros ricos… Tudo isso, exatamente como Lula conseguiu, agora a esquerda não consegue.

Por causa disso, ela ainda não tem uma estratégia para ganhar esse embate e Steve Bannon sabe disso. Ele está levando essa estratégia para o mundo todo para criar uma aliança na extrema direita.

Obviamente, há conexões muito fortes entre a família Trump e a família Bolsonaro… É exatamente isso… E vai acontecer na Argentina também.

Na Argentina, a direita perdeu, porque é muito mais fácil fazer isso quando você está fora do poder do que quando você está no poder. Estamos vendo isso muito bem agora com o momento do Bolsonaro. Quando ele estava fora do poder, foi muito fácil unir o ódio contra o PT, ‘todo mundo odeia o Lula’, ‘odeia o PT’, ‘fora, Dilma’, isso era muito fácil.

Mas, agora que eles têm o poder, o que está acontecendo? Tem uma guerra civil entre todas as facções que se odeiam, mais do que eles odeiam a esquerda.

Isso [a estratégia de Bannon] é uma estratégia não para governar, mas para ganhar eleições e, com certeza, eles vão tentar fazer isso na Argentina para ganhar essa eleição, mas acho que o problema é que a direta já está governando a Argentina nos últimos quatro anos e é muito mais difícil fazer adotar essa tática quando as pessoas podem ver os resultados e a diferença grande entre esses resultados e o que eles prometeram fazer.

O governo de direita de Mauricio Macri fez várias intervenções nas mídias e se encarregou de que vários jornalistas dissidentes ao discurso oficial fossem demitidos. Jornalistas que têm uma linha editorial parecida ao do The Intercept. Qual é tua reflexão sobre isto?

Acho que estamos vendo isso um pouco aqui no Brasil, com vários jornalistas sendo demitidos, sendo pressionados para ser demitidos em função de criticarem o governo Bolsonaro e com certeza isso vai continuar. Essa é uma mentalidade de caráter autoritário, punir pessoas que estão criticando. Em função disso, a primeira reação de Sergio Moro e Bolsonaro diante da nossa reportagem [a Vaza Jato] foi nos ameaçar com prisão, com investigações. Primeiro, eles tentaram fazer isso contra mim. Agora, eles estão tentando fazer isso contra o meu marido, e ainda me ameaçando com prisão. Isso é exatamente como autoritários no mundo todo pensam.

E, na Argentina, foi muito severo. Depois de 4 anos, tem muitos jornalistas que sofreram por causa disso e com certeza eu acho que isso vai acontecer no Brasil.

Eu lembro, no último discurso que Bolsonaro fez antes do segundo turno da eleição, quando ele ainda estava machucado. Ele estava no Rio de Janeiro, falando com uma multidão e ele prometeu um Brasil sem Folha de S. Paulo e disse que todos os adversários dele teriam de sair do país ou seriam presos.

São palavras para a eleição, claro, mas também mostra a mentalidade dele. Não é permito a eles fazer tudo, mas eles vão tentar.

Ele está censurando filmes. O prefeito do Rio de Janeiro está censurando livros e, como eu disse, tem jornalistas que já foram demitidos em função de sua opinião política – ou estão sendo ameaçados da mesma forma que aconteceu na Argentina nos últimos quatro anos.

De novo: por causa disso é que o jornalismo independente é mais importante do que nunca.

Assassinato de indigenista da Funai na Amazônia precisa de investigação federal

Assassinato de indigenista da Funai na Amazônia precisa de investigação federal

Foto: arquivo pessoal

Por Felipe Milanez

Foi assassinado na noite deste sábado 7 de setembro, nas ruas de Tabatinga (AM) em frente a sua família, o indigenista Maxciel Pereira dos Santos. Morto por um pistoleiro, com tiro na nuca, o crime levanta suspeitas de encomenda, com viés político, e precisa ser investigado pela Polícia Federal. Santos trabalhava há mais de uma década na Funai na proteção e fiscalização da Terra Indígena Vale do Javari, especializado na proteção aos povos indígenas em isolamento voluntário na região. A região tem inúmeros conflitos que envolvem diretamente o trabalho de servidores da Funai para proteger os direitos territoriais indígenas: caça e pesca ilegal, ação ilegal de madeireiros, garimpeiros, e narcotráfico internacional (rota de cocaína e tráfico de arma).

A TI Vale do Javari é a segunda maior do país, com 8,5 milhões de hectares, habitada por povos de cinco etnias e ao menos 16 grupos em isolamento. Fica no noroeste Amazônico, na tríplice fronteira com Peru e Colômbia. Esse crime brutal, caso não haja investigação e punição, pode não apenas colocar em risco o trabalho de funcionários públicos em todo o país, como revelar um novo de tipo de perseguição e controle de funcionários públicos: o apoio disfarçado do governo a práticas ilegais.

Santos era tido como um funcionário comprometido, aliado dos povos indígenas, e dedicado. Como os melhores funcionários de campo da Funai, ele vivia a contradição de servir a instituição com empenho, mas possuir a instabilidade de emprego das funções gratificadas e colaborações temporárias. O indigenista começou a trabalhar com a Funai para a proteção dos povos indígenas isolados que vivem dentro do Vale do Javari com o experiente sertanista Rieli Franciscato, em 2007 (hoje em Rondônia, chefiando a proteção dos isolados que vivem na TI Uru-Eu-Wau-Wau). A partir da experiência inicial, às vezes vinculado na Funai, às vezes com organizações parceiras para executar os trabalhos, ele assumiu posteriormente uma função na Coordenação Regional do Vale do Javari para trabalhar com foco na fiscalização — a CR era chefiada por Bruno Pereira, atual coordenador geral para Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato. Por cinco anos, foi chefe do Serviço de Gestão Ambiental e Territorial da Coordenação Regional do Vale do Javari.

Santos trabalhou com função na Funai até os cortes de 2017, que abalaram profundamente a estrutura da Funai. Ele passou a ser contratado, desde então, como colaborador eventual, e havia sido indicado, aguardando apenas a publicação de sua nomeação, para chefiar a Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari — o trabalho executado por indigenistas especializados para a proteção de povos isolados. Em março, a Funai realizou uma grande expedição de contato com um grupo do povo Korubo, que vive em isolamento.

O trabalho de Santos era reconhecido pelas lideranças indígenas e pelo movimento indígena, que participaram do funeral. O vereador Marcelo Makë Turu, liderança Matis, estava triste, como todo seu povo, e preocupado. Reconhecia Santos como um funcionário “dedicado a causa indígenas, muito comprometido”, e teme que o assassinato esteja relacionado com as ações de fiscalização de crimes ambientais praticados por invasores do Javari.

Queima de balsa em operação no rio Jandiatuba. Foto: Ibama

Ataques e ameaça

O Vale do Javari é um território bastante preservado, mas absolutamente cercado.

Presença do exército cada vez mais enfraquecida. Em 2017, foram denunciados dois massacres, com efeito de genocídio, contra povos isolados. Uma das denúncias, feitas por indígenas Kanamari, acusava madeireiros pela morte de 18 a 21 indígenas. A segunda denúncia de genocídio, publicada em primeira mão há exato dois anos (8 de setembro de 2017), informa que garimpeiros podem ter matado cerca de 10 indígenas isolados.

Mesmo com recursos escassos, a Funai intensificou ações de fiscalização na região, contando com apoio do Exército e da Polícia Federal.

O efeito Bolsonaro atingiu em cheio as ações no Javari. A partir de dezembro do ano passado, as bases da Funai passaram a ser atacadas a tiro — coisa que não acontecia. As mensagens de ódio contra os indígenas e insuflando criminosos a invadir terras indígenas parece ter se transformado uma ordem para os bandidos.

Em dezembro, houve troca de tiros contra base da Funai no rio Itacoaí — a fundação solicitou apoio do exército. Desde então, foram quatro ataques. O último, em 19 de julho, supostamente por caçadores ilegais. Ano passado, em setembro, uma operação apreendeu centenas de quelônios, ovos de tracajá e caça. Quase 400 tartarugas! Em junho desse ano, nova operação, nos postos de controle da Funai no rio Javari, mais de mil e quinhentos quilos de piracatinga, centenas de quelônios de tracajá. Essas carnes abastecem sobretudo os mercados de consumo locais na Amazônia.

Outras operações interditaram balsas ilegais de garimpo. Garimpeiros cercam os rios, convivem e ameaçam indígenas nas cidades de São Paulo de Olivença, Tabatinga, Benjamin Constant, muitas vezes apoiadores por prefeitos e vereadores locais. No final de 2017, destruíram 10 balsas.

Em junho desse ano, o líder Adelson Korá Kanamary, da Associação Kanamary do Vale do Javari (Akavaja), junto de Paulo Dolis Barbosa da Silva, da etnia Marubo, e coordenador da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), denunciaram a presença de mais de 10 dragas no rio Jutaí. Os garimpeiros estariam ameaçando indígenas do povo Tsohom Djapa, da aldeia Jarinal, na Terra indígena Vale do Javari.

Aos conflitos dos garimpos, se soma a violência do narcotráfico na região e a disputa nacional do PCC com o Comando Vermelho por rotas internacionais do fornecimento de cocaína. Essa presença ainda é pouco investigada, e como ela atinge os povos indígenas. Há registro de que rios da TI Vale do Javari possam ser usados nas rotas de tráfico de cocaína e de armas. Enquanto isso, a presença do garimpo facilita a lavagem do dinheiro ilegal na tríplice fronteira.

Por essa razão, além de Santos ter sido nos últimos anos identificado como funcionário da Funai, ter participado das ultimas ações de fiscalização como colaborador, e ser a região uma tríplice fronteira, o crime deve ter uma investigação federal. Apesar disso, há uma briga de competência entre as polícias civis e federal e entre as promotorias. Um empurra-empurra. Homícidio é um crime de competência das polícias estaduais. Mas a exceção está na Constituição, no artigo 109, para o caso de ser cometido contra funcionário público federal, no exercício de suas funções e também em razão delas. Se a razão do crime foi a participação de Santos na fiscalização e proteção da terra indígena Vale do Javari enquanto em serviço para a Funai, o crime deve ter a competência federal.

Efeito Bolsonaro 2: ameaças a servidores

O segundo efeito da campanha e chegada ao poder de Bolsonaro nessas regiões de conflito na Amazônia está relacionada com a perseguição a funcionários do Ibama, ICMBio e da Funai, ofensas públicas contra esses servidores, cenas e discursos de apoio a madeireiros, grileiros e garimpeiros incitando a reação contra operações de fiscalização.

Nesse sentido, o silêncio ou impunidade no assassinato de Santos pode ter um efeito devastador em toda ação de comando e controle na Amazônia. A Indigenistas Associados (INA), associação de servidores da Fundação Nacional do Índio (Funai), manifestou em carta extremo pesar com o assassinato, e espera rápida e rigorosa investigação do ocorrido. Informa também que:

“este episódio trágico e extremo se soma a muitos outros. Nos mais diferentes contextos, da Amazônia à região Sul do país, indígenas, servidores e colaboradores atuam em condições precárias e insuficientes na proteção de Terras Indígenas. Por conta da participação em ações de combate a ilícitos nesses territórios, encontram-se cada vez mais ameaçados e vulneráveis.

São relativamente raro o caso de assassinatos de servidores da Funai em função — comparativamente diante do risco que muitos estão expostos e a quantidade de ameaças de morte que recebem —, razão pela qual a morte de Santos merece muita atenção pois pode indicar uma mudança muito perigosa nos rumos da violência na Amazônia.

Em minhas pesquisas, como as que resultaram no livro Memorias Sertanistas, identifiquei que funcionários da Funai possuem duas situações de maior exposição ao risco de mortes: por indígenas isolados ou então pelos inimigos dos povos indígenas, isto é, aqueles que avançam nas frentes agropecuária ou mineradora, garimpeiros, madeireiros, grileiros. No primeiro caso, a morte pode estar relacionada com o risco inerente do trabalho com povos isolados ou recente contato, como no caso do Javari, onde já foram mortos funcionários, como o indigenista Raimundo Batista Magalhães, conhecido como “Sobral”, em 1996. Mas é raro, e se deve à violência na região e o fato dos indígenas terem sobrevivido a outros ataques e massacres de invasores, fazendo com que estejam em situação de guerra contra os brancos.

Há diversas medidas de segurança que são tomadas e, na eventualidade de um ataque, os agentes da Funai possuem consciência do risco. Por exemplo, Afonso Alves da Cruz, o “Afonsinho”, flechado pelos Arara em 1979, e José Carlos dos Reis Meirelles, flechado no rosto em 2004. Nesses casos, os sertanistas sabiam dos riscos e que os indígenas não tinham compreensão da diferença entre servidores da Funai que estavam lá para protegê-los, e daqueles brancos que invadiam seus territórios para matá-los.

Mas ataques por madeireiros, invasores, garimpeiros, ou então narcotraficantes, representam ataques às instituições do Estado, e é dever do Estado combater a concorrência ilícita do uso da violência. A não ser, é óbvio, que o Estado esteja dominado por um governo criminoso que apoie essas práticas ilícitas.

Se não houver uma investigação imediata, que elucide os fatos e puna os criminosos, não apenas o pistoleiro, mas os mandantes, e que tenha competência federal para essa investigação, podemos estar à beira de um abismo institucional. A morte de Maxciel Pereira dos Santos pode ser um direto ataque a todos servidores, não só da Funai, mas do Ibama, do ICMBio, fiscais do Trabalho, e aqueles que servem em defesa do bem comum.

Todos estamos em risco, até que uma investigação elucide o crime bárbaro contra uma vítima indefesa que defendeu os povos indígenas, a natureza e o patrimônio público federal nos últimos 12 anos. E ainda mais em risco caso esse assassinato passe a ser percebido como uma extensão da Lei da Mordaça, censuras, e perseguições políticas em curso no executivo federal.

Moda democrática e o novo mundo

Moda democrática e o novo mundo

Democracia é um tema urgente. E a pergunta da vez é: como transformar democracia em roupa/moda?

Não desejamos nem pensamos as mesmas coisas, não agimos do mesmo modo, não temos o mesmo gosto, nem a mesma estética, mas somos iguais.

Igualdade é um princípio da democracia. Ser igual para um criador de moda, deve significar ter o mesmo acesso a informações, mesmas condições de trabalho, mesmo poder de escolhas de produção, e mesmas oportunidades de divulgação. Ser igual para um consumidor, dever ser ter acesso a informações de onde, por quem, e em quais condições foi produzida a peça do seu interesse, e ainda ter oportunidade de compra a preço justo, ter opções de escolha de design, ter as proporções do seu corpo atendidas, e sua cultura respeitada.

Porque “a função principal da roupa não é vestir” [como bem disse Millôr], precisamos nos reinventar completamente. Estamos em plena revolução no mundo da moda, e a hora é de utilizar novas linguagens pra existir, e adotar a inteligência funcional pra se colocar, cada um com seu próprio ajuste, seja como produtor ou consumidor. O novo mundo da moda é sobre isso, e precisamos praticar essas ideias. Não tem como não dar certo.

Existem muitos e geniais criadores autorais brasileiros que são pensadores da moda do nosso tempo, e não apenas executores.

Seguem alguns que merecem ser conhecidos:

Um criador pensa por imagens, que se tornam sentimentos, que despertam boas ideias. As imagens curvas do trabalho da designer Solange Arruda certamente fazem referência à Brasília, sua terra natal, e as infinitas combinações de tons aplicados em suas criações são totalmente Alagoas, onde vive. Sua marca conta com uma equipe de produção de 10 mulheres artesãs que moram no entorno de Maceió, e realizam a junção de retalhos muito criteriosamente escolhidos e linhas de algodão multicoloridas, que são trabalhadas com crochê e outras técnicas manuais, tendo como base diferentes materiais como mangueiras e fios elétricos, num processo sustentável.

Originalidade é sua palavra-chave. Ela não tem medo de experimentar o novo, e sabe que o prazer começa no olhar.

Fotos: Osvaldo Felisbino e Márcia Minillo

Quatro mãos compõem a Coletivo de dois. Da junção do design gráfico do Daniel, com a criação de moda do Hugo, nasceu uma proposta estética verdadeiramente autoral, leve, colorida, unissex, atemporal, trabalhada com conceitos sustentáveis, como a peça-ícone da marca, o moletom Arco Íris, consagrado como uma peça de resistência da comunidade LGBT+.

Desde 2014 seguem com suas construções contínuas de desenhos geométricos altamente elaborados, sempre com reutilização de tecidos, que já somam cerca de duas mil peças e “600 kg de tecidos que não foram descartados nos lixões”. Esse coletivo sabe que conhecer o que se faz e dar pós-vida a retalhos é luxo.

Fotos: divulgação

A marca NUZ tem um movimento interior próprio. Se define como “peças atemporais que propiciam coautoria no design interativo”. Sim, é perceptível. Com suas invenções têxteis feitas através de garimpos de tecidos, deixa claro que o fim do ciclo é sempre um recomeço, e que é possível utilizar uma mesma peça de diferentes maneiras em muitas situações.

Sua designer, Duda Cambeses, brinca com conceitos estéticos do vestir, e, desenvolvendo a ideia de unir tradição com inovação, propõe novos limites do corpo, através de recursos estilísticos. Prova que é realmente interessante a possibilidade de um armário com repertório visual transformável, com roupas que podem compor looks diferentes com as mesmas bases. Experimentar o experimental é otimizar o tempo. E a vida.

Fotos: Raul Krebs

A primeira coleção Dendezeiro acaba de ser lançada. Foi criada baseada e inspirada na pesquisa da fotógrafa brasileira Angélica Dass, “Humanae Project”, que registrou diferentes tonalidades de peles em mais de 30 países. Decidida a desafiar estigmas, a marca desenvolveu suas peças utilizando cinco das tonalidades de peles registradas pela fotógrafa, que dialogam com a diversidade de cor de pele de pessoas negras no Brasil. É um exemplo perfeito que reeducação social com fundamento estético funciona. Lindamente bem.

Fotos: divulgação

A H-AL atende o querer a seu modo. Os designers Alexandre Linhares e Thifany F. produzem moda como arte têxtil, explorando fortemente o mundo ao seu redor, com a aplicação de conceitos inovadores como o ecodesign, e muitas vezes confeccionam seus próprios panos, com resíduos e retalhos da indústria têxtil e de ateliês de outros criadores próximos.

Como eles mesmos afirmam, trabalham “valores e processos, cada vez mais inegociáveis no sistema da moda, tais como, upcycling, redesign, zero waste, localvore e economia circular”. Assim, criam uma estética renovada com o uso aleatório de tecidos misturados sem lógica aparente. Apresentam seus trabalhos de formas não convencionais, com coleções sem tema e modelos fora do padrão. Já vestiram a deusa Elza Soares em diferentes turnês.

Fotos: Isabella Glock

França, Itália, China, Inglaterra, Islândia. Grécia, Espanha, Japão, USA, Caribe também. Todos já sabem: a marca Helen Rodel leva um universo dentro de si. É fato: ela é uma entre os designers mais inspiradores do Brasil. Faz do crochê sua ferramenta de criação, mas sua “mão na massa” transcende tudo o que se vê comumente por aí. Com linhas e agulhas cria uma livre interação, ponto a ponto, entre rebeldia e ética estética. Seu olhar futurista – retrô, explora o refinamento das tradições manuais, ao invés de tentar só imaginar algo novo. Suas criações são desenvolvidas com tanta propriedade, com tanta clareza de design, que vejo o seu trabalho como possuidor de qualidade poética.

Fotos: divulgação

No Paraíso da Isabela Capeto cabe um mundo todo de ideias. Influenciada pela vibe da sua cidade, Rio de Janeiro, repassa ao mundo através do seu trabalho o brilho do sol, as cores do Brasil e a leveza do feito à mão, com simplicidade elaboradíssima.

Isabela comunica o seu instinto criativo de maneira inteligente, com ousadia, produzindo pequenas coleções muitas vezes de peças únicas e exclusivas, com toques artesanais, e muito de bordado. Trabalha conceitos de sustentabilidade como bem poucos. Desenvolveu há muito tempo a estratégia de reposição semanal de novas peças que se complementam.
Seu processo produtivo é livremente funcional, e uma das imagens criadas por ela que mais me marcaram, foi dessa forração com caixas de papelão, usadas na passarela de um de seus desfiles na SPFW há alguns anos. Ela se importa com o que interessa e propõe novas concepções.

Fotos: Alexandre Furcolin, Julia Pavin e Mônica Horta

Moda é onde nosso íntimo está exposto, e as criações de Vitor Cunha são sobre isso: peculiaridades e harmonia. Ele é um novíssimo nome de 20 anos, que acabou de lançar [no Dragão Fashion Brasil, em Fortaleza], sua primeira coleção “Mar adentro”, para a qual construiu looks simples e de vanguarda, usando óculos em MDF, bolsas com a transparência das águas, maxi-acessórios em palha de carnaúba, sandálias com amarração – todos produzidos com materiais naturais, com aplicações de 17 kg de fios trabalhados em macramês, tingidos artesanalmente, pontuando sabiamente o universo do mar e suas múltiplas simbologias. Amei as viseiras com franjados, que reverenciam o sincretismo do Adê, [espécie de adorno típico do Candomblé], que também permeia a cultura da pesca no Ceará.

Fotos: Roberta Braga e Chico Gomes

Em Minas Gerais, a marca Libertees produz moda libertária, literalmente. Suas criações são desenvolvidas dentro do Complexo penitenciário feminino Estevão Pinto, em Belo Horizonte, onde há cerca de dois anos, um grupo de mulheres realiza todas as costuras das suas peças. Mas não só isso: as mulheres privadas de liberdade são as responsáveis pelos desenhos livres, que se tornam as estampas impressas da marca. Com o slogan “Mude o mundo”, Marcella Mafra e Daniela Queiroga compartilham os seus saberes de como traduzir olhares em estratégias criativas, e provam que moda é veículo do bem.

Fotos: Anderson Aguiar e divulgação

A essência da marca Luiza Pannunzio é a memória afetiva. Multifacetada, ela partiu dos registros em fotografia pros desenhos, que desenvolve agora pra dar vida a personagens e vestir pessoas. Com formação em artes plásticas, além de ilustradora, escritora, figurinista, ativista, Luiza é feminista e dada a conversas seguidas de atitude. Sua principal loja-ateliê, que fica há muitos anos na Galeria Ouro Fino em São Paulo, resistiu a todas as infinitas mudanças desse local icônico, e segue, forte, muito provavelmente pela adoração que as pessoas que entendem processos sentem pelo feitio de roupas “como se fazia antigamente”, com o olhar personalizado, mas não estático. Em suas peças, usa uma tag com nova definição de tamanhos que é bacanérrima.

Fotos: divulgação

 

Desconstrua o homem cis hétero branco europeu dentro de você

Desconstrua o homem cis hétero branco europeu dentro de você

Foto: Mídia NINJA

Por Ana Claudino

Bifobia nas relações entre mulheres lésbicas e bissexuais

Já escutei e presenciei alguns casos de bifobia dentro do meio sapatão. Na maioria das vezes, eram reproduções de falas machistas e bifobicas que boa parte das pessoas costumam falar por aí sem ser dar conta do quanto isso é problemático.

Do meu lugar de fala/escuta enquanto mulher lésbica negra, fico me questionando de onde surgem essas construções preconceituosas dentro da nossa mente e o que podemos fazer para acabar com elas e substituir por imagens não preconceituosas.

Afinal, pessoas bissexuais (cis ou trans) são LGBT’s assim como nós e apesar de cada letra da sigla ter suas diferenças, no final do dia ainda vamos lidar com a lgbtfobia da sociedade heteronormativa/patriarcal/cisgênera. Certo?

Então, por que algumas sapatonas mesmo assim acabam sendo bifóbicas?

Heterossexualidade como regime político

Todas nós temos um homem hétero cis branco europeu dentro de nós porque fomos criadas dentro do regime da heteronormatividade com construção de papéis de gênero bem definidos. E as outras existências que fogem disso, são vistas como erradas.

Mesmo quando nos descobrimos sapatão, essa criação ainda está dentro de nós e é preciso um exercício de desconstrução e reconstrução diária para não cairmos nas ciladas da heteronormatividade, a reprodução do machismo, a transfobia, o racismo e a bifobia. Fazer parte da identidade sapatão não te torna ativista só por ser sapatão.

Como as sapatão podem cuidar da bifobia

Escutar as vivências das companheiras bissexuais é uma forma de lidar com as bifobias que nós sapatão podemos cometer. Oprimir uma mulher por ela ser bissexual, não te valida como mais sapatão e sim como bifóbica. Agregar é melhor que segregar e no final do dia todas nós ainda vamos lidar com a LGBTFobia.

Um outro caminho para cuidarmos disso coletivamente, é organizarmos rodas de conversa entre mulheres bissexuais e lésbicas, assim podemos entender as diversas opressões que sofremos e também as que são iguais como o enfrentamento ao machismo e ao racismo (no caso das companheiras negras).

Já escutei algumas pessoas comentando que mulheres bi chegam nos lugares e querem falar das relações afetivas/sexuais delas com homens cisgêneros. Se formos parar pra pensar, todas nós temos relações com homens cisgêneros. Elas podem não ser da mesma forma que acontece com as mulheres bissexuais, mas as vezes escutar a vivência de outra mulher, pode ajudar na nossa de certa forma. Além disso, a relação das mulheres bissexuais com homens heterossexuais não é a mesma que acontece com as mulheres heterossexuais. Aceitar as mulheres bissexuais nos espaços é também aceitar as suas vivências por completo e não apenas as vivências dela com mulheres lésbicas.

Sair da caixinha da monossexualidade

Além da heteronormatividade, também vivemos numa lógica monossexual. Ou seja, gays, lésbicas e heterossexuais são identidade monossexuais. As pessoas bissexuais, quebram essa lógica e muitas das vezes precisam lidar com a invisibilidade.

Ser sapatão nos coloca num lugar de construção de novas narrativas sobre nós e consequentemente sobre o mundo. Mas isso não faz sentido se isso não incluir outras vivências diferentes da nossa e se construímos um ambiente opressor.

Como por exemplo dizer que mulheres bissexuais são vetores de doença porque transam com homens cisgêneros. Todos nós podemos pegar e transmitir infecções sexualmente transmissíveis se não nos cuidarmos na hora do sexo.

Ou dizer que mulheres bissexuais irão trocar a sapatão por homem. Esse medo vem da monogamia tóxica que trata as relações afetivas de uma forma capitalista, como se fossemos produtos em uma loja que podem ser trocados. Não existe esse lance de “ser trocada”, o que acontece são que as relações podem acabar e a vida segue.

Essa imagem negativa que temos das pessoas bissexuais, vem da imagem criada pela heteronormatividade monossexual do patriarcado. Lembra, é preciso desconstruir o homem cis hétero branco europeu de dentro de nós e se possível nem deixar que ele exista mais.

A base para cuidar de tudo isso é lutar por igualdade entendendo as diversidades que existem no ser mulher LGBT e que somos todas companheiras!

Ana Claudino é preta, sapatão, pesquisadora, publicitária e criadora do canal Sapatão Amiga.

Para o Brasil, a conservação vale tanto quanto o pré-sal

Para o Brasil, a conservação vale tanto quanto o pré-sal

Morro do Castelo / Vale do Pati, na Chapada Diamantina. Foto: Brunonogaki

Por James Neimeister

Conforme projeções da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, o pré-sal já teria gerado um lucro superior a US$100 bilhões até o ano presente. Paralelamente, uma outra estimativa otimista, produzida pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), projeta um lucro de até US$10 trilhões caso se extraia cada gota de óleo disponível nos dispositivos do pré-sal. Se por um lado esses dados sugerem uma fonte impressionante de riqueza nacional, por outro, a preservação de recursos naturais brasileiros pode valer-se tanto, ou até mais, para o país.

O Ministério da Agricultura estima que a agropecuária gerou um faturamento de cerca de US$140 bilhões em 2017. Isso quer dizer que a receita nacional produzida por esse setor ultrapassa, a cada ano, o valor total já extraído do pré-sal até 2019. Mas esse setor está intrinsecamente ligado à conservação, particularmente à luz das projeções realizadas pelo relatório recém divulgado pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) sobre o uso da terra. É consenso científico que, caso a indústria agroalimentícia não desacelere e transforme a atual forma de exploração do solo brasileiro, mudanças climáticas extremas deixarão as florestas secas, o campo estéril e as cidades em miséria.

A interdependência entre conservação e exploração da terra pelo setor da agricultura me atingiu recentemente durante uma viagem pelo interior da Bahia, no Parque Nacional da Chapada da Diamantina. Como visitante internacional no Brasil, fiquei extremamente impressionado com a imensurável riqueza ambiental desse lugar – esta talvez pouca reconhecida nacionalmente. O Vale do Pati, dentro do Parque Nacional, serve como ótimo exemplo de como a própria conservação da mata pode gerar um valor frequentemente desconsiderado pelo modelo econômico baseado simplesmente no “custo-benefício” monetário da exploração.

Antigamente, o Vale do Pati constituía uma extensa plantação de banana e café. Explorado pelas famílias residentes (algumas das quais ainda remanescentes na região) durante a grande seca dos anos 1930, o Vale atualmente é uma floresta secundária exclusiva e sustentavelmente explorada pelo turismo local. Ainda que secundária, a floresta continua sendo uma importante fonte de água, solo e biodiversidade para a nutrição de áreas adjacentes.

Um estudo português publicado pelo DICA (Divulgação de Informação do Comércio Agroalimentar) aponta que cada hectare de plantação de banana chega a consumir até 16.000m3 de água por ano. Tendo esse valor em vista e a área de 500 hectares úteis do Vale do Pati, o reflorestamento e preservação dessa mata secundária chega a conservar até 8 milhões de metros cúbicos de água por ano. Nesse processo, a degradação dos solos pode se reverter e permitir que espécies vegetais e animais nativas voltem a viver dentro do Vale.

No entanto, a preservação ambiental de áreas florestais nativas tais como o Vale do Pati não se limita somente à conservação da água, solos e biodiversidade, mas também proporciona o seu cultivo. No caso específico da água, o reflorestamento não só deixa de consumir bilhões de litros desse bem, como também faz com que as árvores e plantas, durante o seu processo de nutrição, capturem essa água e a retornem ao solo, preenchendo as reservas aquíferas subterrâneas. 

E quem mais se beneficia desses bens naturais conservados pelas mata nativas? Próximo à entrada do Vale do Pati por Guiné, pode-se ver uma vasta área de plantações circulares que utilizam sistemas sofisticados de irrigação. De acordo com o nosso guia, estas são plantações de batata reservadas à venda exclusiva ao McDonald’s. Esse tipo de plantação geralmente utiliza-se de sementes importadas, que são propriedade intelectual de donos estrangeiros, e consome quantidades exorbitantes de água e agrotóxicos.

Portanto, vejo um claro exemplo da grande parcela da produção agroalimentar que se beneficia direta e indiretamente dos bens naturais resultantes da conservação do Vale do Pati e que se volta à exportação internacional. Trata-se de um modelo agricultural que explora vastamente as águas e os solos subsidiados pela preservação nativa brasileira, mas que deixa pouquíssimo valor dentro do país – e quase nenhuma riqueza para a comunidade local.

Ao mesmo tempo, na beira da estrada entre a Chapada da Diamantina e Salvador, pude também ver as sementes de outro modelo agricultural asfixiado pela monocultura e pela dominação do agronegócio em detrimento da produção regional. Passando por enormes extensões de pastagem com solos degradados de cor alaranjada e praticamente vazias de trabalhadores, observei também grandes grupos de pessoas trabalhando em pequenos lotes ao lado da rodovia. Em contraste com os longos trechos de pastagem, essas plantações, de grande diversidade de alimentos, são capazes de alimentar e empregar um número muito maior pessoas, principalmente moradores locais do interior do estado.

De acordo com projeções realizadas pelo IPCC, a agricultura de pequena escala, que se baseia em conhecimentos tradicionais, sustenta-se exclusivamente pela mão-de-obra familiar ou local; e planta uma rica variedade de produtos para o consumo regional ao empregar os princípios básicos da agroecologia, é o modelo que mais se aproxima da chamada “agricultura do futuro”.

Uma placa nessa mesma rodovia manifestava-se contra a ocupação irregular às margens da estrada, condenando: “a ilegalidade só gera ilegalidades”. Ao meu ver, quem desapropria a terra, as águas e a biodiversidade sem prover retorno algum à região é quem de fato comete o crime primordial à dinâmica social, econômica e ambiental da região.

Outro estudo recente aponta que as políticas antiambientais vigentes podem prejudicar a economia brasileira em cerca de US$5 trilhões – ou seja, equivalente à metade das mais otimistas projeções de lucro do pré-sal. Mesmo descumprindo com a sua função social e sendo um grande responsável pelo desflorestamento nacional, o agronegócio continua sendo altamente subsidiado pela conservação de recursos naturais. Entretanto, por mais que o agronegócio ignore esse fato, ele irá sempre depender diretamente da preservação ambiental para sobreviver. Privilegiar a agroindústria em detrimento da proteção do meio ambiente, além de um tiro no próprio pé, é também um projeto político que entrega um grande patrimônio nacional às grandes indústrias estrangeiras.

James Neimeister é tradutor e cursa mestrado em administração pública no Baruch College, City University of New York

A verdade é dura

A verdade é dura

Foto: Mídia NINJA

Em 2013, um dos lemas mais fortes da multidão que tomou o Brasil foi: “A verdade é dura, a Rede Globo apoiou a ditadura”. O grito ecoou tão forte que, depois de décadas, o grupo Globo foi obrigado a fazer uma autocrítica para não seguir desmoralizado em praça pública.

A Globo também apoiou o novo golpe, que foi a deposição da presidenta Dilma, reeleita em dois turnos, que não havia praticado crime de responsabilidade nem crime comum, pois sequer foi processada na Justiça. A Ordem dos Advogados do Brasil também apoiou o golpe militar e o golpe contra a Dilma, mas logo percebeu que havia cometido dois grandes erros. No golpe militar, advogados como Heleno Fragoso, George Tavares e Augusto Sussekind foram presos clandestinamente. A resistência da instituição e de brilhantes e corajosos advogados como Técio Lins e Silva foi forte. Tanto que uma carta bomba matou Dona Lyda Monteiro, secretária do então presidente da OAB Eduardo Seabra Fagundes, a quem havia sido endereçada.

Ante os ataques ao atual presidente Felipe Santa Cruz, a Ordem dos Advogados do Brasil começa a sentir as consequências de sua absurda decisão de ter apoiado o golpe contra Dilma. Bolsonaro ofendeu a família do presidente da OAB e todas as famílias que tiveram seus parentes torturados, assassinados, desaparecidos, que não enterraram seus entes queridos, como aconteceu com Fernando Santa Cruz. Em filme recente de Beth Formaggini e em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, o “Pastor Cláudio” diz que ele mesmo incinerou o pai de Felipe numa usina de cana de açúcar em Campos dos Goytacazes (RJ).

A Rede Globo e a OAB não podem ficar omissas diante do que vem acontecendo no Brasil. Todas e todos devem ser chamados à responsabilidade agora, pois o futuro pode ser a barbárie, ainda muito pior que o devastador legado da ditadura militar ao país.

Nosso presente é a incineração da Floresta Amazônica, milhões de brasileiros na miséria e morando nas ruas, assassinatos de indígenas, fuzilamento de negros nas favelas. Não se pode tapar o sol com a peneira comemorando um irrisório aumento de 0,4% do PIB em rede nacional. Isso nos faz recordar os ataques aos midiaticamente chamados “pibinhos” do governo Dilma Rousseff.

Não estamos exagerando: a fumaça da poluição que cobriu a cidade de São Paulo às 15 horas aconteceu. As verbas dos programas sociais Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, FIES e abono salarial já foram reduzidas no orçamento para o ano que vem e milhões de brasileiros estão voltando à miséria. O aumento de assassinatos de negros e pobres nas favelas do país cuja polícia é a que mais mata no mundo está acontecendo. É a farsa da política racista de guerras às drogas, que só ataca o varejo da favela, enquanto libera bilhões do tráfico lavados por doleiros, mais ainda com o fim do COAF.

A responsabilidade é atual, pois pode ser que não sobre nada nem mesmo para se fazer a autocrítica depois. Bolsonaro precisa ser retirado imediatamente da Presidência da República.

ANDRÉ BARROS é advogado da Marcha da Maconha, mestre em ciências penais, vice-presidente da Comissão de Direitos Sociais e Interlocução Sócio Popular e membro do Institutos dos Advogados Brasileiros

A verdade é dura: apoia o Bolsonaro e apoiou a ditadura

Posted by André Barros on Tuesday, September 3, 2019

 

 

 

A lei das cesáreas está a serviço do corporativismo médico

A lei das cesáreas está a serviço do corporativismo médico

Como era esperado o governador João Dória (PSDB) sancionou o equivocado Projeto de Lei 435/19, da deputada Janaina Pascoal (PSL), também conhecido como o PL da Cesárea. O projeto permite que os hospitais públicos realizem cesáreas eletivas, isto é, sem recomendação médica, a partir 39ª semana de gestação. Ele prevê ainda que nas maternidades públicas sejam afixadas placas informando as mulheres sobre seu direito a realizar a cesárea mesmo sem recomendação médica.

À primeira vista, a reação de muitas mulheres foi de apoio ao projeto, pois a deputada o defende em nome das mulheres negras e pobres que, sem plano privado de saúde, não teriam condições de acessar a cesariana nas maternidades públicas.

Ela evoca um conceito importante para as mulheres e o feminismo que é a autonomia. Para a deputada, as mulheres que usam o SUS seriam vítimas de uma “obsessão pelo parto vaginal”, o que além de interferir na sua possibilidade de “escolher” por cesárea, as colocariam em risco, bem como seus bebês.

Essa narrativa ganhou certo apoio. Nas redes sociais e mesmo nas ruas, fui várias vezes interpelada porque me colocava contra o projeto e questionada sobre o fato de que as mulheres no SUS, de fato, não têm os mesmos direitos que as mulheres que possuem convênio médico, isto é, não podem “escolher” pela cesárea.

Ora, não podemos ignorar esses questionamentos, mas temos de lembrar outros dois fenômenos importantes que as mulheres sofrem no Brasil: a violência obstétrica e a epidemia de cesáreas.

Na minha caminhada no legislativo, aprendi muito com as obstetrizes, doulas e militantes do parto respeitoso, além de especialistas. E todos citam que no Brasil prevalece uma cultura de patologização da gravidez e do parto, que tem justificado uma série de técnicas invasivas e intervencionistas – sem necessidades comprovadas cientificamente – em procedimentos de rotina como episiotomia, manobra de Kristeller, utilização de fórceps e hormônios para acelerar o trabalho de parto.

Somadas a outras condutas extremamente violentas e machistas temos um cenário em que a violência obstétrica é uma realidade que atinge uma a cada quatro mulheres, conforme pesquisa da Fundação Perseu Abramo de 2010.

Diante deste cenário não surpreende que as mulheres vejam na cesárea uma forma de escapar destas violências. O Brasil está em segundo lugar no ranking de cesáreas no mundo. No sistema privado de saúde, elas ultrapassam os 80%. Na rede pública, fica em 41,9%. A média nacional alcança os alarmantes 55%. E infelizmente essas altas taxas não significam redução da mortalidade materna.

Pelo contrário, a realização de cesáreas seguidas numa mesma mulher está associada a um aumento de complicações à sua saúde. Além disso, a literatura científica também descreve fartamente as implicações para a saúde do bebê, sendo sua adoção indicada apenas quando houver complicações médicas para um ou para ambos. Não é à toa, portanto, que a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que a taxa de cesáreas não passe dos 15% do total de partos.

A verdade é que a deputada não está lá muito preocupada com a saúde das mulheres negras e pobres que ela diz defender, tampouco com seus bebês. Sua grande preocupação é atender aos interesses de órgão de classe que veem na luta contra a epidemia de cesáreas e a violência obstétrica uma afronta à sua autoridade.

Não é de surpreender que o conteúdo do PL se aproxima da resolução  2.144/16 do Conselho Federal de Medicina (CFM), que dispõe justamente sobre a possibilidade de o médico realizar cesáreas eletivas a partir da 39ª semana de gestação. Em outras palavras, a resolução do CFM procura justificar as altas taxas de cesáreas nas maternidades privadas associando-as ao pretenso exercício de autonomia das mulheres.

Desde que protocolou o projeto, a deputada tem participado de debates em conselhos regionais de medicina pelo país que não disfarçam o seu entusiasmo. Além disso, está determinada a fazer uma lei federal. Para isso a deputada federal, Carla Zambelli (PSL) apresentou em junho o PL 3365/19 com a mesmíssima propositura.

A chegada do PL das Cesáreas ao Congresso coincide com a resolução do Ministério da Saúde que determinou a retirada do termo Violência Obstétrica de documentos e políticas públicas. Com essa iniciativa o Ministério assumiu a defesa dos interesses de setores da classe médica. A sua orientação nada mais foi do que uma adesão ao parecer nº  32 do Conselho Federal de Medicina que assim se posiciona: “violência obstétrica” é uma  agressão contra  a  medicina  e  especialidade  de  ginecologia e obstetrícia, contrariando  conhecimentos  científicos  consagrados,  reduzindo  a segurança e a eficiência de uma boa prática assistencial e ética.”

Tudo disso não deveria nos surpreender. Na campanha Bolsonaro e seus correligionários, e a própria Janaína Paschoal, usaram e abusaram dos estereótipos misóginos em relação a luta das mulheres por autonomia e igualdade de direitos.

Bolsonaro na campanha recebeu apoio explícito de médicos ligados a direções de conselho regionais de medicina nas redes sociais. Um ginecologista manifestou seu desejo de “retirar todas as esquerdistas que estão no Ministério da Saúde há anos”. Uma busca na internet mostra que Flávio Bolsonaro prestigiou a posse da nova diretoria do Cremerj, com direito a foto com arminha de fogo.

O efeito prático da entrada em vigor deste projeto deverá ser o aumento irresponsável no número de cesáreas realizadas no SUS no estado de São Paulo que aliado a insistência do Ministério de censurar o termo violência obstétrica, demonstram como em poucos meses desta triste era obscurantista tem sido destruídos avanços importantes na humanização do parto e atenção à saúde da mulher e bebê.

Juliana Cardoso é vereadora em São Paulo pelo PT, vice-presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Criança, Adolescente e Juventude e membro das Comissões de Saúde e de Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo.

O escândalo das eleições gerais em Trinidad & Tobago

O escândalo das eleições gerais em Trinidad & Tobago

Documentário da Netflix detalha como empresa que ajudou a eleger Trump e impulsionou campanha pró-Brexit interferiu em eleição no país caribenho

The Great Hack. Imagem: Netflix / Divulgação

Por Andrei Ribeiro

Em 2018, a empresa de propaganda e análise de dados Cambridge Analytica se tornou mundialmente famosa ao serem revelados os métodos criminosos com que coletou informações pessoais de milhões de usuários do Facebook para traçar perfis de comportamento e influenciar processos eleitorais.

O envolvimento da corporação na vitória do americano Donald Trump e a associação com forças políticas que levaram o Reino Unido a decidir a favor do Brexit (a saída da União Europeia), ambas em 2016, renderam, ao longo dos anos, investigações criminais por parte dos dois países; uma declaração de falência da companhia em 2018; uma multa de 5 bilhões de dólares ao Facebook por violações de privacidade; um agitado debate em todo o mundo sobre privacidade digital e proteção de dados.

Um documentário da Netflix lançado em julho, “Privacidade Hackeada”, de Karim Amer e Jehane Noujaim, traz, no entanto, novas informações sobre um aspecto da trajetória da empresa de dados ainda pouco discutido: a interferência em campanhas eleitorais de países subdesenvolvidos ao redor do mundo.

Anos antes de se implicar na política interna de potências ocidentais, a companhia, através da sua matriz britânica SCL group, em atividade desde 1993, ganhou experiência desenvolvendo controversas operações de mudança de comportamento eleitoral em países da África, Ásia e América Latina.

No filme da Netflix, um áudio inédito vazado por uma ex-funcionária da Cambridge, mostra o então CEO Alexander Nix detalhando como impulsionou o desinteresse e a resistência ao voto entre os jovens de Trinidad e Tobago para favorecer um dos partidos que concorria às eleições gerais de 2010. O registro é parte de uma reunião de vendas da empresa, em que Nix, alegando ter sido contratado pelo UNC (Congresso Nacional Unido) – partido de maioria indiana – apresentava o caso como um case de sucesso.

“Nós fomos ao cliente e dissemos: queremos atingir os jovens. Tentamos aumentar a apatia. A campanha tinha que ser apolítica, porque os jovens não ligam para política; tinha que ser incendiária, porque os jovens são preguiçosos.” A empreitada resultou num movimento chamado “Do so” – “que significa não vote”, explicam o executivo e a ex-funcionária. “É um sinal de resistência, não ao governo, mas contra os políticos e as eleições”.

Na forma de grafittis e cartazes, a mensagem anti-establishment rapidamente se espalhou, corroborando a imagem de um movimento genuíno da juventude – o país não possui voto obrigatório. De acordo com reportagem do Global Voices, à época, a maior parte do país de menos de 2 milhões de habitantes acreditava que o “Do so” surgira espontaneamente do caso de Percy Villafana: um idoso trinitário-tobangense (assim são chamados os naturais deste país) que cruzou os braços e se negou a receber o primeiro-ministro Patrick Manning em 2010.

Um pôster da campanha “Do so”, promovida pelo UNC. Foto: Kierron Yip Ngow/ Facebook

Em maio daquele mesmo ano, depois de ter a sua residência pichada com o slogan dos “braços cruzados” que se tornou símbolo do movimento antissistema, Manning foi derrotado pela candidata da oposição, Kamla Persad-Bissessar, a primeira mulher a comandar Trinidad e Tobago, e o seu partido de maioria afro-caribenha, Movimento Nacional do Povo (PNM), cedeu lugar ao indiano UNC.

Alexander Nix descreve, no arquivo vazado, como foi crucial a exploração das dinâmicas étnicas do país para que a operação fosse efetiva: “Nós sabíamos que na hora da votação, os jovens afro-caribenhos não votariam por conta do “Do so”. Mas os jovens indianos não desobedeceriam aos pais. Eles se divertiram, mas não vão contra a vontade dos pais. A diferença de comparecimento na faixa de 18-35 anos foi de 40%. E isso abalou as eleições em 6%.” Segundo ele, tudo que precisava para vencer uma disputa acirrada.

Além disso, um documento oficial da SCL analisado pela BBC News em 2018, mostra a companhia atestando ter implantado uma “ambiciosa campanha de grafite político” em Trinidad e Tobago, com o intuito de dar condições para que o “partido contratante pudesse alegar que ouviu uma ‘juventude unida’”. O documento também relata atividades nas eleições da Letônia em 2006 e da Nigéria em 2007. O CEO da Cambridge/SCL na época, Alexander Tyler, afirmou apenas que encarava as informações com muita seriedade e estava instaurando uma investigação completa sobre os atos internacionais da empresa no passado.

A Netflix publicou um trecho do áudio citado no Youtube:

 

Repercussão

O UNC nega ter tido qualquer relação com a Cambridge Analytica/ SCL desde que emergiram os primeiros indícios de envolvimento no ano passado. Porém, após decisão do Procurador Geral, Faris-Al-Rawi, de estabelecer auditorias em diversas instâncias do governo com o intuito de avaliar possíveis conexões da consultora política, o partido da coalizão governista (COP) liderado pelo UNC admitiu que houve “discussões e algum engajamento com a SCL”.

O governo de Perssad-Bissessa, que vigorou entre 2010 e 2015, sofre, ainda, uma segunda acusação de conluio com a Cambridge/SCL. Desta vez, os malfeitos teriam ocorrido em 2013. A denúncia foi feita por Christopher Wylie, o primeiro ex-funcionário delator a vir à tona em uma série de reportagens do The Guardian e The New York Times ; e que ficou famoso por ter se definido como “a ferramenta de guerra psicológica de Steve Banon” – em referência ao trabalho que realizava na Cambridge enquanto a empresa tinha como vice-presidente o ideólogo da extrema-direita americana.

No seu depoimento para o Parlamento Britânico, o ex-diretor de pesquisa alegou que a Cambridge Analytica/SCL, em conjunto com a canadense AIQ (acusada de estar envolvida no Brexit) e o Ministério da Segurança Nacional acessaram a rede de Internet de Trinidad e Tobago para coletar e monitorar dados de usuários em todo o país. O delator julgou a operação “um total desrespeito à lei”.

Com a repercussão do documentário da Netflix, o Procurador Geral manifestou estar tentando trazer Wylie para depor em comitê especial no país. O denunciante, por sua vez, diz temer por sua segurança caso aceite o pedido.

Arma de guerra

“Como persuadir garotos muçulmanos de 14 a 30 anos a não se juntarem à Al-Qaeda? Basicamente: guerra de comunicação!” Essa é uma das falas de Nix presentes no segundo fragmento de áudio divulgado pelo filme da Netflix. Nesse momento, enquanto palestrava numa reunião de vendas da Cambridge, o CEO remonta às origens militares da empresa, ilustrada na figura da SCL Defence: “Nós treinamos o exército britânico, a marinha, o exército e as forças especiais dos EUA. Nós treinamos a OTAN, a CIA, o Departamento de Estado e o Pentágono…usando recursos para influenciar o comportamento inimigo.”

Segundo Carole Cadwalladr, a jornalista do The Guardian e Observer responsável pelas primeiras reportagens explosivas sobre o caso, “a grande virada de jogo” foi quando a companhia passou a usar os métodos militares em eleições. “Todas as campanhas feitas pela Cambridge Analytica/ SCL no mundo subdesenvolvido foram somente para praticar alguma nova tecnologia ou jogada”.

A ex-funcionária responsável por vazar os arquivos para o doc, Brittany Kaiser, chegou a dizer em seu pronunciamento para o Parlamento Britânico que a metodologia da companhia deveria ser considerada uma arma de guerra, visto que, até certo momento, era regulada pelo governo britânico por seu caráter militar.

No Brasil, um flerte 

A Ponte Estratégia, consultora do baiano André Torreta, chegou a firmar uma parceria com a Cambridge Analytica no Brasil, em 2017. A união foi batizada de CA Ponte. Após a avalanche de denúncias do escândalo de dados, o empresário desistiu do acordo. “Ainda bem que isso saiu agora. Se tivesse saído daqui a seis meses eu estava morto. Foi uma surpresa. Eu não sabia de nada”, disse Toretta, numa entrevista ao portal G1, em meio à polêmica.

O ex-sócio da Cambridge afirma ainda que Bolsonaro, nos idos da sua corrida eleitoral em 2018, buscou o apoio da consultora e de Steve Bannon, mas foi rejeitado pelo perigo de que seu viés de extrema-direita afetasse Trump.

“Precisamos ter voz para acabar com essa onda da extrema direita”, alerta Teresa Cristina

“Precisamos ter voz para acabar com essa onda da extrema direita”, alerta Teresa Cristina

Foto: Marcelo Costa Braga

 

Por Eduardo Sá

Embora não seja da velha guarda, Teresa Cristina já é uma voz consagrada no samba nacional. Aos 51 anos faz parte de um grupo de músicos entre o das antigas e o da nova geração do samba carioca. Começou a ganhar projeção com o Grupo Semente, na Lapa, no final da década de 90, e desde então não parou mais. Tem parcerias com os maiores artistas nacionais e já passou por todas as famosas casas de shows da cidade, além de ter feito turnês mundo afora.

Atualmente ela está com dois projetos: Um sorriso negro, que com seu grupo de mulheres resgata músicas de autores negros, e a trilogia Cartola, Noel e Zé Keti, cujo último compositor ainda não começou a ser gravado. Mas seu destaque não é só através da música. Ela tem militado sistematicamente nas mídias sociais e participado de todos os protestos políticos desde a saída de ex-presidenta Dilma Rousseff do poder.

Na entrevista à NINJA, ela fala sobre a importância dos artistas se envolverem com política e como a sociedade em geral tem hoje mais ferramentas para controlar os movimentos da classe política e decidir seu próprio voto com mais consciência. Sem poupar críticas ao governo Bolsonaro, ela se diz muito preocupada com os rumos do país. Neste cenário, ela apresenta alguns nomes da nova geração do samba e destaca a contribuição que a cultura pode dar em tempos sombrios como os atuais.

Como você tem visto a nova geração que está renovando o samba?

Temos uma geração pós velha guarda e Fundo de Quintal, os sambas dos anos 80, pós pagode romântico. Depois veio a geração da Lapa com contemporâneos meus, como o Moyseis Marques, Ana Costa, Nilze Carvalho, Luiza Dionizio, Áurea Martins, que não é da Lapa mas cantou com a gente, quando o Carioca da Gema começou. Do Semente as casas começaram a abrir na Mem de Sá, e depois vem outra geração. Deu uma misturada, porque nunca entendi a Lapa como um movimento, sabe? Não tinha nada combinado, foi acontecendo não como uma ação da cidade, do Estado, foi algo bem independente desses donos de casas: Semente, Carioca da Gema e depois o Centro Cultural Carioca, na Praça Tiradentes. Uma atitude muito isolada que acabou trazendo as pessoas, e cresceu de uma forma que ninguém esperava.

Hoje vejo cantoras e compositores novos que têm uma visão muito ampla sobre o samba. Temos uma cantora como a Marina Iris, também compositora, que grava Paulinho Tapajós, Aldir Blanc, mas também grava João Martins, músicas dela, Manu da Cuíca, etc. Ela tem uma maneira de cantar muito verdadeira, um timbre de voz bem gostoso. Outra cantora interessante é a Renata Jambeiro, que está morando em São Paulo agora, e outras pessoas que continuam fazendo um bom trabalho como Nilze Carvalho, Ana Costa, Mariana Baltar, etc.

Mas ao mesmo tempo essas “cantoras novas”, que estão por aí há algum tempo, como a Thaís Macedo, cada uma tem a sua identidade e uma cara muito carioca, as músicas mais antigas e inéditas nessa mescla de repertório muito interessante e rica. Tem uma música que Marina gravou do João Martins que é linda, parece antiga sabe? Mosquito, Inácio Rios, Renato Milagres, André da Matta, Leandro Fregonesi está uma coisa bem colorida.

Foto: Marcelo Costa Braga

Você acha que já é um movimento grande?

Nunca consigo enxergar como movimento, como estou dentro fica difícil, é mais fácil ver de fora. Alfredo Del Penho, além de um grande conhecedor de samba, pesquisador, bom cantor, compositor e grande ator, está fazendo musicais importantes. Vai lançar agora da Bia Lessa o Macunaíma, com repertório autoral muito bacana. Estamos com uma base boa para continuar.

Você pode falar mais um pouco sobre esse movimento de mulheres no samba?

A história da mulher no samba foi muito apagada e precisamos ocupar esse lugar. O samba veio ao Rio pelas mãos de uma senhora baiana, a Tia Ciata, de Santo Amaro. Ela era tão influente que na sua casa reuniu toda a nata do samba (Pixinguinha, João da Baiana, Cartola, João da Gente, etc). Tem imagem de todos eles, mas nenhuma dela, nem gravação de voz. Não sabemos como era ela falando, não tem vídeo nem muita informação. É um apagamento que vai ficando natural e acabam falando mais de outras pessoas. Temos grandes mulheres no Brasil e foi preciso o samba da mangueira trazer esses nomes à tona, a gente saber quem foi Luiza Mahin.

O samba precisa ter também a voz da mulher, o nosso olhar sobre as coisas, temos o direito de sentar na roda e tocar violão ou cavaquinho, pandeiro, surdo, fazer arranjo.

Quando era criança meu pai falava da Maria Quitéria, que para mim depois virou uma rua em Ipanema. Não falamos muito dessas coisas, e esse lugar exótico da mulher na roda de samba fazendo coro pro homem cantando, enfeitando a roda com sua beleza e corpo exuberante, ou como tema daquele samba que na maioria das vezes nos citam com um olhar masculino. O samba precisa ter também a voz da mulher, o nosso olhar sobre as coisas, temos o direito de sentar na roda e tocar violão ou cavaquinho, pandeiro, surdo, fazer arranjo. Não ser mais uma coisa exótica, uma mulher instrumentista tocando muito bem e dizerem tão bem que parece um homem tocando. Isso não é elogio e acho que é um caminho sem volta.

Você chegou a comentar que não está acontecendo somente no Rio este movimento.

É um caminho sem volta no Brasil inteiro, em qualquer cidade tem grupos de mulheres se reunindo e tocando. Em Buenos Aires, Suíça, Portugal, Uruguai, etc. As mulheres estão se fortalecendo e é urgente. Qualquer ação que possa retroagir sobre o apagamento da história da mulher, seja no samba ou na cultura brasileira, é importante e válido. Tem o Moça Prosa, Samba que elas querem, muito grupo feminino e meninas instrumentistas novas com qualidade. Elas não só cantando, mas compondo, fazendo arranjos, arregimentando músicas, tendo um olhar de musicalidade muito bom.

Isso é um alento frente a essa perda constante, a ida da Beth Carvalho acho que ainda está cedo para ter dimensão da sua perda. O samba dela teve alcance desde Noel até essa juventude com garotos de nem vinte anos. Influenciou muita gente, graças a essa força e olhar sobre o samba. Plantou árvores que ainda vão crescer bastante, seu trabalho aponta vários lugares inclusive para esses compositores novos. Gravou, por exemplo, Wanderley Monteiro, Toninho Gerais, que a gente conhece agora, mas ela via antes e aonde gostava se envolvia.

No meu show Um sorriso negro montei uma banda só de mulheres que admiro muito: Samara Líbano, Jéssica Zarpei, uma ótima nova percursionista, de 21 anos, Ana Paula Cruz que toca flauta, a Elisa Dor, Roberta Nistra, cavaquinista. Procuramos saber o trabalho de outras mulheres, porque acabamos ficando num ritmo só pensando no nosso, como sustentar e ganhar dinheiro, e esquecemos de olhar ao lado e que existem mulheres com a mesma demanda. Tenho procurado conhecer outras mulheres, trabalhos, ir a outras rodas, lugares onde o samba está sendo feito.

Criamos um movimento de Mulheres na roda de samba, Movimento de mulheres sambistas, o dia nacional da mulher sambista, no aniversário da Dona Ivone Lara, que é 13 de abril. Tudo isso é muito importante e não tem volta. A gente se olhando se respeita, valoriza a história da outra para também dar valor à nossa. Uma coisa fácil para você pode ser difícil para outra, e vice versa. Isso faz bem ao crescimento de todo mundo.

E após esse período da Lapa hoje existem várias casas de samba em toda cidade, como você vê o cenário?

Quase não frequento mais a Lapa, quando vou é mais ao Beco do Rato, que não é tão novo mas na época que era mais cheio não frequentava. Vou mais ver meus amigos tocarem. É um lugar que mexe muito comigo, porque me deu uma experiência, um jeito de trabalhar, de me relacionar com músicos, que marcou a minha carreira. A cena musical do Rio é bem diversificada, são teias bem abertas: centro da cidade, que já tinha sido revigorado, tem lugares importantes do samba, a Lapa, Pedra do Sal, além do Samba do Trabalhador, que reúne muita gente diferente e cantores e compositores com o Moacyr Luz. Eu quando vou acabo cantando, tem quem ache que faço parte do grupo.

Reparando nas suas mídias sociais, você divulga sistematicamente várias artistas, principalmente as mais novas. Qual a importância disso?

Tem que acontecer não só através de mim, é um trabalho de formiguinha. Toda segunda-feira posto, comecei pelas mulheres negras porque tudo para a gente é depois. Estamos acostumadas a esperar muita coisa acontecer para depois fazer algo, então procuro elogiar uma mulher negra: cantora, compositora, artista, pessoas que estejam no meu meio ou que eu observe. É muito importante e espero que esta ação desencadeie outras, e que as mulheres tomem esse costume de se elogiar. O único caminho é unir forças, vozes, ações.

Está tudo muito estranho, não vou nem falar do mundo, tem muita mudança no Brasil e o país está indo para um lugar que não consigo definir. Vejo muita gente preta nova morrendo, muita mulher sendo agredida e assassinada, tendo a voz silenciada, numa velocidade absurda. Neste governo de morte que estamos vivendo, as pessoas estão se sentindo encorajadas a cometer esses absurdos. Tem que ter uma contra resposta, temos que nos fortalecer, principalmente entre cantoras. Essa coisa de uma cantora ser rival da outra, melhor ou brilhar, é muito cafona e antiga. Não podemos nos dar esse luxo, é uma coisa muito Marlene, Emilinha, Dalva de Oliveira, de uma geração que não é nossa. Até a geração Bethânia, Gal, Elis, as pessoas escolhiam de quem eram fãs, isso não existe mais.

Estamos com o bloco na rua e precisamos ter voz junto para acabar com essa onda de extrema direita, de conservadorismo, hipocrisia, mal uso da religião e da fé. Os valores estão todos invertidos, vemos um montão de gente hipócrita, demagoga, sem moral, completamente suja falando de família e valores que não cultivam. Jogam isso na nossa cara como se fosse uma cartilha, que eles não seguem, mas o discurso deles está muito afiado.

O movimento do samba pode contribuir nessa questão política? Alguns afirmam que a política se revela muito nas músicas, mas não enquanto movimento seja partidário ou não.

Isso tem que ser feito de todas as formas, se você consegue num momento desse sombrio e de treva fazer uma boa canção que retrate o que estamos vivendo é muito bom. O que importa é não ficar calado e se movimentar de alguma maneira. Não dá é para ficar encastelado e achar que essa lama não vai chegar no seu pezinho porque você não fala, não se posiciona ou não fica indignado. Não é possível que não incomode as pessoas que estão quietinhas se fingindo de mortas também.

Mas em relação ao artista específico, não tem também uma questão de mercado no sentido de não se expor para preservar a imagem e não ter portas fechadas?

Isso sempre existiu, e agora não dá mais. Até porque se continuar deste jeito esse mercado não vai nem existir para quem está caladinho. Quando ficar ruim, vai ficar para todo mundo. Já temos censura, mortes, agressão, um discurso pesado, um lunático no poder propagando notícia falsa, colocando as pessoas num lugar esquisito. Pessoas sujas, desonestas, com um discurso de moralidade completamente falso. Não existe nenhuma verdade nesse discurso de família, fé e meritocracia, é tudo balela. Estão tentando criar um rolo compressor para cima da gente.

Foto: Marcelo Costa Braga

Qual análise de conjuntura está sendo feita pelos artistas e políticos com quem você convive, levando em consideração que ele foi eleito com todo esse discurso?

Foi eleito por 30% da população, teve muito voto nulo e branco, isentos que continuam traumatizados com o PT achando que ele acabou com o país. Aí a gente pega todos os números e feitos e esfrega na cara dessas pessoas, mas não adianta. Está com merda até o pescoço, mas falando: pelo menos a gente tirou o PT do poder. As pessoas não querem se informar, estão cegas.

A mídia contribuiu nesse processo?

A mídia construiu esse ódio ao PT. Quando teve a história do avião de cocaína do cara pego na Espanha, a primeira coisa que o telejornal fez foi botar a cara da Dilma. O que ela estava fazendo ali, se não tinha nada a ver? Ele não foi piloto dela, é mentira. Então tem muita desinformação e o mais criminoso é tentar colocar como se fosse tudo do mesmo saco.

O PT não é do saco do Bolsonaro, não dá para comparar. O governo do Bolsonaro, aliás, não se compara a nenhum: a FHC, Lula e Dilma, nem ao Figueiredo na época que eu peguei. O atual governo tem muito mais militares e o do Figueiredo foi de abertura. Com tudo que aconteceu na ditadura eu nem sei dizer o que está acontecendo hoje no Brasil.

Não sei se você está filiada a algum partido, mas transita alguns meios. Quais as ações estão sendo traçadas de resistência?

Não sou de nenhum partido, mas me envolvo com as pessoas que acredito e trabalho. As mobilizações precisam acontecer, ao mesmo tempo que tem essa galera que diz ser tudo culpa do PT e tapa o olho e grita. Não é tão difícil ver as ações dos políticos hoje em dia. Sei que é horrível, mas dá para acompanhar qualquer votação na TV. Saber em que o PSL ou o PSOL votaram, saber quem está ao lado do povo e quem contra. Quem votou contra tirar do bolso do pobre para pagar o rombo da previdência? Quem está querendo valorizar a educação e o trabalhador? Não é difícil fazer isso. Fui filiada a partido na época do movimento estudantil, hoje me envolvo com pessoas e ações e é uma trincheira pesada. A minha esperança é com o carnaval de rua, o samba da mangueira trouxe um alento para a gente este ano.

A cultura tem um papel importante nesse debate todo, inclusive de comportamento?

Tem porque discute num lugar onde tem liberdade para falar, e quando fica tudo nesse discurso de política e rede social é um maniqueísmo que não interessa à discussão porque não leva a lugar nenhum. Precisamos resistir de outras formas, tentando pensar de outras formas e em novos agrupamentos também, porque hoje em dia você acaba concordando com gente que há um tempo atrás discordava. A discrepância é tão absurda e gritante que para discordar do Bolsonaro você concorda com a Raquel Scheherazade, Lobão e Reinaldo Azevedo.

Voltando pra questão musical, como você vê as mudanças tecnológicas no trabalho?

Para mim é meio misturado, porque uso rede social para falar coisas da minha vida e tenho um escritório que fala também do meu trabalho. Tento falar também de outras pessoas, de outras mulheres, dar voz a pessoas que não têm tanto espaço assim. Acho que isso é o futuro da rede social, não estou inventando a pólvora mas que naturalmente será feita por outras pessoas também.  Essa coisa dos artistas se divulgarem acaba virando uma rede que fortalece o todo.

E o que você está fazendo atualmente, seus projetos?

Acabei de gravar um DVD do Noel Rosa, não sei ainda quando vai sair. Estou fazendo o show Um sorriso negro, que canta só compositores negros com essa banda de mulheres. Estou no meio de uma trilogia que comecei a fazer com o Cartola, Noel e o próximo será Zé Keti, mas ainda não pensamos direito. Tenho datas para fazer Um sorriso negro, o Carlinhos Sete Cordas está tocando com a Maria Bethânia, mas também está tudo tão suspenso no ar. Devo fazer shows no segundo semestre e ano que vem entender se faço Zé Keti ou meu trabalho autoral.

Quando você diz tudo suspenso no ar tem a ver com os cortes nas verbas para cultura, dificuldade em acesso aos editais e incentivos?

As pessoas me acusam de mamar nas tetas da Lei Rouanet, mas o meu trabalho nunca foi incentivado. A dificuldade de se trabalhar acho que é geral para todo mundo, este ano está sendo bem atípico.

Foto: Marcelo Costa Braga

O Brasil está em chamas e a rua te chama

O Brasil está em chamas e a rua te chama

Foto: Mídia NINJA

Por Pedro Gorki

“O Brasil pega fogo” costumava ser apenas uma metáfora para retratar disputas políticas. Hoje, tem um sentido literal que reflete mais do que o descaso com o meio ambiente, o descompromisso total com o país, compromisso substituído por interesses sórdidos que têm no governo Bolsonaro sua máxima expressão.

A situação é tão grave que até mesmo o agronegócio faz questão de se desvencilhar das queimadas que ocorrem na Amazônia, pois sabem que as retaliações internacionais são inevitáveis. Países já declaram boicote aos produtos brasileiros, pois o respeito ao meio ambiente é um dos principais quesitos levados em consideração ao se decidir pela importação de algum produto.

As queimadas não são fruto apenas da seca. Reportagem publicada pelo jornal Folha de São Paulo, no dia 22 de agosto, mostra que os incêndios são provocados por fazendeiros, incitados pelas declarações do presidente da República. Um anúncio, publicado em jornal do município de Novo Progresso, no interior do Pará, convoca os fazendeiros para o “Dia do Fogo”.

Os reiterados ataques do presidente Jair Bolsonaro às políticas ambientais, aos ambientalistas e aos órgãos de fiscalização estimularam fazendeiros da região amazônica a promoverem o “Dia do Fogo”. Várias cidades foram cobertas por densas nuvens de fumaça.

Diante disso, o Ministério Público Federal (MPF) abriu quatro investigações para apurar as causas do aumento do desmatamento e das queimadas na região amazônica. Os inquéritos investigam a redução das fiscalizações ambientais na região e a publicação do anúncio da promoção do “Dia do Fogo”. Segundo o MPF neste dia, dezenas de produtores rurais teriam ateado fogo na mata para dar uma demonstração de apoio ao presidente Jair Bolsonaro. A ausência do suporte da Polícia Militar no Pará inviabilizou que fiscais do Ibama atuassem para impedir a realização do Dia do Fogo.

A responsabilidade de um presidente da República vai muito além dos decretos e medidas que assina. Cada palavra, cada gesto, orienta o rumo para seus seguidores. As atitudes e declarações de Bolsonaro, questionando e tentando desmentir dados técnicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), são as responsáveis por essa tragédia na Amazônia. Os dados do respeitado Instituto apontam aumento de 278% no desmatamento em junho de 2019 em comparação com o mesmo mês de 2018. Em junho, o número de queimadas foi 84% maior.

Agora, em agosto, ainda não temos os percentuais, mas tivemos a chuva preta e o dia virando noite no Sudeste, resultado do corredor de fumaça que se formou na América do Sul devido às queimadas. Como um alerta, esse fenômeno climático está a nos dizer que é preciso fazer alguma coisa ou pagaremos muito caro pelas destruição da Amazônia. Não são apenas os índios, a vegetação e os animais que sofrerão as consequências, embora sejam os que mais sofram. As imagens dos animais queimados são chocantes.

Nós, estudantes, compreendemos a dimensão do problema em que Bolsonaro nos colocou. E sabemos que é preciso resistir para garantir a vida e o nosso futuro.

Os crimes ambientais são apenas mais um aspecto no desmonte da nação brasileira, embora seja o que chame mais atenção. Os ataques às empresas nacionais, à educação, à cultura, aos direitos dos trabalhadores e a tantos setores que fazem do Brasil um país soberano e respeitado no mundo.

Sabemos que precisamos agir rápido, mobilizando amplos segmentos para evitar a barbárie. Por isso, convocamos os estudantes a se manifestarem nas ruas pela Amazônia. Em diversos países do mundo acontecem protestos em frente às embaixadas brasileiras. Aplaudimos e agradecemos a mobilização. Mas essa luta é nossa, assim como a Amazônia que, generosamente, contribui para a vida no planeta.

Nós, estudantes, estaremos nas ruas no dia 7 de setembro para dizer que o Brasil precisa de uma nova independência, que garanta um país democrático, com respeito ao meio ambiente, com educação pública de qualidade, só possível com investimento e não com corte de verbas; um país onde a juventude de hoje não seja escravizada como quer o atual presidente; que tenha direito ao trabalho digno e bem remunerado; um país que invista na ciência e não duvide de dados científicos para impor sua ideologia de morte.

A juventude lutará, até onde for necessário, pela vida e pelo futuro.

Pedro Gorki é presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES).

MAMA: um livro sobre maternidade dupla em relacionamentos homoafetivos

MAMA: um livro sobre maternidade dupla em relacionamentos homoafetivos

Foto: Lucas Pereira

Por Vanessa Santos Gonçalves

O século XXI trouxe em seu bojo significativas mudanças na instituição familiar, visto que desde os tempos greco-romanos a concepção que se tinha era de que o “pater famílias” conhecido como poder familiar era uma prática exclusiva do homem, e a mulher, por sua vez, era criada para desempenhar as obrigações de casa. Já o relacionamento entre pais e filhos foi marcado pelo poder do chefe que se valia de violência no tratamento com estes. Portanto, esse modelo patriarcal vem sendo reproduzido nos últimos séculos, e só recentemente discussões importantes e imprescindíveis sobre novas formações familiares têm sido trazidas à tona.

Falar de família é falar das concepções machistas e patriarcais que atravessam seus conceitos e divisão de papéis entre homens e mulheres no âmbito familiar. Falar de maternidade, é ser atravessada também por essas questões.

Independentemente do quanto já tenhamos avançado em certos diálogos a respeito dos papéis sociais impostos para homens e mulheres quando o assunto é criação de filhos, vale ressaltar que a figura “masculina” ainda permeia os debates sobre o tema. Em um país extremamente machista e patriarcal como o nosso, a concepção de família ainda está ligada às figuras do pai, mãe e filhos. Ou seja, família só é família se for a “tradicional”. Excluem-se as famílias homoafetivas, as mães solo, os avós que criam seus netos, e diversas outras configurações familiares.

O peso colocado em cima da mulher sobre sua função maternal é a premissa para o controle de seus direitos. Diante de tantos retrocessos discursivos (por parte de governantes do país) e de direitos, torna-se fundamental debater essa constituição familiar ainda invisibilizada: as famílias homoafetivas.

No entanto, na atual conjuntura política brasileira, deve-se reforçar que ser mulher, homossexual e mãe numa sociedade em que discursos de ódio são constantes afirmativas em representantes do Congresso, exige muita luta e resistência. E foi a partir de discussões como essas que chegou até mim o livro MAMA. Abaixo segue a sinopse que recebi:

Um relato de maternidade homoafetiva que aborda de maneira leve todas as fases do projeto maternidade de Marcela e Melanie, desde a conversa entre as duas, que deu o pontapé inicial nesse plano, passando pela decisão de quem seriam os óvulos e em que barriga eles seriam implantados, até a decisão de que Marcela faria um tratamento para também amamentar os gêmeos Bernardo e Iolanda. Ao amamentar seus filhos, mesmo sem ter sido ela a gestar, Marcela literalmente peita, num equilíbrio entre força e delicadeza, os preconceitos e intolerâncias da sociedade. Momentos como o casal se conheceu e reação de pessoas próximas à notícia da gravidez também fazem parte da obra.

A partir dos debates acerca do tema, e das novas constituições familiares, há de se pensar como as mães em relacionamentos homoafetivos são atravessadas por essas questões e quais informações que elas realmente têm acesso. Marcela Tiboni, 36 anos, e Melanie Zuccherina, 29 anos, que estão juntas há 5 anos e sonhavam ser mães, começam o processo de inseminação in vitro. Mel engravidou em janeiro de 2018. Ao tomarem essa decisão, o casal sentiu uma enorme dificuldade em encontrar informações sobre todo o processo, enfrentaram preconceito nas redes sociais e medos permanentes sobre como a sociedade acolheria seus filhos.

E ao ler o relato das mães sobre todo o período da maternidade em que estão vivendo, o que chama a atenção é como a questão “quem exercerá a figura paterna” é uma constante nas “preocupações” dos guardiões da família tradicional brasileira. Em uma entrevista que concedeu, a autora ao ser indaga sobre os preconceitos enfrentados durante o processo de gestação, responde o seguinte:

“O preconceito através das mídias sociais são os mais comuns. Comentários que envolvem religião e a ausência masculina são as que sempre aparecem. Coisas como ‘Deus criou o homem para se relacionar com a mulher e vocês quebraram as regras de Deus’, ‘Vocês usam um momento lindo que é a maternidade para esfregar na cara das pessoais a homossexualidade’, ‘Qual das duas é o macho da relação?’, ‘Se não tem pai qual das duas deu o sêmen?’, entre outros comentários que tentam nos diminuir ou humilhar”.

Foto: Arquivo Pessoal

Curioso é que não se veem essas preocupações permearem os debates dessas mesmas pessoas quando o assunto é o abandono paterno. Ou seja, a figura paterna/masculina só é uma premissa discutível se for para questionar a configuração familiar homoafetiva.

Um fato que devemos considerar quanto à importante desconstrução em relação aos papéis sociais desempenhados por homens e mulheres, no que diz respeito a responsabilidades na criação e educação dos filhos, é em relação ao modo como o casal homossexual vai desempenhar a função materna e paterna. Ou seja, como será feita essa divisão em relação aos cuidados necessários à criança. Vale ressaltar que há uma tendência natural dessas famílias em desvincularem sexo e maternidade/paternidade. E a experiência vivida por Marcela e Mel, e registrada em livro, traz para debate todas essas questões.

Ainda quando questionada sobre as motivações para a escrita do seu livro, Marcela afirma: “Eu nunca havia escrito livros, e foi a ausência de livros sobre o assunto da maternidade homoafetiva que me fez começar meu próprio livro. Para mim era inadmissível que em pleno ano de 2017 não houvesse um único livro sobre este assunto. Além disso o livro foi a minha gestação, vivi nas páginas e capítulos a minha gravidez, escrevia ali meus medos, angústias, sensações, dúvidas, frases que ouvia, preconceitos que vivia, entre outras sensações que envolviam a minha descoberta de ser mãe sem gestar”.

Nesse sentido, todos os atravessamentos que envolvem o “vir a ser” mãe são colocados em discussão. Para a autora, escrever o livro também foi um modo de gestar os filhos. As questões sobre família e suas configurações podem ser repensadas a partir das reflexões propostas. Marcela viu na dificuldade de encontrar informações e nos problemas, preconceitos e medos enfrentados, a potência criadora da escrita. E foi por meio dela que ela também quis ajudar a outras famílias homoafetivas, mulheres e mães, produzindo o relato da sua trajetória junto a sua companheira na concepção e nascimento dos filhos:

“O livro é um relato, o relato mais sincero e verdadeiro daquilo que vivi sendo mulher, lésbica e na busca por ser mãe. Nas quase 200 páginas conto como conheci minha mulher, como começamos a namorar, como nos apaixonamos, em que momento decidimos casar e ter filhos. Mesclada à nossa história de amor vem a história da maternidade, os processos de procedimentos que duas mães passam para engravidar, o banco de sêmen, os exames, as ansiedades, a gravidez em si e o parto. E dá um certo destaque para o fato de que eu, mesmo sem gestar, optei por amamentar meus filhos. Contando o protocolo pelo qual passei para conseguir produzir leite e amamentar os bebês”, declara Marcela.

Como é ser mulher, lésbica e mãe numa sociedade machista como a nossa? Quais os atravessamentos e medos? Quando indagada a respeito, a escritora afirma que o medo é do outro, o que vão falar e como vão falar com seus filhos. Que tipo de preconceito ou agressões verbais terão de ouvir? Conclui a fala dizendo: “não podemos mudar a sociedade de uma vez, mas podemos educar crianças mais bem preparadas para mudar o futuro”. Destaco e finalizo com outra fala da Marcela:

“Escrever um livro desse, para mim, é mais do que contar minha história e da minha família. Ele é um ato de militância, assim como viver a maternidade também o é nos dias atuais. Além disso, durante todo a nossa caminhada para nos tornarmos mães, começamos a interagir em nossas redes sociais e em fórum específicos e ver que existem muitas dúvidas sobre o tema. Esse não é um livro técnico, muito pelo contrário, afinal, não tenho formação técnica. É um relato e acredito que ele elucida muitas questões e pode contribuir para a construção de uma série de outras famílias”, explica Marcela.

E seguimos juntas na luta, desconstrução do patriarcado e resistência!

Informações sobre o livro:
Livro: Mama: um relato de maternidade homoafetiva
Autora: Marcela Tiboni
Ilustrações: Giovanna Poletto
Editora: Dita Livros

Vanessa Santos Gonçalves tem 31 anos, graduada em Letras/Literatura. Atua há doze anos na área da Educação, mãe, educadora, ativista social na cidade de Itajaí (SC), militante e feminista.

Cangaço Transgênero ou os Insurgentes

Cangaço Transgênero ou os Insurgentes

Bacurau mostra a potência de insurreição das minorias tornadas vingadores e força de resistência, que não desconsideram pegar em armas, diante da uma democracia em agonia

Foto: Victor Jucá/Divulgação

Há algo de profundamente perturbador em Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, talvez o mais importante filme contemporâneo sobre o Brasil distópico da era Bolsonaro. Mesmo tendo sido filmado antes das eleições de 2018 e da catástrofe política em andamento, Bacurau é um filme visionário e violento, uma ficção científica e uma ficção política que não tem nada de alegórica. Ao contrário, é explicita e brutal, de uma lucidez aterradora.

Um filme em que os clichês dos gêneros, faroeste, ficção científica, filme de terror, filmes de ação hollywoodianos, rambos e exterminadores, se encontram com um rural contemporâneo que explode clichês.

Bacurau é um extraordinário remix do imaginário hollywoodiano com a tradição do cinema novo brasileiro: a estética da fome, a estética do sonho e a pedagogia da violência de Glauber Rocha com banhos de sangue  prêt-à-porter vindos dos filmes de ação e reality shows. Um filme de crítico de cinema, de cinéfilo e de um diretor que chegou no auge da destreza narrativa.

Cinema Transgênero

Com Bacurau Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles fazem uma espécie de faroeste transgênero, no sentido dos gêneros do cinema, mas também ao explodir os clichês dos comportamentos. Um cangaço trans em que cada espectador projeta suas referências e desejos.

Mas o que o aproxima do Glauber de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1964, ou de O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro? Estamos falando de filmes de invenção de um imaginário rural brasileiro explodido, catártico, que inventam uma mística política vinda do povo. Vinda dos oralistas, dos interioranos, do inconsciente explodido das periferias rurais do Brasil.

Mas são muitas as referências: o Godard de Weekend à Francesa ou de Alphaville, ficção cientifica godardiana profundamente distópica. Com a diferença que não há mais nenhum romantismo em Bacurau, apenas um sarcasmo ou riso vingador ou irônico. Como na cena das execuções públicas no Anhamgabaú, exibidas na TV, cenas que ecoam os linchamentos midiáticos que são as novas formas de execuções públicas.

Mad Max Sertanejo

O filme trata de questões urgentes: crise da água e do meio ambiente, empresas e políticos com ethos milicianos, forças paramilitares, ou mercenários globais, e, atravessada por essas forças, uma nova Canudos na beira da estrada ou uma cidade Mad Max sertaneja. Uma Canudos genérica, pronta para explodir. Tudo filmado como uma espécie de reality show perverso e alucinatório, com jogos violentos e extremos e com personagens estranhamente familiares e “normais”.

Mas do que se trata o filme? Antes de mais nada de um rural contemporâneo. Um Brasil das cidadezinhas do interior completamente conectadas com o urbano. Atravessadas por redes de celular, tecnologias de vigilância e controle, telas de LED,  drones, carros e motos possantes, distribuição de psicotrópicos e remédios que controlam o humor, uma cidade rústica mas que poderia protagonizar um episódio de Black Mirror e que querem apagar do Google Mapa.

O que fazer diante do capitalismo gore?

A segunda questão é exatamente essa. O que podem (como agir, resistir, se governar) as comunidades que estão sendo atacadas e apagadas pelo capitalismo das “tripas e sangue”? E aqui tomo emprestado o conceito da mexicana Sayak Valencia para descrever a vida nas fronteiras de Tijuana, em que comunidades inteiras têm que lidar com o que nomeia de “capitalismo gore”, um capitalismo mafioso, da narcocultura, milícias, assassinatos.

Esse capitalismo gore, com suas tripas e sangue, é também uma construção cultural. O termo tem origem no gênero cinematográfico splatter, com o uso gráfico e extremo da violência, o grotesco e a violência explícita como linguagem. O assujeitamento e ações predatórias, onde se pode inflingir dor e  violência contra os corpos, mas também pensar a violência como necroempoderamento.

Diante de um neoliberalismo que fracassou na sua utopia de mercado, diante de uma democracia em agonia, os sujeitos, os cidadãos, a comunidade também quer partilhar e participar da violência como forma de resistência e sobrevivência.

As fronteiras, as cidade das bordas e periferias, as periferias, as comunidades apelam para um autogoverno e  ações extra jurídicas. Como em Canudos amotinada, novos laboratórios do pós-colonialismo, mas também das insurreições contemporâneas. Enclaves, tribos, comunidades distópicas e utópicas se inventando.

Os Insurgentes em uma Democracia em Agonia

Diante de fantasias de poder ultraconservadoras, diante de figuras ultraviolentas como Witzels e Bolsonaros, seres “endriagos”, demolidores, que surgem produzido a gestão da morte, as comunidades se apropriam da violê̂ncia como ferramenta de empoderamento e de resistência. Uma saída possível do lugar de vítima para a de vingadores.

Bacurau traz de volta o imaginário das guerrilhas dos anos 70, sem fazer qualquer menção, sem qualquer discurso político ou panfletário, simplesmente a narrativa empurra os personagens às armas!

Mas quem são esses novos heróis de uma Canudos revisitada? O Brasil que emergiu no ciclo democrático dos últimos 13 anos, as minorias que se tornaram sujeito do discurso, os ex-quecidos do Brasil rural, ribeirinho, periférico, as figuras fronteiriças, como a extraordinária cangaceira trans, encarnada por Silvero Pereira.

Uma Canudos remixada que traz também personagens de uma dor extrema, como a mãe diante do filho executado no escuro, com o uniforme do colégio, uma cena arrepiante que vai entrar para a história do cinema brasileiro. E toda a comoção da cidade diante das mortes seriais.

Os personagens de Bacurau trazem nos corpos, nos cabelos, a cor da pele, um Brasil que emergiu e ganhou visibilidade. Homens e mulheres, negros e negras, trans, putas, os caboclos e povos originários. Magníficas as cenas de um devir índio dos personagens que andam e vivem nus nas suas casas de barro, falando com as plantas, vivendo em uma temporalidade estendida, donos de poderes mágicos e de uma cosmovisão.

Impossível não ver neste faroeste caboclo sideral, os banhos de sangue, as Marielles assassinadas, a potência das mulheres, todo um novo cangaço das lutas de maiorias, minorias e transgêneros.

Foto: Victor Jucá/Divulgação

Hiper realismo alucinatório

Não há nada de fantasioso em Bacurau, o filme é de uma clareza e brutalidade alucinantes, uma espécie de documentário sobre o imaginário em que estamos. O que poderia ser traumático, o jorro de sangue, a violência gore, todos os corpos dilacerados, cabeças decepadas, os requintes de crueldade e o gozo e erotismo diante da morte, se tornam elementos catárticos e redentores ao final do filme.

Diante do trauma político em que estamos. Diante da percepção cotidianas de que “estamos sendo atacados” em nossos valores, em nossos impulsos vitais, em nossas vidas, em nossas sexualidades, Kleber Mendonça apresenta uma guerrilha de bolso. Um laboratório na cidadezinha do interior de Pernambuco. Bacurau é meio Dogville de Lars Von Trier.

Bacurau é Dogville, Alphaville, Canudos, um território separado geográfica e temporalmente do resto do país. O Brasil, São Paulo são ficções distantes. Como a República era uma ficção para o arraial sertanejo. Como em Os Sertões de Euclides da Cunha, Kleber Mendonça nos apresenta a Terra, o Homem e a Luta.

E que emoção ver o cinema glauberiano e o imaginário euclidiano vivos, reinventados, remixados em um presente urgente que atualiza personagens como Antônio das Mortes, Corisco, Lampião, a mística política presente em um mesmo filme sem fim que estamos fazendo, uma brasiliana contemporânea.

Bacurau traz uma linguagem impactante. Um remix de Glauber com Tarantino e Godard, e ainda revisita o tropicalismo cinematográfico de filmes como Brasil Ano 200, de Walter Lima Jr que proclamava em 1969 que “aqui é o fim do mundo” .

Uma ficção científica apocalíptica que é um retrato do Brasil em 2019. “Não identificado”, a música de Caetano cantada por Gal Costa, que abre o filme, vem diretamente deste espaço sideral, anos 60/70, nossos “negros verdes anos”, de ditadura militar e do auge de invenções na cultura, uma explosão criativa de cinemanovismo, tropicalismo, etc. Kleber Mendonça revisita o lado B do tropicalismo solar: distopia, anarquia, um tropicalismo underground e sombrio que não chegou na cultura de massas.

Efeitos Colaterais

Bacurau produz efeitos colaterais e sensoriais imediatos. Seja um estupor melancólico frente ao cenário político que estrebucha na tela, seja o efeito catártico. Ouvi pessoas que gritam e aplaudem, urram, diante das mortes horríveis, cabeças decepadas e castigos infligidos aos vilões. Outras despertam eufóricas com as imagens, a montagem, como se fossem um soco ou um pegar pelos ombros que nos sacode por inteiro. Ou ainda um choro, uma comoção, não se sabe bem porque, mas que o filme desata, como esses nós que se desfazem sozinhos depois que já ferimos os dedos da mão tentando abri-los.

São muitas as referências ao cangaço, ao sertanejo, aos jagunços, aos beatos, aos pré-revolucionários de Glauber, os condenados da terra de Franz Fanon, os resistentes de um Brasil que luta pela terra, pela água, pela comunidade, pela Amazônia, pela vida.

Em Bacurau, o mais importante é a comunidade e o comum. As lideranças são múltiplas, descentralizadas: a cangaceira trans,  a médica Domingas, o professor, as lideranças espirituais. Muitas cabeças e um só corpo.

Ao final uma luta, um duelo, um acertar de contas entre essa diversidade, esse Brasil, esses personagens insurgentes e disruptivos e o militarismo corporativo, o capitalismo miliciano, o empreendedorismo gore. Vai faltar caixões?

As comunidades, os enclaves, os indígenas, a juventude periférica, as esquerdas, os estudantes universitários, os negros e negras, até o momento, desconsideraram o discurso radical, de pegar em armas, usar, a força física, se armar para fazer a disputa política. Mas o que esperar diante de um Estado que age extra judicialmente e fora da lei?

Quando um governante diz que tem “que mirar bem na cabecinha” e matar seus “inimigos” como em um filme hollywoodiano ruim, ou chega de helicóptero sobre um corpo abatido pela polícia e comemora como um gol esse imaginário e esse desejo de justiçamento não produz um imaginário sem controle e perverso?

Se o Estado pode ter drones fatais que atiram para matar não veremos em um futuro imediato um Rio de Janeiro pilotando drones de autodefesa e ataques? Uma ficção política plausível e aterradora que mostra como se produz Marighellas, Conselheiros e Zumbis, mas também Mitos, Witzels, ultra extremistas de todos os matizes.

Diante de um humanismo que fracassou, Bacurau sintetiza o Brasil brutal, distópico em que a partilha da violência e a posse de armas e de justiçamento passa a ser feita não apenas pelo “cidadão de bem” conservador, mas surge, como na década de 70 – com as guerrilhas urbanas e ligas camponesas – como uma saída possível, uma reação coletiva, diante de uma democracia e de um Estado colapsados.

Kleber Mendonça Filho não faz uma leitura piedosa de tudo o que está aí. Faz um manifesto cinematográfico, com uma linguagem sofisticada, um apuro estético, uma destreza em conduzir a narrativa. Deixa uma pergunta. Qual a saída diante da necropolítica? O necroemponderamento? A resistência vital? A violência como uma linguagem e um poder de transformação?

Mas também uma saída mágica, uma mística política. Porque “precisamos de todos os santos e orixás, amém” para atravessar o deserto e esse imaginário adoecido.  Precisamos acreditar na política e no cinema, na cultura e na arte, na educação, nas resistências cotidianas, nos enclaves e motins.

Afinal o que é um cinema disruptivo? E aqui volto a Glauber e a toda a radicalidade da arte em tempos de barbárie, “deve ser uma mágica capaz de enfeitiçar o homem a tal ponto que ele não suporte mais viver nesta realidade absurda.”

Podemos também invocar outro grito de guerra das lutas contemporâneas, uma guerrilha rural e urbana que se alastra: “As putas as bi, as travas e as sapatão tão tudo preparadas pra fazer revolução”.

Nesse sentido, Bacurau também tem um forte protagonismo feminino. Lia de Itamaracá como a liderança política e mística da comunidade e Sônia Braga, uma médica de pés no barro. Bacurau despe Sônia Braga de todo um imaginário de glamour construído nos filmes brasileiros e estrangeiros ao mostrá-la com todas as marcas da idade, cabelos brancos, um corpo nu, uma mulher na sua maturidade, quase uma “médica cubana” na sua abnegação e cola comunitária, uma atriz excepcional que se reposiciona desde Aquarius e em Bacurau transcende e se reinventa. Fazer “desaparecer” uma atriz como Sônia em uma comunidade de atores incríveis e pouco conhecidos é um feito.

Os Invasores

Afinal quem são os invasores de Bacurau? “Estamos sob ataque”, percebem os moradores. A chave não está apenas no grupo de gringos predadores da água e assassinos, do prefeito corrupto, mas também na dupla de brasileiros sulistas (em oposição aos moradores nordestinos) que se identifica com esses grupos ultra conservadores. São os primeiros a serem sacrificados. Os que se acham “brancos”, superiores a comunidade local, os que se identificam com seu próprio opressor. Esses são os descartáveis. A classe média de extrema-direita é a primeira a ser sacrificada pelos ultraconservadores. Ousem questionar e viram os inimigos também. Trágico e sarcástico, mas a cena dessa revelação no filme vale por todo um tratado sociológico. O cinema faz ver!

Benedita da Silva: Bolsonaro imita Nero

Benedita da Silva: Bolsonaro imita Nero

Arte: @porracristo / @designativista

O imperador romano Nero mandou incendiar Roma e ficou se deleitando da destruição tocando uma lira, pois se considerava um “artista”.

Bolsonaro não é um “artista”, muito pelo contrário, odeia artistas, mas imita Nero no seu instinto de destruição e manda tocar fogo no Brasil. Deleita-se da destruição do país não com uma lira, mas com suas fake news.

Mas Bolsonaro não imita Nero apenas como incendiário, mas também na perseguição aos seus inimigos. Quem não estiver com ele está contra ele, só não manda matar como fazia Nero porque não pode, mas bem que gostaria.

Ele destrói o pulmão do mundo, a selva amazônica, literalmente pelo fogo. Os focos de incêndio são tantos que a fumaça atinge São Paulo. O mundo, apavorado, começa a ficar asfixiado com tanta barbaridade e irresponsabilidade.

Bolsonaro age também como o bárbaro Átila, que por onde passava deixava um rastro de destruição e morte. Ele destrói não apenas o meio ambiente, mas também a economia, o emprego, a educação, a saúde, a cultura, os direitos humanos, sociais e civis e a soberania de nosso país.

Com certeza muitos dos que votaram em Bolsonaro não tinha a menor ideia de quem ele era de fato. Por isso vem crescendo tanto o número de arrependidos.

Bolsonaro é tão ruim quanto Nero e Hitler juntos. Parece até a versão atual das “Sete Pragas do Egito”, só que em maior número. Mas podemos destacar sete de suas maldades:

Bolsonaro libera matar, corromper e queimar florestas!

Bolsonaro libera matar, corromper e queimar florestas!

Imagem: Dinho Lascoski / Design Ativistas

Sempre que perguntam se lutamos pela “liberação”, respondo que não, pois liberado já está, por isso, defendemos a legalização e a regulamentação da maconha! Hoje, uma criança pode comprar maconha em qualquer lugar do Rio de Janeiro e do Brasil, porque a ilegalidade permite isso! Da mesma forma, está mais liberado matar, pois o Brasil já é o país onde mais se morre por arma de fogo e ainda tem a polícia que mais mata no mundo, onde a grande maioria das vítimas são pobres e negros. No Brasil, a polícia que mais mata é a do Rio de Janeiro.

Ao invés de reprimir essa terrível liberdade institucional, o presidente da República incentiva a matança com seu símbolo apontando uma arma com os dedos, e ainda incentiva as crianças a fazerem o mesmo gesto. Sua proposta e do ministro da Justiça Sérgio Moro no projeto de lei contra a criminalidade, na realidade, incentiva mais ainda os homicídios, pois será permitido matar apenas por medo, surpresa e violenta emoção, sem que seja logo a injusta provocação da vítima, como a causa de diminuição de pena do parágrafo primeiro do artigo 121 do código penal.

A segunda liberação é a de corromper, pois a lei 9613/1998 criou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras – COAF – para reprimir a lavagem de dinheiro dos assaltantes das licitações públicas e do tráfico de drogas, realizados por empresários e doleiros milionários. Enquanto isso, impera a farsa racista do combate ao tráfico de drogas contra os varejistas jovens, negros e pobres, a ponta final da cadeia do mercado, que vendem drogas ilegais nas favelas como camelôs em tabuleiros de madeira.

O COAF acabou no governo Bolsonaro: ele mudou o nome do órgão e ainda o enviou para o Banco Central incluindo chefes em cargos de comissão, a fim de blindar as investigações sobre lavagem de dinheiro. Tentaram inclusive alocar o órgão para o Ministério da Justiça, como se a polícia tivesse a expertise de apurar movimentações financeiras. O fim do COAF ocorreu em razão da apuração do envolvimento do assessor laranja Queiroz com o então deputado estadual, filho do presidente da República, que entrou com pedido de liminar, incrivelmente deferida pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, que suspendeu todos os inquéritos do Brasil que tivessem informações do COAF. Assim, a corrupção no Brasil está liberada.

A terceira liberação do título deste texto é a da queimada das florestas. Após denunciar o enorme crescimento do desmatamento e das queimadas da Floresta Amazônica, o presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE – foi demitido arbitrariamente por Bolsonaro. Mas a verdade veio à tona com o anoitecer de São Paulo, pelas fumaças das queimadas da Amazônia, em plena luz do dia, às 15 horas da tarde. E ainda mais, foi descoberto que os madeireiros, grileiros, fazendeiros e latifundiários organizaram o “dia do fogo”, onde fizeram vários focos de queimadas. O ministro da Justiça Sérgio Moro foi avisado, mas preferiu enviar a Guarda Nacional para reprimir estudantes que lutavam por verbas para a educação do que impedir as queimadas na Floresta Amazônica.

Diante de tal quadro, não há mais desculpa para ficar calado. A indignação precisa aflorar no Brasil. A defesa do Meio Ambiente é um dever constitucional previsto no artigo 225 da Constituição Federal para as atuais e futuras gerações. Lutar contra a liberação das mortes e a corrupção é atual, urgente e necessário, pois os omissos de agora serão responsabilizados pelas futuras gerações, #ForaBolsonaro!

ANDRÉ BARROS é advogado da Marcha da Maconha, mestre em ciências penais, vice-presidente da Comissão de Direitos Sociais e Interlocução Sócio Popular da OAB/RJ e membro do Instituto dos Advogados Brasileiros

No governo Bolsonaro, está liberado matar corromper e queimar floresta!

Posted by André Barros on Tuesday, August 27, 2019

 

Eduardo Suplicy apresenta Anderson Herzer: “Ele queria que as pessoas fossem mais humanas”

Eduardo Suplicy apresenta Anderson Herzer: “Ele queria que as pessoas fossem mais humanas”

Entrevista com Eduardo Suplicy, primeira parte: A história de Anderson Herzer

Arte: Sabrina Porto

“Vi a lenta corrupção,
Vi o olhar do corruptor,
Vi uma vida na destruição
Eu vi o assassinato do amor”
(Trecho do poema “A Gota de Sangue”, Anderson Herzer, A Queda Para o Alto, 1982)

Para Jaques Ranciére, um dos mais importantes pensadores contemporâneos, a política da literatura não diz respeito à política dos escritores, nem aos seus engajamentos nas lutas políticas ou sociais do seu tempo. A literatura faz política enquanto literatura, enquanto estética da palavra, estabelecendo novos laços de comunicação, germinando pontes estéticas, fazendo florescer novas sensibilidades. A literatura, como toda arte, faz política acendendo (e não esclarecendo) novos olhares, excitando as inquietudes.

A política, ao seu passo, funciona como uma forma de colocar nossas sensibilidades em prática. De torná-las linguagem. É dentro da política que concretizamos esse desejo sensível, e assim, diz Ranciére, esse desejo se torna uma estética, uma superfície, uma bandeira. De forma similar à religião, essas bandeiras estruturam a consciência e o comportamento humano, produzem instituições, que logo serão destruídas, para erigir e legitimar novas.

O livro “A Queda Para o Alto” será o resultado desse encontro entre literatura e política: Uma literatura que faz política e uma política que se parece, como poucas, com a literatura, com a arte mesma. O encontro entre Anderson Herzer e Eduardo Suplicy será fundamental para concretizar a primeira publicação de um livro escrito por um homem transexual aqui no Brasil.

Essencial a presença de Suplicy, acudindo ao chamado de Lia Junqueira, que naquele momento atuava como presidente do Movimento de Defesa do Menor. Ela denunciava que Herzer estava sendo vítima de uma jogada política do diretor da Febem, que pretendia utilizar os escritos de Anderson para publicar um livro que enaltecesse a instituição, sem mencionar o nome do autor. Suplicy pediu formalmente a tutoria de Herzer, reconhecendo nele um grande talento como escritor. Era necessária essa ternura, que parece caracterizar o perfil político de Suplicy, para ouvir esse chamado, mesmo quando sua ajuda não foi suficiente. Após um breve tempo vivendo fora da Febem, Anderson acabou se suicidando, com apenas 20 anos, jogando-se de um viaduto da Avenida 23 de Maio, em São Paulo.

A vida de Anderson é iconográfica e representa, ainda hoje, a vida de muitos jovens e crianças marginalizadas no Brasil: um enorme talento silenciado pela falta de oportunidades, um ser sensível e afetivo envolto num contexto de violência e abuso institucional, estrutural, cultural. Como homem trans, seu desespero tinha um viés a mais: a ordem repressiva para com as identidades autopercebidas, o que agilizou seu trágico fim.

A imprensa tradicional, na sua compulsão estigmatizante, tem por costume lembrar desses jovens na hora em que as revoltas tomam conta das instituições, apresentando-os como “sujeitos violentos e irrecuperáveis”. Porém, o livro de Anderson, a sua biografia e seus poemas, são o testemunho do desejo de encontrar no amor um refúgio onde consolidar a nossa verdadeira natureza, uma necessidade de refletir sobre a violência, de sermos interpelados por ela através do relato poético.

A literatura é uma estética, é uma forma da lírica, mas também é um testemunho, uma voz. E o livro de Anderson é uma voz consolidada, voz de um tempo em que as discussões sobre gênero apenas germinavam no Brasil. É um relato que mostra como se sobrevivia em épocas de ditadura, sendo um marginal transexual. Um texto fundamental para a construção de uma historicidade das instituições modernas e das lutas de gênero.

Em entrevista, Eduardo Suplicy detalha ainda mais a história de Anderson e a sequência que o teve como grande protagonista na vida do escritor. Confira:

“No ano 1979, tempo em que eu fui deputado estadual na Assembleia Legislativa, a presidenta da fundação em defesa do menor, a Lia Junqueira, me alertou sobre diversos episódios que estavam acontecendo de maus tratos na Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor). Então eu decidi ir visitar a instituição para evitar que acontecessem esse tipo de situações.

Certo dia, a Lia me relatou que havia uma menina, uma moça de dezessete anos que estava na Febem há três anos e meio, que estava preocupada. Ela sabia escrever bem, escrevia poemas. E na verdade ela nunca tinha cometido delito algum. O juiz me informou que se alguém se fizer responsável por ela, ela poderia ficar em liberdade. E eu então fui à sede da Febem e conversei longamente tanto com a Lia Junqueira quanto com Herzer.

Ela, embora menina moça, se sentia e se vestia como se fosse um rapaz. Ela cortava o cabelo, semelhante ao como o faria um rapaz. Ela me relatou que na Rolândia, no norte do Paraná, seu pai era dono de um bar, e que certo dia ela percebeu uma correria em casa e infelizmente souberam que seu pai havia sido assassinado dentro do bar. E então, a sua mãe, não tendo propriamente condições de trabalho que pudessem lidar com o sustento, resolveu vender seu corpo, se prostituir. Mas, pegou uma doença venérea e veio a falecer. Então a Sandra Mara foi morar com sua vó, muito querida. Um tempo depois, a sua vó faleceu e ela foi viver com uma tia, que era casada com um senhor bem mais idoso. Eles se mudaram para Foz do Iguaçu, onde viveram por um tempo. Mais tarde se mudaram para São Paulo, para o bairro São João Clímaco. Ela era uma moça com muita energia, muito esperta. Aos treze anos, ela namorava um rapaz de uns trinta anos, o apelido dele era “bigode”. Esse rapaz morreu em um acidente de moto. Então ela adotou esse apelido para ela também.

Ela, por vezes, saia de noite nos bares locais e costumava tomar Coca-Cola com Optalidon, o que dificultava ela para acordar cedo e ir à escola. Então, sua mãe a internou em um centro infantil que havia na Rodovia dos Imigrantes. Ela fugiu de lá e voltou para casa, o que deixou bem preocupada sua mãe, por causa da falta de disciplina e do fato dela sair de noite e não conseguir acordar cedo.

Um dia, seu padrasto tentou ter relações sexuais com ela, abusar dela. Herzer lutou, bravamente, levou um tombo e quebrou o braço. Porém, a partir desse episódio, a sua tia resolveu colocar ela na Febem. Lá ela viveu desde os catorzes até os dezessete anos e meio sem ter cometido crime nenhum. Na Febem, ela se converteu em uma espécie de líder. Organizava saraus, escrevia poemas, se apaixonou por outras internas para quem dedicou trechos da sua biografia.

O livro de Herzer estampa a única imagem que temos de Anderson

“…Durante aquelas carícias profundas trocadas entre nós, eu sentia a vida bem mais próxima a mim, beijava e abraçava Vera, como se eu estivesse abraçando minha existência, eu acariciava seu corpo, lentamente, com um desejo interior tão imenso que não sabia mais distinguir o significado da amargura, não me doía mais a saudade do mundo, e eu tinha ali junto a mim, resistindo ao frio, ao vento, enfim, eu tinha finalmente alguém para mim, para me ouvir quando eu quisesse falar, para me olhar quando eu ficasse em silêncio” (Anderson Herzer, A Queda Para o Alto, 1982)

Percebeu, com muita lucidez, um sistema de maus tratos que acontecia tanto na Febem masculina quanto na feminina. Também registrado na sua biografia. Na Febem as crianças eram espancadas, torturadas de maneira brutal durante a noite. Herzer passou também por isso.

“…durante a surra que eu estava levando, com tapas no rosto, torcidas no braço, chutes nas costas, em determinada hora, quando eu caía novamente no chão, ele me apertou e torceu meu braço, justamente onde estavam os alfinetes. Com o aperto, um alfinete deslocou-se, podendo ser visto, com a ponta espetada para cima, embora continuasse dentro da carne, não saindo totalmente para fora. Meu braço começou a sangrar…” (Anderson Herzer, A Queda Para o Alto, 1982)

E eu então, quando soube da sua história, e tendo lido seus poemas, que eu achei de muito boa qualidade, eu disse a ela “Olha, eu me disponho sim a contratá-la, convidá-la para ser uma espécie de estagiária no meu gabinete, onde você vai aprender a fazer um pouco de tudo: ajudar na recepção, atender o telefone, tirar xerox (não existia internet ainda né). Vou te pagar o necessário para você pagar uma pensão, alimentação e outras necessidades”. E falei para ela ainda que “Como você escreve muito bem, eu vou lhe assinar, como parte do seu trabalho, redigir sua história”. Ela aceitou.

Fomos em várias pensões, até que ela achasse uma que a aceitasse. Já que ela, embora tinha Sandra Mara na sua identidade, assinava seus poemas como Anderson e também era chamada assim.

Certo dia, ela me mostrou um poema “Minha Vida, Meu Aplauso”. Eu lhe perguntei: “Isto quer dizer que realmente você poderia morrer?”. Ela me contou que tinha feito o concurso para se tornar uma funcionária efetiva da Assembleia Legislativa. Mas, no dia do exame, o homem que percorria as cadeiras para avaliar a identificação de cada um, chegou para ela censurando o fato dela se apresentar como homem quando na sua carteira figurava nome de mulher. Ela disse que isso a deixou muito constrangida e que finalmente acabou reprovando o exame. Então, eu disse para ela “Seu livro é muito bom, é muito interessante”, e encaminhei-a para a editora Vozes. Os editores Rose Marie Muraro e o Frei Leonardo Boff (Ele ainda era frei, então), gostaram muito, e falaram que em dois meses ficaria pronto. Eu alentei a Sandra, falando que ela ia ter muito sucesso.

Minha Vida, Meu Aplauso

Fiz de minha vida um enorme palco
Sem atores, para a peça em cartaz
Sem ninguém para aplaudir este meu pranto
Que vai pingando e uma poça no palco se faz.
Palco triste é meu mundo desabitado
Solitário me apresenta como astro
Astro que chora, ri e se curva à derrota
E derrotado muito mais astro me faço.
Todo mundo reparou no meu olhar triste
Mas todo mundo estava cansado de ver isso
E todo mundo se esqueceu de minha estreia
Pois todo mundo tinha um outro compromisso.
Mas um dia meu palco, escuro, continuou
E muita gente curiosa veio me ver
Viram no palco um corpo já estendido
Eram meus fãs que vieram para me ver morrer.
Esta noite foi a noite em que virei astro
A multidão estava lá, atenta como eu queria.
Suspirei eterna e vitoriosamente
Pois ali o personagem nascia
E eu, ator do mundo, como minha solidão…
Morria!
(Anderson Herzer, A queda para o Alto, 1982)

Herzer tinha uma grande sensibilidade, tinha uma grande percepção do mundo que conhecera. Tentava ajudar a cada criança ou adulto que pudesse passar por algo seme­lhante, acreditando que a sociedade e o que existe é que poderia ser diferente. Era uma pessoa doce que tratava muito bem a quem lhe respeitava, capaz de realizar um enorme esforço para atender a quem pedisse pela sua ajuda. Tinha uma personalidade muito enérgica, ativa, o que fazia dela sempre se destacar por dentre as demais pessoas que estivessem no mesmo grupo com ela. A sua única dificuldade era ser aceita do jeito em que ela era, do jeito em que ela se sentia consigo mesma.

“…Eu queria ser da noite o sereno e
umedecer o vale seco e pequeno.
Eu, queria, no dia claro, luzir
para o amor todo o povo conduzir.
Eu queria que branco fosse a cor da terra e
não vermelha para inspirar a guerra.
Eu queria que o fogo me cremasse
para ser as cinzas de quem hoje nasce.
Eu queria que os mais belos poemas fossem de Deus
para neles encontrar as virtudes dos irmãos meus.
Eu queria e muito queria saber ganhar
para que a simples alegria pudesse comigo guardar…”
(trecho do poema “Encontrei o que eu queria”, Anderson Herzer, Para a Queda do Alto, 1982)

A essa altura ela morava com uma amiga dela da Assembleia Legislativa, onde por vez ela organizava saraus e estava sendo reconhecida. Mas, aproximadamente dois meses depois, a amiga dela me ligou para me dizer “Anderson saiu dizendo que ia para a 23 de maio”, eu falei “Procure ir atrás dela e diga para ela me ligar, que eu quero conversar com ela”.  Mas, às seis da manhã, me ligaram da gastroclínica para me dizer que encontraram uma pessoa na 23 de maio, gravemente ferida e que a levariam para o Hospital das Clínicas. Ela tinha no seu bolso um papel com meu telefone e meu nome, e por isso que estavam me telefonando.  Eu fui até o Hospital das Clínicas. Disseram que era preciso fazer uma doação de sangue, então eu fui até aonde se fazia a doação, para eu também fazer, mas quando estava lá me informaram que ela infelizmente tinha falecido.

As pessoas me perguntam sobre ela, sobre o livro dela. Se não me engano, o livro dela tem mais de 25 edições e foi o publicitário Carlito Maia quem sugeriu: “A Queda para o Alto” para o título do livro. É muito lido, sobretudo pelos jovens na periferia. Então, muitas pessoas que leram o livro comentam comigo que gostaram muito. Um filme baseado na história foi lançado em 1986, “Vera”, dirigido por Sérgio Toledo, e o papel principal rendeu a Ana Beatriz Nogueira o prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim em 1987. O meu papel foi representado pelo ator Raul Cortez.

Ana Beatriz Nogueira levou prêmio em Berlim no papel protagonista. Imagem: Divulgação.

No ano 2000, um grupo de teatro de Heliópolis montou uma peça, e perguntaram se eu poderia fazer uma gravação de vídeo contando a história que eu acabo de falar para eles passarem antes da apresentação. Eles queriam mostrar a história de vida dela, e eu fiz com o maior prazer. A primeira apresentação aconteceu no Teatro Ipiranga, perto de Heliópolis, e teve um grande sucesso. Para a segunda apresentação, como a primeira tinha sido tão boa, eu convidei o dramaturgo José Celso Martinez Corrêa, e ele gostou tanto que decidiu apresentar a peça no Teatro Oficina. E aí, eu, em todas essas apresentações, ao invés de fazer por vídeo, fiz a abertura ao vivo. O SESC gostou tanto, que fez que o grupo de teatro apresentasse a peça em pelo menos em dez SESCs de outros bairros de São Paulo, Rio de Janeiro e Ribeirão Preto.

A história de Anderson é muito inspiradora. O livro foi dedicado, com seus poemas e sua história, a todas as crianças no Brasil que precisam de ter melhores oportunidades.

***

Entre os textos que sobreviveram ao seu suicídio, Herzer escreveu vários que foram dedicados a Suplicy. A gratidão é também uma forma do sentimento amoroso:

“…Poucas vezes vi seus filhos, mas muitas vezes pensei sozinho, o quanto eles devem andar de cabeça erguida, com o peito cheio de orgulho, por notarem o pai formidável que tem.

E certo que você me conhece há pouco tempo, talvez pense até que eu sou somente uma pessoa a quem você estendeu a mão, e que eu não contribuo em nada, apenas lhe dei problemas e despesas.

Mas eu não penso assim de você, e isso e que me importa. Você para mim é a vida que eu vivo a cada dia que se passa, e quem quando me ajudou não me rejeitou nem por um momento por eu ser apenas um pedaço de sangue já coalhado e pisado, que me tirou o lodo que cobria a minha face. Enfim, palavras não seriam suficientes e sim um esforço de minha parte para que um dia você possa sentir que compensou alguma coisa todo este trabalho que está tendo agora…” (Carta ao Eduardo Suplicy, Anderson Herzer, São Paulo, 5 de setembro de 1980)

“E a este Homem, eu agradeço, e sei que muito mais tenho a agradecer, pois ele não teve preconceito algum sobre minha pessoa. Ele não quis saber qual era meu nome exato, ou por que um nome feminino denominava uma pessoa como eu, uma pessoa que lhe falava franca e abertamente a respeito de meus casos amorosos, da beleza desta ou daquela, ao passo que antes eu só conhecia as opiniões dos “homens”, pobres homens, que me criticaram e ainda criticam hoje dizendo que eles sim eram homens, pelo órgão que tinham no meio de suas coxas, e o fato de eu ter muitas namoradas não me fazia um homem, e agora depois de tanto tempo pensando na miserável mente destes homens. Nada tenho a dizer sabre estas mentes cobertas, sobre esta ignorância tão forte que os transforma de homem para MACHO, minúsculos machos que pensam trazer seu caráter em forma de duas bolas no meio de suas pernas”. (Anderson Herzer, A Queda para o Alto, 1982)

As mentiras e contradições da política ambiental de Jair Bolsonaro

As mentiras e contradições da política ambiental de Jair Bolsonaro

Imagem: Pedro Joffily / @pejofar / via Design Ativistas

As bravatas do governo de Jair Bolsonaro (PSL) são cada dia mais numerosas e de consequências cada vez mais graves. A bola da vez é a situação extrema que se estabeleceu na Amazônia. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre janeiro e agosto deste ano, as queimadas aumentaram 83% em relação ao mesmo período do ano passado.

O nascedouro do problema, contudo, não é recente. Começa ainda no início do governo, com o desdém/deboche do ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) para com a memória de líderes como Chico Mendes, seguida da liberação irracional, ao longo dos meses seguintes, de 290 substâncias agrotóxicas proibidas em outros países, o flerte para com a autorização de mineração e garimpo em terras indígenas, passando ainda pelo desmanche da Política Nacional de Meio Ambiente, que envolve a desarticulação da estrutura de fiscalização de órgãos como IBAMA (com o corte de 50% de seu orçamento) e ICMBio, o corte de 95% do orçamento de ações destinadas a combater mudanças climáticas, dentre outros desmandos.

O ápice dessa crise ambiental, porém, se deu essa semana, na contenda com o presidente francês, Emmanuel Macron (que também não é lá flor que se cheire em se tratando da temática ambiental). Mas, para compreendermos melhor a questão, é necessário voltar algumas casas nesse tabuleiro:

Há alguma semanas atrás, Bolsonaro colocou em cheque os dados de satélite do Inpe, alegando que as informações sobre desmatamentos na Amazônia eram mentirosas. Tal episódio resultou na demissão do diretor-presidente do instituto, Ricardo Falcão, profissional respeitado na comunidade científica internacional. O motivo da exoneração: ter ousado discordar, publicamente, do presidente da República, ao defender a seriedade de seu trabalho e de todos os servidores públicos de carreira do órgão.

Outro órgão respeitado, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) afirmou, categoricamente, que o incremento na quantidade de queimadas está diretamente relacionado ao aumento do desmatamento. Segundo o Ipam, com o aumento da derrubada da floresta, o número de focos de calor também se eleva, contrariando discursos de Ricardo Salles e Jair Bolsonaro.

A negação da ciência e da verdade, por parte do presidente, porém, só durou até o momento em que os dados do Inpe e Ipam foram confirmados pela Agência Espacial Norte Americana (Nasa), de seu ídolo Donald Trump. Quase no mesmo instante em que “o dia virou noite” em São Paulo, em virtude do deslocamento de uma massa polar que “empurrou” grande volume de fumaça, oriunda das queimadas amazônicas, para a região sudeste do Brasil. Se vendo diante da impossibilidade de negar o óbvio, Bolsonaro passou a dizer que a culpa pelas queimadas era das ONGs ambientalistas que atuam na Amazônia. Detalhe: não apresentou nenhuma prova dessa grave acusação.

O segundo episódio de destaque nessa questão é o que envolve a polêmica sobre os recursos do Fundo Amazônia. Ante a suspensão de repasses por parte dos governos da Alemanha e Noruega, Bolsonaro afirmou que não precisávamos dos recursos da cooperação internacional anteriormente firmada com ambos os países. Afirma que os grandes beneficiários desses recursos eram as ONGs ambientalistas; e que estas fazem campanha contra o governo brasileiro, defendendo interesses internacionais e ferindo a soberania do nosso país.

Os recursos doados por Noruega e Alemanha vinham sendo muito mais úteis para o Poder Público (governo federal e governos estaduais dos estados da Amazônia brasileira) do que propriamente para as ONGs ambientalistas.

Sem adentrar no mérito sobre supostos interesses obscuros e subjacentes, de empresas multinacionais e nações estrangeiras, que residiriam por detrás das cooperações internacionais para o financiamento de projetos de desenvolvimento sustentável e preservação ambiental – fantasma que, há décadas, assombra os nacionalistas, tanto à direita, quanto à esquerda – fato é que os recursos doados por Noruega e Alemanha vinham sendo muito mais úteis para o Poder Público (governo federal e governos estaduais dos estados da Amazônia brasileira) do que propriamente para as ONGs ambientalistas. O Estado do Acre, por exemplo, utilizou tais recursos para dotar o seu Corpo de Bombeiros Militar de uma estrutura mínima (embora ainda insuficiente) para combater queimadas e incêndios florestais, dentre outros programas, projetos e ações, todas financiadas com dinheiro do Fundo Amazônia.

Tais recursos, certamente, farão muita falta. Diante da alegada crise nas finanças nacionais, por que dispensar recursos de cooperação internacional? Como o presidente fará para compensar os estados amazônicos por esta perda de receitas?

Outra coisa que também é certa: queimadas e desmatamentos na Amazônia sempre houve, mas, nesse ano de 2019, estamos nos aproximando, velozmente, dos piores índices dos últimos 15 anos. Por mais que a plêiade de fãs da mitomania – verdadeiros habitantes de Nárnia, a vagar por uma realidade paralela que eles criaram e na qual passaram a crer como se verdade fosse – esbraveje, pelas redes sociais, que se tratam de dados científicos fraudulentos (sem, contudo, apresentar nenhuma prova ou indício de tal fraude), esse é um dado que nenhuma fake news pode negar.

É bem verdade que, no seio desta polêmica, circularam, nas redes sociais, imagens de queimadas, incêndios e desmatamentos de anos anteriores. Trata-se de problema recorrente na era da pós-verdade, de parte-a-parte, de todos os lados. Mas, isso não coloca em cheque os dados atuais, tanto os do Inpe quanto os da Nasa. É inverossímil que as imagens de satélite sejam falsas, distorcidas ou manipuladas. Isso sem contar a evidência física, empírica, a vista de tudo e de todos, a olho nu: a fumaça que tomou conta dos centros urbanos das cidade amazônicas. O contrário disso é mera teoria da conspiração.

Lembremos ainda que, desde o início deste governo, por conta das declarações erraticamente desastrosas, ora do chanceler, Ernesto Araújo; ora do ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente); ora do ministro Augusto Heleno (Segurança Institucional); ora do ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil); ora dos filhos do presidente; ora do próprio presidente, o Brasil vem sofrendo duras sanções comerciais de diferentes países: primeiro foi a soja, boicotada pelos chineses após palavras desairosas proferidas sobre a China; depois foi a vez do frango e da carne halal, uma retaliação dos países da Liga Árabe por conta da intenção do governo de mudar a embaixada brasileira na Palestina de Tel Aviv para Jerusalém.

Agora, só essa semana, depois que Noruega e Alemanha já haviam decretado a suspensão dos repasses para o Fundo Amazônia, a Finlândia também pediu boicote à carne brasileira; França e Irlanda passaram a se opor ao acordo entre a União Europeia e o Mercosul; e a questão da Amazônia será levada ao debate no encontro do G7 por líderes franceses e canadenses.

E não estou falando de disputas partidárias domésticas, de A contra B, mortadelas versus coxinhas, petralhas versus bolsominions, PT versus PSL, bonitos contra feios, bonzinhos contra malvados etc. Esse maniqueísmo, esse dualismo não leva ninguém a lugar nenhum. Até porque a defesa do meio ambiente não deveria ter partido.

Estou falando é da posição do Brasil na arena internacional. Outrora respeitada, caracterizada pelo pacifismo, pela mediação e pelo multilateralismo, a atual postura isolacionista, retrógrada e medieval da diplomacia brasileira só é comparável com a de países ditatoriais, autocráticos e fundamentalistas. Ou seja, o Brasil está se isolando do ponto de vista de suas relações internacionais e isso traz prejuízos não só simbólicos, mas, sobretudo, materiais. São as commodities brasileiras – e, via de consequência, a balança comercial e o PIB – que passam a sofrer as consequências desse cenário de ausência de credibilidade. E depois que o estrago está feito, que “Inês é morta”, leva anos para se recuperar os danos causados à imagem dos produtos brasileiros e do próprio país.

Essa é a conta que Bolsonaro e seus asseclas – ao preferir contestar dados cientificamente comprovados e imputar culpa a quem não a tem, do que adotar medidas concretas para debelar o desmatamento, incêndios e queimadas – certamente, não fizeram.

O Planeta contra Bolsonaro ou Até a Terra plana dá voltas!

O Planeta contra Bolsonaro ou Até a Terra plana dá voltas!

Ao investir contra a Amazônia e o meio ambiente, governo brasileiro se torna uma ameaça global

Por @luzzz.raw / Design Ativista

“Devido a minha formação militar e a minha trajetória como homem público tenho profundo amor e respeito pela Amazônia”. O pronunciamento de Bolsonaro na TV nesta sexta 23/08 parece uma redação escolar do “dia da árvore”, sem a inocência, sem o frescor das crianças no colégio. Mas o primarismo na leitura do teleprompter e no texto não escondem as gritantes contradições e o pensamento predador do presidente do Brasil. Mesmo visivelmente tenso e nervoso, tentando “moderar” seu discurso paranoico e tosco, o modelo dos “dias de fogo” foi reafirmado!

“A proteção da floresta é nosso dever. Estamos cientes disso e atuando para combater o desmatamento ilegal e quaisquer outras atividades criminosas que coloquem a nossa Amazônia em risco. ”

Além de não cumprir com o seu dever, desmontando todas as redes de proteção ao meio ambiente e mecanismos que inibiam a devastação, explicita logo adiante qual o modelo econômico (“não é incêndio, é capitalismo” dizem as redes) que rege seu governo e que está acima da vida e do meio ambiente:

“É preciso lembrar que naquela região vivem mais de 20 milhões de brasileiros que há anos aguardam um dinamismo econômico proporcional às riquezas ali existentes. (…) É preciso dar oportunidade a toda essa população para que se desenvolva junto com o restante do país. É nesse sentido que trabalham todos os órgãos do governo.”

Para além do discurso primário, de amor e respeito pela Amazônia, dados errados e a solução militarista para apagar incêndios reais e simbólicos, Bolsonaro retoma um argumento pernóstico, que foi o slogan da ditadura militar: “integrar para não entregar”.

Um anacronismo nacionalista que não tem mais eco em uma sociedade de redes globais. Eis seu programa mais nefasto: Vamos destruir a Amazônia em nome de um modelo desenvolvimentista predador que o mundo todo rejeita e combate!

A fumaça que cobriu São Paulo e transformou o dia em noite não foi estocada pelo PT, nem pelas Ongs e nem pela esquerda para ser liberada em 2019 e desmoralizar e questionar todo esse discurso anti ambientalista e que tem como base uma necropolítica.

Não existem esquerdopatas tocando fogo em florestas, foram os fazendeiros que promoveram o “dia do fogo”. O Brasil parece que virou o roteiro de “as sete pragas do Egito”. Mas as redes já disseram: “Não é o apocalipse, é o efeito colateral do teu voto”.

Não estão destruindo só o Brasil, mas o planeta! O Brasil virou o símbolo de uma distopia global. As reações, as sanções de países de todo o mundo contra o Brasil são uma resposta que penalizarão o país. Bolsonaro será derrotado pelo planeta, porque é isso: uma espécie de vírus ou doença da terra.

Esse governo não é apenas contra a Amazônia, é contra a Educação, é contra a cultura, é contra os povos indígenas, é contra as mulheres, é contra os negros, é contra a juventude das favelas, é contra o Brasil.

O Panelaço que se ouviu em todo o Brasil, inclusive em todos os bairros e cidades em que Bolsonaro teve uma grande votação, é muito significativo. Até a Terra Plana dá voltas!

Neste domingo atos em todo o Brasil vão incendiar as ruas e as redes em defesa da Amazônia. Esse sim, um fogo que tem que se alastrar! Nós também temos nossos dias de fogo para performar um incêndio contra esse governo.

Agora é o Planeta contra Bolsonaro. #Amazônia #queimadas #bolsonaro

Não se combate o tráfico na favela

Não se combate o tráfico na favela

Foto: Mídia NINJA

O mercado ilegal de alguns produtos é chamado tráfico de drogas. O cigarro, a cerveja e o açúcar são produtos legais e cada um tem o seu mercado. Embora seja ilegal, a maconha também tem o seu mercado. Cada um deles tem sua cadeia produtiva: fabricação, distribuição, atacado e varejo.

O mercado de um produto legal é protegido pela Lei 12529/2011, que estrutura o Sistema Brasileiro da Concorrência. Esse sistema serve como polícia do mercado, a fim de prevenir e reprimir as infrações contra a ordem econômica e os abusos do poder econômico em defesa da livre iniciativa e dos consumidores. Se uma empresa vende seu produto abaixo do preço de custo para quebrar seus concorrentes e ficar com o monopólio desse mercado, estará realizando uma prática infrativa ao mercado e deve ser julgada pelo Tribunal Administrativo de Defesa Econômica.

O julgamento é instruído por estudos realizados sobre o mercado de cada produto, que são feitos pela Secretaria de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda e o Departamento de Estudos Econômicos do Ministério da Justiça. Portanto, sendo o produto legal, o seu mercado é muito bem conhecido pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o CADE.

Como é ilegal, o mercado da maconha não é bem conhecido, pois os órgãos do sistema penal, Polícia, Ministério Público e Poder Judiciário, não são preparados para tal função. No entanto, no Rio de Janeiro, o conhecimento acerca do mercado da maconha é público e notório. Quase toda a maconha vem do Paraguai, onde toneladas são produzidas em imensas plantações e essa produção não é reprimida pela polícia brasileira, pois está em outro país. Ao contrário da pasta de cocaína, que pode ser distribuída em quilos por aviões e helicópteros, o mercado da maconha é de toneladas e, como vem do Paraguai, a erva só pode ser distribuída através das estradas federais e estaduais em caminhões de carga. O policiamento para reprimir essa distribuição é praticamente inexistente e raramente grandes quantidades são apreendidas. Obviamente, tem muita corrupção para a passagem de toda essa carga pesada, que não é pesada e fiscalizada nos postos da Receita pela sua ilegalidade.

Chegando ao Rio de Janeiro, como o maior número de consumidores são os pobres, como acontece com quase todos os produtos, a maior parte vai para as favelas. Como a maconha é vendida e consumida em todas as classes sociais, a menor parte vai para vendedores da classe média e ricos, pois seus consumidores raramente sobem os morros para comprar maconha.

Nas favelas, essas toneladas são vendidas em “mutucas” com poucos gramas, ao contrário das classes média e rica que compram 50 gramas por quatrocentos reais, pois têm maior poder aquisitivo. O setor do mercado de maconha que separa as toneladas em pequenas “mutucas”, que serão vendidas por um, cinco, dez e até cinquenta reais, é conhecido como “ endolação”. Raríssimas vezes vi noticiário da polícia estourando um paiol de endolação nas favelas.

Essas mutucas são distribuídas para serem vendidas no varejo das favelas do Rio de Janeiro, onde jovens, negros e pobres colocam em tabuleiros, onde são comercializadas como “camelôs”. Para isso, chegam às mãos de adolescentes e jovens, fuzis, granadas, pistolas e rádios transmissores. Na realidade, uma verdadeira armadilha, pois geralmente têm de 15 a 25 anos de idade e serão mortos ou presos. A fila anda fácil, pois recebem de 50 a 200 reais para ficarem 24 horas armados até os dentes, salário que não vão encontrar no escasso mercado de trabalho com carteira assinada. Sem camisa e calçando chinelos, são pagos para proteger a carga. Caso a mesma seja roubada, vão morrer assassinados por seus próprios chefes do morro, pois não terão como pagar. Por outro lado, muitos dos policiais que são mandados pelos oficiais e governador para reprimir o varejo, jovens, negros e pobres, morrem também.

Portanto, trata-se de um enorme mercado, onde a repressão concentra-se somente no varejo das favelas. Em suas vielas, milhões de pessoas de todas as idades circulam diuturnamente e sequer têm pra onde correr quando a polícia chega atirando para tudo quanto é lado.

Trata-se de uma grande farsa, uma política de segurança pública historicamente racista para matar jovens e negros, pois os traficantes são empresários brancos milionários, doleiros, banqueiros e fazendeiros.

A única medida inteligente e eficaz para reduzir imediatamente toda essa matança racista é a legalização da venda da maconha nas favelas e a regulamentação de todo o mercado da maconha.

Confira o programa Fumaça do bom direito com André Barros

As operações policiais nas favelas não combatem o tráfico de drogas

Posted by André Barros on Tuesday, August 20, 2019

Rio de Janeiro, 22 de agosto de 2019

Presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado pede impeachment do ministro Ricardo Salles

Presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado pede impeachment do ministro Ricardo Salles

Ministro Ricardo Salles Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

O senador Fabiano Contarato (Rede-ES), que preside a Comissão de Meio Ambiente do Senado, enviou ao Supremo Tribunal Federal um pedido de afastamento do ministro Ricardo Salles por crime de responsabilidade. Contarato afirma também que Salles perseguiu agentes públicos a pedido de ruralistas.

Segundo Contarato, Salles infringiu a Constituição ao alterar a formação do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que reúne representantes do governo e de ONGs para discutir políticas ambientais. Além disso, condena a atitude de Salles por não punir os responsáveis por autorizar a exploração na área de proteção de Abrolhos, na Bahia.

Outra questão levantada pelo senador foi a perseguição de agentes do Ministério do Meio Ambiente, anunciada pelo atual ministro em um evento com ruralistas, em abril. Essa manifestação gerou a renúncia do presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Adalberto Eberhard.

O senador Randolfe Rodrigues também informou que nesta sexta-feira, dia 22/08, às 11h, será protocolo no Congresso Nacional o pedido de impeachment do ministro. Filiado no Novo, nem mesmo o partido apoia sua reconhece ou atuação.

Estamos ou não à beira do fim do mundo?

Estamos ou não à beira do fim do mundo?

Reprodução/ Twitter/ Leandro Mota

19 de agosto. 15h. São Paulo. Mas parecia 22h. Em questão de minutos a cidade de São Paulo anoiteceu em sua tarde. Todos esperavam a chegada de uma frente fria, mas não contavam com o encontro com um corredor de fumaça tão denso capaz de provocar tamanho escurecimento. Esta nuvem de fumaça era proveniente das queimadas da Amazônia, de regiões envolvendo Bolívia e Paraguai e que passaram pelo estado do Paraná, alcançando até Minas Gerais, segundo metereologistas.

As queimadas acontecem, geralmente, neste período. Mas a densidade ao ponto de formar um “corredor de fumaça” acontece a partir da intensidade das queimadas. O número do foco de queimadas no Brasil tem aumentado violentamente. Para terem ideia, até 18 de agosto, em uma comparação com o mesmo período de 2018, o aumento foi de 70%, segundo a medição do  Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). É o maior índice desde 2013! O bioma mais afetado é o da Amazônia e, em números absolutos, o estado líder nos focos de queimadas é o Mato Grosso: dos 66, 9 mil focos de queimada, o estado está com 13.109 mil focos. Além disso, temos visto a intensificação de invasões de terras indígenas, sustentadas por uma posição amplamente noticiada do chefe maior do Estado brasileiro de que é preciso liberar o garimpo em territórios de preservação.

Mas focando no ocorrido desta semana, algumas coisas me chamaram a atenção. Muitas são as fotos pelas redes sociais com comentários assustados diante do escurecer do dia. E muitos destes comentários são de pessoas falando de “sinal dos tempos” e “fim do mundo”.

No dia 19 mesmo, eu tive um diálogo com uma motorista de aplicativo, enquanto voltava para casa. Ela me dizia que o dia virar noite era um sinal bíblico, que prenunciava o fim dos tempos. Minha resposta para ela foi de que até poderia ser uma leitura, caso considerássemos os bolsonaristas como um sinal apocalíptico. Achei que o comentário traria graça à nossa conversa, mas o efeito foi de silêncio. Mas, na verdade, aquele comentário me colocou em reflexão. Estamos ou não estamos diante da possibilidade real do fim do mundo? Por que não estamos indignados, como ficamos com o incêndio em Notre Dame, na França, com as queimadas brasileiras que fizeram com que uma floresta estivesse sobre nossas cabeças?

Talvez, o acontecido não tenha obtido tamanha movimentação porque já estejamos presos em uma teocracia social, que tem em sua filosofia a ideia de um resgate messiânico, anunciado por uma série de desgraças no processo. Ou seja, estamos presos diante de uma narrativa neutralizadora e, portanto, paralisadora, já que só basta esperar a volta do ungido salvador. Com isso, as pessoas sequer se enxergam ativas no processo. E, no fim, Jesus deve ter pouco ou nada a ver com tudo isso.

E, além disso, minha preocupação aumentou ao me deparar com o discurso entre nós de que não se tratava do fim do mundo, com se explicações científicas bastassem na guerra narrativa que enfrentamos diariamente. Um total desconhecimento, me parece, da complexidade e multiplicidade de filosofias entre os evangélicos. Muitos, por exemplo, não acreditam na ação humana como possibilitadora real da solução dos problemas, se não o próprio retorno de Cristo. E mesmo na explicação científica estariam os sinais: políticos incapazes, a depredação do meio ambiente como evidência da perdição do homem que, sem Deus, tem seu lado destrutivo realçado e aprofundado. Nem todas as correntes evangélicas e protestantes, aliás a maioria, leem a Bíblia ao pé da letra – isso já se sabe ser algo que beira ao fundamentalismo religioso – compreendendo metáforas e analisando que, portanto, o final dos tempos não se tratará apenas de bolas de fogo lançadas do céu, mas de um aceleramento profundo da capacidade destrutiva do homem em relação ao seu ambiente. Ou seja, o homem é o que provoca, altera e aprofunda a sua própria destruição. Com isso, Deus voltaria para arrumar a casa e botar tudo em rédeas novamente.

As narrativas mitológicas e religiosas de diversas sociedades já dão conta de que somos parte da Terra, e há analogias incorporadas nas filosofias cristãs sobre isso. A narrativa de que estamos diante do colapso e do fim do mundo não é um monopólio cristão. A questão é o que esse fim do mundo representa e como podemos evitá-lo ou não.

Em “Ideias para adiar o fim do mundo”, o professor Ailton Krenak alerta que, inclusive, já vivemos muitos “finais de mundo”, bastando entendermos a perspectiva de cada era. E ele faz uma provocação com este título, inclusive para que repensemos esta ideia de humanidade que criamos: “Como justificar que somos uma humanidade se mais de 70% estão totalmente alienados do mínimo exercício de ser? A modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra em centros urbanos. Essas pessoas foram arrancadas de seus coletivos, de seus lugares de origem, e jogadas nesse liquidificador chamado humanidade. Se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos”. Sim, malucas e paralisadas. Vamos sendo descolados de nossa realidade a tal ponto que o sintetizar de toda a selvageria que é parte de nós, e não algo apartado, que é a Terra, pode ser lido como parte de sinais, sem refletir que em sendo tudo arrasado, a reconstrução seria mais difícil. Mas se para deus nada é impossível, que queimem tudo e percebam o pecado em que vivem. E fazem esse tipo de relação sem pensar que estão também inseridos nesse processo destrutivo, absortos numa certeza de que serão salvos.

A pergunta às pessoas, a meu ver, deveria ser se deus nos fez para destruir nosso mundo, a nós mesmos ou para vivermos em harmonia e equilíbrio do existir nele. Ou seja, pode até ser que  um salvador venha, mas lavar as mãos não pode ser uma opção, já que esta filosofia religiosa prega a vida. Precisa bagunçar tanto a casa? Quer dizer, as pessoas se mobilizam para o que consideram pecados, como a homossexualidade, o aborto, que acontecem na esfera das liberdades individuais, mas não para algo que envolverá o que consideram pecado em um ataque ao coletivo que somos. O questionamento deveria ser da coerência para que cada um trate com deus diretamente sobre o julgamento da esfera individual, já que o livre-arbítrio existe justamente para esta possibilidade de prestação de contas pessoal. Mas simplesmente cruzar os braços diante de uma floresta inteira sendo queimada, que provocará danos irreversíveis às vidas que estes dizem defender para a salvação eterna, é que me parece uma poderosa contradição que, hoje, repito, está perdida na esperança paralisadora de uma redenção vinda de um salvador externo.

A gente, acreditando ou não nessas filosofias, sendo evangélicos ou não, não pode negar que estamos sim diante do abismo ao qual o professor e ativista Ailton Krenak nos chamou atenção em seu último livro. A gente precisa é pensar nesse processo que marginaliza os agentes que ainda compreendem como a destruição disso tudo significa a nossa destruição. E, talvez, pra isso, como o próprio diz, a gente tenha que trabalhar essa dimensão do sonho, do universo mítico, que a gente tanto se distancia. Talvez não seja o caso de “eliminar a queda, mas inventar e fabricar milhares de paraquedas coloridos, divertidos, inclusive prazerosos”. A gente poderia observar mais para exercer uma escuta verdadeira e profunda diante de tudo o que está acontecendo ao nosso redor, até pra gente construir um outro tipo de processo sobre o futuro. E eu não estou aqui negando a construção argumentativa pela razão. Mas, talvez, seja uma bobagem a gente seguir nesse diferenciamento e distanciamento maluco entre o racional e o mítico, quando a gente sabe que há variadas formas de conceber e sentir o mítico. A gente precisa buscar os encontros, o que não significa desrespeitar essa diversidade imensa de signos. Em vez de diminuir a leitura do outro sobre determinados fenômenos, a gente deveria buscar o que a gente faz pra se entender nesse balaio que é o jeito que cada um absorve e vê o mundo.

Do contrário, se confirma a leitura do fim. E só resta mesmo discutir quem pode mesmo nos salvar disso tudo.

Araquém Alcântara: ‘A Ferro e Fogo’

Araquém Alcântara: ‘A Ferro e Fogo’

Novo colunista da Mídia NINJA, Araquém soma mais de 50 anos dedicado à documentação e proteção da natureza brasileira. Em sua estreia, narra o ponto-limite em que chegamos e convoca uma nova forma de encarar a Amazônia.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

Neste exato momento, bem diante dos meus olhos, a Amazônia arde no calor das queimadas. Labaredas de fogo se sobressaem na cortina de fumaça e tingem de vermelho o horizonte. O fogo e a fumaça escondem o sol, os olhos ardem de dor, o calor é insuportável.

Percorro mais de dois mil quilômetros na Belém Brasília e não vejo extensão continua de floresta homogênea, só um paredão cinza de fumaça, o cheiro da terra calcinada, animais mortos, o gado pastando em áreas desmatadas, as carvoarias engolindo madeira, a soja avançando sem parar. A cena se repete todo ano, entra governo e sai governo, entra ministro sai ministro.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

Só que agora a maior floresta da Terra não tem mais como suportar. Atingiu o seu limite, com graves conseqüências para o clima global. Ela está realmente se fragmentando e já é possível prever uma Amazônia dilacerada, sem produzir chuva e completamente modificada na sua fisionomia original.

A destruição da floresta escancara nosso descaso, nossa conivência com o crime inominável.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

Estamos permitindo a desertificação do maior laboratório científico de nossa civilização, sem ao menos conhecê-lo e estudá-lo adequadamente. É possível que lá existam milhares de produtos que podem revolucionar a saúde da Terra.

A Amazônia abriga um terço das florestas tropicais e mais de 20 por cento das 1,5 milhão de espécies vegetais e animais do mundo. É a região mais rica em biodiversidade do planeta, mas suas florestas têm sido dilapidadas sem gerar benefícios sociais e econômicos. Hoje, quase 80 por cento da madeira extraída da Amazônia é ilegal, na base do corte raso, sem pagamento de impostos nem geração de empregos formais.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

A motossera, o grileiro, o boi, a soja e sobretudo uma política ambiental pífia já fizeram com que a Amazônia perdesse 18% de sua cobertura original. Hoje 4% dessa área não serve mais para nada, nem para pasto. Virou deserto. Somos os maiores devastadores do planeta. O desmatamento e as queimadas já respondem por 75 por cento das nossas emissões que contribuem para o efeito estufa.

Não há conhecimento, nem respeito. Os políticos não conhecem a floresta, estão trancados em seus gabinetes e em sua ignorância.

A questão amazônica não encontra eco na sociedade. Parece que a Amazônia é problema dos outros, parece que os 25 milhões de brasileiros que lá vivem não precisam de médico, dentista, mantimentos e dignidade.

Ninguém sabe quem são os verdadeiros proprietários de terra na Amazônia. O código ambiental brasileiro é confuso e permite aos grileiros toda sorte de atalho para fugir da punição. A corrupção é a maior arma dos grileiros. Grupos de políticos, fazendeiros e madeireiros formam quadrilhas que agem como se fossem mais poderosos que o Estado.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

Por que não dizemos basta de tanta destruição? Por que somos tão passivos? Por que permitimos que os governos ignorem a ganância dos senhores de terras, a voracidade das grandes madeireiras, o enriquecimento ilícito, as carvoarias e mineradoras ilegais, o garimpo sangrando a terra. Tudo em nome de um progresso que sempre enriqueceu alguns indivíduos e empresas e deixa o povo na mais absoluta miséria.

O que está acontecendo agora na Amazônia é crime de lesa humanidade: trabalho escravo, corrupção, uso de violência, invasão e ocupação ilegal de terras públicas. Destruição que ameaça não apenas a floresta ou as comunidades tradicionais, que dela dependem para sobreviver, mas a integridade da própria Constituição brasileira e o futuro do país.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

Por que milhares de quilômetros quadrados de vida, séculos de maravilhosa construção, são destroçados num único gesto?

Por que entra governo e sai governo e a hipocrisia prevalece?

Os cientistas dizem que é urgente que se implante uma moratória nacional e o governo assuma a responsabilidade que lhe cabe de implantar um novo modelo social e econômico voltado para os interesses dos 25 milhões de amazônidas.
É urgente também, dizem os cientistas, que se implemente uma revolução científico-tecnológica na Amazônia, com a formação de técnicos de alta especialização nas mais diversas áreas científicas, para ocupar e conhecer esse laboratório.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

E uma outra revolução mais sutil, mas igualmente importante: o modo como encaramos a Amazônia, o que realmente queremos para a Amazônia. Os estoques de riquezas naturais que ela possui são cobiçados sim pelas potências internacionais e isso exige uma mudança de atitude, uma presença efetiva, um grande esforço de toda a sociedade.

Precisamos lembrar sempre que a Amazônia pode chegar ao ponto trágico da Mata Atlântica que foi praticamente dizimada e antigamente recobria quase toda a faixa do litoral.

Toda a minha obra clama por indignação e atitude.

Foto: Arquivo Araquém Alcântara

 

Nem feios nem bonitos: uma resposta a Nelson Motta

Nem feios nem bonitos: uma resposta a Nelson Motta

“Sintonia”, a série que marca a estreia de Kondzilla na ficção de longa-metragem, foi um estouro na semana passada.

Divulgação Netflix

Texto do colunista Bruno Ramos em parceria com Vanessa Oliveira e Marcelo Rocha

A música mais tocada durante os seis capítulos já é um sucesso no Spotify e no Youtube. As personagens viraram figurinhas no Whatsapp e a barbearia da série, montada no centro para promover a produção Netflix, bombou.

Acelera o coração ver as quebradas de São Paulo tão bem retratadas, com drones, enquadramento classe A, atuação impecável. Dá orgulho também ver tanta cara conhecida, tanto moleque que tá por aí tentando fazer valer a pena há tanto tempo, compondo uma produção deste tamanho, lançada ao mesmo tempo em 190 países. Mas é preciso segurar a emoção para dar conta das camadas que constroem a sensível história de Rita, Doni e Nando.

Existe na série a construção de um imaginário para dentro e outro para fora da quebrada: para dentro, a produção alimenta na molecada o sonho de se tornar MC, pensando inclusive na longevidade do próprio mercado. Até porque, as outras alternativas são (ainda mais) restritivas e perigosas. A realidade é tão nua e crua que, no lugar de gerar uma reflexão, o risco para dentro é causar um sentimento de conformismo. A gente é isso aí mesmo! Aceita a roleta russa, atira no escuro na carreira artística, na vida ingrata do crime ou se tranca na igreja.

Para fora da quebrada, está a consolidação de estereótipos: o menino preto foi para o crime, o branquinho tinha chances de ganhar o mundo e ganhou; a vendedora vai se tornar pastora, a Jussara que é uma preta agressiva com contatos familiares com o crime; os bandidos são todos pretos com cara de malvados. Como próximas temporadas ainda são mera especulação, a gente – que acredita que ninguém constrói nada sozinho – precisa colaborar com o debate.

Mudar essa perspectiva depende de mais do que o Nelson Motta achando a gente bonito em artigo pra zona sul do Rio, que é quem lê O Globo. À primeira vista, deu raiva ler esse texto, que é racista (playboy branco chamando a gente de feio) e higienista, ao dizer que só ficamos bonitos com tratamento de cor, preparação de elenco, roteiro redondinho etc. Mas qual a novidade?

Ativistas pela cultura periférica como os que assinam esse texto dizem o tempo todo para as pessoas que, se elas querem letras diferentes, com menos palavrão, menos crime, menos putaria, elas precisam lutar para mudar as nossas condições de vida. A realidade constrói a cultura e vice-versa. Mas toda vez que a elite é incomodada pela cultura que nasce do abandono, ele culpa a cultura e não o abandono. Décadas depois, quando a continuidade do abandono desemboca em outras culturas “inconvenientes”, eles romantizam o abandono do passado. Foi assim que o samba, que era criminalizado no começo do século 20, virou patrimônio cultural imaterial do Brasil no começo do 21. Dez anos depois do tombamento do samba, dejavu: tramita um projeto para tentar criminalizar o funk. A elite não tem criatividade nenhuma. Deve ser por isso que tenta censurar a nossa.

Que ele tenha gostado da série é natural. Kondzilla construiu uma narrativa que encanta, ao mesmo tempo em que mostra a gente preso às poucas alternativas que a vida oferece, rodando atrás do nosso próprio rabo, como é o dia-a-dia. Na busca por ver beleza, o jornalista comemora que os atores que vivem criminosos na série fizeram escola de teatro na penitenciária de Guarulhos (SP). Seria uma bela história, se não fosse simplesmente mentira, segundo informações de pessoas do próprio elenco.

É claro que existe dignidade na periferia, senso de comunidade etc., mas não é bonito ter esgoto a céu aberto, não é bonito ter que dar o maior rolê pra conseguir vaga em creche ou ser atendido em um hospital. A gente busca beleza pra não surtar. Nelson Motta busca beleza para conseguir olhar para a nossa cara. Nada novo sob o sol.

Já estivemos melhor?

“Sintonia” tem um mérito que é ao mesmo tempo sua desgraça: escapa da rota da ficção e parece uma fotografia da quebrada de São Paulo; congela uma realidade e a entrega em seis capítulos. Qual a desgraça? As possibilidades para a ascensão dentro dessa narrativa se resumem a três: o microfone, a bíblia e a arma.

O mercado do funk – ainda bastante aquecido –  viveu seu boom nos últimos anos e a utopia de “estourar” a qualquer momento é latente na cabeça da molecada; as igrejas também cresceram exponencialmente na última década e se consolidaram não apenas como uma das únicas formas de sociabilização na quebrada, mas como possibilidade de se ter um “rumo na vida”; e o crime continua sendo a velha fábrica de super-herois para as crianças da quebrada que, carentes de representatividade, se encantam ao ver pessoas parecidas com elas, vindas do mesmo território, ostentando poder e respeito.

Não por acaso, o personagem que busca realização no submundo é preto. Nando não era o boy de quebrada com recursos para estudar em escola particular; nem a menina bonita, vendedora desenrolada que, depois de entender a igreja como negócio, enxergou ali um ótimo lugar para desenvolver suas capacidades. Nando é um jovem negro esperto, curioso, sensível e inteligente (desde criança, como lembra o parceiro de biqueira Juninho) que, apesar de bom artista também, já sabe onde terá mais chances de “ser alguém”, de se destacar.

Pelo perfil da personagem, a história de Nando podia desembocar na redenção, se “Sintonia” acontecesse na época de “Que horas ela volta?” ou mesmo de “Cidade dos homens”. Em outros momentos deste Brasil, talvez rolasse uma pretinha entrando na faculdade, com o sonho de ser juíza, médica, jornalista, por exemplo. Mas, no universo desta série, não tem uma favelada ou favelado sequer fazendo seu corre por um diploma universitário.

A favela já teve mais aspirante a doutor do que tem hoje? Já. Isso não significa que eles não existam mais. Mas essa dimensão está fora da equação ultrarrealista. E essa ausência faz todo sentido porque, com a descontinuidade de políticas públicas, principalmente as ligadas à educação e à política, esse caminho de ascensão desapareceu do imaginário da quebrada. Numa triste réplica dos anos 90, ele só sobrevive numas poucas histórias de sucesso individual, insuficientes para serem representativas e, consequentemente, representadas em ficção. E é nesse ponto que a série é tão boa, tão fiel, tão perigosa. Ainda que, para dominar esses lugares que a série apresenta, você precise ser o mais ligeiro nos estudos e na vida, mensagem que fica é que a escola é incompatível com o sonho do Mc Doni.

A importância de projetos sociais que deem forma e caminho aos sonhos da quebrada

No clipe “Eu sou patrão, não funcionário”, o Mc Menor do Chapa aparece em um escritório, de terno, convidando as menininhas pra sair. Casa bonita, vários carros na garagem, um clássico clipe do “funk ostentação”. Até que, depois da festa na mansão, o produtor do MC o chacoalha na cama simples de solteiro onde ele dorme de bombeta e óculos e diz: “Aê, acorda, bora trabalhar!”

A maioria dos clipes termina antes do despertador. E faz sentido que seja assim. O clipe de funk ostentação é um simulacro, que a série retrata bem quando os MCs Doni e Dondoka discutem seu próprio vídeo: ela quer uma pantera em cena, ele imagina um jatinho pousando no campão da quebrada. É o sonho de consumo sem freio. Porque a única coisa que o Brasil contemporâneo permite almejar é ter, não ser. O que torna cada vez mais urgente a criação de novas possibilidades de sonhos – sonhos nossos mesmo e não fabricados por quem só quer nos ver como eterna reserva de mercado.

A Liga do Funk fez de 2012 a 2018 um trabalho de formação importante e alguns dos meninos que passaram por lá estão na série (Formiga, Torto, Caneta e um dos meninos que recebem Nando, na fazenda do Torto). Mas, dos cerca de 50 mil jovens que passaram por ali, se formaram, aprenderam e ensinaram, apenas cinco chegaram onde queriam. Apenas cinco! Mc João, Mc Menor da VG, Mc Kekel, Mc Lil e Mc MM… por mais esforço que se tenha é um trabalho de Sísifo. O próprio Kondzilla é exemplo. Quantos Konds vocês conhecem por aí? A real é que a história mais comum mesmo dentro da quebrada é a do personagem Juninho. Esse é o caminho mais real. Um jogo de azar, onde quem não aguenta o baque surta.

É preciso investimento na quebrada, em aparelhos públicos, em políticas públicas, em educação. Senão, nossa molecada vai se concentrar tanto em fazer o gol que vai acabar mirando o goleiro e perdendo a chance de marcar. E a quebrada tá cansada de se frustrar.  Enquanto o cenário político é deserto para construções assim, qualquer iniciativa que preze pela formação dessa molecada é bem-vinda. O próprio Kond tem condições de pensar algo assim, uma universidade de quebrada, um instituto que forme esses meninos e amplie o leque de sonhos possíveis. Se não houver mudança na estrutura, uma mudança profunda, a única lógica vai continuar sendo a da reprodução.

Não deixa de ser brilhante que o mais bem sucedido produtor de sonhos da quebrada paulistana produza a série em que o sonho fica nu. Kondzilla, que criou a referência estética da quebrada que entrou no mercado de consumo, expôs nossas entranhas em “Sintonia”, pro bem e pro mal. E o que veio à tona deveria ser motivo de reflexão pra todo mundo, inclusive pros Nelson Motta da vida, que romantizam essa falta de oportunidades e veem na miséria humana, mera matéria-prima pra produzir passatempo de rico.

Tainá de Paula: Wilson Witzel e o chicote da barbárie

Tainá de Paula: Wilson Witzel e o chicote da barbárie

.

Há um projeto de genocídio em curso e não há forma de se minimizar isso. Em plena luz do dia, o governador eleito Wilson Witzel promove uma cena cinematográfica, pousando de helicóptero para presenciar e festejar a execução sumária de um sequestrador desarmado e rendido, em plena luz do dia.

Em países onde a vida das pessoas não é considerada como coisa de menor importância, uma polícia antissequestro estaria sem dúvida na dianteira da discussão sobre executar ou não um sequestrador à luz do dia, na frente de 31 trabalhadores que foram feitos reféns. Não há como mensurar o trauma vivido por essas pessoas.

Não bastasse o show de arbitrariedade no festejo da morte em plena ponte Rio Niterói e na condução do que se concretizou no assassinato a sangue frio, Witzel permite uma série de operações durante essa madrugada em inúmeras favelas do Rio. Turano, Macacos, Providência, Manguinhos, dentre outras e de forma violenta e digna de mais uma denúncia nas cortes internacionais, Witzel permite que granadas sejam jogadas de helicóptero na Cidade de Deus.

De forma arbitrária, o governador carrega em sua gestão 881 assassinatos cometidos contra suspeitos, em incursões policiais questionáveis do ponto de vista da estratégia, método e funcionalidade. Dessas 881 mortes nem contam as mortes de “balas perdidas”, como a que matou o jovem Gabriel Alves de 18 anos, estudante, numa incursão da polícia no Morro do Borel dias atrás.

O fato é que todos esses assassinatos não aconteceram em territórios de milícia. Mas por que eu falo isso? Por que fazer essa distinção? Bem, além do assassinato de suspeitos ser um crime grave que rompe tratados internacionais, é importante dizer que cerca de 70% das notificações do Disque Denúncia do Estado se referem às milícias. Que mais de 60% do território da Região Metropolitana, incluindo a capital do Rio de Janeiro são tomadas por milícia e nesses territórios também se vendem armas, drogas e se pratica toda sorte de negociação ilegal (contrabando, gás, fornecimento de luz, etc).

Nesse sentido, resta indagar algumas questões: por que não enfrentarmos hoje o maior problema do Rio de Janeiro que se chama milícia? Por que insistir em uma estratégia que apenas amplia território para esses grupos, que já dominam concretamente a cidade?

O governo do Rio de Janeiro está assumindo um “brilhante papel”: diminuindo os territórios do comando vermelho e de outras facções, pulverizando o tráfico para os arredores, diminuindo roubos e furtos da capital e deslocando roubos e furtos pra Região Metropolitana, aumentando a letalidade por armas institucionais, implementando a barbárie.

Até termos todas as armas do Estado rastreadas e localizadas, não vamos ter uma política de combate ao tráfico séria. Até termos batalhões sem controle de munição (porque hoje o que opera é a lógica do “uma caixa pro batalhão e outra pro crime”), teremos uma segurança de fachada.

Por que até o presente momento não observarmos intervenção de inteligência de todas as polícias nos presídios de segurança máxima do Estado? Por que não tivemos quebra de sigilo nos celulares, com ampla publicidade dos nomes dos parlamentares envolvidos no tráfico e logística de droga no Estado? Por que o governador em exercício reintegrou os irmãos sabidamente milicianos Christiano Gaspar Fernandes e Giovanni Gaspar Fernandes, então exonerados pelo ex-chefe se Segurança Pública Luiz Beltrame? Afinal, quem se mostra amigo de bandidos? Nós, os defensores da prática legal, letra da lei e direitos fundamentais ou o exibicionista governador reintegrador de bandido miliciano?

O governador distribui corpos para acalmar a sanha genocida do fluminense e garantir votos em cima do desespero da população.

Para nós, formuladores de uma sociedade democrática e equilibrada, nos resta denunciar arbitrariedades como as de hoje e trazer à luz nossos pactos civilizatórios profundos.

É preciso entender que a crise civilizatória brasileira com a recente ode ao mal, assassinatos e barbárie deve ser vista como passageira, para que possamos construir, em tempo oportuno, um novo caminho para esta nação dominada por práticas não apenas fascistas e eurocêntricas, mas cheia de memórias dos porões dos navios negreiros, dos porões das senzalas e das celas das ditaduras.

Até quando o brasileiro vai banalizar o chicote para alguns e aplaudir o chicoteador Senhor do Novo Engenho? Ou respondemos essa pergunta ou é a barbárie.

Estudante-se! Sobre os ataques às universidades e os cortes de recursos na UFU

Estudante-se! Sobre os ataques às universidades e os cortes de recursos na UFU

Foto: Guilherme Gonçalves

Em 2016 estudantes secundaristas compreenderam a gravidade da PEC 241 (que estabeleceu congelamento dos recursos da saúde e educação por 20 anos) e fizeram um importante movimento em defesa da educação pública e contra o governo Michel Temer. Muita gente que não sabia o que era um projeto de emenda à constituição passou a compreender o seu significado. O que estudantes anunciaram em 2016 está ocorrendo: faltam verbas para a educação pública, do ensino básico ao ensino superior e pós-graduação. Estava ruim e piorou. Com o Future-se, Bolsonaro, o golpe “com o supremo e com tudo”, o objetivo agora é destruir a universidade pública. A tática parece ser antiga: primeiro asfixia, precariza, retira recursos. Aí apresenta a solução: privatização. Criar um fundo privado para gerir o público. Como se o problema fosse gestão, como se a saída fosse o mercado, como se não fosse projeto tirar o caráter público das universidades brasileiras.

Na UFU, universidade na qual trabalho, o pesadelo chegou. Ainda não é o Future-se, mas é da família. Veio por meio do Documento SEI nº 1473771, que detalha os cortes em vários serviços e programas de bolsas. No último sábado (17/08) esse documento circulou nas redes sociais e retirou a energia de grande parte da comunidade universitária. Eu me incluo neste grupo. Por mais que possamos nos colocar no grupo que lutou contra tudo que está aí, que poderíamos inclusive dizer: eu avisei, para uma comunidade que, em grande medida, foi insensível aos apelos dos/as estudantes e movimento sindical, está difícil segurar mais esse rojão.

O documento, assinado pelo pró-reitor de planejamento e administração, nas palavras iniciais busca amenizar o drama: “ajuste nas despesas discricionárias da UFU para fazer frente ao bloqueio orçamentário definido pelo Governo Federal”. Não diz: são cortes sobre os cortes. Um mesmo pró-reitor que já defendeu esse governo em conselho, uma mesma administração que homenageou deputado que votou na PEC 241.

Se na introdução as palavras são brandas, a sequência é taxativa e a aplicação é imediata. São dez medidas. De cada dez trabalhadores/as terceirizados/as, cinco ficarão imediatamente sem emprego. Muitos serviços interrompidos como chaveiro, pintura, vidraçaria etc. Grande prejuízo para os campi que não ficam na chamada “sede”. Não haverá transporte intercampi. Cortes nos transportes trarão grande prejuízo para os trabalhos de campo, de uma verba já tão restrita.

A tática parece ser antiga: primeiro asfixia, precariza, retira recursos. Aí apresenta a solução: privatização.

Os grandes atingidos são os/as estudantes. Aqueles mesmos que em 2016 estavam no Ensino Médio e hoje estão nas universidades e que pediram socorro para não deixar a PEC ser aprovada. Muitos dependem de Assistência Estudantil, que tem sua política desmontada desde os últimos três anos. Vejo a fila no Restaurante Universitário crescer à medida que a crise aperta.

Aqui na UFU a medida imposta, sem debate com a comunidade universitária, atingirá mais os estudantes: 60% das bolsas de estágio serão cortadas a partir do próximo mês. São 400 reais mensais, muito pouco, não é? Mas é com esse dinheiro que muito estudante paga comida, material didático, moradia. É com esse dinheiro que muita gente sobrevive. Bolsas do Programa de Graduação, previstas para setembro não serão implementadas. Bolsas de iniciação científica, relativas à contrapartida da UFU para com a FAPEMIG não serão implementadas. Você estudou, investiu no seu currículo, aprovou seu projeto segundo regras muito duras e não terá uma bolsa prevista para o próximo mês “implementada”.

Como professora e militante sindical é um sofrimento viver este momento. Uma colega da minha filha já tinha deixado o curso e retornado à sua cidade de origem quando do corte de bolsa alimentação. Agora essa estatística tende a aumentar. É desolador saber que um sonho, um projeto de vida como estudar numa universidade federal, não possa ser efetivado porque um governo elegeu a universidade pública como inimiga. Não tem surpresa, mas a efetivação é triste.

Frente a tudo isso não dá para esperar. É preciso organizar o movimento dos “Sem Bolsa” frente a esse duro ataque. Teremos que aprender com os sem terra e sem teto como sobreviver a tudo isso. Onde esses estudantes vão morar? O que vão comer? Seremos mais uma vez insensíveis aos seus pedidos de socorro? Proponho uma aliança solidária de todos os movimentos em defesa do direito de estudar. Uma rede de cooperação. Estudantes, não deixem seus cursos! Não vamos deixar esvaziar a universidade do povo negro, pobre, das mulheres, de LGTQI+, das pessoas com deficiência. Foi muito duro para chegarmos até aqui.  Não aceitemos que essas medidas se transformem em estatísticas e sejam vividas apenas como dramas individuais. O ataque é político. É na dimensão coletiva que temos que enfrentá-lo. Vamos somar mais corpos nessa luta. Talvez seja hora de mais ocupações, como diz a palavra de ordem “enquanto morar for privilégio, ocupar é um direito”. Ocupemos tudo. Contra os Cortes, Contra o Future-se: Estudante-se!

Feminismo nas igrejas: “não queremos tomar o poder dos homens, mas destituí-lo”

Feminismo nas igrejas: “não queremos tomar o poder dos homens, mas destituí-lo”

Foto: Fernando Tatagima

Por Rachel Daniel / Mídia NINJA

Me causa risada quando um homem diz: “as feministas cristãs estão querendo impor uma ditadura feminista na igreja.”

Veja bem amigas, pelo contrário, denunciamos uma ditadura patriarcal dentro da igreja. Imposta em nome de um Deus que nós não conseguimos acessar e por isso o conhecemos de forma mediada – e adivinhem? Mediada por homens.

Tenho que dizer também que as igrejas, no modelo que conhecemos hoje, são projetos de poder. Política. Não seria nossa pretensão disputar esse poder e tomá-lo dos homens. Nós estamos para destituir esse poder e caminhar ao lado de quem sofre nas suas mãos (e não só nós, mas todes que lutam por uma fé cristã plural e para todes).

A teologia feminista é marginal e por isso não possui projeto de poder, não espera ser hegemônica e nem impositiva. Ivone Gebara já disse: “Não percebem [teólogos hegemônicos] que a igualdade que queremos não se reduz à cópia do modelo masculino de clérigo, conquistador ou soldado, mas ao direito de existir como cidadãos iguais nas diferentes instituições”, igualdade e diferença são de fato duas faces da mesma moeda.

Estamos sonhando e caminhando na direção de comunidades plurais, em que as mulheres sejam livres também a partir da sua fé. Para que elas se reconheçam indivíduos de direitos, que não se submetam a nenhum tipo de violência e silenciamento e que também tenham acesso direto e livre a Deus.

É por isso que continuamos avançando, denunciando esses poderes e quebrando as correntes dos olhos e dos corações. Foi pra liberdade que Cristo nos libertou, para que ninguém, NINGUÉM, se submeta a julgo de escravidão.

Infelizmente ainda precisamos falar o óbvio.

Fiquem na paz ✌🏽

A educação como instrumento de emancipação e o aprisionamento de um projeto de governo: a pauta “Lula livre”

A educação como instrumento de emancipação e o aprisionamento de um projeto de governo: a pauta “Lula livre”

Foto: Paulo Vitor Maués / Estudantes NINJA

Por Raul Alves Barreto Lima

O momento histórico e político de nosso país merece atenção e reflexão crítica constante tendo em vista que, em face de todos os retrocessos e desmontes feitos e ensaiados até aqui, suscitam alternadamente em nós sentimentos de impotência e desesperança. Resolvemos tratar especificamente da temática da educação pois esta tem sido a que mais vem sofrendo do ponto de vista dos cortes orçamentários, bem como os constantes ataques de perseguição ideológica. Bom, sabemos que esses constantes ataques se tratam de um projeto de governo que, escondido atrás de uma bandeira pretensamente apartidária e sem ideologia, visa ruir espaços importantes de desenvolvimento crítico para endossar suas próprias ideologias, as quais, vemos cotidianamente quais são, pois todas elas, sem exceção, se fundamentam em modelos hegemônicos conversadores, e isso também é ideológico.

Pois bem, sabemos que desde 2013 o Brasil vive uma polarização política em que também cresceu massivamente o despertar em grande parte da população com suas pautas fundamentalistas, acríticas e autoritárias. Ainda em 2016 tivemos o golpe contra a presidenta Dilma Roussef e em 2018 prende-se de forma altamente política e planejada aquele que venceria as eleições: Lula.

Não nos requer muita reflexão para nos darmos conta que algumas das variáveis que colaboraram para isso foram os preconceitos de classe, raça, sexo/gênero, orientação sexual, regionalidade, religião e por aí; e, não é coincidência percebermos quais estratos da população brasileira constituem foco de perseguição do governo e de seus eleitores mais fiéis. Um exemplo ilustra bem isso: quando parte da população brasileira – anteriormente excluída – passou a adentrar nas universidades, isso mobilizou nos detentores exclusivos destes espaços, sentimentos como repulsa, ódio e reatividade, desengatilhando então preconceitos, humilhações, apartações e ódios, afeto este último um dos mais poderosos para se compreender a conjuntura política atual.

Bom, sabemos que foram nos governos Lula e Dilma que a educação, de uma forma geral, obteve um investimento constante da mais alta relevância social, e a partir daqui trago alguns porquês. Compreendo os espaços educacionais, como lugares de produção de conhecimento e saber. Historicamente, quem ocupou esses espaços e produziu conhecimento foram as elites, personificadas no homem branco de classe alta/média. Histórica e socialmente, é a partir desse substrato social que o saber é investido de legitimidade e torna-se hegemônico, o qual passa também a definir o que são e como devem ser todos os “outros”. Esses “outros” aqui abarcam todos aqueles/as que socialmente, em suas posições de subalternidade, não possuíam o poder de autodefinição a partir de sua própria experiência e, em termos de educação, acredito que seja justamente aqui que torna a pauta “Lula livre” o ponto de aprisionamento de um modelo de existir e fazer-se sujeito social. Em resumo, a partir do momento que pessoas outras adentram em espaços de construção de conhecimento, trazendo suas próprias experiências a partir de suas localidades¹, isso estremece os modelos hegemônicos variados, pois em seu movimento dialético é capaz de fazer uma fissura na intersecção da relação opressor- oprimido, tensionando então os modelos de dominação e poder.

Passamos a não mais ter a caricatura do homem branco, imbuído de seus interesses e preconceitos, definindo o que era a negritude, as relações LGBT, os povos indígenas, os povos das periferias brasileiras, envoltos por toda sorte de vulnerabilidades sociais, os quais sentem o poder do Estado pela via policial e do extermínio, uma política de morte que dita quem merece viver e quem merece morrer – necropolítica. Passamos por um período histórico recente em que a conformação com os modelos de exclusão se abalaram, o que também pode explicar essa reatividade à educação e às pessoas que passaram a ocupar espaços de poder – como nas universidades –, podendo então falar sobre as realidades e experiências de seus povos e de seus pares e, assim, fazer movimentar democraticamente a construção crítica do conhecimento, o que, a meu ver, trouxe um enriquecimento da maior grandeza para a sociedade brasileira.

A universalidade das teorias e definições que costumam atender a projetos de poder e dominação sofreram a ruptura que precisavam, e essa revolução não foi uma luta armada; foi uma luta de saber pautada nas questões identitárias, foi uma luta de significados, ou recorrendo a Patricia Hill Collins, houve o enaltecimento da “experiência vivida como critério de significado”².

O aprisionamento político de Lula é simbolicamente interessante porque também representa o aprisionamento de poder esperançar.

Antes de finalizar essa breve reflexão e recorrendo à importância da pauta “Lula livre”, quero trazer outro ponto que considero da mais alta relevância. O aprisionamento político de Lula é simbolicamente interessante porque também representa o aprisionamento de poder esperançar. Sustento isso na medida em que, ao oferecer ao povo condições nunca imaginadas, tornou possível à população excluída historicamente de inúmeros espaços, a possibilidade de sonhar sonhos outros. Quantos foram os relatos vindo dos negros e das pessoas vindas das classes sociais mais baixas que romperam a transgeracionalidade familiar e comunitária e foram os primeiros de suas famílias a conseguir um diploma de ensino superior? Quantos a partir disso puderam almejar, disputar e de fato alcançar posições sociais de prestígio, passando então a transformar realidades? Pensemos na relevância disso para a construção das políticas públicas de formas mais democráticas e plurais, como de fato devem ser. A educação nos sentidos aqui narrados é emancipadora.

Parece que vivemos uma realidade distópica em que buscam dilacerar nossa imaginação e criatividade, buscam nos embrutecer, nos entorpecer ao ponto de nos conformarmos de que nada há o que fazer para sonharmos coletivamente o sonho de um país mais justo preservando suas diferenças e pluralidades. Por entre os vãos e as fissuras proporcionadas pelas alternâncias de esperança e impotência, subjaz a historicidade em sua inerente movimentação. Desse modo, decidimos ficar com Angela Davis, pois “a liberdade é uma luta constante”³, afinal, “não existe revolução final. As revoluções são infinitas”4.

Raul Alves Barreto Lima é psicólogo, mestre e doutorando em Psicologia Clínica (PUC/SP).

Referências:

1 HARAWAY, D. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu (5) 1995: pp. 07-41.

2 COLLINS, P. H. Pensamento feminista negro. 1a ed. – São Paulo: Boitempo, 2019.

3 DAVIS, A. A liberdade é uma luta constante. São Paulo: Boitempo, 2018.

4 ZAMIÁTIN, I. I. Nós. São Paulo: Aleph, 2017.

Imersões ao Acre Profundo – Episódio VI: Xapuri

Imersões ao Acre Profundo – Episódio VI: Xapuri

Foto: Denilson Almeida

Nossa sexta “Imersão ao Acre Profundo” desse nosso segundo mandato de deputado estadual aconteceu entre os dias 15 e 17 de agosto de 2019.

Saímos de Rio Branco, de carro, como de costume, dessa vez pela BR-317, em direção ao município de Xapuri, na região do Vale do Alto-Acre. Em Xapuri, nossos destinos foram as comunidades rurais dos antigos seringais do município, hoje abrangidas pela Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes.

Para adentrar à Resex, além da benção de São Sebastião, padroeiro de Xapuri, é necessário pedir licença: em primeiro lugar, à mãe natureza; em segundo lugar, à memória dos mártires que deram a vida para que a Resex fosse instituída, em benefício de seus posseiros originários.

Foto: Denilson Almeida

Percorremos as possessões de boa parte dos antigos seringais e suas respectivas colocações, hoje abrangidas pela Resex: Seringal Floresta, colocações Rio Branco e Taquari; Seringal Nazaré, colocações Peregrino e Nova Vida; Seringal Tupá, colocações Maloquinha e Jarinal; Seringal Lua Cheia, colocações Triunfo e Baixa Verde; Seringal São Pedro, colocações Escondido e Itapiçuma; e Seringal Fronteira, colocações Novo Oriente e Extrema.

O seringueiro contemporâneo não é apenas extrativista: é também pequeno agricultor da agricultura familiar e pequeno pecuarista. As antigas colocações, com suas respectivas estradas de seringa e piques de coleta de castanha convivem com pequenas pastagens para o gado e roçados de culturas diversas: macaxeira, milho, arroz, feijão, dentre outras. As políticas públicas educacionais, levadas a efeito pelos governo da Frente Popular do Acre (FPA), de 1999 a 2018, levou a oferta de todos os segmentos e modalidades da Educação Básica aos rincões mais longínquos e de difícil acesso do Estado.

A estratégia “Saúde da Família”, com o seu programa “Saúde Itinerante”, também fez chegar a atenção básica em saúde a tais comunidades. “Luz para Todos” ou placas solares suprem a demanda por energia elétrica. Motocicletas, quadriciclos e caminhonetes tomaram o lugar das longas jornadas à pé, no lombo de um cavalo ou de carroças, tão comuns há 20 anos atrás.

A grande dificuldade, ainda presente, hoje em dia? Garantia de acesso, pelos ramais (nossas estradas vicinais), o que exige intervenções anuais de máquinas pesadas (tratores, pás-carregadeiras, retroescavadeiras, caçambas, patrol’s) para viabilizar o escoamento da produção e o exercício do direito de ir e vir.

Foto: Denilson Almeida

A agricultura, a pecuária, o agronegócio, são todas atividades importantes para uma matriz de desenvolvimento em um país com vocação agro-silvo-pastoril. Há, porém, que se ter equilíbrio entre o crescimento de pastagens e lavouras e a preservação ambiental.

A floresta de pé não é entrave para o crescimento do agronegócio. Os obstáculos são outros, tais como a ausência de mecanização, assistência técnica, acesso ao crédito e garantia de escoamento da produção. Isso sim prejudica os agricultores – pequenos, médios ou grandes – pois não deixa outra alternativa a não ser apelar para o uso do fogo e o constante desmatamento em busca de terra fértil para novas lavouras ou pastagens. Com o emprego adequado da tecnologia e seus insumos, é possível tornar a terra agricultável e produtiva sem a necessidade de novas queimadas ou desmates a cada ano.

Essa nossa 6ª Imersão ao Acre Profundo aconteceu em uma semana onde se divulgou que o desmatamento, no Acre, aumentou mais de 300% desde início dos governos de Jair Bolsonaro (PSL) e Gladson Cameli (PROGRESSISTAS). Poucas semanas depois que o presidente da República contestou dados legítimos sobre desmatamento, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE, demitindo o seu presidente, Ricardo Galvão, cientista respeitado na comunidade científica internacional; semanas após a Alemanha e a Noruega cancelarem suas cooperações e as respectivas transferências de recursos para o Fundo Amazônia, responsável pelo financiamento de centenas de projetos de desenvolvimento sustentável na região; na mesma semana em que fazendeiros declararam a celebração do “Dia do Fogo” na Amazônia, motivados e incentivados pelas declarações erráticas de um presidente insano…

Foto: Denilson Almeida

Por tais motivos, essa imersão tornou-se ainda mais simbólica, pois os moradores das comunidades visitadas ainda têm, no extrativismo, a sua principal atividade econômica, fonte de renda e de sustento de suas famílias.

Esse é o sentido e o intuito de nossas imersões: “ver – e conhecer – de perto, para dizer de certo.” Aprendemos isso com as “Caravanas da Cidadania”, de Lula; e com a experiência dos governos populares de Jorge Viana, Binho Marques e Tião Viana. Atualizar esse conceito e praticá-lo, no dia-a-dia da política, é fundamental para parlamentares e gestores de nosso tempo. Temos nos dedicado a essa tarefa, com todo afinco e intensidade, nesse nosso segundo mandato de deputado estadual.

Esperamos que vocês gostem do nosso relato e dos registros.

Até a próxima imersão!

Foto: Denilson Almeida

Foto: Denilson Almeida

É o coco do Figueiredo ou o cocô do Bolsonaro?!

É o coco do Figueiredo ou o cocô do Bolsonaro?!

Imagem: Rapha Baggas / via Design Ativistas

Em 1979, o General João Baptista Figueiredo, o último presidente da ditadura militar que durou mais de 20 anos, assim respondeu a uma criança que perguntara o que faria se o seu seu pai recebesse um salário mínimo: “daria um tiro no coco”. O general, que presidiu o Brasil de 15 março de 1979 até 15 de março de 1985, era conhecido por suas tiradas estúpidas, como quando disse que “preferia o cheiro do cavalo ao cheiro do povo”.

Cabe registrar que, de 1964 até 1985, os presidentes do Brasil eram escolhidos por uma junta militar. O golpe de 1964 baixou um ato institucional sem número, em nome de um suposto poder “revolucionário” que prometia a realização de eleição para presidente do Brasil no ano seguinte. Em 1965, quando ocorreria nova eleição, a ditadura baixou o ato institucional nº 2, e foi assim que o ato anterior sem número passou a ser chamado de AI-1. Depois desses, foram baixados 17 atos institucionais, sendo que o último, editado em 14 de outubro de 1969, autorizava a junta militar a mandar para a reserva quem atentasse contra a coesão das forças armadas. Sua finalidade era conter a insatisfação contra a indicação de Emilio Garrastazu Médici, sanguinário presidente do regime militar.

Em 2019, 40 anos depois do coco do Figueiredo, o presidente Bolsonaro, o “capitão américa do Trump”, bem ao estilo daquele general, assim se manifestou acerca do desmatamento da Amazônia: “é só você fazer cocô dia sim, dia não, que melhora bastante a nossa vida”.

Será que Bolsonaro, protótipo de ditador, colocou acento circunflexo que faltou ao general da ditadura? As semelhanças entre os dois são muitas, mas a principal é que sempre cagaram para o Brasil. Figueiredo jamais enganou, nunca foi o paladino da abertura e da democracia, muito pelo contrário, em sua longa carreira, serviu ao Serviço Nacional de Informação – SNI – e ao Departamento de Ordem Político Social – DOPS -, ambos órgãos de torturas, assassinatos e desaparecimentos como políticas de Estado do regime militar. É importante registrar que seis mil militares contrários ao regime foram expulsos das forças armadas. E Bolsonaro nunca foi a “nova política”, nem inimigo da corrupção e muito menos alguém que respeita a democracia.

Da mesma forma que Figueiredo tentou blindar a ditadura de um fim melancólico, Bolsonaro ofende seus opositores para esconder sua máscara que já caiu. Na biopolítica brasileira, o estado de direito existe para as classes média e alta, enquanto sobra para o pobre o estado de exceção. Mas o embate entre o estado de direito e o estado de exceção está vivo na política e não podemos deixar os fascistas crescerem. É preciso estar atento e forte, vamos à luta sem descansar, ocupando todos os espaços abertos de democracia nas ruas e nas redes sociais!

O cocô do Bolsonaro e o seu herói assassino e torturador

Posted by André Barros on Tuesday, August 13, 2019

André Barros é advogado da Marcha da Maconha, mestre em ciências penais, vice-presidente da Comissão de Direitos Sociais e Interlocução Sócio Popular e membro do Instituto dos Advogados Brasileiros.

Por que não vivemos?

Por que não vivemos?

Camila Pitanga, em “Por que não vivemos?”. Foto: Nana Moraes.

A Cia Brasileira de Teatro encerra nesse final de semana, no Rio de Janeiro, a temporada do espetáculo “Por Que Não Vivemos?”, que esteve desde o início de julho no teatro do CCBB. Integra, em sua equipe, um elenco com interpretação de peso e o diretor Márcio Abreu, que vem acumulando prestígio na carreira à frente da Companhia, com troféus como Shell, Bravo!, APCA.

A peça é uma tradução brasileira do texto antigo, o primeiro, do escritor russo Tchekhov. Era um manuscrito sem capa, portanto sem título, encontrado em 1920 conforme conta Giovana Soar, que adaptou o texto para a Companhia junto a Márcio e Nadja Naira. “Por Que Não Vivemos?”, frase-trecho do próprio espetáculo, foi escolhido como título que nos adianta quais provocações nos serão feitas naquele contato com o palco remontado do CCBB.

Meu primeiro contato com a Companhia foi em Vida, espetáculo de 2010. Desde então, a experiência continua viva na memória. Entrar no teatro e deixar que suas paixões e preconceitos mais banais de uma vida cotidiana sejam convocados à cena, transformados num drama sem pé nem cabeça. A poesia do teatro. Vida parece a palavra-chave para as performances da Companhia. Em “Por Que Não Vivemos?”, a primeira cena é a chegada de convidados para a celebração na casa de uma jovem viúva. É literalmente uma celebração de chegada ao teatro.

Quem ama o teatro certamente o faz por conta de alguma experiência, ou de várias acumuladas, no contato com a arte da interpretação, ou qualquer que seja o conceito de teatro que podemos mencionar aqui. Há uma tradução da enciclopédia britânica que fala do teatro como uma experiência intensa, envolvente, meditativa, inquiridora, a fim de descobrir o significado mais profundo, uma cuidadosa e deliberada visão que interpreta seu objeto.

Quem não gosta do teatro, infelizmente são muitos, certamente o faz pelos motivos inversos. E também são várias as oportunidades de frustração, em diversos lugares, com a experiência teatral. Se você encara a ida a um espetáculo como uma fuga cujo envolvimento é necessário para preencher de ilusão ou de entretenimento seus momentos de folga, a boa experiência é quase uma exigência. Folga é para privilegiados, diremos isso no futuro? Por que não vivemos? Abertos, portanto, ao envolvimento, proibidos de ver o celular por 150 minutos, o público do teatro há que despertar algum sentimento.

O último a chegar ao teatro, eu não sabia encontrar a minha poltrona no início do espetáculo. Alguém me socorreu e apontou para a arquibancada montada sobre o palco, em um lugar posicionado acima de um sofá. Da plateia, subi para os holofotes, tirei alguém que sentava em meu lugar achando que eu não mais viesse. De cara, o espetáculo se conformava nos desajustes de palco e plateia. Nada está dado. Nada disso – a disposição do público nos palcos contemporâneos – também é novidade, mas ao mesmo tempo sempre é.

Naquela celebração, as personagens começam a aparecer e para quem, como nós, já está condicionado à narrativa do drama, tenta a algum custo encontrar quais as relações se mostram ali, os parentescos, os que se amam, os que se odeiam, vilões e patifes. A peça de Tchekhov traz uma série de personagens que se misturam entre quem são e quem poderiam ser. Como nós sempre nos vemos diante dos outros.

Platonov é um personagem-chave para a geração dessas paixões. Galanteador, provoca a seu redor as frustrações de uma vida que poderiam ter vivido, sobretudo em Sofia, a quem amou na juventude. Sob a festa e os encontros, vemos burgueses festejantes, falidos, típicos personagens de Tchekhov. Na pré-revolução russa, eles se mantêm inertes diante da crise. Seria a nossa atual classe média? Em uma sonoridade envolvente, a voz das personagens ecoa como se estivéssemos todos juntos presos num espaço-tempo distante. Ou uma caverna realmente sem saída, ou somos fracos demais para encontrá-la.

Em muitos momentos do espetáculo, se repete a sensação de que aquele eco já ressoou e a cena é a mesma. Até que em um momento bastante nítido, alguns códigos ficam evidentes e o ritual se mostra à cena. Em um looping contínuo, os personagens mantêm as falas e atitudes. E a gente ri, igualmente, todas as vezes. Difícil não relacionar às angústias dos tempos modernos, em que tudo se repete e a vida apenas permanece. No ritual da vida cotidiana, nossos ídolos são os mesmos, as aparências não enganam. Mas apesar de tudo o que vivemos, ainda somos os mesmos?

O baque do teatro é aquele em que o ator desliga o aparelho sonoro que faz a voz ecoar. Ou aquele momento em que os atores, repentinamente, reagem com silêncio quando enlouquecidamente só riam e bebiam. De repente nos percebemos no jogo de ilusões. A crise não é do passado, ela ainda é viva. Muito se tem dito sobre o estado de imobilidade social diante de um estado crítico sem precedentes sob o qual sobrevivemos. Diante desta crise, o medo sempre aparece com chances graduais de vitória.

Mas felizmente, por aqui também se vê muito um espírito de proatividade, um interesse ainda vital de provocar pequenas vitórias, boas narrativas, rumo a um horizonte utópico que não se constrói apenas por sua contemplação e jamais de forma individualista. “Felicidade pessoal é egoísmo”, dizia Tchekhov. Quais métodos poderia o teatro nos ensinar para vencer o medo, bloquear o looping constante de nossas vidas e estimular alguma atitude?

Serviço
Espetáculo teatral: Por que não vivemos?
Da obra Platonov, de Anton Tchekhov
Direção: Marcio Abreu
Elenco: Camila Pitanga, Cris Larin, Edson Rocha, Josi Lopes, Kauê Persona, Rodrigo Bolzan, Rodrigo Ferrarini e Rodrigo dos Santos
Adaptação: Marcio Abreu, Nadja Naira e Giovana Soar
Temporada: de 3 de julho a 18 de agosto de 2019
Local: CCBB Rio – Teatro I (Rua Primeiro de Março, 66 – Centro).
Duração: 150 min.
Classificação indicativa: 16 anos.

“A cultura popular é um dos maiores tesouros que temos”, defende Moyseis Marques

“A cultura popular é um dos maiores tesouros que temos”, defende Moyseis Marques

Foto: Marcelo Costa Braga

Por Eduardo Sá

Neste ano completou quarenta anos de idade e hoje, sexta-feira (16/08), lança seu primeiro DVD, Passatempo, no Clube Santa Luzia, no centro do Rio de Janeiro (veja aqui o evento). As datas comemorativas não param por aí, pois o músico Moyseis Marques comemora vinte anos de carreira nesse trabalho. Traz no currículo seis CDs, músicas em novelas, shows em diversos estados do Brasil e países mundo afora. Tem parcerias com renomados artistas nacionais, como é o caso de Chico Buarque, que faz parte também desta sua mais recente realização em parceria com a gravadora Biscoito Fino.

Moyseis Tiago Leite é mineiro de Juiz de Fora (MG), mas passou seus primeiros vinte anos no Largo do Bicão, na Penha, subúrbio do Rio. Versátil, dedica-se há anos aos ritmos brasileiros, em especial o samba de raiz, o forró pé de serra e a MPB. Começou com sua viola nos bares e hoje já carrega duas indicações ao Prêmio da Música Brasileira, como melhor disco e melhor cantor. Sua arte pode ser vista em várias plataformas digitais: Itunes, Deezer, Spotify, etc.

Na entrevista à NINJA, ele reflete sobre sua trajetória musical e como o músico profissional não é levado a sério em nosso país. Mesmo com uma carreira consolidada, os desafios para produzir e divulgar seus trabalhos são enormes, além das dificuldades financeiras. Por sermos do terceiro mundo, segundo ele, tudo chega depois e há um desinteresse tanto do público quanto do mercado pela música de qualidade. Inquieto, também faz uma análise crítica do atual governo e dos tratamentos à cultura nacional.

Você fez quarenta anos num show com vários artistas e completa 20 de carreira com a produção de um DVD, o que representa esse momento na sua vida?

Essa aventura de viver de música começou espontânea, as pessoas foram gostando e aglomerando até me tornar um músico profissional. Demora para se dar conta que ser músico é uma coisa e artista outra. Meu compromisso lá atrás se resumia a cantar, tocar e compor, que já é bastante coisa, e ser artista tem entrevistas, ir à televisão, elaborar projetos, etc. É tipo um casamento, vai renovando votos e buscando fôlego.

Sou eclético, muito inquieto, então tenho meu trio de forró, minha roda de samba, meu show com Chico Buarque, outro dia cantei com o Monobloco, já toquei com o Rio Maracatu. Sou muito interessado, adoro jazz, um capítulo que ainda não mergulhei mas tenho muita vontade. Inclusive de estudar nos EUA, que é um país que tenho certa relação.

É legal ver o que me tornei, aonde posso chegar e me posicionar no tempo e espaço. As expectativas que no início são apenas suas passam a ser de quem torce por você, te apoia, é teu fã, compra seu disco, te ouve e vai aos teus shows. São também as minhas expectativas e frustrações dos outros. Às vezes querem me ver ao lado de artistas muito famosos, num programa de horário nobre com uma audiência incrível.

Mas ao lado do Chico Buarque, um dos artistas mais famosos do país, não atende?

Pois é, mas mais famoso para quem? Para nós da classe média, infelizmente o que se vê de mídia de massa não é isso. Não estamos na era dos festivais, sabe? As pessoas não estão interessadas no novo disco do Edu Lobo ou do Dori Caymmi, inclusive se passarem na rua ninguém conhece. E é o que eu quero ser quando crescer, são dos músicos mais geniais desse Brasil. Então, em 20 anos tem desejos que tinha e não tenho mais, em compensação tenho outros. O Aldir Blanc fala que poucos compositores conseguem desfrutar a glória do anonimato, que é estar num lugar e todo mundo cantando sua música sem ninguém saber quem é você.

Paulo César Pinheiro é o maior ícone nesse sentido, muita gente não o conhece.

Inclusive músicos. Eles fazem parte do meu quarteto de super-heróis: Paulo César Pinheiro, Nei Lopes, Aldir Blanc e Chico Buarque. O último é famoso porque foi artista na década de 60, mas não faz shows. Lança um disco, faz turnê, vai à Europa e desaparece. Não é igual ao Gil e o Caetano, que estão em todas e sempre pegando fôlego. É um bicho de palco, eu também tenho uma coisa do teatro, gosto de manipular o sentimento e conduzir. Meus ídolos são esses mais ali naquela coisa de camarim, mas existem várias formas de participar sem estar no centro do espetáculo.

Música tem o cara que compõe, o que escreve o roteiro, o dos arranjos, todo mundo está contribuindo, e tem o bobo da corte principal que conduz. Sem essa estrutura não faz nada. Então é o tempo de analisar essa trajetória e traçar um novo começo com mais consciência de onde se quer chegar. Para o leigo ou você é muito famoso tipo Ivete Sangalo e Anitta ou um João ninguém. Entre eles tem uma gama enorme, o Cartola foi gravar o primeiro disco com 60 anos. Jackson do Pandeiro, que está fazendo cem anos, é uma das minhas maiores referências morreu e não tinha nenhum ícone da MPB no seu enterro. Não dá para todo mundo ser Chico ou Caetano. Na própria tropicália, quantos estiveram ali sem projeção? Torquato Neto, o próprio Tom Zé…

O Tom Zé você acha que não é conhecido?

Hoje em dia né irmão, que se impõe mais pela subversão que pelo tocar e cantar. É outro tipo de genialidade. Falam em Bossa Nova e João Gilberto, mas não em Johnny Alf, que esteve antes disso tudo. Tem essa ausência de expectativa por um lado, certo ceticismo que vamos adquirindo, você cria uma proteção diante do vivemos.

Agora vai ter o lançamento do meu DVD, cheguei a ver alguns teatros, eles até têm data, mas a condição é uma conta que nunca vai fechar. Tem até uma piada: lançou o disco, eaê vendeu muito? Vendi um Peugeot 206, uma televisão 42’’ e uma bicicleta. Não existe mais aquele empresário, antigamente o mercado e a mídia queriam saber das mentes criativas, o artista era medido pela sua capacidade intelectual e técnica. Agora se interessam pelo artista que lota as casas.

O que mudou nessa estrutura fonográfica? Isso dava dinheiro, né?

Na crise as pessoas não querem mais pagar por música, ainda somos terceiro mundo e tudo chega depois. O brasileiro está aprendendo agora a comprar com cartão de crédito, então antes de baixar seu disco no Itunes tenta de toda maneira baixar de graça. Se não consegue, talvez pague de 15 a 20 reais. A minha geração ficou no meio desse limbo, ainda peguei esse resquício.

Se assinasse um contrato com a gravadora estourava um champagne, se ela quisesse gravar um disco comprava um carro. Se gravasse um disco com Zeca Pagodinho já levava R$ 50 mil pra casa. Hoje você pega o disco, e o que vou fazer agora? Tem uma minoria que compra, mas não é uma coisa de massa. Você vai ao meu show no Circo cheio e acha que tô bombando, mas só em certo contexto e nicho.

Foto: Marcelo Costa Braga

Mas você é um artista que já tem certa visibilidade, tanto é que deu entrevistas a várias mídias nesta semana.

Sim, mas quem lê O Globo ou o Correio Braziliense? Eu compro o jornal, tiro a foto da matéria e posto nas minhas mídias sociais, impulsiono no meu cartão de crédito, que faz com que isso chegue às pessoas. Acham foda ter saído no jornal, a gravadora foda, só que é o meu cartão. No meu primeiro disco em 2007 eu era capa do Segundo Caderno, fui à Hebe, ao Jô, tive duas músicas em novela, todo mundo falava que depois que eu botasse uma música em novela ia estourar.

Não estou criticando as plataformas digitais, só dizendo que estamos atrasados. A geração depois da minha já tem outro esquema de trabalhar com singles. Mas claro que essas ferramentas dão possibilidade, mesmo sem o respaldo de uma gravadora. Se viajo o Brasil todo, cantei na maior casa de jazz da Europa, vou todo ano aos EUA, não é porque minha música entrou na novela. Foi por causa da mídia social, mas capitalizar isso a ponto de ficar tranquilo e não preocupar com dinheiro? Não. Tenho 20 anos de carreira e continuo indo ao Mundial fazer compras, parcelo coisas, devo, entende?

Você acha que essa dificuldade de sustentabilidade do músico é por falta de incentivo dos poderes públicos e do mercado?

Quem está interessado nisso? Essa é a questão. A música tem uma coisa muito cruel, qualquer outra profissão se você é foda cresce, é promovido, remunerado. Na música você pode cantar e tocar pra caralho e as pessoas não estarem nem aí pra você.

Tenho percebido que há uma diferenciação não só do pagode pro samba, mas dentro do próprio samba em definir qual é a linha de raiz ou não.

É uma discussão velha, porque pagode significa festa. O rei do samba é Pagodinho, ele mesmo não explica a diferença porque não tem. Conheço bons pagodes e outros ruins. No samba tem uma galera nova que gosta do mais antigo, busca os primórdios: Ismael, Cartola, Noel, etc. Tudo é samba no final das contas. O de 1917 era mais maxixado, como o Pelo Telefone. Em 30 e 40 tem uma coisa de cronista, como Noel, já em 50 tem os sambas carnavalescos. Depois tem samba de partido alto, breque, gafieira, canção, choro, terreiro, quadra e enredo. Em 80 vem Fundo de Quintal e por aí vai, tudo samba.

Tem a galera da zona sul estudada, a Leila Pinheiro dizia que o Tom ficava puto com essa história de Bossa Nova: Samba de uma nota só, de Orly, do Avião, é tudo samba. Então há subdivisão, assim como no forró: xote, baião, rojão, arrasta pé, etc. Tudo faz parte de um oceano muito profundo e vasto. Minha geração bebeu tudo isso, tem o João Martins que faz assim, o Mosquito que faz assado, eu mais com violão, o João Cavalcanti mais crânio, o Alfredo Del-Penho um baita instrumentista. Todos fazem parte da mesma coisa, cada um à sua maneira.

Amo Paulo César Pinheiro, Almir Guineto, Chico Buarque, mas cresci ouvindo Raça Negra e Só pra Contrariar, junto com Leci, Jovelina, tudo junto e misturado. O problema é quando entra la plata. Neguei atalhos, recebi muito convite para cantar pagode na década de 90. Você faz o que quer do seu talento.

São escolhas e renúncias e muitas vezes você deve ter se sacrificado por isso, mas acredito que ao mesmo tempo é muito gratificante também.

Me sacrifico até hoje, meu caminho é de formiguinha. Sigo uma linha que acredito e sei fazer, gosto e sou mais eu. Você vai educando o público também, acabei de fazer um show com Del-Penho e o Pedro Miranda só de músicas nossas. Duas horas com as pessoas lá chorando, embevecidas, aplaudindo. E o mercado quer me convencer que as pessoas não estão interessadas.

A cultura é tratada como sobremesa, quando devia ser tratada como arroz e feijão.

Tenho um produtor, mas não é nenhum grande empresário. Ele quer alguém para investir, atualizar o site, me dar tranquilidade de ficar um pouco mais em casa. Tenho 40 anos, e quando tiver 70? Hoje estou adorando tocar 19h da noite e 23h estar em casa de cueca tomando minha cerveja vendo televisão. Gosto da boemia porque minha inspiração maior é as pessoas, mas tem um paradoxo muito grande na minha profissão: me orgulho muito de viver de música, mas a pior coisa é depender da bilheteria para pagar o colégio da sua filha. Cai uma chuva e tu chora, ou tem um Paulinho da Viola no Circo Voador. As pessoas estão duras também, vão onde quiserem e o dia que eu precisar ficar implorando para me ver a arte perde sentido.

Dá a impressão pelo seu trabalho que a cultura popular nacional te encanta profundamente, o que você pensa sobre ela?

É raiz, ancestralidade, o que brota do chão, do barro, que dá essa sensação de pertencimento. Quando estou numa roda de capoeira em Padre Miguel me arrepio. Acredito nas forças da natureza, estou afastado do Candomblé mas acredito no mar, no vento, no céu, no movimento da terra e dos astros. Tudo isso brota de um lamento, um refúgio e isso permanece. O blues é um canto de lamento, uma ladainha de capoeira também, o forró é feito dentro de uma seca, tudo isso fica. Quando você reproduz aquilo se conecta, é o que faz você ser brasileiro e dá sustância à sua carreira.

A música vem a partir disso, se hoje acerto no repertório mais do que erro é por ver o que as pessoas querem. Acompanho essa produção de perto, e a cultura popular é um dos maiores tesouros que a gente tem. O Brasil é uma potência lá fora não pela sua arquitetura, nem engenharia ou medicina, é por causa da sua cultura e arte. São 519 anos de exploração convertidos numa arte indígena, negra, africana, europeia, americana. Tudo isso gerou essa música forte, rica, diversificada, inclusiva e com tantas texturas, ramificações. Tantas possibilidades harmônicas, melódicas, líricas, etc.

Foto: Marcelo Costa Braga

Mas para além do sentimento, como você vê o tratamento à cultura?

A cultura é tratada como sobremesa, quando devia ser tratada como arroz e feijão. A Beth Carvalho morreu dizendo que o samba devia ser ensinado nas escolas. Quando cantamos falamos de forças da natureza, escravidão, amores não respondidos, política, ditadura, tudo. É a história do país traduzida através de arte, só que uma das funções da música é entreter. Além disso emociona, transforma, acessa lugares nas pessoas que nenhuma outra arte acessa.

Num momento como hoje, onde os artistas são inimigos do país, as autoridades não estão nem aí, o entretenimento tomou a poesia. As poucas políticas públicas estão sendo dizimadas, até a possiblidade de fazer festa na rua está encontrando dificuldade. Estamos no terceiro mundo.

Segunda vez que você cita isso, didaticamente o que quer dizer?

Nos EUA, por exemplo, as pessoas se interessam. Aqui falo sou músico, aí perguntam: e o seu trabalho? Não é levado a sério, se você não tiver num Domingão do Faustão ou ter a cara no outdoor. Vejo isso quando tenho que alugar um apartamento, comprar um carro, estou numa imobiliária, um crediário ou coisa que o valha. Hoje sou inquilino do Luiz Antônio Simas, um baita gênio, pela primeira vez uma pessoa me respeita pelo que construí. Estudo pra caralho harmonia, teoria musical, rítmica, técnica vocal, violão, tanto quanto um médico, engenheiro, advogado, dentista. Estudei na federal de química, meus amigos são nutricionistas, farmacêuticos e parece que a música é menos. Apesar dos 60 mil seguidores ainda sou minoria. A maioria quer saber de outras coisas.

Isso é sintoma de uma alienação geral, que inclusive teve ressonância política gerando o cenário atual?

O Brasil é uma republiqueta com uma jovem democracia, uma corrupção sistemática, endêmica e estrutural. Criado nesta base desde que os portugueses chegaram, e parecia que estávamos caminhando para um lugar com mais diversidade, por mais que ainda se tenha muito a caminhar. Aí vem um e fala: tem que botar ator negro. Hoje botam 3 negros e 15 brancos, mas e o diretor e o escritor? Só com ator ele vai continuar fazendo papel de subalterno. Aquela música do Moacyr Luz: estranhou o quê, o preto pode ter o mesmo que você. Dignidade, alimentação, moradia, é o básico, ele está falando: o carro, morar no seu prédio, ser presidente, senador, chefe de empresa. Esquecemos que Machado de Assis era negro. Tudo isso vem através de golpes, seja militar ou parlamentar, como foi o último. O cara que autorizou o impeachment está preso. Mas também acho que o petista doente é tanto quanto o bolsonarista, a esquerda festiva é tão maléfica quanto o pobre de direita.

Minha discussão política com os amigos mais íntimos termina quando pergunto o preço da passagem de ônibus. Nunca foram ao hospital público, vivo sem plano de saúde há mais de cinco anos. Minha filha nasceu em hospital público, quando teve pneumonia foi tratada, está no colégio Minas Gerais, que é referência em escola pública. Com sete anos está estudando espanhol. Então existe, mas tem que democratizar.

Como tirar aqueles sexagenários brancos do congresso nacional de uma vez? Essa pessoa que foi eleita, a maneira como chegou ao poder, é o que mais me irrita. Não só porque é homofóbico, idolatra torturador, xenófobo: isso é um retrato do Brasil. Por ser um cara completamente despreparado e desqualificado para exercer aquela função. E o brasileiro bota ele lá dessa maneira: facada, whatsapp, fugindo do debate, prendendo o Lula e o tirando da eleição, etc.

Me preocupa porque essas pessoas são desequilibradas. Imagina do que é capaz quando a casa começar a cair, como já está acontecendo? Zavascki ninguém fala mais, não estou nem falando de Marielle, que quanto mais abafam mais ela se reverbera. Carisma ninguém compra. Espero que esta merda que está acontecendo sirva para prestarmos atenção como as coisas acontecem, pensar mais nos deputados, senadores e vereadores que votamos, não só no executivo.

“O que acontece com os wajãpi diz respeito a todos”

“O que acontece com os wajãpi diz respeito a todos”

Foto: Apu Gomes

Coluna publicada originalmente aqui

Dificilmente alguém consegue se orientar por uma placa escrita em língua que desconhece. Ao abdicar da ideia de que faz parte da natureza, o homem urbano perdeu a capacidade de ler os seus sinais. Por isso quase toas as suas tentativas de domesticá-la terminam em destruição. Ele é um iletrado na floresta. No recente episódio do assassinato do cacique Emyra e da tentativa de invasão às terras Wajãpi isso ficou ainda mais claro.

Segundo o relatado na investigação, a polícia não encontrou indícios dos crimes. Certamente os Wajãpi não mentiram e acredito que o poder público também não. O mais provável é que os policiais foram incapazes de enxergar as evidências apontadas pelos Wajãpi. O que para os meus parentes era claro, para eles era grego.

A terra é o espírito e o corpo do indígena; sentimos o que ela sente. O médico ouve os sintomas, mede a temperatura, mas só o paciente sente. E o planeta está febril, começando a entrar em convulsão.

Cidades e até países já decretam emergência climática, e, segundo a recém-divulgada pesquisa de opinião do Datafolha, a grande maioria da população (72%) não só acredita na existência das mudanças climáticas como credita a atividade humana como sua maior causadora. Os diagnósticos da Ciência são sombrios, mas não definitivos. Ainda há tempo, mas sabemos que o homem urbano, um dos principais agentes da enfermidade, não vai conseguir curá-lo sozinho.

Nós, indígenas brasileiras, queremos ajudar. Não lutamos somente para que se cumpra o que determina a Constituição de 1988, mas também por um planeta saudável. Temos a consciência de que pouco adiantaria garantir nosso direito à terra se o resto do mundo fosse devastado.

Queremos cuidar da floresta para todos, porque sabemos de sua importância para a saúde do planeta – e temos o conhecimento necessário para fazer isso. Além das questões humanitária e de Justiça em si, o que acontece com os Wajãpi ou a qualquer outro povo indígena diz respeito a todos.

O movimento de mulheres indígenas cresceu muito nesta década. Pela primeira vez tivemos uma mulher indígena compondo uma chapa presidencial, temos uma indígena no Congresso Nacional, a deputada Joênia Wapichana, e uma mulher, Nara Baré, está à frente da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia (Coiab).

Percebemos que nossa luta não pode ficar restrita ao Brasil. No último Acampamento Terra Livre, realizado em abril, decidimos que em agosto faríamos um encontro de lideranças e ativistas femininas, a Marcha das Mulheres Indígenas. O tema escolhido para o evento foi “Território: nosso corpo, nosso espírito”, pois um dos assuntos centrais será o cuidado com a mãe terra.

O planeta está passando por uma crise sem precedentes e não à toa as mulheres começam a se levantar no mundo inteiro: somos nós quem mais sofremos não só com os efeitos das guerras, da fome, das doenças e a intolerância, mas também das mudanças climáticas. A mitologia Munduruku fala de um tempo em que as mulheres mandavam. Não queremos mandar, queremos ser ouvidas.

Nos 10 dias de agosto, Acre registra mais de 5 mil focos de incêndio

Nos 10 dias de agosto, Acre registra mais de 5 mil focos de incêndio

Foto: Fabio Pontes

Por Fabio Pontes

Com a intensificação do período de seca na porção sudoeste da Amazônia – quando as chuvas ficam escassas, a umidade relativa do ar em níveis de deserto e temperaturas elevadas – o fogo encontra o ambiente perfeito para proliferar. São nestes meses do chamado “verão amazônico” que os produtores rurais aproveitam para realizar queimadas e, assim, deixar seus roçados “limpos” para o próximo plantio.

O problema é que muitas destas queimadas saem do controle, entram na floresta e causam impactos irreversíveis ao ambiente. A saúde humana também é afetada com a piora do ar respirado, já que a fumaça toma de conta das zonas rural e urbana.

Apenas nestes primeiros 10 dias de agosto, 5.190 focos de incêndio foram registrados no Acre pelos satélites do Programa Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A capital Rio Branco lidera o ranking entre os 22 municípios acreanos: 727 focos.

Logo em seguida estão os municípios dos Vales do Purus e Tarauacá/Envira, região que concentra as áreas mais bem preservadas de Floresta Amazônica do Acre. Nestes 10 dias de agosto, Feijó registrou 671 queimadas, seguido por Sena Madureira (672), Tarauacá (571) e Manoel Urbano (443).

Os números destes primeiros dias de agosto superam todo o acumulado de julho; mês passado, o Inpe detectou 1410 focos no Acre. Os dados também impressionam quando se compara com os 10 primeiros dias de agosto do ano passado: 440; aumento superior a 1000%.

O alarmante crescimento nos focos de queimada no Acre vem acompanhado do de desmatamento. De acordo com o último boletim do desmatamento elaborado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o total de área de floresta nativa destruída, em junho de 2019, cresceu 300% quando comparado com junho de 2018.

Ambos os crescimentos ocorrem no novo momento do governo acreano, com o governador Gladson Cameli (Progressistas) defendendo o agronegócio como principal motor de desenvolvimento do estado, além de fazer críticas às políticas ambientais. O governador defendeu que agricultores multados pelo Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac) não paguem as multas aplicadas pelo órgão.

“Quem for da zona rural, e que o seu Imac estiver multando, alguém me avise porque eu não vou permitir que venham prejudicar quem quer trabalhar. Avise-me e não pague nenhuma multa porque quem está mandando agora sou eu. Não paguem”, disse Gladson durante ato político em Sena Madureira no primeiro semestre deste ano.

O Imac é, justamente, o órgão do estado responsável por fiscalizar e aplicar multas a quem faça o uso do fogo em áreas além do permitido.

Diante da gravidade da situação das queimadas, o governo já decretou situação de alerta ambiental no Acre. O decreto deverá ser publicado na edição de segunda-feira (12) do Diário Oficial. A Secretaria de Meio Ambiente ficará responsável por elaborar um plano de ação para conter o avanço das queimadas.

Leia mais sobre o meio ambiente do Acre no blog do Fabio Pontes

Uma sessão solene para minha tia, uma marcha para minha vó

Uma sessão solene para minha tia, uma marcha para minha vó

Terça, 06/08/2019. Com 370 votos a favor, 124 contra e 1 abstenção, a Câmara dos Deputados aprovou o texto principal da reforma da Previdência em 2º turno.

Quinta, 27/04/2017. Câmara aprova projeto da reforma trabalhista. Foram 296 votos a favor e 177 votos contra.

Quarta, 26/10/2016. Deputados aprovam a PEC do Teto dos Gastos Públicos em 2º turno, com 359 votos a favor e 116 contra.

Domingo, 17/04/2016. Com 367 votos favoráveis, 137 contra, 7 abstenções e 2 ausências, aprovaram a admissibilidade do processo de golpe contra Dilma Rousseff.

Essas quatro votações, que representaram grandes retrocessos para o povo brasileiro, aconteceram no Plenário Ulysses Guimarães. A sessão da Câmara que votou contra Dilma é lembrada até hoje como uma grande sátira, onde os representantes eleitos pelo povo votaram contra 54 milhões de pessoas que elegeram a presidenta. Mesmo que Ulysses Guimarães, o homenageado do espaço, tenha sido um dos principais opositores à ditadura militar, não é um lugar que evoca muita esperança quando se entra nele.

Neste ano, durante as coberturas do Congresso, fui me acostumando e entendendo entre os corredores, passagens e escadas da Câmara, mas o Salão Verde, seguido de Plenário, ainda são um universo à parte. Um universo cheio de buracos negros que nos remetem a tempos com menos direitos. Por isso, esta última semana foi tão importante.

Mazé Morais e Sonia Guajajara | Foto: Jaqueline Vieira

Terça, 13/08/2019. Com mais de 300 mulheres indígenas e campesinas, eis que o plenário reencontrou o povo.

Era mais um momento de cobertura – transmissão ao vivo no facebook, narração no twitter, stories das lideranças dos movimentos sociais, aspas das deputadas, olhares cúmplices entre outros midiativistas.

Mas também era um momento único – entre os ternos, gravatas e saltos altos estava uma maré lilás florescendo por Margarida Alves e nas galerias, Sônia Guajajara liderava indígenas de vários povos entre cocares e miçangas.

Enquanto Mazé Morais, secretária de Mulheres da CONTAG e coordenadora da Marcha das Margaridas falava, lembrei da minha tia. Margarida Firmina de Aguiar, nascida em 22 de fevereiro de 1957, na comunidade rural de Rio dos Couros em Mato Grosso. Em 1972 se mudou com minha avó e seus irmãos, incluindo meu pai, para Cuiabá. Aos 13 anos de casou com o pai dos seus 7 filhos, José Paz. Ele era alcoólatra, se separaram e Margarida, empregada doméstica, criou os filhos sozinha. Mesmo assim, a tia cuidou dele quando ele estava a ponto de morrer por conta de doenças acarretadas pelo vício.

Junto com a minha vó, tia Margarida era uma das pessoas da minha família que não conseguiam falar meu nome – cada vez saía uma versão. Mesmo assim, era uma das mais que pediam para eu voltasse logo a cada viagem para minha cidade natal. Minha tia Margarida morreu no começo deste ano, 04 de janeiro de 2019. Não fui ao seu funeral e acompanhei através do meu pai como as coisas andavam. Lembro de não ter chorado e sim de ter sentido muito pelo meu pai, que perdia mais uma mulher da sua família. Mas agora, entre tantas mulheres que representavam as lutas da Margarida nordestina, não consegui não chorar.

Foto Katie Mähler / @katie_maehler

Uma sessão solene da Câmara dos Deputados é realizada em comemorações ou homenagens especiais ou, ainda, para a a recepção de altas personalidades. Me pareceu o termo exato para traduzir o que aquele momento significava para minha tia, as campesinas e indígenas – era necessário comemorar sua luta, homenagear sua existência e receber suas grandes personalidades.

Enquanto o hino das margaridas ecova naquele salão, quase conseguia ver minha tia, tímida atrás de mim, acenando a cabeça, com vergonha de receber tanta atenção. Enquanto isso, do meu lado, gritavam as margaridas marchantes, demandando serem reconhecidas pela importância que tinham na sociedade brasileira. E foi esta sessão que me fez retomar a esperança pela capacidade do Plenário Ulysses Magalhães de tomar decisões pelo bem do povo.

Marcha das Margaridas toma Brasília | Foto: Mídia NINJA

Quarta, 7 da manhã, 14/08/2019. Cem mil mulheres, vindas de todos os estados saíam do Pavilhão de Eventos do Parque da Cidade em direção ao Congresso Nacional. Começava assim, a 6ª Marcha das Margaridas. Começava também a nossa transmissão ao vivo, em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura.

Esta é a segunda vez que vou a Marcha, a última que participei em 2015, ano da segunda posse de Dilma. Acompanhei a agenda como parte de seu governo, trabalhando para o Ministério da Cultura, enquanto me coçava para, na verdade, estar cobrindo para a NINJA toda a beleza das senhoras de chapéu de palha. Foi ali que entendi melhor o impacto de políticas públicas para o campo, mas mais que isso, entendi a força que era pra elas ver uma outra mulher sentada na cadeira da presidência.

Enquanto testamos o som do ao vivo, uma senhora do Maranhão ajeitou o chapéu e acenou pra gente. Ela tinha um terço na mão, que balançava de forma bem animada para quem tinha mais de 50 anos e tinha enfrentado mais de 36 horas de ônibus para chegar ali. E não teve como segurar a memória, lembrou a minha vó.

Foto: Eduardo Di Napoli

Anna Firmina dos Reis, nascida em 11/10/1923, na comunidade rural de Rio dos Couros. Lá ela tinha uma roça, onde plantava arroz, feijão, melancia, mandioca e criava galinhas e porcos. Quando sobrava, ia até a feira mais próxima e vendia os alimentos para comprar o que faltava, como óleo e temperos. Ficou viúva em 1969 e em 1972 passou a mão nos filhos e mudou-se para Cuiabá.

Lá trabalhou como empregada doméstica até morrer de derrame aos 83 anos, no quarto ao lado do meu. Uma das coisas mais difíceis foi ver desmontarem seu altar, que ela ostentava com orgulho dentro do seu quartinho. Mesmo que eu tenha sido expulsa da catequese, minha vó era uma beata, o que fazia com que as procissões de Nossa Senhora saíssem da sala da nossa casa. Tinha um terço muito parecido com o da senhora que marchava hoje de manhã.

Agricultora familiar que teve uma filha Margarida, entendi que se a sessão solene foi pela memória da minha tia, eu marchava hoje pela minha vó.

Célia Xakriabá passa urucum em uma das margaridas marchantes | Foto Douglas Freitas / @alassderivas

A simbologia do momento fez mais sentido ainda em num dos pontos altos da caminhada, onde a Marcha das Mulheres Indígenas recebeu as Margaridas pintando-as de urucum. O momento foi para simbolizar a passagem do sangue indígena para as campesinas e assim se tornarem irmãs de luta. Foi como ver a família do meu pai (as margaridas) serem recebidas pela família da minha mãe (as indígenas) e assim continuarem caminhando juntas. Lado do meu pai é negro, o lado da minha mãe é indígena e lembrei de novo da força que é a união através da dor.

E assim seguimos até meio dia, carregando essas histórias tão únicas e ao mesmo tempo coletivas, através desta centena de milhares de mulheres no Eixo Monumental em Brasília.

E é esta a força da uma ação como a Marcha das Margaridas – levar milhares para a capital do poder brasileiro, lembrá-los que somos muitas, que nossas mortas não sairão impunes, que saímos dos campos, das florestas e das águas, que estamos organizadas e que sem colheita não tem janta. É o momento onde a mais alta casta política não pode ignorar mulheres pobres, nordestinas, interioranas e hoje, de mais de 100 etnias. É um momento de florescer as margaridas.

É um momento para minha tia e minha avó.

É “Samba Que Elas Querem”: grupo feminino completa dois anos de sucesso no RJ

É “Samba Que Elas Querem”: grupo feminino completa dois anos de sucesso no RJ

Fotos: Marcelo Costa Braga

Por Eduardo Sá

Tudo começou sem nenhuma pretensão num barzinho da zona sul carioca. O grupo composto atualmente por oito mulheres não é o pioneiro nessa perspectiva feminina, mas ganhou projeção rapidamente. No dia 16 de agosto completa apenas dois anos, mas por onde passa arrasta um grande público. Já tocaram em diversos bairros da cidade, casas de shows famosas, fizeram parcerias com artistas consagradas, e até realizaram uma turnê internacional por Portugal, na Europa.

Mas a essência continua. Apesar de enfrentarem muitas dificuldades, ainda têm preferência por tocar na rua. Nela será a comemoração dos dois anos do grupo na próxima sexta-feira (16/08), veja aqui no link do evento. Nesta entrevista à Ninja, elas contam como nasceu o projeto, a dificuldade e importância de um coletivo feminino ocupar espaços no samba, e falam sobre o machismo na sociedade e a conjuntura política atual. Conversamos com seis integrantes antes de um ensaio realizado no hotel Selina, na Lapa: Cecília Cruz, Silvia Duffrayer, Mariana Solis, Júlia Ribeiro, Bárbara Fernandes e Angélica Marino.

Como se deu o surgimento do grupo, vocês tocavam separadas antes?

Mariana: Tínhamos um núcleo de quatro pessoas que fazia parte de outras rodas de samba, onde somos mulheres minoria. A Gisele já tocava com outras mulheres, mas entrou depois na roda. Poucas já tinham tocado juntas, outras já tinha algum contato por amigos, então começamos a nos falar para montar uma roda de samba só de mulheres. A ideia era se reunir num bar e tocar sem muita pretensão com um grupo só feminino. A gente começou a se reunir ali por Botafogo, Humaitá e na minha casa.

Cecília: A gente estava praticando, tirando músicas juntas, e o objetivo era um dia tocar juntas. Ainda não rolava nem de passar chapéu, era para estudarmos juntas e nos fortalecermos. Mas a ideia do grupo vem depois.

Mariana: Aí rolou da Cecília e a Silvia se conhecerem num trabalho que fizeram juntas. A Silvia queria comemorar seu aniversário e a primeira roda do Samba que elas querem foi no bar Dois Irmãos, na Pedro Américo, no Catete, nessa festa. Era uma roda despretensiosa e ela já batizou o grupo no evento do Facebook. Foi tão maneiro que nos convidaram para tocar no festival O Passeio é público, a Silvia montou um grupo de Whatsapp e fechamos o trabalho. A Julia estava viajando, mas chegou e fechamos o grupo para a nossa roda de rua mensal. Já fomos nove integrantes e agora somos oito.

Embora tenha alguns grupos femininos há mais tempo na estrada, vocês ganharam uma projeção grande muito rapidamente. Por quê?

Silvia: O momento foi muito propício, em que as mulheres estão se refazendo e retomando seus lugares socialmente. Isto é um ponto positivo para o grupo crescer da forma que cresceu, mas não é só isso também. Temos uma característica que deu certo, a união em meio às diferenças, a gente enriqueceu muito no processo.

Vocês são todas da zona sul?

Silvia: Eu e a Gisele somos de Bangu, zona oeste, tem gente de Niterói e da zona sul. A diferença enriquece muita coisa e potencializa uma junção. Somos diferentes em tudo, não só fisicamente, como na educação, etc. Mas acho que é muito por esse momento e ser um grupo de mulheres. Tem o Moça Prosa, o da Ana Costa…

Silvia: Foi bom também, porque acho que inspiramos muitas mulheres. Em Vitória (ES) umas meninas se sentiram encorajadas e formaram um grupo, em Buenos Aires e muitos outros lugares se sentiram representadas por ver um coletivo de mulheres. Vamos pesquisando e tentando entender como era o movimento, e realmente era mínimo em termos de projeção: um grupo feminino no meio de um milhão de outros.

Foto: Marcelo Costa Braga

Essa questão da composição própria e com releitura de música famosa com o olhar feminino também ajudou neste crescimento?

Silvia: A versão de mulheres que eu fiz com a Doralyce o samba abraçou. Virou um hino da mulherada cantando. Por enquanto só temos essa versão, mas pretendemos gravar mais autorais. Tem que tomar cuidado, porque o samba é muito machista. Nasceu num ambiente machista e as histórias, os sambas, quando você vê está falando coisas que não queremos mais falar.

Júlia: Também tocamos outras canções autorais, estamos em processo de testar essas músicas de amigas e queremos levar para frente. E temos algumas nossas mesmo, mas ainda não entraram no repertório.

Silvia: Estão cobrando muito no Spotify, isso é uma parada que estimula. Chegamos num boom em pouquíssimo tempo e agora estamos mais maduras para começar a gravar, se entender nesse movimento todo com um milhão de shows e tendo ido a Portugal.

Júlia: Em cinco meses a gente já ouvia essa cobrança, esse movimento se deu também de fora para dentro. A gente só queria fazer uma roda por mês lá no Catete e tocar juntas, estudar, evoluir enquanto artistas, musicistas mulheres, depois a gente começou a ir para todos os lugares do Rio e outras cidades.

Vocês já têm uma produtora que assuma toda essa burocracia, logística, divulgação?

Julia: Temos uma mini equipe que é composta por algumas de nós, e por duas mulheres, a Bárbara Louise e a Fernanda David, que nos agencia e fecha os eventos e negociações. Mas nem todas do grupo ainda vivem de música, fazemos outras atividades, algumas estudam e dão aula de música. Tem engenheira, psicóloga, inclusive a Mari é a designer e fez a logo e todas as artes, além de a própria Silvia já ter sido produtora.

Silvia: É bizarro ainda não termos ido a São Paulo, por exemplo. Agora vai ser mais um investimento, como foi Lisboa, para a gente fechar shows e ir. Não falta convite, só que a galera não tem como bancar oito passagens, hospedagens, etc. É difícil também para o contratante, então temos que começar a pensar projetos e porque não dá pra ficar só aqui.

Voltando ao empoderamento, na história do samba as mulheres ficavam muito na cozinha, na dança, depois tivemos mestras na interpretação, mas algumas funções como a composição estão sendo ocupadas só agora. Como vocês veem isso?

Silvia: É um novo cenário se formando, difícil até falar enquanto está acontecendo e vivendo o processo. É muito maravilhoso ver as mulheres se colocando e a gente também se entendendo como mulher. Tenho aprendido muito desde que o grupo nasceu e a responsabilidade de falar para outras pessoas e mulheres. É muito bom ver esse movimento tão fortalecido e nós muito mais unidas. Fomos criadas para competir, quem é mais bonita ou tá isso ou aquilo, e agora estamos juntas.

Isso se reflete nas mídias sociais, no sentido de divulgar outros coletivos e músicas enquanto movimento?

Júlia: Temos muitas participações nas rodas de outras artistas mulheres. Todo evento que tem uma visibilidade maneira convidamos alguém para fazer participação e que a gente acha que será bom ter essa troca.

Mari: Já divulgamos projetos dos outros, fazemos eventos juntos, damos destaques a datas que queremos frisar, etc. A primeira foi com a Glória Bonfim, ela estava querendo financiar seu disco e foi na nossa roda e nem cobrou nada, foi maravilhosa. Tia Surica, Nilze, dentre outras.

Foto: Marcelo Costa Braga

E o mercado, como se dá o diálogo com os bares, casas de samba, shows?

Silvia: A nossa roda de rua geralmente eles bancam o som e a gente roda o chapéu. É diferente de um bar como o Bar do Zeca, que é mais estruturado e temos um cachê e fecham com a nossa produtora. Na rua já é mais resistência.

Júlia: Fazemos porque queremos muito, é muito difícil. Falamos muito sobre tentar sempre usar a rua, mas recebemos muitas propostas e precisamos trabalhar. A roda de rua é sempre uma diferença muito grande.

Silvia: O samba querendo ou não é muito democrático, é outra energia fazer roda na rua. Não temos feito por falta de oportunidades e impedimentos, pois não estamos conseguindo. A Banca do André, por exemplo, que é nosso parceiro, no Centro do Rio, não está conseguindo. Porque a gente leva muita gente e isso acaba sendo um impedimento para quem está contratando: tem que ter segurança, banheiro, limpeza, etc. No Bar Dois Irmãos tivemos que sair porque a vizinhança não conseguia mais subir a rua. Passa a ser uma falta de respeito também.

Silvia: Quando a gente faz na rua fica muito cheio, é muito incrível e muito lindo, mas é o evento que ficamos mais tensas. A gente assume um monte de responsas, é tudo botando a cara, e isso é também uma questão né porque se der alguma merda é o Samba que elas querem.

Vocês trazem junto ao projeto uma narrativa política também?

Silvia: Falamos sobre racismo, violência, preconceito, etc, e os incomodados têm que ouvir. Tem assunto que a galera fala: ai que saco elas vão falar de novo, mas infelizmente temos que falar em todo show. Temos um retorno grande sobre o que falamos também.

Mari: Sim, nas eleições foi muito. Um dia antes no Arco do Telles todo mundo gritou Fora Bolsonaro, e no ato quando a Marielle foi assassinada a gente tocou.

Cecília: As nossas músicas e falas são pelo que a gente acredita, o papel da mulher, dentre muitos outros temas.

Bárbara: Ser um grupo só de mulheres já é representativo, e os termos são igualdade salarial, abertura no mercado de trabalho às mulheres que tocam, que são instrumentistas. Nos posicionamos com todo cuidado para não parecer uma coisa comercial. É muito tênue. Temos cuidado quando o convite é de algum comitê de partido, porque mesmo que sejamos afinadas com esse ou aquele discurso não fazemos propaganda para nenhum. O Samba que elas querem, apesar do voto de cada uma, preza pela democracia.

Silvia: Temos mais é que fazer essa galera nos ouvir, precisamos inclusive aprender a nos comunicar principalmente neste momento que está todo mundo muito estressado. A política fez um monte de gente deixar de se falar, tenho esperança que a gente vá conseguir retomar isso.

Qual a avaliação de vocês sobre a atual conjuntura?

Bárbara: Depois que o Bolsonaro ganhou, como diria Chico, “a nossa gente anda falando de lado e olhando pro chão”. E esse estado muitas vezes faz com que as pessoas percam um pouco a fé na democracia. Até que ponto o espetáculo (que a política se tornou, com jornais, revistas, e televisão alardeando dia após dia uma notícia desesperadora atrás da outra) é bom para saúde? Mas até que ponto deveríamos largar de mão a realidade?

Enquanto isso parte da sociedade consome as chamadas de facebook e as fake news, e a outra parece estar atada, bloqueada, tão melancólica e desgastada, que só o ato de apurar o que está realmente acontecendo é doloroso. Fico me perguntando se essa força que a arte tem, e que o samba principalmente causa em forma de poesia, pode mudar a consciência das pessoas que nos acompanham. Não podemos estar em festa o tempo todo sabendo que grande parte do nosso país adoece, passa fome, sofre violência, etc. Portanto, o que somos também se reflete em forma de discurso, e o samba tem seu papel social de aliviar, denunciar, acalentar e inspirar paixão e humanidade nas pessoas. Ou seja, esperança e alegria precisam andar juntas, e resistir.

Fui num encontro de mulheres indígenas e olha o que aconteceu

Fui num encontro de mulheres indígenas e olha o que aconteceu

“Volta e meia uma mulher branca pergunta – vocês são feministas? E muitas de nós respondemos: Não sabemos o que é isso”. Watatakalu Yawalapiti, do Parque Indígena do Xingu traz a tona uma frase que, infelizmente, tenho a impressão que muitas feministas adorariam ter ouvido. Em setembro de 2018 acompanhei Sônia Guajajara (primeira indígena a compor uma chapa presidencial no Brasil) por algumas agendas de mulheres e esta pergunta sempre surgia. Muitas vezes de forma não muito honesta.

É, na verdade, uma armadilha. Feministas brancas pareciam ansiosas para classificá-las como “selvagens” e logo depois catequizá-las com as ondas, vertentes e expoentes que ninguém podia dormir sem saber o que era. Muito parecido com um tal colonialismo de 1500. Sônia, sempre altiva, dizia que as indígenas lutavam pelo protagonismo das mulheres há décadas, mas que esta palavra, “feminismo”, não fazia muito sentido para as nações indígenas, já que vinha carregada de preceitos eurocêntricos. As mulheres negras riam, as brancas se enchiam de novas certezas.

Vamos então para 2019. Entre os dias 9 e 13 de agosto, tive o privilégio de acompanhar a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas. O primeiro encontro multi-étnico dos povos indígenas brasileiros a focar especificamente na política de mulheres. Para suas mulheres. Correndo os olhos pela programação não vemos uma vez sequer a palavra feminismo. Soa destoante de um país que vive verões da sua primavera feminista, que passou por Marielle, Dilma, uma eleição com mais mulheres eleitas – entre elas a primeira deputada federal indígena, Joênia Wapichana, de Roraima – e hashtags virulentas na internet.

Entre as mais de 1.500 pessoas cadastradas temos mulheres indígenas de 113 povos, mulheres parceiras (brancas e negras) e homens. Homens aliados, incluindo os maridos. Aí talvez esteja o primeiro impacto deste encontro. Os homens estão presentes, em alguns momentos puxam os cânticos, em outros cuidam das crias, ou montam as barracas de artesanato. Com exceções musicais, estão sempre em silêncio, acompanhando com olhares atentos suas esposas e filhas. Porquê? Porque é a primeira vez que mulheres de 21 estados viajam para o mesmo lugar para falar de seu protagonismo. Pareceu algo natural, respeitar o momento da coisas, das quebras de costumes. Honestamente me fez rir um pouco de tantos debates sobre “qual o lugar do homem no feminismo” que fazemos tanto por aqui.

Pergunto para Walapá Txicão/Ikpeng sobre a dificuldade de mobilização das mulheres nas aldeias e ela disse que sim, no passado havia, mas hoje a mulher indígena entende que é a hora dela lutar pela terra. Esta é inclusive a principal pauta de todas neste encontro. Já ouvimos Sonia dizer em seus discursos que a luta pela demarcação das terras é a mãe de todas as lutas e estas manas não estão brincando – elas tem um plano e peito aberto para lutar pelo que sempre foi delas.

Não se enganem, mulheres indígenas sabem tudo que acontece em seus territórios. Querem uma Lei Maria da Penha que se aplique a elas, querem que suas filhas tenham acesso a educação básica, tem uma propostas para uma economia de fato sustentável, estão se organizando para as eleições de 2020 e sabem que tem um debate interno longo para fazer sobre os estereótipos que precisam ser quebrados, sem esquecer a luta por soberania alimentar, a proteção dos seus saberes e o combate da depressão indígena. Mas elas também sabem que tudo isso deve ser feito enquanto se luta pelo direito de ter sua terra. Aqui rio de novo, lembrando da dicotomia que as esquerdas lutaram tanto para derrubar – afinal, o que é mais importante: teto/comida/trabalho x lutar contra o machismo/racismo/LGBTfobia?

Célia Xakriabá disse em uma das plenárias que a relação pra elas é simples – terra pra elas é o direito de existir. Onde há terra há cura. Terra significa comida, exercício da sua cultura e a garantia que seus netos saberão a história de seus avós. Terra é identidade. Não me deu tanta vontade de rir assim quando puxei a linha de raciocínio que este talvez seja o maior problema para nós, mulheres negras. As indígenas tem certeza de onde estão suas terras e tem que lutar por elas. Nós fomos arrancadas das nossas. Elas tem pra onde voltar, mas assistem em câmera lenta sua destruição. Nós não temos ideia de onde viemos e, em grande parte, vivemos de um conceito genérico do que pode ser África – que lembramos, é o continente. Sendo assim, nos reconhecemos. É a dororidade, como conceituou Vilma Piedade.

E que sentimento eloquente esse da dororidade. Ao pisar no encontro eu senti a mesma potência que senti ao participar do meu primeiro Latinidades (festival da mulher negra latino-americana e caribenha), também em Brasília. Na primeira meia hora, enquanto cumprimentava as parentes que me trouxeram até aqui, não pude parar de sorrir – era o resultado da força do encontro de mulheres que se reconhecem. Fiquei reparando nos lookinhos das manas todas. Cocares delas, tranças nossas, cortes simétricos delas, os nossos na régua, os brincos de miçangas delas, os nossos de argola. Horas depois chorei junto de Cris Pankararú quando ela contou a história de tantas mulheres indígenas que lutaram e foram assassinadas no processo, parecendo com as execuções das nossas.

Voltando para a palavras de Walapá, ela terminou dizendo que, sim, é necessário aprender as coisas do branco, como português. Porque assim, falando a língua deles, certo ou errado, eles não vão poder fingir que não entendem e assim poderão respeitar os indígenas. Me parece um pouco o dilema do começo do texto – é óbvio que estas mulheres estão lutando por seus direitos, mas se as brancas não ouvem a palavra “feminismo” não ficam felizes.

Acontece que, este sentimento geral de que as indígenas não precisam das brancas, ou de nenhuma de nós não-indígenas na verdade, dizendo a elas o que fazerem com suas mulheres, não é um sentimento, é uma verdade. O protagonismo delas está sendo construído debaixo pra cima, com toda a sociedade, respeitando as diferenças de cada povo e território, criando palavras como majé (e não pajé), falando sobre sexualidade, corpo, maternidade e aborto de formas orgânicas.

Mais uma vez na história, fica evidente – quem tem muito a aprender são os brancos.

“Sou uma operária e amante da música”, diz Marcelle Motta da nova geração do samba

“Sou uma operária e amante da música”, diz Marcelle Motta da nova geração do samba

Foto: arquivo pessoal

Por Eduardo Sá

O protagonismo das mulheres no samba carioca está muito forte no cenário atual. Grupos integrados só por mulheres, eventos com rodas compostas só por elas e várias funções para além da interpretação musical estão sendo ocupadas. Elas vieram para ficar, e a cantora Marcelle Motta, de 34 anos, é uma das artistas nessa comissão de frente da nova geração. Apesar de ser relativamente nova no samba, já cantou com vários artistas das antigas renomados e transita em diversas casas de shows e grupos da renovação deste ritmo.

Iniciou a gravação do primeiro disco, porém teve que interromper por falta de capital. Faz parte das gravações do Samba Social Clube, que reúne os artistas mais famosos da nova geração. Está começando a experimentar composições próprias e tem um sonho de empreender novos artistas, que assim como ela não tiveram muito recurso financeiro. Na entrevista, ela fala sobre o péssimo tratamento dos poderes públicos e do mercado em relação ao samba. A cultura tem um potencial econômico, na sua opinião, muito mal explorado que poderia gerar muitos empregos e renda. Mas mesmo assim muita gente boa está cantando e tocando diariamente pelas ruas da cidade, no peito e na raça.

Você iniciou na música na igreja e depois foi experimentando até se encontrar no samba?

Minha mãe diz que aos dois anos de idade, aprendendo a falar, eu já cantava afinado. A música sempre foi muito presente na minha vida, na barriga dela eu só me acalmava quando meu pai cantava. Meus pais sempre ouviram muita música em casa, mas não tenho ninguém da família que tenha trabalhado com isso. Sempre ia aos shows e via na televisão, como foi o caso da Elza Soares. Sempre imaginei estar ali e uns cinco anos depois de começar minha carreira já estava no palco com ela.

Me sinto muito agraciada pela vida, por me dar essa oportunidade tão “rápido”, porque sabemos o quanto é difícil alcançar coisas no Brasil. Nasci em Juiz de Fora, vim ao Rio com 7 anos. Morei toda minha adolescência em Ricardo de Albuquerque, no subúrbio, onde tive uma banda de pop rock com o meu primo chamada Ecos Imortais.

E o que te levou pro samba, essa coisa que foi e não voltou mais?

É muito louco, porque meu irmão sempre ouvia em casa e eu não ligava muito. Depois comecei a namorar com um cara que frequentava muito um samba na Mangueira, o Pagode da Arruda na barraca da Zezé, embaixo do viaduto. Acabava o samba da quadra e esse ficava até de manhã, fiquei apaixonada e meu ex-namorado falou aos meninos que eu cantava. Dei uma canja e entrei de cara, fui a primeira mulher do Grupo Arruda, fiquei um ano por volta de 2004. Já tocava com a banda em bares do subúrbio e encontro de motoqueiros, e ganhava um dinheirinho.

Aí comecei a frequentar samba e estudar igual uma louca, me apaixonei pelo Cartola, sabia cantar todas as músicas dele. Ficava escutando samba o dia inteiro, aprendi muito, hoje introduzida no samba, já me permito cantar outras coisas também. Quando faço meu show com o quinteto que me acompanha, canto MPB em geral. Músicas que cresci ouvindo. Me sinto completa em cima do palco com a minha banda, mas é difícil arrumar espaço pra tocar porque geralmente querem roda de samba. (risos)

Foto: arquivo pessoal

Acho que o Samba Social Clube ajudou também nessa sua imagem de sambista.

Sim, procuro não me rotular. Já postei algumas vezes que não me intitulo como sambista, até porque seria uma audácia já que comecei minha carreira tão “tarde”. Tenho muito a aprender ainda, então na verdade sou uma operária da música. Como intérprete, me sinto à vontade pra cantar o que me faz sentir emoção. Quero e sinto a necessidade de cantar outras coisas além do samba.

Amo rap brasileiro, já fiz show com amigo MC de hip hop, por exemplo, mas amo também cantar Caetano, Belchior, Gil, João Bosco, Djavan. Na minha cabeça não tem como renegar essa nossa cultura que é rica demais, não tem como não cantar esses caras. Sou uma operária do samba no momento mas, mais do que isso, sou uma operária e amante da música.

Como você enxerga o papel do samba e da cultura popular como um todo no país?

Como disse Nietzsche: “Sem música, a vida seria um erro!” E eu concordo com isso. A música movimenta todos os sentimentos. Se você estiver triste, feliz ou apaixonado, ao ouvir uma música consegue se identificar, por isso ela é tão popular. E a nossa música é o que dá nossa característica, é como a gente chega mais longe em outros lugares e países.

Somos um dos maiores poetas do mundo. Você traduz algumas músicas de fora e não vê tanta poesia como vê aqui.

Ouço muita música inglesa, americana, cubana, portuguesa, mas sempre vou defender a Música Popular Brasileira. Pode soar um pouco arrogante, mas acho que somos um dos maiores poetas do mundo. Você traduz algumas músicas de fora e não vê tanta poesia como vê aqui. Beatles salvou a economia da Inglaterra e acho que a música pode salvar o Brasil, mas infelizmente ninguém dá tanto valor.

Você diz no sentido de políticas públicas, ou as casas e gravadoras pagam mal?

Também, mas digo no macro mesmo, de o país arrecadar mais com música. O país viver mais de música, a cultura girando mais a economia, gerando emprego, renda, etc. E o que acontece é o contrário, só piora, é cada vez mais cortes, não faz o menor sentido.

Voltando para o samba, como você tem visto o protagonismo das mulheres?

Tá lindo, né? (risos). O movimento feminino está para além da música, porque temos sempre que buscar a igualdade em tudo. Na arte também, principalmente. Esse movimento é incrível, desejo muito que não seja segregador. Não tem que só ter mulheres ou só homens. Não tem que ter um gênero dominante. Feminismo não é o contrário do machismo, é ser contra uma sociedade dominada pelo patriarcado, o homem no topo da “cadeia alimentar”. As mulheres têm que fazer o que elas querem, assim como todos os seres.

A minha banda é formada por homens, só tem uma mulher além de mim, que é incrível. Viso mais a questão musical, não importa se é homem ou mulher. O movimento feminino é fundamental para dizer: tenho talento para isso que você acha que é pra homem.

E essa galera nova que está vindo tem talento musical?

Sou muito exigente, não acho tudo bom e nem tudo ruim também. Mas não estou falando de um movimento específico. Inclusive o que a mídia mostra está bem ruim, na minha opinião. Em relação ao samba, o dito “de raiz” não tem muita visibilidade. O samba não tem grana, diferentemente do sertanejo, por exemplo. A tendência é tudo ir pra tecnologia, mídias sociais, você tem acesso a tudo muito rápido. Fica aquela coisa maçante, a empresa tem dinheiro, criam uma produtora…

Vou dar um exemplo. A Marília Mendonça, que compõe pra todo mundo, uma mulher nova e já é milionária. Antes dela surgir como cantora, sua música já estava estourada por outros sertanejos. Tem isso nas produtoras também, um artista que financia a carreira de outros artistas. Existe uma cadeia que gira essa grana, e a mídia dando total apoio. E tudo que você botar na internet se patrocinar atinge mais, e no samba não tem isso. Acho que é algo cultural também de o samba ser “desorganizado” ou ”despreocupado”, porque é um movimento do povo, de rua. Às vezes não estão mesmo preocupados em enriquecer. Então os caras vão massificando o ouvido das pessoas com outros movimentos que têm grana.

Agora o movimento do rap nacional está crescendo muito. Tem o Emicida, um artista incrível, com o Laboratório Fantasma, que é uma produtora foda, inclusive gostaria de fazer parte, e vem lançando outros artistas pretos (o que é maravilhoso) na empresa. Financiando a carreira da galera, por isso o lance vai crescendo. O samba deveria também, mas quem vai assumir essa responsa?

Foto: arquivo pessoal

Quem seria esse novo cara que tá bombando no samba?

Acho que a gente tinha essas pessoas, inclusive tem algumas vivas, mas elas deviam fazer um pouco mais. Apadrinhar a galera que tá vindo, mas também posso estar sendo injusta. Não sei se no lugar deles faria isso também. Não dá pra saber o que eles vivem, mas tem esse sentimento porque tem muita gente boa aí.

Tem também umas pessoas novas que poderiam estar ajudando, se não for com grana pelo menos por conhecimento, indicando pros outros. Não sei como será minha cabeça mais pra frente, mas sempre pensei nisso de ajudar os artistas. Se tivesse grana ia pegar as pessoas que têm talento, mas não têm a menor condição financeira. Tem um monte de gente com estúdio próprio, tem várias formas de ajudar. Mano, por que eu vou fazer 30 shows se posso fazer 5 e ficar ganhando dinheiro com show dos outros? É visão, você vai trabalhar menos ganhando mais e levantar todo mundo junto.

O Rubem Confete, já coroa, me falou essa coisa de que o sambista não sabe empreender.

É foda, cada um por si. O movimento mais forte que eu vejo hoje em dia, graças a Deus, é o nosso, mas ninguém tem grana. Todo mundo tem boa vontade, você vê a Festa da Raça, a gente chama cinco amigos e a galera ganha só o deslocamento, umas cervejas e vambora. A gente tem que se movimentar também. O Renato da Rocinha, maravilhoso, acabou de gravar um DVD de dez anos e chamou uma galera da nossa geração: Eu, Gabriel de Aquino, João Martins, Inácio Rios, Galocantô, Gabby Moura, Andreia Caffé, e muitos outros. No lançamento do primeiro DVD, compartilhando. Deixa de lado egocentrismo, a vaidade.

Mas rola uma patotinha também, não?

Rola, mas cara, qual lugar na vida não tem isso? A panela é um nome criado pela pessoa que está de fora dela (risos), mas como em tudo na vida, rola uma afinidade. No rolé, geralmente você chama os mesmos amigos, na música acontece o mesmo. Não faz sentido eu cantar com alguém que não tenho afinidade, entende? Quando vejo alguma pessoa muito talentosa quero ser amiga dessa pessoa. Mas às vezes a pessoa só é talentosa e não tem nada interessante. E tem pessoas que não são tão talentosas, mas são tão legais! Então, nem sempre na panela tem gente que você acha super talentoso. É uma questão de afinidade mesmo.

E a questão da negritude e o samba?

O racismo tá aí, é estrutural, horroroso, algo que temos de combater ontem. Esquece tudo e vamos resolver esse negócio aqui que está acontecendo e é urgente, diário. A questão racial dentro da arte: arte é uma liberdade de expressão. A gente não precisa mais de culpa, as pessoas já jogam tantas culpas em cima da gente…

Falar que alguém é branco ou preto dentro da arte não deveria existir. O branco com talento pode ir para qualquer lugar do samba, mas tem que reconhecer de onde a cultura surgiu e respeitar isso. Pode fazer o que quiser na sua arte, mas tem que respeitar a cultura preta na qual quer se inserir. O blues, jazz, hip hop, rap, o samba, o rock, é tudo de preto. A gente tem que saber falar sobre isso, não pode se apropriar. O samba continua preto pra caramba, tudo bem o branco tocar desde que ele reverencie os pretos que o antecederam e criaram essa cultura. Se não fosse por eles não estariam fazendo arte.

O branco com talento pode ir para qualquer lugar do samba, mas tem que reconhecer de onde a cultura surgiu e respeitar isso.

Você usa arte também como política?

Infelizmente nunca fui criada num ambiente político. Há três anos não saberia falar sobre política, ia reproduzir a frase mais absurda possível: política não se discute. Então não tenho muita profundidade, só depois dessa última eleição que fui me inteirar.

Sempre fui muito incomodada, mesmo quando não gostava de política, já percebia que vivia num país rico de tudo e não conseguimos viver bem como países do primeiro mundo. É um absurdo! A gente não vive, sobrevive! Falta o básico. Hoje posso falar com mais propriedade porque moro sozinha e é puxado. Quando era casada, ainda no governo Lula, tinha filé mignon toda semana na minha geladeira. Consegui comprar meus móveis à vista porque não tínhamos cartão, e de lá pra cá dificultou porque as coisas encareceram e eu ganho a mesmo de sete anos atrás. Incomoda ter que trabalhar que nem um condenado para sobreviver e escolher qual conta pagar no mês. É desumano, volta naquilo que te falei da música mudar a economia do país. Temos inúmeros recursos, mas eles vendem tudo para fora e o que é nosso compramos por um valor muito acima. Não dá para entender.

Os caras mais consagrados aparentemente vivem muito bem, mas parece que hoje não têm muito incentivo para nova geração.

Não tem projetos de incentivo e cada vez cortam mais. Há cinco anos fazia um projeto lindo no Sesc, levava para as escolas a história de um compositor e eu entrava na parte musical, olha que coisa rica! Fazia Dorival Caymmi, como alguém embarreira algum projeto desse? Falo essa questão pessoal, mas é uma coisa ampla, imagina quantos projetos desse tipo não caíram? E isso se reflete em tudo, principalmente na arte.
Por isso achamos um monte de enganação na música, vai viciando o ouvido dos outros para ouvir coisa ruim.

Me questiono todo dia se estou certa, vejo meu sonho cada vez mais distante nesse país, parece que tô errada. Logo depois que esse presidente assumiu me deu um surto, entrei numa depressão, pensei em sair do país para ir atrás das pessoas que querem me ouvir.

Tem a questão do mercado, a galera vai ganhando menos grana e investindo menos… Antigamente as gravadoras investiam no músico, hoje você leva o projeto pronto e elas distribuem. Elas não têm mais dinheiro como antigamente.

Mas tem quem fale que gravar é importante, marcar posição, como se fosse um timbre pra ser mais reconhecida, dá um caráter mais “profissional”.

O disco é muito importante, além da realização pessoal você consegue difundir mais a sua arte. Eu não tenho, comecei a fazer, mas não consegui terminar por causa de grana. Mas hoje em dia existe a tecnologia, que anos atrás era só CD. Eu nem tenho mais aparelho de CD. Escuto nas plataformas digitais, isso facilitou muito nessa questão. Conseguimos através de redes sociais e plataformas difundir mais a arte. Porém tem lugares que ainda valorizam o CD.

Sinto falta no Spotify, por exemplo, toda a ficha técnica. Tinha que ter um espaço para clicar dizendo como nos discos quais os músicos que gravaram, as faixas, qual o compositor, etc. Acho que não é difícil fazer, porque sem isso os músicos vão ficar cada vez mais esquecidos. Estudei tanto com as pessoas mais velhas que valorizam muito isso tudo. Mas hoje penso mais em fazer singles, ao invés de um álbum inteiro.

Por exemplo a Anitta, que é a maior artista hoje do Brasil, não tem nenhum disco. Então não é só o disco, tem um monte de coisa, é investimento, é grana. O disco é super importante para um compositor, como o João Martins, que além de ser um puta músico e cantor, é um puta compositor. No meu aniversário ele era um dos convidados e o Jorge Aragão estava na plateia, e falei: agora vou chamar no palco o Jorge Aragão da minha geração. Ele é incrível, não estou diminuindo nenhum, gosto de vários, mas adoro gravar ele, porque o que ele fala e como fala, tem a ver com o que gosto de cantar.

Quem são as mulheres em destaque nessa nova geração?

Tem várias! É muito importante esse movimento feminino, isso possibilita elas se mostrarem e verem como são incríveis. A Manu da Cuíca é uma compositora foda, por exemplo. Gravei uma música no É preta e não conhecia ela. Fui ver agora no disco da Marina Iris chamado Rueira, que só tem música da Manu e Rodrigo Lessa. Eu tô me arriscando a compor agora e os caras da Mocidade já entraram em contato para assinar um samba lá. Então já estão buscando mais mulheres também para gravar. A gente sente essa necessidade de ocupar todos os espaços mesmo. Inclusive, quadras de samba de enredo. A Grazzi Brasil, uma intérprete incrível, também questiona essa falta das mulheres. Enfim… aos poucos, vamos ocupando!

A Marina é uma grande compositora, tem uma música dela com a Manu da Cuíca, chamada Virada, do disco É preta, que gravei e vai entrar no Samba Social Clube, que é uma música genial. É um presente que eu ganhei, falo que vou enriquecer com ela ainda se Deus quiser (risos).

Ainda sinto que há essa necessidade de nós mulheres termos que provar mais que somos talentosas para sermos recebidas nos lugares. Não sofro muito preconceito no samba, talvez no primeiro olhar com os meus dreads rosas e tatuagens estranhem. No show do Jorge Aragão eu ainda tinha tranças rosas e rolou maior burburinho na plateia, mas quando comecei a cantar o pessoal percebeu que eu sabia o que estava fazendo. Tive que provar que sou boa para me aceitarem.

Alguns produtores de artistas mais antigos já pediram para eu cortar o cabelo. Não podemos estereotipar a arte, posso fazer o que eu quiser se eu fizer aquilo bem. Além da Marina tem uma cantora de Macaé que eu sou apaixonada, a Amanda Amado, que participou do mesmo The Voice da Gabby Moura, que também é incrível. A Nina Rosa é outra referência, então essas mulheres tinham que ter mais visibilidade. Elas têm muito menos projeção que homens com muito menos talento.

Jandira Feghali: Fora, Dallagnol!

Jandira Feghali: Fora, Dallagnol!

Foto: EBC

Em 2016, quando o procurador lavajatista Deltan Dallagnol fez aparecer na tela uma espetaculosa, porém patética, apresentação de PowerPoint para jornalistas de todo o Brasil, já sabíamos que morava ali um comportamento estranho à seriedade e responsabilidade de uma investigação. Tentava incriminar Lula a todo custo. Porém, apresentava ilações e não provas, manchando a reputação de uma liderança política pública, de repercussão internacional e com claras consequências políticas e pessoais.

E quando vieram as denúncias do site Intercept Brasil, ficou claro para todos, tanto aqueles que sabiam ou não do abjeto jogo de conluio e parcialidade daqueles que dizem fazer… “Justiça”.

A primeira delas chegou há dois meses nas caixas de e-mail dos brasileiros e pelo portal jornalístico de Glenn Greenwald. Lá estava, através de mensagens do próprio procurador, obtidas pelos jornalistas por meio de fonte confidencial, que até ele mesmo, o tal com diploma de Harvard, duvidava de suas próprias convicções. E em conversas privadas no Telegram, Dallagnol compartilhava suas ilegalidades com seus companheiros de Lava-Jato.

Hoje, Deltan tenta transparecer um brilhantismo egoico como chefe da Lava-Jato, mas pelo que já está divulgado, sempre foi subchefe do então juiz, tão criminoso quanto, Sérgio Moro. Numa parceria marginal à Constituição, às leis e aos estatutos que regem a magistratura e o Ministério Público, os dois tramaram contra o ex-presidente Lula e sua defesa durante anos, mostrando que já estava erguido o castelo de arbítrios. Um verdadeiro Estado paralelo.

E vieram mais denúncias do Intercept, da Folha de São Paulo, do El País, do UOL, da rádio BandNews e até mesmo da Revista VEJA. Deltan consentiu nos chats em proteger o senador Flávio Bolsonaro, ponte principal de investigações de desvio de recursos públicos por laranjas do PSL, ao fazer vista grossa para as intenções de Moro no caso. O procurador também deu palestras remuneradas, inclusive para empresa investigada pela Lava-Jato e se encontrou com banqueiros e investidores sob sigilo: “Achamos que há risco sim, mas que o risco tá bem pago rs”, escreveu Dallagol no Telegram.

No caso mais recente, Deltan e Lava-Jato tentaram investigar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e suas esposas. Até tentaram pressionar a procuradora geral, Raquel Dodge, constrangendo-a publicamente junto à imprensa.

Há alguns meses, Dallagnol e seu mais chegado colega, Carlos Fernando, foram flagrados constituindo uma fundação com dinheiro público, devolvidos da Petrobras para a União. Felizmente foram barrados nesta ilegal empreitada.

Como se vê, Dallagnol é um agente de ilegalidades numa força-tarefa que se viu acima da legalidade do país, violando o Estado democrático de Direito e insuflando o caos. Se utilizou do cargo e dos processos no sistema de justiça e aliados, associado ao monopólio midiático brasileiro para destruir um projeto politico e favorecer outro. Claro, sem esquecer seus próprios desejos e interesses.

Como disse o ministro do STF, Gilmar Mendes, “A República de Curitiba não tem abrigo na Constituição”. E não tem mesmo. O que fora revelado até então é gravíssimo e já seria condenado fortemente por qualquer democracia digna deste nome. O Brasil precisa se reinserir nesta categoria!

Deltan precisa ser afastado da Lava-Jato e do MP o mais rápido possível. Suas ações precisam ser profundamente investigadas e ele responsabilizado por seus crimes.

Fora, Dallagnol!

Sob o governo dos homens-falo

Sob o governo dos homens-falo

Entrevista com Christian Dunker, psicanalista e professor titular da Universidade de São Paulo (USP) sobre a violência falocêntrica de Bolsonaro e outros governos autoritários.

Ilustração: Cristiano Siqueira

Por Paulo Ferrareze Filho e Juan Manuel P. Domínguez

Ao longo da história, o homem erigiu barreiras com o fim de delimitar os domínios do sexo e as possibilidades do gozo. Em 1997 Jacques-Alain Miller cunhou o termo “feminização do mundo” com o intuito de compreender os fenômenos que atravessam a nossa época, caracterizada pela queda da função paterna, pelo declínio do viril e pela feminização do gozo. A “feminização do mundo” de que trata Miller não se refere à emergência dos atributos femininos, à redução de semblantes femininos ou a uma participação maior da mulher na vida social. O termo diz respeito ao fato das mulheres se sentirem mais cômodas diante do outro que não existe perante o mundo, diante de toda alteridade, em uma autoafirmação que acaba funcionando como uma expansão dos discursos não falocêntricos.

Para Judith Butler, a aparição de políticos populistas como Bolsonaro ou Trump é uma reação do conservadorismo ante o avanço das novas formas de sexuação que fragmentaram as normativas tradicionais de sexualidade. Figuras como eles, na política, aparecem justamente para preencher o vazio deixado pelo declínio de figuras paternas, de modo a amenizar, inconscientemente, a crise de representação simbólica nas sociedades tradicionais, que se estruturavam a partir de concepções universais e absolutas, calcadas em lógicas sempre binárias. A enteléquia Deus-pai-falo que ordena esse discurso vem desmoronando a partir da aparição de narrativas não-normativas.

A violência oriunda do falocentrismo no Brasil é uma das maiores no mundo. Da piada preconceituosa aos feminicídios e aos crimes contra a população LGBTQ+, o Brasil coleciona perversidades que foram legitimadas com a eleição de Bolsonaro. Quando a violência assume um caráter institucional, pode-se dizer que ela formata o discurso cotidiano de um povo. Retomando Butler, essa violência funciona como uma performance que visa a ratificar a figura do “macho” como sujeito dominante dentro do nosso universo simbólico.

Talvez não seja por acaso que a ressaca do mar do patriarcado, cujo ápice se deu com o atual governo, tenha origem justamente após a reeleição da primeira presidenta do Brasil, como bem demonstra o documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa. Como dito por Jean Wyllys durante a votação do impeachment no Congresso, passamos por uma “paródia sexista”.

O discurso de Bolsonaro é prenhe de um sexismo extremado e incapaz de perceber suas próprias causas. Bolsonaro sempre deixa escapar, direta ou veladamente, sua fixação com questões ligadas à sexualidade. A fala contra a deputada federal Maria do Rosário que culminou em recente condenação, a preocupação com o raro câncer de pênis no Brasil, o incômodo curioso com o golden shower no carnaval, a piada com o pênis de um descendente oriental, a ofensiva contra o que chamou de turismo homossexual no Brasil, a colocação da Amazônia como a “virgem que todo tarado quer” e, mais recentemente, o cartão amarelo para a Ancine em relação a filmes eróticos, são apenas alguns exemplos que revelam a obsessão sexual de Bolsonaro, algo que não passa sem sentido para a psicanálise.

Para melhor compreender essa fixação, que possivelmente ressoa em boa parte da população brasileira, convidamos o psicanalista Christian Dunker para responder as perguntas a seguir.

1) Pode-se dizer que há projeção psíquica no discurso de Bolsonaro quando recorrentemente nele há referência a questões ligadas à sexualidade, ao pênis e à homossexualidade?

A projeção é uma forma de reação psíquica, descrita por Freud, definida pela reaparição desde o outro, de moções de desejo e traços pulsionais, que o sujeito não suporta ou nega fortemente em si mesmo. Tipicamente, aquele impulso que não consigo lidar em mim mesmo, e que provém de minha fantasia, é projetado no outro, de tal forma que a partir de então é o outro que se torna portador desta mensagem e não o próprio sujeito. Por isso o sujeito passa a ser afetado e a se incomodar com o outro, como se este tivesse atacando-o ou perseguindo-o, quando na verdade é o próprio sujeito que se persegue e se critica a si mesmo, usando o outro para isso. A projeção pode adquirir contornos agressivos e violentos porque quanto mais as fantasias do sujeito o assediam mais ele precisa criar, manter e confirmar a realidade do outro perseguidor.

O conceito psicanalítico de projeção inspirou os testes projetivos como Rorschach, o TAT (Thematic Aperceptional Test), o Pfister ou o TDH (Teste do Desenho História). Em todos estes procedimentos diagnósticos são apresentados estímulos relativamente ambíguos ou indeterminados, como manchas, quadriláteros coloridos, uma folha em branco na qual uma família e uma história devem ser compostas, ou imagens de cenas das quais podemos criar uma história. Em todos os casos o princípio é o mesmo, quando falo do outro, quando interpreto o outro, relativamente indefinido ou indeterminado, acabo falando mais de mim mesmo e de meus complexos do que do outro em sua realidade própria.

Segue-se um princípio genericamente aceito por todas as escolas psicopatológicas de que quanto mais projeção mais grave o quadro é considerado. A projeção é um ato de negação ou de recusa de reconhecimento. Ela pode ser aplicada tanto ao agente da ação (delírio paranoico), quanto ao conteúdo da ligação, que pode ser de amor ou de ódio (delírio erotomaníaco), ao tipo de terceiro (delírio de ciúme) ou ao próprio conjunto das relações do sujeito com o mundo (delírio megalomaníaco).

Uma característica da presença da projeção ocorre quando localizamos uma espécie de desconexão temática ou contextual. Ou seja, independente do contexto, definição de verbas para a educação, visita de embaixadores estrangeiros, crise parlamentar, a resposta é sempre a mesma, ou tendencialmente a mesma. Este polo atrator das respostas é chamado também de complexo. Os complexos têm por definição certos temas, como o pai (complexo paterno), a relação entre os pais (complexo edipiano), a intrusão de um terceiro elemento (complexo de intrusão) ou a separação (complexo de desmame), mas virtualmente há complexos sobre quaisquer situações problemáticas para alguém.

Há complexos orais, ligados à sexualidade emanada da amamentação, há complexos anais, derivados do prazer de reter ou expulsar excrementos, há complexos fálicos e uretrais, ligados ao prazer de urinar, há complexos exibicionistas, ligados ao prazer de mostrar ou de ser visto, há complexos sádicos e masoquistas, ligados ao prazer sentido com a dor do outro ou de si mesmo. Um traço característico dos complexos associados com a projeção é a sexualização de contextos, em princípios distantes, do erotismo. Quanto mais grave o quadro, mas incontrolável e persistente as alusões a conotações sexuais.

Neste sentido a dificuldade do presidente Bolsonaro em responder a questões da esfera pública segundo o discurso e a lógica institucional. Daí porque sua persistente alusão à sexualidade, tamanho do pênis, golden shower e chocolates homossexualizantes sugerem fortemente a presença de complexos e projeções.

2) Para Pierre Lebrun e outros psicanalistas, a queda do patriarcado tem implicações não apenas sociais, mas também psíquicas. Qual a relação desse fenômeno com o avanço da extrema direita no Brasil e no mundo?

Desde Jung nos anos 1910 e Lacan nos anos 1930 discute-se na psicanálise o declínio da função social da imago paterna. Isso significa que o declínio do patriarcado é um processo que está em curso desde o início da modernidade, mas que teria entrado em um momento agudo na virada do século XIX para o XX, determinando as formas típicas de sofrimento psicológico descritas por Freud. Hoje três hipóteses mais importantes concorrem para entender a mudança em nossos modos de subjetivação e consequentemente em nossas formas mais típicas de sofrimento:

  • O declínio do patriarcalismo corresponde a uma nova maneira de se relacionar com as alteridades e com as estrangeiridades, de tal maneira que nos tornamos mais intolerantes e segregativos com as formas de vida que não partilham o mesmo registro de produção de alteridades.
  • O declínio do patriarcado altera fundamentalmente nossos modos de sancionar tipos preferenciais de satisfação ou de gozo. Esta é a hipótese de Pierre Lebrun, segundo a qual seria preciso reinstituir modalidades de restrição e de limitação para enfrentar esta nova paisagem moral.
  • O declínio do patriarcado convoca outros modos de produção de subjetividade, não apenas aqueles ligados à lei, mas também ligados aos corpos, às identidades e aos modos de pertencimento.

Estas alternativas nos fazem entender também as modalidades regressivas de entender esta transição em nossos paradigmas de relação entre autoridade e poder, entre desejo e prazer, entre identidade e alteridades. Tais formas regressivas interpretam que nosso sentimento social de incerteza, anomia e indeterminação derivam da falta de ordem e esta procede do deslocamento do pai da função mítica e moral de fundamento da lei.

Muitos interpretam a aparição de movimentos de direita, conservadores e regressivos como uma reação aos avanços conquistados por minorias, pelo aumento da imigração de estrangeiros, ou pela pluralização generalizada de valores. As retóricas de re-instalação do pai em seu lugar, centralizando e simetrizando as relações de poder entre família e Estado, entre vida privada e vida pública, entre o passado e o futuro, captam este sentimento social de anomia e desalento traduzindo-o em uma interpretação eficaz de que a reorganização vertical do mundo é necessária diante dos excessos de horizontalidade. Bolsonaro é um caso particular deste processo. O que explica sua aliança espontânea com crenças religiosas e formas institucionais baseada na força e da determinação.

3) Lula e Bolsonaro, cada um à sua maneira, são personagens que incorporaram uma espécie de poder patriarcal e mágico. Psicologicamente, nas massas (grupos) que mobilizaram, há diferença na assunção dessa posição redentora?

Lula e Bolsonaro de fato possuem características em comum. Ambos se opõe ao político como mero executor de obras ou administrador bem intencionado. Ambos levam em conta a ligação pessoal com seus eleitores, em acordo com a noção religiosa de carisma ou chamado. São políticos de exceção pois desconfiam do princípio pelo qual o político moderno é apenas um representante e um emissário de um programa pré-declarado em relação ao qual se pode cobrar fidelidade. Ambos enquadram-se na definição de populismo, ligando a autoridade pessoal da família com a autoridade pública das instituições, mas as semelhanças param por aí.

Enquanto o populismo de Lula propôs uma democracia inclusiva, por meio de políticas compensatórias, luta contra a desigualdade social, políticas de cotas e de inclusão nas universidades e escolas, bem como a tentativa de implantar o Sistema Único de Saúde, oferecendo saúde universal à população, o populismo de direita, representado por Bolsonaro, propõe uma democracia exclusiva, para poucos ou para menos pessoas, uma vez que se consegue convencer as pessoas que não há recursos para todos.

Já a posição de redenção ou de salvamento, depende em grande medida de um contexto social de desalento e desamparo. A confiança em uma herói salvador, acima da lei e em estado de exceção em relação a ela, é uma fantasia comum aos que imaginam que o sistema, por ser tão complexo e incompreensível, age apenas para desfavorecer as pessoas comuns e acumular privilégios. Curiosamente, o herói populista tem sempre a característica de ser uma “pessoa comum” ou, como definiu Adorno, um “pequeno grande homem”, ou seja, alguém que age e externaliza preconceitos comuns, afinando-se assim com a ideia de que a complexa realidade a ser enfrentada pode ser resolvida por medidas simples e óbvias, consagradas pelo “senso comum”.

Esta força criada pela transposição do senso comum à política de Estado, consegue amealhar um grande apoio popular, baseado na autenticidade e na impressão de que há uma “comunicação direta” entre ele e seus apoiadores. A existência de uma família que contraria a ordem e a separação entre público e privado, que pode parecer uma franca violação de princípios republicanos básicos, torna-se assim uma prova real desta transposição de um objeto de nossa fantasia para ocupar o lugar de nossos ideais de eu. Quando alguém coloca-se neste lugar, três efeitos são imediatamente produzidos:

• Identificação horizontal e grupalizante com todos os outros que estão referidos ao “mestre”, que passam a usufruir dos privilégios e afinidades de “irmãos”.

• O inimigo torna-se persistentemente sólido e unificado, uma fonte depositária de todos os sofrimentos e dificuldades são atribuídas a estas “forças opositoras”, “inimigos ocultos” ou demais “estrangeiros perturbadores”.

• Cria-se um transporte de autoridade imaginário entre o líder e seus seguidores. A violência, a autoridade e o poder que ele possui se transmite para seus seguidores o que autoriza as pessoas a perseguirem e ameaçarem outros adversários locais em nome de um “mal maior”.

4) Como a psicanálise pode explicar a identificação do público brasileiro, de forma massiva, com os discursos reacionários de Bolsonaro, notadamente os que pregam o ódio às diferenças como as que atentam contra índios, homossexuais, intelectuais de esquerda, transgêneros, artistas, etc.?

A identificação de massa, ocasionada por processos populistas, mas presente em alguma medida em qualquer relação entre fãs e ídolos idealizados, ou entre seguidores e mestres, é difícil de ser mantida ao longo do tempo. A renovação de inimigos torna-se cada vez mais custosa, as promessas miraculosas começam a se desgastar ou seu choque com a realidade, a proximidade com a realidade menor do personagem, acaba gerando pontos de incongruência com nossa fantasia. É por isso que grandes heróis frequentemente são destruídos por seus próprios seguidores, que se sentem progressivamente traídos pelas promessas do mestre.

Um procedimento importante é suspender a posição de opositor que dá consistência para o delírio de inimigo. Quanto mais relações pessoas, detalhes e convivência existem entre o possuído por uma identificação de grupo e o contra-grupo na qual a identificação de grupo se baseia, maior a chance de que a identificação se dissolva. A má notícia é que uma identificação deste tipo é relativamente imune a fatos e dados. Estes agem muito mais sobre as pessoas perifericamente envolvidas nestas formações grupais, e que por não se situarem “out-grup” conseguem se fazer escutar melhor do que aqueles automaticamente identificados com inimigos interessados.

Variar grupos de convivência e abrir-se para contato com mundos relacionais e ficcionais diferentes dos habitualmente frequentados pode ser uma alternativa interessante. Retornar a grupos de origem, que não estejam comprometidos com a lógica de auto-confirmação pragmática, pode ser um caminho razoável. Clinicamente, trata-se de desativar o sistema de idealizações do sujeito ao mesmo tempo em que se separa a demanda, na qual se apoia a identificação com o líder, do desejo do próprio sujeito.

Trata-se portanto de uma operação, usualmente realizada pela clínica psicanalítica, de des-alienação. Identificações de massa são diferentes de identificações de grupo ou identificações de classe. A qualidade do vínculo amoroso em cada caso é diferente, por isso transformações em nossos modos de amar, trabalhar e desejar podem afetar este tipo de identificação regressiva, observada na dissolução do eu na massa.

5) Como poderia ser definida essa masculinidade que se associa às armas, à violência verbal, à autoafirmação, à diminuição da mulher e dos outros gêneros sexuais? Sempre com vistas a colocar o homem como sujeito dominante dentro do corpus social?

A tipologização dos indivíduos favorece a identificação de massa. Quando alguém é escutado ou reconhecido apenas e tão somente porque ele integra um determinado grupo de pertencimento, a tendência é a perpetuação desta gramática de identificações. Minorias, como mulheres, indígenas, homossexuais ou transgêneros são eleitos como depositários das identificações de grupos que sentem sua perda ou instabilidade de posição social, como uma espécie de rapto ou de ilegítima apropriação de seu lugar. Facilmente alguém que não sabe muito bem explicar as razões emotivos de sua demissão, pode atribuir isso aos seus “inimigos naturais”.

Em situações de anomia ou de declínio econômico ou de instabilidade social tais processos tornam-se generalizados avivando conflitos latentes. O processo tende a se replicar uma vez que a mensagem de opressão ou de autoritarismo, como por exemplo, a valorização da violência para tratar a desordem social, acaba se capilarizando, acentuando as zonas de conflito e de opressão já presentes no funcionamento social. Por isso se diz que em situações de crise pobres e miseráveis sofrem duplamente, primeiro pela perda direta de empregos e proteções sociais, e depois com o acirramento do preconceito e com a segregação social.

Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista e professor titular da Universidade de São Paulo (USP).

Paulo Ferrareze Filho é professor de Psicologia Jurídica (UNIAVAN) e psicanalista em formação.

Juan Manuel P. Domínguez é cineasta, escritor e jornalista.

Brasil abaixo de fezes, cocô por cima de todos

Brasil abaixo de fezes, cocô por cima de todos

Um presidente enfezado.

Certa feita meu pai comentou comigo que a expressão “enfezado”, que significa irascível, tomado pela ira, decorre de estar “cheio de fezes”, situação que provoca irritabilidade e raiva na pessoa que acumula fezes no organismo.

A pessoa que vai ao banheiro apenas a cada 48 horas é enfezada, pois acumula fezes em seu corpo.

Bolsonaro é o típico enfezado, e isso se comprova pelo fato de defecar verbalmente sua raiva contra tudo e contra todos.

Isso porque as fezes expelidas pela boca, como faz o presidente ilegítimo, não têm o condão de livrar a pessoa de constipação intestinal, fermentação bacteriana nos cólons, fissura anal, distensão abdominal, dor abdominal, dor anal, mau humor, mal estar, dores de cabeça, doença diverticular dos cólons, que são evitadas pelo funcionamento regular do intestino*.

Nesse cenário, faz todo sentido que Bolsonaro, que proibiu a divulgação de dados sobre desmatamento no Brasil, demitindo o presidente do Instituto responsável por essa função, tenha sugerido como prática de defesa do meio ambiente, fazer cocô a cada 48 horas, e não diariamente.

A afirmação se soma a outras que compõem o Museu de Escatologias Verbais de Bolsonaro e, mais uma vez, é o presidente defecando pelo buraco errado.

Mas sobretudo é uma forma vulgar e explícita de ironizar e diminuir a dramática questão ambiental no Brasil. Bolsonaro fez cocô por cima da questão ambiental e espalhou o cocô com a língua.

E ainda convocou os brasileiros para se somarem ao seu exército de enfezados, o mesmo que marcha todos os dias pelas redes sociais, aplaudindo cada peido presidencial e repetindo “Muito bem, presidente, foi para isso mesmo que votamos em você”.

Mas o episódio em que o presidente da República convoca a todos para que façam cocô a cada 48 horas teve um lado positivo. O jargão de Bolsonaro finalmente se revelou em seu verdadeiro sentido: “Brasil abaixo de fezes, Cocô por cima de todos”.

*Atenção: O bolsonarismo é um problema intestinal. Ao persistirem os sintomas, um médico cubano deverá ser consultado.

General defende legalização da maconha medicinal?

General defende legalização da maconha medicinal?

O general Eduardo Villas Bôas, ex-comando do Exército. Foto: Marcos Corrêa/PR

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA – apresentou duas propostas para consulta pública, somente para empresas: numa, poderão plantar maconha, com uma série de exigências de segurança e, na outra, vão vender medicamentos de maconha sob forte sistema de farmacovigilância. Assim, apenas empresas transnacionais serão capazes de cumprir tais obrigações, principalmente as norte-americanas, canadenses e holandesas. Tanto que, no dia seguinte ao anúncio da consulta pela ANVISA, a empresa canadense Conopy Growth anunciou o investimento de 60 milhões de reais no mercado da maconha medicinal brasileiro, com a promessa de ampliação para 150 milhões de reais.

Até agora, o único exemplo de medicamento de maconha é o Sativex, comercializado em 28 países. No Brasil, onde recebe o nome de Mevatyl, fabricado no Reino Unido, o mesmo medicamento, com 27 mg/mL de tetraidrocanabinol (THC) e 25 mg/mL de canabidiol (CBD), é vendido desde 2017 e custa quase 3 mil reais.

Na mesma semana do início da consulta pública pela ANVISA, somos surpreendidos pela defesa da maconha medicinal pelo ex-comandante do Exército e atual assessor do Gabinete de Segurança Institucional do governo Bolsonaro. Diagnosticado com uma doença degenerativa com comprometimento neuromotor e sob o risco de perder a fala, o general afirmou não entender a razão de tanta dificuldade para adquirir medicamentos de maconha e chegou a chamar a proibição de “hipocrisia social”.

Trata-se de uma declaração, no mínimo, inusitada, considerando-se que parte de um general, ainda por cima um ex-Comandante do Exército. Ele jamais havia defendido a ideia nem se imaginava que poderia fazê-lo alguma dia. Será que fez essa declaração porque agora está precisando? Se fosse por isso, importaria com facilidade dos Estados Unidos.

Então, o general virou um ativista da maconha medicinal? Duvido muito… mais parece uma nova cortina de fumaça do governo Bolsonaro. Ainda mais depois do inimigo público “número um” da maconha medicinal, o ministro Osmar Terra, ameaçar fechar a ANVISA, se a agência insistir nas propostas da consulta. E agora, pior ainda, depois do Bolsonaro nomear um militar para tratar do assunto na ANVISA. Por que então Bolsonaro não exonera o general defensor da maconha medicinal?

Na realidade, trata-se de mais uma falsa polêmica desse governo, que sequer respeita uma família que não pode enterrar seu ente querido assassinado e desaparecido pela ditadura militar, como é o caso do pai do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil. Esse governo vai autorizar empresas transnacionais, principalmente norte-americanas, a plantar e vender medicamento de maconha no Brasil, enquanto os brasileiros não podem sequer manipular a planta!

Trata-se do governo do capitão do Trump, com filho e tudo na embaixada norte-americana, que vai seguir o lema da ditadura militar: “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.

O ex-Comandante do exército e assessor de Bolsonaro defende maconha medicinal, e agora Terra?

Posted by André Barros on Tuesday, August 6, 2019

ANDRÉ BARROS é advogado da Marcha da Maconha, mestre em ciências penais, vice-presidente da Comissão de Direitos Sociais e Interlocução Sócio Popular e membro do Instituto dos Advogados Brasileiros

Márcia Tiburi: “Fora do Brasil todos já perceberam que Bolsonaro é um maníaco”

Márcia Tiburi: “Fora do Brasil todos já perceberam que Bolsonaro é um maníaco”

Entrevista com a Marcia Tiburi, uma exilada pelo Bolsonarismo.

Foto: Mídia NINJA

Em maio de 1933, frente à Opera de Berlim, na Alemanha, aproximadamente 40 mil pessoas aplaudiram a queima de livros de intelectuais contemporâneos como Einstein, Stephen Zweig, Jacob Wassermann e Freud ao grito de “Contra os marxistas, os judeus e os materialistas!”. Freud, particularmente, seria perseguido e acusado de pornógrafo, pedófilo e pervertido, entre outras coisas, a causa das suas teorias sobre psicanálise que, com o tempo, acabariam por ser um pilar fundamental na estrutura do pensamento ocidental moderno.

Meses após a tomada de poder, os nazistas invadiram e destruíram o Instituto de Sexologia, onde se realizavam pesquisas para dilucidar o comportamento sexual humano. Durante todo esse período, Freud tentou se afastar das proclames esquerdistas para manter em funcionamento o Berliner Psychoanalytisches Institut (BPI), porém, os nazistas deram um novo rumo e colocaram o instituto a serviço de uma psicoterapia hitleriana que teria, curiosamente, como um dos seus apoiadores mais destacados Carl Jung.

Jean Joseph Goux insinua em “Freud e a estrutura religiosa do nazismo”, que o discurso de apelo religioso messiânico de Hitler, transcendia sua psique desequilibrada e tinha propósitos estratégicos para a dominação das massas. Hitler era um maníaco que entendia o poder de uma retórica política estruturada na força da religiosidade e de um ideal do ser alemão. Isto serviu para, de forma rápida e sem espaço para o debate, iniciar uma infernal perseguição de artistas, intelectuais, homossexuais, ciganos, judeus, negros e todo aquele que não se encaixasse no ideal do que se pretendia para a nação alemã.

A atividade intelectual e artística independente foi totalmente anulada e ou controlada pelo regime. O exílio chegou para grandes nomes como Fritz Lang, Sigmund Freud, Teodor Adorno, Walter Benjamin, Annie Fischer, entre outros. Também vale relembrar que durante o período de governo de Hitler, eram proibidas as exposições de artistas como Picasso, Henri Matisse, Marx Ernst, entre outros, por ser considerados impuros ou perversos, contrários aos interesses e ao espírito puro do povo alemão.

É quase impossível, com este cenário, não realizar analogias com o que aconteceu e ainda acontece no Brasil. Os casos de Márcia Tiburi, Jean Wyllys, Débora Diniz, entre outros, são paradigmáticos e parecem obedecer à mesma sequência de perseguição e difamação que levou ao exílio aquelas grandes figuras na Alemanha nazista, há quase cem anos.

A perseguição baseada em calúnias e naquilo que hoje se conhece como “fake news” (Freud era o maior alvo de noticias falsas que alimentavam a ideia de ele ser um pervertido sexual), se praticava desde os jornais oficiais e não oficiais do partido. “Der Angriff” foi um jornal fundado por Joseph Goebbels em 1927 e tinha uma linha editorial que propagava o ódio ao “sistema”, usando linguagem agressiva e direta. Seus temas mais recorrentes foram o antissemitismo, o antiparlamentarismo, a demonização dos intelectuais, da política tradicional, da democracia e da “arte perversa e marxista”. Similar ao trabalho feito nas mídias do MBL, Direita São Paulo, ou pelo youtuber Nando Moura, a força da agressividade e a passividade do governo ante o violento discurso das suas edições acabou gerando uma sensação de legitimidade na sociedade alemã. Ajudou assim a fazer crescer a narrativa nazista como “uma visão”, uma dialética que discutia a decadência do governo dentro do agito democrático.

Márcia Tiburi começou a ser alvo de boicotes e escrachos a partir de um episódio acontecido no dia 24 de janeiro de 2018, quando abandonou um programa na rádio Guaíba ao se deparar com o militante do MBL, Kim Kataguiri. Ele foi e continua a ser participante ativo de várias ações para censurar exposições como o “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, ou a participação da Judith Butler no debate sobre democracia no SESC Pompeia. Marcia Tiburi escreveu sobre o episódio:

…não me é admissível participar de um programa que tenderia a se transformar em um grotesco espetáculo no qual duas linguagens que não se conectam seriam expostas em uma espécie de ringue, no qual argumentos perdem sentido diante de um já conhecido discurso pronto (fiz uma reflexão teórica sobre isso em “A Arte de escrever para idiotas”), que conta com vários divulgadores, de pós-adolescentes a conhecidos psicóticos…

Logo depois disso, Márcia sofreu de forma progressiva cada vez mais ataques e difamações por parte de diferentes setores da direita: Flávio Bolsonaro, vários youtubers do MBL, Nando Moura, entre outros, divulgaram um vídeo dela fazendo uma análise antropológica dos mecanismos (como contexto social e situação financeira) que podem levar uma pessoa a acionar um assalto. No vídeo Márcia não justifica nem faz uma apologia ao assalto, mas analisa que existem contextos que podem lançar alguém a cometer essa ação. O vídeo, viralizado no Whatsapp, no Youtube e no resto das mídias, acompanhado de uma legenda que apela a pontos sensíveis do cidadão comum – como é o problema da segurança e da violência social – contribuiu para engendrar uma sensação de insensibilidade ao respeito das figuras intelectuais do país, e particularmente um ressentimento da classe média à figura dela. A mesma estratégia empregada pelos nazistas, há quase um século.

A escritora começou a receber ameaças pelas redes, por e-mail, pelo telefone. Em abril de 2018 teve que cancelar a apresentação do seu livro “O Feminismo em Comum”, por falta de segurança em virtude das ameaças e reclamações recebidas pelos organizadores e pela própria escritora.

“Fui perseguida durante todo o ano. Todos os meus eventos e lançamentos de livros foram invadidos, ou havia promessa de invasão. Muitas ameaças… ameaças do tipo ‘Quando você estiver assinando o livro eu vou te matar’”.

Ainda conforme Márcia, “vários desses sujeitos ficavam uma hora na fila de um lançamento de um livro meu, muitas vezes até compravam o livro para poder entrar. Uma vez que entravam, de repente, pulavam entre o público e faziam uma cena. Isso começou a virar uma coisa muito perigosa, porque não era um perigo só para mim. É perigo para a cultura brasileira, é perigo para a cultura literária”.

“As pessoas querem ir num evento para escutar, ouvir um escritor… O último evento que eu participei, que foi em novembro de 2018, foi bastante significativo porque havia ameaças de morte e de invasão” … Eu fui falar de literatura, a campanha já tinha acabado, a extrema direita já tinha ganhado. Mas eles não te deixam em paz. Você não pode ser uma escritora, não pode escrever romances… foi triste ver aquela segurança armada. As pessoas, quinhentas pessoas sendo revistadas, pessoas que queriam participar de um evento literário. As ameaças aconteciam na rua, por e-mail, nos eventos, no telefone. Decidi que para minha própria segurança, mas também para a segurança das pessoas que andam comigo, que convivem comigo, ainda nesses eventos, o melhor era eu sair do Brasil”. (trechos de “No Brasil, o estímulo à matança vem de cima para baixo”, entrevista disponível no Youtube)

O Brasil padece um êxodo de intelectuais, professores e artistas, conhecidos e anônimos, empurrados pelas narrativas de ódio e pelas práticas de invasão de eventos, difamação e ameaça pelas redes ou outras vias de comunicação. Nesse êxodo, uma das mais importantes intelectuais mulheres do país teve que abandonar suas atividades aqui e reiniciar uma vida estrangeira, como acontece e aconteceu sempre sob os diferentes tipos de regimes intolerantes.

Leia na íntegra a entrevista Ninja com Marcia Tiburi:

Pensas que existe uma forma de fazer filosofia sem fazer política?

Certamente a filosofia é uma determinada política da verdade, aquela que luta por sua exposição. Ideologia é, por sua vez, a política da ocultação da verdade. É uma pena que as pessoas tenham se deixado levar mais uma vez em nosso país pela ideologia capitalista e neoliberal que oculta a sua verdade. Deveriam ter se ocupado com a crítica, ou seja, a análise e a reflexão, que seria o caminho para se chegar à verdade.

Um exemplo atualmente muito interessante para entendermos o que é a verdade na prática: verdade é o que vem à tona hoje com as matérias feitas pelos jornalistas do The Intercept. E por que falamos de verdade nesse caso? Porque se trata de olhar de frente para o que aconteceu, para as provas. Quando falamos de verdade falamos de fatos e suas provas. Não de intenções ou outras abstrações.

A mídia tradicional no Brasil faz o papel de criar ideologias, ou seja, criar acobertamentos. A mídia alternativa tem chance de trazer a verdade à tona por meio de desocultamentos. Aliás, historicamente é isso também o que a filosofia sempre fez. Mas as pessoas não parecem gostar muito da verdade. E essa é uma característica da verdade, quando ela surge em jogos de poder, ela é sempre a parte que desagrada.

Derrida desenvolveu o conceito de Falogocentrismo, em outras palavras, a ideia de que a filosofia era um circuito fechado para homens brancos de origem e pensamento eurocentrista. Hoje ainda a filosofia precisa de ser ocupada por outros corpos, outras sensibilidades que não sejam a masculina eurocentrista?

As filósofas feministas já sabiam disso há muito tempo. O termo criado por Derrida é muito feliz porque vem condensar toda uma crítica ao sujeito histórico da filosofia que ainda existe, mas está sendo ultrapassado por novos sujeitos. Essa crítica ao sujeito filosófico encarnado nesse tipo de corpo “branco, europeu” já estava no livro da Dialética do Esclarecimento de 1947. Ali os filósofos Adorno e Horkheimer já denunciavam o eurocentrismo, o machismo e o capitalismo, além da mistificação fascista que vemos retornar hoje sob moldes “tropicais”.

A questão hoje é também “geopolítica”, sobretudo depois dos críticos da colonização, e nos obriga a discutir cada vez mais a ordem do discurso, ou seja, a produção do pensamento em tempos em que o sistema econômico tenta eliminar a reflexão a qualquer curso e usa a velha indústria cultural para isso.

Quatro dos exílios mais significativos do período bolsonarista envolvem duas intelectuais e ativistas mulheres (você Marcia Tiburi e Debora Diniz), o primeiro deputado assumido defensor dos direitos da comunidade LGBTQI (Jean Wyllys), e o escritor Anderson França, ativista pelo fim da violência policial e da extrema pobreza nas periferias. A tudo isto se somam as perseguições e ameaças cada vez mais crescentes contra o jornalista Glenn Greenwald, do The Guardian e The Intercept. O que você poderia refletir sobre isto?

Existem vários intelectuais e ativistas que já deixaram o país, alguns não viraram notícia. E inclusive não sou eu que vou comentar quem são essas pessoas porque nessas situações de perseguição, ameaça de morte, retaliação, tudo o que aconteceu com a gente, e acontece também com essas pessoas, cada um sabe o que é melhor pra si. Mas existem várias pessoas que deixaram o Brasil. Essas pessoas deixaram o Brasil não porque não gostam do Brasil, ou consideram que o Brasil é um lugar pior para se viver, ou que existem outros lugares melhores pra se viver no mundo. Não são escolhas. No nosso caso não foi uma escolha.

Eu me considero ejetada do Brasil. Praticamente expulsa. Sofri uma sorte incomum de intimidações e ameaças.

No meu caso, eu me considero ejetada do Brasil. Praticamente expulsa. Sofri uma sorte incomum de intimidações e ameaças. A campanha de difamação e fake news contra mim foi algo imenso, e ao mesmo tempo eu sempre tive esperança de que poderíamos ultrapassar isso. De que tudo isso seria passageiro. De que as figuras que eram responsáveis pela criação das mentiras e das calúnias contra mim seriam vencidas em tempo.

Hoje as pessoas não sabem onde eu estou morando. Tem muita gente que pensa que eu estou morando em Paris, tem gente que pensa que eu estou morando nos Estados Unidos. As pessoas não sabem onde eu estou morando, simplesmente porque eu ainda não decidi onde vou ficar. Então, transito entre vários países. Ora morando na casa de amigos, ora recebendo convites de universidades. Só vou estabelecer um paradeiro em setembro.

No que mudou sua vida hoje, quais são as consequências psíquicas, físicas e espirituais da sua situação?

Hoje eu posso avaliar da seguinte maneira: o custo psicológico é imenso, o custo econômico é imenso, o custo afetivo em relação às famílias, é imenso. O custo profissional é imenso. Ao mesmo tempo, quem se encontra nessa situação, conta com a solidariedade de muita gente, sobretudo a solidariedade internacional. No meu caso tenho muito apoio de todos os brasileiros que estão fora do Brasil, e tenho o apoio de várias pessoas de outros países e de instituições de outros países. E é também em função disso que eu vou poder escolher onde ficar a partir de setembro.

Eu percebo o enfraquecimento do poder desse presidente abjeto no nosso país e fora do nosso país. Fora do Brasil todos já perceberam que ele é um maníaco.

Então, eu continuo escrevendo, por sorte. Eu tenho esse recurso, continuo trabalhando na minha área que envolve escrever. Mas certamente há uma destruição de uma forma de vida e de uma organização familiar. Mas não é a maior tragédia do Brasil. A maior tragédia do Brasil é o que se faz com os nossos índios, com os nossos jovens negros, com o nosso povo pobre, e com a nossa natureza. E a Europa agora se dá conta do que é Bolsonaro também em relação a ecologia.

Eu percebo também o enfraquecimento do poder desse presidente abjeto no nosso país e fora do nosso país. Fora do Brasil todos já perceberam que ele é um maníaco. Dentro do Brasil muita gente já percebeu, muita gente já sabia. Mas existem pessoas que continuam seguindo o líder autoritário. São as pessoas que compõem o cenário do fascismo brasileiro atual. E infelizmente essas pessoas também têm muita força, porque fazem muito barulho, e muitas delas tem muito poder, inclusive e principalmente poder econômico.

É claro que a classe média baixa, que acompanha, não tem poder econômico, mas atua como imitando o líder autoritário, para tentar angariar com isso um lugar ao lado dessas figuras, vendo-se junto a essas figuras e às suas performances autoritárias.

Se a história da nossa raça continua a repetir as leis que parecem tê-la regido desde seus inícios, esse período de ira conservadora vai acabar (possivelmente após uma considerável devastação econômica e humana). Como você acha que vai se sentir quando tudo isto acabar de vez? Consegues fazer esse controverso exercício de futurologia?

Essa sua pergunta é muito curiosa. Como pensar o futuro? Como pensar onde estaremos, o que faríamos depois que tudo isso passar? O que pode acontecer? Se nós pensarmos nos exemplos dos ciclos dos governos totalitários, dos estados totalitários que já causaram catástrofes humanas no mundo, talvez seja um excesso de otimismo dizer que a gente vai sobreviver a tudo isso. Então, o que pode acontecer? O que aconteceu com os alemães, depois da passagem de Hitler pela Alemanha? O que aconteceu com o povo do Camboja? Do Vietnã? O que acontece hoje com os povos diversos, que sofreram das mais diversas maneiras, seus regimes totalitários?

Eu quero manter o otimismo, considerando que nós seremos capazes de resistir coletivamente. Eu confesso a você que não estou preocupada comigo mesmo, nem um pouco. Embora seja ameaçada, pude sair do Brasil porque escrevi muitos livros e fui resgatada por uma instituição que protege escritores pelo mundo. Então eu, como escritora, e como professora de filosofia, estou protegida e realmente não estou preocupada comigo. Estou preocupada com as pessoas que não tiveram como se proteger. Seja como ativistas, seja como cidadãos comuns, que hoje estão levando em frente suas vidas, suas práticas cotidianas, estão desamparadas.

“Nós seremos capazes de resistir coletivamente”

Eu não estou desamparada, sou amparada por instituições internacionais. Me preocupo com o povo brasileiro que sofreu uma lavagem cerebral pesada, me preocupo com esse povo que não escolheu esse governo delirante, e mesmo assim, sofre os efeitos desse governo. Me preocupo com a segurança das pessoas que estão na mira de assassinos governamentais, de pessoas que por engano, por erro, por ingenuidade ou por estupidez, votaram em figuras que hoje prometem a morte das populações marginalizadas. Me preocupa que há pessoas no Brasil que ultrapassaram o limite do bom senso e da dignidade humana, desrespeitando a regra básica da nossa civilidade que é “Não Matarás”.

Espero que a gente possa superar isso. Continuamos lutando para isso. Pensando em projetos, pensando em como resgatar o Brasil. Mas precisamos fazer isto hoje com muita, mas muita inteligência, com mais habilidade e aptidão. Nós precisamos ser hoje ainda mais lúcidos para entender quais são as necessidades para concretizar a nossa reconstrução.

Agenda Marcia Tiburi:

Eu acabo de lançar “Delírio do Poder – psicopoder e loucura coletiva na era da desinformação no Brasil” pela editora Record. Em agosto lanço pela editora Nós um pequeno livro com quatro contos chamados “Quatro passos sobre o vazio”, um conjunto de quatro narrativas tendo como narrador um funcionário perverso de um sistema igualmente perverso.

Obras publicadas:

Feminismo em comum: para todas, todes e todos. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 2018.
Ridículo Político: uma investigação sobre o risível, a manipulação da imagem e o esteticamente correto. Rio de Janeiro: Record, 2017.[23]
Uma fuga perfeita é sem volta. Santa Catarina: Record, 2016.[24]
Como Conversar com Um Fascista – Reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro. São Paulo: Record, 2015.[25]
Filosofia: machismos e feminismos. Santa Catarina: Editora UFSC, 2015. (Com Maria de Lourdes Borges)[26]
Filosofia prática: Ética, vida cotidiana, vida virtual. São Paulo: Record, 2014.
Diálogo/Dança. São Paulo: Senac, 2012. (Com T. Rocha)
Era meu esse rosto. Rio de Janeiro: Record, 2012.
Olho de vidro – A televisão e o estado de exceção da imagem. Rio de Janeiro: Record, 2011.
Filosofia pop. São Paulo: Bregantini, 2011.

Marcia Tiburi no:
Youtube
Facebook
Instagram

Desafios presentes da Educação Brasileira: PNE, SNE e o novo FUNDEB

Desafios presentes da Educação Brasileira: PNE, SNE e o novo FUNDEB

Foto: Igor Matias / Estudantes NINJA

Em minha experiência no exercício do cargo de secretário de estado de Educação pude observar que, independente da orientação político-ideológica de cada governo, há uma profusão de medidas comuns que devem ser adotadas para a necessária consecução dos objetivos dispostos em nossa Constituição Federal, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e nos Planos Nacional, Estaduais e Municipais de Educação.

Em cada uma das três esferas federativas há questões que transcendem ao debate político-partidário e eleitoral e cuja adoção se faz necessária, de modo que sejam atingidos, em caráter continuado e progressivo, os resultados esperados na busca pela qualidade da Educação. São questões que devem ser respeitadas e observadas nos planejamentos estratégicos e respectivos planos de governo de cada gestão, seja ela federal, estadual ou municipal.

Dentre tais medidas que devem ser adotadas, procurei agrupar, de maneira sistemática, um conjunto expressivo delas, notadamente as que julgo mais importantes. Mais do que um esforço de taxonomia, pretendia facilitar a minha própria compreensão a respeito das políticas públicas educacionais. Acredito que tal esforço também pode ser de alguma serventia para orientar gestores educacionais a conduzi-los na direção de atingir melhores resultados em seus desafios.

Segundo tal entendimento, são 7 os pilares das políticas públicas para a Educação Básica: 1) desenvolvimento profissional (que abrange as medidas relacionadas à formação – inicial e continuada -, estruturação de carreiras e estabelecimento de padrões de remuneração); 2) currículo (aqui incluídos parâmetros, diretrizes e orientações curriculares, planos de curso, planos de aula e tudo o mais que se relacione, diretamente, com a dimensão pedagógica da gestão escolar); 3) avaliação (de proficiência acadêmica, de desempenho profissional, das condições de oferta); 4) gestão e governança escolar (aqui incluídos o plano de desenvolvimento da escola, projeto político-pedagógico, planejamento etc); 5); pactuação, articulação e cooperação federativa, por intermédio da implantação do Sistema Nacional de Educação e da regulamentação do regime de colaboração; 6) a busca pela qualidade e equidade, com respeito a diversidade; 7) educação integral e de tempo integral.

Vou me ater, porém, a um oitavo pilar, sem o qual nenhum dos demais se realiza: o financiamento das políticas públicas educacionais. O fim do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB), assinalado para 2020, assim como os anunciados cortes e contingenciamentos nos recursos das bolsas de estudo e de pesquisa, bem como nos recursos discricionários das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES), imprescindíveis ao seu funcionamento, trazem o debate do financiamento à tona e o fazem de modo urgente e emergente.

Criado em 2006, no governo Lula, por intermédio da Emenda Constitucional nº 53, em substituição ao antigo FUNDEF de FHC, o FUNDEB é a grande fonte de financiamento das despesas de custeio da Educação pública, essenciais para o funcionamento das redes estaduais e municipais de Educação Básica. Junto aos programas de natureza suplementar do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) – custeados, por sua vez, com recursos do salário-educação – é através do FUNDEB que a vinculação de receitas, de que trata o art. 212, da Constituição Federal, se operacionaliza. Ele se baseia no financiamento, per capta, por meio do Custo Aluno Anual (CAA). O cálculo considera a divisão das receitas dos fundos contábeis pelas matrículas ponderadas para cada etapa e modalidade de ensino de cada uma das unidades da federação.

O debate para constituição de um novo FUNDEB vai além de apenas prorrogar sua vigência, sem nenhuma espécie de modificação. Ele deve passar por uma reformulação profunda, sobretudo após a entrada em vigor da Emenda Constitucional nº 95/2016 e seus efeitos negativos, pois esta limitou o crescimento do orçamento da
União apenas a variação da inflação do ano anterior.

Há duas PECs tramitando no Congresso Nacional e que visam reformular e tornar permanente o FUNDEB: a PEC nº 15/2015, em tramitação na Câmara dos Deputados, cuja relatoria está a cargo da deputada federal Profa. Dorinha (DEM/TO); e a PEC nº 65/2019, do Senado Federal, cujo relator é o senador Flávio Arns (PSDB/PR).

Ambas as PEC’s trazem propostas interessantes, dentre as quais a de tornar um FUNDEB uma fonte permanente de financiamento, bem como a proposta de ampliação do percentual de complementação da União.

Reformular o FUNDEB e os demais mecanismos de financiamento da educação pública brasileira é uma das medidas essenciais para o sucesso dos Planos Nacional, Estaduais e Municipais de Educação. Da mesma forma, instituir o Sistema Nacional de Educação e regulamentar o regime de colaboração entre a União, os Estados e os Municípios são medidas que não podem ser adiadas.

Sem elas, não conseguiremos atingir a sonhada universalização de matrículas em todos os segmentos e modalidades do ensino, a implantação do Custo Aluno Qualidade (CAQ), a implementação do Piso Salarial Nacional para todas as categorias de trabalhadores em Educação e demais metas do PNE, dentre outras.

Jessé Souza: por que Moro ainda não caiu?

Jessé Souza: por que Moro ainda não caiu?

Como nenhum fato isolado se explica por si só, é necessário articular conscientemente a cadeia entre as causas

Imagem: Marcelo Fernandes / @fernandesgraphics / via Design Ativista

Por Jessé Souza

O escândalo da “Vaza Jato”, provocado pelo The Intercept e pela extraordinária coragem de Glenn Greenwald, desmascarou a hipocrisia do jeito brasileiro de fazer política que já vem acontecendo há mais de cem anos. A Lava Jato não é, afinal, uma história de cinco anos que começa em 2014 com o “escândalo da Petrobras”, mas sim uma história que vem desde 1930, quando Getúlio toma da “elite do atraso” o poder de Estado. Foi aí que se construiu a ideia estapafúrdia de que a “corrupção só da política”, usando o conceito de patrimonialismo como contrabando, é a raiz de todos os problemas brasileiros. A construção dessa ideia ridícula como suposta explicação central para os problemas brasileiros “coincide” com a ascensão de Vargas ao poder político contra as elites do dinheiro. Como a elite do dinheiro tem que “moralizar” sua rapina, desde então seus inimigos são perseguidos e sistematicamente depostos do poder com falsas acusações de irregularidade pelo uso supostamente “patrimonialista” e corrupto do Estado e da política.

Como nenhum fato isolado se explica por si só, é necessário articular conscientemente a cadeia entre as causas. Toda exploração econômica tem que se servir de um “álibi”, ou seja, de um recurso simbólico que torne o fato da exploração invisível enquanto tal, para poder ser exercida de modo que os próprios explorados a considerem aceitável ou inevitável. O caso brasileiro é, no entanto, um caso limite. Alguma forma de distorção da realidade está sempre presente em todos os casos de sociabilidade humana conhecidos na história. No caso do nosso país, como o escândalo da “Vaza Jato” mostra tão bem, a capa de moralidade não é mera distorção da realidade vivida. Aqui, tal realidade é “invertida” e posta de cabeça para baixo, o que explica o caráter patológico e neurótico para quem vive a conjuntura política atual.

Afinal, a descoberta irrefutável de uma quadrilha funcionando dentro do aparelho de Estado, usando os cargos públicos não apenas para enriquecimento e vantagens pessoais, mas também como uma forma despudorada de manipular a opinião pública e minar todos os pressupostos da democracia com fins partidários, não levou – ainda – sequer à perda dos cargos nem à prisão dos responsáveis. A lei parece não se aplicar aos desmandos de Moro e sua quadrilha, muito menos para as fontes de renda misteriosas da família Bolsonaro. Será que é porque esse pessoal assegura, por outro lado, o saque do Estado e das riquezas nacionais pela elite endinheirada? Quem ainda possuir dois neurônios intactos saberá responder.

Mas, e como fica a necessidade de se criar uma capa de moralidade e de falseamento da realidade para legitimar os desmandos? A Lava Jato funcionou como articulação explícita para a “corrupção real”, a da apropriação por agentes privados de empresas públicas a preço de banana, o mesmo que, aliás, aconteceu recentemente com a BR Distribuidora, pelos bancos que tiveram uma reunião secreta com Fux e Deltan. Ao que parecia, a questão era que o PT não podia ser alçado ao poder para não melar os “bons negócios”. Então, com uma corrupção tão descarada como essa, como ninguém dos “camisas amarelas” vai às ruas para pedir que a honestidade volte?

Ora, só pode ser porque a maior parte dos “camisas amarelas” nunca esteve de fato interessada em combater a corrupção. O que, de resto, apenas comprova a tese do falso moralismo do “combate à corrupção”, visto que só vale para partidos populares. A dificuldade geral, especialmente para a elite e a classe média, é a perda do único “álibi” existente para mascarar seu ódio e desprezo pela população negra e mais humilde sob a forma da falsa criminalização dos seus representantes. É a compreensão intuitiva disso, o que explica também as idas e vindas de órgãos da elite, como a Veja e a Rede Globo, na cobertura do caso. Eles precisam manter um vínculo com a realidade, agora desmascarada, sob o risco de perder qualquer legitimidade, até para a parte mais esclarecida do próprio público. Por outro lado, estão envolvidos até o pescoço na manipulação desse mesmo público. O jogo havia sido controlado de cima pela elite e sua imprensa venal. Moro e Deltan foram apenas os “laranjas”, os pequenos oportunistas que ficam com as sobras do negócio grande. Tudo indica que a parte mais esclarecida da classe média já desceu do barco. Reinaldo Azevedo e outros arrependidos falam para esse público.

É Bolsonaro e sua base de poder infensa a argumentos racionais que permite a continuidade da farsa. O seu público não precisa de legitimação porque seu protesto radicalizado está vincado em sentimentos irracionais como ressentimento, inveja social e preconceitos racial e de classe. Inveja e ressentimento contra os de cima, o que explica os ataques à arte, à cultura e ao conhecimento em geral. Também a vingança, há muito esperada, contra séculos de desprezo dos “doutores” contra os remediados entre os pobres, a base real de Bolsonaro, muitos dos quais são brancos e, por isso, se acham no direito “racial” de um futuro melhor do que de fato possuem. Contra os de baixo, por sua vez, a raiva se volta para os negros e mestiços pobres que tiveram a ousadia de ascender socialmente no período recente e de chegar ainda mais perto deles. É difícil saber o que causa mais revolta nestes 20% da população brasileira que são a base real da força de Bolsonaro: a raiva contra os de cima ou contra os de baixo. Esse é seu público cativo, os 20% que sempre apostaram nele mesmo antes da “fakeada”.

O discurso contra as elites mostra o sequestro do tema da luta de classes pela direita, já que a esquerda foi covarde e incapaz de qualquer protagonismo nessa área.

Para esse pessoal, a democracia não é mais do que uma palavra odiada, afinal ela nunca lhes serviu para nada. Ela só parece vantajosa para os já privilegiados e para a população negra e humilde que ascendeu com o PT. Por causa disso, Bolsonaro lhes parece o “vingador” perfeito. O discurso contra as elites, utilizado para a arregimentação dos “bolsominions” para o último dia 26 de maio, mostra o sequestro do tema da luta de classes pela direita, já que a esquerda foi covarde e incapaz de qualquer protagonismo nessa área. Por outro lado, a única política pública informal efetiva do bolsonarismo é armar milícias e polícias para a chacina indiscriminada dos negros, índios e pobres, o que alimenta seu desprezo e o de seu público pelos mais frágeis. Da mesma forma que a distância em relação à “cultura” os inferioriza, a violência aberta contra os mais frágeis os torna “aparentemente” poderosos. A destruição da cultura e do conhecimento satisfaz sua inveja. A destruição dos fragilizados satisfaz seu desprezo e seu medo deles. É tudo aparência para mentes doentias, mas a aparência pode ser tudo para quem não tem mais nada.

Essa “minoria barulhenta” pressente que o momento da vingança chegou. Ela se tornou abertamente fascista porque é ela que diz: não importa se é ou não verdade o que diz a “Vaza Jato”. O que importa é o que é “necessário” para se sentir melhor do que se é. São pessoas em boa parte frustradas na vida privada, que usam a política como forma de dar sentido a uma vida vazia e sem direção. O “bolsominion” típico é um pobre remediado, na maioria um “lixo branco” sem cultura e sem grandes esperanças na vida, que, de repente, pode se ver como protagonista de alguma coisa. Ao se definir como conservador e de direita, se sente como alguém que “protesta”, um pequeno herói, supostamente contra as tendências de seu tempo, que ao se identificar com o tirano que “tira onda” de poderoso, se sente igualmente poderoso. Como é incapaz de compreender uma realidade complexa, refugia-se em bravatas estereotipadas e finge conhecer muito do que nada conhece.

Para essas pessoas, Moro é, hoje, tanto seu herói quanto Bolsonaro. Os “likes” de Moro desceram a escala social, embora ele não tenha a menor ideia disso. Acredita-se onipotente. Como sua valia para Bolsonaro era ser uma ponte com a classe média estabelecida pseudomoralista, toda a sua base de apoio mudou ou está mudando. Os 20% de supostos “empoderados” barulhentos é a única sustentação real do atual arranjo de poder. Bolsonaro, por sua vez, também depende de Moro. Afinal, a mentira da Lava Jato se alongou na própria mentira. Sem a Lava Jato não existiria Bolsonaro. Os dois são carne da mesma carne e sangue do mesmo sangue. A solução não é simples para ninguém neste jogo. Ver a “casa cair” é o que o “bolsominion” mais quer. Enquanto isso, a elite mais saqueadora quer a grana fácil das grandes mamatas e sequer se dá conta do perigo. Bolsonaro institucionaliza o roubo pequeno e miliciano do botijão de gás sem bandeira. Esses são, hoje em dia, os apoios efetivos da Lava Jato. Os 80% restantes observam bestializados um mundo que não mais compreendem.

*Texto publicado originalmente em www.jessesouza.com.br

“Não colem em mim esse discurso da meritocracia”, diz Conceição Evaristo

“Não colem em mim esse discurso da meritocracia”, diz Conceição Evaristo

Foto: Marcelo Costa Braga

O racismo estrutural e a falta de oportunidades para a grande maioria da população negra em nosso país são questões que incomodam profundamente a escritora Maria da Conceição Evaristo. Nascida e criada numa periferia de Belo Horizonte (MG), mulher negra e pobre, trabalhou como empregada doméstica e já vivenciou na pele o preconceito da nossa sociedade.

Hoje aos 72 anos, doutora em Literatura Comparada pela UFF, tem diversos livros publicados e é chamada para eventos em vários países. No entanto, assim como ela lutou muito para chegar onde chegou, milhares de mulheres negras se esforçam a vida inteira e permanecem vivendo em meio a dificuldades. É o falso discurso da meritocracia brasileira, segundo ela.

Vencedora do prêmio Jabuti em 2015 com o livro Olhos D’Água, seu nome foi muito falado no ano passado quando oficializou sua candidatura à Academia Brasileira de Letras. Poucas mulheres, nenhuma delas negras, ocuparam até hoje a cadeira dos imortais. E frente a muitas críticas, foi eleito o cineasta Cacá Diegues.

Nesta entrevista, ela fala sobre o machismo impregnado não só na academia e instituições, mas também na sociedade brasileira como um todo. Assim como Carolina Maria de Jesus, escritora negra que morreu pobre e era considerada muito talentosa, ainda não foi a vez de Conceição no pantheon da casa da literatura nacional.

Conceição Evaristo, como é conhecida, estreou na literatura em 1980 e desde então milita em defesa da negritude. Seus textos tratam de discriminação racial, gênero e classe, além de diversas outras mazelas em nossos territórios. Trata-se, na sua opinião, de escrevivências, pois seus personagens de alguma forma são inspirados na realidade. Estes temas estão na conversa abaixo, assim como uma análise sobre a mídia e a conjuntura política atual. Para ela, a intelectual letrada tem um compromisso ético e político, na medida em que vivemos num país extremamente desigual.

Em termos de literatura brasileira, tivemos algumas épocas rotuladas: barroco, romantismo, parnasianismo, modernismo, etc. É possível caracterizar o momento atual?

Se considerar a literatura como um todo e incorporar as traduções literárias das classes populares, do que se chama periferia, a autoria negra, de mulheres e homoafetiva, por exemplo, temos um período muito rico. Na história da literatura brasileira não vemos esses setores, se ela foi uma literatura diversificada em termos de criação não foi em divulgação. Vemos um discurso literário em que a autoria preponderante é de homens brancos. Hoje temos uma autoria mais diversa, embora ainda não tão conhecida. Vivemos um momento que, por força desses grupos, tende a uma democratização maior. Pelo protagonismo deles temos um discurso literário mais amplo, que dê mais conta de realmente desenhar o rosto do que seria esta nação brasileira.

Isso se reflete na linguagem dos textos?

Reflete tanto no ponto de vista de linguagem quanto do enredo, da construção do personagem e do próprio conteúdo. Se antes tinha uma literatura que narrava os grandes centros ou os acontecimentos vistos por autores que olhavam de baixo pra cima, hoje temos um discurso literário criado a partir de dentro. É muito diferente, por exemplo, um texto de Adolfo Caminha, o Bom Crioulo, em que ele coloca um personagem negro gay do que um texto hoje de um gay que vai criar um discurso a partir de sua própria experiência.

Essa diversidade contempla a qualidade do texto?

Depende do que você considera como parâmetro ou bom. A qualidade está relacionada à própria questão do cânone, o que ele vai considerar como literatura? E quem tem essa voz e define o que é a boa literatura? Posso considerar um texto de excelente qualidade pois, a partir desse momento, o que eu vivo o texto me convoca, e para você não significar nada. Hoje temos um texto que pode agradar um número maior de leitores, e quando você pensa em qualidade está fazendo comparações, é algo muito subjetivo.

Hoje temos um discurso literário criado a partir de dentro. É muito diferente um texto de Adolfo Caminha, o Bom Crioulo, em que ele coloca um personagem negro gay do que um texto hoje de um gay que vai criar um discurso a partir de sua própria experiência.

E como o mercado está reagindo a isto, num cenário em que livrarias estão fechando?

O grande mercado livreiro, que ainda está propenso a pegar as “grandes autorias”, os clássicos, está sofrendo um choque porque está percebendo que editoras pequenas estão se impondo. Eu mesma, por exemplo, só tenho publicado em editoras pequenas: Mazza e Nandyala, de Belo Horizonte, que nascem com objetivo de publicar autoria negra devido a nossa dificuldade de penetrar no mercado.

Aqui no Rio de Janeiro publico com a Malê, uma editora que nasceu também com esse objetivo, e a Editora Pallas que tem também divulgado e vendido muito minha obra, inclusive via PNLD (Política Nacional de Livros e Distribuição), é de médio porte. Tenho transitado entre editoras que poderiam até ser chamadas de alternativas, e outras um pouco maiores. Vemos hoje, inclusive nos prêmios literários, que editoras pequenas estão surgindo e conseguem colocar seus autores na mesma concorrência que as já definidas no mercado.

Existem muitas plataformas hoje que possibilitam novos autores publicarem seus livros, inclusive sites interativos. Como é essa questão da tecnologia e o livro de papel?

Gosto do livro de papel, porque tenho o vício antigo de ler, marcar, brigar com o texto. Mas essas possibilidades via e-book, dentre outras ferramentas, também são importantes na democratização. Muitos jovens estão lendo em função disso, não acho que um mercado exclui o outro, são complementares e têm público. Mas a minha preferência ainda é o livro de papel, até porque tenho dificuldade de ficar muito tempo com olho na tela.

A tendência é a publicação de papel ser extinta? No jornalismo existe esse debate tem tempo.

Espero que não dê tempo pra ver isso acontecer, porque vou ficar muito triste. Não saberia te dizer, mas podemos pensar que há todo um processo também de conquista desses objetos culturais. Ainda existem comunidades que não têm nem condição de acessar um livro, então imagina a internet se pensarmos só no Brasil. Está longe do livro acabar, acho que tem espaços, pessoas, grupos, coletividades, que o livro ainda é a grande novidade.

Foto: Marcelo Costa Braga

E o desafio ao escritor frente a um grau elevado de analfabetismo e pouco costume de leitura?

Ontem na Abralic (Associação Brasileira de Literatura Comparada) falamos sobre isso. Mas não é só o livro, o grande desafio é que muitos grupos não chegaram nem a este processo de alfabetização ainda. Grande parte das pessoas que acabam servindo de inspiração da minha escrita não tem condição de adquirir este bem. Muitos ainda não atingiram o processo de alfabetização, e por outro lado temos livros de artes ou mesmos simples caríssimos. A gente quer um livro bem feito, a ilustração também sai cara, então tem várias questões envolvidas. Primeiro teríamos que ter uma política de alfabetização, outra de distribuição de livros, desde acessar na sua casa até os equipamentos públicos como bibliotecas.

Você diz ter subsídios para produção e distribuição deste material?

Uma política pública que garanta o livro chegar às pessoas. Outra questão, que é mais difícil, é parar de pensar no livro como objeto de luxo. Uma das experiências mais bonitas que vivi em termos de leitura foi em Cuba, num festival de literatura em que o Brasil era o país homenageado e fui pelo Ministério da Cultura, na época do Gilberto Gil. Vários livros eram feitos de papel jornal, o objetivo era baratear o custo facilitando o acesso. Mas nós já temos essa visão que o livro tem que ter uma capa colorida, então se você faz um livro muito simples não chama muito atenção porque ele é um objeto de luxo. Para criança isso é válido porque desperta curiosidade, mas porque nossas crianças já são criadas com essa visão. Precisamos desse incentivo de modo que a fabricação de um livro pudesse baratear esse custo e fazer uma distribuição melhor.

Na Academia Brasileira de Letras (ABL) demorou um século para uma mulher chegar à presidência, a Nélida Piñon (1997), e até hoje só teve mais uma, a Ana Maria Machado. Qual sua avaliação sobre isso enquanto mulher negra?

A ABL, como qualquer instituição brasileira, repete o modo de ser das demais instituições. Nas grandes empresas, por exemplo, você vai encontrar poucos negros em papeis de gerência. Na alta hierarquia do exército também, pouquíssimos reitores de universidade negros, assim como nos bancos, etc. A ABL repete e confirma os modos de relações raciais e sociais na sociedade brasileira. Nos causa certo estranhamento pensar que é uma instituição que congrega escritores, pensantes, intelectuais, onde você espera caminhos diferentes. Mas não, essa pouca presença de mulheres e de negros, apesar de ser fundada por um escritor negro (Machado de Assis), reflete direitinho a estrutura social dominante.

É uma pena, a própria ABL perde com isso, porque se ela é uma casa que guarda a literatura brasileira, a língua nacional, tem que estar atenta às diversidades. Falta, por exemplo, uma representatividade dos sujeitos indígenas. Vamos ver quando ela realmente vai dar conta do papel que representa.

A Carolina de Jesus, por exemplo, teve muita repercussão na época dela e não entrou na ABL.

Gostaria de falar sobre o que represento hoje, no momento sou um das escritoras mais acessadas para entrevista e para tudo. Em relação à Carolina Maria de Jesus, certo tempo ela representava o que parte da classe média brasileira precisava para expurgar suas próprias culpas. A própria Igreja Católica procurava estar junto aos pobres, a classe média num momento de contracultura, surgia a bossa nova e outro discurso que procurava captar a realidade brasileira. E a vida de Carolina de Jesus representava o mais alto grau de pobreza. O país representava um processo de modernidade com a construção de Brasília e surge aquela mulher que simboliza um Brasil que caminhava para modernidade, mas com pessoas ainda passando fome. Ela foi muito necessária naquele momento para contradizer todo aquele discurso.

Minha preocupação é que eu como mulher negra, escritora, que vem da periferia das classes populares, sou o exemplo de um discurso muito perigoso: a meritocracia. Tentam desconstruir a necessidade e justeza das ações afirmativas, que estariam favorecendo certas pessoas. Mas na verdade é uma dívida que a nação tem tanto com os africanos escravizados, quanto às nações indígenas. Esse discurso da meritocracia diz que se você estudar ou se esforçar consegue. Tenho muito medo disso, porque conheci pessoas que fizeram isso e não conseguiram. Por que determinados sujeitos têm que estudar e se matar tanto, se outros já nascem com tudo garantido?

Para uns a escola é luta e conquista, já alguns nascem com esses direitos garantidos. Toda vez que você ver uma exceção, pergunte quais são as regras porque ela muitas vezes só confirma as regras. Então não me tomem como exemplo, não colem em mim esse discurso da meritocracia. Claro que estou feliz pelas minhas conquistas, mas por que uma mulher de 72 anos está conquistando isso a duras penas, e a grande maioria das mulheres não?

Tiveram muitas mulheres que foram muito midiáticas, como Clarice Lispector e Cecília Meireles, dentre outras, que mesmo assim não entraram na academia. Por quê?

Tem uma questão também do machismo, a maioria da academia é formada por homens. Já começo a pensar a ABL não por quem está nela, mas por quem está fora. Não sei se estas que você citou não demonstraram o desejo de entrar, ou já sabiam dessa estrutura.

Se nos voltarmos aos negros homens, por exemplo, Lima Barreto dizem que tentou mas falaram que não era lugar de moleque. Pensando que lá não são só escritores, como Ivo Pitanguy ou Sarney, por exemplo, por que Abdias Nascimento nunca foi convidado? Lélia Gonzales, Beatriz Nascimento, o próprio professor Muniz Sodré, que foi diretor da Biblioteca Nacional? Por que Milton Santos não está na ABL, se teve livros traduzidos no mundo inteiro e ganhou um prêmio na área de geografia que corresponderia ao Nobel de Literatura? Não dá bem para entender, e não sei quando a academia vai conseguir dar esse passo à frente.

Não colem em mim esse discurso da meritocracia. Claro que estou feliz pelas minhas conquistas, mas por que uma mulher de 72 anos está conquistando isso a duras penas, e a grande maioria das mulheres não?

Você acha que o Brasil é um país racista? O que de concreto lhe leva a crer que sim ou não?

Tenho certeza que o Brasil é racista. Desde os anos 1980 o movimento social negro teve um papel muito importante na desconstrução do mito da democracia racial. Hoje qualquer brasileiro dizer que não somos um país racista ele tem que ser muito alienado ou muito cínico. O grande salto do Brasil foi ter tido a coragem de por o dedo na ferida. O primeiro discurso oficial de um chefe da nação nesse sentido foi do FHC, mas também não por ele ser consciente e sim por pressão dos movimentos sociais. As denúncias nas conferências e tratados internacionais até a gente chegar às ações afirmativas.

Todas as nações construídas através das diásporas Africanas enfrentam esse racismo. A América Latina, as Américas Centrais, os EUA, fora os próprios países africanos com a chegada dos colonizadores, como o grande exemplo do apartheid na África do Sul. Nos engana justamente a falácia da democracia racial e que seríamos o grande exemplo dessa possibilidade. Nós negros sabemos muito bem que há uma diferença imensa, por exemplo, entre você e um homem negro. A sua cor te permite uma passagem que ao homem negro não é permitida, e eu ao lado de uma mulher branca. Não podemos pensar a questão racial só nas relações sociais, e sim no sistema.

Você tem, por exemplo, o sistema carcerário como um sintoma claro neste sentido.

Justamente, e aí é interessante como os próprios artefatos culturais ou a própria mídia são também responsáveis por esta situação. Quando se prende, por exemplo, um rapaz branco com droga e um negro você repara a diferença de linguagem. O branco atenua, já o negro criminaliza. É como se fosse um círculo vicioso, a mídia cria determinados imaginários.

A gente pode pensar, inclusive, na própria mídia de diversão nas novelas. Em Mulheres Apaixonadas o personagem batia na mulher com a raquete, e termina dizendo que esse sujeito tinha uma questão psicológica e de educação redimindo seu comportamento. Ele vai fazer análise não porque era ruim, mas tinha uma questão que a análise resolvia. Na Senhora do Destino o personagem negro cigano agredia a mulher e ainda era traficante. Para ele não tem salvação, não tem psicanálise que dê conta porque era ruim de natureza e extremamente nocivo. A própria mídia vai trabalhando certos estereótipos, assim como a literatura também.

O escritor tem o dever de produzir arte relacionada à política? Perguntei isso ao escritor Milton Hatoum e ele citou o escritor Antônio Callado, que abordava muito o tema.

Depende da própria concepção de política porque todo ato é político, como esta minha entrevista. A literatura pode funcionar como um discurso que celebra o status quo e ser um belo texto literário, assim como o contrário. Quando você considera que determinadas obras fazem sentido e outras não, ou quando você não percebe esse valor político da literatura, acha que tudo que você escreve ou fala é imune. Todo escritor (a) na obra literária tem que ter certa ética, tem um compromisso com a realidade não é só ficção.

Me assusta muito alguns escritores (as) pensarem que estão acima do bem e do mal, já ouvi alguns falando que quem começa a ler gibi ou o que é considerado má literatura nunca vai chegar aos clássicos ou ser um bom leitor. Isso me incomoda profundamente, porque meu primeiro contato com a literatura foi com a oral e lendo revistinhas infantis. Então quando pensamos que a literatura é política, é porque o escritor (a) tem também uma função social sem precisar muitas vezes fazer um discurso explícito.

Num país como o nosso em que a intelectualidade ainda tem uma função, ela não pode ser omissa de pensar que o que escreve não tem consequência. Os intelectuais que conseguiram ter o domínio da escrita e são produtores desses bens culturais têm uma responsabilidade política.

E sobre a política nacional, o que você pensa a respeito do momento atual levando em consideração nossa história?

Vou partir de uma experiência histórica, que sintetiza este momento. Quando os africanos escravizados fugiam para o quilombo, homens, mulheres ou crianças, não tinham certeza nenhuma de ter a liberdade garantida. Sabiam que estavam correndo risco, porque se fossem capturados seriam castigados. Teria um sentido duplo, primeiro por ser escravizados, que não têm o direito de traçar o próprio destino, e segundo por se rebelarem diante daquele destino e cometerem a audácia de fugir. Mesmo assim iam, o único desejo e certeza era o direito à liberdade. Hoje não temos certeza de nada, mas sabemos que temos esse direito à vida. Temos uma dignidade a ser conservada, e nos mínimos detalhes com nossos direitos garantidos: alimentação, educação, moradia, aposentadoria, etc.

Mais do que nunca temos que pensar nessa práxis quilombola, e também como vamos reunir forças. Pensar também que somos responsáveis por esse momento que está aí, se eu não votei nele alguma coisa também aconteceu. Achamos que tudo já estava resolvido? Ou até que ponto aquelas pessoas em quem confiamos estavam realmente do nosso lado? Então, acho que somos vítimas e algozes ao mesmo tempo.