Histórias de quem trabalha nos bastidores do futebol

Histórias de quem trabalha nos bastidores do futebol

Larissa Piauí | Copa FemiNINJA

Foto: Divulgação Mineirão

No Brasil, a cultura do futebol ainda é majoritariamente masculina e machista dentro e fora de campo. Ambiente que falta apoio financeiro e estrutura para mulheres, mas que sobra preconceito e é mais raro ainda ocuparem cargos na preparação física, administração, diretoria.

No interior ou na capital a história não muda muito, pouca estrutura para mulheres nos estádios e representatividade quase ausente nas diretorias e administrações dos clubes são fatos recorrentes. No entanto, a conquista de espaços que antes não eram possíveis encontrar mulheres mostram isso:

Samara Chagas Baccon, preparadora física do Rolândia Esporte Clube na cidade de Rolândia, norte do Paraná, conta a experiência de ser a única mulher a ocupar esse cargo no Paraná e como conquistou este espaço com respeito mesmo diante a dúvidas e obstáculos. Por ser mulher, Samara, enfrenta dificuldades que que homens não precisam passar, como o fato dos estádios não terem banheiro destinado para as mulheres nos vestiários.

 

Isabela Cavalheiro, assessora de imprensa do Paraná Soccer Technical Center – PSTC em Londrina no Paraná, relata o dia dia no clube que tem tradição de ter mulheres como jornalistas e foco em revelar talentos para o futebol nacional e internacional. Apesar de ter confiança e respeito do clube, ainda é um exceção na área e precisa conquistar cada vez mais espaço.

 

A história está mudando e o fato dessas mulheres estarem trabalhando no futebol e com o futebol, já é um sinal disso. O caminho está sendo trilhado aos poucos e mesmo assim já abriu a portas para muita gente, mas ainda é longo e o que é possível fazer neste momento é dar maior visibilidade e credibilidade para as mulheres no futebol.

As mensagens secretas da Lava-jato: crime e castigo

As mensagens secretas da Lava-jato: crime e castigo

Arte: João Pinheiro

Acompanhamos, nesta semana, com atenção e perplexidade, a série de reportagens do jornal investigativo “The Intercept Brasil”. Liderados pelo mesmo jornalista que revelou Edward Snowden ao mundo, Glenn Greenwald – vencedor do Prêmio Pulitzer de Jornalismo – a competente equipe revelou, agora, bastidores de chats do aplicativo Telegram que dão conta de uma suposta trama envolvendo procuradores da República, com atuação na Operação Lava-jato, e o então juiz federal e hoje ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro.

Imagine você – ou qualquer cidadão comum – sendo acusado por um crime que você alega não ter cometido. Daí, lá pelas tantas, você descobre que o juiz responsável por julgar o seu processo está de conchavo com o promotor ou procurador de justiça/da República responsável pela sua acusação. É de se imaginar que o resultado deste julgamento seria a sua condenação, independente de sua inocência ou culpabilidade.

A série, que já conta com seis reportagens até o momento, traz fortes indícios daquilo sobre o que muitos falavam: a suposta parcialidade do então juiz da Lava-jato.

Ao serem confrontados com tais notícias, os procuradores e o ex-juiz passaram do inicial questionamento quanto à legitimidade dos meios de obtenção dos diálogos (“É hacker!”) para a negação (“Os conteúdos foram adulterados”); daí, para a desculpa (“Foi descuido meu”); para, enfim, o desdém (“Se quiserem publicar tudo, publiquem. Não tem problema”). As sucessivas e conflitantes versões são uma pista da veracidade dos conteúdos. Ao afirmar terem sido vítimas de ataques de hackers, demonstrou-se também o supra-sumo do cinismo e da ironia: quem sempre se utilizou de vazamentos seletivos padecendo da mesma prática.

Não restando comprovado se houve ação de hackers ou não, mesmo que tenha havido, uma coisa é uma autoridade vazar um conteúdo sigiloso para a imprensa, prática de que a Lava-jato sempre se utilizou. Outra coisa é a imprensa repercutir um conteúdo vazado.

Entre uma conduta e outra, existe uma diferença gigantesca. A primeira é criminosa, delito grave. A segunda, não: está fundamentada na liberdade de imprensa e no sigilo da fonte.

Sobre a validade de tais informações como elementos de prova, se comprovada a ilicitude de sua obtenção, elas não serviriam para instruir um processo – administrativo disciplinar ou penal – que procurasse punir Moro, Deltan e demais procuradores pela prática das condutas descritas. É a tal “teoria dos frutos da árvore envenenada” (fruits of the poisonous tree): uma prova obtida ilicitamente contamina todo o processo, maculando-o de nulidade. A prova obtida ilicitamente não pode, sob nenhuma hipótese, prejudicar um réu.

Porém, a recíproca não é verdadeira: pelo princípio da “primazia da verdade”, da “busca pela verdade real”, do “in dubio pro réu”, tais informações, mesmo que obtidas ilicitamente, seriam perfeitamente aceitáveis como prova de nulidade dos atos praticados por Deltan, Moro e demais em desfavor de outrem (no caso, em desfavor de Lula), tanto para inocentá-lo quanto para anular um julgamento. A prova obtida ilicitamente pode, sim, beneficiar um réu.

O fato é que as supostas condutas atribuídas a Deltan Dallagnol, Sérgio Moro e Cia Ltda, reveladas na série de reportagens em questão, se comprovadas como autênticas, configuram atitudes típicas de bandidos togados, pois fariam prova de que teriam agido segundo motivações político-partidárias e ideológicas. Ilegalidades teriam sido praticadas para perseguir políticos com os quais não simpatizavam, forjando provas, combinando ações entre acusador e julgador, dentre outros crimes. São práticas de colusão, que é o conluio ou conchavo entre uma das partes (no caso, a parte acusadora) e quem julga. Se comprovadas, claro estará que o então magistrado feriu os princípios da independência, da isenção e da imparcialidade do juiz, da igualdade entre as partes e da paridade de armas. Uma grave perversão ao Estado Democrático de Direito.

O combate àcorrupção é importante e necessário.

Mas, não se combate corrupção malferindo a Constituição, passando por cima de direitos e garantias fundamentais de investigados, indiciados e réus ou fazendo tábula rasa das prerrogativas dos advogados.

No clássico romance de Dostoiévski, de quem tomo emprestado o subtítulo do artigo, o protagonista, Raskolnikov, acreditando-se destinado a um grande futuro que lhe é subtraido pela sua condição de miserabilidade, assassina uma agiota idosa, que matratava a própria irmã, para lhe retirar os bens. Acreditava ele que, sendo nobres os motivos para o cometimento do crime (livrar a irmã da vítima dos maus tratos e obter a condição material que lhe era necessária para atingir o seu destino), não seria um ato condenável e, mesmo contra lei, não lhe seria próprio o castigo.

Aqui reside o grande questionamento moral do romance e que se aplica a Moro e Dallagnol:

Ainda que os criminosos acreditem que o ilícito que cometeram seja moralmente correto – e mesmo que tenham sido hábeis, até o momento, para ocultar as provas e não serem descobertos – devem eles ser castigados?

As consequências práticas de tais revelações ainda são incertas e imprevisíveis. Segundo os jornalistas que participam desse tour de force, ainda há muito a ser revelado: só teriam analisado 1% de todo o conteúdo que lhes foi entregue. O ministro caindo ou não, Lula sendo liberado ou não, uma coisa é certa: Moro pode dizer adeus a sua futura e prometida vaga no STF. Depois dessa, não passa em uma sabatina no Senado.

Se, por um lado, ainda é cedo para prever todas as consequências dos acontecimentos, por outro, não é cedo para concluir que os diálogos revelados parecem fazer valer a máxima segundo a qual por trás de todo falso moralista, de todo paladino da justiça, de todo arauto da moralidade, vestal da honestidade, palmatória do mundo, chicote do povo, sempre reside um canalha.

No romance de Dostoiévski, atormentado psicologicamente por seus dilemas morais, Raskolnikov confessa o crime, é preso e cumpre sua pena. Se a vida imita a arte ou a arte imita a vida, a nós só resta aguardar o desfecho do presente caso.

Execução por no mínimo 15 tiros não pode ser tipificada como crime banal

Execução por no mínimo 15 tiros não pode ser tipificada como crime banal

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A execução de Anderson Carmo, articulador político e marido da Deputada Federal Flordelis precisa ser investigada com cuidado e veemência pelo poder do Estado do Rio de Janeiro. As indicações de assalto e desavença familiar devem sim ser investigadas, mas há uma possibilidade em especial que também deve figurar no hall de possibilidades: a de crime político.

Além de execução bárbara e caso essa hipótese se concretize, seria mais um caso a se somar a tantos outros crimes políticos realizados no Estado nos últimos tempos, sendo necessária a investigação profunda da relação de criminosos narco-milicianos nesses crimes.

As recentes prisões em São Gonçalo e as recentes movimentações no território demostram a grande instabilidade de segurança na região e a acintosa disputa por território. Os grupos de milicianos atuam de forma consorciada, agindo inclusive com quadrilhas de outros territórios como o já conhecido Escritório do Crime, com forte atuação na zona oeste do Rio de Janeiro.

Os dois principais grupos narco-milicianos da região – Quadrilha do Engenho Velho e Porto Pequeno – objetivamente pretendem ampliar sua atuação e pra isso é necessário o alinhamento das forças políticas na região, por isso é fundamental avaliar a execução de Anderson tendo essa disputa como contexto.

Uma execução por no mínimo 15 tiros não pode ser tipificada como crime banal, sem motivação ou intenções claras. Nesse sentido, é importante avaliar a dimensão de intimidação à ação política dessa família, que se mostrava claramente na disputa eleitoral ao cargo majoritário da cidade em 2020.

Com base política na Câmara de Vereadores, Anderson Carmo e o vereador Misael, seu filho, articulavam a pré-candidatura de Flordelis à Prefeitura e tal fato deve sim ser levado em consideração na apuração do crime, uma vez que é fundamental para a sobrevivência da natureza da ação desses grupos a penetração na vida pública.

O mapa de figuras públicas executadas publicado em 2016 pelo El Pais Brasil retrata o cenário de violência e atuação da “nova” política fluminense. No período pré-eleitoral foram assassinadas 11 figuras políticas na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

A partir da CPI das milícias na Assembleia Legislativa do Rio em 2008, presidida por Marcelo Freixo e com relatoria de Gilberto Palmares, uma nova dimensão é descortinada no Rio, o aparelhamento do Estado por milicianos, associações de moradores e executivo do Rio de Janeiro. Tanto Câmara de Deputados quanto Câmaras de Vereadores. Há milicianos eleitos em todo o Estado do Rio de Janeiro.

Mas por que o interesse em assumir cargos legislativos e no executivo?

Além do aparato de cargos e benefícios do Estado, a milícia opera em atividades econômicas ilegais (tráfico de drogas e armas, roubo de carros, venda de proteção policial, exploração de jogos ilegais, cafetinagem, tráfico de influência, construção civil, contrabando e outros) e precisam objetivamente do braço do Estado para se profissionalizarem e não sofrer retaliações em suas operações. A milícia precisa do Estado (Exército, polícia militar, casas legislativas, etc) para funcionar.

Somado a isso, há de ser perceber que há em Gonçalo outras dimensões da disputa, que inserem inclusive os últimos prefeitos e a disputa por terra, interesses locais, principalmente entre famílias tradicionais, que giram ao redor do nome municipal em 2020.

Nesse sentido, é fundamental a avaliação da dimensão dos interesses políticos em questão e a garantia absoluta dos direitos políticos de qualquer cidadão.

Sem dúvida o Governador Wilson Witzel é figura central na apuração não só desse caso, mas em todos os últimos crimes políticos recentes no Estado do Rio de Janeiro. Ao invés de criar um inimigo abstrato que deve ser exterminado, o então governador tem algumas respostas a dar nesse momento, respostas estas que podem ser o limiar entre o Estado democrático de direito e a completa barbárie: quem mandou matar Anderson Carmo? Quem mandou matar Marielle Franco? Patrícia Accioli?

O Estado do Rio submerso em sangue.

Léa Campos: A Primeira Árbitra do Mundo é Brasileira

Léa Campos: A Primeira Árbitra do Mundo é Brasileira

Por Amanda Monte / Copa FemiNINJA

Foto: Arquivo

Asaléa de Campos Fornero Medina, mais conhecida como Léa Campos, é uma mineira de 74 anos que foi a primeira árbitra de futebol profissional do mundo reconhecida pela FIFA. Também é formada em Educação Física e Jornalismo. Mora atualmente em Nova York, nos Estados Unidos.

Sua paixão por futebol começou na época do colégio, quando levava uma bola de meia para jogar com os meninos muito contrariados, pois futebol feminino foi proibido por lei de 1941 a 1979. Anos depois, na época que se formou em jornalismo e trabalhava em rádios mineiras com jornalismo esportivo, concorreu e ganhou diversos concursos de beleza como “Rainha do Carnaval”, “Rainha do Futebol Amador”. Depois da primeira formação, graduou-se em Educação Física e fez o curso da Escola de Árbitros do Departamento de Futebol Amador da Federação Mineira de Futebol , depois de muitos impedimentos começou a trabalhar como árbitra.

Durante o período da ditadura foi presa diversas vezes por ser pega treinando jogadoras mulheres, mas não desistia. Em 1971, teve uma redenção, quando apitou no México um jogo entre Itália X Uruguai. A partir daí surgiram mais oportunidades e começou a ganhar maior destaque nos países europeus e no continente americano. Porém esse maior reconhecimento durou pouco, pois Léa sofreu um acidente de ônibus em 1974, que deixou a árbitra dois anos numa cadeira de rodas e teve que abandonar a profissão. Depois, continuou o tratamento e exames nos Estados Unidos e entre idas e vindas , conheceu seu atual marido o jornalista colombiano Luis Eduardo Medina, com quem se casou e foi morar no país norte-americano.

No ano de 2001, Luis, escreveu a biografia da esposa chamada “ As regras podem ser quebradas” em espanhol. Porém no Brasil, até hoje, nenhuma editora se interessou por uma versão em português do livro.

Depois da recuperação, a ex-árbitra continuou a trabalhar com o esporte através do jornalismo esportivo (algo que ela nunca abandonou) . Atualmente é colunista do jornal Brasillian Press, porém escrevendo sobre política e sempre que pode faz palestras.

 

Foto: Arquivo

Brasil deu primeiro passo para regulamentar maconha medicinal; e agora?

Brasil deu primeiro passo para regulamentar maconha medicinal; e agora?

Demanda por importação de produtos e pressão popular foram primordiais para decisão da ANVISA

Foto: Mídia NINJA

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) aprovou por unanimidade nesta terça, 11, as propostas de regulamentação do cultivo de maconha para fins medicinais e científicos, e dos termos para produção, distribuição e comercialização de medicamentos à base da planta. Apenas empresas serão autorizadas a fazer o cultivo.

A decisão foi publicada no diário oficial nesta sexta, 14, e daqui a 7 dias a sociedade civil terá dois meses para dar suas contribuições e, posteriormente, debatê-las em duas audiências públicas, que devem definir os termos das linhas de ação propostas pelo órgão em sua deliberação.

A regulamentação da cannabis para fins medicinais é pauta da instituição há pelo menos 2 anos, quando foi criada a agenda de trabalho até 2020, em que a maconha aparecia como um dos principais pontos. Essa urgência se deve ao crescente número de pedidos de importações de medicamentos à base da erva.

Fonte: Proposta de Consulta Pública / Anvisa

“Mais de 6 mil pessoas pediram importação desses produtos, e a leitura da ANVISA, que ao meu ver é acertada, é que esses produtos importados são caros e de baixa confiabilidade. Então, há interesse da agência em liberar uma produção nacional a partir das empresas que têm interesse”, avalia Renato Filev, doutor em neurologia e neurociências pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

Essa demanda popular, de famílias e instituições, que precisam da maconha para seu uso medicinal, foi o grande propulsor dessa pauta, adiada desde 2017 pela ANVISA, que prometeu naquele ano o início do processo de legalização da erva para uso terapêutico.

“A manutenção da situação atual poderá levar ao agravamento das consequências apresentadas, tais como: judicialização, o aumento da demanda para autorização excepcional de importação de produtos e a dificuldade de acesso a produtos registrados”, salienta na proposta.

Foram muitos anos de luta para que em 2015 o órgão tomasse a primeira medida nessa direção, quando aceitou a importação de medicamentos com o princípio ativo canabidiol, e dois anos depois o primeiro remédio, o Mevatyl.

Os preços desses remédios, no entanto, são impraticáveis para a maioria dos brasileiros, chegam a mais de 2 mil reais por mês em alguns casos. Estratégias como a judicialização de casos para cultivo caseiro através de habeas corpus preventivo não são incomuns, pois tornaram-se uma medida eficiente para quem necessita do tratamento.

Com a regulamentação, a agência argumenta que uma produção nacional irá colocar mais produtos no mercado e consequentemente a tendência dos preços é cair, tornando-o mais acessível para a população e gerando uma indústria capaz de atender a crescente exigência, em sua maior parte de portadores de epilepsia, autismo, dores crônicas, mal de Parkinson e alguns tipos de câncer.

“A ANVISA deve estar ciente do processo histórico que culmina com essa regulamentação do cultivo de cannabis, reconhecendo o protagonismo dos pacientes na introdução desse uso no Brasil e todo o saber que essas pessoas acumularam ao longo do tempo. Antes da ação estatal ou da vontade empresarial, vêm a necessidade das pessoas que usam a cannabis para tratar as mais diversas moléstias, é essa causa humanitária que deve ser guia desse processo regulatório”, aponta Emílio Figueiredo, advogado e consultor jurídico do Growroom, maior fórum de cultivadores do Brasil.

Como vai ser isso?

Foto: Mídia NINJA

Vamos aos detalhes: foram duas propostas, chamadas ‘Resoluções da Diretoria Colegiada (RDC), 1) regulamentação do cultivo para uso medicinal e científico; 2) registro, procedimentos e monitoramento de medicamentos. A cúpula, que votou favorável por unanimidade, é formada por 4 pessoas, em que cabe a presidência à William Dib, responsável pela relatoria da votação.

Dib já havia antecipado à Folha de S.Paulo os pontos do processo, dando a principal informação que cultivadores brasileiros, hoje na ilegalidade, esperavam saber: a regulamentação é para quem? A resposta é: grandes empresas.

Conforme dito anteriormente, desde 2017 a agência se debruça sobre esse tema e formou-se um grupo técnico para analisar qual seria o modelo da regulamentação brasileira da erva. Os especialistas viajaram para 4 países em que há mercado legal de maconha medicinal: EUA, Canadá, Israel e Portugal.

“No Canadá, eu mesmo tive a honra de visitar algumas facilities de produção, com cultivos indoor e em greenhouse e ver com meus próprios olhos as reações dos técnicos aos locais e processos. (…) Por tudo que vivenciei na época, apostava que teríamos algo na linha do Canadá, dado a ótima impressão que os sítios de produção das empresas que visitamos deixaram nos técnicos da ANVISA”, narra em artigo o neurocientista e empreendedor, Fabrício Pamplona, em artigo essencial sobre essa história toda.

E foi isso mesmo. O Brasil segue o Canadá em seus primeiros anos de legalização, iniciada em 2001 (triste sacar como estamos atrasados), e dá prioridade para grandes empresas fazerem o cultivo, através da determinação de um conjunto de regras complexas, caras e rígidas para a produção da cannabis.

Determina-se nas resoluções que toda a fabricação deve ser realizada in door, ou seja, em ambiente fechado, apenas por pessoa jurídica. A venda só pode ser feita para instituições de pesquisa, fabricantes de insumos farmacêuticos e medicamentos, e fica vetado para pessoa física, distribuidoras e farmácia de manipulação.

Além disso, haverá um rígido monitoramento de toda a produção, desde o plantio, até a colheita, secagem, embalagem, armazenamento e venda. E mais, como uma espécie de “RG”, que tenha rastreabilidade do produto do produtor ao transportador, drogaria e paciente.

Como assegurar isso? “É conta de matemática”, garante Dib para a Folha. “Haverá cotas de produção e, com base nisso, eu sei que ali produzimos mil caixinhas. Com isso, ou tenho mil receitas, ou tenho alguém preso”.

O plano de segurança será duro e cada aspecto, mesmo os básicos, serão inspecionados pela ANVISA, como planta arquitetônica, proteção ambiental, antecedentes criminais dos trabalhadores, não pode haver identificação da empresa, acesso ao local somente com sistema biométrico, portas e janelas duplas, materiais da construção do prédio reforçados e monitoramento por vídeo 24h, 7 dias por semana.

Não terá venda da planta em si, nem de outros produtos, fica restrita a medicamentos na forma de cápsula, comprimido, pó, líquido e solução, somente para pessoas com doença grave, debilitante, sob ameaça de vida e sem nenhuma outra alternativa terapêutica. Dib ainda salientou, a fim de evitar conflitos com os atuais políticos conservadores que estão no poder, de que não está liberando a planta, mas sim medicamentos com sua composição.

De passagem: maconha no Brasil é realmente um perigo, é preciso um prédio nos moldes de prisão federal para cultivar um remédio.

E para pesquisar vai valer?

Para pesquisa, os requisitos de segurança são os mesmos, acrescidos de autorização da agência, projetos específicos com 2 anos de duração, passível de renovação, e relatórios trimestrais.

“Para pesquisar você vai precisar de investimentos de agências de financiamento públicas, que na situação atual do Brasil é possível que não haja interesse. Com isso, é possível que para a universidade realizar pesquisas tenha que ter incentivo de alguma parceria público privada, que acaba sendo atrelado a uma diminuição da capacidade de pesquisa”, aponta Filev.

“Essas pesquisas, em geral, vão ficar voltadas para interesses de regulação, de registros desses medicamentos, mas para uma abrangência maior, em áreas básicas, como psicofarmacológicas, agronomia e botânica, fica mais mais difícil”, completa o pesquisador.

Que mercado é esse?

Como mencionado no início, há uma demanda de pelo menos 6 mil pessoas importando medicamentos do exterior, mas a capacidade desse mercado alcança cifras de fazer inveja e atiçar a cobiça de muitos investidores que, com o passo dado pela ANVISA essa semana, já cresceram os olhos para o Brasil e abriram as carteiras.

Gráfico retirado do artigo “Um mercado regulado para os grandes”, de Fabrício Pamplona, já citado nesse texto.

Com potencial para alcançar quase 5 bilhões de dólares no país, esse mercado já vem fazendo bilionários em todo o mundo e agora vê por aqui uma nova oportunidade de fabricar mais dinheiro.

Um dia após a decisão da agência, a empresa canadense Canopy Growth anunciou que fará um investimento de 60 milhões de reais em terras tupiniquins, com promessa de expansão para 150 milhões no futuro, através do seu braço farmacêutico, a Spectrum Therapeutics. A organização já tem investimentos na Colômbia, vizinho que está à nossa frente na regulamentação da cannabis medicinal.

E o governo com isso?

Foto: Mídia NINJA

Já sabemos que o governo Bolsonaro não é o mais simpático a qualquer tipo de flexibilização em relação às drogas ilícitas, ao contrário, em seu pouco tempo de presidência, já está marcado pelo endurecimento da lei de drogas, através do seu Ministro de Cidadania, Osmar Terra, autor das proposições que, entre outras coisas, passa a facilitar internações compulsórias de usuários de drogas e aumenta a pena para crime de tráfico.

Nessa toada, ele não deixou barato. Terra chamou a ANVISA de irresponsável e que a está indo “contra a lei, contra as evidências científicas e contra o Congresso e o Governo Brasileiro”. Sua opinião foi seguida pelo Conselho Nacional de Medicina (CNM) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), que alertaram para “o alto risco envolvido nessa ação”. De acordo com as organizações, “o uso de Cannabis sativa L. in natura e seus derivados não garantem efetividade e segurança para seus pacientes”. Apesar disso, a CNM aprovou em 2014 a indicação de CBD para crianças com epilepsia. Vai entender.

Além disso, a repórter Natália Cancian, da Folha de S.Paulo, noticia no podcast Café da Manhã desta quinta-feira, 13, que apesar do caráter independente da agência, ou seja, imune à qualquer intervenção do governo, em breve uma cadeira da diretoria da ANVISA deve estar vaga e Bolsonaro deve nomear um novo nome, que, se alinhado aos seus interesses, pode pedir vistas do processo e adiar ainda mais sua tramitação.

 

Moro contra Lula

Moro contra Lula

Foto: Agência Brasil

Antes de toda essa tecnologia de celulares com vídeos, mensagens e áudios flagrando crimes, as provas diretas desses fatos eram muito raras. Objetivamente, as provas de um crime são diretas ou indiretas. As formas dessas provas podem ser testemunhais, documentais e agora também por meio de vídeos, mensagens e áudios de celulares e computadores em geral.

Quando uma testemunha diz ter visto fulano desferir três tiros na cara de beltrano e este morrer, trata-se de uma prova direta de um crime. Uma prova que sempre foi muito rara. A grande maioria dos crimes é desvendada através de provas indiretas, como quando uma testemunha vê alguém correndo com uma faca na mão perto de outra morta a facadas. Hoje, temos vídeos, mensagens e áudios que gravam um crime com todas as suas circunstâncias. Daí, a única defesa é provar a falsidade das mensagens.

O juiz Sérgio Moro conversava sobre os processos contra o Lula com o órgão de acusação, o procurador da República Dallagnol. Um juiz não pode ser parcial, ele não pode ter parte. Para ser justo, o juiz precisa julgar com imparcialidade.

O vazamento de mensagens de celulares sem autorização judicial é crime e, o autor, sendo descoberto, deve ser condenado neste crime. Mas as mensagens, que não foram contestadas por seus interlocutores, demonstram que o então juiz Sérgio Moro aconselhava, conversava, discutia decisões de todos os tipos sobre a liberdade de pessoas com o acusador. O juiz atuava como assistente de acusação e o procurador como assistente de condenação.

Moro e Dallagnol tramaram a condenação de Lula, isso está demonstrado nas mensagens.

São provas irrefutáveis e diretas desses fatos, que não podem ser contestados, exceto com a prova da falsidade das mensagens.

Sobre a Lava Jato, a corrupção, ainda mais no capitalismo periférico brasileiro, é uma regra. Com raríssimas exceções, ninguém acumula mais de 50 milhões trabalhando, em toda obra bilionário de engenharia existe comissão, isso faz parte do negócio. A única forma de esconder essa corrupção endêmica do capitalismo é blindando seus crimes sem investigá-los e se, por algum acidente, alguma coisa vier a público, impedindo sua divulgação através da cumplicidade da mídia de mercado. É evidente que todos os presidentes do Brasil na história sempre souberam disso tudo.

Agora, para criminalizá-los como qualquer pessoa, precisamos demonstrar os fatos através de provas. Lula foi condenado por um triplex que nunca foi registrado em seu nome e a reforma da cozinha de um sítio de um antigo amigo dele. Esses são os fatos provados. Esses fatos, data venia, são fracos, como disse o procurador Dallagnol em troca de mensagens com o juiz Sérgio Moro sobre a denúncia que seria oferecida contra Lula. Mais fracos ainda para condenar a 12 anos de cadeia em regime fechado um Presidente da República. Nunca na história desse país foi condenado criminalmente um Presidente da República.

Para finalizar, basta jogar um pouco de xadrez para saber que você precisa derrubar as peças que estão na frente do Rei. O rei nesse tabuleiro é o Lula, que venceria facilmente Bolsonaro. O xeque-mate disso tudo foi a nomeação do ex-juiz Sérgio Moro para Ministro da Justiça e da Segurança Pública da República Federativa do Brasil.

Rio de Janeiro, 14 de junho de 2019

Assista ao programa Fumaça do Bom Direito

Taça das Favelas coloca futebol de várzea no centro

Taça das Favelas coloca futebol de várzea no centro

Primeira edição do torneio em São Paulo mobiliza milhares de jovens jogadores das periferias

Foto: Matheus Akio

A primeira edição da Taça das Favelas em São Paulo colocou a várzea no noticiário, nas capas dos jornais e, depois de quase 20 anos, em transmissões ao vivo na televisão. Jovens de 14 anos ou mais, de diversas periferias da capital, tiveram prestígio e destaque tanto quanto jogadores badalados dos grandes clubes brasileiros.

Promovido pela Central Única das Favelas, CUFA, do empresário Celso Athayde, um dos nomes mais fortes na articulação e desenvolvimento de atividades culturais, esportivas e de assistência social nas quebradas de todo o Brasil, o campeonato superou as expectativas dos organizadores.

Torcida organizada da Favela 1010, time da zona oeste que disputou a final masculina. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

As fases seletivas da Taça das Favelas mobilizaram cerca de 2880 competidores, nas categorias feminina, igual ou acima de 14 anos, e masculina, de 14 a 17 anos. 96 equipes lutaram para se destacar e alcançar o título do torneio, que teve a grande final no Estádio do Pacaembu, entre Complexo Casa Verde e Paraisópolis, entre as meninas, e Parque Santo Antônio e Favela 1010, nos meninos, com vitória de Casa Verde e PSA.

Esses números revelam a grandiosidade do futebol de várzea de São Paulo, mas não a realidade em que vivem esses jogadores, muitas vezes sem estrutura para jogar e treinar, sem recursos para transporte, materiais e para manter-se no esporte, mesmo entre aqueles que chegaram longe na competição.

“Quando começamos, não tinhamos lugar para treinar. Eram só 7 meninas no início, hoje temos uma escolinha, que é o PS9, Complexo Casa Verde, em uma base de 90 meninas das comunidades próximas”, conta a treinadora e presidente do Complexo Casa Verde, Daiane Silva. “Treinamos todos os dias, temos pessoas que colaboram com a gente com materiais, pãozinho, lanche, suco, mas nada de dinheiro”.

Foto: Walter Junior / Mídia NINJA

A falta de verba para custear o mínimo é o principal problema da grande maioria das equipes, principalmente das femininas, em que a visibilidade e apelo popular é menor, tornando ainda mais complicado parcerias para investimentos em infraestrutura.

“Só de pisar aqui, chegar aonde a gente chegou, temos que nos aplaudir. Foi na garra, na vontade, no coração e força de vontade, porque treinar a gente não treina, o campo de várzea não é como o campo profissional, tudo isso pesa”, explica a jogadora e artilheira de Paraisópolis, Marluce Aureliano. “A gente precisa de incentivo e apoio, porque sem isso não chega em lugar nenhum”.]

Jogadora de Paraisópolis, Marluce é artilheira da equipe na competição. Foto: Walter Junior / Mídia NINJA

Apesar disso, milhares de pessoas atravessaram a cidade até o Estádio do Pacaembu e fizeram uma linda festa, mostrando que não é só time grande que tem torcida organizada. Mesmo as equipes eliminadas no decorrer dos jogos, marcaram presença para celebrar o futebol de várzea.

“A minha favela, de 32 equipes, chegou em terceiro. Foi uma vivência incrível, não tenho o que falar, foi algo inesquecível na minha vida, vamos levar pra sempre”, comemora a treinadora Kenia Paloma, da Favela Parque Santa Madalena. “As meninas foram eliminadas nas semis, mas foi uma conquista enorme, por isso que eu trouxe uma torcida nossa aí para vibrar nosso terceiro lugar, porque nós somos de favela mesmo”.

Jogadoras de Paraisópolis se consolam após derrota na final. Foto: Walter Junior / Mídia NINJA

“Não temos estrutura nenhuma, é fazendo rifa, arrecadando dinheiro para comprar fardamento, bola, material, transporte para ajudar as meninas, porque a maioria delas não tem como se manter. A gente conseguiu levar a equipe para Taça das Favelas, e a classificação em terceiro lugar para nós é uma vitória, estamos aqui como se tivéssemos ganho o primeiro lugar, porque se você ver a dificuldade que a gente passa na nossa favela, de 32 equipes chegar em terceiro é uma vitória”, avalia a treinadora.

Pisar pela primeira vez no estádio do Pacaembu não é exclusividade somente dos jogadores, muitos torcedores conheceram pela primeira vez o complexo na final do torneio, uma união entre torcida e time que, atualmente, não se vê nem nos grandes clubes de futebol.

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

“É um orgulho ver a nossa quebrada chegar em uma final dessas, representando todas as comunidades. A gente tem pouca ajuda, tem uma estrutura até legal, conseguimos jogar bola lá e em outras comunidades, só que aqui é outro nível, a molecada entrando no estádio, é um sonho para todos, não só para meu irmão, que está jogando pelo Rio Pequeno, mas para todas as favelas. Espero que, independente de quem seja, suja um novo craque para o Brasil nessa Taça das Favelas”, diz o torcedor da Favela 1010 / Rio Pequeno, Jefferson Roberto.

O sucesso da competição foi celebrado por Celso Athayde, que se disse surpreso com o tamanho do futebol de várzea em São Paulo, e já prometeu a realização da segunda edição da Taça das Favelas em 2020, oportunidade de ouro para a garotada que sonha em um dia pisar nos maiores campos de futebol do mundo e para o poder público entender demandas dos clubes amadores, estreitar laços e criar políticas públicas para desenvolvê-los.

Foto: Matheus Akio / Mídia NINJA

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

 

Acompanhe as jogadoras da Seleção no Instagram!

Acompanhe as jogadoras da Seleção no Instagram!

Por Karen Rodrigues / Copa FemiNINJA

Em épocas digitais, seguir mulheres referentes nas redes sociais é de lei. E pra dar uma forcinha na febre Seleção Feminina, compartilhamos aqui – É hora de seguir a equipe do Brasil no instagram!

Cristiane Rozeira – Atacante – @crisrozeira

Se é a dona e proprietária do jogo de estréia que você procura, suas buscas acabaram!

Marta Silva – Atacante – @martavsilva10

Aqui você fica por dentro dos eventos que ela participa – lembre-se que ela é embaixadora global da Boa Vontade da ONU. De quebra, conheça seus cachorrinhos Zoe e Zeca que também contam com um perfil no instagram.

 Aline Reis — Goleira – @alinereisfutbol

A Aline Iniciou sua carreira no clube brasileiro Guarani, no qual jogou por 7 anos e teve passagem pelo Ferroviária. Agora você acompanha ela no insta.

Bárbara — Goleira – @barbaragol1

Fora do Brasil ela já atuou na Suécia e Alemanha e desde 2017 está no Kindermann, em Santa Catarina.

Letícia Izidoro — Goleira – @leticiaizidoro94

A  Letícia sempre defendeu clubes do futebol nacional, hoje mantém contrato com o Corinthians, onde foi campeã brasileira em 2018.

Letícia Santos — Lateral – @2leticiasantos

Você pode vê-la em campo pelo SC Sand, no Campeonato Alemão de Futebol Feminino e no Brasil esteve no XV de Piracicaba e São José.

Tamires Cássia Dias de Britto — Lateral  – @tata_dias10

Jogando na Dinamarca pelo Fortuna Hjørring, a Tatá é medalhista de Ouro em Toronto 2015. Há boatos de que ela está vindo para o Brasil para a próxima temporada!

Mônica Hickmann Alves — Lateral – @monicahickmann

Depois de passar pelo Orlando Pride (EUA) e Madrid (ESP) a Monica está agora no Corinthians!

Kathellen Sousa Feitoza — Zagueira – @kathellensousa

https://www.instagram.com/p/Bx5XyJiocfH/

Atualmente joga pelo Bordeaux, da França e durante a juventude esteve no Louisville Cardinals e UCF Knights.

Daiane — Zagueira – @daianemedeiros_07

Contratada pelo Paris Saint-Germain desde 2018, ela foi uma das últimas convocadas para seleção, depois da lesão do Fabi Simões

Tayla Carolina — Zagueira  – @tayla.92

https://www.instagram.com/p/ByerBN9hmYm/

Tem passagens por clubes nacionais como o Santos, onde conquistou diversos títulos, dentre eles o campeonato da Copa Libertadores da América. Hoje está no Benfinca (POR).

Thaisa Moreno — Meia – @thaisamoreno

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Game day ⚽️🙏🏼

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A volante é natural de Xambrê/PR e é jogadora do Milan, participando de seu segundo mundial.

Formiga — Meia

Formiga a brasileira que já participou de todos os mundiais não têm um perfil (😢), mas para nossa felicidade ela está sempre em fotos no perfil de suas companheiras de seleção.

Andressinha — Meia – @andressinha95

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🤩⚽️ . . . 📸@renerfoto

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Nova, mas com história!  Segunda Copa, jogou pelo Kindermann de 2010 até 2015 e disputou a Libertadores de 2018 pelo Iranduba (AM). Atualmente está no Portland Thorns FC.

Luana — Meia – @luanabertolucci10

https://www.instagram.com/p/ByI3uiqBlef/

Atualmente defende o Hwacheon KSPO WFC, da Coreia do Sul e a é sua primeira disputa em uma Copa do Mundo pela seleção feminina principal.

Andressa Alves — Atacante – @andressaalves9oficial

No Barcelona desde 2017, já passou pelo Boston Breakers (EUA) e o Montpellier (FRA). É uma das medalhistas de ouro do Pan 2015.

Debinha — Atacante – @debinhaa7

Parte do North Carolina Courage (EUA) desde 2017, ela já foi do  Avaldsnes (NOR) e Dalian Quanjian (CHI). Nos times brasileiros, já passou pelo São José e Portuguesa.

Bia Zaneratto — Atacante  – @biazaneratto

Bia está na seleção desde a última Olimpíadas e hoje está no time Sul Coreano Hyundai Red Angels.

Raquel Fernandes — Atacante – @raquelfernadez07

Começou a carreira no Atlético Mineiro, aos 15 anos. Desde 2014, defende a Seleção Brasileira Feminina, quando disputou a Copa América do Equador.

Geyse Ferreira — Atacante – @geyse_ferreira

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⚽️🙏🏽🇧🇷

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A Geyse está hoje no clube português Benfica, onde marcou 16 gols nos seus primeiros quatro jogos.

Camilinha — Lateral – @camilinha94mp

Estreando em Copas do Mundo, a meia-atacante é parceira de Marta no Orlando Pride.

Ludmila da Silva — Atacante – @ludmiladasilva09oficial

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⚽️💪🏿❣️

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Em 2017, ela se tornou a primeira brasileira a jogar pelo Atlético de Madrid, da Espanha, onde deve ficar até 2020.

 

Quem são as últimas 10 melhores jogadoras do mundo FIFA

Quem são as últimas 10 melhores jogadoras do mundo FIFA

Por Emília Sosa | Copa FemiNINJA

Fotos: Ailura, Andreas Nilsson, Fernando Frazão/Agência Brasil, Noah Salzman

O FIFA Best Awards é um evento anual que acontece desde 1991, que visa premiar os melhores personagens de diferentes categorias do futebol, que inclui melhor jogador, melhor goleiro, melhor técnico masculinos e, melhor jogadora e melhor técnica feminina. A votação acontece em diferentes etapas, com 25% da participação dos torcedores através de votação online, e os outros 75% dividido entre técnicos das federações filiadas à FIFA, capitães das seleções e um pequeno grupo de jornalistas esportivos desses países.

Apesar de ser um grande e tradicional evento no mundo futebolístico, a categoria feminina começou a fazer parte desta votação somente em 2001 quando aconteceu a ascensão do futebol feminino.
A primeira mulher a vencer esse prêmio foi a americana Mia Hamm, conquistando seu segundo troféu no ano seguinte. Mas, o nome mais citado entre as premiações foi o da brasileira, Marta, vencendo seis vezes o prêmio, incluindo o último, no ano passado.

Segue abaixo uma relação das 10 melhores jogadoras do mundo FIFA dos últimos dez anos:

Marta – Brasil (2018, 2010, 2009 e 2008)

A maior vencedora do prêmio nos últimos 10 anos é a brasileira Marta que possui 4 dos últimos dez títulos e, seis em toda a sua história. Participando de sua quinta Copa do Mundo, ela saiu do interior de Alagoas para conquistar o mundo. Precisou viajar três dias de ônibus para ter a sua primeira chance de jogar em um time feminino, e foi no Vasco da Gama que encontrou essa oportunidade. Apesar da pouca valorização do futebol feminino no país, Marta se consagrou a melhor jogadora de futebol do Brasil. Atualmente faz parte do elenco do Orlando Pride, clube dos Estados Unidos.

Lieke Martens  – Holanda (2017)

Uma jovem jogadora holandesa que se consagrou quando foi protagonista ajudando a Seleção Neerlandesa na conquista da Eurocopa feminina em 2017. Recebeu o prêmio de melhor jogadora do mundo pela FIFA no mesmo ano. Atualmente atua no Barcelona na Espanha.

Carli Lloyd – EUA (2016, 2015)

Norte-americana que já venceu o prêmio de melhor jogadora do mundo FIFA duas vezes consecutivas. Atuou diretamente na conquista do terceiro Mundial dos Estados Unidos em 2015 que aconteceu no Canadá. Marcou três gols do meio de campo na vitória dos Estados Unidos contra o Japão na final do campeonato. Hoje Carli joga pelo Sky Blue FC dos Estados Unidos.

Nadine Kessler – Alemanha (2014, 2013)

Após as duas conquistas como melhor jogadora, em 2017, Nadine foi nomeada conselheira da UEFA para incentivar o desenvolvimento do futebol feminino na Europa, com a função de supervisionar o esporte e contribuir para o crescimento da modalidade. Com 28 anos de idade, Nadine teve uma aposentadoria precoce devido a uma lesão.

Abby Wambach – EUA (2012)

Fez parte da seleção dos Estados Unidos que ganhou o ouro nas Olimpíadas de 2004 em Atenas e 2012 em Londres. Bastante conhecida pelos seus gols de cabeça, inclusive um dos mais memoráveis foi contra o Brasil nas quartas de final da Copa do Mundo Feminina. Abby está aposentada.

Homare Sawa – Japão (2011)

Venceu o prêmio após conquistar o título da Copa do Mundo de Futebol Feminino em 2011 com o Japão, onde ganhou o título de melhor pontuadora. Hoje com 40 anos Homare defende o INAC Kobe Leonessa, clube de futebol feminino japonês.

NOVOS RUMOS
Com a grande divulgação da 8ª Copa do Mundo de Futebol Feminino, que acontece neste ano, a FIFA decidiu incluir mais duas categorias para no prêmio The Best do futebol feminino. Agora a melhor goleira também será premiada além da escolha da seleção com as melhores jogadoras da temporada.

Todos esses feitos são grandes conquistas para as jogadoras de futebol, que durante anos viveram às sombras do futebol masculino, muitas vezes jogando em situações precárias e sem o reconhecimento merecido. A Copa do Mundo Feminina de 2019 veio para quebrar paradigmas e abrir novos caminhos para o futuro de futebol feminino no mundo.

Liga MX Femenil: o futebol feminino mexicano vivendo uma nova fase

Liga MX Femenil: o futebol feminino mexicano vivendo uma nova fase

Por Mayara Silva | Copa FemiNINJA

Foto: Reprodução Medio Tiempo

Em 2017 o México voltou os olhos para o futebol feminino com o início da Liga MX Femenil, a divisão mais alta do esporte no país. É composto pelas equipes femininas dos principais times da Liga MX, neste ano com 19 times. E esse foi o ponta pé para esquentar todos os setores do futebol, elevando o nível das jogadoras, das organizações e comissões técnicas e trazendo exposição nacional e mundial aos times femininos mexicanos. Sob criticas positivas e negativas, a Liga vem apresentando contínuas mudanças em suas estatisticas demonstrando seu crescimento e consolidação.

Neste ano comemoram o marco de 500 partidas e o aumento de espectadores de 412 mil, em sua primeira edição, para mais de 800 mil. Como na maioria massiva dos países, o México também sofreu e sofre com a cultura machista do futebol. Os mexicanos são um povo que se considera matriarcal, porém a figura da mãe ocupa o mesmo papel dos países patriarcais, as mulheres são donas de casa e mães leoas, porém, cabe a elas também o título de santa. Com elas ninguém mexe.

As mídias do México, mesmo diante do crescimento e consolidação da Liga MX Femenil, ainda não dão evidência ao futebol feminino, seja em suas mídias sociais, pautas ao vivo ou transmissões abertas. As jogadoras de futebol mexicanas também enfrentam os mesmos problemas que as brasileiras, além da visibilidade midiática e o tradicional “futebol não é coisa de menina”, os recortes de investimentos publicitários e do governo são bem inferiores ao dos homens.

Cerca de 90% das jogadoras mexicanas ganham em torno de 6 mil pesos por mês, equivale-se a R$1205,81.

Há quem defenda que essa diferença de trabalho dá-se por conta da competitividade e rendimento em comparação aos times masculinos, entretanto as estatisticas desmentem, as quantidades de gols, por exemplo, em competições são maiores para os times femininos. Já é sabido, quanto mais se falar, assistir e se investir no futebol feminino, mais aumentarão as jogadoras e equipes. Essa ideia de “jogo de homem” traduz a cultura do esporte e a segregação de gêneros reforçando-os socialmente. No fim, a Liga Feminina é bem parecida com a Masculina. Iniciou-se com 18 times organizados em 2 etapas da competição, “Apertura” e Clasura”.

Também regulado pela Federeção Mexicana de Futebol, a Liga surgiu oficialmente em 5 de dezembro de 2016 , foi definido que as equipes deveriam ter 21 jogadoras da categoria sub-23, quatro da sub-17 e 2 da chama- da categoria livre. Todas as jogadoras deveriam ser de nacionalidade mexicana, assim fortaleceria a seleção Mexicana Feminina. Na “Apertura” os times são organizado por chaves, assim todos os times jogam entre si. Na “Clausura” os oito melhores disputam um mata-mata, ou “liguilla”, como chamam no México.

Para 2019 serão aplicadas algumas mudanças. São 19 times, categoria sub-25 e as jogadoras podem ser mexicoamericanas. O crescimento da Liga é visível, em todas partidas os números de espectadores em estádio excedeu às expectativas. Isso é prova concreta da força do futebol feminino. A criação da Liga MX Femenil é justa e mais do que necessária. Os esportes são importantes para a sociedade e o que acontece nesse meio reflete nas massas. Favorecer e incentivar equipes femininas ou prestigiar reconhecer iniciativas como a Liga Mexicana é inigualável. Envia uma poderosa mensagem: o futebol não tem gênero.

A história do time feminino do Grêmio

A história do time feminino do Grêmio

Por Emília Sosa | Copa FemiNINJA

Gurias Gremistas conquistam o Gauchão Feminino | Foto: Gremio.Net

Parte da mobilização a favor do futebol feminino parte de 2016, quando a FIFA apresentou um plano de sua visão do futebol dos próximos dez anos, em que aponta uma maior valorização ao futebol feminino. Em 2017, a Conmebol impôs a obrigatoriedade para que até 2019, os clubes masculinos tenham equipes femininas e, só assim, serão autorizados a participar da Libertadores da América. Uma medida para que a categoria seja valorizada na América do Sul. O Grêmio, assim como outros clubes brasileiros, começou então a pensar no seu projeto. O time feminino surgiu em 2017, resultado de uma parceria com a Associação Gaúcha de Futebol Feminino (AGFF). Desde então as “Gurias Gremistas” vêm conquistando diferentes espaços no futebol feminino gaúcho e brasileiro.

O time feminino do Grêmio já iniciou sua carreira na primeira divisão do Campeonato Brasileiro, denominada, A1, em 2017. Mas no fim do mesmo ano, foi rebaixado pelo Vitória-PE, para a segunda divisão do Campeonato, a A2. Em 2018, o Grêmio assumiu inteiramente a direção da equipe feminina, com o objetivo de preparar e moldar uma equipe competitiva para os próximos anos, já que em 2019, também se tornou obrigatório que os times da primeira divisão do Campeonato Brasileiro, tenham equipes femininas, normas definidas pela CBF em 2017.

A primeira vez que participaram do Campeonato Gaúcho Feminino, as Gurias Gremistas chegaram à final e perderam para o seu principal rival, o Internacional, nos pênaltis, já em 2018, o resultado foi diferente e as Gurias levaram a taça do Estadual para casa, ganhando de 5 a 3 nas penalidades.

Neste ano, ainda na divisão A2 do Campeonato Brasileiro, o time já se classificou para às quartas de final do campeonato e está em busca do seu primeiro objetivo do ano, a classificação para a semifinal, que também garante a vaga na divisão A1 do campeonato de 2020. Com o encaminhamento para a reta final do Brasileiro, o time também visa o início do Campeonato Gaúcho feminino, que acontece no segundo semestre do ano e busca defender o título.

Apesar de recente, o Grêmio já faz investimentos no time feminino, como um estádio exclusivo para treinamento, alojamento e mando de jogos. O estádio Antônio Vieira Ramos, conhecido como Vieirão, fica localizado em Gravataí e pertence ao Cerâmica Atlético Clube, foi alugado pelo Tricolor para a realização das atividades das atletas. Ainda que pequenos esses passos, já impulsionam o futebol feminino, valorizando cada vez mais a atuação das mulheres nesse ambiente.

Mundial femenino: vamos a hinchar por las latinas y caribeñas!

Mundial femenino: vamos a hinchar por las latinas y caribeñas!

Con información de Nodal y EFE

foto: reprodução amoraofortaleza.com

Según el conteo de asistencia de clubes, el duelo oficial de fútbol femenino con más asistencia de aficionados en la historia era el Manchester City vs Birmingham City de la FA Cup, al cual acudieron 35 mil 271 personas en mayo de 2017. Era. Ese récord mundial se lo arrebató la final de la Liga MX Femenil, un juego entre los clubes mexicanos Tigres y Monterrey al cual asistieron 38 mil 230 fans.

Además de ese juego, celebrado el pasado abril, otros seis partidos de fútbol entre mujeres latinoamericanas se encuentran dentro del top 10 con mayor asistencia. Cuatro mexicanos, uno brasileño, y uno colombiano. La revolución de las mujeres pisa cada vez con más relevancia en el fútbol. El Mundial en Francia, con la cancha rebalsada de gente da cuenta de eso.

Ni Ronaldo, ni Messi. La gente va a ver a las pibas jugar. Actualmente tenemos 3 países latinos disputando la copa: Brasil, Argentina y Chile. ¿Por qué es importante apoyar a las selecciones de nuestra región? Acá algunos datos para poner en perspectiva los desafíos de nuestras jugadoras:

Argentina

foto: reprodução

Este será el año de la profesionalización del fútbol para las argentinas. Casi noventa años después de que esa profesionalización llegará al fútbol de los hombres. Esto fue un logro del movimiento feminista dentro del fútbol, de una campaña que tuvo que superar obstáculos como el quite de banderas de las canchas, y también de una mujer que puso su nombre y su cuerpo en favor de la causa, Macarena Sánchez.

Pasar del fútbol amateur a la profesionalización es cosa seria: mayor inversión, mejores salarios, uniformes y cuidados físicos. Para tener una idea de las difíciles condiciones del futbol femenino, a las mujeres de la Selección Argentina se les paga 25 dólares por partido. Por ello, la lucha de las futbolistas en Argentina es lograr que este deporte deje de ser amateur. La jugada más importante hasta ahora fue colectiva.

Brasil

foto: Divulgação

En el país de las de las 5 copas del mundo, el fútbol mueve 282 millones de dólares cada año. De este monto, el porcentaje que perciben las jugadoras es apenas una pequeña fracción. El salario más alto en la liga femenina es de 1,400 USD mensuales, en el club Santos de São Paulo. En la liga masculina, el jugador mejor pagado, Thiago Neves del Cruzeiro, tiene un salario mensual de 270,000 USD. La diferencia con respecto al mejor salario de la liga femenina es de 191 a 1.

Con esto se evidencia que, a pesar del creciente interés del público por el fútbol femenino, y la enorme popularidad de figuras como Marta Vieira Da Silva, considerada una de las mejores jugadoras del mundo, la diferencia de ingresos entre hombres y mujeres sigue siendo abismal. En efecto, Neymar, uno de los mayores jugadores del país y envuelto en un escándalo de violanción, gana R$ 29 millones por año. Marta continúa en la lucha por encontrar un más sponsors y apoyos financieros.

En Brasil, desde 1993 se llevan a cabo de forma ininterrumpida campeonatos de primera división de fútbol femenino. En su edición de 2017, el campeonato femenil batió récords de asistencia en estadios. Las participaciones de la selección nacional femenina en los pasados Juegos Olímpicos tuvieron más audiencia televisiva que la final del campeonato del fútbol masculino de primera división. Pero la liga femenina no se encuentra totalmente profesionalizada. Quedan muchas barreras por derribar aún.

Chile

foto: reprodução

La selección femenina de Chile disputará en Francia el primer Mundial de su historia, el colofón a un año de pequeñas batallas ganadas para tratar de imponerse en la gran guerra final: sacar el fútbol femenino del ostracismo y el subdesarrollo. El fútbol femenino chileno está alzando el vuelo. Es un proceso lento y aún es pronto para pronosticar el alcance de los logros, pero es indudable que soplan vientos de cambio desde la Copa América que se disputó en Chile el año pasado.

Además, se incorporó el fútbol femenino como deporte obligatorio en las ligas escolares, una medida que permitirá incrementar considerablemente la cifra de niñas que juegan a fútbol desde pequeñas. El camino recién comienza.

Jamaica

foto: reprodução

Jamaica es la primera nación caribeña en participar en un Mundial femenino. Sin inversión o apoyos fue haciendo paso a paso su camino hasta llegar a Francia. Su madrina? Una mujer que, como su papá, lleva el amor por el fútbol en la sangre: Cedella Marley, hija del ídolo musical jamaiquino. Todo empezó en 2014 cuando en la mochila de su hijo encontró un flyer donde en la escuela pedían ayuda para revivir la selección femenina de fútbol. Allí se contactó con las chicas y empezaron a trabajar para juntar fondos, apoyos, etc. En ese momento, las jugadoras no tenían presupuesto para viáticos y entrenaban, cuando podían, durante la noche, para no perder sus trabajos. Las “Reggae Girlz” de la selección, , resistieron.

Cuando la federación retiró por segunda ocasión los recursos económicos al equipo femenino en 2016, Cedella (sin doblegarse) duplicó sus esfuerzos, impulsando un cambio cultural completo dentro del fútbol femenil en Jamaica. Primero, convenció a Alessandra Lo Savio, cofundadora de la Fundación Alacran, dedicada a hacer trabajo filantrópico con las artes en Jamaica y otros países a prestar su apoyo como colaboradora importante de la causa. Luego designó a Hue Menzies, quien renunció a una carrera en las finanzas corporativas para convertirse en entrenador de fútbol a tiempo completo, como DT del equipo en su nueva versión. Y allí comenzó el ascenso hasta el Mundial de Francia.

La Federación (que se encuentra en posición única para apoyar a las Reggae Girlz) ha disuelto el equipo en dos ocasiones. Y a pesar del impulso generado tras la clasificación al torneo más importante de esta disciplina deportiva, la federación no ha hecho garantía alguna con respecto a la viabilidad futura del programa femenil.

Pero “Las chicas han tomado la decisión de jugar”, afirma Cedella, “y debemos proporcionarles igualdad de condiciones para que puedan salir a patear el balón”. “Como decía mi papá, el fútbol es libertad”.

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Organizações do movimento negro se organizam para derrubar projetos de Sérgio Moro

Organizações do movimento negro se organizam para derrubar projetos de Sérgio Moro

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Diversas organizações do movimento negro participam de agendas em Brasília, entre os dias 11 e 12 de Junho, com o objetivo de apresentar para deputados e senadores os malefícios do pacote de segurança pública de Sérgio Moro e os projetos de flexibilização o porte e a posse de armas. Para os ativistas, ambas propostas significaram um aumento no índice de violência contra jovens negros.

Em março, o grupo esteve com o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia com a mesma pauta de reivindicações e em maio, na Jamaica em audiência oficial da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, onde formalizou e protocolou denúncia de violação de direitos humanos do pacote anticrime.

Organizações do movimento negro que estarão presentes:

Angaju – Afro Gabinete de Articulação Institucional e Jurídica
Agentes de Pastoral Negros do Brasil – APNs
Alma Preta
Associação de amigos e familiares de presos/as – Amparar
Centro de Estudo e Defesa do Negro do Pará – CEDENPA
Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades – CEERT
CLB – Coletivo Luiza Bairros
Coletivo de Juventude Negra Cara Preta
Coletivo Negro Afromack
Coletivo Sapato Preto Lésbicas Amazonidas
Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas – Conaq
Criola
Educafro Brasil
Evangélicos Pelo Estado de Direito
Frente de Mulheres Negras do DF e Entorno.
Frente Favela Brasil
Frente Nacional Makota Valdina
Gabinete Assessoria Jurídica Organizações Populares- Gajop
Geledés – Instituto da Mulher Negra
Iniciativa Negra por Uma Nova Política Sobre Drogas
Instituto de Desenvolvimento de Ações Sociais – IDEAS
Instituto Marielle Franco
Instituto Negra do Ceará – Inegra
Irohin – Centro de Documentação, Comunicação e Memória Afro-brasileira
Liga das Mulheres do Funk
Mães da Bahia
Mahin Organização de Mulheres Negras
Mandata Quilombo da Deputada Estadual Erica Malunguinho – SP
Marcha das Mulheres Negras de SP
MNU – Movimento Negro Unificado
Movimento de Mães do Sócio-Educativo
Movimento Nacional de Pescadoras e Pescadores
Mulheres Negras do DF
Nova Frente Negra Brasileira
Núcleo de Consciência Negra da USP
Okan Dimó – Coletivo de Matriz Africana
Pretas em Movimento
Programa Direito e Relações Raciais – PDRR-UFBA
Protagonismo Negro da UFSM
PVNC – Movimento Pré-Vestibular para Negros e Carentes
Rede Afirmação
Rede de Mulheres Negras PE
Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio
Rede Fulanas NAB
Renafro
Uneafro Brasil
Unegro

Quem patrocina o futebol feminino?

Quem patrocina o futebol feminino?

Por Camila Cardoso Santos | Copa FemiNINJA

foto: divulgação

O futebol feminino vem ganhando notoriedade nos últimos meses. No dia 17 março deste ano, por exemplo, 60,739 pessoas assistiram o time feminino de Barcelona enfrentar o Atlético de Madrid pela Liga Iberdrola e ganhar de 2 a 0 do rival fora de casa, no estádio Wanda Metropolitano, em Madri. Sem dúvida um marco histórico a ser celebrado, considerando que algo similar não acontecia desde 1920, um ano antes das mulheres serem banidas de jogar futebol na Inglaterra pela associação de clubes de futebol. Neste ano, 53.000 pessoas lotaram o Goodison Park, Liverpool, com mais 14.000 supostamente recusados, para assistir ao famoso Dick Kerr’s Ladies que venceu o St Helens por 4 a 0. A popularidade do futebol feminino na época foi um forte fator para tal decisão e sua recuperação demorou quase um centenário.

Passados também quase 100 anos o banco Barclays, da mesma Inglaterra que o futebol feminino foi banido em 1921 por 50 anos, anunciou um contrato multimilionário de mais de 10 milhões como o primeiro patrocinador da recém-profissional WSL – Superliga Feminina – nas próximas 3 temporadas, um recorde para o esporte feminino no Reino Unido, com direito a premiação de 500.000 libras divididas de acordo com a posição da liga em cada temporada. Os ingressos para o amistoso de Inglaterra e Canadá em abril, no Academy Stagium, também esgotaram. Não há como negar que o apetite pelo futebol feminino vem crescendo e com ele o interesse econômico no setor.

As emissoras de TV estão em concomitância com estas demandas do mercado. Muitas estão transmitindo os jogos da Copa do Mundo Feminina em 2019, exercendo grande influencia nos negócios esportivos. No Brasil, as redes pagas SporTV e Band Sports transmitirão todo o torneio, assim como as redes abertas Globo e Band irão cobrir jogos da seleção feminina brasileira. A TV Band também exibiu a abertura. A Nike não ficou de fora e escolheu este momento para exibir novo comercial da série “Dream” para comemorar o início do torneio, incentivando as meninas a descobrirem o futebol.

A seleção brasileira tinha de jogar com os uniformes largos masculinos até 2015 quando a Nike desenhou o uniforme para a Copa do Mundo do Canadá, mas não o comercializou. Finalmente, em 2019, a seleção tem um modelo fixo e comercializado com a inscrição: “Mulheres Guerreiras do Brasil” nas costas da gola da camisa.

As guerreiras do Brasil também tiveram algum avanço em termos de publicidade. Guaraná Antártica, patrocinador das seleções brasileiras masculina e feminina de futebol há 18 anos, atendeu a uma maior necessidade de divulgação do futebol feminino com publicidade exclusiva através de comercial com as craques Fabi Simões, Andressinha e Cristiane mostrando que o futebol feminino “É Coisa Nossa”. A principal patrocinadora também convocou outras marcas para apoiar o futebol feminino e mês passado divulgou as que aceitaram a demanda: agência de publicidade Almap BBDO, Boticário, DMCard, GOL e Lay’s. De forma tímida o banco Itau começa a referir à seleção feminina em vídeo institucional.

Ainda, há um longo caminho pela frente para melhoria na diferença de visibilidade entre os gêneros. As receitas patrocinadas da Copa do Mundo masculina chegaram a US$ 529 milhões. No mundial feminino, US$ 17 milhões de investimentos privados. Marta e Neymar, dois ícones do futebol brasileiro, representam esta desigualdade.
De acordo com a revista americana de negócio Forbes, a eleita 6 vezes como melhor jogadora do mundo pela Fifa recebe de salário anual cerca de US$400 mil contra US$17 milhões de Neymar vindos de publicidade e patrocínio. A pressão popular é importante não apenas para a valorização da modalidade esportiva mas pela luta de igualdade de gênero.

Há um pouco de cinismo na razão do súbito interesse em investir no esporte feminino. Seria devido ao crescente movimento de igualdade aumentando a popularidade nos últimos anos ou ao baixo custo em comparação ao benefício alcançado? De qualquer forma, por demanda de mercado ou de gênero, o jogo das mulheres está pronto para estádios completos se tornarem realidade.

Antes das Martas e Cristianes, precisamos conhecer a Sissi

Antes das Martas e Cristianes, precisamos conhecer a Sissi

Por Isadora Fonseca | Copa FemiNINJA

foto: reprodução

Sisleide do Amor Lima, a Sissi, nasceu em 1967 e foi uma das grandes pioneiras no futebol profissional feminino no Brasil. Sua trajetória de paixão e luta merece ser conhecida e reconhecida por todxs nós.

No ano de 1979, a lei que tornava proibitiva a prática de futebol feminino no Brasil foi abolida. E foi nesse mesmo período que Sissi estava descobrindo que o futebol seria a sua profissão e amor.

Mesmo vivendo em uma sociedade machista que pregava que o futebol não era “coisa de mulher”, e sendo até mesmo proibida de jogar bola pela sua família, Sissi não parava de sonhar. Ela relata que em um momento de sua infância ela falou “chega!”, e arrancou a cabeça da sua boneca para poder jogar “bola”.

Iniciou sua carreira profissional no São Paulo Futebol Clube, e teve visibilidade internacional jogando na seleção feminina de futebol nos jogos olímpicos, que aconteceram em Atlanta, no ano de 1996. A seleção foi para a semifinal mas terminou a competição na quarta colocação. Mesmo ainda desconhecida, a seleção feminina mostrou realmente a que veio.

Em 1999, a meio-atacante Sissi jogou na copa mundial de futebol sediada nos Estados Unidos, e foi a capitã da equipe que terminou a competição em terceiro lugar geral. Nessa copa, Sissi fez o gol de ouro da competição e conquistou a chuteira de ouro como artilheira do torneio.

Uma das marcas mais tristes de sua trajetória aconteceu quando a jogadora, sensibilizada pela história de uma criança que havia sido vítima de bullying por estar careca devido ao tratamento de um câncer, resolver raspar a cabeça em sua homenagem. A atitude de empatia e sororidade trouxe muitas críticas à craque, sobre estar “masculinizada” nos conceitos da sociedade. Sissi foi impedida, inclusive, de participar de um campeonato estadual, por não se adequar aos ideais machistas de aparência. Mas Sissi não parou de lutar pelo seu lugar, pelas suas escolhas e pela sua paixão, mesmo sendo motivo de piada por ter personalidade e defender suas convicções.

Hoje em dia ela mora nos EUA e treina um time de base de futebol feminino. Lá fora ela é reconhecida pelo seu trabalho, por sua garra e paixão genuína pela bola, e aqui? Por que não?

Porque Cristiane é um exemplo de superação, garra e talento

Porque Cristiane é um exemplo de superação, garra e talento

Por Marina Borges | Copa FemiNINJA

Se por um lado a torcida brasileira ficou apreensiva com a ausência de Marta, por lesão, na estreia da Copa do Mundo, por outro, Cristiane fez tudo parecer muito fácil na manhã deste domingo (9). Diante da Jamaica, o Brasil se mostrou determinado e ofensivo, criando chances desde os primeiros minutos de jogo. O placar final poderia ter sido mais elástico, é verdade, mas a vitória canarinha por 3 a 0 foi o suficiente para Cristiane levar a bola do jogo pra casa e ainda pedir música – como é de costume na TV Globo, em um quadro do programa Fantástico. A canção escolhida para narrar os gols da atacante foi “Jogadeira”, “é uma música das meninas, da Cacau, que joga no Corinthians, elas fizeram essa música pro futebol feminino. Já descemos do ônibus cantando”, explicou Cristiane em entrevista à TV Globo. “Qual é, qual é, futebol não é pra mulher? Eu vou mostrar pra você, mané, joga a bola no meu pé”, cantou.

A 11 do Brasil se tornou a jogadora mais velha da história a conseguir três gols na competição – entre homens e mulheres –, superando Cristiano Ronaldo. A brasileira conseguiu o feito com 34 anos e 25 dias, e o português conseguiu com 33 anos e 130 dias.

Os três gols marcados garantiram outro recorde pessoal para a atacante, que se tornou a primeira jogadora a marcar mais de uma vez na mesma partida em três Copas diferentes. Além dos três gols anotados contra a seleção jamaicana, Cristiane foi às redes mais de uma vez contra Guiné Equatorial, em 2011, e contra a China, em 2007. Além dessa marca, a camisa 11 é a terceira jogadora canarinha a marcar o famoso “hat-trick” em uma partida de Copa do Mundo. As outras duas a conseguirem o feito foram Pretinha e Sissi, marcando os três gols na mesma partida: na goleada de 7 a 1 do Brasil sobre o México, na Copa do Mundo de 1999, nos Estados Unidos.

Diante da Jamaica, Cristiane marcou gol para todos os estilos: de cabeça, para os fãs de bola aérea; de carrinho, para os que não dispensam raça e, por último, de falta, para os amantes do futebol arte. O que poucos sabem é que esse combo anotado pela brasileira quase não teve nem chance de acontecer. A atleta revelou recentemente que sofreu de depressão após a seleção ser eliminada nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Em 2017, após a demissão da técnica Emily, Cristiane optou por não jogar mais com a amarelinha, já que passava por um período conturbado e sentia que não conseguiria mais ajudar de forma completa, como sempre buscou fazer desde que começou a vestir o uniforme verde e amarelo, com 15 anos de idade.

Cristiane Rozeira de Souza Silva, 34, nascida em Osasco (SP), atualmente joga pelo São Paulo, mas já acumulou passagens por times da Alemanha, França e China ao longo da carreira – vitoriosa por sinal. Em 2012, a atacante tornou-se a maior goleadora do futebol feminino da história dos Jogos Olímpicos e, em 2016, atingiu um feito ainda maior nas Olimpíadas do Rio de Janeiro: alcançou a marca de 14 gols, tornando-se, assim, a maior artilheira de futebol da história da competição, independente de gênero. Além disso, Cristiane já chegou muito perto de vencer o prêmio de melhor jogadora do mundo em duas ocasiões: nos anos de 2007 e 2008, quando ficou em terceiro lugar – quem venceu foi outra brasileira, a recordista do troféu, Marta. Agora, a expectativa que fica é para ver as camisas 10 e 11 jogando lado a lado pela última vez em uma Copa do Mundo.

Um amor, um coração: Reggae Girlz unidas por um sonho

Um amor, um coração: Reggae Girlz unidas por um sonho

Por Beatriz Santos | Copa FemiNINJA

foto: reprodução

Um amor, um coração, vamos ficar juntos e tudo irá ficar bem… A seleção feminina jamaicana, sem investimentos da federação há 8 anos, só conseguiu chegar até o mundial da França por conta de Cedella Marley. Além de filha do cantor Bob Marley, Cedella é embaixadora global do futebol feminino na Jamaica. Esse relacionamento começou quando o filho mais novo de Cedella chegou da escola com um folheto, “Apoie as Reggae Girlz” e logo depois ela já assumiu um cargo na Federação de futebol na Jamaica.

Tudo começou em 2015. O time estava há 3 anos sem jogar e depois de uma boa campanha na Copa Ouro, preliminar as eliminatórias do mundial do Canadá, as meninas estavam à procura de patrocínio para continuarem em atividade. A partir de então, Cedella colocou a Fundação Bob Marley à disposição das Reggae Girlz, como patrocinador master da seleção. A embaixadora tem a certeza que o pai estaria orgulhoso dessa missão, pois Bob Marley era apaixonado por futebol e dizia até que se não fosse cantor, ele seria jogador de futebol.

O caminho até a França

O Reggae Girlz estão no 53° lugar no ranking do mundo e são a primeira equipe caribenha a se classificar para uma Copa do Mundo feminina. A seleção jamaicana terminou em terceiro lugar no Campeonato CONCACAF, perdeu apenas dois jogos: 2×0 para o Canadá e foi goleada pela equipe dos Estados Unidos, 6×0, e conquistou sua vaga no mundial depois de uma vitória bem dramática sobre o Panamá por 4 a 2. As Reggae Girlz foram lideradas pela atacante Khadija “Bunny” Shaw com 19 gols na competição e além disso elas tomaram apenas 14 gols, balançando as redes adversárias 53 vezes.

Mas antes disso, antes desse jogo da classificação, antes do Panamá, muita história rolou na vida da seleção feminina de futebol jamaicana. Nos anos 70, uma menina chamada Beverly Ranger, jamaicana, se mudou para a Inglaterra, quando tinha 12 anos, e começou a jogar futebol com os meninos em um parque perto do estádio de Wembley. Por ser diferenciada, logo foi notada e jogou no Watford e no Amershaw Town, ambos times ingleses. Quando foi para a Alemanha, em 1974, ficou conhecida como Black Pearl, a pérola negra, e seu talento ajudou a popularizar o futebol feminino na Alemanha e isso foi antes da criação da Bundesliga feminina, que só aconteceu na temporada 1990/91. Além disso, Beverly Ranger foi a primeira mulher a ser patrocinada pela Puma.

Não muito tempo atrás, nos anos 90, foi criada a Liga Feminina com apenas 6 times, e nos anos 80, tinha sido criada a Associação Jamaicana de Futebol. Em 1991, as Reggae Girlz fizeram seu primeiro jogo internacional contra o Haiti, uma derrota simples (1×0). Na Copa de Ouro feminina da Concaf, elas participaram seis vezes, sendo a de 2018 o melhor resultado quando conseguiram terminar em terceiro e garantiram uma vaga para o mundial desse ano da França.

A colaboração de Cedella Marley vai além do patrocínio master, pois ela também foi a responsável pela seleção jamaicana feminina ter um técnico de qualidade. Hue Menzies, nasceu na Inglaterra, cresceu na Jamaica e se mudou para os Estados Unidos nos anos 80. Ele foi apresentado a seleção por recomendação da embaixadora do futebol feminino da Jamaica em 2014.

Importância da Sherwin Willians para as Reggae Girlz

Vale ressaltar, o fato de a Sherwin Willians ser a única empresa, ao longo dos anos 2000, que investiu no futebol feminino da Jamaica. Com o seu suporte, é possível a transição das meninas dos campeonatos escolares para o grupo principal, além disso a empresa ajuda as atletas individualmente com bolsas de estudos, treinamentos de habilidades profissionais e oportunidades de emprego. Também há uma liga patrocinada pela empresa, a Sherwin Williams Women’s League, que deu um cheque de $500 mil para ajudar nos preparativos da participação da equipe feminina jamaicana no mundial da França.

Reggae Girlz x Brasileirinhas.

A seleção jamaicana é a primeira adversária da seleção brasileira, o confronto vai acontecer no domingo (9/06), às 10:30, horário de Brasília, em Grenoble. O grupo C ainda conta com Austrália e Itália.

O regime de capitalização e o empobrecimento do trabalhador

O regime de capitalização e o empobrecimento do trabalhador

Foto: Isadora Freixo / Mídia NINJA

O regime de capitalização sugerido na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) n° 06/2019 – da reforma da Previdência – é extremamente cruel e perigoso. Ao propor sua institucionalização, o governo acaba com o regime atual de repartição simples (solidário e redistributivo) em favor de um sistema em que a contribuição patronal deixa de existir, assim como a contribuição do empregador para o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço – FGTS.

No regime de capitalização, o trabalhador passará a contribuir sozinho para uma espécie de conta individual. Os recursos dessas contas estarão vinculados à fundos de investimento que, por sua vez, aplicam-nos no mercado financeiro. Se considerarmos as taxas médias de inflação e de rendimentos dos fundos de investimento de previdência privada nas últimas três décadas, veremos que o rendimento destas contas individuais de capitalização, acumulado ao longo dos anos – proporcionais às suas modestas contribuições – serão muito pequenos. Não seriam suficientes para que uma aposentadoria daí decorrente chegasse a um valor superior a 40% do valor do salário da ativa dos trabalhadores.

Além disso, devemos lembrar que o modelo atual da previdência é de contribuição e benefício futuro definidos.

Você sabe com quanto você contribui e o quanto você vai receber quando se aposentar. O tal regime de capitalização é de contribuição definida, mas, nada diz sobre o valor dos benefícios. Ou seja, você sabe com quanto será obrigado a contribuir todo mês, mas não sabe quanto vai receber na época em que se aposentar. O ganho futuro é indefinido: o valor do benefício vai depender das flutuações e variações do instável mercado financeiro, do rendimento dos fundos onde o seu recurso será aplicado. Isso quer dizer que, se a economia fraquejar e as aplicações dos fundos forem de risco e não renderem o esperado, o valor da aposentadoria, pensão ou benefício da inatividade poderá ser inferior a 30% do valor do salário da ativa ou até zero!

Não bastasse isso, com o passar dos anos, sem a regra constitucional de reposição das perdas inflacionárias para os benefícios acima do salário mínimo pagos a aposentados e pensionistas da iniciativa privada e do setor público – que hoje ocorre pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) e que a PEC da reforma propõe retirar da Constituição Federal – a perda chegará a 30% do poder de compra do início de recebimento da aposentadoria, ao longo de cada década.

Significa dizer que a sua aposentadoria ficará um terço menor a cada período de 10 anos, ainda que o seu valor nominal se mantenha inalterado.

No atual regime de repartição simples, o que o trabalhador da ativa paga hoje serve para custear os benefícios de quem já está na inatividade. Quando instituído o regime de capitalização, o Estado deixará de arrecadar para o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) as seguintes receitas previdenciárias: 1) o valor correspondente a contribuição do empregador, também chamada de cota patronal, que deixará de ser obrigatória; 2) o valor correspondente à contribuição do trabalhador, que passará para as contas individuais de capitalização de cada um e não mais fará parte da conta única do regime geral ou dos regimes próprios de previdência social.

A partir dessa constatação, analisemos os dados do ano de 2018: segundo a Secretaria do Tesouro Nacional (STN) da Receita Federal do Brasil, o total de despesas com as aposentadorias do Regime Geral de Previdência Social (RGPS) foi de R$ 716 bilhões.

O déficit foi de R$ 190 bilhões. Deduzindo o déficit do total da despesa, concluímos que a receita previdenciária no ano de 2018 foi de R$ 526 bilhões.

Isso quer dizer que o INSS, órgão gestor do RGPS, deixará de arrecadar, de uma hora para outra, uma receita equivalente a R$ 526 bilhões ao ano. Em dez anos teríamos uma perda de receita no montante de R$ 5,2 trilhões. Esse seria o tal “custo de transição” com que o governo terá de arcar na passagem de um regime (repartição simples) para outro (capitalização). Cinco vezes mais do que o governo alega que irá economizar no mesmo período (R$ 1 trilhão) com as mudanças apontadas na PEC da reforma. Isso sem considerar as receitas e despesas dos Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), da União e dos Estados.

A pergunta que não quer calar é: quem arcará com essa diferença? De onde virá o dinheiro para os tais “custos de transição”? Não há resposta. A falácia é tamanha que é provável que, quando a PEC for aprovada, o Governo Federal libere recursos oriundos de outras fontes aos estados e municípios, de modo a dar a impressão que a reforma surtiu efeitos positivos imediatos. E o país inteiro acreditará que a reforma foi boa para o Brasil. Ocorre que os seus efeitos perversos somente serão sentidos a longo prazo, daqui a duas ou três décadas. Daí, já será tarde.

Enquanto isso, as instituições financeiras e o sistema bancário estarão bamburrando de dinheiro, pois serão eles que administrarão as contas individuais de capitalização de cada trabalhador, algo em torno de R$ 175 bilhões ao ano.

O mercado, seus empresários e empregadores também estarão felizes, pois terão maior margem de lucro uma vez que deixarão de depositar duas de suas contribuições hoje obrigatórias: a cota patronal e o FGTS.

E o trabalhador? A chantagem previdenciária e a propaganda mentirosa e milionária do Governo Federal são tão ostensivas que, infelizmente, a maioria deles continua – e, talvez, continuará – acreditando que a reforma da Previdência é necessária, pois cortará privilégios, assegurará sua aposentadoria no futuro e fará o Brasil retomar o caminho do crescimento econômico. Mas, quem conhece e se aprofunda no tema constata que reforma foi proposta apenas para atender aos interesses do mercado financeiro. Não é de se estranhar, afinal, o ministro Paulo Guedes (Economia) é banqueiro.

Cursinho popular: um ponto fora da curva na linha tradicional da educação

Cursinho popular: um ponto fora da curva na linha tradicional da educação

Pelo Estudante NINJA Artur Nicocelli

Foto: Reprodução UNEAfro

O Brasil vêm sofrendo de forma violenta e incisiva o corte na educação pública, afetando de uma forma ou outra os estudantes desde o ensino fundamental até as universidades e pós-graduações. O ensino é colocado na pasta de gastos anualmente e sempre que o governo necessita aplicar um contingenciamento, optam por fazer na educação. No entanto, de forma disruptiva e com a perspectiva de quebrar barreiras, universitários tem a proposta de melhorar a educação e de alguma forma criar espaços de ensino e aprendizagem conhecidos como cursinhos populares.

O Cursinho Popular Laudelina de Campos é um desses ambientes que tem a perspectiva de auxiliar as pessoas das regiões do Cambuci ao ABC pela proximidade com o Metrô Sacomã. O coordenador do cursinho e professor de história, Victor Pastore, explica que ao mesmo tempo ele insere as pessoas em um espaço educacional e tem uma experiência pedagógica que não aparece em muitos estágios.

“Em primeiro lugar, a maioria dos professores chega nos cursinhos populares sem ter muito a dimensão do que realmente é […] Só com a vontade de ajudar, de uma forma voluntária, assistencialista. E porque está em busca de alguma oportunidade pra começar a dar aula ou conseguir mais experiência. No meu caso foi assim também, os cursinhos populares acabam tendo esse caráter de formação de educadores na prática, sabe? Porque dá uma oportunidade que muitas vezes não acontece nos estágios de licenciatura e nem no mercado de trabalho, que exige alguém já com experiência”.

No entanto, de acordo com o Victor, há uma dificuldade no ambiente do cursinho popular, especialmente no cotidiano, já que existe uma problemática dos alunos pagarem o transporte e a alimentação fora de casa, por isso o cursinho é além de um espaço de educação, também um espaço de luta. “por isso existe uma luta pelo passe livre para estudante de cursinho popular, inclusive com PL tramitando na câmara”.

Em outra experiência falamos sobre financiamento, como conta o professor de história Pedro Augusto de Oliveira Assunção: “O nosso cursinho possui incentivo de projetos para se sustentar, já que somos uma associação sem fins lucrativos voltada para a área de educação. Dessa forma conseguimos ter professores remunerados, materiais didáticos e uma estrutura. E assim conseguimos manter um grande número de alunos no projeto. Por ano, nós conseguimos em média ter aproximadamente 600 alunos”. Ao fim , ambos os professores afirmam que o contingenciamento do Bolsonaro causa um impacto estrutural nos cursinhos, bloqueando a expansão do sistema universitário. Além disso, intensifica a precarização da educação.

Levando a resistência pra sala de aula, também existem iniciativas como o Cursinho Popular Transformação, localizado na Santa Cecília/SP, que tem a proposta de inserir a população TTT (Travestis, transgêneres, não-bináries) por considerar urgente ações que colocassem essa comunidade na centralidade, principalmente quando sabemos que o Brasil é país que mais mata pessoas transexuais.

O coordenador pedagógico e oficineiro de criação, João Innecco, afirma que resistir em tempos de violência contra a educação é necessário. “Frente aos desmandos do governo Bolsonaro, a perspectiva é de que teremos de nos desdobrar mais pra garantir nossa segurança de grupo, contar com a nossa própria força de comunicação e fortalecimento, buscar a manutenção da nossa saúde mental, ralar pra compensar o buraco que o Estado deliberadamente abre – e que está cada vez mais profundo”

Assim sendo, é nítido que a educação é mais do que apenas colocar pessoas aptas para exercer qualquer função em específico no mercado de trabalho, mas construir um pensamento crítico em quem senta nas carteiras. E os cursinhos populares estão repletos disso.

Bolsonaro inimigo da educação (por que a educação ameaça Bolsonaro?)

Bolsonaro inimigo da educação (por que a educação ameaça Bolsonaro?)

Pelo Estudante NINJA Tiago Neto*

Foto: Raoni Garcia/ Mídia NINJA

O processo de aniquilamento das políticas públicas sociais é o retrato sintomático da crise na educação como um projeto persistente no país parafraseando Darcy Ribeiro antropólogo, escritor e político brasileiro. Notadamente, o trágico começo da gestão do presidente eleito fez do campo educacional inimigo a ser combatido. Num cenário de guerra em que educadoras e educadores são agentes protagonistas da “doutrinação comunista”. Na concepção dos atuais donos do poder as instituições escolares são “aparelhos dominados pelo marxismo cultural”. Este controla o sistema educacional brasileiro desde a Educação Básica até as Universidades públicas que são alvos sistemáticos da sanha persecutória do Governo Federal, sobretudo por quem ocupa o Ministério da Educação. Nesse caso, em específico, o caráter trágico toma proporções de uma horripilante comédia – dramática, absolutamente, sem graça, porquê a educação como política de Estado não é levada a sério sendo vista como significativa ameaça aos detentores do poder no período recente.

A começar pela gestão do ex-ministro Ricardo Vélez que não durou mais de 100 dias. O representante da pasta teceu algumas afirmações sobre o comportamento do povo: “o brasileiro, viajando, é um canibal: “Rouba as coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo. Esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola”. Um pedido de desculpas e uma declaração de amor não foi suficiente para apagar o incêndio. Posteriormente, Vélez contribuiu para piorar o cenário ao dizer: “Brasileiros! Vamos saudar o Brasil dos novos tempos e celebrar a educação responsável e de qualidade a ser desenvolvida na nossa escola pelos professores, em benefício de vocês, alunos, […]” – como se não bastasse o mote – “[…], que constituem a nova geração. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!”. Pelo que aparenta a carta traz uma tentativa de remissão, ou na verdade, consistia numa carta a ser enviada para direção das instituições escolares de todo o país e ser lida para todos as/sujeitos da educação. Claro que com estudantes, funcionários, professores perfilados perante a bandeira cantando o hino nacional.

Nessa perspectiva um panorama dos rumos da política educacional brasileira e a profundidade do fosso que o país está submetido, com explicação detalhada da administração Vélez. No dia 27 de março de 2019, o presidente da república declarou no twitter “Sofro fake news diárias como esse caso da ‘demissão’ do Ministro Velez. A mídia cria narrativas”, sentenciou. Tendo em vista que a GloboNews chegou anunciar que Bolsonaro havia decidido demitir o então ministro da educação. Foram menos de 100 dias de incertezas e confusões, na curta passagem do Ministro da Educação Ricardo Vélez. Qual o legado dele para educação? Não houve um legado positivo, a começar pela intenção do antigo ministro em fazer uma reavaliação do que significou o Golpe Militar de 1964 que instaurou a Ditadura Militar no Brasil aliado também a perseguição interna de caráter político e ideológico no ministério devido a onda de demissão ministerial. É possível afirmar existir uma herança maldita construída num curto espaço de tempo.

Esse prognóstico tende a ficar mais complexo devido ao fato de sair ministro e entrar outro para chefiar a pasta, a lógica de desqualificar a educação, a profissão docente e prática pedagógica continua viva no núcleo sólido da gestão bolsonariana. Está no DNA de (des)governo uma abordagem economicista da educação dado o novo perfil que ocupa lugar de destaque no Ministério da Educação. A linguagem mais usual do economista Abraham Weintraub a respeito da política educacional oscila entre cortes – bloqueios – contingenciamento, o presidente eleito e o recém-empossado ministro reduz as críticas que recebem sobre as propostas deles para educação de fake news, tem até dancinha do Ministro de Estado com direito a trilha sonora. Estão preocupados com o “marxismo cultural” – o “comunismo” – a “escola ‘sem’ partido” e expurgar Paulo Freire da educação. A perversidade das ações desse desgoverno na educação afeta 70 instituições federais de todo o Brasil. Não podemos deixar dúvidas ao afirmarmos, se essa gestão insistir nos cortes um milhão de estudantes serão afetados.

Por que Bolsonaro é inimigo da educação? Porque as universidades foram os principais alvos dos cortes. Mesmo afirmando que o contingenciamento tenha caráter geral, o corte nas universidades correspondem a 35,9% da redução total realizada nas despesas do Ministério da Educação que ficou em R$ 5,714 bilhões. Será que a medida tomada deve-se ao revanchismo devido as instituições em sua maioria se posicionaram contra o atual governo ainda na época das eleições presidenciais. Há que levar em consideração a natureza do corte, as verbas interditadas seriam destinadas ao investimento e custeio das universidades, despesas discricionárias, comprometendo mais 2 bilhões, ou 29,74% do total de R$ 6,99 bilhões do orçamento aprovado pelo Congresso Nacional. A trajetória que o Governo Federal, sobretudo o Ministério da Educação está tomando constitui uma agressão direta à pesquisa impedindo o funcionamento básico das universidades: água, luz, limpeza, bolsa auxílio e a política de assistência estudantil. Finalmente, o acesso, permanência e êxito discente é colocada em cheque pela política de austericídio ultraliberal.

O apagamento da política social dialoga com a nova dinâmica das relações de poder. Retrata-se a lógica de subserviência ao grande capital que o ponto de ancoragem reside no caráter antipopular, antinacional e conservador. Eis, o sustentáculo do pensamento e ação do atual governo. Inimigo da Educação, portanto Inimigo do Brasil. A educação crítica, reflexiva e emancipatória contribui com o combate à barbárie contemporânea. As ruas, espaços mais democrático do país foram ocupadas por todes sujeitos da educação, do chão da escola ou das universidades do Brasil profundo. O Movimento Estudantil protagonizado por estudantes, professores e o amplo espectro de movimentos sociais fizeram o mês de maio tremer no dia 15 e 30 contra o apagão científico representado pelo congelamento de 4.798 bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado, oferecidas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoas de Nível Superior isso impacta o desenvolvimento humano. O desejo de poder transforma a educação num não-lugar visa tornar as universidades improdutivas, cujo declínio de investimento vem desde 2014, apesar disso as universidades públicas continuam fazendo 95% da produção científica brasileira.

A narrativa construída pelos atuais donos do poder dizem que há “investimentos ‘demais’ no ensino superior”. Não é bem assim, pois de acordo com dados do Nexo desde 2014 o investimento em educação caiu 56% (R$11,3 bilhões para R$4,9 bilhões), segundo a Lei Orçamentária de 2019 pode chegar a R$ 4,2 bilhões. Ao analisarmos o Ensino Superior verifica-se a queda do investimento em cerca de 15%, conforme considera o Sistema Integrado de Administrado de Administração Financeira do Governo Federal. Sabemos que o Brasil investe por aluno cerca de US$ 14.200 em educação universitária, abaixo dos países da OCDE, que é de US$ 15.600. Outro discurso falacioso é “o governo não está tirando do ensino superior para o ensino básico” o MEC bloqueou R$ 2,4 bilhões que seriam destinados a programas da educação infantil e ao ensino médio. A incompetência da atual gestão impossibilitou o investimento em suas próprias bandeiras de sua campanha eleitoral como EAD e Ensino Técnico sem recursos: bloqueou-se recursos para programas de permanência das crianças mais pobres na escola, como merenda e transporte escolar. Hospitais Universitários serão afetados, de forma significativa com essa política de desmonte.

O ministro da Educação, Abraham Weintraub chegou a dizer que iria desbloquear as verbas se a Reforma da Previdência for aprovada, isso é chantagem, fazer da educação moeda de troca e constata a face perversa da gestão Bolsonaro que chegou a afirmar que o investimento concentrava nas Ciências Humanas, o que novamente não correspondia a realidade dos fatos. Tendo em vista que apenas 1,4 da verba do CNPq e do Capes vão para Ciências Humanas e Ciências Aplicadas. Nesse sentido, as Ciências Exatas, Biológicas, Agrárias, da Saúde e as Engenharias concentram 64,3% das bolsas e ao todo, correspondem a 119,3 mil benefícios concedidos a essas áreas entre os 185,4 mil disponíveis. Ciências Humanas, Sociais Aplicadas e Linguística, Letras e Artes, por sua vez, recebem 24,3% delas ver (https://une.org.br/noticias/a-verdade-sobre-os-cortes-em-numeros/). Por essas razões a Luta em Defesa da Educação está unificada contra a Reforma da Previdência e não podemos esquecer de repudiar o Pacote Anticrime do Moro.

Logo, a Greve Geral de 14 de Junho de 2019 é uma conclamação ao povo brasileiro que promova a ocupação das ruas visando unificar e fortalecer a luta do Movimento Estudantil e do Movimento Sindical. A retirada de direitos praticados pela atual gestão criminaliza os mais pobres, dificulta a aposentadoria, alonga o tempo de trabalho em condições precárias e instaura o regime de capitalização, estes procedimentos vão contra os direitos fundamentais, resguardado pela Constituição de 1988. Dilapidando a Seguridade Social, conquista histórica do povo brasileiro.

*Tiago Neto da Silva é estudante de Licenciatura em Química pela Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de Goiás – Câmpus Luziânia.

Três levantes históricos: Do #EleNão ao #30M

Três levantes históricos: Do #EleNão ao #30M

Pela Estudante NINJA Victoria Henrique

Foto: mrldias | Mídia NINJA | Luz Nuñez Soto

” Se esse senhor conseguir chegar na presidência, vai ser o fim tanto para mim quanto para a maioria das mulheres aqui do estado (Rio de Janeiro) e do Brasil inteiro”

Essa declaração é da Bruna Reis, mulher trans, de 30 anos. Em setembro de 2018, um mês antes das eleições presidências no Brasil, ela era uma das milhares de mulheres que estavam nas ruas contra o candidato à presidência Jair Bolsonaro, por saber que a sua vitória representaria um grande retrocesso para o país. Elas sendo 51,5% da população total, segundo dados de 2012 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), poderiam ser personagens decisórios naquelas eleições. Por isso, se mobilizaram, através da internet, e fizeram um levante histórico em todo o mundo que ficou conhecido como #EleNão.

Os atos foram uma resposta direta a declarações ofensivas às minorias feitas por Jair Bolsonaro. “Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, a quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher”, é uma delas. De acordo com um levantamento realizado pelo Datafolha, cerca de 536 mulheres foram agredidas fisicamente por hora no Brasil, em 2018. Dentre as motivações destas mortes, está a de gênero. Ou seja, mulheres são mortas apenas por serem mulheres. O quadro de violência sofrida pela comunidade LGBT também é preocupante. Um relatório publicado pelo Grupo Gay da Bahia, ano passado, demonstrou que o Brasil está no ranking dos países que mais matam LGBTs no mundo.

As manifestações do #EleNão tiveram um grande protagonismo feminino, mas também contaram com a participação dos homens. “Para quem é da minha geração que viveu a Ditadura na juventude, é impressionante ver um cara que nem esse elogiar um torturador” diz Jurgen, professor do curso de Física da Universidade Federal Fluminense (UFF). Além de atacar grupos sociais que são comumente invisibilizados na política, Bolsonaro se coloca também como simpatizante da Ditadura Civil Militar (1964-1985), regime que, segundo relatórios da Comissão da Verdade, deixou 434 mortos e desaparecidos.

A luta histórica das mulheres que contou com a participação dos homens, dos LGBTs, dos povos indígenas, da população negra e de outros setores, demonstrou que setembro de 2018 foi apenas o início de um ato de resistência à criminalização e marginalização dessas parcelas da sociedade. Em maio de 2019, os estudantes, professores e servidores se somaram à luta e fizeram protestos nacionais e internacionais contra os cortes de verbas na educação pública anunciados pelo Ministério da Educação (MEC) em 30 de abril. Como resposta, no dia 15 de maio, 222 cidades brasileiras se mobilizaram contra o bloqueio de recursos e mais de um milhão de pessoas ocuparam as ruas em todo o país.

O primeiro tsunami da educação, como ficou conhecido esse protesto, mostrou o incômodo da sociedade quanto ao desmonte que a educação pública vêm sofrendo. Alunos de universidades federais que dependem das bolsas de acolhimento estudantil e desenvolvimento acadêmico, por exemplo, se viram desamparados por conta desses cortes. Ao total, foram retirados do ensino superior federal 2,5 bilhões de reais. A educação básica também foi afetada. Diferente do que foi apontado por Jair Bolsonaro; de que ela seria prioridade em seu Governo, foram retirados desse setor ao menos R$ 914 milhões.

“Senhor Ministro venha para a rua conhecer o seu povo que o senhor não conhece. Saia do gabinete!”

José Carlos Leite, professor de História, presente no #15M, e que passou em 12º segundo lugar na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), contou que sempre estudou em escolas públicas e que por ser negro enfrentou diferentes barreiras para conseguir frequentar ambientes acadêmicos que durante muitos anos foram espaços elitizados. José ainda afirma que: “A única coisa que pode salvar o Brasil é educação e o nosso presidente quer justamente tirar o investimento desse ramo”, opinião comum a maioria das pessoas que estavam nos atos. E que após a declaração de Bolsonaro de que estudantes que protestavam eram “Idiotas úteis”, se fortaleceu fazendo com que se formasse mais adiante um outro grande levante, o segundo tsunami da educação: o #30M.

O Segundo Dia Nacional em Defesa da Educação contou novamente com a participação da comunidade acadêmica, além da população que se viu mobilizada. Projetos como “UFF nas praças”, permitiram demonstrar às pessoas que, para além da formação acadêmica, as universidades também exercem uma grande função social. Elas oferecem gratuitamente serviços em hospitais universitários, amparos jurídicos e psicológicos, além de vagas em creches e escolas, por exemplo. Dessa forma, a luta se unificou gerando uma grande comoção no Brasil. Ao total, foram mais de 1,8 milhão de pessoas nas ruas. O Brasil reivindicou: uma educação pública de qualidade, os direitos das minorias e principalmente, um projeto democrático de governo. E agora, volta às ruas para exigir mais uma vez em 14 de junho; na greve geral.

Os homens sempre quiseram dispor dos corpos e da reputação das mulheres

Os homens sempre quiseram dispor dos corpos e da reputação das mulheres

Foto: Reprodução

Todas as mulheres do mundo! Lembram da “legitima defesa da honra” base de inúmeros casos que inocentaram homens acusados de feminicídio? Está de volta com o nome de “crime contra a dignidade sexual”, proposta de um deputado oportunista que surfa no caso Neymar/Najila que protocolou um projeto de lei batizado de “Neymar da Penha”! Como se pudesse haver simetria ou comparação entre as violências estruturantes e seculares cometidas pelos homens contra as mulheres e vice-versa! Não há!

Independente dos fatos e do que se possa concluir do caso Neymar/Najila os comentários nas redes e na mídia fazem emergir todo o machismo, o preconceito e visões de mundo assustadoras em torno da machocracia. Não custa lembrar que, independente do caso:

1. Se o homem pagou (a passagem para Paris, o jantar, o motel, o Uber ou a cerveja) não ganha direito a sexo, ainda mais sem consentimento!

2. Se a mulher aceitou um encontro sexual, pago ou não, não tem que se submeter a qualquer humilhação ou violência. Pode ser a namorada, esposa, a amante, a ficante, o crush, a tinder, a puta. Pode mudar de ideia e dizer simplesmente: não!

3. “A mulher que acusa Neymar de estupro” tem nome Najila Trindade, o nome não aparece nas manchetes e muito menos nos comentários em que vira: “a mulher que acusa Neymar”, a vadia, a oportunista, a vagabunda, a puta, etc,

4. Divulgar imagens íntimas de alguém nas redes é crime! Não tem justificativa.

5. O corporativismo masculino (e a machocracia de mães, irmãs, amigas e outras mulheres) não admite que um cara rico, famoso e mimando pela mídia possa ser colocado em questão ou suspeição nem por um minuto.

6. Na dúvida, a mulher é a culpada! Pouco importa seu desfecho, o mais terrível é o estrago no imaginário, quando se abre o esgoto público de discursos odiosos e assimétricos contra todas as mulheres do mundo!

A violência simbólica e real nas redes é maior e mais assustadora que qualquer coisa! Ultrapassa e extrapola o próprio caso em questão. Uma turba que quer uma válvula de escape para uma regressão vingativa diante da relativização de um poder que os homens sempre detiveram: dispor dos corpos e da reputação das mulheres.

Narciso acha feio o espelho!

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O problema estrutural do futebol feminino brasileiro

O problema estrutural do futebol feminino brasileiro

Por Olivia Santos | Copa FemiNINJA

Foto: Jefferson Bernardes

O regulamento de licença de clubes da Conmebol, publicado em 2016, com prazo de dois anos para adequação dos clubes, prevê à criação e manutenção de uma equipe principal e de base feminina, pros clubes brasileiros que disputam torneios como a Sulamericana e Libertadores. À mesma exigência é feita pela Confederação brasileira de futebol, para os times que disputam à série A do brasileirão e ambas passam a valer esse ano.

À lei prevê duas possibilidades para os clubes adequarem uma equipe feminina, que vai desde criação de uma equipe até à associação de um clube ou time já existente. Independente da opção escolhida, cabe ao clube prover suporte técnico, equipamento e estrutura (para preparação/concentração e disputa de jogos), à última exigência é que às equipes disputam campeonatos regionais e locais com regularidade.

Do começo do ano até aqui, período inicial da obrigatoriedade, apenas sete (Ceará, Corinthias, Flamengo, Grêmio, Internacional, Santos e Vasco), dos vinte clubes brasileiros que estão envolvidos na lei, possuem sua categoria feminina já estruturada, seis estão com projetos encaminhados (Atlético-MG, Bahia, Chapecoense, São Paulo, CSA e Goiás), dois haviam iniciado o planejamento (Atlético-PR e Fluminense ) e outros cinco (Cruzeiro, Avaí, Botafogo, Palmeiras e Botafogo) ainda não haviam desenvolvido a regra.

À maioria das atletas, envolvidas nesses clubes, sejam por times próprios ou por associação, são consideradas atletas amadoras, algumas recebem incentivos de bolsas pelos clubes mas não vivem só do futebol. Às mulheres no atual futebol brasileiro, ainda lidam com o karma estrutural da dupla jornada feminina, o que se diferencia bastante da categoria masculina, atletas de base e principal conseguem se manter através da profissionalização. Dos clubes com projetos estruturados ou encaminhados, apenas quatro deles remuneram ou pretendem remunerar  às atletas, são eles: Santos e Corinthias, que já pagam salários à suas atletas, Grêmio e Inter que possuem parte do elenco profissionalizado e pretendem profissionalizar às atletas ainda não atendidas. Atlético-PR e Flamengo cumprem à lei através de associação com outros clubes, O Paranaense que firmou acordo com o Foz Cataratas e o Flamengo com à Marinha do Brasil, em ambos às atletas recebem dos times de origem, levando aos clubes fornecer apenas material esportivo (uniforme) e estádio para à disputa de competições. Outros seis clubes, como é caso do Atlético Mineiro, fornecem ajudas de custo e acesso ao departamento médico e academias dos centros de treinamento do clube.

O que se percebe da lei, e da forma como os clubes estão cumprindo, é que, o futebol feminino ainda têm muito caminho para percorrer para se adentrar ao espetáculo que é o futebol no Brasil. O futebol, com ascensão do capitalismo, se tornou um dos principais meios de entretenimento e um dos ramos mais lucrativos para se investir, não é atoa que alguns jogadores vendem seus passes e direitos como ações em uma empresa. O gasto para se formar atletas também é muito alto, salários, estrutura, deslocamento, direitos, etc.. Tornam o futebol uma empresa de grandes lucros e gastos altíssimos. Não deve ser novidade para ninguém, que o futebol feminino não esteja contido nesse business do esporte. Infelizmente o lucro em cima das atletas é bem desigual, assim como seus vencimentos. Não existe ambição sobre às mulheres tal qual existe sobre os homens, e isso também é uma questão estrutural.

 A condição física feminina já foi colocada como empecilho para à pratica do futebol. No decreto de lei 3.199 de 14 de abril de 1941, à mulher é colocada como inferior fisicamente, por isso o futebol seria algo impossível para sua condição física. Diversas teorias comprovam que às diferenças argumentadas como motivo de desigualdade entre homens e mulheres não são inatas, mas passam por toda uma construção social, onde regras estruturais condicionam homens e mulheres à papéis sociais, baseados no sexo biológico.

Muitos comentam da desorganização tática do futebol feminino, da capacidade física das atletas, do tamanho, da baixa velocidade em campo e de pouca força física. Por mais que seja mais fácil explicar essas diferenças pelo viés biológico, é exatamente no fator social que o senso comum se desconstrói. Toda e todo profissional, envolvido com o esporte, sabe que, às condições físicas de uma pessoa é produto das atividades físicas que desempenham aliados às condições biológicas de cada corpo. Se uma pessoa teve uma construção física baseada em dietas, atividades físicas ela provavelmente terá essa herança em seu corpo. E é justamente isso que uma base faz, ela cria uma herança física e também psíquica, através de atividades estudadas e pensadas ela forma o corpo de um atleta que o permitirá desenvolver à atividade em plena condição,.

À questão estrutural interfere na falta de estrutura e ambas interferem no desempenho de atletas e na forma como o brasileiro vê essa modalidade. Mais que concessão de camisas e estádios, um futebol competitivo e de alto nível precisa ter um trabalho de base contínuo, assim como acontece nas equipes masculinas. Toda e todo atleta, assim como qualquer profissional, não se constitui da noite para o dia. No caso do esporte, existe algo muito importante que lhe dará condições de exercer à prática esportiva e alcançar máximo desempenho, à base. À estrutura física e psíquica de uma atleta não depende somente de sua genética, ou seja, uma atleta de alto nível não nasce, torna-se.

Mais do que conciliar times e ceder seus escudos, os clubes brasileiros precisam pensar na formação das atletas, à maioria das jogadoras da seleção não possuem histórico de construção em base de clubes, são geralmente atletas amadoras, que na raça tentam buscam um lugar ao sol. É necessário que se pensem em projetos contínuos, em fornecer condições necessárias para à prática. À lei é sem dúvida um avanço para o futebol feminino mas é só o começo do caminho, levaremos tempo ainda para colhermos frutos e beirar à igualdade.

Conheça a história do Esporte Clube Iranduba da Amazônia

Conheça a história do Esporte Clube Iranduba da Amazônia

Por Ketlen Gomes | Copa FemiNINJA

Foto: MICHAEL DANTAS/ALLSPORTS

O Hulk da Amazônia, como é conhecido o Esporte Clube Iranduba da Amazônia, tem poucos anos de fundação, mas uma história significativa no futebol amazonense, e principalmente feminino. Sediado na cidade de Iranduba, na região metropolitana de Manaus, o clube foi uma iniciativa de vários amigos amantes do futebol: Amarildo Dutra (atual presidente), Oséias Lima, Emerson Sampaio, Aldenir Kniphoff, Edu Lima, Wellison Leão, Juarildo Muniz, Luís Carlos Castro, o tetracampeão Cláudio Taffarel e o ex-jogador Paulo Roberto. No futebol masculino, o time não conquistou grandes feitos e permanece estável no Barezão, como é chamado o campeonato estadual. O carro chefe do Iranduba é o futebol feminino.

O primeiro título do time de futebol feminino do Iranduba veio em 2011, ano de fundação do clube, quando se consagrou o Campeão Estadual, e nos anos seguintes repetiu o feito sendo octacampeão em 2018, e em 2014, 2015 e 2016, alcançou o primeiro lugar invicto.

Os destaques do Iranduba não são apenas estaduais, seguem na esfera nacional também, sendo o único time do interior a representar o Amazonas em competições nacionais da extinta Copa do Brasil de Futebol Feminino, participando em todas as edições, e no Campeonato Brasileiro.

A história do Hulk da Amazônia no brasileirão feminino não para apenas na participação da competição, mas também é um dos clubes fundadores da Liga Feminina Brasileira de Futebol (LFBF). O clube tem o apoio da torcida amazonense, levando em média um público de mais de 4.000 pessoas nos jogos sediados na Arena da Amazônia. Na atual temporada está na 9ª posição, mas no ano passado ficou em 7º lugar no ranking da CBF.

Além dos principais torneios do país, o time feminino do Iranduba também participou da 1ª Taça Brasil de Beach Soccer de Futebol Feminino, no Rio de Janeiro, onde foi vice-campeão do Torneio Início e ficou em 5° lugar na colocação geral. Em 2012 também participou do Torneio Internacional Taça das Nações, onde foi vice-campeão. Em 2016, na I Liga de Futebol Feminino Sub20 se consagrou vice-campeão. Está entre os finalistas de Melhor Projeto de Futebol Feminino de 2018 da 3ª Conferência Nacional de Futebol. No ano passado, o time recebeu um reforço de peso para a Copa Libertadores da América de Futebol Feminino, a meio-campista da seleção brasileira Andressinha vestiu o verde do clube do coração da floresta e ajudou o time a ganhar o 3º lugar da Copa. A atleta retornou ao Portland Thorns (EUA) dia 30 de abril.

Além de Andressinha, outras jogadoras do Iranduba também vestiram a camisa da seleção, na categoria sub 20: atletas como a meio-campista Laura Spenazzato, a goleira Sol, a lateral Monalisa e a atacante Brenda, foram convocadas ano passado.

A estudante e moradora da cidade de Iranduba, Alda Aragão, conta que o clube traz muito orgulho para a cidade, principalmente o time feminino. Ela não conhece nenhuma torcida mas vai sempre aos jogos acompanhada de familiares. No entanto, Alda diz que faltam incentivos de parte de empresários ao clube, que tem parte de seu treinamento na capital Manaus e não em Iranduba.

Histórico das Copas femininas

Histórico das Copas femininas

Por Beatriz Werneck | Copa FemiNINJA

Foto: reprodução Imortais do Futebol

A Copa do Mundo de futebol feminino teve a sua primeira edição somente em 1991. Antes da oficialização da Copa, já existiam eventos desse tipo, no entanto, eles eram conhecidos como mundialitos.

Copa de 1991
Sede: China
Campeã: Estados Unidos
Vice campeã: Noruega
3º lugar: Suécia
Artilheira e chuteira de ouro: Michelle Akers (EUA) – 10 gols
A primeira edição oficial da Copa do Mundo contou com 12 seleções de 6 confederações após a realização das eliminatórias que eram semelhantes as do futebol masculino. A FIFA acreditava que as jogadoras iriam se desgastar muito jogando 90 minutos por jogo, por isso, os jogos eram de 80 minutos, cada tempo com 40 minutos. Os uniformes utilizados pelas jogadoras não eram cuidados de maneira adequada pelas fornecedoras de material esportivo, como não havia uma modelagem feminina, elas utilizavam uniformes masculinos. Devido a isso, era comum ver as jogadoras com blusas grandes.

A chinesa Ma Li foi a autora do primeiro gol da história dos mundiais femininos. O sucesso da primeira edição fez com que o futebol feminino fosse inserido como esporte olímpico nos Jogos de Atlanta, em 1996.

Copa de 1995
Sede: Suécia
Campeã: Noruega
Vice campeã: Alemanha
3º lugar: Estados Unidos
Artilheira e chuteira de ouro: Ann Kristin Aarønes (NOR) – 6 gols
Nesta segunda edição, os jogos passaram a ser de 90 minutos e as mulheres quebraram a ideia de que elas se desgastariam muito e não aguentariam jogar o mesmo tempo que os homens. Uma curiosidade interessante é que o número de gols desta edição foi exatamente a quantidade de gols da Copa de 1991. Ao sediar essa Copa, a Suécia se tornou o primeiro país a receber um mundial masculino e feminino.

Copa de 1999
Sede: Estados Unidos
Campeã: Estados Unidos
Vice campeã: China
3º lugar: Brasil
Artilheiras: Sissi (BRA) e Sun Wen (CHN) – 7 gols cada
Chuteira de ouro: Sissi (BRA)
A Copa de 1999 contou com um aumento de 4 seleções em relação as edições anteriores, passando a ter 16 seleções. Esta Copa foi responsável por bater o recorde de audiência e de gols, com 123 gols em 32 jogos, tendo uma média de 3,84 gols por partida. Um dos momentos mais marcantes desse ano foi quando Brandi Chastain, dos Estados Unidos, comemorou o gol que fez na disputa de pênaltis tirando sua camisa e deslizando de joelhos pelo gramado. Esse gol foi o responsável pelo título dos Estados Unidos contra a China.

Copa de 2003
Sede: Estados Unidos
Campeã: Alemanha
Vice campeã: Suécia
3º lugar: Estados Unidos
Artilheira e chuteira de ouro: Birgit Prinz (ALE) – 7 gols
Neste ano, o país que iria sediar a Copa do Mundo de futebol feminino era a China. Porém, ela teve que dispensar a oportunidade devido a uma epidemia de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) que atingiu a região. Aproveitando a estrutura dos Estados Unidos, o torneio foi realizado novamente na América do Norte e, em 2007, a China seria a sede para compensar esse ano de 2003.

Nesta edição, a russa Elena Danilova, com apenas 16 anos, marcou o gol de honra no jogo da eliminação para a Alemanha, se tornando a jogadora mais nova a marcar um gol na história dos mundiais. Foi a primeira Copa de Marta, e a primeira e única Copa decidida pelo método do gol de ouro na final entre Alemanha e Suécia. A alemã Birgit Prinz recebeu a Bola de Ouro e se tornou a primeira jogadora a vencer os prêmios de melhor jogadora e artilheira da Copa sem compartilhar com ninguém.

Copa de 2007
Sede: China
Campeã: Alemanha
Vice campeã: Brasil
3º lugar: Estados Unidos
Artilheira e chuteira de ouro: Marta (BRA) – 7 gols
Como negociado, após o fim da epidemia de SARS, a China sediou novamente o campeonato. O jogo entre Alemanha e Argentina (11×0) desta edição bateu recorde e se tornou a maior goleada da história das Copas, mesmo se comparar com a masculina. Com o Brasil enfrentando a Alemanha na final, foi a primeira vez que uma seleção sul americana chegava a final da Copa do Mundo de futebol feminino. Ao se consagrar a primeira bicampeã consecutiva da história da copa feminina, a Alemanha concretizou o feito de não levar nenhum gol durante o campeonato inteiro. Foi a primeira e única vez que uma seleção não sofreu gol.

Copa de 2011
Sede: Alemanha
Campeã: Japão
Vice campeã: Estados Unidos
3º lugar: Suécia
Artilheira e chuteira de ouro: Homare Sawa (JAP) – 5 gols
Essa edição foi a copa com menor quantidade de gols marcados, apenas 86, e a menor média de gols por jogo (2,69), sendo talvez a competição mais equilibrada. Em uma final entre Japão e Estados Unidos decidida nas penalidades, o Japão se consagrou pela primeira vez campeão da copa, sendo o primeiro país do futebol asiático a vencer um torneio desse tamanho. A japonesa Homare Sawa repetiu o feito de Birgit Prinz e foi eleita a melhor jogadora e artilheira da Copa.

Copa de 2015
Sede: Canadá
Campeã: Estados Unidos
Vice campeã: Japão
3º lugar: Inglaterra
Artilheira e chuteira de ouro: Célia Sasic (ALE) – 6 gols
Na copa de 2015 houve novamente um aumento no número de seleções participantes, passando de 16 para 24 seleções. Com isso, passou a ter uma nova fase eliminatória, as oitavas de final. Por ter mais time e mais jogos, essa edição bateu o recorde de gols marcados, com 146 gols, mesmo com a média ficando abaixo de outras edições históricas, com 2,81 gols por jogo. Foi a primeira copa que contou com a “Goal Line Technology”, tecnologia que detectava se a bola havia cruzado a linha do gol ou não.

A polêmica ao redor dessa edição foi pelo fato de ter jogos disputados em gramados sintéticos, gerando críticas a respeito do risco de lesões e da alta temperatura registrada no gramado em alguns jogos, chegando a 49ºC. A americana Abby Wambach organizou um movimento de jogadoras contrárias a grama sintética, provocando o envio de uma carta a FIFA pedindo por direitos iguais aos dos homens, já que eles sempre jogaram em gramados tradicionais. As reclamações não foram aceitas pela FIFA que utilizou-se de suas estratégias jurídicas para conter as reivindicações. No entanto, elas conseguiram que a grama artificial do estádio onde seria realizada a final fosse substituída por uma melhor, e a Copa de 2019 fossem feita em grama normal.

A final ocorrida novamente entre Estados Unidos e Japão, onde o Japão perdeu por 5×2, foi a partida final com o maior número de gols da história das copas femininas, com 7 gols no total.

O Mito Marta e a acomodação brasileira

O Mito Marta e a acomodação brasileira

Por Marina Borges |  Copa FemiNINJA

Foto: FIFA / Divulgação

O Brasil tem a jogadora eleita seis vezes como melhor do mundo, a qual também é a maior artilheira da história da seleção canarinha, ultrapassando Pelé. Nem Cristiano Ronaldo nem Lionel Messi, Marta é a dona desse feito único. A alagoana representa hegemonia mundial tanto entre mulheres quanto homens, e fica cada vez mais difícil dimensionar o que a craque representa pro país, pro mundo e, principalmente, pro futebol feminino. Apesar de desvalorizada, a modalidade atingiu um outro patamar com a presença da brasileira, que vem deixando um legado de força e inspiração para milhares de meninas ao redor do globo.

Da consolidação à idolatria

Quando surge uma atleta como a Marta, o mundo para. Não porque não existem outras jogadoras talentosas, pelo contrário, há muitas “Martas” mundo afora, inclusive em território nacional. Porém, sobreviver do futebol feminino e conseguir se destacar por meio dele é tão raro que, quando acontece, caracteriza-se como um fenômeno. O Brasil ama a jogadora seis vezes eleita melhor do mundo, mas parece não querer ver outras figuras femininas no topo, simbolizando o sexo forte e não o frágil, que acompanhou as mulheres por tanto tempo. Este é um ponto a ser destacado: é muito importante ver jogadoras de futebol ganhando espaço, virando ídolas e se consolidando em um meio tão machista, mas, por outro lado, a falta de renovação no elenco é algo que persegue a seleção brasileira há um bom tempo e retarda o processo de desenvolvimento da modalidade.

Os reflexos de um ciclo vicioso

Formiga, Marta e Cristiane: para muitos, a tríade perfeita. Realmente, o Brasil tem o privilégio de poder contar com esse trio experiente e de extremo poderio técnico durante tantos anos. Entretanto, essa situação aponta para um agravante dentro da seleção: a falta de renovação no elenco como consequência de um ciclo vicioso.

A convocação para o Mundial deste ano trouxe ‘caras novas’, mas também mostrou a dependência que sofremos de craques antigas. O esforço que a Marta vem fazendo para se recuperar de uma lesão muscular na coxa esquerda, às pressas, ilustra essa situação. Para poder compor o time que enfrentará a Jamaica na estreia da Copa do Mundo, a camisa dez está submetendo a várias sessões diárias de fisioterapia. Obviamente, quando se tem atletas desse porte no time, há o desejo de poder contar sempre com eles, porém, a questão tem que ser analisada de forma mais profunda.

Foto: Raphael Alves | AFP

Se a equipe brasileira  tivesse tido uma renovação nas peças do time ao longo dos anos, Marta poderia respeitar seus limites físicos e até ser poupada no primeiro jogo, caso não estivesse 100%. No entanto, a presença da alagoana é mais que desejável, é imprescindível o que evidencia o quadro preocupante que vive a seleção canarinha.

O Brasil se deu ao luxo de abrir mão do investimento em novos talentos e da consolidação de novas peças-chave ao longo da última década e vem sentindo o impacto que essas ações estão gerando. Agora, não é mais possível fechar os olhos para um fato: o trio brasileiro já consagrado jogará sua última Copa junto neste ano e, mais do que só questionar, a pergunta “o que será da seleção brasileira sem Formiga, Marta e Cristiane?” tem que ser respondida. Por meio de atitudes que impulsionem o desenvolvimento do futebol feminino desde a base até a categoria adulta, a modalidade poderá colher frutos num futuro não muito distante e passar a ser mundialmente reconhecida e valorizada.

Como é ser uma mulher num estádio

Como é ser uma mulher num estádio

Por Laiz Marques | Copa FemiNINJA

Foto: reprodução twitter

Para as fissuradas e apaixonadas por futebol, ir ao estádio é um prazer difícil de explicar. A emoção já começa na ida ao estádio, a espera do lado de fora, até a alegria de ver uma vitória do seu time de coração, ou mesmo presenciar uma derrota.

O futebol é aquele esporte que esta diretamente ligado a paixão, emoção. Esse amor pelo esporte e as emoções que ele inspira, explica a origem do verbo torcer. A ação que melhor define o espírito do futebol tem sua origem exatamente nas mulheres.

No inicio do século 20, as moças que ficavam nas arquibancadas assistindo aos jogos de futebol, “torciam” seus lenços de nervoso. Essa passagem deixa claro como o esporte era elitizado na época, mas ressalta acima de tudo a maneira como as mulheres sempre se entregavam ao esporte. Sem esquecer logicamente que enfrentavam desde então a resistência de muitos para se fazerem presentes nas arquibancadas.

Um importante passo, para nós torcedoras, começou a tomar mais força no ano passado. Alguns clubes começaram a aderir a campanhas de combate à violência contra a mulher e contra o machismo. Com a intenção de enfatizar a importância das mulheres dentro e fora de campo, além de frisar seu valor como torcida e assim promover o aumento da presença feminina nos estádios. Essas campanhas tem sido presentes em clubes de diferentes estados do país.

Em 2018 as torcedoras do Grêmio e do Inter, levantaram a bandeira de que o “lugar de mulher é no campo, na arquibancada e onde mais ela quiser estar”; por meio da hashtag #deixaelatorcer pediam respeito às mulheres nos estádios.

Na cidade de São Paulo, o Corinthians, e sua campanha #RespeitaAsMinas também lançada em 2018 rendeu um programa que é exibido no canal da Corinthians TV toda sexta-feira, às 17h00.

Já nesse ano de 2019, no dia Internacional da Mulher, uma série de ações foram realizadas no mercado esportivo no Brasil e no mundo.

Em Minas Gerais, a equipe do Atlético Mineiro realizou no Mineirão uma campanha #repense. Encabeçado pelas funcionárias do Mineirão, a campanha tem o objetivo incentivar a luta das mulheres pelo combate ao preconceito, tornando o estádio um ambiente mais agradável e seguro para nós.

Números levantados em 2018 mostram a presença das torcedoras nos programas de fidelidade dos times. Comprovando que as mulheres se fazem presentes nos estádios, mas ainda há um bom caminho a ser percorrido na busca pela igualdade. Os resultados apresentados são os seguintes :

Atlético-MG: 9%
Botafogo: 10%
Corinthians: 20%
Cruzeiro: 10%
Flamengo: 8%
Fluminense 15%
Palmeiras: 12%
Santos: 17,5%
São Paulo: 10%
Vasco: 7%

Ainda hoje, no cenário mundial, há países onde as mulheres não tem o direito de frequentarem os estádios. No Irã, por exemplo, as mulheres foram vetadas desde 1981 de frequentarem os estádios, a interdição é um reflexo pós a revolução de 1979, que instituiu uma legislação islâmica ultraconservadora no país.

Um grande feito para as iranianas ocorreu ano passado, quando as autoridades locais liberaram as mulheres para assistirem a partida entre Irã e Espanha, pelo grupo B da Copa do Mundo, em um telão transmitido no Azadí, em Teerã.

Seguimos resistindo e lutando pela quebra de antigos preconceitos, para que nós torcedoras, que amamos nosso time, sejamos respeitadas, e possamos viver livremente a paixão pelo futebol.

Da arquibancada: As torcidas organizadas femininas

Da arquibancada: As torcidas organizadas femininas

Por Gabriella Brizotti | Copa FemiNINJA

Foto: Larissa Zaidan

Infelizmente o futebol ainda é um esporte machista, no qual dentro das quatro linhas, ou mesmo nas arquibancadas, nós mulheres devemos provar que o espaço é nosso também. Em ano de Copa do Mundo feminina, o assunto mulher e futebol fica mais em alta, afinal é a hora das garota ganharem o reconhecimento necessário e merecido, porém sabemos que não é isso que acontece. Uma das grandes conquistas desse torneio é a transmissão em grande rede nacional, fazendo com que mais pessoas acompanhem os jogos e torçam por nossa seleção.

Se dentro do campo as conquistas vão aparecendo, na bancada também temos avanços, como por exemplo o aumento do público feminino que frequenta estádios –  Uma pesquisa do IBOPE sobre a quantidade de torcedores aponta que, em 2003, cerca de 50% da torcida corinthiana, por exemplo, já era composta de mulheres. Por consequência disso, há também o surgimento de torcidas e movimentos organizados só por mulheres. 

Tais alianças femininas tem o intuito de ocupar o espaço que é majoritariamente masculino, lutar por igualdade, aumentar a produção e venda de produto feminino pelas marcas esportivas e também criar uma união entre as meninas que curtem futebol.

Em todo o Brasil já são inúmeros os movimentos, dentre eles estão Coletivo INTERfeminista, do Internacional, Movimento Alvinegras – Corinthians; São Pra Elas – São Paulo FC; Verdonnas – Palmeiras; Bancada das Sereias – Santos FC; Movimento Coralina – Santa Cruz e Mulherada Problema – Atlético PR.

Motivação

As motivações para a criação desses movimentos são variadas, alguns surgiram após episódios de machismo e rivalidade, como é o caso do movimento Verdonnas, por exemplo. Após um episódio no metrô paulista em 2018, em que torcedoras do Palmeiras foram expulsas de um vagão por homens de um time rival, somente por estarem uniformizadas com o time do coração. Se viu então necessário a criação de um movimento que representasse todas as palmeirenses.

Há também a motivação por luta de igualdade, como por exemplo a São Pra Elas, que surgiu após perceberem que não havia grande número de material esportivo feminino, contrastando com os materiais masculinos. Na briga pela equidade, a união das São Paulinas se tornou mais forte e foi criado então o movimento em questão.

Combate ao machismo

Na conversa com representantes dos movimentos, todas citaram episódios de machismo que vivenciaram, como conta o Verdonnas: “A mulher ainda é vista por muitos como acompanhante de namorado, como “maria chuteira” ou como alguém que está no estádio para embelezar o ambiente, e por causa dessa visão já passamos por cantadas desrespeitosas, assédio, e nossa opinião algumas vezes ainda é menosprezada porque, segundo alguns homens, não temos propriedade para falar, não entendemos sobre o assunto. Sendo que a única coisa que buscamos é igualdade, estamos no estádio pra torcer por nosso time do coração como qualquer outra pessoa”.

A opinião é compartilhada pela representante do São Pra Elas “Houve uma evolução mas ainda tem muita coisa pra mudar. Ouvimos incansavelmente que após sofrer um assédio, o principal deles verbal, que se estivéssemos em casa não teríamos passado por isso”. Você pode ler mais sobre a torcida feminina do  estado de São Paulo na matéria “Mulher Organizadas” da Vice.

Quero fazer parte, como faço?

Estar em uma torcida é como encontrar uma extensão da sua família. Vide o primeiro encontro dos grupos, realizado em 2017. E para se juntar a uma delas, basta entrar em contato com os movimentos por meio de suas redes sociais e pedir para fazer parte dos grupos de torcedoras. Não é necessário viver na cidade original do seu clube, mas para o próximo jogo que se planejar, você já tem companhia.

 

#CoisaNossa: Quem faz propagandas com jogadoras de futebol?

#CoisaNossa: Quem faz propagandas com jogadoras de futebol?

Em ano de Copa do Mundo, temos uma certeza: nos meses próximos ao início do evento, boa parte das publicidades são relacionadas ao campeonato, com jogadores expondo marcas de diversas maneiras. Eis que em 2019 a TV aberta vai transmitir pela primeira vez a Copa do Mundo Feminina e, a pouco mais de um mês da competição, a publicidade com as jogadoras basicamente não existe. Pensando em reverter este panorama sexista, a Guaraná Antártica, uma das patrocinadoras da Seleção Feminina criou a campanha #CoisaNossa estimulando que outras empresas façam suas propagandas com as jogadoras e, desta maneira, apoiar à Seleção Feminina na Copa do Mundo! E sim, o dinheiro da venda das imagens será revertido para as jogadoras.

A Copa está há uma menos de uma semana e perguntamos: Quantas vezes você viu as jogadoras em propagandas até então?

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Em ano de Copa do Mundo, temos uma certeza: nos meses próximos ao início do evento, boa parte das publicidades são relacionadas ao campeonato, com jogadores expondo marcas de diversas maneiras. Eis que em 2019 a TV aberta vai transmitir pela primeira vez a Copa do Mundo Feminina e quando faltava um mês para a competição, a publicidade com as jogadoras basicamente não existe. Pensando em reverter este panorama sexista, a Guaraná Antártica, uma das patrocinadoras da Seleção Feminina criou uma campanha estimulando que outras empresas façam suas propagandas com as jogadoras e, desta maneira, apoiar à Seleção Feminina na Copa do Mundo! E sim, o dinheiro da venda das imagens será revertido para as jogadoras. A Copa está há uma menos de uma semana e perguntamos: Quantas vezes você viu as jogadaras em propagandas até então? #CopaDoMundoFeminina #GuaranáAntartica #GoGirls #Jogadoras #Publicidade #SeleçãoFemininaDeFutebol #CopaDoMundoFemiNINJA

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Conheça um pouco da “História de Andressa Alves”

Conheça um pouco da “História de Andressa Alves”

Por Isabelly Melo / Copa FemiNINJA

Em sua nova peça promocional para Copa do Mundo Feminina, Nike conta em alguns minutos a história de uma das integrantes da Seleção Brasileira de Futebol, a meia-campista Andressa Alves. No vídeo intitulado “Andressa Alves’ Story”, é possível ver algumas semelhanças com muitas outras mulheres quando começaram a jogar bola: o preconceito, mesmo que velado. Andressa não ganhou nenhuma bola quando criança, e enquanto via os meninos jogarem na rua, pela janela de sua casa, decidiu pegar uma boneca e fazer da cabeça, o brinquedo que hoje é sua profissão. “Nada contra as bonecas. Era só que eu preferia a bola”. Entre tantas conquistas, Andressa foi a primeira brasileira contratada pelo time catalão, Barcelona. Com 26 jogos na Liga Espanhola 2018/19, Andressa já balançou as redes seis vezes. E há menos de 10 dias para o início da Copa do Mundo de Futebol Feminino, a brasileira promete ser uma das peças fundamentais da Seleção.

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Em sua nova peça promocional para Copa do Mundo Feminina, Nike conta em alguns minutos a história de uma das integrantes da Seleção Brasileira de Futebol, a meia-campista Andressa Alves (@andressaalves9oficial). No vídeo intitulado “Andressa Alves’ Story”, é possível ver algumas semelhanças com muitas outras mulheres quando começaram a jogar bola: o preconceito, mesmo que velado. Andressa não ganhou nenhuma bola quando criança, e enquanto via os meninos jogarem na rua, pela janela de sua casa, decidiu pegar uma boneca e fazer da cabeça, o brinquedo que hoje é sua profissão. “Nada contra as bonecas. Era só que eu preferia a bola”. Entre tantas conquistas, Andressa foi a primeira brasileira contratada pelo time catalão, Barcelona. Com 26 jogos na Liga Espanhola 2018/19, Andressa já balançou as redes seis vezes. E há menos de 10 dias para o início da Copa do Mundo de Futebol Feminino, a brasileira promete ser uma das peças fundamentais da Seleção. #futebolfeminino #brasil #selecaobrasileira #andressaalves #futebol #bola #nike

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Conselho Nacional do Ministério Público nega pedido de servidoras para assistir a Copa

Conselho Nacional do Ministério Público nega pedido de servidoras para assistir a Copa

Por Victória Amaro / Copa FemiNINJA

QUEREMOS ASSISTIR A COPA – A Associação de Servidores do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) entraram com o pedido para flexibilizar o expediente durante os jogos do Brasil na Copa do Mundo de Futebol Feminino. A iniciativa das mulheres da associação justificou o pedido lembrando que era a primeira vez na história que o evento seria transmitido em TV aberta no país e que no mesmo período, em 2018 houve flexibilização para os jogos da seleção masculina na Rússia. Infelizmente a secretária-geral do CNMP negou o pedido alegando que a magnitude e a tradição do evento e a alta demanda do serviço inviabilizaria a flexibilização do expediente de todo o órgão. Após o veto, o Conselho Nacional anunciou que irá transmitir, nas dependências da instituição, os jogos do Brasil na Copa e os servidores poderão assistir desde que acordado com o supervisor de cada área.

Mesmo com os desafios, nós continuaremos tentando assistir mulheres vencendo no esporte!

Aperta a pauta, Toffoli

Aperta a pauta, Toffoli

Foto: Pablo Vieira Sobral | Marcha da Maconha São Paulo 2019

A luta pela legalização da maconha é tão importante que o Presidente da República influenciou diretamente na decisão do Presidente do Supremo Tribunal Federal de retirar de pauta o julgamento que vai descriminalizar o uso e porte da maconha no Brasil.

Digo maconha, porque os três votos já proferidos convergem só nessa substância tornada ilícita por racismo. O Ministro Gilmar Mendes, relator do processo, avança ao votar pela inconstitucionalidade do consumo de todas as drogas ilícitas. O Ministro Edson Fachin votou que o caso é relacionado somente à maconha, pois o Recurso Extraordinário 635659 é referente a Francisco, um presidiário que tinha 3 gramas de maconha na sua cela. O Ministro Roberto Barroso, por sua vez, além de votar a favor da descriminalização do porte e consumo de maconha, propõe um parâmetro diferencial entre o consumidor e o traficante. Ele estabelece que o porte de até 25 gramas deve ser considerado como consumo. Além disso, para diferenciar a plantação para o consumo do tráfico, permite o cultivo de até 6 plantas fêmeas, pois a maconha é uma planta dióica e somente as fêmeas produzem THC.

A vitória da descriminalização do uso e porte de maconha para o consumo é certa, pois não haveria outra razão para ser retirada de pauta.

Mas, agora, o Presidente do STF precisa remarcar um julgamento que estava pautado. Ele não pode jogar para as nuvens, pois, aí sim, a vitória da Fumaça do Bom Direito seria certa: cannabis fumus boni iuris.

O Presidente Dias Toffoli está numa tremenda “sinuca de bico”. O artigo 13, inciso II, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal estabelece, como atribuição do Presidente da Suprema Corte, representá-la perante os demais poderes, mas não subjugá-la. O artigo 2º da Constituição Federal estabelece, nos Princípios Fundamentais da República Federativa do Brasil, que “São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.” O Presidente da República não pode impor a sua Política Nacional de Drogas ao STF, retirando de pauta o Recurso Extraordinário 635659 o qual, segundo dois Ministros do STF que já votaram nesse sentido, tem a maconha como objeto.

Já está claro que é à maconha que o governo Bolsonaro é contra. Seu Ministro da Cidadania Osmar Terra é um antigo militante contra a legalização da maconha, principalmente para fins medicinais.

O Ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro foi ao Paraguai encontrar o Presidente da República de lá, a fim de combater a exportação de toneladas de maconha para o Brasil. Tarefa impossível e sem interesse para o Paraguai, que recebe bilhões de dólares e exporta toneladas de maconha prensada e de péssima qualidade para o Brasil, em outras palavras, mato sujo por dólares. Seria mais lucrativo para o nosso país que o mercado da maconha fosse legalizado, produzindo, distribuindo, fabricando óleos, medicamentos, suplementos alimentares e vendendo maconha para os mercados interno e externo, plantada com qualidade, nesse gigante pela própria natureza, em nossas terras, com nossas águas, nossas sementes, no sol da liberdade.

Os Estados Unidos da América, país mais rico do mundo, está faturando 50 bilhões de dólares por ano com o mercado da maconha, enquanto nós, aqui, amargamos nessa tremenda recessão proibitiva.

Mais grave ainda é o Presidente da República cair em crime de responsabilidade. O artigo 85 da Constituição Federal estabelece que é crime de responsabilidade atentar contra o livre exercício do Poder Judiciário. Jair Bolsonaro não pode pautar o Supremo Tribunal Federal e impedir a votação da causa da maconha. Por isso, já que a pauta está extensa, segundo o Presidente do STF, temos de apertar os presidentes! A campanha agora é: #ApertaaPautaToffoli.

Aperta a pauta, Toffoli, bota a causa da maconha pra votar que tem Fumaça do Bom Direito

Posted by André Barros on Tuesday, June 4, 2019

 

Como está o futebol feminino no mundo?

Como está o futebol feminino no mundo?

Por Laiz Marques | Copa FemiNINJA

Foto: Divulgação

Neste ano, no dia 7 de junho, em Paris, o futebol feminino dará mais um passo na luta pelo seu reconhecimento. A Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019 terá uma importância enorme para uma maior visibilidade da modalidade. Repleto de primeiras vezes, para diferentes nações, esse mundial será histórico.

É importante lembrar que a importância das mulheres para o desenvolvimento e evolução do futebol vem de muito antes.

Os primeiros indícios datam do período da Dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.) onde as mulheres jogavam uma variação de um antigo jogo chamado de TSU Chu.

Há outros relatos que indicam que, na França e na Escócia em torno do século XV, já era normal ver as mulheres realizando alguns jogos e atividades com bola.

De acordo com informações da FIFA, a primeira partida oficial entre mulheres aconteceu em Londres – Inglaterra no dia 23 de março de 1885. O evento causou tumulto e protestos, mas começou a contribuir por igualdade de direito entre homens e mulheres.

O futebol feminino possui uma realidade completamente diferente do futebol masculino em diversos aspectos. Essas disparidades estão presentes desde as condições de treinamento e estrutura, até aos salários e patrocínios.

No Brasil por exemplo, o futebol feminino ainda precisa de mais visibilidade na mídia, incentivos, patrocínios e de apoios.

Fatores de caráter cultural e político, nos ajudam a entender essa situação.

Segundo relatos do livro “Futebol, Carnaval e Capoeira – Entre as gingas do corpo brasileiro”, de Heloísa Bruhns, no fim do século XIX os homens da elite brasileira começaram a jogar futebol, porém as mulheres que o praticavam pertenciam às classes menos favorecidas; e por isso eram vistas como grosseiras, pois as mulheres da elite frequentavam os jogos apenas para torcer.

A primeira partida de futebol feminino no Brasil data de 1921, em um jogo realizado entre senhoras dos bairros Tremembé e Cantareira, localizados na zona norte da cidade de São Paulo.

Além do mais, a prática do futebol pelas mulheres foi proibida durante 42 anos.

No dia 14 de abril de 1941, por meio do Decreto-Lei 3199, imposto durante o governo de Getúlio Vargas, as mulheres estavam proibidas de praticar qualquer esporte que fosse “contra a sua natureza”. Alegando preservar o corpo feminino, pois através desses esportes de impacto, a mulher corria o risco de ficar infértil. O decreto foi revogado apenas em 1979.

Porém, a regulamentação da categoria feminina de futebol só foi realizada quatro anos depois. Ao invés de trazer condições melhores às mulheres, as regras ainda reforçavam a ideia da mulher como sexo frágil. A bola utilizada nos jogos seria mais leve, e as partidas teriam duração de 60 minutos ao invés de 90 minutos. Já a seleção brasileira de futebol feminino foi montada em 1988, 70 anos após a criação da seleção masculina.

A CBF fez a primeira edição do Campeonato Brasileiro Feminino em 2013, contando com 20 equipes.Em 2017 a confederação alterou a formato da competição. Dividiu em Série A1 com 16 equipes e outras 16 equipes na Série A2, fazendo o acesso e rebaixamento entre as duas divisões.

A edição de 2019 será a maior de todas, contando com 16 equipes na Série A1, com clubes como Flamengo, Corinthians e Santos. Já a Série A2 terá 32 equipes, com times com Palmeiras, Vasco e Cruzeiro.

Uma importante decisão da Conmebol (entidade que comanda o futebol da América do Sul) determina que todos os clubes classificados à Copa Libertadores masculina a partir de 2019, precisarão apresentar uma equipe de futebol feminino; caso contrário serão eliminadas da competição.

O ano de 2019 trará outro avanço na popularização e divulgação do futebol feminino no Brasil. A Band, canal de TV aberta, irá transmitir o Campeonato Brasileiro feminino de 2019. E durante a Copa do Mundo de 2019 será a primeira vez que a maior emissora de canal aberto do país, a Rede Globo, transmitirá as partidas da Seleção Feminina. Assim como será também a primeira vez que as atletas jogarão com um uniforme desenvolvido especialmente para elas.

Pelo mundo

Já nos Estados Unidos o futebol feminino é mais desenvolvido e popular do que o futebol masculino, que começou a ter mais destaque nos últimos anos.

As americanas iniciam os treinos durante a infância, por volta dos 9 anos de idade. Vale destacar que a estrutura e suporte oferecidos às equipes na NWSL são excelentes.

A NWSL começa em abril e termina em setembro. E apenas 10 times participam do campeonato, eles estão: Boston Breakers, Chicago Red Stars, FC Kansas City, Houston Dash, North Carolina Courage, Orlando Pride, Portland Thorns, Seattle Reign, Sky Blue e Washington Spirit. No torneio não existe o sistema de rebaixamento ou acesso.

Falando de um pais próximo aos Estados Unidos, essa Copa do Mundo de 2019 terá um gostinho especial para a Seleção Feminina da Jamaica, as “Reggae Girlz”, como são conhecidas, que disputarão pela primeira vez o Mundial. Será o primeiro país caribenho a disputar essa competição.

O feito só se tornou possível graças a ajuda de Cedella Marley, a filha do Bob Marley, por meio do patrocínio da Fundação Bob Marley.

Já na Europa o futebol feminino vêm se fortalecendo e ganhando destaque em diferentes países. Os jogos de futebol feminino têm sido um grande atrativo na Europa, obtendo recordes de público em diferentes países.

Durante o jogo do Campeonato Italiano desse ano, o jogo entre as equipes do Juventus x Fiorentina, no dia 24 de março de 2019, alcançou um publico de 39 mil pessoas (o estádio suporta 41.507 pessoas).

Na França, pela 20ª rodada do Campeonato Francês 25.907 torcedores foram ao estádio Groupama, para conferir a goleada de 5×0 do Lyon sobre o Paris Saint-Germain.

Mas o maior público foi registrado na Espanha, no jogo entre o Atlético de Madri e o Barcelona no estádio Wanda Metropolitanos (com capacidade para 67.829 pessoas), que reuniu 60.739 pessoas no público.

Ainda no cenário europeu do futebol feminino, a França, país que sediará a Copa do Mundo de 2019 entre 7 de junho e 7 de julho, possui o time mais badalado do mundo, o Lyon e sua OL Academy, grande referência do futebol feminino na França e atual campeãoo da Champions League feminina. O clube se tornou uma potência na ultima década, conquistando 6 titulos da Champions League Feminina, o ultimo título veio em maio desse ano contra o Barcelona. A maior estrela do time e atual Bola de Ouro, a Norueguesa Ada Hegerberg marcou um hat-trick, garantindo a taça ao time francês numa vitoria por 4×1.

O Lyon reafirma a qualidade de seu trabalho entre as mulheres, e o investimento do clube é inegável.

O número de clubes franceses que apresentam uma equipe feminina dobrou nos últimos sete anos, o número atual está em torno de 3 mil equipes. Contudo, segundo análise da Federação Francesa de Futebol, ainda há margem para melhora, principalmente nas categorias de base, que apresentam atrasos quando comparadas a das equipes de futebol masculino.

A Noruega também apresenta uma estrutura adequada para as jogadoras, os times oferecem excelentes locais de treinamento, bons salários e a torcida realmente valoriza o futebol feminino. A Toppserien é a primeira divisão do futebol feminino norueguês e é composto por 12 times. O campeonato possui 22 rodadas e vai de abril até outubro.

Mudando de continente, temos na Coréia do Sul a WK League, onde somente 8 times participam. Times como: Incheon Hyundai Steel Red Angels, Icheon Daekyo, Gyeongju WFC, Seul, Boeun Sangmu, Suwon Facilities Management Corporation, Hwacheon Korea Sports Promotion Foundation e Gumi Sportstoto. Como o WK League é a única liga do país, não existe o sistema de rebaixamento ou acesso. No país o futebol feminino é bastante valorizado. Os clubes apresentam excelentes estruturas, treinos disciplinados e bons salários.

Uma curiosidade recente é a criação do primeiro time de futebol feminino do Vaticano. A equipe é formada em sua maioria por atletas amadoras que trabalham na sede da igreja Católica. As jogadoras do Vaticano realizaram seu primeiro jogo dia 26 de maio contra a equipe de Roma.

Notamos que investimentos e apoio são fundamentais para o desenvolvimento do futebol feminino no mundo. A estrutura oferecida para a prática do esporte em países da América do Norte, Ásia e Europa, estão à frente das encontradas na América do Sul.

No Museu do Futebol em São Paulo, vai rolar o até o dia 20 de outubro a mostra Contra Ataque, que relata com detalhes a história das minas no futebol.  A exposição pretende vislumbrar um olhar para o futuro da modalidade, além de fazer o público valorizar a história.

Seguimos resistindo, na luta pela mudança de antigos padrões e preconceitos. Empoderando as meninas na prática do esporte e afirmando que o lugar das mulheres é onde elas quiserem.

Impedidas – A Proibição do futebol feminino no Brasil

Impedidas – A Proibição do futebol feminino no Brasil

Por Beatriz Santos | Copa FemiNINJA

Barreira, cartão vermelho, impedimento, escanteio, cobrança são apenas algumas das palavras que fazem parte do cotidiano de qualquer pessoa inserida no mundo do futebol, seja por motivos profissionais, por entretenimento ou ambos. Mas a história que tenho para contar vai muito além do simples uso em uma partida de um campeonato qualquer, pois quero falar da barreira do preconceito, que toda mulher tem que derrubar quando foge do clichê do brincar de boneca/casinha para poder jogar bola na rua. Quero falar também do cartão vermelho, que Getúlio Vargas decretou ao impedir as mulheres de praticarem esportes. Isso fez com que a história desportiva das mulheres ficasse por anos de escanteio, de lado, e hoje, enquanto as mulheres lutam para escreverem uma bela história, elas precisam ainda ouvir cobranças de homens que não conseguem aceitar que o futebol não tem só um jeito de jogar. Então, vamos “Jogar como garotas?”

Se você for procurar no Google: Qual foi a primeira partida de futebol no Brasil? De cara, vai aparecer o ano, quais eram os times, quanto foi o placar e quem fez os gols. Se não der todas essas informações vai chegar bem perto, ou até mesmo vai dar mais de uma versão para o acontecimento. Fato é que vai ser bem tranquilo ter suas dúvidas sanadas, mas o que mais me deixa indignada é que o que vai aparecer será com certeza uma informação do futebol masculino. É pior ainda para encontrar sobre a história do futebol feminino no Brasil, vai demandar um bom tempo do seu dia. E mesmo com todo o tempo do mundo, eu te garanto que você ainda não vai conseguir saciar todas as suas curiosidades, pois mesmo após ler artigos acadêmicos, as informações estão bem nas sombras do conhecimento da história desportiva brasileira.

Se hoje, o futebol feminino brasileiro está bem atrasado com relação a países como Estados Unidos, Alemanha e França, isso se dá por que até pouco tempo as mulheres eram proibidas de praticar esportes, entre eles o futebol. Durante o Estado Novo, no governo Vargas (1937-1945), foi criado o decreto 3.199 em 1941, que proibia às mulheres a prática de esportes considerados incompatíveis com as condições biológicas femininas,  e dentre os esportes proibidos estavam, além do futebol, halterofilismo, beisebol e todas as modalidades de luta.

Na época, o discurso que mais se ouvia era o de que praticar atividades físicas, como o futebol, poderia deformar o corpo da mulher e trazer possíveis complicações quando fosse engravidar. Traduzindo, a mulher era apenas um órgão reprodutor, alguém sem desejos próprios, alguém com um único propósito dar um herdeiro para a sociedade. Nada mais normal, do que em uma sociedade patriarcal, esse discurso ser repetido para que os interesses do status quo fosse resguardado. Esse decreto só foi revogado 38 anos mais tarde, no ano de 1979 e o futebol feminino foi regulamentado quatros anos mais tarde, em 1983.

No artigo, “As narrativas sobre o futebol feminino: O discurso da mídia impressa em campo”, as autoras contam que durante as décadas de 70 e início de 1980, o futebol feminino começa a ganhar seu espaço na mídia, mas com uma abordagem totalmente preconceituosa, como essa manchete: O futebol depois da louça lavada. O texto também relata que os times de futebol de praia da época reuniam as garotas de classe média do bairro de Copacabana. Elas tinham como público seus namorados e tinham como companheiras de futebol suas empregadas domésticas, que depois do trabalho, se juntavam para bater bola.

Nos anos 80 e 90, as mulheres passam a poder praticar esportes legalmente e é também nesse período que a mídia esportiva trabalha na desmitificação da imagem masculinizada do ser esportista. É partir daí que começa o uso da beleza como um recurso midiático para atrair público ao futebol feminino. Esse discurso estético acabava colocando em dúvida a qualidade técnica das jogadoras.

As jogadoras foram da proibição ao status de produto em questão de pouco tempo e teriam que, como toda mulher, enfrentar o padrão estético social.

Na metade dos anos 90, para ser mais exata em 1995, o Joseph Blatter, que na época era secretário-geral da FIFA, discursou que por volta de 2010 o futebol feminino seria tão importante quanto o futebol masculino. Esse relato se dava por conta do crescimento do futebol feminino pelo mundo, a partir dos anos 80, mas não é o que vemos. Mesmo no mundo, o status do futebol feminino está ainda bem abaixo do masculino seja por visibilidade midiática, seja por ligas, campeonatos ou salários.

No Brasil, se hoje temos um campeonato brasileiro de futebol feminino, é pela obrigação imposta para todos os clubes de futebol da Série A: a exigência feita pela CBF a todos os clubes da principal divisão nacional de manter um time feminino de base e adulto. Como tinham que ter um time feminino para ontem, muitos times fizeram parcerias, por exemplo o Flamengo e Atlético PR, pegando uma estrutura já existente da Marinha do Brasil e do Foz Cataratas, respectivamente, arcando apenas com uniformes e estádio para mandar os jogos. Vale ressaltar, que dos 20 clubes, apenas 4 pagam salários: Santos, Corinthians, Grêmio e Internacional, de acordo com uma pesquisa de uma matéria do Globo Esporte do início do ano.

Chegamos em 2019, pela primeira vez a Copa do Mundo de futebol feminino consegue seu merecido espaço na grade do jornalismo esportivo com a transmissão de todas as partidas da competição. Todos os 52 confrontos serão transmitidos no Sportv, ainda vai ter uma jogada multiplataforma com os jogos da seleção brasileira no globoesporte.com com informações exclusivas do mundial. Terá uma equipe no local, ainda que humilde comparado a cobertura do futebol masculino, composta por Carol Barcellos, Lizandra Trindade, Raphael de Angeli e Guido Nunes.

Anteriormente, a única edição transmitida no Brasil foi a Copa de 2015, o que deixa bem evidente o recente interesse da mídia em dar espaço para o futebol feminino, já que o evento mundial acontece desde de 1991 e somente nos últimos três anos se abriu os olhos para elas.

A seleção brasileira feminina tem em sua história sete conquistas de Copa América, três pan-americanos e seu melhor resultado na Copa do Mundo foi em 2007, quando chegaram pela primeira vez em uma final e perderam para a seleção alemã por 2×0. Além de terem chegado a duas finais olímpicas em 2004 e 2008, conseguindo a medalha de prata em ambas edições. Como destaque da seleção atual e da história temos a Formiga, com mais de 150 participações com a camisa canarinha e a Marta, com 117 em 133 jogos vestindo o manto verde e amarelo. Ah, detalhe Marta foi 6 vezes eleita a maior jogadora do mundo pela FIFA. E só ela foi capaz de tal feito.

Essa é uma parte da história, que ousei contar, da nossa seleção de futebol feminino. De dribles que extrapolam as quatro linhas, pois a partida delas começa assim que acorda.
Jogue, lute, como uma garota!

Técnicas do Futebol Feminino no Mundo

Técnicas do Futebol Feminino no Mundo

Victória Amaro | Copa FemiNINJA

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Ano passado a FIFA divulgou a lista dos dez melhores técnicos de futebol da temporada (2018), e apenas o nome de quatro mulheres estavam presentes: Martina Voss-Tecklenburg, Sarina Wiegman, Asako Takakura e Emma Hayes.

Martina é técnica da seleção da Alemanha Feminino, e ficou conhecida por levar pela primeira vez as meninas da seleção da Suíça para a Copa de 2015 e logo após para a Eurocopa em 2017.

Sarina é técnica da Holanda, que levou a equipe a um feito histórico e inédito: foram campeãs invictas da Eurocopa 2017. Wiegman começou sua trajetória pela seleção em 2014 como assistente técnica e em 2016, recebeu a licença da UEFA para atuar como técnica.

Asako Takakura é técnica da seleção japonesa e a atual campeã da Copa Asiática Feminina. Primeira mulher a conquistar títulos a frente da seleção sub-17, sub-20 e principal.  Emma Hayes, técnica do Chelsea Ladies, é a única das mulheres citadas que comanda um clube e vem vencendo títulos importantes desde que chegou ao cargo como o campeonato inglês e a copa da liga inglesa. Além disso, levou as meninas dois anos consecutivos para as semifinais da Champions feminina.

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Por incrível que pareça, mesmo sendo a modalidade do gênero feminino, os homens ainda estão em maioria, e o pior é a insignificância com que eles tratam as mulheres quando estão em um cargo que eles pensam que somente eles podem ocupar. Pia Sunhage, uma das técnicas mais vitoriosas do mundo pelo futebol feminino, por exemplo, nunca foi convidada para treinar uma equipe masculina, feito esse que poucas mulheres conseguiram exercer. Apenas Patrizia Panico, ex-jogadora da seleção italiana, foi convidada para comandar o sub-16 da equipe masculina italiana em 2017. Corinnee Diacre foi a primeira mulher na França a comandar uma equipe masculina, o Clermont Foot que em 2014 que estava na segunda divisão. No Brasil, temos o caso mais conhecido de Nilmara Alves, técnica do Manthiqueira, que comandou o time na quarta divisão do campeonato paulista do ano passado.

No Brasil, em 2016, a CBF anunciou Emily Lima, que entrou para a história como a primeira mulher a comandar nossa seleção. Infelizmente ela durou somente 10 meses no cargo após uma sequência de derrotas, e algumas jogadoras indignadas com a forma que Emily foi demitida pela confederação resolveram não jogar mais pela seleção. No seu lugar, houve o retorno de Vadão, atual técnico, que faz sua segunda passagem no comando. Antes de sua primeira passagem, Vadão nunca tinha trabalhado com o futebol feminino.

O que é de se questionar são os números que levaram a demissão de Emily e o tempo de trabalho que ela teve no comparativo com os números que o técnico possuí hoje. O time obteve nove derrotas seguidas em competições e amistosos preparatórios para a Copa do Mundo, fazendo modificações pífias nas posições das jogadoras no decorrer de algumas partidas e sem uma transição da defesa para o ataque.

Infelizmente não será nesta Copa que veremos igualdade ou soberania do gênero feminino no comando, pois dentre as 24 seleções somente 8 terão técnicas mulheres, mas mesmo assim não deixaremos de prestigiar uma competição feminina que tem tudo para crescer nos próximos anos.

Assistam a Copa do Mundo! Tem tudo para ser uma das melhores Copas. A fase de grupos promete com grandes jogos como França x Noruega pelo grupo A. As atletas, técnicas e torcedoras do futebol feminino merecem a devida visibilidade!

História do futebol feminino do Corinthians

História do futebol feminino do Corinthians

Por Larissa Alcantara | Copa FemiNINJA

Foto: Bruno Teixeira/ Ag. Corinthians

Um dos principais clubes do Brasil, o Sport Club Corinthians Paulista, fundado em 1910, carrega em sua jornada 54 títulos oficiais pelo elenco masculino, tendo como maiores conquistas dois campeonatos mundiais. Porém, mesmo tendo uma longa história, só em 2016 que o clube alvinegro passou a ter um time feminino que o representasse. E essa talvez tenha sido, entre tantos títulos, uma das maiores conquistas proporcionadas: a representatividade feminina em campo.

O surgimento do time em 2016 ocorreu através de uma parceria com o Grêmio Osasco Audax, e foram duas temporadas jogando pelos dois clubes. Nesse período, elas conquistaram a Copa do Brasil em 2016 e em 2017 ganharam a Copa Libertadores da América. Com o fim da parceria em 2018, o time passou a ter uma gestão própria e com o comando do técnico Arthur Elias conquistaram o Campeonato Brasileiro de 2018

No início de 2019 o clube criou o sub-17, onde as garotas estão sob o treinamento da ex-jogadora Daniela Alves, que participou de 3 olimpíadas e 2 mundiais pela seleção. É possível notar que o trabalho de base no futebol feminino ainda é falho no Brasil, no caso do Corinthians por exemplo ainda falta criar o sub-11. Essa ausência das categorias de base nos clubes não proporciona um desenvolvimento técnico completo das jovens atletas, que pode refletir de maneira negativa no futuro profissional.

Mas mesmo que o futebol feminino do Corinthians possua 3 anos de existência e o trabalho de base ainda esteja em um processo inicial, o alvinegro emplacou jogadoras no elenco da seleção brasileira para Copa do Mundo Feminina 2019. As escaladas para representar o país foram Leticia Izidoro (goleira), Érika Cristiano (zagueira) e Mônica Hickmann (zagueira). Também foi convocada a atacante Adriana Leal, que infelizmente sofreu uma lesão no joelho esquerdo e acabou sendo cortada da seleção.

Campanhas de incentivo

Em abril de 2018 o Corinthians lançou a campanha #CaleoPreconceito, o objetivo era atrair patrocinadores para o elenco feminino e a estratégia para alcançar isso foi estampar frases machistas nas camisas. As frases foram retiradas de comentários feitos nas redes sociais do clube, entre as selecionadas estão os comentários: “Mulher é na cozinha e não jogando futebol” e “Futebol feminino só vai ser bom quando acabar”.

Recentemente, no início de 2019, o clube mudou a partida do campeonato brasileiro que ocorreria no Parque São Jorge para o Pacaembu. A ideia por trás de tal mudança era atrair mais torcida e juntamente com a Nike, o clube usou da campanha #UmSóCorinthians para demonstrar a importância do futebol feminino para a fiel.

‘A única coisa que salva um país é a cultura’, afirma Moacyr Luz

‘A única coisa que salva um país é a cultura’, afirma Moacyr Luz

Foto: Marcelo Costa Braga

Por Eduardo Sá

O Samba do Trabalhador já virou um patrimônio da cultura popular carioca. Criado há quatorze anos, é referência do samba mesmo sendo às segundas-feiras e iniciando de tarde. Gente de tudo que é lugar, inclusive de outros estados e países, lota toda semana o Clube Renascença, que fica no Andaraí, zona norte da cidade. Embora seja um projeto coletivo, boa parte do seu sucesso se dá graças ao empenho do músico Moacyr Luz.

O sambista tem em sua bagagem mais de cem músicas gravadas com todos os ícones do samba nacional: Beth Carvalho, Nei Lopes, Wilson Moreira, Wilson das Neves, Paulo César Pinheiro e tantos outros. Após a entrevista (30/05), realizada em sua casa, foi gravar com o Zeca Pagodinho. Tem dez discos gravados e aos 61 anos não para, já tocou em outros países e vive na ponte área dos estados brasileiros.

É considerado pelo pessoal da antiga, mas também apadrinha os mais novos. Todos os expoentes da nova geração do samba carioca já fizeram parceria com ele, muitos deles inclusive contaram com seu apoio no início da carreira. Na entrevista, ele fala como o samba está num momento de continuidade cultural e muita qualidade musical. Mas não tem como falar de cultura e não falar de política, e é com muita preocupação que ele vê a atual conjuntura nacional. Os artistas e intelectuais, segundo ele, estão sendo perseguidos por um pensamento radical e pela polarização extrema em nosso país.

Eduardo Sá: Qual o momento histórico do samba hoje?

Moacyr Luz: Minha visão é sempre particular, não de mercado, e vejo uma geração nova aí muito importante. Na minha época era completamente diferente, a arte vinha primeiro que o dinheiro. Há uns quinze anos veio o pagode com uma urgência de fama, uma espécie de status do samba, anel e cordão de ouro, carro importado, óculos ray-ban, um pacote inteiro. Hoje vejo pessoas como o João Martins, os meninos do meu grupo, preocupados com a música, com a continuidade do samba, a qualidade, como o Gabriel Cavalcante, o Nego Alvaro, Alexandre Marmita, Mingo Silva. Os meninos da Família Macabu, o João Duarte, Douglas Lemos, muita gente que bota a música na frente. Outra geração mais sucedida também, como João Cavalcante, Pedro Miranda, Mosquito, Moyseis Marques, que já é um escalão acima com Teresa Cristina.

Não essa coisa de fazer um refrão para ganhar público, como esse rapaz que infelizmente morreu e cantava Jenifer. São músicas efêmeras, que vêm com muita força e somem e o cara aproveita para consolidar sua vida. É como no futebol, os moleques do sub 15 já estão cheios de olheiros para ir a Europa com contratos milionários. O pai larga um emprego garantido para ser empresário do filho e precisa daquele dinheiro, então o garoto já joga pensando que está no Real Madrid mas está no Bonsucesso.

Adoro a minha vida, tenho meu apartamento próprio, tudo conquistado através da arte sem ter mexido uma vírgula para alcançar meu objetivo. Às vezes apareço com algum destaque, mas minha carreira é bem consolidada pela música e não pela celebridade. O samba é um dos raros estilos que não tem muito negócio de idade. Pode se renovar com uma Clementina de Jesus, que apareceu com 60 anos. Vários anônimos se tornaram músicos ao longo do tempo, como Walter Alfaiate. A própria velha guarda da Portela foi reconhecida depois através de Paulinho da Viola. Mas o momento dessa juventude é muito favorável, tanto que temos novos talentos com grande projeção. Já têm um público graças também a internet, essas plataformas e mídias sociais, já que não se vende mais disco. O cara faz um vídeo em estúdios alternativos e consegue chamar atenção do público. Não precisam estar necessariamente ligados a um modismo, como o sertanejo ou essas coisas universitárias.

ES: As mídias sociais fizeram muitas mudanças no mercado e no modo de fazer do profissional do samba?

ML: Têm influenciado nalgumas coisas de harmonia, hoje a coisa está mais arrumadinha. Digo no sentido dos arranjos, composição, preocupação com a nota e o canto não ser tão bruto, que é maravilhoso. Mas criou-se um padrãozinho de afinar um pouco a voz, que é fruto de todas essas mudanças do mundo. O sertanejo hoje tem orquestra, o Zeca Pagodinho que é meu ídolo toca com quatorze músicos no palco, sopros, teclados, etc. Tem todo um cuidado diferente nessas produções, na qualidade da música. Nelson Cavaquinho tem uma música insubstituível até hoje, às vezes com violão desafinado, e esse cuidado foi coisa de internet ensinando a mexer, gravar, etc. O futebol hoje tem uma coisa horrorosa como o VAR, que se fez necessária por causa da televisão. Perdeu um pouco a essência, mas não tem jeito. O que quero dizer é que essa nova geração para botar as coisas na internet precisa caprichar um pouco mais, enquanto os sambas de Argemiro e Monarco são eternos tocados com caixa de fósforo ou o que for. Essa geração já vem adicionada dessas possibilidades de fazer diferente.

ES: E em relação à profissionalização do samba, mudou muito?

ML: O músico tem que ganhar dinheiro igual você como jornalista, é um profissional como qualquer outro. O servidor público da prefeitura que ganha R$ 2.400,00 é a mesma coisa. Tem músico que toca quase todo dia, tem que estar em movimento tocando nos lugares do samba, eu mesmo faço uma quantidade de show que não mereço mais fazer. Nesta semana (maio) eu tenho seis shows, num dos dias a tarde estou em São Paulo e a noite em Santos, isso com mais de 60 anos. Tem mercado, mas não quer dizer que o cara vai ganhar dinheiro, ele vai sobreviver.

ES: Como é isso em relação às casas de samba, elas pagam mal?

ML: Cacique de Ramos talvez seja o que pague melhor, mas lá não tem bilheteria e fica um acerto com cada músico. Mas Carioca da Gema e tantos outros não estão mais a mesma coisa. Tenho escutado histórias de rodas de samba em casas bacanas que o dinheiro é muito pouco, o cara faz ali por insistência, por acreditar no trabalho e ser sua profissão. Essas casas renomadas não têm condições de pagar mais, porque o público não está comparecendo tanto. Ou ele ia inconsciente e agora escolhe, ou o dinheiro é pouco. O próprio Renascença onde fazemos o Samba do Trabalhador é uma exceção, aquilo está sempre cheio. É um mistério, uma junção de coincidências, num horário e dia atípicos, com descompromisso de repertório com outros segmentos, pois a maioria é de música autoral, que inclusive é cobrada.

ES: Fora a questão trabalhista do músico enquanto profissional…

ML: Lógico, a questão ideológica do grupo e investimos na carreira de todos. Nego Alvaro lançou músicas tem pouco tempo, o Mingo Silva está com disco na fábrica para sair, o Gabriel tem sua carreira, o Alexandre está crescendo cada vez mais, todos tocando com outras pessoas. Não tem nada de concorrência, cada um faz seu trabalho mas estamos juntos pelo mesmo objetivo. E tem o repertório e a maneira de tocar.

Não nasci em escola de samba, já morei em lugares muito pobres, como na Vila Aliança, e também dividi apartamento, mas sempre acreditando e o grupo também. Morei quase cinco anos com o Hélio Delmiro, e com ele aprendi coisas quando entrei definitivamente para o mundo do samba. Exagero às vezes nas introduções, em alguns acordes, mas não é arrogância, é o pensamento e uma proposta musical ao samba. Tem sido muito bem absorvido pelo grupo, as minhas brincadeiras e formas de tocar, que vai nos trazendo uma particularidade muito grande. Isso reflete no público, que tem a curiosidade do local e horário, mas se surpreende com a qualidade musical modestamente falando.

ES: Você fez recentemente um enredo político para a escola Tuiuti, é importante envolver política nas composições?

ML: No governo militar o enredo era ufanista à direita, falava sobre transamazônica, os heróis, Duque de Caxias, etc. Hoje se critica mais, os últimos sambas que fiz foram enredos críticos, assim como o da Beija Flor e da Mangueira.

Foto: Marcelo Costa Braga

 

 

 

É uma característica porque não há mais espaço para violar a liberdade, quando isso acontece a sociedade reclama.

 

Espero que continue reclamando, porque se bobear volta tudo à estaca zero.

ES: Essa coisa da canja dos músicos nos shows dos amigos, essa divulgação compartilhada dos eventos, essa dinâmica sempre teve ou essa galera nova que está trazendo isso?

ML: Produzi o primeiro CD do Samba do Trabalhador em 2005, mas só canto uma faixa. Convidei o Luiz Carlos da Vila, Zé Luíz do Império, Wanderley Monteiro, Luiza Dionizio, etc. Um grupo enorme, uma garotada que canta músicas como um sucesso através do Samba do Trabalhador. Sempre foi uma prática, faz parte da cultura do samba. Vai muita gente lá cantar, mas também existem muitos gaiatos. Pessoal filma, tira foto e publica depois, mas ele mesmo não se deixa cantar duas vezes e percebe que está sendo invasivo. Às vezes o cara canta uma música manjada, a gente até brinca: apelou hein! (risos) Eu mesmo uso isso com minhas músicas, vendo se o público está disperso e vou dosando, mas a música é minha.

O samba e MPB é tudo a mesma coisa. Acabei de publicar minha primeira música num canal de youtube que é lentíssima. Na concepção do iniciante é mais fácil virar sambista, dizendo que a MPB é mais sofisticada, mas isso é uma dedução utópica. Falam que Caetano Veloso é muito difícil e melhor é tocar Zeca Pagodinho, mas não sabem que é tão difícil ou mais. Aí começa a vir uma soma de equívocos, a achar que por ser sambista pode beber demais, desafinar, cantar bêbado, etc.

ES: Fale sobre esse estereótipo do sambista com a malandragem e a boemia.

ML: Existe desde que o samba é samba. É o malandro, dificilmente não bebe, o cara de fora acha que é isso, mas não é. Usam cordão sem sentido, chapéu, uma época usava navalha, terno de linho, mas não como a elegância da velha guarda da Portela. Digo aquele malandro do botequim, espécie de Zé Pelintra. Tem uma música do Wilson Batista, Lenço no pescoço, que é bem isso.

ES: O samba ainda carrega a questão de religião afro ou se perdeu?

ML: Acho que a religião tradicional evangélica está interferindo muito na sociedade brasileira. Não só na música, mas também na política e nas tradições. Hoje é dificílimo ver o doce de Cosme e Damião, antes era uma briga das crianças. Muito músico parou de beber e segue os dogmas daquela religião. Isso vem de uma soma de preconceitos a uma minoria, que diz que o cara é negro, sambista e a religião dele não será católica e sim candomblé, umbanda, etc. Porque era de quilombo, batia tambor, usava percussão, é preto e minoria, então é afro religioso. Mesmo assim acho que não se perdeu, porque está tudo muito interligado. Talvez esteja até mais explícita essa questão afro nas roupas e atitudes, pois antes ir a um terreiro de macumba ou espírita era quase proibido.

ES: Embora a intolerância esteja ainda muito presente.

ML: A intolerância em relação aos afro-religiosos, mas hoje também não toleram o intelectual. A pessoa que tem um pouco mais de informação está sendo perseguida, alguém que tenha opinião pessoal forte. São características de partidos extremistas, e se bobear o Brasil vai cair nesta situação muito mais breve do que se imaginava.

ES: Como você tem avaliado o atual governo?

ML: Um equívoco atrás do outro, uma pessoa totalmente despreparada, que em dois meses de governo tudo que falava revia, desmentia, voltava atrás. Está cortando todas as verbas ligadas à cultura, mas o país é feito de cultura depois é que vem o resto. Já participei de vários movimentos, chegou a hora de outros lutarem. Tem uma complicação também porque o público pode esperar o artista tocar na rua porque é de graça, não é tão simples.

No domingo (26/05) esqueci que tinha um ato pró Bolsonaro, e chegando a Campinas (SP) me senti excluído do Brasil. As pessoas berrando gritos de guerra com um ódio impressionante, meio nazista, você passava com uma camisa que não fosse amarela e verde e era tratado como um inimigo. Não sou inimigo do meu país, muito pelo contrário, sempre lutei por ele. Faço sacrifícios em função de cantar algumas coisas descentes, denunciar com a minha música, o que minha inspiração consegue traduzir. Eles se ocuparam das cores da bandeira brasileira, mas a gente não é vermelho, somos diversos e coloridos, isso é Brasil. A sensação é que se você expressar uma opinião contrária não é uma coisa democrática, você fala e é perseguido.

ES: E qual o papel da cultura neste cenário?

ML: Reagir o tempo todo. É o Chico Buarque ganhar o Camões, um filme ganhar um festival de Cannes, o teatro, essas coisas que vão fazendo resistência. Vai ter que voltar teatro de rua, popular, shows, a cultura é fundamental. A única coisa que salva um país é a cultura, educação para fazer uma pessoa na plateia reagir, fazê-la brigar pelo seu espaço.

As pessoas estão muito cegas, houve uma insatisfação com os governos anteriores mas a solução não é essa. Está havendo um esvaziamento, desmoronamento, do país.

Foto: Marcelo Costa Braga

Agora o presidente quer usar o poder que ele não tem para anular uma reserva biológica marinha em Angra dos Reis. Não pode ser assim: temos uma Constituição.

Perdemos a luz no fim do túnel. Nunca tive depressão por causa de política, e estou sentindo muito o que está acontecendo, triste de ver. Projetos sendo cancelados, nós sendo tratados como inimigos. Você faz música, teatro, cinema e é um inimigo do país. Aquele Marco Feliciano dizia que a mamata ia acabar, e tem essa questão da arma que é pavorosa. O pior é que ele prometeu isso e as pessoas deixaram-no cumprir, e muito poucos têm arrependimento. Não era para ter gente nessas manifestações dele. Em Campinas eu me senti acuado. Vi um depoimento um dia de uma menina que estava com a camisa da Marielle Franco e foi hostilizada, teve que sair protegida pela polícia.

Moda autoral brasileira presente!

Moda autoral brasileira presente!

Moda é essencialmente cultura, política, história, e futuro.

Criações Bruno Olly, UFTPR e Vitor Cunha | Fotos: Roberta Braga e Chico Gomes

A convite, fui à Fortaleza celebrar a 20ª edição do DFB Festival – um evento sensacional, que representa a grandeza dos criadores de moda autoral brasileiros, e que hoje é considerado um dos principais eventos de moda do mundo.

Não estou falando de “artesanato” não… falo de conceito, de estilo feito à mão, de luxo, de identidade, de moda viva que carrega a nossa espontaneidade, e desperta interesse em qualquer pessoa que a conhece, em qualquer cantinho internacional.

Sabe aquilo que a gente ama? Tudo junto e misturado, do melhor jeito possível? Vi isso: instituições públicas e privadas, governo, empresários, industriais, pequenos empreendedores, estudantes, profissionais renomados, novos designers, que ofereceram, juntos, mais de 125 atividades gratuitas para o público cearense em uma estrutura inédita de 27.000 metros quadrados, instalada no aterro da Praia de Iracema, e por quê? Por que moda não é roupa.

Moda é essencialmente cultura, política, história, e futuro. E futuro não existe sem pensarmos em ações coletivas, em processos colaborativos, em integração de ideias, em diversidade de corpos, em espaços compartilhados.

Pode crer que foi lindo, e por isso trouxe aqui pra você um pouco de lá, pra reforçar que já passa da hora de nós consumidores brasileiros apoiarmos nossos criadores, consumindo e divulgando os seus trabalhos, porque sim, são preciosos, acessíveis, e bacanérrimos. Olha a prova:

Almerinda Maria é filha de mãe costureira, que saiu do sertão do Ceará pra ganhar o mundo, e já tem uma trajetória profissional de 31 anos. Seguindo a sua tradição, apresentou na passarela uma coleção inspirada no nordeste e seu precioso feito à mão, mostrando lindamente as curvas dos ventos do litoral cearense e a sua leveza em peças de organza de algodão e seda, cambraia de linho puro, gaze de seda, com aplicações e bordados em rendas renascença, labirinto, guipir, e richelieu. Sua estética é muito bem pensada, e dá à renda um reposicionamento contemporâneo, que encanta.

Criações Almerinda Maria | Imagens – Roberta Braga e Chico Gomes

Gabriel Baquit lançou sua marca “Baba” durante o evento, e apresentou a sua primeira coleção “No meu Tempo”, trazendo releituras da cultura pop cearense dos anos 80, e tocou a memória afetiva do público, imprimindo antigos logos de marcas e frases icônicas locais, em peças atemporais. A marca também buscou em Bauhaus uma referência para sua estética cool.

Criações Baba/Gabriel Baquit | Imagens – Roberta Braga e Chico Gomes

Bruno Olly apresentou seu trabalho inspirado pelos anos 90 intitulado “O Grito“, um tema muito inteligentemente desenvolvido em cima da estética do boxe, simbolizando resistência. Ele propõe ao seu cliente que “seja quem quer ser”, e levanta bandeiras do agênero, da inclusão, da diversidade e liberdade de expressão em seus looks, numa versão contemporânea do universo pugilista.

Criações Bruno Olly | Fotos: Roberta Braga e Chico Gomes

“Cariri Visceral” foi uma coleção de 13 looks, produzida por 16 alunos dos cursos de costureiro, modelista e figurinista do Senac Crato, que trabalhou suas criações num mix precioso, inspiradas nas riquezas tradicionais do Cariri, com peças em couro de Espedito Seleiro e as tramas experimentais produzidas durante a oficina do artista-tecelão Alexandre Heberte.

Esse desfile tem uma importância histórica, pois nele foi lançada “a nova renda do Ceará”, desenvolvida pelo Alexandre, que ele chama de “Costura de fios” e explica que “é um movimento orgânico, que estrutura o tecido com um único nó, e que por não ter uma ordenação matemática é livre, o que é muito interessante porque acaba economizando tempo na sua produção”.

Criações Alexandre Heberte e alunos do Senas/CE | Imagens – Roberta Braga e Chico Gomes

David Lee é um pequeno grande nome cearense já conhecido internacionalmente. Foi destaque no evento com a remontagem da instalação apresentada na temporada de moda de Londres, no início deste ano, para a qual foi convidado pelo British Fashion Council, em ação inédita orquestrada pelo Senac/CE, toda produzida em crochê com 5 cinco fios, em cores primárias – preferências que fazem parte do repertório dele desde o início.

Para a passarela, David levou a coleção “Under the sun”, fazendo referência à alma da sua marca que é solar, com a presença simbólica de estampas de girassol, propondo que as pessoas olhem pra frente.

Criações David Lee | Imagens – Roberta Braga e Chico Gomes

Melk Z-da como convidado, foi de Recife à Fortaleza para apresentar uma coleção extremamente elaborada, inspirada no universo do chá. Em seu trabalho primoroso de estamparia e texturização manual, usou formas de flor de hibisco, especiarias, infusores, xícaras e bules pra contar uma história luxuosa.

Criações Melk Z-da | Imagens – Roberta Braga e Chico Gomes

Ronaldo Silvestre é um mineiro veterano no Dragão Fashion, que tem o trabalho pensado com design sustentável. Ele apresentou a coleção “A todo vapor” – inspirada no disco da Gal com esse título -, resultado de sua parceria de produção com a equipe do Instituto ITI – Instituto Tecendo Itabira, do qual é presidente, e hoje qualifica 97 pessoas com bordados e costuras, com o objetivo de atender a demanda de terceirização de empresas. Destaque para as peças construídas com estruturas artesanais, como que retecidas.

Criações Ronaldo Silvestre | Imagens – Roberta Braga e Chico Gomes

“Mar adentro” é o nome da coleção de Vitor Cunha, – um novíssimo nome de 20 anos -, fundamentada na história de quatro jangadeiros cearenses, que na década de 40 se tornaram símbolo de consciência de classe, de resistência e de um fazer político ingênuo, porém poderoso.

O designer fez uma imersão conceitual no cotidiano desses personagens, e apresentou na passarela looks simples e de vanguarda, usando óculos em MDF, bolsas com a transparência das águas, maxi-acessórios em palha de carnaúba, sandálias com amarração – todos produzidos com materiais naturais, com aplicações de 17 kg de fios trabalhados em macramês, tingidos artesanalmente, pontuando sabiamente o universo do mar e suas múltiplas simbologias, como as redes de descanso usadas por todos.

Além disso, criou toda a coleção com peças exclusivas produzidas com parceiros locais, reusou materiais e preferiu tecidos mais sustentáveis, como fibra de juta e brim. Amei as viseiras com franjados, que reverenciam o sincretismo do Adê, [espécie de adorno típico do Candomblé], que também permeia a cultura da pesca no Ceará.

Criações Vitor Cunha | Imagens – Roberta Braga e Chico Gomes

No “Concurso dos novos” o tema foi “Criatividade é nossa praia”, e cada grupo participante/finalista [escolhido entre 150 instituições de ensino inscritas] produziu 8 looks completos, incluindo calçados e acessórios, de forma autoral.

Venceu, merecidamente, a equipe do Curso de tecnologia em design de moda da UTFPR – Universidade Tecnológica Federal do Paraná -, com a coleção “A terra que virou poesia”, para a qual construíram uma imagem em cima da simbologia estética existente na Ilha de Marajó, no Pará.

A tipografia da cerâmica Marajoara foi representada em tecidos de composição natural, com aplicação de bordados e cordas, aviamentos naturais do tipo sementes de açaí e madeira.

As texturas e formas de modelagem das peças, com babados e drapeados, tiveram como referência o movimento do Carimbó, que é uma junção entre as danças indígena e portuguesa. Um excelente trabalho de design contemporâneo, produzido com conceitos sustentáveis e elementos de cultura de raiz.

Criações UTFPR | Imagens – Roberta Braga e Chico Gomes

Vale super comentar que desse concurso participou a Universidade Veiga de Almeida, do Rio de Janeiro, que através do denimLAB, seu laboratório de pesquisas de jeans, apresentou a “Cada corpo é um rio” – uma coleção poderosa, com looks extremamente originais, produzidos a partir do reaproveitamento de jeans. Como o grupo mesmo define, “são produtos casuais, com formas orgânicas, volumes localizados, texturas artesanais e o grafismo criado por diferentes tons de índigo, apresentam a técnica sistematizada de upcycling com materiais residuais – de estoque parado e pós-consumo – e design de superfície não-poluente”. Um trabalho elaboradíssimo, que deveria servir de exemplo pra muuuuitas marcas. Apenas sensacional.

Criações Veiga de Almeida/DeninLab | Imagens – Roberta Braga e Chico Gomes

Aí nordeste brasileiro, coração do nosso País, você tem o meu respeito.

*Colaborou com o meu trabalho em Fortaleza: Gomes Avilla (@gomesavilla) – designer gráfico, comunicador e self maker.

Pretas e pretos, vamos nos organizar em grupo?

Pretas e pretos, vamos nos organizar em grupo?

Articulação política popular e a presença nas ruas serão fundamentais para barrar projetos pelos quais o movimento negro será exigido pela História, caso do pacote criminoso de Sérgio Moro

Foto: Juliana Nascimento | Coletivo Nuvem Negra

Nunca na História brasileira o debate sobre raça e racismo esteve tão em evidência. Nunca tivemos tantas pessoas reconhecidas por importantes canais de comunicação, com a possibilidade de construção de diálogo com a sociedade e com o nosso povo. Temos uma possibilidade real, pela internet, de conversar com pretas e pretos com quem nunca antes conversamos.

Ao mesmo tempo, vivemos uma grande dificuldade de construção em grupo, de articulação de movimentos sociais com possibilidade de mobilizar o povo e as ruas. Quantas são as entidades e movimentos sociais negros de massa que temos hoje?

No momento em que colocamos em pauta a necessidade das esquerdas voltarem para as bases, nós, que somos a base, precisamos organizar e articular nosso povo. Diante da conjuntura atual é essencial que tenhamos organizações e grupos fortes para o enfrentamento político.

Ficou evidente, durante esses momentos turbulentos vividos pelo país, que o ritmo da política institucional é ditado pelas ruas e pela intensidade da pressão popular. Isso vale para o campo progressista e conservador. Grandes manifestações em apoio a Jair Bolsonaro (PSL) são utilizadas para acelerar a aprovação de medidas, normalmente violentas contras nós, povo negro.

Por outro lado, centrais sindicais e grandes frentes progressistas tiveram e têm um papel importante para a defesa dos poucos direitos trabalhistas ainda restantes. É provável que, se aprovada, a reforma da previdência terá de ceder em importantes aspectos por conta da pressão popular.

Como raça estrutura a realidade brasileira – o que faz do racismo o pano de fundo de todos os problemas sociais do país – pode-se afirmar sem medo de errar que mulheres e homens negros serão os mais prejudicados com a aprovação da reforma da previdência e do pacote criminoso de Sérgio Moro.

No primeiro caso, porém, há e haverá uma articulação consistente por parte das centrais sindicais, movimento histórico e muito mais estruturado do que aquelas e aqueles que são e serão a linha de frente na resistência ao projeto de segurança pública: o campo dos direitos humanos e em especial o movimento negro.

Qual será a nossa força de articulação popular e de pôr nas ruas milhares de pessoas com o peso político que devemos dar diante de um projeto como esse? Mesmo que importantes, posts, tweets e campanhas virtuais não têm o poder de sozinhas pressionar qualquer governo. É necessário que haja povo na rua e trabalho de base permanente.

Se reunirmos toda a potência que acumulamos ao longo da história e principalmente a força da juventude negra que acessou espaços universitários seja via Prouni, Fies ou cotas raciais, podemos construir uma frente ao pacote de Sérgio Moro.

No plano recente, organizações do movimento negro têm se articulado em bloco para defender as cotas raciais e se posicionarem de maneira contrária ao pacote de Moro e à reforma da Previdência. Nesse fluxo se construiu agenda com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e em breve com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

São esses grupos do movimento negro que costumam participar de maneira ativa durante a construção de manifestações em São Paulo, sejam atos em repúdio ao assassinato de negros – como foi o caso de Evaldo dos Santos – em denúncia de violações de direitos, em proteção das cotas raciais e em datas importantes para o povo negro, como o 20 de Novembro.

Essas ações de incidência política e mesmo as manifestações têm, em partes, o sucesso balizado a partir da quantidade de gente que se coloca nas ruas.

Acredito que seja fundamental refutarmos uma perspectiva liberal de luta, na qual basta se posicionar pelas redes sociais e assim se conformar como militante. Para superar o individualismo, marca do sistema econômico e político capitalista, precisamos do coletivo.

Hoje, o máximo que conseguimos construir são grupos em números pequenos de pessoas. Ou temos indivíduos ativistas ou temos coletivos com no máximo 10 pessoas. Participar de grupo, coletivo ou construir rede exige enfrentar o diferente, discordar, construir, dialogar. É a construção na prática de uma sociedade democrática.

Na história do povo negro, nossas organizações políticas foram fundamentais para a nossa continuidade. Sempre nos aquilombamos e assim precisamos continuar a fazer. Palmares, a Frente Negra Brasileira e o Movimento Negro Unificado (MNU) foram e são marcos para a nossa existência.

Não faltam organizações e grupos aptos a receberem toda a nossa potência e construir uma defesa integral do nosso povo também nas ruas. A nível nacional, são inúmeras, caso do próprio MNU, Uneafro, Educafro, Reaja ou Será Morto, Círculo Palmarino, CONAQ, Renafro, entre muitas outras.

Sinto-me muito alegre em participar de redes nacionais do movimento negro, de grupos como Faremos Palmares de Novo, da Rede de Jornalistas das Periferias de São Paulo, além do próprio Alma Preta, portal de mídia negra.

Diante desse cenário violento e das muitas possibilidades de se articular em grupo em defesa do povo negro, o meu convite é: negrada, vamos compor, fortalecer nossas entidades ou construir novas?

Quem cola nessa tal Marcha da Maconha?

Quem cola nessa tal Marcha da Maconha?

Maconheiro é tudo igual em todo canto? Só cola boy? Tem que prender todo mundo?

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

A 11ª Marcha da Maconha de São Paulo aconteceu neste sábado, 1, e levou cerca de 100 mil maconheiros à Avenida Paulista, em uma das maiores manifestações pela regulamentação da cannabis em toda a história. Mas, quem cola nesse role? Quem foi viu o que? E quem nunca colou, espera quem?

Cobertos por uma densa neblina de fumaça, foi fácil sacar que não há unidade entre a multidão que tomou conta do centro da cidade cinza. Então, se sua expectativa em colar na Marcha é ver só boy, ou só quebrada, ou só esquerda, ou só direita, deu de cara em uma parada que transcende nichos e consegue como nenhum outro movimento atual aglutinar pessoas de espectros sociais, raciais e de gênero totalmente distintos.

Essa é de longe a maior vitória da marcha e, diga-se de passagem, não aconteceu por acaso. A primeira Marcha que colei foi em 2012, quando eu, então morador do bairro do Cocaia, extremo sul de São Paulo, saquei de cara que a maioria dos participantes do rolê não era da mesma classe social que a minha e nem tinha passado 2 horas em um busão pra fazer essa correria.

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Descentralizar a marcha, mobilizar coletivos nas quebradas para atividades regionais e pontuais, manter o caráter autônomo e participativo, com reuniões abertas, em que não existem detentores de poder, seja através de grupos ou partidos, são os pontos que identifico como aqueles que tornam possível esse rolê ser tão diverso e abranger tanta gente.

Daí, eu volto na pergunta: quem cola nesse role? Você, maconheiro, que colou na Marcha da Maconha, colou por que? O que te tirou de casa em um sábado chuvoso?

Com quem conversei, o papo voou desde “só colei pra fumar um na frente dos vermes” até “tem que legalizar pra acabar com o encarceramento em massa”, do mano Bolsonaro que acredita no estado mínimo e na maconha como liberdades individuais, até a mina que trampa com redução de danos na cracolândia e constrói toda uma plataforma de atuação voltada para o fortalecimento de políticas públicas no cuidado com pessoas em situação de rua e dependentes químicos.

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Nesse sentido, fumar maconha é um ato político e fazê-lo na Marcha da Maconha tem um significado foda. Quantos não são os maconheiros que não tem coragem de contar para os familiares que curte dar uns tragos? Quantos chegam a ser expulsos de casa? Quantos não são ameaçados de internação? Quantas famílias não rompem? Apesar de parecer algo simples, não é: fumar maconha é perigoso.

Quantas pessoas não pegaram até 4 anos de pena por algumas gramas de maconha? Quantos não foram espancados e deram uma “volta” no camburão só pra ver PM louco de pó curtir com sua cara? Quantos não foram simplesmente exterminados a sangue frio? Maconha é paz, mas no estado em que vivemos o bagui é loco.

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Exemplo disso é como, principalmente quem é de periferia, está acostumado a fumar bem ligeiro, olhando pra um lado e pra outro pra ter tempo de reação caso apareça uma viatura. Quase naturalmente, um amigo que estava comigo na marcha, toda vez que um PM ou GCM passava, escondia o back com medo de enquadro. “Eu que não quero ser o único enquadrado no meio dessa galera toda”. Quem já tomou esculacho sabe que não pode dá mole.

Já um outro, mais ousado, querendo tirar um barato, cada vez que passava um fardado ele soltava fumaça bem perto, só pra dar risada da cara deles que faziam careta com o cheiro e aquele jeito de putinho por não poder fazer nada. Cada um tem a vingança que pode ter, não julgo.

A Marcha, sendo um território livre de desobediência civil contra a criminalização da cannabis, catalisa uma sensação provisória de liberdade para quem está refém da criminalização, principalmente aquelas que vivem nas quebradas, territórios marginalizados em que a população tem seus direitos cerceados. Como desmerecer quem cola só pra fumar? É disso que se trata, não é?

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Se trata disso e muito mais. Muito mais! A Marcha abre as portas do muito mais para quem, desinformado, vai sacando o que é o bloco da cannabis medicinal e a importância dela para uma série de pessoas, conhece o bloco da redução de danos e como ela muda a vida de quem precisa de cuidado humanizado, entende o que é encarceramento em massa e qual o papel da Guerra às Drogas nesse processo, e por aí vai.

Hoje o debate sobre drogas vai longe das questões que trouxe nesse texto, estamos debatendo sobre as mudanças na Lei de Drogas, que deve encarcerar e internar a população mais pobre, a votação da descriminalização do usuário de drogas recém adiada no Supremo Tribunal Federal, a chamada Lei Rouanet das Comunidades Terapêuticas, que permite doação de imposto de renda para essas instituições, conhecidas por violar direitos humanos, o quase extermínio da redução de danos como política pública pelo governo Bolsonaro, e por aí vai.

Essas pautas, apesar de atingirem profundamente nosso povo, passam muito longe do debate popular. Nos reconhecermos, entendermos como nos ligamos e como podemos fortalecer essa base para quem está começando a encostar na Marcha, a entender o rolê canábico e das drogas, possa também chegar junto nesses debates nacionais, mobilizar suas comunidades, compreender as relações sociais intermediada pelas drogas em seus territórios, etc.

As portas do conhecimento estão mais uma vez abertas para muitos que tem na Marcha da Maconha o único contato com esse tema. Procure saber!

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Crônica #30M: As ruas e os corações

Crônica #30M: As ruas e os corações

Pelo Estudante NINJA, Leon da Cruz

Rio de Janeiro (RJ) – Foto: Mídia NINJA

Quando no dia 15 de maio o tsunami estudantil varreu as mais diversas cidades de todo o país, foi compreensível a surpresa de uma parte da sociedade com a magnitude da mobilização, até mesmo aquela ligada intrinsecamente com as pautas reivindicadas nas ruas. E mesclado a isso, um conceito um tanto óbvio de deja-vú tomou as percepções de outros que já ansiavam por tal atitude. Pois são tantos os absurdos do atual governo com que nos deparamos diariamente, mesmo em relativo pouco tempo de atuação, tantas atitudes com uma falta de bom senso gritante, nos constrangendo de tal forma, que naturalmente faz os corações mais pulsantes e as mentes mais sensatas e irrequietas não verem motivo em não ansiar por ao menos uma grande manifestação de descontentamento a cada semana do mês. Não seria nada além de um dever cívico, é claro, por parte daqueles que ainda honram a sua cidadania e, principalmente, sua dignidade.

Desencadeada a grande mobilização, o orgulho foi geral (não tendo como ser diferente) porém acompanhado com uma espécie de nostalgia antecipada ou um pessimismo tardio em relação aos próximos passos daquele gigante que prometia se erguer.

No passado, ameaças semelhantes de levantes contundentes foram reveladas posteriormente um alarme falso. Eis um fantasma que a um tempo assombra uma parcela desse povo. Por isso, talvez já passasse da hora de exorcizá-lo de uma vez.

No dia 30 do mesmo mês, ninguém sabe ao certo quando aquele foco de pessoas na candelária, em pleno centro do Rio de Janeiro, se alastrou tomando aquela amplitude majestosa, resultando na mobilização antes um tanto duvidável em um incontestável sucesso, fazendo as névoas de inseguranças e de dúvidas infundadas se dissiparem com a mesma velocidade que surgiram, como a bruma de uma manhã de inverno diante da Aurora implacável e irredutível.

As brigadas estudantis sob o comando da razão e inspiradas nas ideias dos grandes mestres, como a imortal e atemporal memória de Paulo Freire, presente em seu legado que vive em cada um daqueles que enxergam a educação como um meio para a libertação plena, marcham armados de um ideal pungente, sonhos a ter e com sede de liberdade para ser tudo quanto se for possível desejar.

O que está em jogo, eles sabem muito bem, vai além de meros descontentamentos, mas justamente a mola propulsora para todas as suas aspirações: o que está em jogo é o futuro, com a eminência de morte de uma educação já tão frágil e a completa destruição dos sonhos de um dia se obter uma de qualidade, tendo ela sido sequestrada pelos terroristas do mercado e seus milicianos no poder e mantida em cativeiro, constantemente ameaçada e sob a condição para suposta libertação o pagamento em uma peculiar moeda de troca: a aprovação de uma nefasta reforma da previdência.

Sendo este um governo perpetrando claramente a velha política de terrorismo de estado contra seus cidadãos, os estudantes, os professores, os trabalhadores sabem bem o que se propõem a enfrentar, e por isso, nem um movimento nas ruas é irrelevante, independente da proporção ou magnitude. O movimento constante, tal como o rio correndo para a imensidão do mar, é a vida plena em um momento fúnebre, é o farol nesta escuridão representativa, o poder indubitável da esperança concretizado. E isso sim todos os envolvidos passaram a entender.

Rio de Janeiro (RJ) – Foto: Mídia NINJA

Ali, secundaristas descobrindo a própria voz e seu poder, certeza tinham de se fazer serem escutados; os universitários, endurecidos pela realidade frustrante das atuais condições das universidades públicas, tentando limita-los a qualquer custo, mas tomados pela ternura fraternal da velha camaradagem originária dos campus em “balbúrdia”, prevaleciam com a determinação no olhar, a força na voz decidida e a atitude de quem sabe estar a desempenhar o papel decisivo no desenlace histórico; ergueram-se os universitários de faculdades privadas, não apenas armados com a empatia e solidariedade necessárias, mas com a consciência de que sem a educação de qualidade como um todo, não há perspectivas para um futuro edificante; também os cotistas que, mais do que ninguém, sabem o poder de boas políticas públicas voltadas para o ingresso no ensino superior dessa parcela enorme de jovens e adultos, levantam os punhos, chamam a luta para si, lado a lado, determinando que ninguém tá ali por acaso. Eu estava lá entre eles, e falo com toda certeza que ninguém desse lado há de ceder espaço ou dar descanso pro governo nas questões das políticas públicas de ingresso nas universidades sem uma boa peleja. Isso é mais do que nítido na disposição pra luta que tem os que vieram de baixo, assim como eu, os que ascenderam graças a uma distribuição justa de parte de tudo aquilo que lhes é devido.

Ninguém quer esmolas, junto aos trabalhadores dos mais variados segmentos, todos só querem aquilo que lhes pertence por direito.

Aqui o povo manda, e o governo, se tiver algum juízo, há de obedecer.

Tantas bandeiras diferentes, tantas cores, mostram lindamente a força da coesão em meio a diversidade social, provam a capacidade do jovem progressista de adaptação e atualização, coisa que os conservadores – fracos por natureza – odeiam simplesmente por serem incapazes de desenvolver.

O brado “resistência” nunca fez tanto sentido: resistimos às investidas do medo expresso em ódio, pois nossa capacidade de amar transcende a toda insegurança; resistimos ao flerte de parte da sociedade com a estagnação mental, pois sabemos que as mudanças são necessárias, o mundo nunca foi e nunca haverá de ser estático; resistimos ao retrocesso sendo esta a única proposta do atual governo, pois já chegamos longe demais pra pensar em voltar ao que nem deixa saudades.

A “raça pura” burguesa se dilui a cada afronta do brasileiro com consciência de classe, do trabalhador disposto, do estudante atento.

Aqui, a pátria é muito mais que uma bandeira, e muito mais que determinadas cores ou uma camisa de futebol: aqui a pátria é gente! Gente que impulsiona a força vital da sociedade, que abala as estruturas quando se depara com o insustentável, é quem decide o desenvolvimento histórico de todo um povo. A pátria somos nós!

 Somos os jovens que sabem estar indo pra uma batalha mortal e se sentindo em casa com isso, as ruas são nossa casa (por direito); somos uma única família.

Quem vive e se deixa guiar pela bolha ideológico – cibernética, mundo envolto de mitos por temer a realidade perturbadora, aqui não se cria, não se demora. Apenas passa, com a rédea atrelada ao crânio, o ódio abraçado ao coração, e o medo a adornar-lhe a mente.

Eis o que nos torna tão diferentes. Pois o desconhecido progresso nos incendeia a alma, fazendo-nos ansiar em transpor os horizontes que já alcançamos e desbravamos.

A esta altura, as dúvidas que pesaram o coração nada mais significam diante das ruas incendiadas de amor e desejos.

Nem um passo atrás será dado! Há muito que fazer. E a nossa juventude com os sentidos a transbordar da alma é o combustível de toda a revolução. A vitória nos aguarda, a natureza clama pela guinada e conspira a nosso favor. E contra as armadilhas da pressa e consequente ansiedade, há que se lembrar do imortal Rimbaud: “podemos estar vivendo uma temporada no inferno…mas na Aurora, armados de uma ardente paciência, entraremos nas cidades esplêndidas.”

Rio de Janeiro (RJ) – Foto: Luz Nuñez Soto / Estudantes NINJA

14 de junho já irradia seu brilho triunfante no horizonte, camaradas. O além é a sorte a que nos lançamos. Os trabalhadores estavam conosco nos dias passados, e por questões de honra e compromisso, lá estaremos nós com eles também, braços dados, ombro a ombro. Somos um só!

Até a vitória!

Imagina se o Estado estivesse presente na vida desse menino?

Imagina se o Estado estivesse presente na vida desse menino?

Foto: Mídia NINJA

Olha que coisa.

Fui na padaria de manhã. Encontrei uma atendente super simpática. Estava pessoalmente mal-humorada por conta do trabalho e demandas domésticas, então não sorri como de costume. Ela estranhou.

Perguntou automaticamente:

“-Tudo bem dona Tainá?”

Eu: tudo @, eu estou preocupada com a vida, só isso, rs.

“Queria te agradecer, viu? Meu filho entrou naquele grupo lá. Eles estão lendo uma peça de meninos de rua. Nem sabia que ele gostava de ler”.

Eu: Ahhh, ele voltou pra casa? E o problema dele lá com o movimento?

“Ele tá morando com minha mãe em outro morro. Parou de andar com os “meninos”. Obrigada de verdade a senhora, viu? A senhora não teve preconceito quando eu falei e me ajudou.

O filho dela era vapor numa favela e falei pra ela tirar o filho de lá e ocupar a cabeça dele com atividades e assistência piscossocial. Dei o dinheiro das primeiras semanas de passagem.

Imagina se o Estado estivesse presente na vida desse menino? Ao invés disso o Estado prefere mirar uma arma na cabeça dele porque ele é um vapor.

Eu acho que nossa sociedade está com os esforços errados e valores invertidos.

Menos fuzis, mais livros.

Menos barbárie, mais Estado.

Continuo meio deprimida pela conjuntura, mas definitivamente meu dia melhorou e muito. Espero melhorar o seu depois dessa história.

É a economia, estúpido!

É a economia, estúpido!

A economia brasileira encolheu 0,2% nesse início de 2019. É o primeiro resultado negativo nessa comparação desde o 4° trimestre de 2016.

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Por Daniel Zen e Fernando Farias Sevá.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE atribui parte dessa queda à tragédia de Brumadinho (MG). Ocorre que a queda de 6% na indústria extrativa (que representa algo entre 2 e 3% do PIB) é um dos menores fatores. Quase todos os demais setores caíram. Tanto a formação bruta de capital fixo – uma medida de investimentos – quanto as exportações tiveram recuos de 1,7% e 1,9%, respectivamente. Isso é grave.

O Boletim Focus desta semana já aponta para uma projeção de crescimento de apenas 1,2% para o PIB esse ano – em contraponto às projeções iniciais de 2,8% – com forte tendência a fechar abaixo de 1,0%, taxa inferior aos 1,1% de 2018.

Gif por Tony de Marco

O Brasil está pagando um preço alto por falta de competitividade de serviços e produtos com valor agregado. Isso decorre, em partes, da falta de investimentos em CT&I e em infra-estrutura, situação que o monotemático governo da reforma da Previdência faz questão de aprofundar na medida em que acelera o desmonte do ensino superior e das políticas de CT&I. No quesito infraestrutura, tem anunciado poucos e insignificantes investimentos.

Adicione-se a tais problemas as declarações desastrosas e posturas erráticas do chanceler e do próprio presidente, que acabam prejudicando a agenda de exportações, como no caso da soja, das carnes “halal” e outros itens. Como resultado parcial disso, temos uma previsão de saldo para a balança comercial na casa de US$ 50 bilhões, ante os US$ 57 bilhões previstos em janeiro. Uma queda de mais de 12%.

No Acre, a situação não é diferente: os dados dos gastos com pessoal constantes no Relatório de Gestão Fiscal (RGF) do primeiro quadrimestre de 2019 apontam para um comprometimento de 48,40%, quando o limite máximo permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) é de 49%.

O Acre também lidera o ranking do desemprego nesse início de governo Gladson Cameli (PROGRESSISTAS). Foram 676 novos desempregados de janeiro a abril de 2019. Em contraponto, ao contrário do que pregam os detratores e opositores dos governos do campo progressista e de esquerda da Frente Popular do Acre (FPA), de 1999 até o final de 2018 foram gerados mais de 72 mil empregos formais. Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) e da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS).

Isso quer dizer que ou o Estado investe na economia – para que sejam gerados empregos no setor privado – ou não vamos dar conta do desemprego, pois há pouca margem para novas contratações e novos concursos no âmbito do serviço público.

Além disso, o RGF acreano demonstrou que, nos últimos anos, a receita corrente líquida (RCL) tem sido crescente e a dívida consolidada líquida (DCL), decrescente. Desmente-se, assim, a ideia de que o atual governo teria herdado uma “herança maldita”.

É verdade que o Estado fez uma parte do dever de casa nesse início de governo GC: há mais de R$ 508 milhões de resultado primário (superávit) no primeiro quadrimestre, decorrente de três fatores: 1) aumento nas receitas do Fundo de Participação dos Estados (FPE); 2) ausência de investimentos públicos; e 3) redução das despesas com custeio e com pessoal. Ocorre que faltou fazer a segunda parte do dever de casa: esses recursos poupados poderiam estar sendo direcionados para investimentos em obras públicas e programas sociais, de modo a fazer circular dinheiro na praça, aquecendo a economia, gerando emprego, distribuindo renda, promovendo a inclusão social e a redução das desigualdades.

Também é fato que há dívidas, parcelas de empréstimos a quitar e o tão famoso déficit do Fundo de Previdência Social (FPS) do Estado, decorrente, em grande parte, do esvaziamento do FPS feito à luz da Lei Estadual n° 1.153/1995. Mas, os dados do RGF demonstram que se tratam de situações normais, sob controle e dentro dos limites da LRF. O nível de comprometimento do orçamento estadual com tais encargos autoriza o Estado tanto a contrair novos empréstimos quanto a suprir a diferença entre a receita e a despesa previdenciária.

Ou seja: a situação fiscal do Estado do Acre é razoável, estamos muito longe da tal “calamidade financeira” que o governador ameaça decretar caso a reforma da Previdência não seja aprovada.

Sendo assim, não há justificativa para reter recursos nos cofres públicos por um período tão longo de tempo. Quando o consumo do governo e os gastos públicos são baixos durante um período muito longo, isso gera desaquecimento da economia, queda na arrecadação de receitas tributárias próprias, desemprego e recessão. E é exatamente isso o que está acontecendo no Acre, neste início de governo Cameli.

É preciso, no Brasil e no Acre, corrigir o rumo das coisas para retomarmos o caminho do crescimento e do desenvolvimento econômico e social, com respeito e valorização da pluralidade, do multiculturalismo e do meio-ambiente. Para isso, é necessário investir em modernização da gestão pública; promover o uso racional dos recursos naturais; e investir em ciência, tecnologia e inovação como condições básicas para a geração de emprego e para o desenvolvimento econômico em nosso país e em nosso estado.

A falência do Estado: racismo e machismo MATAM

A falência do Estado: racismo e machismo MATAM

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*Por Keka Bagno

29 de maio de 2019. Mais um crime evitável. Mais um homicídio evitável. Estamos falando da brutalidade ocorrida em Planaltina de Goiás (Brazilinha). Quatro crianças negras, sendo três meninas, foram torturadas. Uma das meninas veio a óbito e a mais nova está internada em estado grave. Os agressores são um jovem de 19 anos e uma adolescente de 17 anos. A adolescente é tia paterna das crianças. O pai e a mãe das vítimas estão encarcerados, por possível tráfico de drogas. Possuem entre 25 e 30 anos. São negros e pobres. Moravam em Planaltina/DF.

A justificativa da violência é que as crianças foram pedir comida para a vizinha e o jovem sentiu-se ofendido. Estou falando de uma família que estava em situação de miséria. Estou acusando o Estado de ser negligente em suas políticas públicas. Quero que todos e todas nós saibamos que fazemos parte. É a nossa falência e também do Estado.

O que leva uma adolescente e um jovem a essa crueldade? Por que as crianças estavam sob os cuidados de uma adolescente e um jovem e sem qualquer acompanhamento dos serviços de proteção, como o Conselho Tutelar? Por que seu pai e sua mãe estavam presos por possível posse de quantidade irrisória de maconha? Por que essas crianças estavam passando fome?

São essas e inúmeras outras questões que não saem da minha cabeça. Convido vocês a refletirem sobre as violências invisibilizadas, naturalizadas que chegam a outras violências. O racismo e o machismo são transversais a essa barbárie. O nosso “vitimismo”, como somos acusadas diariamente pelos conservadores que hoje governam o nosso país, o estado de Goiás e o Distrito Federal, não foi suficiente para que salvasse oito vidas. São quatro crianças, uma adolescente e três jovens. Não me venham acusar de ser defensora de “assassinos” porque vocês também fazem parte.

Sim. É nossa responsabilidade coletiva com aqueles e aquelas que passam fome, que estão em situação de miséria. Isso se chama solidariedade. Crianças e adolescentes é dever de cuidado da família, do Estado e da sociedade (art. 227 CF/88). O pai e a mãe foram vítimas de pobreza e do motivo que mais encarcera a juventude negra no Brasil: uma política de drogas falida para matar e prender pobre e preto.

Oito vidas marcadas pelo racismo estrutural que nos coloca a margem do acesso a políticas públicas de habitação, assistência social, educação, saúde e nos apresentam somente a da segurança pública repressora. O machismo que empodera o jovem a dominar às vidas das crianças como se fossem suas propriedades e torturá-las até a morte por pedirem ajuda. As mais agredidas foram as meninas.

Este crime nos apresenta como falência estatal, a não compreensão de crianças como sujeitas que possuem direitos humanos, a desproteção da rede na área da infância, a ausência de políticas públicas preventivas. Prevenção é proteção. A omissão das pessoas que viram a situação dessa família, há anos, e por algum motivo não tiveram solidariedade, mesmo que inconsciente. Nós naturalizamos a pobreza.

Entenda, você também faz parte. Falhamos. Todos e todas nós. E se não revertermos a atual conjuntura política brasileira a tendência são crimes como este serem comuns. Nossas vidas importam para eles no encarceramento em massa da população negra e nas pilhas de caixões que se formam com os nossos corpos.

Entenda, você faz parte.

 

*Keka Bagno é feminista negra, assistente social e conselheira tutelar.

Marchas da Maconha foram maiores que atos de Bolsonaro

Marchas da Maconha foram maiores que atos de Bolsonaro

Foto: Mídia NINJA

Na mesma semana que Bolsonaro marcou e convocou atos a seu favor e contra o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal, as Marchas da Maconha já tinham sido confirmadas em três cidades: Belo Horizonte, Fortaleza e Natal. Nas três capitais, os eventos da maconha foram visivelmente bem maiores.

Os atos do Bolsonaro contaram com ampla divulgação e cobertura da mídia, que tentou dizer que os mesmos eram a favor da reforma da Previdência Social e do pacote anticrime do ex-juiz e atual Ministro da Justiça Sérgio Moro. A mídia oficial sempre tenta pautar manifestações públicas e trazer as suas versões dos fatos. Os atos do Presidente da República, na realidade, atentaram contra a Constituição Federal e o livre exercício do Poder Legislativo e do Poder Judiciário. Esses são os fatos. Isso estava estampado em faixas, que a mídia tinha de mostrar para a sua farsa da imparcialidade e de forma cretina fazia um rápido registro de que aquelas manifestações eram inconstitucionais.

Mas quem não sabe que os fascistas e os ditadores sempre querem governar sem parlamento e judiciário, como se fossem reis e assim já fizeram?

Faz parte do ‘modus operandi’ fascista governar com esses poderes sob o seu jugo, com a corda no pescoço, sem qualquer tipo de debate, sem democracia. A ordem é essa e pronto! O mais incrível é que o atual parlamento foi eleito na onda do próprio presidente, pois o PSL, seu nono partido numa carreira de mais de 30 anos de parlamento, saiu de um deputado federal, ele mesmo, para 52 deputados, a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados. Ele é contra o parlamento dos seus próprios correligionários, assanhadamente apoiados pelo histórico centrão, um parlamento que nada tem de esquerda!

O Presidente da República é um cara de pau, um verdadeiro fanfarrão.

Concentrado em dois quarteirões, esse ato de autoajuda na ensolarada orla da praia de Copacabana foi um verdadeiro fracasso, com cinco equipados carros de som, um guindaste, as pessoas se espalhavam só para posar para a filmagem do helicóptero da mídia oficial.

Na Paulista, o ato seguiu o mesmo roteiro, concentrando-se no MASP e na FIESP, dispersando-se pelo resto da avenida para a filmagem de helicóptero. Quero ver é filmar do helicóptero a grande Marcha da Maconha de São Paulo, no dia 1º de junho de 2019, e mostrar que somos maiores que todo esse fascismo, onde a criminalização da maconha é parte histórica dessa política racista de Estado.

Confira algumas marchas da maconha já realizadas pelo Brasil:

https://www.instagram.com/p/Bx6HaHTBzmj/

 

A Marcha da Maconha Rio de Janeiro foi linda! ⁣⁣⁣⁣⁣⁣⁣⁣Muita fumaça, música, dança, consciência e informação….

Posted by Mídia Ninja on Saturday, May 4, 2019

MARCHA DA MACONHA 2019 – Fortaleza / CE

#maconha #legalização #marcha #rua #Fortaleza>> Marcha da Maconha Fortaleza – 2019 <<Veja como foi a 11ª caminhada pela legalização da maconha em Fortaleza.

Posted by Nigéria on Sunday, May 26, 2019

 

Marcha da Maconha em Natal/RN | 26 de maio de 2019 | Foto: Alicia Patriota

https://www.instagram.com/p/Bxn6gMVBHqR/

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A Marcha da Maconha de Brasília chegou a mais uma edição no Distrito Federal. Pela descriminalização da Maconha medicinal e recreativa, a luta seguiu com o verde que representa a folha que salva vidas. Infelizmente, diferente da última edição que ocorreu em 2018, a Polícia Militar demarcou bem para que e quem serve: aos interesses conservadores. Durante a marcha, que saiu rumo ao STF, a PMDF fez diversas provocações aos manifestantes, além de agir com truculência na abordagem de muitas pessoas que participavam do ato, principalmente jovens negros. Dentre uma das revistas, os policiais abordaram um cadeirante e um homem cego, que marchavam rumo à descriminalização da Maconha no Brasil. Apesar da repressão, a Marcha da Maconha 2019 seguiu e marcou presença na luta por uma mente livre e um país mais evoluído. O Supremo Tribunal Federal iria debater a descriminalização das drogas no dia 5 de junho, mas, doi dias após aderir o pacto do governo que é contrário à pauta, o julgamento foi adiado e ainda não foi definida nova data. Fotos: @iMatheusAlves | Mídia NINJA #marchadamaconha #legalize #marchadamaconhabsb #descriminalizaçãodamaconha #descriminalizastf

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5 motivos para protestar contra os cortes na Educação

5 motivos para protestar contra os cortes na Educação

No dia 15/05, milhões de estudantes e professores foram às ruas e colocaram Bolsonaro na pior crise de seu governo até agora. Veja mais 5 motivos para ir para a rua novamente protestar contra os cortes na educação.

Foto: Leandro Godoi / Estudantes NINJA

Os cortes na Educação promovidos por Bolsonaro e Weintraub ameaçam o futuro do nosso país e atendem a interesses obscuros. Aqui estão cinco razões para você ir para as ruas dia 30/05 protestar contra eles.

Motivo 1: vários estudos importantes para o país correm o risco de parar em função dos cortes.

Os ministros de Bolsonaro fazem pouco caso dos cortes, como se não fosse algo muito grave. Eles afirmam que foram cortados provisoriamente apenas os recursos não obrigatórios. Acontece que essas despesas “não obrigatórias” incluem contas de água, luz e materiais de trabalho, como equipamentos de laboratório e de hospitais universitários.

Ou seja, são recursos sem os quais uma universidade para de funcionar.

Esse é o caso, por exemplo, da UFPR e do Instituto Federal de Hortolândia, que terão que interromper suas atividades no semestre que vem caso os cortes não sejam revistos.

Há também pesquisas que estão sendo realizadas há décadas que podem ser perdidas em função dessa interrupção. É o caso, por exemplo, de estudos que envolvem seres vivos. Além disso, como afirmou o presidente da Academia Brasileira da Ciências (ABC), Luiz Davidovich, interromper pesquisas, mesmo que provisoriamente, significa perder posições na corrida do desenvolvimento científico para outros países. Ou seja, perde-se um tempo que não é facilmente recuperável posteriormente.

Portanto, Ministro Weintraub, cortar dinheiro da educação não é a mesma coisa que deixar chocolatinhos para comer mais tarde. Tampouco é como deixar de comprar um “vestido de festa”, “uma cervejinha” ou “um churrasco”, como comparou o ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni.

Motivo 2: as universidades públicas são fundamentais para o futuro do Brasil

Pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp descobriram que o vírus da Zika pode ajudar no tratamento de tumores no cérebro. Na USP, pesquisadores do Núcleo de Estudos da Violência investigam a origem e a ascensão do PCC. Já o pesquisador da UNIFESP Ricardo Diaz, desenvolve um método inovador para o tratamento de HIV/AIDS. Assim como essas, todos os anos são desenvolvidas pesquisas fundamentais para resolver os problemas sociais e econômicos do Brasil. 99% delas são realizadas em universidades públicas. Sem isso, é impossível termos um país desenvolvido e soberano de fato.

Essas pesquisas são desenvolvidas em grande parte por estudantes de mestrado e doutorado. A chamada “bolsa CAPES/CNPq” nada mais é do que o salário do pesquisador. No mestrado, ela é de apenas R$1500 e, no doutorado, de R$2200 – valores que não são reajustados há seis anos. Para receber a bolsa, o pesquisador não pode realizar nenhum outra atividade remunerada. Além disso, não possui nenhum direito trabalhista, como férias e 13º . Os cortes nessas bolsas promovidos por Weintraub deixaram sem remuneração pessoas que já haviam sido aprovadas nos programas de pós graduação das universidades. Muitas delas já tinham largado seus empregos ou mudado de estado para se dedicar integralmente à pesquisa.

Motivo 3: esse papo de priorizar a educação básica em detrimento do ensino superior é uma falácia.

Em primeiro lugar, os cortes não atingiram apenas o ensino superior, mas também a educação básica. O governo cortou um 1 bilhão de reais destinados à compra de livros didáticos, transporte escolar, construção de creches, dentre outras coisas.

Em segundo lugar, não é verdade que as universidades gastam demais.

Ainda que o investimento por aluno seja maior no ensino superior do que na educação básica, ele ainda está abaixo do que investem os países da OCDE. Ou seja, o problema não é que há investimento demais no ensino superior, mas que há ainda menos na educação básica.

Tirar das universidades para dar para as escolas também não faria sentido porque a educação deve ser pensada como um ciclo completo já que os professores e o conteúdo do ensino básico são formados na universidade.

Também não é verdade que os estudantes da universidade pública sejam uma elite privilegiada. Mais de 70% dos estudantes das universidades federais são de baixa renda.

Além disso, com a recente adoção das cotas raciais e sociais, o perfil social das universidades públicas tem se aproximado cada vez mais da maioria da população.

Motivo 4: A justificativa econômica para os cortes não se sustenta.

Primeiro o governo disse que os cortes tinham sido feitos porque as universidades faziam balbúrdia. Depois o discurso mudou e a desculpa passou a ser a falta de recursos. Mas essa foi uma desculpa improvisada, sem embasamento técnico de qual o tamanho do rombo orçamentário, qual o impacto fiscal dos cortes, quais alternativas o Poder Executivo teria, etc.

O governo aproveitou ainda para fazer uma chantagem dizendo que os cortes só seriam suspensos se a reforma da Previdência passasse. Mas isso não faz sentido já que a suposta “economia” da reforma da Previdência viria apenas após alguns anos ou décadas.

Além de tudo, cortar verbas da educação é uma economia burra pois prejudica a capacidade do Brasil desenvolver tecnologia e resolver seus problemas econômicos a médio e longo prazo.

Como diz o dito popular, “o barato sai caro”.

Motivo 5: existem interesses obscuros por trás dos cortes na educação.

As ações das três maiores redes de ensino privado do Brasil dispararam após o anúncio dos cortes na Educação. Isso quer dizer que os chamados “tubarões do ensino” esperam aumentar os seus lucros com a precarização da educação pública.

Dentre essas pessoas está a irmã do ministro da Economia Paulo Guedes, Elizabeth Guedes, que é vice presidente da Associação Nacional das Universidades Particulares.

O governo é o verdadeiro “idiota útil” dos tubarões do ensino. Como afirmou a psicóloga Vera Iaconelli, os estudantes e professores que foram para as ruas sabiam não apenas a fórmula da água mas como fazer um tsunami para defender o futuro do país. Dia 30/05 vamos parar o Brasil novamente contra o obscurantismo e o autoritarismo. Vamos juntos!

A polarização política e o perigo à democracia

A polarização política e o perigo à democracia

Pelo Estudante NINJA Vinicius Melo, Instituto Federal da Bahia

Negação de um regime militar ditatorial ocorrido no Brasil e disseminação de um fantasma comunista, são apenas alguns dos elementos que indicam um viés antidemocrático e corrosivo dos discursos que nessas últimas eleições ganharam voz em segmentos mais conservadores, outrossim, cada vez mais tivemos representatividade das pautas feminista, LGBT, indígena e antirracista nos meios de comunicação, nas ruas e até mesmo no congresso. À medida que ambos os lados foram lutando por espaço em discussões, os discursos foram tendendo a uma radicalização e acabamos alimentando a polarização política.
Nesse ponto, é importante sabermos que o radicalismo (em pequenas quantidades) faz parte de todo movimento social e se faz necessário principalmente para quem sofre todos os dias com o preconceito, seja por sua cor, gênero, classe ou etnia. De fato, não nos sobra muito espaço para a tolerância quando estamos saturados da sociedade nos tratar com discursos de ódio e preconceitos camuflados de piadas. Mas temos que ser ainda mais fortes e não deixar cultivar o extremismo, abusando do radicalismo e deixando crescer a arrogância, dando espaço para a opressão.
O problema da polarização é que ela cria uma barreira metafísica entre as pessoas de diferentes polos. Passamos a nos reconhecer em sociedades distintas e essa falta de congruência, quando em excesso, é nociva a qualquer regime democrático.

#15M Porto Alegre/RS | Foto: Thales Ferreira/Mídia NINJA

Conforme as lutas vão se acirrando, produzimos mais diferenças e à proporção que geramos essas diferenças, produzimos a desigualdade. A disputa de poder entra em outro nível, grupos que antes pertenciam a uma mesma sociedade passam a lutar para que o estado reconheça a sua parcela como a legítima.
Ao assumir o poder, Bolsonaro e a sua cúpula hoje lutam para que a educação atenda às suas ideologias, reforçando teorias conspiratórias do guru de direita Olavo de Carvalho.

Não por acaso, o Ministério da Educação se encontra no mais caótico estado. Ao conseguirem o controle das políticas para a educação, os integrantes do movimento conservador se empoderam das suas crenças e conseguem a oportunidade de disseminar com o caráter legitimador do Estado, suas crenças antidemocráticas.
Quando não existe congruência entre políticos de lados opostos a nossa democracia entra em risco, passando a se enxergar como inimigos, deixam de aceitar o direito de existência de uma oposição ideológica e é neste cenário que regimes autoritários ganham força.
Não se enganem, a polarização é como um vírus que adoece a nossa democracia. Pouco a pouco adentra o cotidiano das pessoas e se torna socialmente aceita entre as bolhas sociais por nós vivenciadas. Precisamos encontrar uma harmonia entre as prioridades de cada grupo e superar as nossas diferenças, para o bem da nossa democracia.
Não podemos esquecer do papel fundamental que a educação tem nesse processo. Em consonância com o que Paulo Freire certa vez disse, “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”.

Cotas raciais no Brasil: história e reflexões.

Cotas raciais no Brasil: história e reflexões.

Pela Estudante NINJA Jessica Ferreira, 19 anos, Unesp Bauru

A história do Brasil em momento algum reconheceu a importância dos negros para a estruturação do país e nem o sofrimento negro que ao longo dos anos. O processo de abolição da escravatura não garantiu uma vida paritária entre as raças, visto que as diferenças políticas, sociais e econômicas permanecem presentes.

#15M Salvador/BA | Foto: Felipe Iruatã / Mídia NINJA

Cotas raciais na História

O pedido de políticas públicas que priorizem a inserção do negro na universidade é antigo, o MNU (Movimento Negro Unificado) pauta as cotas raciais desde sua fundação em 1978, já baseado em movimentos mais antigos que faziam o mesmo pedido.

Um marco para a aprovação das cotas raciais em universidades públicas foi a III Conferência Mundial Contra o Racismo, convocada pela ONU em 1997. O evento ocorreu nos anos 2000, e cada país deveria levar propostas concretas para o progresso da equidade racial, a proposta brasileira chamou atenção da mídia, levantando o tema das cotas raciais nas universidades.

O evento que aconteceu em Durban na África do Sul, foi importante para escancarar o racismo no Brasil e fomentar o debate sobre o progresso na paridade racial, onde também foi possível perceber que políticas de inclusão e diversidade seriam mais efetivas do que punição dos racistas.

O estado do Rio de Janeiro foi o primeiro a colocar a reserva de vagas para alunos oriundos de escolas públicas e pretos, pardos e indígenas na lei. Em 2003, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) foi a primeira no país a estabelecer cotas em seu vestibular, seguida pela Universidade de Brasília (UNB), primeira federal a fazer isso.

Em agosto de 2012 foi aprovada a lei de cotas no Brasil, a medida obriga as universidades, institutos e centros federais reservem metade de suas vagas para alunos de escola pública e uma porcentagem para pretos, pardos e indígenas. A aprovação da política pública veio depois de muitos anos de discussão e pressão de diversos lados.

Acesso a educação, mobilidade e direitos humanos

A educação tem como objetivo, o desenvolvimento do sujeito, garantindo o exercício da cidadania, além de ser um meio para progredir no trabalho e em estudos posteriores o que influencia as gerações futuras.

A presença de negros no ensino formal não é importante só para a democratização universidades, mas também para o próprio povo negro se reconhecer na cultura nacional e ser capaz de proporcionar debates e pesquisas no progresso da equidade racial e a qualificação no profissional que é um pilar na mobilidade social e determinante para o crescimento do país.

Vale lembrar que a política de cotas é uma ação afirmativa para a redução de danos, é uma medida de caráter emergencial e transitório, que deve sempre ser moldada conforme alteração no contexto histórico social.

O que a mudança na lei das drogas afeta em sua vida?

O que a mudança na lei das drogas afeta em sua vida?

Especialistas alertam para retorno do modelo manicomial e do agravamento do encarceramento em massa

Foto: Mídia NINJA

No último dia 16/05 o Senado aprovou mudanças na Lei de Drogas, em meio à uma semana conturbada com manifestações em todo o país contra os cortes na educação pública. Desapercebido pela opinião pública e ignorado pela grande mídia, a decisão do Congresso terá grandes impactos na vida da população, principalmente no campo da segurança pública, saúde e assistência social.

As alterações mais importantes do Projeto de Lei Complementar, de autoria do atual Ministro da Cidadania, Osmar Terra, são o fortalecimento das comunidades terapêuticas e do modelo de abstinência, e o aumento da pena de tráfico de drogas de 4 para 6 anos.

O texto aprovado pela maioria dos congressistas tramitava há quase 9 anos, e foi resgatada às pressas para endurecer a legislação antes do STF julgar a possível descriminalização do usuário de drogas no Brasil, que acontece no próximo dia 05/06.

Encarceramento em massa

Foto: Jorge Ferreira / Mídia NINJA

O Brasil possui a terceira maior população carcerária do mundo, atrás apenas de China e Estados Unidos, com 720 mil pessoas encarceradas, sendo que cerca de 1 terço delas respondem por tráfico de drogas. Neste cenário, o aumento de pena para traficantes torna-se um catalisador deste processo.

O movimento do congresso de se antecipar ao STF e criar mecanismos para evitar qualquer tipo de reversão do encarceramento em massa, mostra que há um compromisso deles em estabelecer bases para o fortalecimento dessa agenda, conservadora e populista.

“Uma lei, quando é aprovada, vem para consolidar um apelo que já é um pensamento de parte da sociedade. O que já acontece na prática é que a polícia prende pequenos traficantes com pequenas quantidades de drogas, 70% dos casos só tem como única testemunha o policial. Com essa lei o que temos é mais uma legitimação do estado para que a polícia continue agindo de maneira arbitrária”, explica Nathália Oliveira, Coordenadora da Iniciativa Negra por uma Nova Política de Drogas (INNPD).

A descriminalização do porte de drogas, que poderia amenizar esse problema, no entanto, não tem esse poder. Como o julgamento refere-se somente ao usuário e o aumento da pena foi para traficante, não há como uma coisa anular a outra. Além disso, em territórios marginalizados como periferias e subúrbios, a letra da lei passa longe da realidade vivida.

“O que acontece é que se você muda e descriminaliza uma conduta, mas  não aumenta o controle social e fiscalização sobre as ações das forças de segurança pública, nada muda”, pontua a especialista.

Modelo manicomial e redução de danos

Bloco da redução de danos na Marcha da Maconha 2018. Foto: Jorge Ferreira / Mídia NINJA

A nova lei dá protagonismo para o modelo de abstinência no cuidado com usuários de drogas, ou seja, em que não há consumo de drogas e as pessoas são retiradas do convívio social para o tratamento. Já a política de redução de danos, em que admite-se o consumo de drogas durante a recuperação, não foi sequer mencionada e deixa de ser adotada como política pública do governo federal.

Com isso, saem ganhando as comunidades terapêuticas e clínicas de internação, que entraram no SISNAD (Sistema Nacional de Políticas Públicas de Drogas) e passam a ser consideradas pessoas jurídicas, sem fins lucrativos, a fim de que possam receber mais doações, conforme justificou o relator do projeto, o senador Styvenson Valentim (Podemos/RN).

Semelhante ao modelo manicomial superado pelo Brasil há quase 30 anos, com o crescimento da luta antimanicomial em todo o mundo, retomamos essa agenda sob a batuta de Osmar Terra, ministro nos governos Temer e Bolsonaro, e principal articulador dessas mudanças, que vão em consonância com suas ações no executivo.

“Existem relatórios que apontam como uma parte significativa das comunidades terapêuticas sistematicamente violam os direitos humanos dessas pessoas. As pessoas são retiradas do seu ambiente social, colocadas nesses espaços, ficam ali por um tempo e depois são jogadas uma realidade totalmente desigual, permeada pelo racismo e sexismo, que vai empurrá-las de novo para uma situação de vulnerabilidade”, relata o Pedro Borges, do portal de mídia negra Alma Preta.

Pessoas em situação de rua nas cenas de uso conhecidas como Cracolândias tornam-se alvo dessa política, que passa a prevê internação compulsória em caso de aprovação da família ou judicial, sujeito à liberação somente sob alta do responsável médico.

“As pessoas que estão em situação de rua e Cracolândia, o risco de ser internado involuntariamente ou compulsoriamente aumenta significamente. Essa nova política acredita que só abstinência é possível e se a pessoa não quer ser cuidada ou não quer parar de fazer uso, tem que ser internada, porque são considerados sem capacidade de fazer escolhas. Isso está completamente errado”, afirma Logan.

Por trás do predomínio das comunidades terapêuticas no plano governamental, há um série de interesses econômicos de grupos que enxergam uma oportunidade de faturar com o higienismo social. Alvo de uma série de controvérsias, o orçamento chegou ao seu maior nível com Bolsonaro, que destinou 153 milhões a esses entidades, em sua maioria pertencente à líderes religiosos.

Votação no STF

Previsto para o próximo dia 05/06, o julgamento caminha em direção da descriminalização do usuário. Três dos juízes já votaram a favor da causa, no entanto a definição foi adiada há 4 anos, pelo então ministro Teori Zavaski, que pediu vista do processo, mas veio a faleceu em acidente em 2017. Seu substituto, o ministro Alexandre de Morais devolveu o projeto no final de 2018, para então finalmente vir a ter uma conclusão.

A expectativa é que a maioria da corte decida pelo menos pela descriminalização do porte de uma droga, que seria a maconha, obrigando o Congresso Nacional a definir uma quantidade mínima que separe usuário de traficante na legislação. No entanto, não é possível entender com clareza se é a constituição ou o público conservador que dá as cartas nas decisões do STF, dessa forma é imprevisível qual será a decisão.

Arte como forma de luta: Manifestações artísticas e problemas sociopolíticos

Arte como forma de luta: Manifestações artísticas e problemas sociopolíticos

Pelo Estudante NINJA Artur Nicoceli

A educação sofreu e sofre diversas alterações mediante as políticas públicas apresentadas pelos deputados que propõem o sucateamento continuo das escolas e universidades brasileiras. Para citar alguns, lembremos do reajuste e realocação das escolas públicas em 2015/2016, do desvio da merenda escolar, do congelamento de verba em 20 anos (PEC 241 ou PEC55) ou do corte de investimento nas universidades.

No entanto está dentro da raiz brasileira lutar pelos seus direitos e questionar seus governos. É quando atos e manifestações vem a tona e vemos correntes divergentes de pensamento irem para ruas em dias diferentes, mesmo que ocupem o mesmo lugar.

Um exemplo é a Avenida Paulista que se tornou marco nas lutas contra os 0,20 centavos em 2013, adverso à prisão do lula e as opiniões ditatoriais do governo Jair Bolsonaro, ao mesmo tempo, os considerados conservadores também usaram da mesma avenida para solicitar o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a volta de um governo militar, entre outras crenças.

Felizmente, há espaço que os “tradicionalistas” não conseguiram embarcar: A arte.

Mesmo que alguns artistas apoiem as opiniões retrógradas de políticos como os do PSL, seus produtos artísticos não conseguem levar uma mensagem direta. É orgânico de nossos corpos as ações como no “Festival Record” no manifesto “arte contra barbárie”.


Foto: Tuane Fernandes / Mídia NINJA

Lucas Kóka é um desses artistas que atualmente se tornou símbolo nas manifestações e ocupações das escolas públicas, ao mesmo tempo que foi campeão do “Slam da Resistência”, uma roda de poesia em que qualquer pessoa pode recitar suas angústias e receios. Koka chegou até  a competir internacionalmente, e manda: “Pois é Brasil, eu nunca tive um boot de mil, mas no sistema eu vou tentar dar uma bota, que eu quero ver meu bem, quando no ENEM eu tirar cem, eles falarem que foi cota”.

Em entrevista para a Mídia NINJA, Kóka afirma que a arte tem esse intuito de engajar a sociedade e introduzi-la a várias problemáticas. Por meio dela os brasileiros podem lutar juntos em prol de algo melhor. Sendo registrado como voz dos secundaristas, ele também comenta o  incômodo em ser esse símbolo, já que em todos os momentos, das ocupações até em suas apresentações esteve junto com alguém: “Quando eu criei a música, quem me ajudou foi o meu parceiro Fuinha e  ele não levou tanto o crédito da produção. A diferença é que hoje ele tá preso devido a esse sistema que nos empurra para baixo (…), o símbolo da luta são mãos unidas, e não rostos. A democracia centralizada não funciona”.

Outro exemplo é música “Ninguém tira o trono do estudar”, cantada pelos cantores Chico Buarque, Dado Villa-lobos, Tiago Iorc, Zélia Duncan e mais 15 artistas escrevam em apoio ao movimento de ocupação e resistência dos estudantes lançada no YouTube. Eles afirmam que o ensino deveria ser de todos, no entanto, diante das políticas públicas aplicadas é necessário que se perca o sono e continue a lutar.

O teatro também foi um ambiente que os estudantes adentraram com a perspectiva de realçar e reafirmar a truculência que eles sofreram politicamente e fisicamente durante os atos e ocupações que fizeram. A ColetivA Ocupação é formada por ex secundaristas que perceberam a necessidade de manter esse calor das ocupações e foram para os palcos apresentar “Quando Quebra Queima” uma peça que tem como preceito demonstrar o porque de sabotar as velhas estruturas.

Foto: Casa do povo

Enveredando para as ações cinematográficas a diretora Eliza Capai com produção de Mariana Genescá fez o filme/documentário “Espero tua Re(Volta)”, que conta a história dos secundaristas e universitários de 2013 até a vitória do atual presidente Jair Bolsonaro. O filme é narrado por estudantes (um deles é o próprio Lucas Kóka). O longa já conquistou o prêmio da Anistia Internacional e o da Paz no Festival Internacional de Cinema de Berlim.

Enquanto a direita está há anos na busca da conquistar por (mais) poder, sem dialogar com a sociedade brasileira, o movimento de esquerda tenta encontrar caminhos de como unificar a população por direitos, incluindo o de um ensino público de qualidade. A arte, é um deles.