Limpeza periférica: a farda que pratica o mal

Limpeza periférica: a farda que pratica o mal

Foto: Mídia NINJA

Texto por Isabela Alves

60 por cento dos jovens de periferia sem antecedentes criminais
Já sofreram violência policial
A cada quatro pessoas mortas pela policia, três são negras
Nas universidades brasileiras
Apenas 2 por cento dos alunos são negros
A cada quatro horas, um jovem negro morre violentamente
Em São Paulo
Aqui quem fala é Primo Preto, mais um sobrevivente
Racionais Mc`s, Capítulo 4 Versículo 3

Nos últimos dois dias a Favela do Moinho, localizada na região central de São Paulo, passou por momentos de turbulência e terror. Sexta-feira 20, policiais fizeram uma ação de apreensão de drogas, cerca de 200 kg, em um barraco. Ação foi motivada por uma queixa, de boletim de ocorrência, feita por um dos moradores. O boletim anunciava que dentro de um barraco havia alguém armado.

No final da ação, a polícia levou três jovens que estavam – segundo a Rádio CBN – sentados na calçada ao lado do barraco onde estavam localizados os entorpecentes, como testemunhas para a delegacia 77 DP. Ao chegar na delegacia, os detidos foram indiciados como criminosos, donos do material apreendidas. Permaneceram detidos e na audiência de custódia, realizada no Fórum da Barra Funda durante a tarde de sábado 21, a juíza Nidea Rita Coltro determinou a prisão, sem provas de flagrante e completamente contra aos depoimentos dos jovens e da polícia.

O capitão Eduardo Lima, responsável pela ação, informou à rádio CBN que “eles estavam bem nessa porta aqui que dava acesso ‘pra’ escadinha e a gente entrou por essa porta. E a droga estava condicionada nesse cômodo. Totalmente exposta, vou arriscar assim dizer que 80% da droga apreendida estava exposta no chão. Na minha opinião (em relação ao jovens e as drogas) não por conta das características, eu não posso afirmar se eu não peguei na mão.”

Além disso, os próprio jovens também estavam tranquilos, pois em todo momento pensaram que eram testemunhas de uma apreensão, e não culpados, afirmou um ativista à Rádio CBN.

Todo esse cenário de terror nas periferias, até mesmo as mais centrais, coloca novamente o debate da seletividade do encarceramento e serve de gatilho para uma mobilização geral, e não polarizada, para gritar liberdade a esses meninos. Afinal, todo camburão é um navio negreiro.

O processo de disputa de território permeia a história de nossa país. Como sabemos, desde a chegada dos colonizadores, os povos oprimidos resistem geograficamente, a luta de demarcação de terra indígenas não é só a garantia de ter um lugar para se morar, que foi roubado, mas uma certeza que uma cultura irá existir e resistir, irá passar e transpassar sabedoria para muitas e muitos. Os Quilombos também ilustram essa estratégia de luta, de se instalar em um lugar e nele lutar, defender e viver pela sua cultura e liberdade.

As ocupações centrais e as periferias têm origem na lei da falsa abolição do sistema escravocrata assinada pela princesa Isabel há 130 anos. Depois dessa lei, negros e negras não tinham empregos garantidos, muito menos moradias ou acesso aos hospitais. A população foi deixada ao abandono. Muitos voltaram a trabalhar para os antigos donos, que pagavam pouco e davam continuidade à torturas e a explorações. Tempos depois, o Estado achou uma outra forma de exterminar a população negra, desta vez, trazendo os imigrantes ao Brasil. Foi a retomada do programa de embranquecimento do país, que estava pretinho demais.

Com a vinda desses imigrantes – principalmente os japoneses -, não causaram apenas um embranquecimento pontual na população, mas também um apagamento dos polos de resistência negra. O bairro da liberdade, por exemplo, região central da São Paulo era, antes de virar símbolo da cultura oriental, um lugar de convivência negra, de rituais, músicas e resistência.

Hoje, o território é internacionalmente reconhecido como uma das maiores concentrações de população japonesa fora do Japão. Deixo claro que há importância no Bairro da Liberdade e que nenhum povo merece sofrer a favor de outro, entretanto é necessário ressaltar que os japoneses são parte de um embranquecimento institucional.

O Coletivo Crônicas Urbanas produziu um material rico sobre o apagamento negro na cidade de São Paulo, colocando que a população era a maioria dos moradores do centro, produzindo jornais, revistas, músicas e dança. Outro ponto que o coletivo coloca é a partir do bairro Bexiga, que tem como símbolo a resistência Italiana, também imigrantes. De fato, os italianos tem muito para contar, entretanto antes de ser embranquecido por pizzas e molhos, o Bexiga era lugar de samba, feijoada e sorrisos negros.

Voltando para o nosso ponto, uma vez retirados do centro, a população negra sem nenhum auxílio estatal, uma falsa liberdade, ocupou as marginalidades da cidade. Moinho não é marginal geograficamente, mas toda a sua vivência é por fora das grandes decisões e vidas dos prédios coloniais da zona central.

Uma vez colocando as pessoas na periferia, é necessário criar um mecanismos para não saírem desse lugar, não ascenderem socialmente e não terem como exercer a voz de cidadão. Por isso: encarceramento em massa. E aqui chegamos naquele dado estrondoso: as prisões estão lotadas por pessoas que poderiam estar em liberdade respondendo processo. São possíveis traficantes, possíveis vendedores, possíveis assaltantes. Todos seguem o protocolo estabelecido pela polícia: pele preta, barraco como morada.

A disputa de território nas favelas reside exatamente nesse mecanismo de encarceramento em massa. Os morros são reduto de drogas vindas de inúmeros lugares, as “facções criminosas” poderiam ocupar os prédios mais chiques, mas não, ficam na periferia fazendo o papel do estado: garantindo dinheiro, cultura e velório para os moradores. Quando a polícia entra, ou é negócio ou é furdunço. Não tem outra opção.

Quando a PM cercou a favela do Moinho com cerca de 30 viaturas, para averiguar um boletim de ocorrência, eles já sabiam que sairiam dali com alguém no camburão. Não podemos afirmar que os policiais já sabiam que as testemunhas iam virar criminosos, mas existe uma diferença de pegar 3 jovens, possivelmente negros, e 3 meninas, ou 3 senhoras ou 3 crianças. A grande chance dos jovens serem tomados como traficantes na delegacia, nos depoimentos, nos buchichos da comunidade, na mídia, é enorme. Os meninos se tornam símbolo de segurança e eficácia, importantes em ano de eleição.

A ação não foi pontual, a polícia vasculhou inúmeros barracos, apesar do delator da denúncia dizer exatamente onde se encontrava a droga e a pessoa armada (informações da CBN). O domínio do território não é só de quem mora, é de quem historicamente colocou os moradores lá.

Portanto, a ação da PM na Favela do Moinho nos últimos dias não é sem pé nem cabeça, tem uma origem histórica de higiene central, de política de embranquecimento e encarceramento. Além disso, tem uma motivação mais pontual: as eleições estão próximas e uma camada da sociedade precisa ver gente presa para se sentir segura. Transcendendo esses dois pontos, a construção do hospital privado na região da Luz irá trazer consequências devastadoras para os marginalizados, é possível dizer sim que três jovens presos sem provas, não é o começo, mas continuação de uma estratégia de disputa de território político, da máquina liberal do mundo. Fechando com Racionais:

“Periferias, vielas e cortiços
Você deve tá pensando
O que você tem a ver com isso
Desde o início
Por ouro e prata
Olha quem morre
Então veja você quem mata
Recebe o mérito, a farda
Que pratica o mal
Me ver
Pobre, preso ou morto
Já é cultural”
– Racionais MC’s, Negro Drama.

Sonia Guajajara: Pressionado por ruralistas, presidente da FUNAI pede demissão

Sonia Guajajara: Pressionado por ruralistas, presidente da FUNAI pede demissão

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O Governo Temer não para de nos dar provas de seu menosprezo pelas culturas indígenas. O episódio da vez é no dia do índio e às vésperas do Acampamento Terra Livre – ATL, o maior encontro indígena do Brasil, a Fundação Nacional Indígena (FUNAI) teve seu então presidente pressionado – o que o levou ao pedido de demissão ontem – por quem o havia indicado: a bancada ruralista. Detalhe: a FUNAI é o mais importante órgão indigenista do país, criado para proteger e promover os direitos dos povos indígenas no Brasil e hoje se transformou em um quintal dos interesses ruralistas.

Esse é o terceiro presidente em apenas 2 anos de gestão. Cabe lembrar que o primeiro nomeado, o ex-presidente Antônio Fernandes Toninho Costa, indicado e depois demitido por esse grupo parlamentar no começo da gestão, em sua saída, denunciou que o tiraram por “não fazer malfeitos”.

A FUNAI está vivendo um processo de desmonte. Loteada pelos diferentes grupos políticos ligados às bancadas ruralistas e evangélica e esvaziada de suas funções institucionais, vem experimentando uma redução drástica do orçamento e do quadro de servidores. Além disso, vivemos uma paralisação das demarcações das terras indígenas por meio de iniciativas legislativas ou medidas administrativas do procedimento de demarcação, permitindo a crescente criminalização de lideranças indígenas.

Os povos indígenas já viveram muitos capítulos genocidas em sua história, e com muita luta se mantiveram sempre na resistência contra todas as tentativas de ataques. Desde a ditadura militar, não havíamos experimentado um período tão duro e hostil. Por isso denunciamos e seguimos em luta por nossos territórios, nossa cultura e nossa existência.

#DireitosIndígenas #VamosComBoulosESOnia

Folha destila seu ódio contra MTST e MST. Discurso de ódio é crime!

Folha destila seu ódio contra MTST e MST. Discurso de ódio é crime!

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A liberdade de expressão é um direito fundamental previsto na nossa Constituição. Direito que se inscreve dentro de certos limites, também definidos na Carta Magna, e que são importantes para impedir que, sob a salvaguarda da liberdade de expressão, se propague o ódio, o preconceito e se permita que os poderosos grupos privados de comunicação imponham sua visão de mundo para a sociedade de forma despótica.

A mídia privada, no entanto, parece ignorar que seu papel social requer responsabilidade e que ela deve responder por seus erros e, inclusive, por seus abusos.

O editorial desta quarta-feira, 18 de abril, do jornal Folha de S.Paulo é para lá de abusivo. Truculentos e pueris é o título do texto no qual a Folha expressa sua opinião sobre o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e sobre o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

O texto extrapola a crítica. É um manifesto público que criminaliza a ação política de organizações que têm pautas legítimas de reparação social e de luta em defesa de direitos – também fundamentais – como o direito à terra e à moradia. Incita os seus leitores ao ódio e ao medo, à medida em que atribui aos movimentos a organização de “sangrentas manifestações populares”.

A aversão ao direito à livre manifestação é algo que está no DNA dos barões da mídia.

Mas o que eles ocultam – propositadamente – é que o sangue, quando jorra, não é pela manifestação dos movimentos, mas pela ação – essa sim truculenta – das polícias militares que reprimem com violência o movimento social.

O editorial da Folha é uma peça exemplar da manipulação da opinião. Afirmam que os movimentos não têm líderes, que houve amplo apoio popular ao impeachment, e tentam afirmar que é fantasiosa a ideia de que o Brasil sofreu um golpe.

Ora, a ruptura institucional que ocorreu no Brasil foi um golpe, reconhecido como tal pela grande mídia internacional, como New York Times, The Guardian, Washington Post e outros grandes jornais do mundo. E que só não é chamado por este nome por Folha e Cia. justamente porque foi o consórcio entre os meios de comunicação oligopolizados do Brasil que construíram toda a narrativa para que o golpe pudesse ser efetivado. O golpe é midiático, jurídico – porque contou com a operação deslavadamente política de setor do Poder Judiciário, que conduziu a Operação Lava Jato –, e parlamentar, porque contou com o apoio do parlamento mais conservador e venal da história recente do país.

As ocupações, principal ação política do movimento social que luta pela terra e moradia, sempre são tratadas como invasões para dar um tom de ilegalidade e, com isso, levar a população a se colocar contra o movimento.

Ao usar da força simbólica da imprensa e de um veículo que se auto-declara responsável por produzir um “jornalismo profissional”, para construir sua credibilidade baseada na ideia de que produz um jornalismo apartidário, neutro e imparcial, a Folha de S.Paulo manipula de forma vil a opinião pública e estimula o preconceito da sociedade contra essas entidades e contra os movimentos sociais.

Em suas páginas noticiosas, não abre uma linha de espaço para ouvir as lideranças destes movimentos – que ela taxa de não terem ideias – e não cumpre seu papel de oferecer à sociedade um espectro mais amplo de olhares sobre os acontecimentos, dando espaço para o contraditório.

Estão, talvez lá no fundo, a Folha esteja se sentido traída pelo fato de o MTST ter feito – com a ocupação do Triplex do Guarujá – o que nenhum veículo da mídia hegemônica fez desde o início de todo este processo – mostrado o interior do apartamento e, com isso, apresentar jornalismo de fato, divulgando imagens que reforçam ainda mais a tirania do discurso da mídia e da Lava Jato sobre o processo que levou o ex-presidente Lula à prisão.

Quando o jornal utiliza suas páginas para constranger, diminuir, estigmatizar criminalizar e esteriotipar movimentos que reúnem dezenas de milhares de brasileiros e brasileiras, abusa da liberdade de expressão. É isso que o editorial da Folha fez: um ataque gratuito ao movimento social, em particular o MTST e ao MST. O jornal deveria, no mínimo, conceder a estes movimentos o direito de resposta, para que eles possam se defender do discurso do ódio exalado a cada linha do texto publicado nesta quarta-feira.

Carta sobre a resistência

Carta sobre a resistência

Foto: Jorge Ferreira / Mídia NINJA

São Paulo, 20 de abril de 2018

Querido presidente Lula,

Te escrever uma carta não é fácil, principalmente neste momento difícil em que estamos vendo a democracia brasileira se acabando. Depois de ver você no ABC carregado pelo povo enquanto cantavam que “amanhã será outro dia”, eu quis te escrever esta carta pois não parei de pensar sobre os caminhos da resistência. Alguns militantes estão em um estado de desespero, eu não me encontro assim e sei que você também não. Foi possível ver que você estava sereno no sindicato dos metalúrgicos do ABC, a serenidade de quem sabe que está do lado certo da história e sabe qual o caminho que vamos percorrer. Porém, existe em mim uma dor. Uma dor que vi nos seus olhos e vejo nos olhos de muitos. A dor e a raiva que a injustiça nos causa.

A raiva de ver os poderosos atacando nossos sonhos, eles querem acabar com o Brasil e para isso vão até o fim.

Sabemos que temos um caminho para percorrer. A guerra está longe de terminar, e ela vai nos ensinar muito. Nesse momento, a palavra chave é resistência! E resistência vai além de uma única ação de um dia ou algumas horas. Resistência é uma postura para toda a vida e o povo já sabe como fazer. Resistimos na seca, resistimos na favela, resistimos na escola, resistimos ao agronegócio, resistimos ao patrão, resistimos no busão lotado… A vida do povo brasileiro é uma vida da resistência, mas agora teremos que aprender a resistir como nação, resistir coletivamente por algo maior que nós individualmente. Vamos resistir pelo futuro do Brasil, pela democracia. Você é nosso grande exemplo e líder para essa caminhada. Enquanto a direita com todo seu poder não consegue nem produzir um candidato, nós temos você como representante orgânico da classe trabalhadora. Suas ideias, sua referência e o que você significa para o povo não será nunca destruído. Ao contrário, se fortalece quando se espalha para todos nós que somos Lula também.

Ainda que nunca tenhamos nos retirado das ruas; é perceptível que, na última década, em momentos fundamentais nós tivemos dificuldade nos processos de pedagogia com o povo. Na luta contra o golpe e seu aprofundamento, por exemplo, não foi fácil desenvolver a confiança e o diálogo necessário para a organização da população. Se por um lado temos limitações no diálogo com o povo, uma delas por questões estruturais, a Rede Globo está todos os dias dentro das casas e dos trabalhos das famílias brasileiras, e desenvolveu mecanismos para manipular e convencer sobre o que quiser. Apesar disso, é uma grande vitória – e a elite tem que engolir – a maior parte do povo quer votar e confia em você e no que você representa como projeto de país, mesmo com o judiciário e mídia dizendo o contrário.

Mas ainda é pouco, precisamos desse contato direto, da capacidade de mobilizar, de caminhos para ouvir e abertura para mudar nossas posturas.

Falando nisso, a celebração sábado (07/04) no ABC, com amor, com reflexões e músicas que você escolheu, foi o ato massivo e unitário mais bonito que já vi. Aquele dia me fez pensar sobre como crescemos na década de 80, mais do que nunca devemos lembrar do que aprendemos nesse período. Precisamos usar a criatividade e a nossa sensibilidade na hora de irmos às ruas, usar a arte e a cultura como um caminho para a nossa formação política. Para seguir nosso caminho de resistência, é necessário aprofundar nossos métodos de pedagogia popular, resgatar a nossa história e ao mesmo tempo inovar nossos métodos. A construção da Frente Brasil Popular e, em especial, do Congresso do Povo, é fundamental nesse momento. Nesses espaços devemos debater os problemas de cada bairro, município, estado e do Brasil, refletir coletivamente os motivos e as soluções. Olha, temos que te enviar o que já vem acontecendo de preparação para o Congresso do Povo, já começou nos estados, têm muita coisa bonita e é importante o nosso candidato acompanhar esse processo!

Sabemos que a resistência não tem um único caminho, são milhares de formas. Esses dias circulou o vídeo de um homem sozinho tocando “Olê, Olê, Olá, Lula lá” no planalto em Brasília. Tem pessoas colocando cartazes com os dizeres “Nessa casa tem um Lula”, as cartas que você está recebendo, a organização dos atos na frente da Rede Globo, os parlamentares colocando o nome Lula, os muros pintados de Lula Livre. Cada um encontra um modo diferente de resistir, e essa criatividade e alegria do povo brasileiro é muito importante agora.

Porém, nesse momento o mais importante é conseguirmos mobilizar para a rua todos que entendem que você é um preso político e sua prisão ataca a democracia brasileira.

É fundamental ter força nas ruas para pressionar por sua liberdade e por nosso direito de escolher o presidente. A maior tarefa para a resistência é conseguir dialogar com toda a população indignada com sua prisão e levar esse povo pra rua, pro protesto e pra organização também! Tem tanta gente indignada espalhada por ai, temos que espalhar comitês de base por sua liberdade e pela democracia!

Pessoalmente, não tenho ilusões com a legalidade das instituições brasileiras e nem no autocontrole das forças militares. Eles estão semeando o ódio e babam de raiva por nossa capacidade de resistir. Estamos diante de um golpe, as riquezas do Brasil estão sendo saqueadas e alguns setores do capital internacional estão lucrando muito com isso. Eles não vão abrir brechas para a classe trabalhadora, por isso vamos ter que ter força e muita luta! Ainda que possam vir por aí dias cada vez mais sombrios, estaremos firmes. Disso que se trata resistir. Resistência significa não fraquejar diante de cenários difíceis. Temos que nos preparar, a organização popular, a ousadia e criatividade são os caminhos para essa resistência. Queremos a democratização dos meios de comunicação, uma nova constituinte que seja também capaz de revogar as medidas do governo golpista de Temer. Queremos avançar, queremos resgatar a democracia e queremos você Presidente para fazermos juntos tudo isso.

Um grande abraço, com muito carinho e muita resistência de uma jovem militante.

Artista é profissão: o palco é o lugar onde somos todos iguais

Artista é profissão: o palco é o lugar onde somos todos iguais

Foto: Isabela Alves / Mídia NINJA

Por Isabela Alves

A disputa da narrativa sempre pertenceu ao campo da arte. Agora São Paulo adormece com as narrativas corrompidas e marginalizadas. Nessa segunda-feira (16) artistas se organizaram de maneira independente, para tomar a Paulista e reivindicar o fim da ADPF 293, que coloca a profissão artista apenas como manifestação do ser, tirando o direito ao DRT, às leis trabalhistas e tudo que vem com uma profissão regulamentada legalmente. Essa mudança no entendimento de arte afeta toda uma classe de pessoas, que passam sua vida dedicadas a expressão do ser humano.

O ato contou com a presença de estudantes de arte plásticas, cênicas, musicais, literárias e outros cursos, que pintaram as mãos de vermelho, representando o sangue derramado pelo estado, e escreveram palavras de ordem no rosto, como: “arte é revolução”.

É possível ter dois temas de discussão sobre a ADPF 293 e a mobilização: quem consegue se mobilizar para chegar até a Paulista e entender o golpe artístico que estamos sofrendo? E por que justo agora é possível existir essa modificação na lei?

A primeira questão permeia um recorte de raça, classe e acesso. O recorte racial era predominantemente branco, contrastando com algumas manifestações que tivemos em São Paulo, como a de Marielle Franco, em que foi organizada por homens e mulher negras.

Esse recorte não pode ser desligado com classe, colocando em cheque com as presenças de universidades públicas, que tem como estudantes alunos de classe média e alta, que mesmo se alinhando ao pensamento de esquerda, acabam por inibir a presença de negros negras moradores de periferia.

A arte, apesar de estar presente em todos nós, tem como dominante justamente essa elite do pensamento, que ingressando na academia consegue uma espécie de ascensão artística, de uma desenvolvimento da sensibilidade erudita, deixando marginalizada as favelas e a expressão do morro.

É nítido que a periferia produz arte. O Hip-Hop como um todo, a poesia, a gastronomia, a maneira de se vestir das pessoas de favela, hoje são fortes temas de pesquisa, de mídia e de interesse do mercado. Entretanto, por que em um ato que diz respeito à profissão artista, não estava lotado de gente marginal? De morador de rua? O que faz com que apenas uma classe artística estivesse em maioria?

Talvez uma das respostas seja o lugar. A Av. Paulista é perto para Zona Oeste, Butantã, Centro, mas é longe para Zona Norte, Sul e Leste, os fundões. É caro chegar, porque o ônibus custa 4 reais ida e 4 reais volta. Como diz Leonardo Andrade , da periferia de Americanópolis, “zona sul, bairro totalmente desconhecido, cê fala cê tem que dar bairros próximos. (…) Já é difícil viver de arte e a gente provar isso através de um papel, infelizmente, E hoje eu to aqui justamente por resistência, por você ser da favela e você ter que lutar por isso, por seu sonho”.

É incômodo. Não quero tirar a importância de ser na Paulista, lugar de grande trânsito, mobilidade, que chama atenção. Porém, às vezes é necessário ir até as periferias e fazer delas um lugar de atenção e mídia. Ir e ouvir o que os artistas que não tem a perspectiva de obter carteira assinada, DRT e outros documentos, tem a dizer sobre quase ser morto por fazer rima.

É necessário nós, artistas de universidade, que, apesar de morar geograficamente na periferia, não nasceu no meio do morro, nos colocarmos no lugar de ouvintes, tem gente que precisa dizer tanto quanto nós.

“Sou MC, sou ator, sou roteirista, sou um artista independente tentando viver também (…) Moro na quebrada do Rio Pequeno, zona oeste de São Paulo (…) Eu to aqui no ato contra a ADPF 293, não só por conta do DRT, que tão querendo tirar, mas para mostrar para esse bando de playboy, que tá aqui dizendo que ta lutando pelo artistas, que também existe uma classe de artistas que é uma galera de periferia tá ligado?”, disse Felipe Gonzales, conhecido como Gonzales.

Isso nos leva para a próxima questão: por que a arte é alvo de desmonte? Pois bem, a arte sempre foi. Primeiro, faz-se preciso entender que arte não é somente uma ferramenta de emancipação, ela é a própria emancipação.

Produzir arte é de enorme perigo para um sistema que aprisiona, mata e tortura injustamente.

Nosso país vem passando por uma onda de destruição desde 1500 d.c, quando os colonizadores atracaram em nossa costa e escravizaram, estupraram e assassinaram nossos índios. Eles sim, verdadeiros artistas, que através de seus costumes, conseguiram passar um enorme legado de cultura e resistência.

Depois, veio a escravidão dos negros, que também através da arte deixaram suas marcas nas igrejas de Ouro Preto, centro de extração de ouro e de escravos, na cultura popular, na religião, na comida e na base da língua. Em todos os lugares conseguimos achar vestígios desses dois povos, que foram dizimados pelos homens brancos.

Esse sentimento de violência latente e patente não deixou de existir nos dias de hoje. Nosso país continua com a mesma disputa de narrativa, com os mesmo no poder: homens brancos que tiraram uma mulher da presidência, matam mulheres negras representativas, prendem homens negros injustamente, prendem um ex-chefe de Estado injustamente, torturaram jornalistas e manipulam a população. Homens que acreditam que através do racismo, machismo e homofobia será possível limpar a nação.

Muitos de nós, artistas, somos as sujeiras do sistema. Por essa lógica higienista, que tira moradias de pessoas, que não concede terras, que não aprova o aborto nem as drogas, é possível colocar a arte em um campo ainda mais menosprezado, em uma relação de apenas manifestação do ser.

Arte não é apenas manifestação do ser, a arte em si, feita principalmente por minorias, é o ser. É aqui que se respira em meio a balas perdidas.

A sobrevivência dos povos torturados pelos colonizadores, das mulheres, das minorias políticas, se mantém pela arte e com a arte. Por isso que querem tirá-la da perspectiva da profissão, para nos matar aos poucos.

Para não perder as esperanças, palavras de Eliná Coronado, mestre dos palcos há 40 anos, companheira de Augusto Boal na criação do teatro do oprimido: “Porque que eu estou aqui hoje? Porque isso é trabalho que exigiu estudo de nós (…) Existe tempo de preparo para poder entregar o trabalho bem feito como qualquer outra profissão (..) Tem gente que acha que não tem o que fazer, não sei que propósitos tem, talvez interesses econômicos, escusos, que quer nos tirar esse direito, estou aqui por isso, ao lado da garota para que vocês tenham ânimo, força, para que vocês não desistam nunca (…)”

Agora que Lula está preso…

Agora que Lula está preso…

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Agora que Lula está preso e nenhum outro político de larga envergadura está (e nem estará, a exceção do cleptomaníaco do Sérgio Cabral e do psicopata do Eduardo Cunha) a coxinhada vestida de canarinho e seguidora de patos de borracha infláveis (o que tem de pior no universo da direitalha brasileira), que fica buscando argumentos e justificativas para todo tipo de abuso e arbítrio praticado pelos seus, afirmam que Temer, Jucá, Padilha, Aécio, Alckmin, Serra etc só não estão presos porque detém “foro privilegiado”.

Pois bem. Alckmin não mais detém foro privilegiado, pois acaba de renunciar ao cargo de Governador do Estado de São Paulo para se dedicar a uma pretensa pré-candidatura à Presidência da República. Com ele, mais quatro governadores de estado, todos citados em investigações de corrupção, estão sem prerrogativa de foro, pois se encontram igualmente afastados, por conta da legislação eleitoral. E o que aconteceu? Em 11/04/2018 o STJ remeteu investigação sobre Alckmin, no âmbito da Lava-Jato, para a Justiça Eleitoral de São Paulo.

Detalhe: isso ocorre na mesma semana em que Lula é mandado a prisão, de modo semelhante ao que já tinha ocorrido com Serra, que teve processo arquivado, por prescrição, no mesmo dia em que o TRF-4 confirmava a sentença em desfavor de Lula…

Sigamos: FHC não detém foro privilegiado há mais de uma década. Mas, detém a posse (é, no mínimo, usufrutuário) de um apartamento na Avenue Foch, em Paris, que supostamente ganhou de “presente” de empreiteiros e que custa umas 50 vezes mais que o valor do tal triplex do Guarujá, para cuja compra ele teria de acumular o salário de Presidente da República e de professor universitário por uns 200 anos… E não está preso. Aliás, nunca foi sequer investigado, nem julgado, o que dirá condenado…

E não o foi (e nem nunca o será) porque faz parte de uma elite corporativista, que se protege de tudo e de todos: neto de marechal e filho de general do Exército, foi professor universitário. Lula é pobre, nascido e criado pobre. Por ter sentido a dor e o sofrimento da fome e da miséria, foi o que mais fez pelos pobres.

Mas, tem gente que prefere defender aqueles que lhe oprimem do que se libertar dos grilhões que lhe prendem, física e psicologicamente…

Ficam repetindo, igual papagaio, os mantras que são vomitados pela imprensa familiar, tradicional, conservadora e sonegadora de impostos do país, associada às forças dominantes da sociedade, em conluio com parcela viciada do Judiciário, Ministério Público e Polícias.

Ante um absurdo jurídico-midiático, preferem se valer do argumento de autoridade do que da autoridade do argumento: “se você acha que entende mais de direito e de processo penal do que 01 juiz federal, 03 desembargadores federais, 05 ministros do STJ e 06 ministros do STF então corre para o próximo concurso porque você é um gênio perdido do direito brasileiro.” Risível, de tão ridículo…

Afirmam que aplaudem a prisão de Lula  porque defendem punição para todo e qualquer corrupto, independente de partido.

Mas, não entram no mérito dos abusos de autoridade, da carência de provas e das ilegalidades, formais e materiais, cometidas nos processos contra Lula (nem têm capacidade para isso) e não ousam vestir suas “amarelinhas”, bater panelas ou sair às ruas em protesto quando as notícias de corrupção ocorrem em desfavor dos seus.

Querem enganar quem? Biltres, infames, pusilânimes…

Nós, feministas afrolationamericanas

Nós, feministas afrolationamericanas

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Por Tainá de Paula, arquiteta e urbanista

Entendo-se os fatos políticos como o incêndio da Triangle Shirtwaist Company ou as jornadas das mulheres Russas em março de 1917, as reivindicações das mulheres acumuladas ao longo dos anos continuam sendo significadas. As mulheres se colocaram como agentes políticos na sociedade, tensionando mudanças e criando fatos histórico-políticos paradigmáticos, desde o sufrágio, passando pelo enfrentamento ao racismo de Rosa Parks, ou se inserindo no cenário político dominado pela lógica patriarcal como Antonieta de Barros.

Nesse momento faz-se necessário uma breve janela sobre o que defendo aqui como política, haja vista que nossa mera existência já é um fato político. O que é fundamental dissociar aqui é o estado de representação eletiva e mais: é condição sine qua non entender que todo ente político é o conjunto de condutas e ações que constroem sua vida política, relevante ou não em seu tempo. Afinal de contas, o “fazer política” é, antes de mais nada, uma concertação entre pares e a capacidade de promover agendas e consensuar pautas oriundas de um projeto político maior, que pode perdurar ou se esvaziar de acordo com sua capacidade ou não de transformação social, cultural e econômica.

Isto posto, é importante entender também que o(s) feminismo(s), apesar de presente na agenda neoliberal desde as sufragistas, têm no Brasil grande trajetória com o campo da esquerda, e mais ainda com a discussão classista e emancipacionista desse campo. O feminismo marxista, presente em lideranças femininas do antigo Partido Brasileiro ou do atual PCdoB na figura de Jandira Feghali, se enraíza até hoje dentre os partidos que compõem este campo, e é importante entender a gênese dessa estrutura.

A partir do final da década de 1960, início da década de 1970, a tríade gênero, raça e classe ganham força no Brasil, reverberando nacionalmente vozes como Angela Davis e Bel Hooks. Na década seguinte, os movimentos sociais invadem os partidos principais do processo de redemocratização do país, e com o movimento de mulheres negras não é diferente. A figura de Lélia Gonzalez, filiada ao Partido dos Trabalhadores, propõe uma agenda feminista afrolatinoamericana dentro do partido. O “pretoguês” de Lélia propõe uma narrativa preta e uma forma feminista no fazer político.

Incomodada com a estrutura partidária que invisibiliza as diferentes identidades, Lélia se desfilia do partido, tentando ainda se organizar junto ao PDT, mas termina seu ativismo na docência.

(…) Caro companheiro. Pelo fato de discordar das práticas desenvolvidas pelo PT/RJ (expostas em carta dirigida ao companheiro Lula, datada de 07/11/85), sobretudo no que diz respeito ao estreitamento de espaços para uma política voltada para as chamadas minorias, peço meu desligamento do PT, declarando ao mesmo tempo, que estou encaminhando minha filiação ao PDT, onde acredito poder melhor trabalhar em termos de implementação da política supracitada (…).

Trecho de carta de desligamento do PT de Lélia Gonzalez, em 1985.

Apesar de figuras femininas representativas no campo político, nomes como o de Lélia Gonzalez, Benedita da Silva, Luiza Erundina são exceções à regra. Os partidos políticos do campo da esquerda ainda não alcançaram a equidade de narrativas e de pautas, ainda classificando o feminismo como uma pauta identitária menor frente a uma suposta mudança estrutural no sistema de produção por exemplo, ou a uma luta de classes “superior” fechada em si mesma.

A partir da Primavera das mulheres e das jornadas pelo Fora Cunha em 2015, partidos políticos reativam a necessidade de pactuação de suas agendas com suas mulheres. Afinal, percebe-se publicamente mais uma vez no fio condutor da história que as mulheres são capazes de criar fatos políticos, e um protagonismo histórico que diuturnamente lhes é ceifado no cotidiano da vida público-política. Partidos como o PSOL, veem um crescimento de sua agenda feminista e um levante de mulheres internas e externas ao partido reivindicarem não só o protagonismo sobre seus corpos mas também a condução das práticas decisórias intra partidárias.

É portanto evidente afirmar que cada vez mais se faz necessária uma articulação suprapartidária de mulheres na política, uma vez que todos os partidos (incluindo os do campo da esquerda) se organizaram de modo a subalternizar as pautas específicas e a narrativa das mulheres. Afinal, para além do essencialismo que nos define enquanto corpos (ou que tenta nos definir), quem poderia propor uma revolução nos modos de vida e de produção? Os mesmos que partem de um sistema milenar patriarcalizado e vertical em relação às mulheres? Como propor revolução ao povo, se parte dele continuará subjugado (no caso nós)?

A eleição de Marielle Franco com um total de 46.502 votos na cidade do Rio de Janeiro é parte sem dúvida do levante feminista em curso, que alavanca o debate sobre a ausência de mulheres na política e reforça a possibilidade concreta de se estabelecer um mandato feminista atrelado a um projeto político não-essencialista, empenhado na supressão das desigualdades do exercício do poder entre gêneros.

Nesse sentido, Marielle se revela como um novo grande fato político que pode, assim como em outros momentos de nossa história, reorientar paradigmaticamente a forma como as mulheres se localizarão no cenário político. Relembrando a notória ex-escrava Sojourner Truth em seu discurso de 1851:

(…) Se a primeira mulher que Deus (sic) fez foi forte o bastante para virar o mundo de cabeça para baixo por sua própria conta, todas estas mulheres juntas aqui devem ser capazes de conserta-lo, colocando-o do jeito certo novamente. E agora que elas estão exigindo fazer isso, é melhor que os homens as deixem fazer o que elas querem.(…)

É preciso estar atentas para as estruturas que nos dividem e que nos distanciam da possibilidade de estarmos unidas. Eu, como boa feminista negra radical e anticapitalista, acredito que os partidos são o meio, não o fim para nossos intentos. Que sejamos capazes de nos tornar Marielle Franco e garantir que sua figura política se configure no estopim de um levante afrolatinoamericano feminista, como previu Lélia Gonzalez e como foram tantas outras mulheres, algumas citadas aqui.
Avante.

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Referências:

BORGES, Rosane. Feminismos negros e a renovação política do “Dia Internacional das Mulheres” In: “Dossie: Feminismo e política“, Blog da Boitempo, 8 de março de 2016.

CARNEIRO, Sueli. Enegrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. São Paulo, 2001LIMA, Daniela. “Às que vieram antes de nós: histórias do Dia Internacional das Mulheres“. In: “Dossie: Feminismo e política“, Blog da Boitempo, 7 de março de 2016.

GONZALEZ, Lélia. “Por um feminismo afrolatinoamericano.” Revista Isis Internacional. (8), out. 1988.
http://www.projetomemoria.art.br/leliaGonzalez/vida/tomando-partido.jsp

Liana Cirne: Pelo  direito das mulheres terem nome

Liana Cirne: Pelo direito das mulheres terem nome

Ilustração: Doaa Eladl

Ontem a Folha de São Paulo publicou uma matéria sobre a neta de Miguel Arraes e sobre a prima de Eduardo Campos.

Reprodução

O nome da neta de Miguel Arraes e prima de Eduardo Campos é Marília Arraes. Marília era filiada ao PSB e rompeu com a legenda no momento em que a sigla passou a posicionar-se a favor do golpe. Filiou-se ao PT num momento em que a maioria das pessoas fazia o movimento inverso, de abandonar o partido de Lula.

O nome de Marília começou a ganhar projeção para uma candidatura própria do PT ao governo de Pernambuco no ano passado. Marília conquistou corações e mentes.

Alguns adversários – todos homens – ainda tentaram dissuadir a militância petista. Queriam fazer crer que o momento não era adequado para lançar o nome de Marília e que o caminho desejado por Lula seria uma aliança do PT com o PSB em Pernambuco. Não foi difícil perceber que a pressão interna pela aliança era, antes de tudo, uma disputa para que alguns nomes da cúpula dispusessem da estrutura do governo do estado, hoje nas mãos do PSB, para suas campanhas individuais.

A tese da candidatura de Marília acabou colocando no cabo de guerra duas forças antagônicas: de um lado, o caciquismo de alguns dirigentes; de outro, o empoderamento da militância de base.

 

Marília mostrou que não era bela, recatada e do lar. Resistiu a todas as pressões para desistir da candidatura, que não foram poucas. E caminha triunfante para vencer mais essa batalha.

Sendo candidata, Marília já mostrou nas pesquisas que tem grandes chances de ser a primeira governadora mulher de Pernambuco. Seus resultados são excelentes em todas as regiões e ela aparece em primeiro lugar na capital.

Mas isso não foi suficiente para que a Folha de São Paulo lhe desse um nome. Dentre as pérolas do jornalismo machista, consta que Marília não cozinha quase nada, que dança algum forró e que cumprimentou o jornalista Vinicius Torres Freire com um beijo e com um abraço. Vinicius chega a confessar que pressionou Marília a falar mais da sua vida pessoal.

Por alguma razão, nosso jornalismo parece ignorar que mulheres têm nome.

Há pouco tempo o mesmo aconteceu com Antonia Pellegrino. Antonia é roteirista, militante feminista, escritora, documentarista. Mas a Veja a apresentou como namorada de Freixo.

Antonia reagiu e levantou nas redes sociais a polêmica sobre a naturalização da invisibilidade das mulheres.

Nós temos nome. Temos biografia. Não é nossa posição na vida dos homens que dá significação à nossa existência e ao nosso papel político.

Nos chamem pelo nome.

Querido Lula, por Margarida Salomão

Querido Lula, por Margarida Salomão

Foto: Mídia NINJA

Brasília, 17 de abril de 2018

Hoje completam-se dez dias. Dez dias desde que nós, assumindo a missão por você confiada, temos sido suas pernas, seus braços, sua cabeça, seu coração. Dez dias de milhões de Lulas, espalhados Brasil afora.

São dez dias de acampamento, dez dias de “bom dia Lula!”, de “boa noite, Lula!”, de “Lula livre!” São dez dias de militância mostrando a sua cara, a sua força.

Em Juiz de Fora, minha cidade, é bonito ver diversas janelas, em diversos prédios, diversas ruas, exibindo cartazes de “aqui mora um Lula”.

Em Curitiba, dá orgulho ver o ânimo da moçada do acampamento. Apesar de todas as dificuldades, o pessoal dá exemplo, organizando as atividades, dividindo as tarefas, mantendo as barracas e as ruas limpas. E estamos com outros acampamentos, em Fortaleza e em Brasília.

Ontem, no Guarujá, o MTST ocupou o tal do triplex. Se a Justiça disse que é seu, nada mais justo que o povo (sem medo) ocupe, não é mesmo?

Em São Paulo, o PT realizou uma baita conferência de comunicação, também inspirada numa tarefa proposta por você. Aliás, nas redes, nossa militância tem cumprido um importantíssimo papel, furando a bolha da grande imprensa burguesa.

Domingo a Folha fez um malabarismo danado para vender a ideia de que havíamos caído nas pesquisas. Mas nossa militância é atenta e inteligente. Minutos depois de divulgado o Datafolha, já tínhamos todos os dados em mãos e já havíamos denunciado todas as inverdades divulgadas pelos jornalões.

Aliás, nossa candidatura segue de vento em popa. Sua liderança nas pesquisas é tão consistente que até em São Paulo estamos na frente. Na capital e no estado.

Segue firme e forte nosso plano L, plano Lula. O partido está mais do que nunca unido, trabalhando de modo solidário para denunciar o caráter político de sua prisão, agindo de forma dedicada para fazer com que você vá de Curitiba diretamente para Brasília, para o Planalto.

Segue firme e forte nosso plano de unificação as esquerdas, contra o fascismo, pela democracia, pela sua liberdade. O Boulos deu um verdadeiro show no sábado, em Lisboa. A Dilma já passou pela Espanha e está agora nos Estados Unidos. Logo logo a Manuela também irá fazer o mesmo. O PDT, o PSB e o PCO também têm sido grandes companheiros, sem titubear em chamar de prisão política o seu encarceramento.

Hoje completam-se dez dias, Lula. Dez dias desde aquele emocionante discurso, junto ao Sindicato dos Metalúrgicos. Dez dias desde que a gana justicialesca de Curitiba teve que se dobrar a uma narrativa que você que definiu, não eles.

Por coincidência, hoje também se completam dois anos desde que o golpe teve sucesso na Câmara. É terrível perceber o quanto sofremos de lá para cá, quantos dissabores provamos. Mas é inegável que saímos das cordas. É inegável que o abatimento de então transformou-se, já não existe mais.

Hoje ocupamos as ruas para pedir democracia. Ocupamos o carnaval para gritar “Lula presidente”. Ocupamos os muros para dizer “Lula livre”. Ocupamos as praças para questionar “quem matou Marielle?” Ocupamos as camisetas da juventude para bradar que não aprisionarão os nossos sonhos.

Estamos aproveitando até os shows do Chico para fazer campanha.

Hoje não se completam dez dias de sua prisão, querido Lula. Hoje completam-se dez dias de que somos milhões de Lulas.

Milhões de Lulas fortes e impávidos como você tem sido, em todas as ocasiões, desde que ousou desafiar a ditadura para liderar as greves nos anos 70, da qual nossa democracia foi filha.

E mais uma vez inspirados em seu exemplo, estamos prontos para, em outubro, restabelecer a democracia no país.

Até muito breve, Lula.

Os 4 objetivos da Lava Jato, por Frei Sérgio

Os 4 objetivos da Lava Jato, por Frei Sérgio

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Por Frei Sérgio Antônio Görgen ofm

A Lava Jato, quando foi criada nos Estados Unidos, delegou tarefas à globo e ao Judiciário e traçou quatro objetivos, claros, diretos. Todo o resto, firula e jogo de cena.

1º Objetivo – Destruir a Petrobras, a indústria nacional e entregar o potencial energético nacional, especialmente o petróleo, para as multinacionais.

Parabéns, Moro, parabéns Dallagnol, parabéns Globo, parabéns TRF4, parabéns Carmen Lúcia, Rosa Weber, Barroso, Fux, Fachin e Alexandre Moraes.

Missão cumprida. Ou QUASE cumprida.

2º Objetivo – Prender o Presidente Lula e tirá-lo das eleições.

Parabéns a todos os antes citados, incluindo Folha, Band, Valor, et allii.

Missão cumprida. Ou, também esta, QUASE cumprida.

O homem está atrás das grades, embora longe de estar preso. E está mais livre que nunca, disposto a enfrentar o próximo pleito, percorrendo com suas ideias milhões de lares.

3º Objetivo – Retirar a massa do povo brasileiro das decisões da política nacional.

Missão NÃO cumprida. Nesta “deu ruim”. Estão dando com os “burros na água”. Alguma coisa não funcionou direito. A “vênus platinada” está perdendo a capacidade de manipular a todos o tempo todo. O judiciário cada vez mais desMORaralizado.

E o povo está indo às ruas, não se subordina, se organiza, quer Lula, quer a Petrobras e o Petróleo de volta, não quer entregar a ELETROBRÁS, não quer dar a água de presente, quer uma Nação para si, solidária com os povos do mundo, sem submissão aos interesses do grande capital internacional.

4º Objetivo – Teve um quarto objetivo, proposto pelos parceiros nacionais e aceito pelos americanos: proteger a “fauna” TUCANA dos jatos da lava jato.

Missão cumprida. Mas com um problema: precisam ficar confinados, não conseguem sair às ruas, já não conseguem voar.

Com o terceiro objetivo não alcançado e com o quarto obrigado ao confinamento, os dois primeiros correm perigo e podem ser alterados.

Força povo, força organizações populares. Inteligência e estudo, também. Enfrentamos um inimigo que, além de forte, é inteligente e preparado.

Só as lutas e o povo nas ruas muda uma Nação e impõe derrotas aos opressores.

Não queremos mais cadeia e punição

Não queremos mais cadeia e punição

Ilustração de Bruno Debize da Motta

Texto Por Áurea Carolina e Cida Falabella

Nesta semana, completa-se um mês da morte de Marielle Franco e Anderson Gomes. Seguimos sem respostas. Mulher, negra, mãe, bissexual, cria da favela da Maré, Marielle Franco dedicou sua vida às causas democráticas, pelo fim de todas as formas de violência. Quinta vereadora mais votada no Rio de Janeiro, Marielle levantou sua voz – e de tantas mais – pelos direitos das periferias, das mulheres, de negras e negros, da comunidade LGBT, das juventudes periféricas e suas famílias, do povo trabalhador. Pouco antes de ser assassinada, Marielle havia denunciado abusos praticados pela Polícia Militar.

Tentaram silenciar uma mulher gigante, mas a sua morte fez amplificar o nosso grito e aumentar a nossa força para seguir lutando por outra sociedade possível, a começar pela transformação do próprio modelo de segurança pública.

Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2017, sete pessoas foram assassinadas por hora em 2016, totalizando 61.283 homicídios, o maior número já registrado no País. Apenas 8% dessas mortes foram investigadas. Temos a terceira maior população carcerária do mundo – de acordo com o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) de junho de 2016, já são mais de 700 mil pessoas encarceradas no Brasil, sendo 64% negros. Tipicamente, são jovens negros, pobres e de baixa escolaridade. A cultura do medo é parte decisiva dessa engrenagem, que se difunde também por uma abordagem midiática da violência que é, via de regra, racista e sensacionalista.

A persistência da violência é a demonstração mais óbvia de que o atual modelo de segurança pública, baseado em repressão militarizada, é ineficaz.

São numerosos os problemas, a começar pela seletividade na aplicação das leis. A falta de rigor na apuração dos crimes, o racismo institucional, a política proibicionista de drogas e a truculência policial, que gera medo ao invés de confiança, também devem ser levados em conta quando discutimos a falência do modelo.

Quando pensamos na morte de Marielle e do motorista Anderson, temos que colocar toda essa realidade na balança para sermos coerentes com as nossas ideias e dizer: não, não queremos mais cadeia e punição. Isso não significa que não queremos justiça. Queremos que o caso seja rigorosamente investigado e os culpados responsabilizados. Mas queremos também, sobretudo, enfrentar esse Estado penal genocida. Queremos outro modelo de segurança pública, capaz de defender a cidadania e os direitos humanos para todas as pessoas.

Há prioridades urgentes para uma política de segurança cidadã: o investimento sistêmico na prevenção à violência, por meio de políticas sociais integradas; o fim das parcerias público-privadas nas prisões, porque é inadmissível que os presos sejam tratados como mercadorias lucrativas; o controle externo sobre a ação das forças policiais, com participação da sociedade civil; a legalização das drogas; a desmilitarização das polícias; a valorização profissional dos policiais; a humanização do sistema prisional.

Apelos por mais repressão e por mais prisões apenas reforçam um modelo penal seletivo, injusto e punitivista, que diz quem deve e quem não deve ser punido com base em cor, gênero e classe social.

É a naturalização da violência estatal que permite a morte de outras tantas Marielles, Cláudias e Amarildos todos os dias. Vamos honrar o nome de Marielle, que nos mostrou que uma atuação comprometida na política institucional vai muito além da representação: é uma chance de responder coletivamente aos problemas que nos afetam, denunciando a opressão e os privilégios daqueles que se consideram os donos do poder.

Lula: Prisão Arbitrária e Política

Lula: Prisão Arbitrária e Política

Foto: Mídia NINJA

Coluna por Leonardo Nader

Há como alguém pôr a mão no fogo pela inocência de Lula? Claro que não. Acho que mesmo os mais entusiastas estariam dispostos a aceitar uma punição justa por um crime comprovado. Não creio ser possível a convicção férrea de sua inocência; até porque questiono quem diz ter certeza que ele é culpado: com base em quê? Quantos leram as 36.000 páginas dos autos? Para a vasta maioria de nossa dividida população, quem tem convicções absolutas de culpa ou inocência, o faz com base de informações de mídia, de círculos e redes sociais. É uma base epistemológica muito frágil. Dizer que tenho plena fé na inocência de Lula seria tão intelectualmente desonesto quanto os que ululam de gozo por sua prisão.

Assim, tal como está assegurado na Constituição e nos tratados internacionais de direitos humanos, o seguro é presumi-lo inocente até que tenha sido condenado por um tribunal independente, em um processo que atenda os padrões internacionais de direitos humanos. Nesses, se incluem os referentes à independência de juízes e promotores; o respeito à presunção de inocência; a previsibilidade processual; o não-abuso de prisão arbitrária para coagir delações.

É muito mais fácil constatar, de forma técnica, que nada acima ocorreu. Foi um processo de estrelismos, atalhos, exceções e excessos criados especificamente para se adequar ao calendário eleitoral. Uma prossecução de poucas provas; dependendo de delações dúbias, com apelos à convicções, powerpoints, mídia social, jejum e preces. Um juízo caudilho, messiânico, celebrado enquanto antagonista do réu, blindado e com ar de irretocável; com ampla e documentada aparência de suspeição.

Na vigência dessas condições; a prisão de Lula é arbitrária; política. Foi desenhada na medida para impedi-lo de concorrer às eleições. A celeridade processual do TRF-4, exótica a esse tribunal, é prova cabal disso. O tal “grande pacto nacional, com supremo, com tudo”, se mostrou em vigor na última votação do habeas corpus, com o confuso voto da Ministra Rosa Weber mostrando um Supremo acovardado. É a ruína institucional batendo na porta do país.

A resistência perpassa pela esfera internacional; seja pelo Comitê de Direitos Humanos da ONU, seja pela OEA e pela imprensa internacional. A erosão de nossa democracia deve ficar evidente ao resto do mundo. Os atalhos processuais, a conduta dos procuradores e magistrados; a ofensiva midiática: nada disso passará incólume pelo mais cursivo escrutínio técnico das normas internacionais de Direitos Humanos. A esquerda brasileira deve aprender o termo “failed to meet international standards”, em bom inglês; e repeti-lo para que o mundo todo ouça.

Não choro por Lula. Tenho medo de qualquer “culto à personalidade”; seja em torno dos méritos de Lula enquanto sindicalista e presidente, ou àquele instigado pelos adoradores de Sérgio Moro. Não acho ser Lula a maior vítima dessa derrocada democrática simbolizada na sua prisão. É o povo brasileiro, e nossa democracia, que sofrerão as consequências. Não choro por Lula, mas sim pelo Judiciário desacreditado e soberbo. Choro pelo Ministério Público; cuja independência funcional estará sempre parodiada no estrelismo de Deltan Dallagnol.

Choro pelas eleições sem o primeiro colocado nas pesquisas; pela direção que nossa democracia tomará com a legitimidade do pleito sendo questionada. Choro pelos que sofrerão na resistência; aos Defensores de Direitos Humanos que sofrerão destinos piores do que de Lula; uma vez que os propósitos desse golpe se efetivarem. Choro pelo fôlego que essa prisão dará a perigosos ideólogos da truculência; a saudosistas dos anos de chumbo; e a demagogos anti-minorias em todo o país.

Choro porque serei obrigado a presumir Lula inocente nas décadas que virão; estando arruinadas as instituições capazes de determinar o contrário. Mesmo se na verdade absoluta Lula for culpado; nossa prioridade a nível de justiça, de Direitos e de combate à corrupção continuará a luta por instituições sérias e democráticas, que respeitem os direitos humanos. E, santo ou pecador; a prisão de Lula se tornará símbolo dessa ruína. Haja choro!

Como sobreviver na internet em meio ao ódio?

Como sobreviver na internet em meio ao ódio?


Aqui estão 5 dicas para sobreviver na internet em meio ao ódio!
A polarização nas redes está cada dia mais difícil. É muito complicado viver nisso sem apanhar e sofrer danos. Por isso, quero passar uma “Cartilha de redução de danos para o uso da internet” que passa 5 dicas para sobreviver nas redes sociais em tempos de ódio!

Jean Wyllys: A desigualdade que os números mostram é a desigualdade que os números escondem

Jean Wyllys: A desigualdade que os números mostram é a desigualdade que os números escondem

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O IBGE apresentou, ontem, resultados da renda da população brasileira colhidos na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, com dados de 2017. Do total de 207,1 milhões de habitantes, 124,6 milhões (60,2%) possuíam algum tipo de renda proveniente do trabalho, da seguridade social ou de programas de transferência de renda. Dados um pouco mais antigos apontam que, do total da população brasileira, 72,9% estão em idade apta ao trabalho formal, mas os indicadores continuam apontando que uma parcela considerável da população não aparece nem nos dados do desemprego, nem constam como pessoas que possuem algum rendimento regular.

Não há muitas novidades. A renda média sofreu um decréscimo quando comparada com aquela verificada em 2016, frustrando mais uma vez as expectativas que afirmavam que o mercado apenas aguardava o golpe institucional contra a presidenta Dilma para reagir, e confirmando assim os resultados positivos dos mercados financeiros a cada vez que um passo rumo à sua deposição era dado. O que vemos é a certeza de que tais movimentos eram puramente especulativos e inócuos!

Outra não novidade é o índice de desigualdade social no Brasil: o rendimento médio domiciliar nas regiões norte e nordeste foi praticamente a metade do rendimento médio domiciliar na região sul.

10% da população economicamente ativa (1,2 milhões de pessoas) concentrou 43,3% da massa de rendimentos do país, enquanto a parcela dos 10% com os menores rendimentos detinha 0,7% desta massa.

E o grupo de 1% da população economicamente ativa (124 mil pessoas) teve uma renda média mensal de 27.213 reais, 45 vezes mais do que a renda do grupo formado pela metade da população mais pobre no Nordeste.

E, para quem ainda enche a boca para dizer que Bolsa Família serve para alimentar a preguiça de quem não quer trabalhar (um argumento estúpido de quem desconhece qualquer coisa além do seu bairro abastado, mas que ainda ressoa nas rodas de conversa das varandas gourmet!), o rendimento médio, por pessoa, dessas famílias foi de 324 reais, enquanto a das que não recebiam foi de R$ 1.489. Caso não pareça claro, o rendimento médio por pessoa em uma família que recebe Bolsa Família é de dez reais ao dia, um quinto da média individual de uma família que não depende do programa de transferência de renda. Valor menor que o gasto diário com café de muitas pessoas que criticam o programa e seus beneficiados, e que muitas vezes é insuficiente para uma refeição de qualidade em muitas cidades brasileiras.

Um dado, no entanto, não aparece. Ele precisa ser esmiuçado, mas aponta onde está realmente a desigualdade. Só pode ser visto quando se analisa a renda média e as benesses governamentais ao grupo que reúne 0,1% da população. São pouco mais de 124 mil pessoas, mas que respondem por uma renda média de 10 milhões de reais ao ano. Em sua maioria, segundo especialistas, pessoas que vivem de outras rendas além do salário, como investimentos em empresas ou imóveis. E são justamente aquelas pessoas que gozam de isenções de impostos, ou por se enquadrarem em uma lei de 1995, que permite que acionistas e empresários não paguem impostos sobre a distribuição do lucro, ou por constituírem fundos que administrem seus bens, obtendo por vezes a isenção total sobre a renda obtida. Estima-se que, assim, esse pequeno grupo deixe de pagar 60 bilhões ao ano em impostos somente com as isenções previstas na lei 9249, enquanto o trabalhador que recebe mais de 1903 reais por mês é obrigado a pagar impostos sobre a renda obtida, além daqueles que já incidem sobre o seu consumo e que, por muitas vezes, representa a totalidade dos ganhos!

São essas pessoas, que compõem um grupo que reúne a quase totalidade das economicamente ativas, as mais penalizadas pela perda de direitos trabalhistas e previdenciários empreendidas pelo governo ilegítimo Temer, cujo plano de governo jamais foi submetido às urnas, mas que acabou se tornando presidente por uma cooperação entre mercado financeiro, grandes empresários e grupelhos neoliberais. A esse grupo já tão penalizado é que o governo atribui a responsabilidade por “tirar o país da crise”, por abrir mão de supostos “benefícios”. Vale lembrar que, a despeito do congelamento por vinte anos dos gastos com saúde e educação, o mesmo governo Temer deu uma isenção às petroleiras que pode chegar a um trilhão de reais em longo prazo, segundo projeções!

Esta é a contradição brasileira, que ano após ano fica oculta nos índices oficiais, como se, de fato, o grupo dos mais ricos tivesse uma renda média de 27 mil reais mensais. Se há um buraco nas contas públicas, são as benesses aos mais ricos quem precisam ser revistas. Que a conta seja cobrada de quem é de direito, a fim de não agravar ainda mais o quadro de profunda desigualdade!

Mônica Horta: Representatividade importa. E “tá na moda”

Mônica Horta: Representatividade importa. E “tá na moda”

Moda sem gênero, moda empoderada, moda feita à mão, com todas as suas preciosidades e diversidades estéticas, foram desfiladas no evento MCM – Moda Contemporânea Mineira [foto divulgação]

Representatividade é a nossa nova palavra de ordem. No mundo da moda ou fora dele, ela pressupõe mudanças importantes de perspectivas. Instiga cada cidadão a desenvolver sua própria forma de pensar, de fazer, de viver; e promove a consciência solidária com pontos de vista alternativos, na busca por soluções concretas pra problemas urgentes.

Um desses problemas é a baixa autoestima, gerada por preconceitos sofridos, ou por baixo poder de compra, ou por falta de atenção de produtores. Mas o que falta no mundo não é produto, é apreço. Apreço por si mesmo, antes de qualquer coisa.

Esse sentimento de apreço precisa ser compreendido também dentro desse processo de ressignificação que o mundo está vivendo. Tudo está em movimento. As verdades pré-estabelecidas estão sendo desafiadas.

O espírito desse nosso tempo tem se deparado com uma realidade de intolerância, e, apesar disso, ensina e estimula o respeito entre as nossas diversas ideias, mas os valores ainda estão em transição. É o momento exato de nos apoderarmos de nós mesmos.

Até as nossas necessidades estão sendo redescobertas. Todos os dias surgem novos problemas que exigem posturas pessoais firmes, e exatamente por isso, essa é a hora de definir nossas prioridades segundo nossos próprios critérios.

O evento PopPlus mostrando sua potência, e conquistando cada vez mais adeptos

O futuro é uma construção diária, e o caminho que nos trouxe até aqui não tem que ser o mesmo que nos levará adiante. Pra chegar onde se quer, há que se ter uma visão integrada, e a certeza de que, se decidirmos, será diferente amanhã. Não deixemos que quem somos defina quem queremos ser. E não, isso não é papinho de auto-ajuda não. É papo reto sobre a estética social da felicidade, porque assumir o próprio eu/estilo importa, e muito.

Talvez a real demanda não seja vestir, mas despir. Nos despir de desejos que não são nossos, ansiedades emprestadas, certezas que não importam mais. Além de possíveis peças de roupas e acessórios impostas por um sistema de condicionamento visual autoritário, que prega regras estéticas que desrespeitam a nossa identidade e nos excluem, o que mais, de fato, estamos guardando em nossos armários?

É chegada a hora de não nos mascararmos mais antes de sair de casa pra agradar seja lá quem for, dependendo de pra onde estamos indo. Precisamos assumir que ser brasileiro é ser único.

Nossos corpos estão cheios de simbologia de nossas raízes. Temos dezenas de tons de pele, traços fortes e misturados de indígenas e negros; somos baixos, gordos, e temos curvas, e cabelos “despadronizados”. Somos infinitamente diferentes entre nós, e precisamos lembrar, sempre, que diversidade protege diversidade.

Identidade brasileira com estampa exclusiva, apresentada pelo estilista mineiro Rodrigo Bessa no seu desfile durante o MCM – Moda Contemporânea Mineira [foto divulgação]

Bora seguir livremente, sem idade, sem gênero, sem tamanho e comprimento, e até sem temperatura, assim como exige o nosso Brasil, com seus multiares.

Minha alma tem se alegrado em conhecer empreendedores chiquérrimos do mundo da moda, que cada vez mais têm se apoderado de suas essências, e têm deixado tudo mais verdadeiro, mais puro, mais colorido, mais leve e funcional.

Com o pensamento “moda plural, corpos reais, beleza além de estereótipos e protagonismo periférico”, em São Paulo, o projeto social PIM – Periferia Inventando Moda, acabou de inaugurar a UniPIM, uma escola de moda gratuita que funciona dentro do CEU da Comunidade Paraisópolis, – a segunda maior favela do País -, com o apoio e parceria da USP e da Abepem – Associação Brasileira de Estudos e Pesquisas em Moda.

A marca DaMinhaCor nos conta que é a toca que tem que se adaptar ao seu cabelo, e não o seu cabelo que tem que caber na toca, saca? [foto divulgação]

Um projeto espetacular que tenho orgulho alheio e saiu na frente é o MCM – Moda Contemporânea Mineira, que foi lançado no final do ano passado em Belo Horizonte, com todos os conceitos mais ousados e inteligentes que um evento de moda poderia ter. Estive presente e me encantei em conferir a prática do que eles se propõem: “O Movimento MCM é uma rede aberta de pessoas que acredita que uma outra moda é possível, que contemple a diversidade cultural, a sustentabilidade e a inclusão social e estética” [tenho muita coisa pra falar dele, mas conto aqui em outro momento].

Também foi uma surpresa bem bacana conhecer esses dias a marca DaMinhaCor, que lançou uma touca específica pra atender a demanda de cabelos afro, e já mostrou lindamente que veio: apoiar a diversidade cultural, ser isenta de distinção de gênero, ter consciência ambiental, preço justo e voz empoderadora.

O evento PopPlus passeia pelo universo plus size com muita eficiência. Acontece em São Paulo, e reúne mais de 60 marcas de moda plus size pra todos os gostos durante um final de semana, com entrada gratuita, quatro vezes por ano. Mostra muito mais que roupa, envolvendo várias expressões culturais e promovendo super a inclusão, entre um público de cerca de 12 mil pessoas.

Quem manda no mundo e cria tendências são os indivíduos, a partir de suas próprias demandas. No querer tem poder, e é onde tudo acontece. Revolucionemo-nos.

Contatos:
Unipim
PopPlus
DaMinhaCor
MCM – Moda Contemporânea Mineira

Jandira Feghali: Lula é luta, Lula livre!

Jandira Feghali: Lula é luta, Lula livre!

Foto: Sheyden Afroindígena / Mídia NINJA

Para escrever sobre os próximos passos é preciso virar o corpo e olhar para trás, como se olhássemos uma estrada que percorremos e cujas curvas não nos permitem registrar tudo, mas as memórias fundamentais que permitiram definir rumos, alterar roteiros, ultrapassar obstáculos e chegar a importantes destinos.

Os intensos momentos vividos nos últimos dias me fizeram buscar os últimos 35 anos. Foi no início da década de 80, após liderar as greves no ABC, Região Metropolitana de São Paulo, onde uma forte base operária já mostrava sua força mesmo antes da queda da ditadura militar, que já definhava, mas ainda era capaz de exercer a violência política que lá se abateu.

A liderança da presidência daquele sindicato de São Bernardo do Campo se forjou e transformou-se em referência política no Brasil: Luiz Inácio Lula da Silva. Enfrentou a difícil negociação com os patrões, na relação capital/trabalho e liderou o movimento grevista no momento em que o nosso povo já expressava sua vontade insaciável de liberdade. Um Silva já se mostrava ali, carregando a história do migrante do pobre nordeste brasileiro, de inteligência diferenciada, liderança carismática e um discurso de imensa capacidade de mobilização coletiva.

Sua trajetória política o levou para a vida partidária, para o Parlamento como deputado constituinte, mas seu talento mostrou-se junto ao povo na luta pelo comando do Brasil.

De lá pra cá foram muitos encontros com Lula, desde sua primeira disputa presidencial em 89, passando por suas derrotas e duas vitórias presidenciais (2002 e 2006), seguindo por toda a perseguição político-midiático dos últimos anos. Aliás, essa mesma perseguição construída por agentes do Estado que o condenaram sem nenhuma prova e o encarceraram ilegalmente, com um habeas corpus negado ao arrepio da Constituição brasileira – onde estamos? Que país é este? O que farão com as cidadãs e cidadãos brasileiros?

Foi no asfalto de São Bernardo, em frente ao seu berço político, abraçado e carregado pelo povo, como foi eternizado pelas lentes do jovem fotógrafo Francisco Proner, que ele respondeu a mais recente violência política. Um povo solidário, afetuoso e convicto de sua inocência, como ele, que caminhando, atendeu ao mandado de prisão, evitando qualquer risco àquelas pessoas que resistiam à sua absurda e injusta prisão. Foi ferido o princípio constitucional da presunção de inocência, foram violados os prazos recursais, nenhum centavo ilícito foi encontrado em sua vida, nenhum patrimônio não declarado foi descoberto.  Com o mandado de prisão mais célere da história, há um INOCENTE PRESO! UM PRESO POLÍTICO!

É impossível não se emocionar!

É impossível não se indignar!

Usaram muitos instrumentos para chegar até aqui – a Grande Mídia, o capital financeiro, um vergonhoso golpe parlamentar com cara de legalidade.

Tirar Lula do cenário, impedir sua participação nas eleições,  seu retorno à presidência. Quanto medo eles têm!

E que grandeza tem o operário Lula da Silva. Nos três dias que estive no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo pude testemunhar os inúmeros abraços e beijos que eram respondidos na mesma força e delicadeza, solidarizando-se com a dor daqueles inúmeros trabalhadores e trabalhadoras que estavam ali justamente por ele. Em vez de ser apenas consolado, Lula mostrava seu gigante coração e amparava o choro de homens, mulheres, idosos e jovens, que saiam mais fortes e dispostos à luta, com altivez. Entoavam cantos e “gritos de guerra” na manifestação a todo instante.

Algumas das músicas que ele escolheu para o ato religioso feito para Dona Marisa, a quem homenageou na manhã do dia 7, falam muito dele. “MARIA MARIA”, que realça a força das mulheres; “ASA BRANCA”, que expõe a realidade do seu nordeste; “ZÉ DO CAROÇO”, que fortalece a liderança popular da favela; “APESAR DE VOCÊ”, mantendo elevada a esperança de superação; “DEIXA A VIDA ME LEVAR”, que no samba expressa a leveza do seu coração em momentos tão difíceis; “O QUE É”, onde a vida é bonita.

O brilho da relação com a maioria do povo, as manifestações dos artistas em seus shows dentro e fora do Brasil pela liberdade de Lula, as mensagens de lideranças políticas no mundo inteiro, atos que se repetem em praças de vários países, as posições de instituições multilaterais internacionais como a ONU, Mercosul, mostram que a exigência pela legalidade vai aumentar. As ocupações nas praças por todo o Brasil, o calendário de lutas das frentes nacionais, a agenda de entidades gerais, a presença política ampla junto a Lula, mostram que a resistência vai crescer.

A luta democrática e antifascista será crescente, unitária e ampla.

A luta pela liberdade de Lula não é uma questão individual, mas a luta pelo Estado democrático de Direito, pela recuperação democrática, por eleições livres em 2018.

Manifestações criativas e espontâneas se multiplicam. Os fascistas e reacionários destilam seu ódio, mas cada vez mais minoritários. A cada ameaça, caem em desgraça diante da solidariedade do povo brasileiro. Mas estamos atentos à integridade física do nosso presidente Lula e não vacilaremos neste quesito. Todas as providências serão tomadas para identificar e punir os que ameaçam.

O mundo jurídico atuará. A batalha jurídica se intensificará. A Constituição brasileira é clara.

Um Silva se levantou e comandou este país. Isto incomoda muito as elites desta nação potente de maioria negra, feminina e trabalhadora.

UNIDADE PELA DEMOCRACIA E CONTRA O FASCISMO!

#LULALIVREJÁ

Contra o fascismo: Marielle presente e Lula livre!

Contra o fascismo: Marielle presente e Lula livre!

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Marielle Franco, referência de toda uma nova geração política, foi brutalmente assassinada. Lula, principal liderança popular do Brasil, foi preso.

A execução de Marielle e a prisão de Lula estão conectadas porque são consequência direta da mesma escalada autoritária que está em curso no Brasil.

Escalada que ceifa ainda mais escandalosamente a juventude negra e periférica, no país que assassina um jovem negro a cada 23 minutos (a maioria deles vítimas de agentes do Estado, como Luana Barbosa, Claudia da Silva, os meninos de Costa Barros, Amarildo e DG).

Não denunciar a conexão entre todos esses fatos e elementos políticos é fragmentar a realidade. É o que nossos inimigos querem.

O momento da história que vivemos é de disputa política com o fortalecimento inédito no Brasil de uma nova versão do fascismo. É preciso relembrar aos mais diversos setores da sociedade que os fascistas já assassinaram socialistas, democratas e liberais, conservadores e progressistas.

Até Gilmar Mendes, o ministro do STF prócer do conservadorismo, cria da ARENA, de histórica família de latifundiários que perpetua a lógica das capitanias hereditárias no país, alertou sobre os “fascistóides”.

Será que não restam mais liberais ou republicanos autênticos no Brasil?

Ao flertar ou permitir o avanço dessa ofensiva autoritária, o dito “centro”, “sociais-democratas” podem estar sendo cúmplices de um processo do qual serão vítimas também.

E serão com certeza, pois a abertura de um ciclo político autoritário, não tem limites ou prazo para acabar depois que estiver consolidado no poder.

O autoritarismo altera a lógica da política em direção à crescente centralização do poder na sociedade.

O círculo dos que têm acesso ao poder vai se espremendo e cada vez mais, expurga sujeitos diversos, em regra, pelo extermínio de qualquer setor social que faça qualquer questionamento à ordem política, econômica ou social.

Isso aconteceu na Alemanha que elegeu Hittler e parte da própria burguesia acabou virando refém do nazismo.

Então, o último sábado (7), foi uma derrota para todos aqueles que lutam por democracia.

Acima de qualquer lei, decreto ou sentença, está a história concreta que se impõe sobre a vida de todos os seres humanos.

Nesse sentido, é verdade que ouvimos fogos  e os gritos violentos pelas janelas dos apartamentos (não à toa nas regiões de classe média ou mais abastadas das cidades, ficando as periferias em silêncio) e, sim, a prisão de Lula é mais um passo a frente dos fascistas e, portanto, uma derrota da democracia.

Mas, há resistência!

E por essa razão que não prosperaram as calúnias contra Marielle ou o discurso despolitizador propalado pelo partido das Organizações Globo de que as execuções nada tinham a ver com o partido que Marielle construía, com sua defesa consciente da intersecção de raça, gênero, orientação sexual e classe.

Marielle era uma jovem, negra, bissexual, da favela da Maré e socialista. Estatisticamente, ela tinha o dobro de chances de ser assassinada do que uma mulher branca. E atuava politicamente na favela da Maré onde 24% dos moradores vivem em condições abaixo da linha da pobreza e que registrou o quarto maior índice de aumento da mortalidade em 2017.

Contrariando as estatísticas, Mari se tornou uma liderança política forjada entre os tiros, e era a única vereadora mulher negra na segunda maior vitrine do capitalismo brasileiro. Vencedora em meio à miséria e à desigualdade de acesso a direitos. Nossa camarada entrou para a história e provocou debates e lutas no mundo todo. Seu assassinato foi um crime político.

Mas Mari virou multidão, e nós jamais a esqueceremos.

Lula foi condenado, mas permanece com 37% das intenções de voto nas pesquisas e nem mesmo as bancadas do Congresso Nacional, a mídia golpista e o impeachment conseguiram fazê-lo cair.

A prisão de Lula também foi política.

De outro lado, Lula ontem falou sobre o começo de sua trajetória política, que se deu no ano de 1968 com a sua filiação ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e, um ano depois, a eleição como dirigente do sindicato no ABC, em meio aos piores anos de chumbo da ditadura empresarial-militar.

Lula se forjou nas lutas operárias e greves populares que derrubaram o regime que proibia o direito a manifestações políticas, fechou partidos políticos, exilou, torturou e assassinou centenas de militantes no Brasil todo.

Marielle e Lula defendiam projetos políticos muito distintos, Mari era revolucionária, Lula acreditou nas instituições falidas até o último minuto.

Ambos fazem parte da história das lutas populares no Brasil e representam duas gerações distintas do processo de busca da classe trabalhadora brasileira pela construção de um projeto gestado pelos debaixo.

Compreender que a execução política de Marielle e a prisão de Lula são dois episódios tristes da política brasileira em que outra vez o setor mais reacionário avança em sua agenda autoritária é preciso.

A notícia boa é que a trajetória de ambos, ainda que muito distintas, provam que é dos processos mais duros de resistência que também renasce a força do povo para resistir.

Por isso unificar as duas lutas é tão fundamental para a esquerda brasileira.

Ivana Bentes: Lula is not the end, it’s the beginning

Ivana Bentes: Lula is not the end, it’s the beginning

Foto: Mídia NINJA

It is not neutralizing Lula that the new will emerge! One of the biggest fallacies of those who “preferred not” to position themselves along this process that began with an illegitimate impeachment and culminated yesterday with the arrest of Lula, producing a gigantic commotion and a new horizon of political configurations is the attempt to imprison Lula as “what has to disappear” to free us from “polarization”, which has to “disappear” from the political scene to release the new! What has to disappear so that other causes, patterns and forms of politics can emerge!

Myopia in this type of argument is precisely to think in a dualistic and manichean way, just like those who found in Lula the “scapegoat” for all the evils of corruption. Lula became a sign of evil being extirpated from the hysterical anti-petism and Lula the evil to be “neutralized” from the weighted, the balanced, from those who want to “accelerate” the emergence of the new!

For these, with oedipal dilemmas and conflicts, have to kill their father! The problem would be the excess of greatness of Lula who projects his shadow on the new one! Breathe relieved in the background with this prison! Now, we can reset the game.

The stupidity is to think that Lula is not exactly (was and is) one of the conditions of possibility of new that emerged from that period of a convulsing democracy that we live.

This extraordinary journey made Brazil produce new subjects of discourse: from the emergence of the potency of the hood’s cultures to the new feminisms, from the emplacement of the classic social and cultural movements (MTST, MST) to afrofuturism, the culture of pop diversity and places of speech, the experiences of the new urban bands like Fora do Eixo, the free media, etc.

There is a Lula in these new young and black leaderships that have emerged in the favelas. Marielles are part of this process and this Lula effect. It is not a cult of personality, but a complex and intricate historical processes. Where Lula is one of the hubs, intercessors, idea, concept, etc.

Lula, and the process around him, Lula-idea, Lula-concept, as intercessor and not “personality” or “messianism”, was and is the condition of possibility of the new and not the shadow that silence and prevents the becoming.

Lula has transcended the left field long ago! It no longer belongs to the PT, no longer belongs to a “party”, so the fight against its arbitrary arrest and its entire life journey is already one of those fundamental stones that has been thrown and produces waves more and more wide. In a country that is disenchanted, brutalized, violated, we can not afford the (stingy) luxury of rioting Lula.

A significant fact yesterday in São Bernardo was when the PCO, in opposition to the PT’s, lawyers and Lula’s own desire, tried to prevent him from turning himself to the Federal Police, in an event out of control, tense and pointing to this uncontrollable figure and legacy of Lula. Lula does not belong to anyone anymore!

Yesterday, after 24 hours following the free media, networks, close friends, telegram chats and whatsapp everything that happened, I could feel this enlarged, generous, extended perception of Lula and those processes that we have been experiencing in a tremendous speed.

The coming to sense of the artists, ex-militants of PT, disenchanted, family, people who didn’t give a damn about nothing! We know that the processes are complex, they bring thousands of errors, deviations, misunderstandings and all the criticisms have to be made, but none of this neutralizes the greatness and richness of this process headed by Lula.

The only time I really cried was when, after that long procession through the streets of Sao Paulo, the tiny, fragile, twin engine plane of the Federal Police took off from Congonhas, taking Lula already trapped.

But even this image was paradoxical, in the smallest space in the world, imprisoned, Lula flew over the city that gave him everything. And the prison was already a flight. #LulaLivre

Ivana Bentes: Lula no es el fin, es el comienzo

Ivana Bentes: Lula no es el fin, es el comienzo

Foto: Mídia NINJA

¡No es neutralizando a Lula que lo nuevo va a emerger! Una de las mayores falacias de los que “prefirieron no” posicionarse a lo largo de ese proceso que comenzó con un impeachment ilegítimo y culminó ayer con la prisión de Lula, produciendo una conmoción gigantesca y un nuevo horizonte de configuraciones políticas es el intento de aprisionar a Lula como ” lo que tiene que desaparecer “para liberarnos de las” polarizaciones “, lo que tiene que” desaparecer “de la escena política para liberar lo nuevo! ¡Qué tiene que desaparecer para que otras causas, pautas y formas de política puedan emerger!

La miopía en ese tipo de argumento es justamente pensar de forma dualista y maniqueísta, exactamente como los que hallaron en Lula el “chivo expiatorio” para todos los males de la corrupción. Lula se convirtió en signo del mal a ser extirpado del anti-petismo histérico y Lula el mal a ser “neutralizado” de los ponderados, de los equilibrados, de los que quieren “acelerar” la emergencia del nuevo!

Para ellos, con dilemas y conflictos edípicos, tiene que matar al padre, el estadista, el rival, tiene que matar lo que desbordó las fronteras. El problema sería el exceso de grandeza de Lula que proyecta su sombra sobre el nuevo! ¡Respiran aliviados en el fondo con esa prisión! Ahora sí, podemos poner a cero el juego.

La estupidez es encontrar que Lula no es justamente (fue y es), una de las condiciones de posibilidad de lo nuevo que emergió de ese período de una democracia en convulsión que vivimos.

La extraordinaria jornada que hizo Brasil producir nuevos sujetos del discurso: de la emergencia de la potencia de las culturas de las periferias hasta los nuevos feminismos, del emponderamiento de los movimientos sociales y culturales clásicos (MTST, MST) hasta el afrofuturismo, la cultura de la diversidad pop y de los pueblos, lugares de habla, las experiencias de las nuevas bandas y movimientos urbanos provenientes del interior del país como el Fuera del Eje, la posibilidad de los medios libres, etc.

Tiene un Lula en esos nuevos líderes jóvenes y negros que surgieron en las favelas. Marielles son parte de ese proceso y de ese efecto-Lula. No se trata de culto a la personalidad, sino de procesos históricos complejos e intrincados. Donde Lula es uno de los “hubs”, intercesores, idea, concepto, etc.

Lula, y el proceso en torno a él, Lula-idea, Lula-concepto, como intercesor y no “personalidad” y ni “mesianismo”, fue y es la condición de posibilidad de lo nuevo y no la sombra que “calla” e impide devenir.

¡Lula trascendió el campo de las izquierdas hace tiempo!

No pertenece más al PT, ya no pertenece a un “partido”, por lo que la lucha contra su arresto arbitraria y toda su jornada de vida ya es una de esas piedras fundamentales que se ha jugado y produce olas cada vez más amplias. En un país desencantado, brutalizado, violentado, no podemos darnos el lujo (mezquino) de rifar Lula.

Un hecho significativo ayer en San Bernardo fue cuando el PCO, contrariando la decisión del propio PT, abogados y el deseo del propio Lula, intentó impedir que él se entregara a PF, en un acontecimiento fuera de control, tenso y que apunta a ese incontrolable y el legado de Lula. ¡Lula ya no pertenece a nadie!

Ayer, después de 24 horas acompañando por los medios libres, redes, amigos cercanos, chats de telegrama y whatsapp todo lo que pasaba, daba a sentir esa percepción ampliada, generosa, ampliada, de Lula y de esos procesos por los que pasamos a volar en una velocidad vertiginosa.

La ficha cayendo para artistas, ex-petistas, desencantados, familiares, gente que se estaba lijando para todo! La gente sabe que los procesos son complejos, traen miles de errores, desvíos, equívocos y todas las críticas tienen que ser hechas, pero nada de eso neutraliza la grandeza y riqueza del proceso encabezado por Lula.

La única hora en que realmente lloré sentida fue en el momento en que después de aquel largo cortejo por las calles de SP, el minúsculo, frágil, bimotor de la PF despegó de Congonhas, llevando a Lula ya preso.

Pero hasta esa imagen era paradójal, en el menor espacio del mundo, encarcelado, Lula volaba sobre la ciudad que le dio todo. Y la prisión ya era un vuelo. #LulaLivre.

Ivana Bentes: Lula não é o fim, é o começo

Ivana Bentes: Lula não é o fim, é o começo

Foto: Mídia NINJA

Não é neutralizando Lula que o novo vai emergir! Uma das maiores falácias dos que “preferiram não” se posicionar ao longo desse processo que começou com um impeachment ilegítimo e culminou ontem com a prisão de Lula, é a tese de que Lula é “o que tem que desaparecer” para nos liberar das “polarizações”, o que tem que “desaparecer” da cena política para liberar o novo! O que tem que desaparecer para que outras causas, pautas e formas da política possam emergir!

A miopia nesse tipo de argumento é justamente pensar de forma dualista e maniqueísta, exatamente como os que acharam em Lula o “bode expiatório” para todos os males da corrupção. Lula tornado signo do mal a ser extirpado do anti-petismo histérico e Lula o mal a ser “neutralizado” dos ponderados, dos equilibrados, dos que querem “acelerar” a emergência do novo!

Para estes, com dilemas e conflitos edipianos, tem que matar o pai, o estadista, o rival, tem que matar o que transbordou as fronteiras. O problema seria o excesso de grandeza de Lula que projeta sua sombra sobre o novo! Respiram aliviados no fundo com essa prisão! Agora sim, podemos zerar o game, sem Lula as “esquerdas oprimidas” vão florescer : ) Sem Lula acabam as polarizações!

A estupidez é achar que Lula não é justamente (foi e é), uma das condições de possibilidade do novo que emergiu desse período de uma democracia em convulsão que vivemos.

Essa extraordinária jornada que fez o Brasil produzir novos sujeitos do discurso: da emergência da potência das culturas das periferias até os novos feminismos, do emponderamento dos movimentos sociais e culturais clássicos (MTST, MST) até o afrofuturismo, a cultura da diversidade pop e dos lugares de fala, as experiências dos novos bandos e movimentos urbanos vindos do interior do país como o Fora do Eixo, a possibilidade das mídias livres etc.

Tem um Lula nessas novas lideranças jovens e negras que surgiram nas favelas. Marielles são parte desse processo e desse efeito-Lula. Não se trata de culto da personalidade, mas de processos históricos complexos e intricados. Onde Lula é um dos “hubs”, intercessores, ideia, conceito, etc.

Lula, e o processo em torno dele, Lula-ideia, Lula-conceito, como intercessor e não “personalidade” e nem “messianismo”, foi e é a condição de possibilidade do novo e não a sombra que “cala” e impede o devir.

Lula transcendeu o campo das esquerdas faz tempo! Não pertence mais ao PT, não pertence mais a um “partido”, por isso a luta contra sua prisão arbitrária e toda sua jornada de vida já é uma dessas pedras fundamentais que foi jogada e produz ondas cada vez mais amplas. Em um país desencantado, brutalizado, violentado, não podemos nos dar ao luxo (mesquinho) de rifar Lula.

Um fato significativo ontem em São Bernardo foi quando o PCO, contrariando a decisão do próprio PT, advogados e o desejo do próprio Lula, tentou impedir que ele se entregasse a PF, num acontecimento fora de controle, tenso e que aponta para esse incontrolável da figura e legado de Lula. Lula não pertence mais a ninguém!

Ontem, depois de 24 horas acompanhando pelas mídias livres, redes, amigos próximos, a Mídia Ninja dentro dos acontecimentos, chats de telegram e whatsapp tudo o que se passava, dava para sentir essa percepção ampliada, generosa, alargada de Lula e desses processo pelos quais passamos se avolumando em uma velocidade vertiginosa.

Lula já transcendeu as bolhas e as esquerdas.

A ficha caindo para artistas, ex-petistas, desencantados, familiares, gente que estava se lixando para tudo! A gente sabe que os processos são complexos, trazem milhares de erros, desvios, equívocos, e todas as críticas têm que ser feitas, mas nada disso neutraliza a grandeza e riqueza desse processo encabeçado por Lula.

A única hora em que realmente chorei sentida foi no momento em que depois daquele longo cortejo pelas ruas de SP, o minúsculo, frágil, monomotor da PF decolou de Congonhas, levando Lula já preso.

Mas até essa imagem era paradoxal, no menor espaço do mundo, aprisionado, constrangido, Lula voava sobre a cidade que lhe deu tudo e que detonou um processo histórico e singular. A prisão já era um vôo. #LulaLivre

P.S. Essa também é a tese pernóstica defendida pelo Estadão no seu editorial pós-prisão, “enterrar” Lula: “O Brasil já não suporta mais ter o seu destino atrelado ao de Lula da Silva. É preciso virar esta triste página da História e voltar os olhos para o futuro.” Mas não existe futuro na nossa frágil democracia que não passe pelo legado, pelos acertos e erros, de Lula.

Daniel Zen: De país da impunidade a país do arbítrio

Daniel Zen: De país da impunidade a país do arbítrio

Foto: Mídia NINJA

É triste ver a corte judiciária máxima de um país decidir casuísticamente, de acordo com a face do réu, a partir do clamor e da comoção popular e não a partir da razão jurídica.

O entendimento que autoriza a prisão após decisão em segunda instância, antes do trânsito em julgado da sentença penal condenatória é uma flagrante ofensa ao princípio da presunção de inocência. Não importa se o réu é Lula, Aécio, Temer, FHC, do PT, do PMDB, do PSDB, branco ou negro, pobre ou rico, homem ou mulher, político ou não ou quem quer que seja. Tá errado, não pode.

O sentimento de impunidade da população não pode ser “compensado” com uma afronta à Constituição. Pior do que a pretensa impunidade é o abuso de prisões preventivas, provisórias e de cumprimento antecipado de penas que ainda não se confirmaram por completo. Se a justiça é morosa e o sistema recursal é excessivo, a ponto de postergar, ad infinitum, o início do cumprimento de penas, não é com o postulado do “encarceramento máximo” que se irá resolver tal impasse. Afinal, não se pode agir com farisaísmo quando estamos tratando de direitos e garantias fundamentais do cidadão.

Nesse caso de Lula, não bastasse um julgamento de primeiro grau vil, de conjunto probatório frágil, teratológico sob todos os aspectos da argumentação e da fundamentação jurídica, farsesca e cinicamente confirmado em segunda instância, ainda se suprime o direito do réu de responder ao processo em liberdade, enquanto a sentença ou acórdão não transita em julgado.

Adversários comemoram. E o fazem porque sabem que a única chance de vencerem as eleições é impedindo Lula de ser candidato. Comemoram também setores do Judiciário, do Ministério Público e das Polícias, afeitos ao autoritarismo e ao totalitarismo, incensados pelos veículos da mídia familiar, tradicional, conservadora e sonegadora de impostos do país, com seus jornalistas que atuam a la miquinhos amestrados, ao interesse do patrão, repetindo mantras do tipo “ninguém está acima da lei” ou “ainda há juízes em Brasília.”

Isso não tem nada, absolutamente nada a ver com o cumprimento do princípio da igualdade de todos perante a lei. Ao contrário: fere também tal princípio, porque demonstra que, contra uns, o tribunal é mais duro, mais rígido, intolerante. Contra outros, da sua “biqueira”, é mais flácido, complacente, condescendente.

Também não tem a ver com combate a corrupção ou a impunidade: se assim fosse, Temer, contra quem repousam malas de dinheiro e gravações comprometedoras, não estaria mais no Palácio do Planalto; Aécio, contra quem repousa pedido de propina feito a Joesley Batista, não estaria no Senado (ali mantido, aliás, pelo voto da mesma Ministra que desempatou a votação para denegar a ordem no HC de Lula); contra Lula não há gravação, nem mala de dinheiro, nem conta na Suíça ou offshore no Panamá: só delações e ilações. E foi sentenciado, considerado culpado e teve sua prisão decretada, por antecipação. Será que a lei é mesmo para todos? Será que existem mesmo tantos “juízes” assim em Brasília?

Não se faz justiça com justiçamento! Isso é coisa de milícia, não de um Tribunal que se diz Supremo.

Mas, o mundo sempre esteve repleto de exemplos de justiceiros travestidos de juízes e demais agentes da lei. Do mesmo naipe dos Moscardis, Dallagnóis e Moros da atualidade, já tivemos os Eliot Nesses, os Tomases de Torquemada e os Roland Freislers da vida. O tempo, esse sim, julgador implacável, os tem relegado ao mesmo lugar especial: a lata do lixo da história.

#LulaLivre
#LulaCandidato
#LulaPresidente

Fim da linha pra você, ex-presidente

Fim da linha pra você, ex-presidente

Por Herton Gustavo Gratto.

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Fim da linha pra você, ex – presidente ladrão.
Mesmo sem provas
bato panelas
em prol da sua condenação.
Isso é pra você aprender
que o pobre só tem direito a uma refeição.
Fim da linha pra você, metalúrgico boçal.
Isso é pra você aprender
a nunca mais fazer assistência social
com meu dinheiro
e nem se atrever a transformar em engenheira
a filha do pedreiro.
Fim da linha pra você ex-presidente aleijado.
Não é pelo triplex
que você está sendo condenado,
é pela sua ousadia
em ajudar o garçom
a virar advogado, em contribuir
pra ascensão do negro favelado
que agora acredita
que pode estudar medicina,
sair da miséria
e até conhecer a Capela Sistina.
Fim da linha pra você, ex-presidente bandido.
Isso é pra você aprender
que o nordeste deve continuar a ser esquecido
e que saúde e educação
é pra quem pode
e não pra quem quer.
Fim da linha pra você, semi analfabeto atrevido.
Graças a sua insensatez
o filho da faxineira
chamou o meu filho de amigo.
Você está sendo condenado
pela sua falta de noção
de achar que pobre é gente e
que agora pode usar aparelho nos dentes,
ter casa própria e andar de avião.
Fim da linha pra você, ex-presidente imundo.
Isso é pra você parar com essa palhaçada
de estimular a minha cozinheira
a querer ter carteira assinada.
Era só o que me faltava,
o proletariado sonhar com qualidade de vida.
Você devia saber
que essa gente nasceu pra me servir
e não pra ser servida.
Mas, você é tão inconsequente,
não enxerga um palmo diante do nariz
e fez a babá do meu caçula
sonhar que pode estudar e ser atriz,
fazer aula de inglês…
essa pouca vergonha
é resultado
da sua insensatez,
da sua irresponsabilidade desmedida.
Aprenda de uma vez que
barriga vazia
e bala perdida
fazem parte do cotidiano
dessa gente bronzeada.
Foi querer mudar o mundo e
se meteu numa enrascada.
Fim da linha pra você, ex presidente imbecil.
Você está sendo condenado
não por ter roubado,
porque isso não foi provado.
Seu erro
foi fazer história e
ser do tamanho do Brasil,
ter oitenta por cento de aprovação popular,
acreditar em igualdade
e saber governar.

Luiz Eduardo Soares: É preciso que os democratas deixem de lado suas divergências e se unam contra a prisão de Lula

Luiz Eduardo Soares: É preciso que os democratas deixem de lado suas divergências e se unam contra a prisão de Lula

O dia mais triste de nossa nossa precária democracia, hoje aviltada, exige de nós, democratas, unidade e luta.

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(1) O anti-petismo é um veneno que contagiou parte da sociedade, serviu de combustível à extrema direita, intoxicou as relações, infundiu ódio na política e a conflagrou. Por isso, mesmo não sendo petista, sou anti-anti-petismo. O anti-petismo generaliza acusações e identifica o PT como fonte de todos os males. Lembra, guardadas as devidas proporções, o antissemitismo que alimentou o nazismo. Os movimentos autoritários precisam apresentar-se como cruzadas morais para definir o Outro não como adversário no conflito natural e democrático de posições, mas como inimigo a ser eliminado.

(2) O anti-petismo se espraiou ao longo do processo que precipitou o impeachment (golpe parlamentar). Sem o amplo apoio da mídia e dos setores mais corrompidos da política, não teria ocorrido. Em nome do combate à corrupção, levou-se ao poder o comitê central da, digamos, “heterodoxia” no trato da coisa pública.

(3) O novo governo obteve apoio das elites porque se comprometeu a implementar um programa neo-liberal radical, que jamais encontraria apoio pelo voto popular. A agenda é anti-popular, suprime direitos e agride a soberania nacional.

(4) A Justiça atuou desde o começo, e crescentemente, de um modo politizado, porque seletivo –basta lembrar a condução coercitiva de Lula, o vazamento da conversa telefônica do ex-presidente com a então presidente, Dilma. Gravação de resto realizada depois de findo o prazo autorizado judicialmente. Desde então, o juiz vestiu a camisa da acusação e atuou ao lado do MP como acusador, maculando a imparcialidade necessária a um magistrado.

(5) Na sequência, a Lava-Jato, apesar de ter prestado importantes serviços na identificação de relevantes redes de corrupção praticadas por criminosos de colarinho branco, o que era inusitado no Brasil, perdeu-se, atropelando direitos e garantias individuais, usando as prisões como chantagem para extrair delações, negociadas em função do interesse em buscar incriminar, sobretudo, Lula. A prisão de Lula era o troféu longamente ambicionado. A operação chegou a prender o Almirante Oto, a provocar o suicídio do reitor da UFSC, Cancelier, jamais sequer acusado, a invadir a UFMG para cumprir conduções coercitivas.

(6) O juiz que se porta como acusador julga e condena Lula, sem provas, com base em ilações. Condena-o a 9 anos. O TRF-4 confirma a sentença e a estende para 12 anos, sem sequer ouvir as ponderações da defesa (os votos vieram escritos) — como sempre, o promotor sentou-se ao lado dos juízes, como se fossem parceiros da acusação.

(7) Finalmente, o STF, pelo voto de minerva da presidente, recusa o Habeas Corpus que impediria a prisão. O voto que viabilizou a maioria contra o HC foi dado pela ministra Rosa Weber, a qual, entretanto, é contrária à prisão em segunda instância, porque entende que deve-se respeitar a Constituição, segundo a qual só é permitida a prisão depois de transitada em julgado a sentença condenatória. Mesmo assim, para acompanhar a maioria, respeitando a “colegialidade”, vota contra a concessão do HC. Ocorre que quem determinou para que lado pendia a maioria foi ela, foi seu voto, o qual, repito, pretendia apenas seguir a maioria.

(8) Tudo isso mostra a politização do judiciário.

(9) O tweet do general Vilas Boas, na véspera do julgamento no Supremo, constituiu Interferência indevida, ameaça clara à independência dos poderes.

(10) E agora, basta dizer que a única atitude democrática e legítima é acatar o pronunciamento da Justiça, quando a própria corte suprema se transformou numa comédia de costumes, onde os juízes se ofendem, publicamente, e mutuamente se desqualificam? Parte importante da tradição liberal são as considerações sobre o direito à desobediência ou sobre a desobediência legítima. É o que postulo? Não, por razões políticas, mas, eticamente, seria perfeitamente aceitável.

(11) Observe-se que o judiciário permaneceu fora do espectro de abrangência da Lava-Jato e das delações (assim como o MP e a PF). Nem juízes nem banqueiros.

(12) Essa mesma justiça prende negros e pobres todos os dias, aos milhares, adotando nítido viés de classe e cor, sem qualquer escrúpulo. Essa mesma justiça e esse mesmo MP continuam sendo cúmplices, por ação e omissão, de milhares de execuções extra-judiciais que ocorrem no Brasil. Não há Estado de Direito sem justiça, mas como reconhecer a legitimidade dessa justiça? É possível simplesmente aceitá-la como um destino? Como resignarmo-nos a conviver com as injustiças mascaradas na retórica ridiculamente pretensiosa da justiça?

(13) Mais do que nunca, é preciso que os democratas deixem de lado suas divergências e se unam contra a prisão de Lula e pelo restabelecimento do Estado de Direito.

Lula: 14 anos em 17 horas de liberdade

Lula: 14 anos em 17 horas de liberdade

Por Isabela Alves para Mídia NINJA.

Foto: Eduardo Figueiredo / Mídia NINJA

Em tempos de morte da Marielle, intervenção militar no Rio de Janeiro, enfraquecimento de alguns movimentos sociais, o decreto de prisão do Lula é mais um recado de quem está no poder, que querendo ou não, ainda são os colonizadores.

Se olharmos os números sociais dos últimos 14 anos de PT no poder, percebemos que o encarceramento de mulher negras aumentou, assim como o encarceramento de homens negros. Também notamos que o número de pessoas ricas que ficaram mais ricas também aumentou. No entanto, também percebe-se que existe um vasto número de pessoas que acreditam no Lula, na Dilma e no PT.

Eu cresci no governo petista, foi época de ouro. Dava para ver o tanto que as pessoas viajavam, compravam, gastavam, faziam planos. Esse sentimento de ter algum poder, para a periferia, é algo de extrema importância e perigo. Porque, de fato, enquanto tínhamos o bolso quase cheio, os banqueiros e o Estado lucravam de alguma forma. É por isso que a crítica ao PT tem que ser feita de maneira complexa.

Lula representou o início da luta política de muita gente. Hoje, pessoas filiadas a outros partidos, autônomas ou membros de coletivos, conheceram a esquerda através do governo Lula.

O sonho do jovem de periferia foi, em algumas vezes, contemplado: ter emprego, casa própria e um carro.

A imagem do Lula no poder, significou por muito tempo, a vitória de uma esquerda. Uma esquerda falha e nada diversa, como hoje sabemos. Entretanto, ter ele ali ocupando o maior cargo político existente no capitalismo democrático, era um sinal de que em vinte, trinta anos, iríamos conseguir eleger um presidente negro, ou presidente da comunidade LGBT, ou uma presidenta, já que o Lula foi o presidente proletário. Não só foi símbolo de direitos humanos garantidos, Lula lançou a candidatura da primeira mulher presidenta, a Dilma. Um dos sonhos deu quase certo.

Hoje temos ele em processo de prisão e Dilma golpeada. Temos Marielle morta e Rafael Braga preso e doente. As realidades são outras, mas ambas mostram como nossos colonizadores não toleram nenhum tipo de defensor de direitos humanos no poder. Nenhum.

É necessário sim comparar o encarceramento dos cargos políticos com o encarceramento de homens e mulheres favelados. Precisamos refletir como garantimos o direito à liberdade em todo o procedimento de prisão dos nossos políticos. Lula foi condenado ao dia de hoje em 2016, ficou 2 anos em campanha para reafirmar seu nome, ficou 2 anos construindo a imagem de herói do povo, ficou 2 anos em liberdade plena. Rafael Braga tirou foto em um pixo e voltou para a condicional. Isso só mostra como o sistema de justiça do Brasil é falho e tem a mente escravocrata.
É falho porque a justiça tem olhos bem abertos e a pele branca, é falho porque não tem vergonha de condenar pessoas negras em massa, como forma de genocídio, e é falho porque faz questão de colocar um grande político na cadeia.

Porém, fico pensando como podemos aproveitar esse momento de fragilidade dos movimentos sociais organizados pelo PT para refletirmos algumas coisas, e quem sabe, conseguirmos de fato reconstruir a esquerda brasileira. Por exemplo, iremos saber quem realmente não defende a população periférica, quando essa pessoa só se mostrar indignada com a prisão do Lula. Precisamos nos indignar com tudo o que acontece, principalmente quando vidas são tiradas. Também iremos ver como grandes partidos usam suas pautas em próprio favor, o PT passará a ter uma forte imagem de resistência e persistência, isso será eternamente colocado. E, por fim o ponto que para mim é o principal, a esquerda finalmente irá criar perspectivas concretas de mudanças no sistema de julgamento e prisão, porque tocou no símbolo primordial.

O Lula ser condenado à prisão é forte. É difícil. É recado. É dor. É ponto de partida.

Como chegamos até aqui: Entenda o que aconteceu no Julgamento do Habeas Corpus de Lula

Como chegamos até aqui: Entenda o que aconteceu no Julgamento do Habeas Corpus de Lula

Por Tainá Aragão para Mídia NINJA.

STF realiza julgamento sobre habeas corpus de Lula (Crédito: AFP)

“Não há uma decisão certa ou uma errada”. De forma ambígua, Dias Tofolli, ministro do Supremo Tribunal Federal, inicia sua fala no julgamento pelo habeas corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por trás desse discurso, uma decisão judicial que legitima os interesses da classe média-alta brasileira. O último lance no ritual golpista, de impedir a candidatura de Lula às eleições de 2018. Decisão essa, já esperada pelo povo brasileiro ao passo que os julgamentos no Brasil são altamente parciais, através de uma justiça ligada à interesses políticos-partidários.

Lula foi condenado há 12 anos e 1 mês por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do triplex em Guarujá (SP), vinculado às investigações da Lava-Jato. A negação da liminar que impede a prisão do ex-presidente garante a execução imediata da pena em até uma semana e meia. A defesa de Lula já manifestou a intenção de apresentar um segundo recurso ao TRF-4, e tem até o dia 10 de abril para fazer os trâmites. Mas esse recurso não garante uma revogação da pena, uma vez que o responsável pela avaliação é Sérgio Moro, justamente quem condenou Lula na primeira e segunda instância.

Mesmo com os argumentos apresentados pelo advogado Roberto Batochio, de inviabilidade constitucional da negação do pedido de habeas corpus, que prevê a execução da pena somente após esgotados todos os recursos da Justiça, o Supremo aprovou a pena com 6 dos 11 votos dos ministros. Os ministros Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Marco Aurélio e Celso de Mello, votaram à favor ao habeas corpus, e os ministros Edson Fachin, Alexandre de Moraes, Roberto Barroso, Luiz Fux rejeitaram a ação. Assim, o voto decisivo para o desempate foi o da presidenta do STF, Cármen Lúcia.

Os ministros Celso de Mello, Lewandowski e Aurélio Mello foram os mais enfáticos na constitucionalidade do habeas corpus que garantiria a Lula recorrer o processo em liberdade até uma decisão definitiva do STF. Lewandowski defendeu o resguardo de Lula por presunção de inocência e o direito à liberdade, enfatizando que a negação era um irreparável retrocesso internacional. “A prisão é sempre a exceção e a liberdade é uma regra”.

Um voto inesperado à favor da pauta foi o de Gilmar Mendes, que em seu posicionamento problematizou a cobertura espetacular e violenta da mídia tradicional. Especialmente o Grupo Globo frente ao cenário político nacional, que se utiliza constantemente de um discurso de ódio para construir sua narrativa. Com o mesmo argumento, criticou a postura do PT e de suas principais lideranças com atos classificados como “violentos”.

Os defensores da pauta se legitimaram através do art. 5º, LVII, da Constituição Federal, onde se dispõe que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Tal dispositivo contempla o princípio da presunção de inocência – ou seja, é o que garante a inocência do réu em julgamento até o esgotamento de todos os recursos nos tribunais superiores.

Para o ministro Celso de Mello “nada compensa a ruptura da ordem constitucional”, esse depoimento se refere ao seu repúdio à declaração do General Villas Boas no Twitter, que foi a fala que abriu seu depoimento. Mello ainda aponta que o ex-presidente está sofrendo uma perseguição estatal para incriminá-lo, ressaltando que é “justa e profunda a indignação da sociedade civil sobre a falta ética do poder e da ética do direito”.

Marco Aurélio, que também votou em favor do habeas corpus, apontou duas declaratórias de inconstitucionalidade contra a execução, e declarou que os julgamentos estavam sendo feitos pela capa. “Meu dever maior não é atender a maioria indignada, é tornar equivalente a lei maior, a constituição”.

Por outro lado, o que ficou expresso na fala dos ministros que se posicionaram contra o habeas corpus, foi a histórica impunidade da justiça. Segundo eles, a impunidade gera uma sensação de fazer “justiça com as próprias mãos” por parte da população, e um descrédito ao sistema judiciário brasileiro. Seguindo métodos contraditórios, pautados em experiência empíricas, o ministro Roberto Barroso defendeu que em 99% dos casos levados para segunda instância mantém o mesmo parecer da primeira instância.

Alexandre de Moraes – ministro indicado por Michel Temer após o impedimento da Dilma Rousseff – ignora a ilegalidade ou abuso de poder para conceder o habeas corpus à Lula. Segundo ele, “o juízo de culpabilidade do réu foi comprovada em dupla instância”, o que já garante a legitimidade do julgamento sem a necessidade de outras análises. O advogado do ex-presidente, Roberto Batochio, contrapôs o ministro com o argumento pela falta de abordagem da presunção de inocência.

O voto da ministra Rosa Weber – o quinto e também o mais aguardado da sessão por não ter uma resultado pré-definido – foi de encontro às expectativas da base popular. Mesmo defendendo que todos os embargos de declaração deveriam ser analisados, o voto da ministra seguiu com a maioria dos votos anteriores. “Vozes individuais vão cedendo em detrimento a vozes institucionais”. Um posicionamento contraditório, pois seu voto era crucial para evitar o empate, e decisivo no que se refere à aprovação do julgamento em liberdade de Lula.

Como já esperado, o ministro Edson Fachin considerou que não existe uma motivação para que o habeas corpus a Lula fosse aprovado. Para ele, o réu não é vítima de abuso de poder e tampouco um atentado aos Direitos Humanos. “A ilegalidade apontada não merece ser reconhecida”, argumentou o ministro perante a cessão.

A finalização do processo foi de responsabilidade da ministra Cármen Lúcia. Seu voto contra o habeas corpus já tinha sido declarado anteriormente, com argumento principal de manutenção da sua postura desde 2009 ao julgar os crimes de corrupção levados ao STF.

Em um cenário democrático fragilizado, com as recentes declarações do General Villas Boas, interventor militar do Rio, e um possível agitamento popular de Esquerda, o cenário político brasileiro fica ainda mais instável e perigosamente perto de 64.

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Carta Aberta ao Ministro Marco Aurélio Mello

Carta Aberta ao Ministro Marco Aurélio Mello

Foto: Mídia NINJA

Escrevo essa carta porque insisto em acreditar no Brasil e confio que o Senhor também acredita na democracia, esse valor tão em baixa no Estado brasileiro. No julgamento do Habeas Corpus impetrado pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o senhor foi um dos que tiveram a dignidade de reconhecer uma garantia constitucional que atende a todos os brasileiros e a coragem de expor que, no que deveria ser uma Corte comprometida com a Constituição, uma manobra político-midiática foi adotada para levar um cidadão à prisão.

​Agora, por uma obra do destino, está em suas mãos a chance de reverter esse tratamento casuístico que apequenou o Supremo Tribunal Federal. O pedido de uma liminar em uma Ação Declaratória de Constitucionalidade está nas suas mãos. Se no julgamento recente, diversas teorias e teses foram distorcidas para afastar um direito constitucional, se recorreram a uma retórica populista no campo penal que, por vezes, era explicitamente sem sentido, cabe ao senhor a chance de demonstrar que a Constituição da República de 1988 ainda está viva. Poder geral de cautela? Antecipação dos efeitos do julgamento do mérito? Suspender as prisões até o que se julgue a ADC? Não importa. A sua decisão deve ser voltada ao restabelecimento do projeto constitucional de vida digna para todos e todas, inclusive o ex-presidente Lula. A decisão deve por fim ao arbítrio, que vai da pressa em prender e humilhar à manipulação das pautas de julgamento, e que se origina de sanha punitiva com finalidade política.

​Caro Ministro Marco Aurélio, coragem é uma virtude esquecida em tempos de espetacularização autoritária. Percebi, e espero não me enganar, que não falta coragem a você. Por isso, escrevo essa carta. Qual o sentido de deixar um homem ser preso se todos sabemos que essa prisão viola a Constituição? Por que não impedir, desde logo, todas (eu disse: todas) as antecipações de penas enquanto ainda não forem julgados os recursos pendentes? Homens e mulheres ao julgar os outros erram, embora muitos juízes e jornalistas tenham imensa dificuldade de reconhecer isso. Erram, às vezes por ignorância, às vezes por má-fé ou covardia, não seria, então, o caso de respeitar a opção constitucional de que é melhor um possível culpado aguardar o julgamento definitivo solto do que um inocente ser preso? Luiz Inácio, mas não só ele, os Joões e as Marias são pessoas de carne e osso: não podem ser instrumentalizadas para qualquer fim. Espero, sinceramente, que não deixe isso acontecer.

​Saudações cordiais e democráticas,

Marcia Tiburi.

Raull Santigo: Minha história com Luiz Inácio Lula da Silva

Raull Santigo: Minha história com Luiz Inácio Lula da Silva

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Há alguns anos atrás, Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência deste país. O ano era 2003, eu tinha 14 anos e o Complexo do Alemão já estava entre os lugares conhecidos como dentre os mais perigosos do planeta.

As moradias eram ruins, as valas corriam abertas por grande parte do morro e a cada forte chuva, as enchentes devastavam muitos lares da parte baixa que enchiam, mas também os barracos da parte alta, sem estrutura, onde muitas das casas ainda eram inteira, ou parte, de madeira.

Pouco tempo depois, 2005 ou 2006, as coisas já estavam diferentes. A comida da escola havia melhorado, aliais, as vagas surgiam, ao mesmo tempo, obras que pensavam em espaços para cuidar da criançada eram criados, programas que tirariam pessoas aos milhares do mapa da fome surgiam, causando impacto nacional e chamando atenção no mundo.

Os empregos surgiram aos montes também, vi minha casa mudar, melhorar e evoluir. No auge de ver muitos dos meus manos se envolvendo, ainda, com o varejo das drogas para levantar uma grana aqui na favela, também vi surgir inovações incríveis, como as #LanHouses para acessarmos internet, pois agora e sim, isso foi muito importante, vi nossa galera da favela ter poder de compra. Vi aumentar o número de moradores podendo comprar motos, por exemplo e transformar-las em uma das mais potentes ferramentas de mobilização urbana existente e que gera renda direta para o morador, através do trabalho de moto-táxi.

Vi a galera ocupar as universidades, os espaços públicos e qualquer pedacinho daquele que antes, a elite dizia e ainda insiste em dizer e fazer com que não sejam acessado por nós.

Me envolvi fácil e encantado com a internet, começamos a um a um, dentro da favela, a poder comprar um celular, um computador, experimentar internet com qualidade. Tive acesso a educação alternativa através dos projetos sociais aqui da favela, mas também formal na escola e através da internet. Em certo momento conheci um pouco mais sobre direitos, comunicação e tudo isso junto se mostra através do trabalho que faço hoje, em que muitos de vocês, por segundo, me procuram pedindo dicas, emprego, uma palavra amiga, uma reflexão, uma oficina, uma palestra, uma aula magna, um milhão de coisas!

E isso só no RJ cheio de holofotes, ou na famosa Sampa. Imagina nos outros estados do país, antes ignorados, que passaram a ter refeição digna, água, respeito, mulheres fortes, guerreiras, tendo condição de manter sua casa, suas crianças, com um pouco mais de suporte direto.

Não digo que TUDO foi por conta do LULA, mas sem ele, NADA seria o mais certo de ter acontecido.

Não podemos pedir que as pessoas se lembrem, num país onde quem forma opinião em nível nacional é uma imprensa hegemônica completamente exploradora, interesseira e que cresce quando o sangue de quem mora na favela escorre. Estas pessoas não vão lembrar, elas não tinham fome e ficaram revoltadas ao ver que o mano e a mina da favela estavam estudando na mesma classe que os filhos e filhas deles.

Mas posso dizer que eu NÃO ESQUEÇO e NÃO ESQUECEREI do que mudou, dentro da minha casa, dentro do meu caminhar, dentro da minha cabeça e na minha atitude de hoje me assumir, ter orgulho e lutar pela FAVELA.

Com cabeçar erguida e punhos fechados, observo o povo gritar contra si próprio neste momento, apludindo o opressor e caminha cantando para um futuro de “campo de concentração”. Mas isso não é perder, só mostra que ainda há muito a ser feito contra a covardia histórica deste país.

A história mostrará os fatos. Sei que meus filhos saberão por minha boca dessa história onde honra, onde de cabeça erguida, seguimos para enfrentar até o último momento, aqueles e aquelas que crescem diminuindo ou pisando nos outros.

Gratidão, coroa!

Jean Wyllys: O Fascismo no Brasil já passou dos limites

Jean Wyllys: O Fascismo no Brasil já passou dos limites

As mensagens do general Villas-Boas nas suas redes sociais são inadmissíveis. Não é papel de um comandante do exército fazer chantagem ao Supremo Tribunal Federal. Todos nós que defendemos a democracia temos que repudiar essa atitude ilegal e ficar ao lado da presunção de inocência. Assista a nova coluna em vídeo do Jean Wyllys:

 

 

Luiz Eduardo Soares: VillasBoas faz a maior chantagem à Justiça desde a ditadura

Luiz Eduardo Soares: VillasBoas faz a maior chantagem à Justiça desde a ditadura

O tuíte do general VillasBoas, comandante do Exército, é a maior chantagem à Justiça desde a ditadura.

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O Supremo tem, agora, uma arma apontada contra os juízes: ou votam contra o HC de Lula e pela prisão em segunda instância, ou… ou o que, general? Traem a pátria? Traem o interesse público? Contrariam suas convicções pessoais? Desagradam sua corporação? Se o ministro Fachin tinha sido ameaçado, agora teria razões para denunciar a chantagem. Vivemos uma sequência de ataques à democracia e à independência dos poderes. Marielle e Anderson assassinados, a caravana de Lula agredida com tiros e impedida, pela violência, de seguir viagem, a mídia ensandecida porque a direita não encontra um candidato viável. Querem o quê? Prender Lula? Se não bastar, pretendem o quê? Suspender as eleições ou neutralizá-la com o parlamentarismo tirado do bolso do colete nas vésperas do pleito?

O que muita gente boa parece não entender é que o impeachment, na atmosfera envenenada por um antipetismo patológico, abriu caminho para que saíssem do armário todos os espectros do fascismo. Não sou petista: sou anti-anti-petista.

O anti-petismo é o ingrediente que faz as vezes do anti-semitismo, na Alemanha nazista. O anti-petismo identifica O CULPADO de todas as perversões, o monstro a abater, o bode expiatório, a fonte do mal. O anti-petismo gerou o inimigo e gestou a guerra político-midiática para liquidá-lo, guerra que se estende, sob outras formas (mas até quando?), às favelas e periferias, promovendo o genocídio de jovens negros e pobres, e aniquilando a vida de tantos policiais, trabalhadores explorados e tratados com desprezo pelas instituições.

Há um fio de sangue que liga as palavras ameaçadoras do general, interferindo na autonomia do Supremo, na véspera do julgamento do Habeas Corpus de Lula, a agenda regressiva que cancela direitos, as balas contra a caravana de Lula e a execução de Marielle e Anderson. Os autores não são os mesmos, e existem contradições entre eles, mas há uma linha de continuidade porque todas ocorrem no cenário de degradação institucional criado pelo anti-petismo e nele se inspiram.

Ser contrário ao anti-petismo, mesmo não sendo petista, é necessário para resistir ao avanço do fascismo. Os que votaram pelo impeachment e, na mídia, incendiaram os corações contra Lula e o PT, sem qualquer pudor, não tendo mais como recuar, avançam ao encontro da ascensão fascista, que ajudam a alimentar, voluntária e involuntariamente. Não podemos retardar a formação de ampla aliança progressista pela democracia, uma frente única anti-fascista.

Preto até os ossos

Preto até os ossos

Foto: Mídia NINJA

Somos maioria nos presídios, nas favelas e nas gavetas do IML…

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nós, pretos e pretas, somamos 52% da população do país, portanto poderíamos eleger um presidente da nossa cor, em vez de estarmos servindo de bucha de canhão para os mesmos candidatos brancos de sempre, que utilizam da situação social vulnerável do nosso povo, com o intuito de sempre serem eleitos com os votos da miséria.

E que fique explícito, digo isso sem excluir nenhum partido político, só para exemplificar, dos setenta e sete Deputados Estaduais do estado de Minas Gerais, apenas um é negro. Essa situação não muda muito na bancada federal, e piora, quando analisamos a nossa representatividade no Senado Federal. Dito isso, feitos os cálculos, sabemos que não possuímos representatividade real nas instâncias de decisão de nossa sociedade.

É evidente que existem problemas que não são específicos de pretos e pretas, porém são comuns na quebrada. Tais situações não são problemas difíceis de resolver, a meu ver. A título de exemplo: o esgoto a céu aberto desde a eleição passada, a escola da quebrada que continua zoada do mesmo jeito, a gravidez precoce das minas aos 14 anos e o genocídio dos manos antes da maioridade, são, na verdade, a prova da ausência do Estado Brasileiro na periferia.

Daí, portanto, podemos concluir que, por experiência, tal ausência é reflexo da falta de representatividade do povo periférico, e mais: podemos inferir que tais contextos são na verdade criados pela estrutura política hegemonicamente branca do nosso país, ou você acredita que o candidato branco vai resolver os problemas de preto e periférico?

Não sejam displicentes, pretos e pretas e periféricos em geral, quanto mais treta, melhor. Dessa forma, os brancos sempre irão brotar na sua quebrada, com as mesmas ideias de sempre, sem falar dos “pretos” que trabalham para os políticos brancos, que usam isso para legitimar e afirmar suas ações brancas. Kralho, fico de bobeira observando essa treta esse papo de “somos todos humanos” não vira, é muito “tilelê”.

Não me leve a mal, precisamos de uma presidenta preta estilo uma rainha nagô, liderança tipo nossa saudosa Nzinga, acompanhada de uma forte bancada de parlamentares pretos e pretas, lotados em todas as instâncias: vereadores(a), prefeitos(a), deputados(a), governadores(a) senadores(a), para que dessa forma possamos ter voz e governança para minimamente amenizar as mazelas que o povo preto e periférico sofre.

As eleições estão aí, aproveite, vamos praticar o voto preto e periférico.

Quando a casa grande queimar, todos que estiverem dentro dela irão queimar juntos!!!

Salve Malcolm X

Feminismo com Raça: a boa notícia do EME 2018

Feminismo com Raça: a boa notícia do EME 2018

Foto: Katiana Tortorelli

Neste último fim de semana, em pleno feriado da Páscoa, realizou-se em Juiz de Fora, Minas Gerais, o 8º Encontro das Mulheres Estudantes organizado pela UNE.

O maior encontro feminista do Brasil, nas palavras inspiradas da ex-Presidenta Carina Vitral. Mais de duas mil jovens mulheres, neste tempo de grave crise política, reunidas para discutirem suas questões.

Mulheres em Movimento mudam a Universidade e a Sociedade. Bravas Marianna Dias, atual Presidenta da UNE, e Anna Clara Franco, Diretora de Mulheres da UNE, com suas companheiras, marcaram um golaço.

O EME 2018 foi energizado pela figura bela e forte de Marielle Franco. A execução de Marielle, crime político que persiste irresolvido, trouxe para primeiro plano a sua própria luta: negra, favelada, lésbica, eleita vereadora com mais de 56 mil votos, Marielle ilumina a cena pública brasileira com sua morte e vida. Puxou para o centro a voz da quebrada.

Isso ficou evidente na mesa sobre o Golpe de 2016, da qual participei com a deputada estadual e candidata à Presidência da República Manoela d’Ávila, com a vereadora do PSOL em Niterói Talíria Petrone e com a youtuber e rapper Preta Rara. Ficou evidente também nas pungentes e indignadas manifestações da plenária.

O genocídio da juventude negra, o aumento da violência física e simbólica contra a mulher negra, a intervenção militar nas favelas do Rio de Janeiro, todas essas feridas abertas de uma opressão secular reenquadram a reflexão sobre o Golpe.

Não será possível superá-lo se limitarmos o confronto político ao plano jurídico-parlamentar no qual o Golpe foi desferido. Isso porque, inapelavelmente, a agenda neoliberal do Golpe é machista, racista e afronta abertamente os direitos humanos.

A natureza misógina do Golpe é indiscutível. A única mulher até hoje eleita (e reeleita) no Brasil foi deposta com requintes de crueldade. A desqualificação de Dilma, com a ofensiva (mal-sucedida) contra sua reputação, atinge a todas as mulheres na política e à legítima pretensão de que as mulheres se expressem politicamente.

A restauração identitária do Golpe, o governo dos homens brancos e velhos, representantes do creme do conservadorismo brasileiro, consuma-se pela agressiva adoção da agenda derrotada nas urnas em 2014. As anti-reformas (trabalhista, do Ensino Médio, da Previdência…), a Emenda Constitucional do Fim do Mundo, a gana desnacionalizante e privatista desta gente constituem o desmonte, longamente represado, da Constituição de 88: a destruição do incipiente estado de bem-estar social que tardiamente se construía no Brasil.

E aí é necessário entender este movimento como expressão da ofensiva internacional do neoliberalismo autoritário, essa estranha aliança entre ultraliberais e ultraconservadores, que aniquila os direitos sociais em favor da apoteose do capitalismo financeiro, de um processo de concentração da riqueza, inédito na história do mundo, de uma regressão da expressão feminina na vida contemporânea.

A melhor notícia do EME 2018 é a compreensão generalizada do profundo conteúdo do Golpe: o presente assalto aos direitos sociais é um ataque direto às mulheres, aos jovens e às jovens, aos negros e às negras.

O aguçamento das contradições prepara a alvorada de uma nova síntese. Isso é tanto mais importante na semana em que o STF prepara-se finalmente para examinar a legalidade da prisão de Lula, a mais importante liderança popular brasileira. O desdobramento do Golpe tanto conta com omissão como com a seletividade e o ativismo militante de uma parte do Judiciário, que desfigura, deslegitima e desautoriza este poder. Fica recolocada a pauta de uma profunda reforma do Estado em favor do florescimento democrático dos direitos do povo brasileiro.

O grande desafio para a esquerda brasileira, nesses tempos em que as redes regurgitam ódio e as fake news transformam em alucinação a lida cotidiana, é a construção de uma agenda política comum em que o conceito de “direitos do povo” avance para além da Revolução Francesa. Perca o seu perfume genérico. Agregue bodum, sangue, suor, todos os fluidos da ralação da vida vivida. E assim se expressem no orçamento público. Creche para todas as crianças. Para os filhos das mães que chegaram na universidade. Assistência psicológica para os que romperam todas as barreiras e são os primeiros de suas famílias cursando a educação superior. Revisão acadêmica dos cursos e projetos universitários que tenham a população da periferia como interlocutora e não como “objeto” de investigação. E isso para ficar só na Universidade. Se continuarmos a conversar, resultará uma lista extensa e muito relevante de tudo que precisa vir a ser.

Essas são as notícias promissoras do 8º EME. Frestas de luz na escuridão da caverna do Golpe. As jovens mulheres desfraldarão as novas bandeiras. E assim honrarão a vida e o legado de Marielle Franco.

A política, assim como na religião, o mais importante é servir, política é serviço

A política, assim como na religião, o mais importante é servir, política é serviço

Foto: Mídia NINJA

No Sábado de Aleluia, fui a uma celebração ecumênica da Cerimônia do Lava-pés, no “Centro Espírita e Obras de Caridade Príncipe Espadarte”, conhecido como “Barquinha da Madrinha Chica Gabriel.”

As “Barquinhas”, como são popularmente conhecidas em nossa região, são igrejas de Santo-Daime originárias na (e seguidoras da) doutrina do Mestre Daniel Pereira de Matos. Mestre Irineu (Alto Santo), Mestre Daniel (Barquinha) e Mestre Gabriel (União do Vegetal) seriam, então, os patronos dos três troncos mais tradicionais das religiões ayahuasqueiras nascidas no Acre.

O ecumenismo, por sua vez, tem tido bons frutos aqui em nosso Estado, a partir do trabalho do “Instituto Ecumênico Fé e Política.” Debates, convergências e consensos têm sido construídos em suas diversas reuniões, projetos e ações, que contam com a participação e engajamento de lideranças religiosas e fiéis das mais distintas denominações.

Já o Lava-pés é, para mim, uma das cerimônias cristãs mais bonitas, carregada de simbolismos: humildade, alteridade (enxergar a si próprio no outro, ainda que o outro seja completamente diferente de si), senso de missão e consciência de serviço. Tanto quanto (ou até mais que) na Eucaristia, Cristo demonstrou, no Lava-pés, o mais completo senso de desprendimento e humildade.

Na cerimônia, estavam representantes de diversas denominações religiosas: católicos, evangélicos, daimistas, espíritas, ubandistas… Todos líderes de suas respectivas religiões, imbuídos não só em evangelizar ou pregar os preceitos de suas doutrinas, mas também em derrubar barreiras e construir pontes entre as diferenças de fé.

Me veio em mente duas reflexões:

A primeira de que, na política, assim como na religião, o mais importante é servir. Política é serviço e apenas isso. Representar as pessoas, traduzir os seus anseios, estar aonde queiram que você esteja ou fazer o que esperam que você faça… Conciliar isso tudo com suas próprias vontades, convicções e com os princípios e valores nos quais acredita, tudo isso faz parte do “job”: é nosso dever e nossa obrigação.

A outra reflexão é que sempre que sou visto em um ato ou celebração ecumênica, me perguntam: qual sua religião?

Respondo: minha religião, assim como na política, é aquela que prega o respeito ao próximo, a tolerância e, mais do que isso, a alteridade; é a que acolhe, conscientiza, liberta e emancipa; a que prega a solidariedade, a caridade e o amor; é a que está a serviço dos mais pobres e menos favorecidos, dos que mais precisam, dos que menos podem, menos sabem e menos tem. É aquela que não discrimina, não faz distinção… Que ajuda a dar de beber aos que tem sede e de comer aos que tem fome. É a que não extorque e nem explora a boa-fé, a ingenuidade ou a inocência de seus fiéis, não vende terreno no paraíso nem indulgência para dirimir pecados.

Qualquer religião que fizer isso, será minha também…

Quanto à política, nesse Sábado de Aleluia, apenas agradeço a Deus por renovar minhas energias e me ajudar a levantar, todos os dias, para cumprir com a minha missão, com o meu dever e com o meu serviço.

Amazônia ameaçada pela expansão da Cana de Açúcar

Amazônia ameaçada pela expansão da Cana de Açúcar

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Há mais um risco real e imediato à Amazônia : a expansão da Cana de Açúcar, proposta por ruralistas e pelo PL 626/2011 do senador Flexa Ribeiro, do Pará, aprovado recentemente pela Comissão de meio ambiente do Senado, e incluído em pauta. Esta lavoura tem como consequência o desmatamento e o uso intensivo de agrotóxicos.

E não é a única ameaça: há projetos em curso, com tramitação avançada, que diminuem as áreas de Parques Nacionais e Reservas Extrativistas, e outros que inviabilizam, na prática, a criação ou ampliação de Parques e de Terras Indígenas, concedendo unicamente ao congresso a iniciativa de PLs com este objetivo. Com o predomínio ruralista e conservador, caso aprovada esta lei, estes nunca serão criados ou expandidos.

Em 2009, quando eu era ministro do Meio Ambiente (governo Lula) houve forte pressão tanto para expansão da lavoura da cana de açúcar na Amazônia, quanto no Planalto Pantaneiro, na bacia do Alto Paraguai. Os propositores eram o mesmo senador e o então governador do Mato Grosso, atual ministro da Agricultura – Blairo Maggi. Houve forte disputa, dentro e fora do governo, numa época em que se previa ampla expansão da cana, com exportação para vários países. Do ponto de vista das mudanças climáticas, o álcool carburante emite bem menos CO² do que os combustíveis fósseis, como o óleo ou a gasolina. A cana, quando cresce, absorve carbono, o que neutraliza suas emissões. Isto, claro, desde que não haja desmatamento para sua exploração – o que elimina a vantagem climática do álcool.

Demandamos estudos à EMBRAPA- que demonstraram a existência áreas disponíveis, com qualidade de solo adequadas à esta lavoura, e não utilizadas, que permitiriam duplicar a produção de etanol, utilizando pastos abandonados, sem necessidade de impactar os estratégicos ecossistemas do Pantanal e da Amazônia – e com isto os povos da floresta, seringueiros, castanheiros, quilombolas, índios, e também a fauna, a flora e o eco turismo destas regiões. Munidos destes estudos, convencemos a UNICA – representante dos produtores de cana de açúcar, que esta medida insana macularia todo o etanol brasileiro, podendo provocar boicote de alguns países. E, com alguma hesitação, a UNICA se posicionou contrária . Dentro do governo enfrentamos o ministro da Agricultura Reynold Stephanes, e os governadores do MT e MTS. Com apoio de ambientalistas e das universidades, vencemos. O Zoneamento Agro Ecológico da Cana de Açúcar proibiu a expansão da cana no Pantanal, na Amazônia e nas áreas de produção de alimentos, para evitar a carestia destes bens essenciais. O governador do MTS – André Puccinelli declarou que me curraria em praça pública! Respondi à altura nas TVs a esta agressão histérica. Recentemente Puccinelli foi preso por corrupção.

Com este governo fraco, ilegítimo e refém da bancada ruralista ( e de outras) este PL prospera no Senado e constitui mais uma ameaça à Amazônia, aos povos da floresta e ao etanol brasileiro, o que pode resultar em perda de empregos.

Apesar da maré obscurantista e reacionária, a resistência ambientalista, do movimento social, com apoio dos artistas, impôs ao governo Temer duas importantes derrotas: a retirada do decreto que flexibilizava a caracterização do trabalho escravo, e restringia sua fiscalização, e a do decreto da RENCA – que abria vasta região protegida do Amapá às mineradoras nacionais e multinacionais. Devemos nos mobilizar e derrotar também esta iniciativa insana e predatória, que além dos estragos mencionados, inviabilizaria o cumprimento das metas de redução do desmatamento assinadas pelo Brasil na Conferência de Paris, em defesa do Clima do Planeta.

 

Maria do Rosário: Pela paz

Maria do Rosário: Pela paz

Foto: Mamana Foto Coletivo

Onde quer que estejamos precisamos agir mais pela paz. Chegamos a um ponto no Brasil em que as mortes violentas se tornaram fatos banais, e o medo é um estado constante. Não podemos mais permanecer sob domínio das armas nas periferias urbanas, tornando a população refém do fogo cruzado entre o crime e as forças de segurança estatais, que agem igualmente com violência contra ela.

A paz exige um modelo de segurança pública integrado ao território, que receba investimentos e formação para ir muito além da contenção.

O atentado em que a vereadora Marielle Franco foi assassinada junto com seu motorista Anderson Gomes é parte de um ápice da escala de violência política contra defensores de direitos humanos, de parlamentares que defendem justamente ações para o desarmamento, fim da impunidade das chacinas e a paz. A tentativa de impedir Lula e as balas que atravessaram a lataria dos ônibus de sua caravana pelo Sul, também compõem esse quadro.

É preciso mudar imediatamente esse rumo. Você não pode aplaudir a violência, sobre quem quer que seja, pois isso revela uma degeneração moral.

Paz é uma condição verdadeira, concreta, objetiva e múltipla. Não apenas um sentimento interno a cada pessoa.

É preciso ter paz na política e isso se chama democracia.

É preciso paz na economia e isso se chama desenvolvimento com inclusão e partilha justa.

É preciso ter paz para que os filhos estejam na escola. Que a rua não seja escura. Ter paz no ônibus, no trem, no metrô. É preciso paz na estrada, cordialidade e respeito à vida.

É preciso ter uma paz que não seja perturbada pela inquietude do estômago vazio, das vísceras grudadas por não ingerir alimentos. É preciso ter uma paz garantida pelo reconhecimento de que sua voz é ouvida no poder.

É preciso ter paz de água potável, um copo com água, um banho com água, torneira com água. Cisterna com água, chuva que molha o chão para plantar. Mais água no mundo e menos água em lágrimas rolando pelo rosto das mulheres, das mães pretas e brancas, das crianças, pretas e brancas, das velhas, pretas e brancas. E indígenas também. E todas as etnias.

É preciso respeitar todo ser humano em dignidade e direitos para viver em paz com ele. E é fundamental construir novos padrões de consumo, igualitários e sustentáveis. A destruição da natureza não é pacífica, é violenta sobre todos os seres. É preciso uma paz não só humana, mas entre os humanos e todos os seres vivos deste mundo.

Precisamos nesse Brasil mais paz da convivência entre diferentes.

Bênçãos dos mais velhos, sorrisos de crianças, tambores que se enlacem em oração com as cruzes, gente que se ame. Artistas que cantem a paz.

Precisamos de mais juventude brincando e trabalhando. Juventude se mostrando viva e linda pela paz. Juventude que saiba dizer não, a violência não é minha praia, não é minha casa, não é minha vida, não é pra mim.

É necessário que a juventude possa confiar que tem um presente e um futuro, que não vai morrer cedo com a cabeça jogada num valão, que vai viver e ser feliz. Precisamos de governos pela paz, de juízes pela paz, de deputados pela paz, senadores pela paz, de polícias pela paz, de educação para paz, de cultura de paz.

E que todos que atuam em áreas de comando saibam que a paz não acontecerá se continuarem destruindo direitos, esperança e dignidade humana com exemplos negativos e discursos que instituem as armas como caminho e a violência como destino.
Pela paz as mulheres querem passar. As pessoas LGBT querem passar. As negras e negros querem passar. Os tidos como loucos, os que moram nas ruas, os andarilhos, os moradores de periferias e favelas, os desempregados, os explorados e estropiados, todos precisam passar.

Não há paz sem diversidade e reconhecimento das múltiplas e infinitas formas humanas, pois a guerra é feita contra eles, que são pobres, pretos e desconectados dos padrões do dinheiro.

Pela paz, precisamos acreditar novamente que a democracia é possível, que o serviço público serve a sociedade, que ninguém quer se dar bem sem pensar no outro que está se dando mal, porque não é justo que tudo falte na casa de alguém e se desperdice ou use indevidamente de bens em outro lugar.

A paz não comporta privilégios, mas igualdade. Não comporta ataques pessoais, mas argumentos. Não comporta vingança, pois é justiça.
Se você continuar dizendo que uma parte das pessoas não têm direitos humanos, você não está na paz. Você não está querendo mudar nada. Você se acostumou com a violência, você naturalizou tantas mortes, você perdeu a esperança. Pare e pense na mudança que vamos produzir se as ideias de generosidade e paz tocarem cada pessoa agora. Tocarem você.

Então, um migrante será um irmão.

A toda pessoa, de qualquer etnia ou cor da pele, você dirá bom dia. Você não interromperá as crianças e jamais as ensinará o ódio e os preconceitos. Você estará de mãos dadas com a humanidade unida. Você saberá que o certo a fazer não é seguir líderes que promovem ódio e mentem. Que o certo é seguir a sua consciência e que ela seja para a paz.

Por isso esse texto é um convite: vamos nos organizar para uma jornada que enfrenta todas as ações que fragmentam a sociedade brasileira e nos fazem reféns da cultura do ódio, do terror e da violência de Estado praticada na ditadura.

Vamos nos organizar em grupos de amigos, vizinhos, colegas de escola, de esporte, de trabalho ou em família mesmo, e conversar sobre esse tema.

Sejamos mais humanos como Martin Luther King, Mahatma Gandhi, Doroty Stang, Chico Mendes, Margarida Alves, Marielle Franco. Jamais sejamos como seus assassinos.

Sejamos construtores de uma cultura viva de paz.

Jean Wyllys: O Brasil precisa de uma frente antifascista

Jean Wyllys: O Brasil precisa de uma frente antifascista

Marcas de tiros nos ônibus da caravana de Lula pelo Sul.

 

O que aconteceu ontem no Paraná foi um ato terrorista. Não usemos eufemismos, assim seria chamado em qualquer país civilizado. Foi, também, uma manifestação da emergência do fascismo que, desde o golpe, está cada vez mais empoderado, orgulhoso do seu ódio e violento.

A caravana de Lula foi atacada a tiros. Em qualquer democracia saudável, isso teria sido repudiado sem justificativas por todos, seria a capa dos jornais de hoje e teria provocado uma reação unânime da sociedade. Mas nesse Brasil anestesiado, houve até um pré-candidato que justificou a barbárie. Geraldo Alckmin disse que os petistas “estão colhendo o que plantaram”.

Não foi o boçal, mas o candidato da direita que se diz “liberal” e “de centro”. Em qualquer país normal, um candidato que justificasse tiros contra a caravana do seu adversário se derrubaria nas pesquisas e seria afastado pelo próprio partido. Mas Alckmin não é inexperiente ou burro, fez isso para disputar eleitores de Bolsonaro, mostrando que ele também pode representar os odiadores. É um sintoma da gravidade da crise política e moral do país. Perdemos a capacidade de perceber o absurdo e o naturalizamos. Mas isso não começou ontem.

Em 2016, quando uma presidenta eleita foi derrubada, nosso país deu o primeiro passo em direção a um regime autoritário. Aceitamos como se fosse normal que os partidos que perderam as últimas quatro eleições presidenciais chegassem ao governo junto a um vice-presidente traidor, para implementar o programa vencido nas urnas. E a degradação democrática foi se aprofundando cada dia mais.

Como uma democracia de fachada precisaria de novas eleições esse ano, os golpistas precisam impedir o Lula de concorrer, porque ele ganha. Foi assim que um setor do Judiciário usou o processo absurdo do triplex, para enquadrá-lo na Lei da Ficha Limpa. E, mais uma vez, naturalizamos isso. Em breve podemos ter um dos principais líderes políticos do país preso – um preso político – e uma eleição presidencial fraudulenta, sem o candidato que venceria. Mas será que vai ter mesmo? Hoje, o Blog do Noblat noticia conversas reservadas com um ministro “muito próximo do presidente” que diz que talvez não tenha eleições em 2018. Vamos naturalizar isso também?

É nesse contexto que precisamos entender o que ocorreu no Paraná. Vários parlamentares, eu inclusive, recebemos ameaças de morte. Uma vereadora do meu partido foi assassinada a tiros. Agora atiraram contra a caravana do Lula. Não estou dizendo que todos esses atos tenham um mesmo mandante, nem acho, mas eles fazem parte de um mesmo processo político. O fascismo é hoje um cão raivoso que está solto. Aliás, são centenas, cada um deles com seus próprios ódios e fora de controle.

O que mais precisa acontecer? Como é possível que, diante de um ato de terrorismo contra um ex-presidente, as capas dos principais jornais falem de qualquer outra coisa? Como é possível que políticos e jornalistas tentem culpar Lula e o PT pelas balas contra eles, tentando transformar as vítimas em culpados, porque parece que nesse país tudo é culpa do Lula! É inacreditável que depois de um atentado a tiros, parte da imprensa e da política queira desviar a atenção do fascismo que ajudou a crescer e culpar quem recebeu as balas.

O antipetismo e o macarthismo foram um cavalo de Tróia usado pelos plutocratas do PSDB, pelos traidores da base do governo petista, por setores da grande mídia, do empresariado e do mercado financeiro, e pela casta do Judiciário, para derrubar um governo eleito e garantir mais facilmente as medidas econômicas neoliberais e antipopulares e os privilégios do andar de cima em tempos de crise econômica e “ajuste”. E esse discurso de ódio precisava do apoio dos grupelhos fascistas, dos odiadores patológicos, das bravatas de Bolsonaro e de algumas sub-celebridades caricatas, que os golpistas acharam que poderiam controlar. Ninguém pode. A história do século XX tem exemplos disso. O ovo da serpente quebrou. E agora que o fascismo ceifou brutalmente uma vida — e até ela foi difamada depois de morta — e disparou tiros contra uma caravana política, os golpistas, que não conseguiram até agora emplacar um nome que os represente, estão perdendo o voto antipetista para o candidato fascista. E, desesperados, já falam até em cancelar as eleições.

Diante desse cenário de terror, a esquerda e os setores democráticos, de forma ampla, sem sectarismo, precisam se unir. A decisão de Manuela D’Ávila e Guilherme Boulos, pré-candidatos à presidência pelo PCdoB e pelo PSOL, de participar hoje de um ato unitário junto a Lula em Curitiba, contra o fascismo e sua violência, é um passo importante e correto. Enfrentamos circunstâncias excepcionais e precisamos de medidas excepcionais.

Uma frente ampla antifascista se faz necessária!

De Pretas Para Marielle

De Pretas Para Marielle

encontro Pretas no Poder, no Rio de Janeiro. Foto: Mídia NINJA

Segunda, 01/01, primeiro dia do ano
Assisto último episódio de Black Mirror e saio dali mortificada. Não sabia o que me atravessava mais – que alguém tenha tido a ideia de fazer uma linha narrativa que explore a imagem de um negro encarcerado e eletrocutado como atração de museu ou que a vingança da sua filha órfã seja o ideal branco de justiça. Saio dali prometendo que esse ano faria conteúdos que curem.

Fevereiro, 15/02, Fim do carnaval
Entramos na etapa final de seleção das três turmas do LAB NINJA, projeto de formação livre de midiativistas. Nos critérios de seleção, pautas propostas, convidados para aulas e percurso pela cidade um desejo de refletir vivencias e referências negras, feministas, LGBT. Cobertura de Black Panther no alemão, ouvir youtubers e especialistas negros, ver pré lançamento de projeto audiovisual preto na Maré, presença no baile da Penha.

Domingo, 04/03, gravação do programa Querendo Assunto
Entro num ônibus às 6:00 depois de fazer parte da Conferência Cidadã, onde ao lado de Henrique Vieira, pastor negro, tive o prazer de apresentar uma indígena e um líder sem teto para pré candidatura à presidência. Me reencontro com Ana Paula e Ellen Paes, conheço Taísa Machado e uma equipe maravilhosa para participar de uma experiência que depois entendi ser um divisor de águas no audiovisual brasileiro.

Quinta, 08/03, 8M
Com uma equipe de dez mulheres, vamos às ruas do Rio de Janeiro conectadas com manas do Brasil, América Latina e todo o mundo para gritar por direitos das mulheres – e contar as histórias de lutas diversas, mas não dispersas. Em terras cariocas, a marcha começa e termina com chuva, mas também num orgasmo coletivo que só se acontece quando tanta mulher se junta.

Quarta, 14/03, Execução de Marielle
Recebo a noticia que tiraram Mari de nós, com quatro tiros na cara, por ser quem ela é e defender quem somos. Morro um pouco por dentro e me apoio nas minhas. Me acalento vendo que não fomos paralisados – enchemos ruas, redes e corações de luto e luta e seguimos marchando por um mundo onde viver não ser privilégio.

Sábado, 17/03, três dias depois
Depois de acompanhar as narrativas crescentes em torno de um dos ícones da minha geração e amiga, ligo para Tainá de Paula e proponho: mulheres negras precisam falar sobre as suas. A memória da nossa companheira de luta merece nossos olhares, nossas narrativas. Gravamos Ana, Thula, Ellen, Rafaela, Sabrina, Ana, Faby e Dida no domingo, segunda, terça. Choramos, rimos e prometemos viajar juntas para o Caribe.

Segunda, 26/03, lançamos “De Pretas Para Marielle”
Após o desafio de dirigir e encontrar um fio condutor entre tantas histórias, experiências e memórias de Mari, apresentamos 10 minutos para ela. Mais 3 horas de conteúdo serão lançadas ao longo da semana, com nossos depoimentos pessoais. No dia que ao lado de Daiane, Giovana e Flávia inauguramos as aulas de um novo curso de comunicação.

Assim, sigo cumprindo minha meta do ano:
criar conteúdos que curam.

Poké’exa ûti: o difícil caminho da luta pelo território

Poké’exa ûti: o difícil caminho da luta pelo território

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O estado de Mato Grosso do Sul concentra atualmente a segunda maior população indígena no Brasil, destacando-se os seguintes povos: Terena, Guarani Nhandeva, Guarani Kaiowá, Kadiwéu, Kinikinau, Guató, Atikum, Kamba e Ofaié. Atualmente, as comunidades indígenas sofrem com problemas sociais de várias ordens, que incluem a educação, desassistência a saúde, violência e desnutrição. Toda essa problemática está intimamente ligada à questão territorial, resultado de processos de perda da terra que se deram de maneira diferente com relação a cada povo.

Nos últimos seis anos, o povo Terena, organizado por meio do Conselho do Povo Terena, constituído por caciques e líderes de retomadas, tem feito o enfrentamento na luta pelos seus direitos, especialmente no que diz respeito ao reconhecimento formal dos territórios tradicionalmente ocupados. Através da realização da Hanaiti Ho’únevo Têrenoe (Grande Assembleia Terena), as lideranças têm discutido e tomado decisões importantes sobre o território, saúde, educação, sustentabilidade e política de representação nas instâncias institucionais.

A 1ª Assembleia Terena foi realizada em 2012 na Aldeia Imbirussú, na TI Taunay/Ipegue, e contou com a participação de caciques terena, lideranças do povo Kinikinau e Kadiwéu. O documento final pontua que foi a primeira vez, desde a guerra do Paraguai que os povos indígenas do Pantanal se reuniram novamente. Após a primeira grande assembleia, outras grandes reuniões foram realizadas entre 2014 e 2016: a 2ª Assembleia Terena – Aldeia Moreira, na TI Pilad Rebuá, em novembro de 2012; 3ª Assembleia Terena – Acampamento Terra Vida, na TI Buriti, em maio de 2013; 4ª Assembleia Terena – Aldeia Brejão, na TI Nioaque, em novembro de 2013; 5ª Assembleia Terena – Aldeia Babaçu, na TI Cachoeirinha, em maio de 2014; 6ª Assembleia Terena – Aldeia Lalima, na TI Lalima, em novembro de 2014; 7ª Assembleia Terena – Aldeia Cachoeirinha, na TI Cachoeirinha, em maio de 2015; e a 8ª Assembleia Terena – Aldeia Água Branca, na TI Nioaque, em março de 2016; 9¬ª Assembleia Terena – Aldeia Bananal, na TI Taunay-Ipegue, em novembro de 2016; 10ª Assembleia Terena – Aldeia Buriti, na TI Buriti, em maio de 2017; 11ª Assembleia Terena – Aldeia Água Branca, na TI Taunay-Ipegue, em novembro de 2017.

A categoria “terra tradicionalmente ocupada” foi reconhecida pelo texto constitucional de 1988 e vem sendo objeto de luta dos povos indígenas de Mato Grosso do Sul, especialmente pelos Terena, Guarani, Kaiowá e Kadiwéu.

Mesmo a Constituição de 1988 reconhecendo o direito originário dos povos indígenas aos seus territórios tradicionais e impondo prazo de cinco anos para a demarcação e homologação de todas as TIs, ainda hoje várias comunidades estão fora de seus territórios tradicionais aguardando o reconhecimento jurídico-formal de sua terra.

A conduta territorial que antes usurpava, invadia e despejava comunidades inteiras de seus territórios tradicionais, hoje se traduz numa “conduta política”, sistematizada no conjunto de articulações estatais imbricadas em todas as instâncias de poder da máquina estatal, com o nítido objetivo de impedir o reconhecimento dessas terras tradicionais. Os dispositivos constitucionais que reconhecem essa diversidade de territorialidades – Estado pluriétnico –, um processo de ruptura e de conquista, não resultaram em nenhuma adoção de política étnica e nem de ações governamentais capazes de reconhecer efetivamente esses territórios.

Nessa luta pelo território, diferentes estratégias permeiam o interior das comunidades, como as retomadas e questões externas, como ações governamentais. Fica nítida, por meio delas, a distinção entre as formas de territorialidade estatais, baseadas no reconhecimento formal, e as formas de territorialidade indígena, como as retomadas e autodemarcações. Na territorialidade estatal, que tem por objetivo reconhecer formalmente determinado território a um determinado povo indígena, é preciso entender como o Estado brasileiro regula e reconhece esses territórios.

Na década de 1980, pesquisadores ligados ao “Projeto de Estudos sobre Terras Indígenas no Brasil: invasões, uso de solo e recursos naturais (PETI)”, desenvolvido no Museu Nacional, procuraram debruçar-se sobre os modos como o Estado brasileiro formulava e definia as Terras Indígenas. É justamente neste plano que se abre a possibilidade de refletir, na tentativa de compreender como a “conduta política” atual não tem contemplado os povos indígenas e, consequentemente, os seus territórios tradicionais.

Atualmente, o povo Terena está distribuído nas seguintes TI Taunay-Ipegue, Limão Verde, Cachoeirinha, Pilad Rebuá, Lalima, Buriti, Nioaque, Buritizinho e nas aldeias urbanas localizadas em Campo Grande. Tais terras são reservas indígenas demarcadas na época do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), à exceção da TI Limão Verde, demarcada de acordo com o preceito constitucional de 1988. Posto isto, tem-se como principais entraves à demarcação dos territórios indígenas a judicialização das demarcações e o modelo de “desenvolvimento” adotado pelo Estado brasileiro, opção que não contempla as comunidades, ainda vistas como empecilhos ao dito “desenvolvimento”.

No que tange à judicialização, são latentes as inúmeras ações judiciais em trâmite perante a Justiça Federal de Mato Grosso do Sul, bem como os recursos interpostos perante o Tribunal Regional Federal da 3ª Região, a segunda instância de jurisdição. Como se sabe, o procedimento de demarcação de TI está previsto para tramitar na via administrativa, iniciando-se na Funai e sendo concluindo com expediente da presidência da República (atos do poder Executivo).

No entanto, com as ações intentadas pelos interessados na não demarcação, os procedimentos ficam paralisados por força de decisão judicial, baseadas apenas em argumentos jurídicos de cunho civilista (Código Civil), enquanto o direito dos povos indígenas foi tratado com profundidade pelo direito constitucional (Constituição Federal). O levantamento das ações judiciais demonstra justamente essa tendência do judiciário federal de Mato Grosso do Sul.

Em levantamento feito em 2015, constatou-se que na Justiça Federal de Mato Grosso do Sul estavam em trâmite aproximadamente 388 processos judiciais que versavam sobre demarcação de TI e demais conflitos possessórios. Desse total, 154 processos tramitavam na subseção judiciária de Campo Grande; 73 processos em Dourados; 93 em Ponta Porã; e 68 em Naviraí. Estas são apenas ações tramitando em primeira instância, sem contar outras centenas de recursos pendentes nos tribunais de segunda instância.

No Supremo Tribunal Federal (STF) localizamos 13 ações judiciais envolvendo demarcação de TIs. Há casos em que o Estado de Mato Grosso do Sul ingressa como parte no processo, atuando como assistente litisconsorcial do fazendeiro; o que faz a ação ser deslocada da Vara Federal de primeira instância para o STF.

Esta sistêmica ação por parte do Estado (leia-se: governador) tem o nítido objetivo de levar o processo para o STF e, consequentemente, aumentar a demora por uma decisão do poder Judiciário. Como a judicialização tem sido um dos principais entraves às demarcações, são várias as manobras processuais para o retardamento da prestação jurisdicional, entre eles, o ingresso do Estado como parte nos processos.

Diante da inércia do poder público em cumprir a determinação constitucional de demarcar as TIs, o Conselho do Povo Terena, por meio de seus caciques e lideranças, deliberou a imediata retomada de seus territórios. Nesta esteira, nos últimos quatro anos os Terena reocuparam aproximadamente 45 mil hectares de terras, constituindo inúmeros acampamentos indígenas. No município de Dois Irmãos do Buriti, temos as retomadas 10 de maio, Pahô Sîni, Terra Vida e Cambará. No município de Miranda estão as retomadas Maraoxapá, Mãe Terra, Charqueada e Kuixóxono Utî. Em Aquidauana estão as retomadas Esperança, Maria do Carmo, Cristalina, Ouro Preto, Persistência, Capão da Arara, Ipanema, Touro e Santa Fé.

É justamente neste contexto de conflito fundiário que Oziel Gabriel, liderança terena, foi morto na manhã do dia 30 de maio de 2013, depois de ser gravemente ferido por projétil de arma de fogo em uma área retomada pelo povo Terenapertencente à TI Buriti, declarada em 2010 como de ocupação tradicional. O episódio se deu quando a Polícia Federal, usando de um violento modus operandi desproporcional, em uma ação mal planejada, iniciou a execução da reintegração de posse da área ocupada pela comunidade, que vem sendo reivindicada pelo ex-deputado estadual Ricardo Bacha, com bombas de feito moral, spray de pimenta e tiros de armas letal e não letal. Em 2016, as investigações do Ministério Público Federal (MPF) concluíram que o projétil que atingiu Oziel partiu de uma arma da Polícia Federal.

Ainda em 2013, o líder Paulino Terena foi atacado em sua comunidade por quatro homens encapuzados. O atentado foi atribuído a produtores rurais da região, em disputa na Justiça pela posse de territórios reivindicados pelos Terena. Importante lembrar que foi nesta mesma região que, em 4 de junho de 2011, um ônibus que transportava cerca de 30 estudantes terena, a maioria entre 15 e 17 anos, foi atacado com pedras e coquetéis molotov. Seis pessoas, incluindo o motorista, sofreram queimaduras e quatro foram internadas em estado grave. A estudante Lurdesvoni Pires, de 28 anos, faleceu, vítima de ferimentos causados pelas queimaduras. O ataque está intimamente ligado ao contexto da disputa pela demarcação de TIs.

O contexto de Mato Grosso do Sul é extremo ao ponto de a violência do campo se institucionalizar nas agências estatais e setores de representação do agronegócio. A violência é, ao mesmo tempo, velada e declarada. Foi assim que no final de 2013, a Associação dos Criadores de Mato Grosso do Sul (Acrissul) e a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), com o apoio da bancada ruralista do Congresso Nacional, lançaram a convocação da realização do chamado “Leilão da Resistência”, grande ato político que tinha como fim maior a arrecadação de fundos para a formação de uma grande milícia armada para fazer a segurança de propriedades rurais e promover ataques a comunidades indígenas.

O Conselho Terena e a Aty Guasu, Grande Assembleia dos povos Kaiowá e Guarani, ingressaram com ação judicial para barrar o “Leilão da Resistência”. O processo foi distribuído à 2ª Vara Federal de Campo Grande, e no dia 4 de dezembro de 2013, a juíza Janete Lima Miguel determinou que as entidades ruralistas se abstivessem de realizar o leilão argumentando que “esse comportamento por parte da parte [fazendeiros] não pode ser considerado lícito, visto que pretendem substituir o Estado na solução do conflito existente entre a classe ruralista e os povos indígenas” e que “tem o poder de incentivar a violência (…) e colide com os princípios constitucionais do direito à vida, à segurança e à integridade física”.

Numa manobra processual, em menos de 48 horas depois, as entidades ruralistas conseguiram afastar a magistrada do caso e, após o tribunal nomear outro magistrado, o leilão foi liberado pelo juiz Pedro Pereira dos Santos. A decisão, no entanto, impôs condicionantes: 1) O dinheiro arrecadado com o leilão deveria ser depositado numa conta judicial e controlado pela Justiça; 2) Os leiloeiros deveriam discriminar os nomes dos arrematadores e os valores pagos; 3) A utilização dos recursos arrecadados com o leilão só poderá ser feita depois da Justiça ouvir o Ministério Público Federal (MPF) e as organizações indígenas Aty Guasu e Conselho Terena.

É notório, de igual modo, o processo de criminalização de lideranças indígenas e aliados do movimento indígena em curso no Estado e no Brasil. Eu mesmo enfrentei, em menos de dois anos, processos disciplinares na Ordem dos Advogados do Brasil, seccional Mato Grosso do Sul (OAB/MS), um deles com pedido de cassação de meu registro como advogado, assinado pela Comissão do Agronegócio da entidade.

A perseguição aumentou depois que atuei na ação judicial que suspendeu a realização do chamado “Leilão da Resistência”, criando obstáculos intangíveis aos realizadores do evento. Em março de 2014, os ruralistas também manejaram uma ação judicial para tentar impedir que eu defendesse minha dissertação de mestrado dentro da terra indígenaTIs, justamente porque tratava do direito territorial dos povos indígenas.

Nesta esteira, em 2015 foi instalada pela Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Proposta pela deputada ruralista Mara Caseiro, esta CPI foi um verdadeiro instrumento de perseguição a indigenistas e lideranças indígenas do Estado. A Justiça Federal em Campo Grande, atendendo pedido da Defensoria Pública da União, concedeu liminar suspendendo a CPI, no entanto, o Estado de Mato Grosso do Sul ingressou na demanda e recorreu ao Tribunal Regional Federal da 3º Região, que suspendeu a liminar possibilitando que a CPI prosseguisse com os trabalhos. Importante registrar que o Conselho do Povo Terena foi a organização indígena mais perseguida por esta CPI.

A luta do povo Terena é incansável. No final de 2015 foram surpreendidos pela decisão da Segunda Turma do STF que anulou a demarcação da única Terra Indígena terena demarcada após 1988, a TI Limão Verde, localizada em Aquidauana. A demarcação da TI Buriti também foi anulada pelo TRF da 3º Região e inúmeras decisões liminares têm sido prolatadas em ações de reintegração de posse contra comunidades indígenas.

Entra em cena a discussão do chamado “marco temporal” suscitado pela primeira vez no STF no julgamento do caso da Raposa Serra do Sol. A tese defendida por parte da Segunda Turma do STF é a de que o direito dos povos indígenas à posse de seus territórios tradicionais teria como condição a presença das comunidades nas terras que reivindicam na data de promulgação da Constituição, 5 de outubro de 1988.

Outra possibilidade seria a comprovação do esbulho renitente, ou seja, a resistência das comunidades indígenas à invasão de seus territórios por meio do conflito físico ou reivindicando a posse na Justiça. Cabe salientar que os povos indígenas, o MPF e a Funai refutam esta tese inconstitucional, pois não é possível a sua aplicação no contexto de intensas violações que os povos indígenas foram alvo nesses mais de 516 anos.

Fica evidente que as decisões do poder Judiciário baseadas no marco temporal são equivocadas, já que a atual Constituição não limita os direitos originários dos povos indígenas a 5 de outubro de 1988, pelo contrário: impõe prazo para que o Estado brasileiro conclua a demarcação desses territórios. Cabe registrar que Terra Indígena e posse nativa são conceitos mais amplos que permanência física em certo espaço territorial. Na perspectiva de terra tradicionalmente ocupada por esse ou aquele povo indígena, vale dizer, prevalece toda a área necessária à reprodução física e cultural do povo.

O povo Terena tem demonstrado forte resistência em sua história imbricada às ações estatais de que foram alvo, entretanto, seguem firmes, fortalecendo-se enquanto povo indígena e gritando a palavra de ordem “Poké’exa ûti!”,“nosso território tradicional (nossa terra)”. Pronunciando essas palavras é que, nos últimos anos, as lideranças terena têm retomado territórios tradicionais e resistido no difícil caminho da luta por seus direitos.

Será o começo do fim do Facebook?

Será o começo do fim do Facebook?

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O título é mais uma provocação do que um prognóstico. Seria precipitado afirmar que o Facebook está com os dias contados. Mas é fundamental entender os motivos e o que representa essa que talvez seja a primeira grande crise da plataforma que, em 2017, ocupou o 4º lugar no ranking das empresas  de internet mais valiosas do mundo, atrás apenas da Apple, Alphabetic (Google) e Microsoft. Em dezembro de 2017, a rede social de Zuckerberg alcançou a marca dos U$ 520 bilhões de dólares, mantendo-se à frente de outra gigante, a Amazon, segundo dados da Forbes.

O Facebook tem sido alvo de multas milionárias (bilionárias até), de críticas motivadas pelo descontentamento de usuários que se veem lesados pelo uso indevido dos seus dados, pela maneira como os algoritmos da plataforma cria bolhas, a falsa ilusão de alcance, contra a política de patrocínios e a propagação de notícias falsas.

O escândalo sobre o vazamento de dados pessoais de cerca de 50 milhões de usuários para uso indevido por uma empresa de estratégia política, a Cambridge Analytica, é a mais profunda que Mark Zuckerberg já enfrentou.

O CEO e fundador do Facebook saiu da sua “bolha de proteção e conforto” para assumir a missão de tentar limpar a imagem da sua plataforma. Deu entrevistas a jornais e redes de televisão – o que não é uma prática de Zuckerberg – e já apresentou medidas de controle e segurança, com o intuito de reduzir danos, em particular na bolsa de valores, onde as ações da companhia já tiveram uma queda de mais de 12%, acumulando uma perda de mais de 50 bilhões de dólares apenas essa semana.

As propostas de Zuckerberg, no entanto, são superficiais e pouco eficazes para impedir novos vazamentos. No caso dos aplicativos, eles anunciaram que irão fazer uma auditoria nos apps que usam o Face para identificar os que fazem “mau uso dos dados” e bani-los da plataforma. Se uma pessoa não fizer uso de um app por mais de 3 meses, o aplicativo deixará de ter acesso aos seus dados. Zuckerberg também anunciou que vai ensinar as pessoas a gerenciar seus apps, e informar quando os dados de alguém tiver sido usado de forma indevida.

Enfrentar os problemas na raiz

Essas medidas – que já deveriam ser uma política da empresa desde sempre – atacam apenas a superfície do problema. A raiz é justamente a possibilidade de a plataforma e seus aplicativos terem acesso irrestrito aos dados pessoais, de navegação e a todas as atividades do usuário na sua plataforma e, inclusive, fora dela. A origem do problema está na arquitetura dos algoritmos do Facebook, que são desenvolvidos para rastrear nosso comportamento digital e armazenar nossos dados. Ou seja, o Facebook foi construído desde o início com esse propósito, o seu modelo de negócios está baseado na coleta e comercialização das informações que nós, usuários, fornecemos gratuitamente para ele.

Esse modelo de negócios é ainda mais perigoso, porque é operado por um monopólio que congrega e interliga outras redes à sua rede. Um dos compromissos firmados pelo Facebook na ocasião da aquisição do Whatsapp e Instagram foi justamente o de manter as três redes independentes. Pouco mais de um ano depois da compra das duas plataformas, o Facebook fez a integração das três, ampliando ainda mais a coleta de informações e dados que permitem traçar perfis praticamente individuais dos usuários, uma verdadeira mina de ouro tanto para o mercado de comércio e serviços, como para o “mercado da política” que tem empresas como a Cambridge Analytica.

Zuckerberg também declarou que talvez seja o caso de haver algum tipo de regulação da sua plataforma. Admitiu publicamente que o Facebook assumiu um papel importante na construção de opinião e direcionamento de temas, além de reconhecer que sua plataforma tem um forte poder político para direcionar políticas e até governos.

Por mais que seja uma plataforma privada, o Facebook adquiriu – gostemos ou não – uma papel público relevante e perigoso demais para ser mantido sem qualquer tipo de regulação.

Por isso,  para além das medidas anunciadas – totalmente paliativas – é preciso criar regras de transparência sobre as atividades e funcionamento da plataforma; exigir que o desenvolvimento dos algoritmos se dê a partir do conceito de privace by design (que desde a concepção são construídos para garantir parâmetros de privacidade); definir regras de desconcentração, impondo que o compromisso da separação entre Facebook, Instagram e Whatsapp seja cumprido; impedir que o Facebook adquira novas redes, medida importante para frear a ação monopolista da companhia na internet; definir políticas de proteção de dados pessoais e modelos mais rígidos e transparentes para que o usuário tenha conhecimento das regras e possa decidir sobre como devem ou não ser utilizadas suas informações. Padrões internacionais mínimos deveriam ser definidos sobre esse tema, mas a plataforma deveria ser obrigada a obedecer as legislações nacionais de proteção de dados pessoais.

É cedo para dizer qual será o desdobramento dessa crise do Facebook. Se este será um momento de reconfiguração da plataforma que já passou por mudanças significativas desde a sua criação (apesar de nenhuma delas motivada por uma crise de credibilidade); ou se esse abalo vai levar a um êxodo da rede, que poderá perder relevância até ser superada por outra novidade, como aconteceu com o Orkut.

Aliás, essa é uma característica da Internet: a velocidade com a qual as novidades surgem e desaparecem na rede mundial de computadores é muito grande. Isso faz com que seus gigantes econômicos tenham uma vida mais curta que os gigantes da economia tradicional. AOL, Altavista, Napster, Orkut são alguns dos exemplos que mostram como é possível ser grande tão rapidamente, mas, num piscar de olhos, deixar de existir.

O próprio surgimento de uma bolsa de valores específica (Nasdaq) para negociar ações de empresas de tecnologia se constituiu num grande fenômeno que cresceu e explodiu. Toda grande bolha cresce até o limite de sua elasticidade, depois estoura.

Uma breve linha do tempo do Facebook

Os picos de expansão econômica do Facebook coincidem com mudanças significativas da plataforma e do seu modelo de negócios (introdução de anúncios, posts patrocinados, impulsionamento de páginas, parcerias com outras empresas e plataformas, criação de funcionalidades para competir com os concorrentes – como os vídeos ao vivo – e outras inovações ao longo dos últimos 14 anos).

Quando percebeu o alcance de sua rede – que nasceu para conectar os estudantes da Universidade de Harvard – e o potencial bilionário de seu negócio, Zuckerberg começou ampliar suas metas e aspirar, porque não, transformar o Facebook na própria internet.

Quando os caminhos de Zuckerberg começaram a trilhar neste sentido, ele começou a enfrentar seus primeiros obstáculos. Não adianta conquistar o mundo e matá-lo ao mesmo tempo.

O Facebook passou a ser uma ferramenta de interação mais ou menos dois anos depois de ser lançado.

Em 2006, a plataforma criou sua primeira versão de feed de notícias. Até aí, apenas páginas pessoais eram possíveis de serem criadas e a rede era, digamos, estritamente social – uma maneira de contar ao outro o que o que você estava fazendo, com quem e onde, e o que pensava ou sentia sobre determinado assunto.

Em 2008, surgiu a primeira funcionalidade para que o usuário pudesse adicionar links e fotos ao seu status. Foi aí que as pessoas começaram a trocar links de páginas de notícias, de venda de produtos, de empresas, dos mais variados temas. Zuckerberg percebeu que seria muito interessante introduzir as empresas na sua plataforma, permitir que além das pessoas físicas, pessoas jurídicas (.com e .gov) pudessem produzir conteúdo – e valor econômico – para o Facebook.

É nesta etapa que o Facebook passa a desenhar o seu modelo de negócios como o conhecemos hoje – gerar cada vez mais tráfego na sua plataforma, aumentar mecanismos de interação (comentários, compartilhamentos e likes) e a partir disso monetizar as interações com base em frequência e relevância.

Também é aqui que o modelo passa a se basear de forma mais dependente da coleta, tratamento e comercialização de dados pessoais.

Em 2009 surgem as páginas, com funcionalidades distintas dos perfis pessoais. Nessa altura, muitas empresas e governos já mantinham perfis individuais. O Facebook fez uma campanha para que houvesse uma migração para as páginas. Nas páginas, funcionalidades de acompanhamento estatístico do alcance das postagens foram introduzidas, preparando o caminho para o que já estava planejado como próximo passo: os patrocínios e impulsionamentos.

Bolhas, ilusões e bolsa de valores

Ninguém, nem mesmo o Rei Roberto Carlos, pode ter realmente 1 milhão de amigos. Nem mil. O Facebook criou essa ilusão, de que ao se conectar com alguém na sua plataforma você está fazendo um “amigo”. E junto com isso, o Facebook vendeu inicialmente para seus usuários outra falsa ideia: a de que os seus milhares de amigos podem acompanhar a sua atualização de status. Talvez lá no início fosse assim. Mas com toda certeza a partir de 2009, 2010, já não era mais.

Então, é mais ou menos neste momento que o papel dos algoritmos passou a se tornar mais relevante e a mudar o perfil da rede social.

Já havia um algoritmo que “selecionava” o que cada usuário via no seu feed. Mas a entrada dos usuários .gov e .org ampliaram essa “seleção”.

No ano de 2012 o Facebook passou realmente por uma grande transformação. Não na sua interface e funcionalidade, mas na sua composição. De um empreendimento individual, tornou-se uma empresa capitalista de mercado aberto. Em 18 de maio, Zuckerberg vendeu o primeiro lote de ações da sua empresa na Bolsa de Valores de Tecnologia de Nova York, a Nasdaq. Naquele momento, a empresa estava avaliada em U$ 104 bilhões.

Ao abrir seu capital, o Facebook passou a ter a obrigação de reverter lucro aos acionistas que investiram na empresa. O ideal “misantropo” de Zuckerberg de conectar as pessoas deu lugar à frase máxima do capitalismo norte-americano “Show me the money”.

Lucro e Poder

Essa mudança se traduz no botão “Promote” ou “Promover”. Já havia uma insatisfação das páginas que percebiam pelas estatísticas o baixo alcance de suas publicações para os seus “fãs” ou seguidores. Nesta época, uma média de 12% das pessoas que curtiram uma página visualizavam seus posts. O Facebook então resolveu fazer com que as páginas pagassem para ter mais alcance. Quer ser visto ou lido? Então pague por isso.

Assim, o Facebook aprofundou o modelo econômico baseado nos likes: quanto mais tempo, mais interação e frequência de postagens você tiver, mais valor você vai gerar para si e para o Facebook.

Ao adotar este caminho econômico, o Facebook direcionou os conteúdos pela afinidade dos seus usuários – afinal, aparecem para mim conteúdos relacionados com o meu hábito – de quem eu mais compartilho, interajo etc. Começaram a se aprofundar as bolhas. O que havia de diversidade no Facebook, a possibilidade de estar em contato com conteúdos diferentes, de se confrontar com outros pontos de vista, foi reduzido praticamente a zero.

Outras mudanças foram sendo incorporadas – a ideia aqui não é fazer um histórico detalhado da evolução do Facebook, mas mostrar como sua trajetória foi sendo conduzida para criar armadilhas no sentido de aprisionar cada vez mais as pessoas dentro da plataforma. A ideia era de que a internet que se lasque, você tem que postar no Facebook, compartilhar no Facebook, comentar no Facebook, publicar o link da notícia no Facebook e, porque não, ler na íntegra os conteúdos de outros sites dentro do Facebook.

Surgem os Instant Articles, parcerias com empresas de mídia para não mais postarem links, mas hospedarem seus conteúdos para serem lidos diretamente na timeline do Facebook.

De novo, menos internet mais Facebook.

Saltamos para o ano de 2014. É mais ou menos neste momento que o CEO do Facebook anunciou a criação de um projeto para conectar os desconectados através de um acesso móvel oferecido pela empresa chamado Internet.org, que de tão bombardeado mudou rapidamente de nome e passou a chamar Free Basics. Através de um aparelho celular, a pessoa baixa o aplicativo do Free Basics e instala uma versão do Facebook que dá acesso à algumas funcionalidades da plataforma. A pessoa não estará conectada à rede mundial de computadores, não poderá transmitir dados como vídeos, fotos de alta resolução, transferir arquivos, ou usar programas de voz por IP [como o Skype], mas poderá navegar no Facebook.

Todas essas iniciativas coincidem com a discussão envolvendo a neutralidade de rede e o modelo de negócios de acesso à internet baseado na expansão da conexão por dispositivos móveis. Nesse momento, o Facebook e empresas de telecomunicações firmaram uma parceria que permitia pessoas que contratassem um pacote de dados para acesso à internet pelo celular “ganhassem” o acesso grátis ao Facebook. Ou seja, para navegar na plataforma do Zuckerberg não haveria descontos do pacote de dados. Essa oferta é chamada de zero-rating.

Esses e outros instrumento perversos do Facebook foram criados para manter as pessoas quase que “exclusivamente na sua plataforma” e limitar o acesso à internet. Quando o usuário via uma notícia interessante na sua timeline e clicava para acessa-la, uma janela abria instantaneamente para perguntar: Você tem certeza que quer continuar? A partir deste momento a navegação será descontada do seu pacotes de dados.

Nem precisa pensar duas vezes: num cenário de preços elevadíssimos dos pacotes de dados, pelo menos no Brasil, o usuário não vai clicar para ler a notícia, vai guardar os dados para um momento mais importante. E assim a pessoa vai ficando no Facebook, adquirindo pacotes cada vez menores e usando apenas aquilo que vem de graça – Facebook, Instagram e Whatsapp, estes dois últimos comprados pelo Zuckerberg em 2012 e 2014 respectivamente. Ou seja, é como se o usuário ficasse preso em casa, num cárcere privado, sem a possibilidade de percorrer as largas avenidas e milhares de ruas que compõem a world wide web.

Encruzilhada

Apesar de ainda manter um crescimento, aos poucos o Facebook vai perdendo sua relevância. As pessoas começam a tomar consciência dos limites, da manipulação, das bolhas e do poder que o Facebook tem de interferir nos hábitos, em suas vidas e na própria soberania e democracia dos países.

Ao aprofundar esse modelo que originou as grandes bolhas de auto-referenciamento de opiniões já estratificadas, a plataforma gerou um ambiente refratário ao debate e até impulsionador de intolerância e preconceitos. Passaram a ser mais constantes os discursos de ódio no Facebook, como campanhas de difamação. A economia dos cliques, impulsionada pela plataforma, gerou um caça níqueis que permitiu o surgimento de páginas de conteúdos sensacionalistas e notícias falsas, que rapidamente foram instrumentalizados com objetivos políticos.

Os setores progressistas, de outro lado, já há muito tempo denunciam os mecanismos de coleta e uso de dados pessoais dos usuários do Facebook, o intercâmbio com agências de inteligência, o cerceamento à liberdade de expressão por retirada de conteúdos de seus usuários, a definição discricionária da plataforma sobre o que é ou não conteúdo terrorista, ou impróprio, enfim, uma série de “decisões” da empresa que impactam negativamente na circulação dos conteúdos na timeline.

O que vai acontecer a partir daqui é difícil dizer. Mas parece certo que o Facebook está diante de uma encruzilhada.

Ceder à pressão para que a sua plataforma possa ser alvo de uma regulação externa, que ao mesmo tempo imponha uma série de obrigações à empresr de decisão sobre sua presença na rede; ou se vai manter a postura de adotar medidas paliativas e garantir a permanência do modelo atual.

Qualquer dos dois caminhos, vai exigir, também, medidas para impedir uma retirada em massa da plataforma, que segundo informações divulgadas pelo próprio Zuckerbeg, já sofreu uma redução de 50 milhões de horas a menos de utilização diária desde o início desse ano.

Talvez, como outros gigantes da internet, o Facebook já tenha vivido seu auge e esteja entrando no seu declínio.

 

 

 

 

 

 

Sônia Guajajara: a água é uma das principais razões pelas quais lutamos

Sônia Guajajara: a água é uma das principais razões pelas quais lutamos

A luta pela Terra é a mãe de todas as lutas e a água é uma das principais razões pelas quais lutamos.

Marcha Mundial da Água. Foto: Mídia NINJA

A água é o que garante o nosso bem viver, alimenta as nossas relações com a natureza, as relações entre nós mesmos e as relações entre as sociedades. É por isso que nós não podemos desconhecer que já ocorre uma guerra pela água no mundo, com consequências terríveis para nosso país, não só para os povos indígenas.

As ameaças, mais ou menos explícitas, estão por toda a parte. Envenenamos nossas águas com agrotóxicos. Matamos os rios com dejetos de mineração, com explorações ilegais ao longo dos seus leitos. Mas também matamos nossos rios com a falta de saneamento básico adequado nas cidades, com a especulação imobiliária, com uma educação ambiental ainda muito frágil. Quando vendemos commodities, ou mesmo gado vivo, estamos também entregando água para o mundo, sem receber nada por isso. Por isso, as grandes corporações internacionais estão de olho nas nossas terras, nas nossas águas.

Temos dois dos maiores aquíferos do mundo – o aquífero Guarani, no sul do país fazendo fronteira com nossos vizinhos, e o aquífero de Alter do Chão, na Amazônia. Por isso, precisamos propor um modelo alternativo de desenvolvimento para o nosso país, que é único no mundo.

Podemos, com a experiência que os povos indígenas e as comunidades tradicionais trazem, apresentar ao mundo um novo modelo, ecossocialista, que supere o individualismo exacerbado e o consumismo sufocante que a sociedade vive hoje.

Nós sempre resistimos a esse modelo degradante que tentam nos impor e, cada vez mais, na medida que as mudanças climáticas se fazem sentir, na medida em que os estudos científicos avançam, acabam por reencontrar os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas.

Resistimos até aqui para existir. Mas, para continuar existindo de forma harmônica com a natureza, da qual somos parte, com a nossa Terra, não nos basta mais apenas resistir. Precisamos insistir na mudança, avançarmos na luta.

Nessa guerra pela água, estamos do lado da vida, da vida de todos nós, indígenas e não indígenas, e conclamamos a todas e todos para que tomem parte ativa nessa luta.

Nesse dia mundial da água, faço um apelo pela Vida! Pela nossa vida, pela vida das gerações que ainda virão, pela vida de todos os seres da natureza.

Água é direito, não propriedade!

Doria recria programa de trabalho para usuários de crack que criticou durante campanha

Doria recria programa de trabalho para usuários de crack que criticou durante campanha

Trabalho Novo é o nome do programa que usa mesmo modelo chamado por Doria de “bolsa crack”

Doria caminha pela Cracolândia após ação repressiva, que contou com cerca de 900 policiais e resultou na destruição de todo o local. Foto: EDUARDO OGATA/SECOM

A partir do próximo dia 31/03, a Prefeitura de São Paulo vai encerrar o pagamento da chamada “bolsa varrição”, recebida por usuários de crack beneficiários do programa De Braços Abertos. Em seu lugar virá a novidade Trabalho Novo, programa criado pela gestão de João Doria (PSDB).

Este projeto vai gerar renda e trabalho para 300 pessoas, inclusive para os cerca de 290 atualmente participantes do De Braços Abertos. Ele será divido em três cargas horárias: 4h de atendimento psicológico, 8 horas de formação profissional e 4 horas vão integrar uma frente de trabalho, que ainda não foi definida. Os integrantes vão receber até R$ 667,00 mensais.

Apesar de se apresentar como novidade, o programa tem a mesma estrutura do antecessor, ao qual o atual prefeito chamou de “bolsa crack” e “de braços abertos com a morte” durante campanha. O projeto encerrado dava uma bolsa de até R$ 500,00 mensais pelo trabalho de varrição nas ruas do centro e de dois bairros na periferia de São Paulo, oferecia moradia social, acompanhamento psicológico e formação profissional em diversas áreas. Exatamente como o “novo”.

Em entrevista ao Jornal Metrô, a Secretária de Trabalho e Empreendedorismo, Aline Cardoso (PSDB) criticou a gestão do Programa Operação e Trabalho, operado pela Organização Social, Adesaf, responsável por coordenar o De Braços Abertos. Cardoso apontou que não há fiscalização e que não é exigida frequência mínima de trabalho para recebimento dos salários.

A organização exigiu explicações da secretária em ofício enviado no último dia 20/03, em que fez uma série de críticas à condução do atual programa.

“Reconhecido o sucesso do DBA, [a Prefeitura] tenta promover um programa que tem, exatamente, o mesmo perfil de oferta de bolsa para pessoas em situação de vulnerabilidade social que atuam em frentes de trabalho (…). Ora, o que é isso senão a mesma iniciativa travestida, batizada de um novo nome? Isto é tentar ludibriar a imprensa e a sociedade”, afirma o documento.

Em respostas às críticas ao pagamento, a OS argumenta que técnicos da prefeitura, indicados pela Secretaria de Trabalho, acompanham os pagamentos, que são realizados todas as quintas-feiras. Além disso, que o valor dos pagamentos é proporcional aos dias trabalhados.

Na reportagem, Cardoso aponta que o “programa tem um objetivo claro, que é o de aumentar a empregabilidade destes usuários” e crítica a tolerância ao consumo de drogas. “Há casos de participantes que continuam usando crack de cinco a sete dias por semana. Não é possível esperar que sejam absorvidos pelo mercado de trabalho”.

A política de redução de danos, adotada pelo governo na criação do De Braços Abertos, no entanto, tem o objetivo de diminuir os riscos que a pessoa causa a si e a sociedade, e como consequência, aumentar a sua empregabilidade, ou capacidade de criar uma iniciativa empreendedora. Ou seja, seu objetivo principal não é a empregabilidade. Muito menos a abstinência do beneficiário.

“Em uma tentativa desastrosa, a Administração Municipal incluiu os beneficiários no programa Trabalho Novo. Dos 63 beneficiários que foram convocados pela Prefeitura para sensibilização deste programa, 37 concluíram o curso. Destes 37, 11 foram encaminhados para os processos de seleção das empresas parceiras do Trabalho Novo. Dos 11, apenas 4 foram contratados. E os 4 não passaram do período de experiência. Dados estes que reforçam que o Trabalho Novo não se aplica ao perfil público-alvo do De Braços Abertos: pessoas em situação de rua que fazem uso crônico / abusivo de substâncias psicoativas, agravando ainda mais o sentimento de frustração dos beneficiários”, aponta o documento.

Os resultados dos dois programa mostram que, apesar da mudança estética, as políticas aplicadas pela prefeitura tem gerado a piora dos serviços. Isso ficou claro com a polêmica criação do projeto Redenção, que será o principal vetor de atendimento à população que faz uso abusivo de drogas.

Divulgação

A princípio o programa seria apenas para abstinência, mas com os resultados positivos da política de redução de danos do De Braços Abertos, e as desastrosas ações na Cracolândia, a prefeitura foi obrigada a fazer alterações, incluindo por exemplo o trabalho remunerado, com o Trabalho Novo.

O coordenador do Redenção, Osmar Guerra, declarou que é preciso mesclar os dois modelos. Para ele a prefeitura atropelou a ideia inicial do programa, que sempre teve como diretriz a redução de danos.

Neste período, a Prefeitura vem fechando uma série de moradias sociais de beneficiários do De Braços Abertos. Até agora, dois dos oito hotéis foram fechados, ambos no centro, e cerca de 94 pessoas foram enviadas para moradias provisórias e para os Centros Temporários de Acolhimento (CTA), estruturas de contêineres que atendem pessoas em situação de rua.

Muitos voltaram para as ruas e regrediram em seus tratamentos, realidade que o governo ignora. A Secretaria de Desenvolvimento e Assistência Social, na figura do seu chefe de gabinete, José Castro, disse que todos os prédios serão fechados e os beneficiários deslocados para outros programas.

Juca Ferreira: As lições de Marielle

Juca Ferreira: As lições de Marielle

Marielle Franco, no Complexo da Maré. | Foto: Mídia NINJA

Os caminhos da barbárie para a democracia – Lição 1

A triste e revoltante execução de Marielle Franco decretou a morte simbólica de um Brasil catatônico, bestializado e vilipendiado pelo golpe que usurpou a democracia, a cidadania e a soberania nacional.

O Brasil do golpe, que naturaliza as desigualdades sociais e convive com um dos maiores índices de violência, morreu no Estácio.

Morreu pelo sangue de Marielle e do motorista Anderson, que tombaram como milhares de negros pobres e trabalhadores imolados por um aparato de opressão e violência entranhado nas vísceras do Estado, nas instâncias políticas, policiais, judiciais; nas corporações privadas e em quase todas as estruturas sociais e nas consciências brasileiras.

O povo pobre que vive nas periferias e favelas brasileiras é submetido pela violência dos traficantes, das milícias e das polícias. Esse Brasil herdeiro da escravidão é um cadáver insepulto que teima em permanecer em pleno século XXI.

A dor brutal acordou o Brasil. A voz silenciada à bala destravou o grito preso na garganta.

Basta!

O Brasil mudou. Quer mudar. Se manifestou contra a barbárie e pelo direito à vida sem as ameaças de morte. O país sonha com um futuro melhor.

A morte em sacrifício restabeleceu a energia vital da nação, retirou o país da letargia e refez laços de cidadania e fraternidade. Estamos de pé e devemos seguir em frente.

O pior que pode acontecer é nos desmobilizarmos ou nos deixarmos manipular pelo aparato de comunicação e pelas instituições que trabalham para perpetuar esse Brasil injusto. Sigamos em frente.

Primeiro, como a questão que vai permitir enfrentarmos todas as outras, vamos ter que recuperar a democracia usurpada pelo golpe.

As eleições de 2018 devem ser garantidas sem tutelas, nem restrições que se sobreponham à vontade popular, assegurando a todos o direito de participar do pleito. Inclusive Lula, o preferido dos brasileiros.

Debates eleitorais, livres e democráticos, deverão definir o projeto de Brasil que os brasileiros e brasileiras querem implantar daqui para a frente. Desde o enfrentamento da violência e do crime organizado, até o restabelecimento da Soberania Nacional e a criação de uma estratégia de desenvolvimento sustentável.

Sigo falando desse processo num próximo post, logo mais. Siga comigo. Vamos debater e apontar os caminhos que vão nos ajudar a fazer a travessia da barbarie para a democracia.

#MariellePresente

Marielle: As Operações de Mídia

Marielle: As Operações de Mídia

O necropoder ataca a potência, por isso os mesmo heróis celebrados pela mídia são os elementos matáveis para o Estado

A comoção gigantesca por Marielle, um fenômeno nas redes e nas ruas, para além dos que partilhavam de suas lutas, viralizou e se globalizou levando junto valores que hoje vão na contramão do retrocesso político que vivemos.

A reação das mídias corporativas foi imediata: Fantástico, o RJ TV, o Jornal Nacional novelizaram a execução de Marielle Franco, e fizeram um perfil humano e digno de sua vida, nos apresentando sua família, sua filha, sua mulher embalados para aquele consumo anestesiante, como fizeram com vários outros personagens políticos, inclusive com uma parte da indignação de 2013 que foi canalizada para o golpe de 2016. Mas as coisas são mais complexas que isso e é possível mesmo celebrar a posição da Globo à esquerda da direita!

O Fantástico e a cobertura massiva de um assassinato político faz o que é possível para colar o carisma de Marielle, sua cara iluminada, seu sorriso lindo, de jovem negra vitoriosa vinda da favela contra o poder de morte do Estado, aos arquétipos de sua teledramaturgia.

O capitalismo trabalha com a potência, se apropria da potência. Sempre tivemos uma bipolaridade no tratamento que a Globo dá as questões de comportamento e do imaginário e as questões do embate econômico-político.

São liberais no comportamento (homoafetividade, comportamentos disruptivos da juventude, afropunk, cultura trans, a potência ligada aos desejos) , e traduzem isso como a “periferia legal”, o “novo”, o hype, etc.

A esquizofrenia e perversão é que os mesmo sujeitos do discurso e da potência, transformados em personagens de um multiculturalismo não problemático, são os “elementos suspeitos” e matáveis para o Estado, a polícia e o exército, e recebem respaldo da mídia.

A negra linda e descolada, as marielles politizadas, as minas pretas com seus cabelos coloridos, o jovem hype da periferia, eles são os mesmos que são matáveis! Essa “dissociação” é perversa! Dissociação cognitiva, política, uma operação de mídia e de linguagem.
Temos sim que celebrar a posição da Globo contra a difamação, as fakenews, o discurso de ódio e a apresentação pedagógica da cartilha dos direitos humanos para um contingente que faz apologia da barbárie.

Ou seja, não adianta achar que o PSOL não deveria colaborar com a Globo, e nem que suas lideranças não deveriam aparecer no Fantástico! Seria desinteligente! Ainda mais com a audiência gigantesca que tiveram. Pois sabem vocalizar a potência dos corpos e do imaginário.

Vamos aprender com a Globo, com a publicidade, com Hollywood, a tal da disputa das narrativas.

Nossas lutas e corpos são a matéria dos sonhos, sã a matéria do imaginário, é isso que os novos movimentos políticos e pops podem buscar. Esse é o novo ativismo que passa pela comoção e pelos afetos potentes, pela renovação da linguagem. É isso que vejo na Mídia Ninja, nos coletivos de arte e urbanismo, que podemos ver em uma campanha como a de Boulos/Guajajara, na cara dos cotistas dentro das universidades, no funk, no hip hop, no jongo, nas culturas explosivas e disruptivas etc. Potência dos corpos que sofrem o poder e transformam as forças mais hostis em potência.

Na mídia, a distorção vem depois. Dissociada, mais uma vez: Ao final da edição, do Fantástico, do Bom Dia Brasil, do RJ TV, do Jornal Nacional desta segunda, finalizam com matérias redentoras dos bilhões do governo Temer para a Intervenção no Rio, que “serão tirados de outras áreas”, de que áreas, com as universidades, a saúde, congelada por decreto de 20 anos? Projeto de eleição, de poder, de sujeição.

Acende-se uma vela ao imaginário contemporâneo das lutas e ao necropoder, o poder de morte do Estado brasileiro, conectando Marielle a uma operação que combatia: a intervenção militar no Rio de Janeiro.

Ou seja, a denúncia de Marielle de possíveis crimes cometidos por policiais, sua posição crítica diante da Intervenção militar no Rio, se conectam com uma solução mágica: mais recursos para a própria intervenção! Mais recursos para o necropoder!

A morte de Marielle está em disputa por muitas lutas! Os conservadores, liberais a extrema-direita, a Globo, etc, todos querem surfar nesse acontecimento que desequilibra, pela sua brutalidade as narrativas pré-eleições.

Mas também, o que prova sua morte? Que chegou um ponto sem retorno para avançar nos movimentos pela consolidação dos direitos humanos no Brasil, os movimentos contra o racismo, machismo, o genocídio dos jovens negros das periferias, contra esse mesmo necropoder que a matou. #mariellepresente

Luto por Marielle: contra a violência do Estado no Brasil

Luto por Marielle: contra a violência do Estado no Brasil

 

Ato “Em Favor da Vida” – Complexo da Maré | 23/02/2015 Rio de Janeiro RJ | Foto: Mídia NINJA

Centenas de milhares de pessoas foram às ruas para velar a morte de Marielle Franco. Foram às ruas para expressar que também elas foram atingidas pelo crime político que vitimou Marielle. Para expressar sua indignação ante o uso bárbaro da violência contra quem dedicou a vida à denúncia dessa mesma violência.

Por isso mesmo, as centenas de milhares de pessoas que foram às ruas para velar Marielle são o fato político mais relevante no país desde 2016. Elas representam as vozes abafadas, desejosas de por um fim a recente onda de intolerância e violência que se propaga país afora. O desejo de que a dor de hoje se consubstancie em novos tempos de esperança.

A dimensão da solidariedade demonstrada a Marielle e a Anderson Souza, vítima do mesmo ataque, soa como um alento àqueles que consideram as ruas como lugar por excelência para transbordar a indignação frente a tantas afrontas que se acumulam nessa conjuntura pós-golpe.

Claro que avaliações desse tipo exigem cuidado. Primeiro, por respeito às vítimas, seja em sua dor, seja ao identificar o espaço político que merecem e devem ocupar. Cumpre sempre lembrar que o assassinato de Marielle é também mais um episódio da ampla série de crimes que distinguem o processo de genocídio da população negra brasileira. Uma morte a cada 21 minutos. Guerra civil. Guerra racial.

Trata-se, portanto, de uma luta a ser protagonizada pela população negra, luta que devemos apoiar e reconhecer na sua cobrança de uma larga dívida.

A dívida da abolição inconcluída e da escravidão não resgatada sequer pelo valiosos esforços em favor da inclusão social, levados a cabo neste início do século XXI.

O cuidado estende-se à compreensão da conjuntura em que nos encontramos. O martírio de Marielle desnuda elementos específicos, cujo encastelamento delineia de forma mais nítida o complexo Brasil pós-golpe, motivo para que sejam ser melhor apreendidos.

A descoberta de que as balas que vitimaram Marielle e Anderson pertenciam a um lote adquirido pela Polícia Federal ratificam a existência de uma relação promíscua entre Estado e crime organizado – revelação que transcende fronteiras. Vale lembrar que cápsulas do mesmo lote foram também utilizadas em recente chacina no estado de São Paulo. Mais do que isso, demonstram que organizações milicianas colonizam não apenas as polícias do estado do Rio de Janeiro, mas mantêm intimidade com estruturas do próprio governo federal.

Tudo isso torna ainda mais intrincada a questão da superação da violência urbana. O que por sua vez dá nova prova da nulidade da intervenção militar no Rio. O Exército pode até ter sucesso em espantar “aviõezinhos”, confinando-os ainda mais aos guetos e favelas, mas nada poderá fazer para desmontar a cadeia de comando do crime organizado, cujas raízes alcançam diversos pontos do poder político formal.

Trata-se de uma tarefa muito mais apropriada àquelas instituições com capacidade de investigação e dotadas de uma mínima independência do poder político,: teoricamente, o Ministério Público e o Judiciário. Aliás, vale lembrar que as características do assassinato de Marielle reiteram o da juíza Patrícia Accioly, executada com 21 tiros por milicianos, alvos de investigação coordenada por ela.

Na prática, todos esses elementos atestam a falência do Estado brasileiro, seja pelo esfarelamento das políticas de bem-estar da população, seja pelo desvirtuamento dos aparelhos de segurança pública, utilizados contra o povo ou mesmo subsumidos por organizações criminosas. Não é à toa que, durante o ato do Rio de Janeiro, tenham preponderado palavras de ordem pedindo o fim da polícia (em sua versão militar).

Concluindo esse texto, quero dialogar com duas outras manifestações, entre tantas motivadas por essa morte cuja decifração nos desafia.

O primeiro, de André Singer, intitulado “Assassinato de Marielle representa o fracasso da democracia”, tematiza as insuficiências do processo da redemocratização brasileira, duramente desvelado na morte desta mulher parlamentar, no momento mesmo em que praticava seu ativismo. E essa barbaridade não é um ponto fora da curva: relatórios internacionais situam o Brasil no quarto lugar mundial em assassinatos de ativistas ( com o México, a Colômbia, e as Filipinas).

O outro, de Manô Miklos, intitulado A vida e a luta de Marielle Franco: não foi em vão assinala aspecto antagônico: a presença radiosa de uma jovem mulher negra, lésbica e favelada, cuja corajosa assertividade abriu caminho para tantas outras como ela numa dimensão da cena pública que lhes é historicamente interditada.

Ambos os textos têm razão. De um lado a redemocratização brasileira por não ter enfrentado de verdade uma Comissão da Verdade, ao modo argentino ou chileno, acabou naturalizando as violações de direitos humanos que são estruturais na nossa história . Essa covardia da nossa institucionalidade permitiu que um torturador fosse saudado no momento mesmo em que era cassada a única mulher brasileira já eleita presidenta, uma mulher ex-guerrilheira e que também foi torturada.

De outro lado, o processo político brasileiro admite que, por suas frestas, brotem Marielles como uma flor no asfalto. Em número muito menor do que necessitamos, mas, usando as palavras de Drummond, “garanto que uma flor nasceu”, “furou o tédio, o nojo, o ódio”. As milhares de pessoas na rua pranteando sua morte atestam isso.

Nesse momento, em que estamos condenados a derrotar um golpe, que ceifou de cheio nossas expectativas de avançar gradualmente na construção de uma sociabilidade mais justa e mais digna, é hora de considerarmos as condições de recomeço. A necessidade de construção de um estado verdadeiramente democrático. Para o qual categorias como direitos humanos, gênero, igualdade racial não sejam palavrões.Portanto, um estado para a cidadania. E não simplesmente para a defesa da propriedade.

Jean Wyllys: Para não dizer que eu não falei da desembargadora – e da cobertura da imprensa

Jean Wyllys: Para não dizer que eu não falei da desembargadora – e da cobertura da imprensa

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A desembargadora Marília Castro Neves, a mesma que usou sua rede social para divulgar mentiras criminosas contra nossa companheira Marielle Franco, assassinada a sangue frio na última quarta-feira, defendeu que eu fosse fuzilado num «paredão profilático».

Isso mesmo: uma desembargadora propôs publicamente a minha morte!

Meus advogados vão apresentar uma queixa-crime contra Castro Neves, por ter cometido incitação ao crime de homicídio, e o PSOL do Rio de Janeiro vai representar contra ela para que seja afastada do cargo, mas precisamos refletir sobre a gravidade moral e institucional desses fatos.

Primeiro, uma desembargadora, servidora pública do Judiciário, com um salário de dezenas de milhares de reais, publica em rede social mentiras sobre uma vereadora executada a tiros por sicários no centro da cidade. Com absoluta  irresponsabilidade e de forma criminosa, ela diz que a vereadora era “envolvida com o Comando Vermelho” e que foi engajada com bandidos* de drogas, entre outras absurdas mentiras. Quando questionada pela imprensa, reconhece que “não sabia” quem era Marielle Franco e que publicou essas mentiras porque viu “no Facebook de uma amiga”.

Repito: essa senhora é desembargadora!

Depois, ficamos sabendo que, mais de dois anos atrás, ela havia sugerido publicamente que eu fosse assassinado. Os posts dela vieram à tona depois das mentiras que ela disse sobre Marielle: «Eu, particularmente, sou a favor de um paredão profilático para determinados entes… O Jean Willis (sic), por exemplo, embora não valha a bala que o mate e o pano que limpe a lambança, não escaparia do paredão…», escreveu Castro Neves na rede social em 29 de dezembro de 2015. Quando questionada por alguns jornalistas, ela disse que tinha sido “irônica”, como se essa desculpa bastasse para justificar a incitação ao assassinato de uma pessoa.

Esqueçam por um segundo que eu sou deputado federal. Eu sou um cidadão, uma pessoa, um ser humano. E uma desembargadora defendeu o meu assassinato. Assim, literalmente, entre risos. E nada acontece! Cadê o Ministério Público? Cadê os tribunais superiores? Ninguém vai fazer nada?

Um capítulo à parte merece a cobertura de parte da imprensa. Quando foram divulgadas as mentiras da desembargadora sobre Marielle, a maioria das manchetes dizia «Desembargadora acusa Marielle Franco de…». Acusa. Como se essa “acusação” tivesse algum tipo de seriedade ou credibilidade. Absolutamente todos os jornalistas que escreveram a respeito sabiam, porque é informação pública, que Marielle não foi casada com nenhum traficante – de fato, ela namorava uma mulher –, que a suposta foto dela com Marcinho VP, usada para difamá-la, não é dela e nem do Marcinho VP, mas de duas pessoas desconhecidas, tirada de um velho perfil da rede Fotolog. Todos os jornalistas sabiam que a Marielle não engravidou aos 16 – é fácil fazer a conta se compararmos a idade da filha à dela; e qual seria a acusação se realmente tivesse engravidado nessa idade? – e todos sabiam, também, que ela não tinha qualquer relação com o Comando Vermelho, e nem defendida “bandidos”. Mas, em vez de titular «Desembargadora publica mentiras sobre Marielle», as primeiras manchetes apenas reproduziam as mentiras de forma literal, transformando-se em veículo para sua viralização na Internet. Isso só começou a mudar quando o dano já tinha sido feito.

Eu sei perfeitamente como é isso, porque sou alvo de todo tipo de calúnias diariamente. Inventam projetos de lei que eu jamais apresentei, declarações que eu não fiz, propostas que eu não defendo, entrevistas que eu não dei, coisas que eu não disse, e até falsificam fotos, tuítes, vídeos com edição criminosa, para me acusar das coisas mais absurdas. E quase ninguém se preocupa com isso, e milhares de pessoas compartilham as mentiras. Como estão fazendo agora com Marielle, mesmo depois de morta. Essa gente não tem limites!

Da mesma forma, é espantosa a omissão de boa parte da imprensa com relação à incitação ao meu homicídio cometida por uma servidora com um alto cargo no Judiciário brasileiro. Será que o silêncio teria sido o mesmo se ela tivesse incitado a morte de um político heterossexual e de direita? Ou será que o fato de eu ser de esquerda e gay assumido faz com que a muita gente – inclusive juízes, inclusive jornalistas – não lhes pareça grave que uma desembargadora peça minha morte?

Ninguém vai fazer nada? É isso mesmo?


* Post scriptum: Antes da atualização deste artigo, escrevi que a desembargadora Marília de Castro Neves teria “acusado” nossa amiga e companheira Marielle Franco de ter sido casada com um traficante. Na verdade essa alegação falsa partiu de outras pessoas. Por parte da desembargadora, aliás, foi dito algo muito mais grave: que Marielle estava “engajada com bandidos” e que teria sido “eleita pelo Comando Vermelho”.

Enfodere-se à moda Marielle

Enfodere-se à moda Marielle

 Ilustração especial do estilista Ronaldo Fraga

Pois é. Eu não tive a alegria de conhecer Marielle Franco pessoalmente. Mas em minha vida tive a sorte de conhecer sua estrutura de imaginação libertária, o seu projeto pessoal corajoso de vida, o seu trajeto profissional vitorioso, sua visão pluralista da sociedade, seu trabalho centrado no mundo.

Nesse momento, milhares de brasileiras e brasileiros estão tomados por uma sobreposição de sentimentos. Escolho sentir que sua história de vida viva é um presente. Pra mim, pra você, pra todas e todos, hoje e sempre. Marielle disse e fez muito. Ela ensinou o que é compromisso. Que inspirados por ela nós possamos nos reconhecer em nós mesmos. Vai ter celulite sim, vai ter gorda e gordo, trans, negra e negro, porque vai ter gente de verdade, e gente com força emocional, conteúdo além-corpo, alma leve, coração generoso, peles assumidas com nossas memórias estéticas, e olhar decidido.

Marielle era negra, favelada, lésbica. Era pensadora, ativista pelos direitos humanos, mestre, diversa enfim. Diversidade é uma expressão política, é o outro nome da liberdade. E moda é política.

O mundo da moda tem identidades múltiplas e não combina com rigidez mental. A moda não tem cor, não tem tamanho, não tem enquadramento; se é moda não tem controle, porque nasce do povo.

Quando nos apropriamos do valor simbólico da moda como comportamento e não como roupa, nossos corpos assumem o protagonismo das nossas experiências cotidianas, porque a história se faz no processo. Até nesse sentido  o legado de Marielle nos enobrece, mostrando a capacidade de perceber o outro para criar maiorias das minorias.

Diante de tantas atitudes nada éticas de poderosos, a urgência de mudança é absoluta. Já que o que não se pode ver não existe, vamos tornar o invisível visível. Criar espaços físicos e mentais empoderados, estabelecer novos modos de aproximar as pessoas.

Nunca foi tão fundamental entender o presente e decidir como o futuro poderá ser. Nunca foi tão essencial ter estilo. Nunca foi tão importante assumir o querer íntimo, porque as escolhas diárias da composição da nossa imagem definem o que queremos dizer ao mundo – sobre nós mesmos e sobre ele.

Nossa busca tem que seguir imensa e ininterrupta pela autoestima. E sim, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. Só vai dar certo com todo mundo junto, com fortalecimento mútuo, respeito absoluto às peculiaridades e o olhar dirigido ao próprio coração, sem lidar com a ideia de sobrevivência mas de existência.

À moda Marielle podemos fazer a gestão de nós mesmos, construir respostas, conjugar passado e presente de uma forma transformadora, descartando com todas as forças condicionamentos culturais, transpondo fronteiras urbanas. A verdade está entre nós.

Bora enfoderar-nos galera. A gente já sabe como é a vida – agora só precisamos reinventá-la ao nosso modo, à moda Marielle.
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Marielle nos ensina a fazer política

Marielle nos ensina a fazer política

Foto: Maíra Cabral / Mídia NINJA

Conheci Marielle Franco de forma apenas episódica, ela saindo do restaurante em que eu entrava, as duas participando ali perto das gravações do mesmo documentário um ano atrás. O encontro é marcado pelo abraço feliz de companheiras de PSOL, mas mulher mais votada das eleições para vereança no Rio, quinta colocada no total com seus quase 50 mil votos, não houve tempo para muitas palavras. As poucas que trocamos, no entanto, foram significativas da importância que essa mulher tem para mim, ela falando justo da luta para que fosse reconhecido o direito de sua assessora trans a usar o banheiro feminino na Câmara Municipal.

Mulher negra, mãe, bissexual, cria do Complexo da Maré e, como defensora dos direitos de moradores das favelas, uma opositora ferrenha da intervenção federal iniciada no Rio há pouco mais de um mês (era ela, aliás, quem estava incumbida da relatoria da comissão criada pela Câmara para fiscalizar as ações dessa intervenção), mas maior do que tudo isso, ou isso tudo junto talvez, foi a mensagem que ela deu à sociedade ao se eleger de forma tão imponente, com voto massivo das comunidades que representa, e ao mostrar que o cargo de vereadora podia, sim, ser instrumento de transformação.

Corpos negros, periféricos, trans, corpos sobretudo de mulheres, pensando política, marcando presença no cotidiano da Câmara em sua assessoria, a conexão direta com as favelas, a história que ela carrega consigo e que reafirma em cada uma de suas ações, a coragem de reinventar o possível para o cargo que ocupa, esse cargo tão engessado de vereadora (e o engessamento é interessante para quem quer manter as coisas como estão), eis a afronta cometida por Marielle, eis o que é nosso dever levar além.

Querem que sigamos acreditando que política não é nosso espaço, que gente que vem de grupos explorados, marginalizados não deve nem ocupá-la nem se preocupar com ela, e por isso o incômodo frente a figuras como Marielle, que além de invadirem um lugar tão excludente como esse ainda fazem com que essa intromissão reverbere os gritos todos abafados pelo racismo, pelo machismo, pelo classismo, pela LGBTfobia.

Marielle, não Sarney, não Temer, não Cunha, nos ensina a fazer política, a usar a política a favor das lutas que ela constrói, e pagou com a própria vida por isso. Justiça, nesse caso, é menos encontrar os culpados diretos, quem puxou o gatilho (ainda que isso seja muitíssimo necessário também), e mais replicarmos isso que ela começou, esse enraizamento nos espaços em que não nos querem, onde a atuação de figuras como Marielle abala estruturas: enraizar-se até que não seja mais possível frear na bala esse nosso avanço.

Ericka Gavinho – A vida é rara

Ericka Gavinho – A vida é rara

foto: Mídia NINJA

 

Empatia é o que nos diferencia dos psicopatas. Para quem não sabe, até os animais, considerados irracionais, têm empatia por seus semelhantes, quando os veem em sofrimento. Para mim, toda vida é importante, porque a vida é rara. Até a dos psicopatas.

Não defendo a morte de ninguém, nem dos que pensam e agem diferentemente de mim. Não comemoro quando alguém que está num espectro político diferente do meu morre ou sofre um revés na vida. Não pretendo, com isso, qualquer santidade.

Apenas acredito, com todas as células do meu corpo, que o debate político deve se dar no campo das ideias, da luta política, que, para mim, não significa o aniquilamento do outro, mas sim demonstrar, por debates e ações, que as ideias dos meus adversários não servem a determinado contexto, que há modos diversos de se pensar e de se viver a vida.

É, portanto, sempre assustador constatar que a vida de uns, para alguns, valha mais que a de outros. Sim, eu estou falando da Marielle e do Anderson, brutal e COVARDEMENTE, assassinados. Anderson não era o alvo dos assassinos. Marielle era.

Há muita discussão por aí sobre a comoção que a morte da Marielle causou. A vida da Marielle vale mais do que a vida de qualquer das inúmeras vítimas da violência que assola o nosso país e, notadamente, o nosso Estado? Claro que não!

Mas é preciso entender que a Marielle não foi assassinada porque queriam roubar o seu carro, bolsa ou celular, ou porque estava no meio de um tiroteio entre traficantes e policiais. Marielle não é mais uma vítima da nossa costumeira violência. Marielle foi, pensada e friamente, EXECUTADA, ELIMINADA, exatamente pelas ideias e valores que defendia. E é, por isso, que sua morte é muito grave, porque é um atentado à democracia, ao Estado Democrático de Direito.

Marielle incomodou e foi ASSASSINADA por isso!

Marielle defendia a vida dos negros, dos pobres, dos moradores de favelas e periferias, de mulheres, de homossexuais, de transexuais. Marielle defendia as minorias, aqueles que, mesmo numericamente mais expressivos, a nossa sociedade insiste em não reconhecer, em não enxergar, em negar-lhes a cidadania plena. Marielle também defendia, ao contrário do que andam dizendo, a vida de policiais, mortos em confrontos, dando apoio às suas famílias. Marielle sabia que essa guerra ao tráfico, da forma como é travada há anos, não resolve a questão da violência e só gera vítimas e mais vítimas.

Ora, mas se alguém ainda tem dificuldade de ter empatia com os sofrimentos advindos dessa tragédia, sugiro que comece a pensar o quão grave é vivermos num país em que pessoas são EXECUTADAS pelo que pensam, dizem e defendem, porque amanhã pode ser qualquer um de nós, a depender do que defendemos e a quem desagradamos. E, neste ponto, volto a dizer: as mortes de Marielle e Anderson são singulares.

Por todo esse contexto, é imprescindível saber quem matou, quem mandou matar e por que matou Marielle e Anderson. Não podemos concordar que mais um crime contra defensores dos direitos humanos no Brasil fique sem os necessários e devidos esclarecimentos ou o nosso país continuará sendo desmoralizado no contexto internacional, como um Estado que não é capaz de garantir a liberdade de expressão e  do exercício da atividade parlamentar.

É, por isso, a comoção que a tantos incomoda e assusta. Não sairemos das ruas. Continuaremos a empunhar as bandeiras que Marielle levantava, porque o nosso país ainda é brutalmente desigual.

Marielle costumava dizer: “eu sou porque nós somos.” E, agora, mais do que nunca, nós seremos, todas e todos, muitas Marielles, porque ela foi! Ela é!

Não nos calarão!

Marielle e Anderson presentes!

Em breve você será cobrado a se posicionar sobre Bolsonaro

Em breve você será cobrado a se posicionar sobre Bolsonaro

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“É hora de levantar a poeira fascista que está escondida debaixo do tapete”

Com o assassinato de Marielle Franco e a nítida polarização de opiniões, que beiram ao escárnio humanitário por parte de alguns, pra mim uma coisa está bem evidente: Chegou o momento de resolvermos questões inflamadas no pós 2013, quando o véu das elites começou a cair.

Infelizmente, apesar de desvelado, ainda não estamos avançando de forma progressista na política, mas resistindo. Creio pelo menos que de alguns anos para cá as pessoas passaram a entender que a política é importante e que devemos nos posicionar para que a democracia possa acontecer. Aprendemos muito como atuar nos últimos anos, seja através de movimentos sociais, redes de pessoas, partidos e até mesmo estruturas como a do Justificando, ou Mídia Ninja, por exemplo. Passaremos todos por um grande teste do que aprendemos neste caos.

Os discursos que antes eram velados, saltam os olhos, o racismo, o machismo, as estruturas de poderes, os privilégios, ainda que não o suficiente eles dão cada vez mais a tônica das nossas discussões na sociedade (isso é um avanço).

Claro que esquerda e direita farão interpretações distintas dos mesmos fatos, mas existe uma linha humanitária que qualquer sociedade moderna não pode deixar ultrapassar. Essa linha é o respeito aos direitos humanos, que deve ser garantia respeitada pelos dois lados. Isto é tema superado entre teóricos conservadores e progressistas, faz século.

Até o final do ano você vai ter que se posicionar entre Bolsonaro e sociedade civilizada. Não existirá a possibilidade de você ser indiferente a isso, já estamos em guerra declarada! AINDA BEM! E que alertemos cada vez mais as pessoas ao nosso lado que reflitam enquanto é tempo, antes que o caldeirão das emoções das eleições dificultem uma interpretação também racional.

Não adiantará se esconder, ou se omitir, a guerra projetada entre PSDB / PT ainda se disfarçava de política democrática e ainda havia uma tentativa de se forjar uma certa normalidade, até mesmo na forma em que os golpes políticos se consolidaram e se fazem presente. Com Bolsonaro não existem limites e disfarces, é um processo abertamente autoritário.

Infelizmente nós descemos ainda mais o nível, mas tenho certeza que isto é necessário para que superemos os fascismos cotidianos que até a pouco eram colocados de forma inconsciente por boa parte da população. É hora de levantar a poeira que está escondida debaixo do tapete, aniquilar com os discursos de ódio e encarar de vez que estamos num processo de amadurecimento psíquico da sociedade. Que Bolsonaro sirva ao menos como alvo daquilo que não queremos ver jamais, nem como síndico do prédio, nem como militar, nem em qualquer posição de gestão que seja necessário olhar para o outro com humanidade.

Do outro lado, Marielle Franco, Malcom-X, Rosa Parks, Dorothy Stang, Zumbi, Marighella, Chico Mendes, Luther King, bem como muitos ativistas que morreram na história, simbolizam tudo aquilo que Bolsonaro não é capaz de ser: a personificação da luta por um mundo mais humano e igualitário. Eu escolhi um lado faz tempo, mas a sua hora de escolher está com dias contados, a vida cobrará e eu também.

Para que avancemos ainda precisamos enfrentar o básico, enfrentar os discursos, acabar com piadas racistas, machistas, xenofóbicas e sempre lembrar que não passarão. Bolsonaro simboliza tudo isso aí, e ele está no seu trabalho, na sua rua, na sua casa, em todos os lugares. A fala e os discursos são e devem ser o lugar principal de disputa de poder nestes tempos, caso contrário será no pau e na pedra.

Ainda dá tempo de se posicionar. Bolsonaro e fascistas não passarão, em nome de todos aqueles que morreram para que pudéssemos ter o mínimo de humanidade.

#MariellePresente

 

Raull Santiago: Carta aberta a toda a juventude de favelas, periferias, aldeias e quilombos do Brasil

Raull Santiago: Carta aberta a toda a juventude de favelas, periferias, aldeias e quilombos do Brasil

Foto: Mídia NINJA


Nós somos importantes, além de sermos muitos e muitas neste país que historicamente cresce ao custo de nos explorar, de nos tratar de forma desigual, de nos conter a partir de violência direcionada ao nosso povo.

Ainda assim, repito, somos muitas pessoas e precisamos valorizar o significado dessa potência, buscando encontrar uma forma coletiva de nos observar, de nos proteger e nos fortalecer nacionalmente, a partir de nossas ações locais, mas também, nos eixos interestaduais.

O eixo sul-sudeste deste país, controlado de forma exploradora por famílias de políticos/as e empresários/as, concentra renda e comunicação nas mãos destas poucas pessoas da elite, que em momento algum estão preocupados conosco, muito menos com as pessoas fora desse eixo sul-sudeste, que são ignoradas como Brasil.

Nós que moramos dentro desse eixo -sulsudeste, que somos vocês do Brasil que este sistema tenta invisibilizar, somos violados também. Vemos nosso genocídio acontecendo o tempo inteiro através de várias justificativas hipócritas, racistas e covardas, como a chamada “guerra às drogas” que só acontecem nas áreas mais pobres, financeiramente falando.

Para essa elite privilegiada, não existe diferente entre nós, favelados e faveladas, de maioria norte-nordeste, indígena e preta aqui no sudeste. Somos explorados e violados do mesmo jeito, a diferença é que habitando aqui no sul-sudeste, conseguimos chamar um pouco mais de atenção, por estar dentro desse do coração da de quem nos explora.

Eu vivo em um Brasil de 26 estados e um distrito federal, onde no máximo 5 estados são mostrados como “resumo” de Brasil, enquanto todo o restante é ignorado, jogado a própria sorte, por diversos fatores.

Eu vivo em um país rico de recursos naturais; água doce, alimentos e um solo fértil. Lugar de poucas ou nenhuma catastrofes como terremotos e furacões. Mas vejo nossa população passar fome, sede e não tendo um teto neste vasto território nacional, porque uma minoria com grande quantidade de capital acumulado na história do derramamento de nosso sangue, é dita como dona de territórios, que por exemplo, desde sempre estiveram ocupados por povos indígenas.

Eu vivo em um país rico culturalmente, mas que prefere copiar a cultura de fora, de colonizadores, enquanto exterminam a tiros a cultura local; Um país que tentou ao máximo manter meus irmãos e irmãs de Áfrika como escravos até hoje. O que só não aconteceu, porque nosso povo ancestral lutou bravamente por sua liberdade; um país que assiste em silêncio o genocídio dos povos originários indígenas.

Tudo isso que falei, somos nós, que seguimos na UTI da história, respirando por aparelhos e temendo uma queda de luz. Tendo apenas incertezas, diante de uma crescente desigualdade que aumenta por segundo nesta nação Brasil, ou Pindorama como chamavam os indígenas que habitavam aqui deste sempre.

Só tem um porém nisso tudo…

O remédio que solucionaria esse esculacho somos nós mesmos, cada indivíduo indígena, quilombola, favelado e perferica, em união, mostrando a potência das 26 nacões-estado e distrito geral, focando o sistema dominador dito democrático, uma imprença racista dita democrática e um falso eixo sul-sudeste que explora todo este país, para manter o privilégio de uma minoria, enquanto nós, com fome, com sede, sem teto, ainda vemos nosso corpo ser furado, nosso sangue escorrer, como significados das políticas públicas de segurança que não nos incluem.

Para fazer isso, em coletivo, precisamos fortalecer nossas trocas culturais, dar visibilidade as nossas artes e culturas, mas também as violações que acontecem todos os dias de forma nacional. Precisamos fortalecer nosso povo através de compartilhamento de saberes diversos sobre quem somos e quem fomos na ancestralidade. Sei que isso já acontece, mas acredito que precisamos encontrar formas de tornar isso ainda mais concreto, a partir de uma união geral, contra todos aqueles e aquelas que nos vêem como menos e nos exploram todos os dias.

Só a união nacional, para fortalecer as bases estaduais, poderão construir um eixo de mudança no significado atual de um Brasil tão violento e desigual para nós.

Somos o centro de tudo, precisamos nos unir!

[[as nossas vidas importam]]

Nosso povo precisa saber, acreditar e lutar por isso….
E quem nos viola ou pensa ao contrário, não podemos deixar que esqueçam!

Nós,
Por nós!