Jean Wyllys: O racismo de sempre no carnaval do Rio

Jean Wyllys: O racismo de sempre no carnaval do Rio

“100 Anos de Liberdade: Realidade ou Ilusão?”. Mangueira em 1988 questionava o grau de liberdade que fora efetivamente garantido após a abolição da escravatura.

Vamos falar objetivamente e sem meias-palavras. A dificuldade das escolas de samba do Rio para conseguir fazer seu carnaval, um dos eventos mais lucrativos do calendário turístico no mundo, não tem outra explicação a não ser um racismo fortemente arraigado na mentalidade do poder público e também da iniciativa privada.

Alguém consegue imaginar que o governo alemão iria deixar a míngua a sua Oktoberfest? Ou que a Espanha viraria as costas para sua tradicional festa do tomate?

Claro que não! Porque esses eventos fazem parte da tradição cultural desses povos, remontam a uma valorização de costumes regionais e da própria gente que trabalha ali.

E, além disso, ainda movimentam a economia com empregos direitos e indiretos, principalmente na cadeia de turismo, com hotéis, bares e restaurantes – até atingindo às vezes sua melhor marca de lucros no ano todo.

A questão específica com as escolas de samba do Rio é que, aqui, no país da Casa Grande e ‘do Quilombo’, a elite que tradicionalmente controlou o poder do Estado sempre viu com maus olhos todos os costumes associados aos pretos. O não reconhecimento de sua cultura como parte relevante da cultura nacional é uma face disso.

O desinteresse de empresas privadas que lucram os tubos durante a festa do carnaval em contribuir mais generosamente para sua valorização cultural, enquanto patrocinam concertos de música “erudita” nos bairros mais nobres, também chama atenção para dimensão do problema. Não estamos falando só da gestão tenebrosa de Crivella a frente da prefeitura, mas de um pensamento amplamente disseminado.

Há quem, buscando outra justificativa para falar dessa contradição, talvez com medo da opinião sincera dos jornais estrangeiros de dezenas de países que vêm fazer a cobertura do evento, prefira dizer que a questão gira em torno do envolvimento de bicheiros. Mascaram o seu desdém atípico com o samba de sentimento anticorrupção.

Ora, aí, uma ova, não é? Se há algum criminoso envolvido com carnaval, que polícia ou ministério público apresentem logo sua queixa, as defesas suas ponderações e os juízes, suas sentenças. O que não se pode fazer é comprometer uma tradição com a força que tem o carnaval do Rio sob o pretexto de punir os crimes de um indivíduo ou outro.

Esse surto de moralidade que acomete cirurgicamente as tradições africanas, enquanto empresas envolvidas com a Fórmula 1, por exemplo, fazem delações premiadas é típico da seletividade punitiva geral contra os negros.

Em 1988, em um desfile antológico, no centenário da assinatura da Lei Áurea, a Estação Primeira de Mangueira veio com enredo que dizia: “100 Anos de Liberdade: Realidade ou Ilusão?”. Atualíssimo. Ele questionava o grau de liberdade que fora efetivamente garantido após a abolição da escravatura.

Neste ano, portanto 20 anos após aquele desfile, a escola decidiu que seu próximo enredo falará na avenida sobre as histórias não contadas ou encerradas de mulheres negras que, como heroínas, contribuíram para dignificação do nosso povo, entre elas Marielle Franco.

É muito provável que venha daí, dessa tradição de zombar da suposta bondade da corte portuguesa e de contar a história de mulheres pretas, entre outras tantas tiradas geniais que expressam o orgulho da negritude em ritmo de tambor de candomblé, que venha este ano, mais uma vez, a dificuldade de botar o carnaval na rua.

Bolsonaro, suas ideias não correspondem aos fatos

Bolsonaro, suas ideias não correspondem aos fatos

Da série Reflexões de Domingo

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Essa semana veio à tona, em reportagem do jornalista Fábio Serapião, publicada no jornal O Estado de São Paulo, um suposto esquema de lavagem de dinheiro envolvendo um ex-assessor do então Deputado Estadual e agora Senador eleito, Flávio Bolsonaro, o policial militar da reserva do Estado do Rio de Janeiro, Fabrício José Carlos de Queiroz, que teria movimentado R$ 1,2 milhões em uma conta bancária, no período de um ano, incluindo um cheque de R$ 24 mil destinado à futura primeira-dama do Brasil, Michelle Bolsonaro.

A esposa, duas filhas do ex-assessor e mais cinco colegas, todos também assessores ligados ao gabinete parlamentar de Flávio na Alerj teriam realizado vultuosas transferências bancárias para a conta de Fabrício, que atuava como motorista e segurança de Flávio.

Uma das duas filhas de Fabrício, Nathalia Melo de Queiroz, também fora nomeada no gabinete do então Deputado Federal e agora Presidente eleito, Jair Bolsonaro, um dia depois de ser exonerada do gabinete de Flávio Bolsonaro.

De início, a “famiglia” presidencial silenciou sobre o caso. O patriarca procurou por seus médicos – coisa que faz todas as vezes em que se sente acuado – e se valeu de um “atestado” que justificasse o cancelamento de sua agenda pública. O mesmo não fez na semana anterior, quando teve de enfrentar cansativa viagem de carro para levantar um troféu de mais de 15kg, na cerimônia de premiação do clube vencedor do Campeonato Brasileiro de Futebol de 2018. Até então, sua saúde estava muito bem, obrigado. Teve uma recaída com as notícias.

48 horas, um chilique do futuro Ministro Onyx e um calado como resposta do futuro Ministro Moro depois é que vieram a tona as primeiras explicações: o cheque em nome de Michelle Bolsonaro teria sido dado em pagamento de dívida de um empréstimo dado por Jair Bolsonaro a Fabrício Queiroz, que além de motorista/segurança do filho do Presidente eleito, seria também seu amigo pessoal. O Presidente não teria recebido o pagamento, diretamente, em sua conta, porque, segundo ele, não tem tempo de ir ao banco e, por isso, o pagamento houvera sido feito em nome da esposa.

Explicação chinfrim, que mais complica do que explica. Afinal, por que alguém que movimenta R$ 1,2 milhão ao ano precisaria de R$ 24 mil em empréstimo? E essa história de não ter tempo de ir ao Banco? Não precisa ir ao banco pra receber um pagamento. Quem tem de ir ao banco é quem paga, sobretudo em tempos de aplicativos eletrônicos. E se tal empréstimo de fato foi feito, por que não foi declarado no IR?

Para aqueles que, em campanha, diziam ser contra a “corrupissaum” e que tinha que “mudar issodaê, táôquêi”, sobrou, além do inicial silêncio e das inverrosímeis explicações, o cinismo. Também, pudera: antes disso, pressionado pela opinião pública, cabreira com às escolhas feitas para composição de seu gabinete ministerial – cujos nomes também estão, em grande parte, envolvidos em investigações sobre esquemas de corrupção – o Presidente eleito teria afirmado a seus asseclas que “a corrupção é um problema menor que a questão ideológica”. Também teria afirmado que seus futuros ministros “não são réus ainda, apenas investigados ou indiciados”, em
resposta às constantes e insistentes indagações da imprensa a esse respeito e em uma tentativa de justificar a incongruência de suas escolhas com seu discurso moralizador.

Fora a cara de pau, o Presidente eleito tem razão em um ponto: o maior problema do Brasil não é e nem nunca foi a corrupção de seus políticos. Isso a grande imprensa familiar, tradicional, conservadora e sonegadora de impostos do país planta, para esconder a própria podridão.

Os grandes e mais graves problemas são outros: é uma Rede Globo, por exemplo, chegar a dever mais de R$ 800 milhões para a Receita Federal; ou o dono da Havan, que tenta vender uma imagem de bom moço empreendedor, mas gastou R$ 12 milhões para custear envio ilegal de mensagens de WhatsApp para a campanha de Bolsonaro e deve R$ 168 milhões para o INSS; é a classe média – que acha que é rica – se unir aos ricos e poderosos, que vão para as ruas de verde e amarelo para bater panelas e seguir patos de borracha infláveis, supostamente contra a corrupção, mas sonegam impostos, ocultam patrimônio, praticam elisão fiscal e evasão de divisas e não querem repartir as riquezas do país com os mais pobres; são as grandes empresas deverem a Previdência e o Governo Federal insistir – e querer que acreditemos – que a solução para o défict previdenciário passa apenas por aumentar a idade mínima de aposentadoria ou elevar a alíquota de contribuição do trabalhador; é “vender” – na verdade, entregar de bandeja – as riquezas do país para as multinacionais, enricando os bolsos de gente de fora, tirando a possibilidade dos brasileiros usufruírem das próprias riquezas; é manter privilégios da magistratura, ministério público, deputados. Não tem corrupção maior do que essa.

Mas, daí desviam o foco, de modo que todos achem que o grande problema da nação é a corrupção dos políticos. Há muita corrupção no meio político sim. Mas, há vários políticos sérios também. E, do jeito que a imprensa “empacota” as notícias, parece que são todos farinha do mesmo saco.

Ao Presidente eleito, por hora, cabe o benefício da dúvida e da presunção de inocência. Que as investigações prossigam e que respeitem o devido processo legal e a ampla defesa.

Ao Fabrício Queiroz, que não receba o mesmo destino de Adélio Bispo: a clausura e o silêncio, ambos muito suspeitos.

E a nós, resta-nos saber se o futuro Ministro da Justiça também permanecerá silente ou agirá com a implacável fúria que lhe é peculiar e que sempre o motivou a combater os supostos casos se corrupção… Dos outros! Porque quando a corrupção é dos aliados, o ex-Juiz Federal é mais dado a “perdoar”…

Israel vai vender gás dos palestinos para Europa

Israel vai vender gás dos palestinos para Europa

CC BY-NC-ND / ICRC / Mahmoud Issa

No escopo de auferir recursos para Alemanha nazista, a prática da pilhagem de riquezas dos territórios ocupados ou povos sobre seu domínio, foi determinante. Nesta investida, na primeira metade do século XX nenhuma série de roubos, fraudes ou saques superaram em valor o confisco cometido pelo governo de Hitler.

Do montante, mais de um terço era proveniente dos perseguidos judeus. Os bens compreendiam obras de arte, ouro, jóias, e valores em qualquer moeda. Em muito, estes atos foram possibilitados por um decreto de 1938 chamado de “Diretivas para Inclusão de Propriedades Judias”.

No que concerne este processo, inicialmente foram permitidas até a migração de judeus para fora do eixo nazista, desde que pagassem suntuosas “multas”  e entregassem a totalidade do patrimônio.  Na França se saqueou o Louvre e até os valiosos armazenamentos de vinhos. A apropriação alcançou a União Soviética invadida em 1940, violou-se museus , prédios do Estado, residências e igrejas.O grande confisco encheu centenas de vagões e serviu como paradigma na justificativa de criar a grande nação ariana que necessitava de recursos, indiferente do modo, para se estabelecer.

É evidente que não existe grande contradição na seara econômica entre o que Alemanha fez no passado, do que Israel pratica no presente, em particular na venda de gás em relação aos palestinos. Financiados por capitais dos Emirados Árabes Unidos e europeu, o gasoduto “EastMed” vai percorrer 2000 km para fornecer gás para o velho continente, principalmente para Itália, Grécia e Chipre.
O prazo de conclusão é de 5 anos, e o duto  atravessará o mediterrâneo numa profundidade de 3500 Km com um valor estimado do projeto em 7,36 bilhões de dólares. O Ministro israelense Yuval Steinitz, mesmo reforçando a relevância econômica mira o desdobramento geopolítico que é a razão do apoio estadunidense:
“Durante décadas, nos queixamos da influência árabe na Europa devido o petróleo e gás. A exportação de gás para Europa moderará essa influência até certo ponto e será um contrapeso à energia árabe.”
A questão relevante que se apresenta é dentre as reservas de Leviathan, Dalit, Tamar, Mari B e Marine, as duas últimas por completo e a antepenúltima em parte, são da Palestina, caso Israel respeitasse o plano da ONU. A Faixa de Gaza detém ainda reservas que o Egito tem interesse em adquirir o fornecimento. Israel proibiu o desenvolvimento desta exploração, obrigando os palestinos a depender da Companhia Elétrica de Israel, resultando numa política deliberada de disponibilizar a estes últimos apenas 3 ou 4 horas de energia por dia.

Cidade de Gaza, em 2015 durante cortes na energia. Foto: Ashraf Amra

 

 

 

 

Uma parte considerável dos 2 bilhões de metros cúbicos ano de gás que abastecerão os europeus provem de territórios ocupados, portanto, Israel vende o que não tem direito de posse. Assistir crianças palestinas estudarem na escuridão, hospitais sem energia e transtorno generalizado para estes cidadãos que são proprietários de tantas reservas de “hidrocarburos”, aclara mais que uma ocasionalidade, se encontram no campo de uma política destinada de suprir menos que um ser humano necessita. Representa desviar recursos que significam hipotecar o futuro para uma população inteira.
É cabível dizer que vem do outro lado do planeta um passo pequeno, mas de importância tamanha no caminho de mostrar ao mundo a forma pacífica de enfrentar as práticas de Israel. O Chile avança num projeto que buscar proibir o ingresso no país de produtos israelenses fabricados em territórios ilegais ou bens usurpados dos palestinos.
Causa grande merecimento os 99 votos a favor , para apenas 7 contrários  sendo 31 abstenções, depositados neste 26 de novembro na Câmara de Deputados . Em respeito ao projeto , os produtos procedentes de Israel devem especificar se possuem origem nas colônias ilegais e sugere ao governo estudar novos mecanismos de bloqueio. Como relata o presidente do grupo parlamentar , deputado Sergio Bahona:
“Todos sabemos das dificuldades que vive o povo palestino que tem raiz na ocupação do seu território, por isto a Câmara acordou solicitar ao governo do chileno uma série de medidas como a proibição de comercializar em nosso país produtos provenientes de territórios palestinos ocupados.”
Em julho passado, os chilenos já haviam aprovado uma outra determinação de que o país, em sintonia com o reconhecimento de 2011, condenasse o ” sistema de apartheid instalado por Israel em transgressão ao direito internacional de um Estado palestino livre, Independente e soberano”.
A aliança EUA-Israel em nossos dias, produziu um poder que ameaça com a aniquilação os palestinos. Mesmo que os israelenses estejam numa condição de uso desproporcional da força como os alemães até meados de 1943, a história de superação do povo judeu reporta que os palestinos podem lograr o mesmo êxito. A coexistência de dois Estados se faz urgente, o respeito aos acordos de 1948 e se não de 1967, mas principalmente a devolução do sentido de humanidade a um governo que não honra a história de seu povo.
Uma explicação mais generalizada analisando os temas econômicos, é que se Israel inicia usufruir da exploração de reservas palestinas que levam décadas de maturação de investimentos, ao mesmo tempo que cria uma cadeia produtiva  nos assentamentos ilegais, é premente que não pretende devolver o que apropriou. Em que pese fazer a propaganda da paz, Israel lança uma olhar que supera o confisco, ambicionando em verdade a incorporação.
Começou a Recolonização do Cinema Brasileiro!

Começou a Recolonização do Cinema Brasileiro!

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Mudanças radicais foram realizadas pelo governo no Conselho Superior de Cinema. Produtores e cineastas brasileiros foram excluídos da nova composição do órgão, responsável por formular políticas públicas para o setor audiovisual. Representantes de gigantes das telecomunicações e de conglomerados internacionais, como a Netflix e os estúdios de Hollywood ocuparam os lugares.

Dos 10 conselheiros, apenas 3 foram reconduzidos. Todos os 5 que se manifestaram pelas cotas do produto nacional no mercado de VOD foram afastados. Basta olhar a nova composição para vislumbrar o massacre a que o cinema e a produção independentes serão submetidos.

Não era Brasil acima de tudo? No mercado audiovisual, é Hollywood first!

Daniel Zen: Reflexões de um domingo

Daniel Zen: Reflexões de um domingo

É preciso dar o exemplo!

Foto: Agência Aleac

Em alguns momentos, mesmo que na contramão da história, é necessário tomar decisões, ter atitude, agir e dar o exemplo. Foi o que fez a Assembleia Legislativa do Estado do Acre (ALEAC) ao proibir, recentemente, por lei, o pagamento de auxílios, ajudas de custo ou qualquer outro benefício que exceda ao próprio subsídio (salário) dos deputados.

Isso ocorreu ainda no mês de outubro, antes da aprovação, pelo Congresso Nacional, do aumento salarial de 16,38% concedido aos ministros do STF; e antes da decisão do Ministro Luiz Fux em suspender o pagamento do auxílio-moradia – decisão esta da qual a Procuradora- Geral da República, Raquel Dodge, recorreu, nesta sexta-feira, 30/11, visando manter o pagamento do “benefício” aos membros do MP.

Tal medida foi tomada com a aprovação, por unanimidade, no plenário da Casa do Povo Acreano, da Lei Complementar Estadual n° 352, de 24 de outubro de 2018. Referida lei complementar regulamenta dois artigos da Constituição Estadual (art. 39, parágrafo 2°; e art. 44, inciso IX) que tratam da remuneração dos deputados estaduais. Ela reproduz a fórmula consagrada nas Constituições Federal e Estadual de que o subsídio (salário) de um deputado estadual não pode exceder a 75% do valor estabelecido, em espécie, para o salário de um deputado federal; também reproduz as mesmas vedações, dispostas em ambos os textos constitucionais, segundo as quais deputados não podem receber adicionais e gratificações.

Mas, para além de, tão somente, reproduzir o que já estava consagrado nos textos da CF/1988 e da CE/1989, a lei complementar em comento introduz inovações exemplares e inéditas: proíbe, expressamente, que deputados estaduais do Acre recebam auxílios ou ajudas de custo de qualquer natureza, aqui incluídos o auxílio-moradia, auxílio-saúde e auxílio-alimentação. Também fixa o valor limite máximo das verbas de gabinete (utilizada para pagar salários de assessores parlamentares) e indenizatória (utilizada para ressarcir gastos oficias do mandato) em percentuais, a menor, do valor das mesmas verbas recebidas pelos deputados federais.

Vale destacar que fomos a primeira assembléia legislativa (e única, até o momento) a tomar tal medida.

Enquanto o futuro ministro da Justiça, considerado por muitos brasileiros como um paladino da legalidade, da moral, da ética e dos bons costumes, ex-Juiz Federal Sérgio Moro, já ocupou veículos de imprensa, por diversas vezes, para defender não só a legalidade, mas a legitimidade, oportunidade e conveniência de que magistrados e membros do MP recebessem tal auxílio, os deputados do Acre dão o exemplo ao seu próprio Estado e ao Brasil.

Tive a honra de ter sido designado para redigir o texto da lei, de autoria formal da Mesa Diretora da ALEAC. Fui também o relator da matéria nas comissões da Casa, que contou com o apoio e voto favorável de todos os deputados.

Cortar na própria carne, extinguindo privilégios, é medida que bate de frente com o corporativismo. Mas, como disse na abertura desse texto, é necessário tomar decisões, ter atitude, agir e dar o exemplo. É o que a sociedade espera de seus agentes políticos, não só do Legislativo, mas também do Executivo e do Judiciário. É o que os deputados estaduais do Acre fizeram. Que o exemplo da ALEAC seja seguido.

‘Graffiti Contra a Enchente’ reúne 300 artistas em Taboão

‘Graffiti Contra a Enchente’ reúne 300 artistas em Taboão

Pelo 4º ano consecutivo, grafiteiros se unem em Taboão da Serra contra descaso do poder público

Grafiteiro Mirage. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Em 2014, na cidade de Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo, uma intensa chuva atingiu o bairro do Leme. O Rio Pirajussara, que corre ao lado, mesmo com um piscinão, subiu tanto que atingiu o teto das casas, destruindo tudo o que a população local conquistou a duras penas durante muitos anos. Carros, móveis e mesmo pessoas foram levadas pela força violenta da natureza.

Esse foi o estopim para o graffiteiro Agnado Mirage, que ao observar água saindo pela janela da casa do seu parceiro Gamão Raxakuka, falou: “mano, isso não pode continuar assim. Vamos fazer um graffiti contra essa enchente”. De cara, Gamão respondeu contrariado: “eu perdi tudo e você ta pensando em graffiti, mano?”, mas depois de alguns dias, refletindo sobre tudo o que aconteceu, ele repensou e disse: “vamos fazer isso”.

Foi desse episódio que nasceu o Graffiti Contra a Enchente, evento de hip hop que chegou à sua 4ª edição em 2018, reunindo mais de 300 grafiteiros de todas as partes do mundo para mudar a paisagem do bairro assolado pelas enchentes há mais de 40 anos.

Neste ano, os organizadores estimam que eles chegaram a cobrir mais de 3 km de muros do bairro com graffitis, mudando não só o visual da quebrada, mas dando auto estima para a população e chamando atenção do poder público para a falta de estrutura do local para lidar com as chuvas, principalmente durante o verão.

“Não é fácil produzir um evento como esse. Fazemos tudo sem qualquer recurso governamental. São cinco meses de preparação, andando com as próprias pernas. São os recursos obtidos pelo coletivo Raxakuka, através dos graffitis, venda de produtos e parcerias na região que fazem tudo acontecer”, contou Mirage.

A maior missão do projeto sempre foi trazer auto estima e envolver a população com arte, cultura e educação, elementos muito distantes daquele cenário de destruição das chuvas e das constantes enchentes.

“O mais importante desde o início foi ver as pessoas emocionadas com o que estamos fazendo. É você ver um sorriso no rosto da pessoa que acabou de perder tudo o que conquistou em anos”, lembra o graffiteiro.

Comunidade

A população local admira e se interessa pelo movimento e se sente abraçada pelos elementos do hip hop. A grande maioria mora há muitos anos no bairro e já passou dezenas de vezes por enchentes. Ver como esse cenário pode ser diferente, mesmo sem apoio governamental, é um choque que prova ser possível fazer qualquer coisa quando se junta.

Moradora há mais de 50 anos do Leme, Maria Luiza de Oliveira relembra as muitas vezes em que viu a água arrastar os seus pertences. “A última vez a água chegou até o meu pescoço, superou o teto da casa. Perdemos tudo o que tínhamos e a prefeitura deu apenas um colchão para a minha família”, conta.

Dona Maria. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

A situação só não foi pior porque, como muitos moradores da periferia sabem, nos momentos difíceis a comunidade se reúne e se fortalece mutuamente, dividindo o pouco que tem com os vizinhos.

Essa situação se repete também nos momentos de celebração, como o Graffiti Contra a Enchente. “Toda a minha família participa do evento e prestigia os shows. No que eles precisam eu também dou uma força. Aqui todo mundo se conhece no bairro, então nessas horas todo mundo se vê e reencontra antigos colegas”, diz Maria.

Com sorriso fácil, simpatia, uma apertada camiseta da Portuguesa de Desportos e um bonezinho de lado, o eletricista Alexandre da Silva, vulgo Buli, é mais um morador antigo do Leme. Com 44 anos, desde os 8 mora no bairro, e sempre conviveu com a situação difícil, temendo perder tudo o que conquistou a qualquer momento.

Ele conta que, com o tempo a região foi ganhando reformas que eram promessas de evolução, porém o problema nunca acabou. Uma dessas mudanças foi o piscinão. Com capacidade para 5 mil metros cúbicos de água, foi inaugurado em 2010 pelo então governador José Serra (PSDB), a um custo de mais de 41 milhões de reais.

“Antes o rio passava aqui no meio da rua, bastava chover um pouco e subia a água nas casas todas. Depois que construíram o piscinão não mudou muito, porque ainda chove e alaga. Ele consegue resolver só 50%, ainda não dá conta”, reclama.

Córrego do Rio Pirajussara. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Buli ajuda na parte elétrica do palco, que recebeu shows de rap, rock, samba, entre outros, além do espetáculo de dança Gumboot Dance, oriundo da África do Sul e protagonizado por moradores da comunidade.

“É muito bom ver isso acontecendo aqui, fica bonito demais. Eu gosto de morar aqui e ver gente de todo mundo fazendo arte é muito bom”, elogia o eletricista, que é dono de um ferro velho. O seu empreendimento também mudou de cara esse ano, recebeu desenhos na porta de entrada e nas paredes internas.

Buli em frente ao seu ferro velho. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Durante a entrevista, ele teimou de chamar um amigo para contar da sua experiência de vida no bairro. Enquanto não conseguiu encontrar o parceiro de trabalho, não sossegou. Conversou com a esposa, os filhos, mas não achava. Deu uma volta, esperou um pouco e então, alguém gritou: “o Tiago chegou”. Buli correu para chamá-lo.

“Conversa com ele aqui, fala como a gente trabalhou junto e se fortaleceu lá no ferro velho”, pediu o eletricista. Tiago, com um óculos prata espelhado e uma camisa do Barcelona estava em casa. Ouvindo a música black dos falantes dançava feito malandro sambista. Chegou com o sorriso aberto.

“Hoje eu estou vendo isso aqui muito bonito, cheio de gente. É uma sensação que eu não consigo descrever, fico até sem palavras”, respondeu Tiago, que tem 34 anos de idade e mora a vida toda no bairro do Leme.

Mural pintado em escadaria. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Casado e pai de 3 filhos, duas meninas e um menino, Tiago não tem profissão, trabalha naquilo que conseguir dinheiro para prover o sustento e não tem medo de investir: onde enxerga uma oportunidade de negócio e uma fonte de dinheiro, se joga para garantir a comida em casa.

Cobrador, servente, catador, vendedor, cortador de mármore, entre outros, a lista de profissões é longa e a cada ano cresce. “Se saí de um trabalho, não posso ficar parado, então logo corro para fazer outra coisa”, explica. “Quando entrei aqui no ferro velho, o Buli me ajudou muito para manter as coisas”.

O parceiro até se emociona ao contar das dificuldades desse período, porém com o esforço conjunto e a camaradagem, conseguiram se levantar. Hoje Buli trabalha sozinho no ferro velho e Tiago toca seu novo empreendimento, uma barraquinha de churrasquinho, em que também vende tortas, bolos, água, cervejas e bebidas quentes.

Buli e Tiago no ferro velho. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Enxergar essas relações e como elas constroem uma comunidade, dia a dia, ano após ano, são uma pequena amostra de como mesmo sob circunstâncias tão difíceis as pessoas conseguem encontrar força para evoluir e, ao mesmo tempo, resistirem às constantes enchentes.

Isso revela as potências das pessoas periféricas, inseridas em um cenário de descaso e violência de estado, e como elas são capazes de construir redes e empreendimentos tanto econômicos, quanto culturais e sociais nesses espaços.

Arte e hip hop conectando mundos

Artistas de todos os lugares do Brasil e do mundo deram a sua contribuição para o Graffiti Contra a Enchente, trazendo uma pluralidade de traços, desenhos e pensamentos para a grande galeria de arte a céu aberto do Leme.

São pessoas que, assim como a população local, tem problemas sociais em suas comunidades e através desse projeto se conectam a redes e têm experiências em que se inspiraram para trabalhar em seus territórios.

É o caso do Coletivo Manifestintação, do Jardim Nakamura, no Jardim ngela, extremo sul de São Paulo. Desde a primeira edição do Graffiti Contra a Enchente eles somam com os seus desenhos, e neste ano fizeram um painel de mais ou menos 20 metros, divididos em seis desenhos, um de cada integrante do coletivo: Quinho, Mundo Loko, Royal PHR, Curió e Espeto.

Mural do coletivo Manifestintação. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

“Um rolê como esse agrega valor e cultura para a comunidade, conscientiza sobre a importância do meio ambiente em uma área vulnerável”, comenta Quinho. “Aqui desenvolvemos todas as linguagens do hip hop e envolvemos a quebrada. É um trabalho de formiguinha, que está crescendo ano a ano”, completou Ari, vulgo Mundo Loko.

Da outra ponta do país, a gaúcha Ana Scarcelli, de Porto Alegre (RS), também pintou no evento e se diz emocionada em trabalhar em algo tão grande para a comunidade, que além de dar auto estima, valoriza a natureza.

“A reação de todos é maravilhosa e o resultado nos vemos enquanto estamos trabalhando. Como quando, mesmo com todas as dificuldades de ser artista, uma criança de apenas 7 anos te aborda e fala que quando crescer quer fazer o que você faz”, relata Ana.

Convidada pessoalmente por Mirage durante um trabalho realizado junto em sua cidade, ela reforça a responsabilidade que é fazer parte de um evento com a representatividade e potência do Graffiti Contra a Enchente.

“Hoje estamos aqui dando foco na natureza e na cultura indígena na nossa pintura. Queremos levar essa mensagem para a população”, explica a grafiteira.

Mural de Ana Scarcelli. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Drogas e política nas periferias

A roda de debate de lançamento do livro ‘Na Fissura’, do jornalista Britânico Johann Hari, que aconteceu no Graffiti Contra a Enchente, e foi promovido pela Agência Solano Trindade, trouxe elementos fortes para a discussão dessas questões e como a marginalização de territórios em nome da Guerra às Drogas contribui para esse processo.

Além do autor, a conversa ainda contou com a participação de Thiago Vinicius, da Agência Solano Trindade, Carmen Lopes, Assistente Social e Redutora de Danos, e Raull Santiago, do coletivo Papo Reto e Movimentos.

“A única forma que o estado chega aqui é através da Polícia Militar. Eles nos veem como um perigo, um risco para a sociedade. E o que a gente vê hoje são pessoas fazendo o que o estado não faz”, pontuou Thiago. “Esse muro da escola é um exemplo. Nunca foi pintado pelo estado e hoje está recebendo obras de arte da própria população”.

Desenho em frente ao EMEI Dorinha. Paredes foram restauradas pelos grafiteiros após enchente em 2014. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

O agente cultural vê as ações como um revide da população contra o descaso do estado, no entanto com armas bem diferentes. “A nossa resposta vem através de ideias e conexões”. Mesmo assim, as vitórias são conquistadas pouco a pouco e nem sempre é possível dissuadir a juventude de entrar para o varejo das drogas, por exemplo.

“A gente procura falar a linguagem do jovem, que é o dinheiro. O jovem anseia ser incluído na sociedade do consumo, ele quer ter o tênis que está na TV. Se ele não tem nada, a oportunidade dele ter qualquer coisa vai ser através do tráfico. Ele está consciente do que está fazendo, não está sendo enganado”, explica Thiago.

Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Raull Santiago, que é morador do Complexo do Alemão, enxerga uma situação semelhante nos morros cariocas e que exemplos como o dele e de Thiago, de terem resistido à entrarem nesse mercado, tanto os fortalece individualmente, quanto fortalece o coletivo, ao indicarem outras possibilidades de acessarem o consumo.

“Você vê muitos jovens curtindo um evento como esse, aprendendo o que é cultura e arte, sorrindo, tendo um lazer. Fomos ensinados a vida toda que isso não é para a gente, que não é para gente da favela”, reflete Raull. “Agora, ao mesmo tempo que entendem o que é a violência, eles sabem o que é arte e cultura. Com isso, estamos plantando sementes para o futuro”.

Carmen Lopes e Raull Santiago. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

Apesar disso, o estado está muito distante de criar mecanismos para fomentar esse trabalho. Ao contrário, o apego ao partidarismo faz com que muitas políticas implantadas por uma gestão sejam descontinuadas pela posterior, principalmente se forem de partidos diferentes. Com isso, as mudanças são pontuais e pouco efetivas.

É o que aponta Carmen Lopes em relação às políticas de drogas no Brasil. Para ela, “o Brasil não está preparado para políticas públicas” em função do personalismo dos governantes. Quando se trata de drogas, o moralismo da opinião pública aprofunda esse problema.

Quando se trata de crack, por exemplo, droga associada à miséria e pobreza, são poucas as medidas de longo prazo adotadas pelo poder público. E quando há, duram pouco, pois tem pouca aceitação do eleitorado conservador.

“O crack hoje esta em um patamar de vilão na sociedade, mas quem ocupa esse papel de fato é o álcool”, revela Carmen. “O crack é usado por pobres, e se estamos está crescendo o número de pobres, vai haver um aumento natural no consumo. Se tivéssemos mais ricos, o aumento seria da cocaína”.

Thiago Vinicius. Foto: Laio Rocha / Mídia NINJA

A experiência violenta que as pessoas da periferia tem com as drogas, em função da atuação da Polícia Militar nos territórios, faz com que todos tenham uma percepção de medo e vergonha do consumo. Com isso, não há experimentação de drogas sem a sombra da criminalização.

A criminalização, no entanto, não é sobre as drogas, mas sobre territórios e populações. Essa marginalização gera falta de informação e cria problemas como o uso abusivo e de risco de substâncias químicas, a desestruturação familiar e o preconceito da própria comunidade.

“Quando um usuário de crack está lá no centro, você já sabe que ele foi expulso da quebrada”, conta Thiago. “Aqui você até pode ver alguém fumando um baseado na rua, mas usando crack não. Se for pego, os próprios moradores são capazes de bater nele. Isso não é aceito aqui”.

“A violência tem relação direta com a droga e atinge a todos na comunidade, independente de ser ou não usuário. Isso marca o significado das drogas na nossa vida e rotina”, salienta Raull. “As pessoas não conseguem enxergar possibilidades positivas no consumo de drogas”.

Trump autoriza o uso de armas letais contra imigrantes

Trump autoriza o uso de armas letais contra imigrantes

Um hondurenho protege seu filho. | Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

O termo América Latina foi construído envolto em disputas políticas e ideológicas. Se os Estados Unidos da “América” pretendiam ser o autêntico líder do continente, os latinos nunca se sentiram iguais pelas recorrentes ações vindas do norte. Neste contexto , é perceptível que a frase “A América para os americanos” se impõe por uma sentido de dominação por parte dos anglo-saxões, desta forma a adoção pelos latinos de outra especificação foi consciente. Em verdade, foi o colombiano José María Torres Caicedo através de um poema de 1857 que nos revelou um conceito bastante atual, que vivemos em duas Américas.

Hoje não é difícil compreender como esta designação se faz necessária para nossos dias. A imagem de 8000 imigrantes centro-americanos, na maioria de Honduras,tentando chegar aos EUA e serem recebidos com expressa ordem de uso de armas letais pelos americanos do norte ofusca o nosso olhar. Nesta visão, é claro que os latinos servem apenas para comprar produtos industrializados, pagar juros de dívidas intermináveis e permitir a extração dos seus recursos minerais em valores vis. Uma relação econômica que remonta ao período colonial.

Se as armas mortais ainda não foram disparadas, a patrulha fronteiriça empregou em larga escala gás lacrimogênio e balas de borrachas contra quase 700 pessoas que tentaram atravessar a divisa de Tijuana (México) para San Ysidro (EUA). São mulheres, idosos, crianças e homens que sem emprego, moradia e com a fome de viver com 1 dólar por dia, procuram condições de sobrevivência na nação que golpeou a economia do seu país originário.

Os EUA que desde muito tempo controla Honduras, apoiou um golpe nas eleições de 2017 que permitissem seu aliado, Juan O. Hernández, se candidatar mesmo a constituição proibindo reeleição. A contagem das urnas foram até interrompidas para voltarem numa segunda fase em sentido contrário que elegeu JOH. Aliados, a OEA e os EUA chancelaram o golpe. A história dos hondurenhos é similar a dos brasileiros (1964, 2016), guatemaltecos(1948), chilenos (1973), argentinos(1976) e dentre outros o México(2006). É uma paradigma utilizado sempre que governos dificultem a acumulação capitalista estadunidense em seus territórios.

Donald Trump, segue o modelo de ao mesmo tempo usar o liberalismo para abrir e dominar o mercado latino, mas fecha as portas para sua população. Na divisa se encontram 6900 militares com livre arbítrio para matar os imigrantes. As práticas dos EUA e União Europeia já despertam grande preocupação na ONU, pela possibilidade destes abandonarem o acordo global sobre o tema. Esta seara foi bem exposta pelo discurso (25/11) da Presidenta da Assembleia Geral das Nações Unidas , Maria Espinosa.

” O pacto é um instrumento de cooperação. É um acordo histórico que ajuda garantir que os migrantes tenham seus direitos salvaguardados e que sejam tratados de forma justa (…) A migração é parte da maneira como o mundo se desenvolve (…) Vimos recentes fluxos incomuns que precisam ser resolvidos e enfrentados multilateralmente . E a resposta justamente é o pacto global.”

Em outro sentido de ideias, Trump aclara a forma contraditória de defender a América para os americanos. Da mesma forma que permite encerrar vidas ,pressiona o México com o fechamento permanente da fronteira,ou literalmente permitir no século XXI a imagem de duas Américas de Torres Caicedo.

“O México deveria expulsar para seus países os imigrantes que levantam as bandeiras, muitos dos quais são criminosos endurecidos. Enviem de avião, de ônibus ou de qualquer outra forma que quiserem, pois não entrarão nos Estados Unidos. Fecharemos a fronteira de forma permanente, se for necessário… ninguém entrará como ilegal em nosso país.”

Em largas parcelas, os latino-americanos foram submetidos a intervenções protagonizadas pelos anglo-americanos que resultaram numa precarização nas condições de vida dos mais necessitados. Neste contexto são responsáveis, em muito, pela forma de exploração que praticam com os americanos do sul, criminalizá-los é mais uma etapa da injustiça que carregam em sua história.

Afinal nenhum ser humanos é ilegal, ou deveria sofrer ameaças de morte, se migra como oprimido na busca de melhores condições de vida.

O Chanceler e o Ministro da Educação do Reich  Bolsonarista

O Chanceler e o Ministro da Educação do Reich Bolsonarista

Charge por Aroeira

O futuro Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Diplomata Ernesto Araújo, mantém um blog onde escreve sobre diversos assuntos. Nele, já compartilhou sua opinião de que o aquecimento global e as mudanças climáticas que o mundo vem sofrendo seriam uma “trama marxista” e a Europa, “um espaço culturalmente vazio”.

Além disso, afirma que o nazismo é uma “ideologia de esquerda” (todos sabem – e a própria Embaixada Alemã no Brasil fez questão de divulgar um esclarecimento público, em vídeo, sobre isso – que o Nazismo foi um regime de extrema direita); e defende a diplomacia com povos de outros planetas: crê em discos voadores, que teriam estado presentes à uma reunião secreta na ONU, dentre outras excentricidades.

Um diplomata, pós-graduado em Relações Internacionais (especialização obrigatória, como curso de formação, para ingresso na carreira) que escreve algo assim, sem nenhum fundamento ou embasamento teórico-científico, tinha de ser exonerado, a bem do serviço público, e não alçado a condição de Chanceler! Fico me perguntando como que tal profissional foi aprovado no exame psicotécnico…

Ou seja: a chancelaria do Reich Bolsonarista será entregue ao pior dos piores dentro do serviço brasileiro de diplomacia.

Não bastasse isso, mais uma dose de obscurantismo, justo na pasta mais importante e sensível da Esplanada: o futuro Ministro da Educação acredita que o projeto de lei denominado “Escola sem Partido” (em verdade, Escola com Partido Único, o deles – ou Escola com Mordaça) é “providência fundamental”; que o Golpe de 64 foi um “evento a ser comemorado”; e que o Enem é um “instrumento de ideologização”. Defendeu, certa vez, que escolas públicas possuíssem “Conselhos de Ética que zelassem pela reta educação moral dos alunos”.

Em comum, os nomes de ambos os futuros ministros são indicações do pseudo-intelectual de pensamento mais truncado e obtuso do Brasil: o teórico da conspiração Olavo de Carvalho.

Enquanto isso, vejo intelectuais e gestores sérios da educação pública brasileira cheios de dedos para fazer críticas a esse desastre, porque “não podemos torcer contra” ou porque a “esperança é a última que morre”. Enquanto esses douram a pílula, a escalada em direção ao fundamentalismo religioso e ao obscurantismo segue firme, junto ao comportamento de manada dos passistas da marcha da insensatez, que conduz, a todos nós, à tragédia anunciada que será o futuro governo que ainda nem começou: um mergulho profundo nas trevas, na escuridão.

Me desculpem os cheios de pudores e pruridos. Mas, não dá pra calar diante de tamanho disparate.

Israel já mata uma criança a cada três dias

Israel já mata uma criança a cada três dias

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Aparentemente a comunidade internacional se acostumou normalizar o genocídio palestino como um embate destinado a existir em nosso tempo. Os números divulgados por entidades internacionais aclara como se faz urgente mudar esta história.

A Defesa Internacional de Crianças Palestinas (DCIP) relatou que entre setembro de 2000 (Segunda Intifada/ Al-Aqsa) e setembro de 2018, 2070 menores palestinos foram assassinados pelas forças israelenses, guardas de segurança ou colonos sionistas em territórios ilegais.

A associação pediu a prisão dos soldados que matam ou mutilam crianças com clara violação dos direitos humanos. Mensurados os 6570 dias, o informe revela que em média a cada 3,15 uma criança perde a vida para violência desta crise.

No mesmo sentido de ideias corrobora o relatório da Sociedade de Prisioneiros Palestinos(PPS), que mostra de janeiro até final de outubro deste ano o montante de 908 crianças detidas, sendo 270 ainda em centros de detenção. A noite dos palestinos se distanciam do normal, na madrugada seus lares podem ser invadidos sem nenhum mandato. Os pés na porta trazem o terror e a certeza que vivem numa colônia administrada pela força dos “escolhidos”.

Nesta realidade, as crianças são retiradas dos seus lares, levadas sozinhas para o cárcere, muitas vezes sem nenhum processo legal. Isoladas do amparo da lei e da família, são obrigadas a dormir em camas de concreto com salas sem janelas. Os interrogatórios em lugares sem câmeras servem para esconder espancamentos e que são obrigadas a responder perguntas que nem sabem sequer a razão.

Israel nem mesmo reconhece um menor naqueles poucos anos de vida, privam do estudo, na prática impedem familiares de visitação, ao remeter a criança para outra região que seus entes não conseguem visto para se deslocar. As medidas do país sionista o levaram ao topo de desrespeito aos direitos humanos pela ONU, é o único país a levar crianças para tribunais militares, ao passo que os israelenses civis, adultos ou não, se reportam a tribunais cíveis.

Segundo a Sociedade de Prisioneiros Palestinos, em março deste anos existiam 5867 detidos, sendo 3478 condenados ,1667 esperando conclusão do processo judicial, 291 em delegacias e 431 em detenções administrativas. Mas nesta veracidade nada é mais chocante que os 304 menores presos, deles 241 entre 16 e 18 anos,para 63 que são ainda mais novos. Crianças torturadas, presas em solitárias e que nem sequer entendem o idioma que se registram os processos e depoimentos.

O propósito de longe não é buscar a justiça. As leis que facilitam as prisões de crianças, protegem os israelenses civis de uma condenação por assassinato.

Retirar qualquer condição de humanidade do oprimido é a premissa que outorgou aos alemãs nazistas, o protagonismo do horror na história contemporânea. O povo de Israel, que sofreu o holocausto, deveria ser o aliado primeiro da humanidade em não permitir que seu Estado se transformasse no algoz do século XXI. A realidade é que a dominação para Israel hoje, suplanta se apoderar das terras palestinas inseridas no acordo de 1967. A forma contraditória desta história de superação, agora oferece ao mundo um espetáculo dantesco ao furtar a infância destas crianças palestinas, que ainda não sucumbiram ao seu poder letal.

O Brasil em promoção: Quantas privatizações foram prometidas por apoios a Bolsonaro?

O Brasil em promoção: Quantas privatizações foram prometidas por apoios a Bolsonaro?

Há anos a China cresce a proporções impressionantes com um papel pesado do Estado para induzir a eficiência na área de tecnologia, fomentar a oferta de crédito e qualificar a mão-de-obra.

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Nos EUA, o presidente Trump, em plena guerra comercial com os chineses, saiu de acordos multilaterais de livre-comércio, aplicou gigantescas barreiras tarifárias para garantir a produção com conteúdo nacional e lançou um mega programa de desonerações fiscais, e também tem conseguido garantir baixo desemprego e crescimento.

Em Israel, que é o país economicamente mais avançado no Oriente Médio, o Banco Central não mantém o câmbio flutuante, as tarifas de importação são pesadas e o Estado não só tem forte papel indutor na economia como é também administrador de boa parte de setores importantes, como transportes, infra-estrutura, energia etc.

No Brasil, entretanto, nossa situação é de demonização das opções em economia que estes países fizeram. Aqui, há tempos, economistas “”liberais”” – os únicos ouvidos pela imprensa em suas entrevistas, em todos os telejornais – se convenceram de um receituário diferente. Ou foram convencidos por ponto eletrônico para agradar seus patrões.

Para eles, nosso futuro estaria destinado à agropecuária (onde eles veem vantagem comparativa nas nossas relações de comércio); nossas empresas estatais deveriam ser leiloadas sem nenhum planejamento ou estudo prévio sobre o impacto, a toque de caixa, como se fossem maltrapilho; os bancos estatais que ampliam a oferta de crédito deveriam ser repassados para os concorrentes no setor privado que praticam cartel; e as máfias de transportes, como o Clube do Tatu (em SP) e dos Barata (no RJ), e de empreiteiras (como o Clube das Empreiteiras, liderado pela Odebrecht) funcionam como exemplo de eficiência do setor privado na administração de serviços que antes eram públicos.

Ainda não temos notícia de nenhuma fórmula melhor para acabar com cabides de emprego, os tais cargos de indicação, do que concurso público. Com uma avaliação padronizada, fica com a vaga o mais qualificado, independentemente de puxa-saquismos, do racismo ou de qualquer coisa. Mas aqui sabiamente economistas “”liberais”” (que expressam suas opiniões com ponto eletrônico nos ouvidos) conseguiram maquiar todo funcionário público como um vagabundo, sugerindo que seria melhor para todos nós que eles se tornassem funcionários da iniciativa privada (na modalidade pós-reforma trabalhista, sem direito a quase nada). Assim também abrem caminho para que os novos donos das nossas estatais também possam empregar livremente seus parentes em cargos que antes estavam à disposição de todos os brasileiros.

Se ao menos a fórmula deles desse certo, se houvesse tantas vagas de funcionários públicos para serem distribuídas para quantidade de preguiçosos e parentes que esperam se beneficiar delas com privatizações, não haveria problema e não precisaríamos tocar sempre neste assunto. Ocorre que já há dois anos um governo que não foi eleito pelo voto aplica este receituário, com medidas inclusive draconianas, como a PEC do Teto de Gastos, e não há nenhum sinal de melhora. Não baixa o desemprego, não sobe a renda, não cai o preço do custo de vida. Eles aplicam, aplicam… chegam a competir pra ver quem é o mais radical (será Guedes ou será Levy ou será Pedro Parente?), e tudo que acontece são caras de paisagem quando saem os resultados. Que são, por sua vez, sempre lidos com a mesma cara de paisagem pelos jornalistas “”liberais”” que defendem (de ponto eletrônico nos ouvidos) os interesses de curto prazo dos grandes anunciantes dos jornais. E os brasileiros mais pobres, é claro, é que pagam o pato.

Israel fracassa em invasão, Netanyahu e Hamas acertam cessar fogo baixo, Ministro da Defesa se demite

Israel fracassa em invasão, Netanyahu e Hamas acertam cessar fogo baixo, Ministro da Defesa se demite

Foto: Amir Cohen / Reuters

Num momento que Israel retoma a mais alta crise com a palestina desde 2014, é preciso olhar a imagem da entrada da cidade israelense de Sderot para entender a visão do conflito. Bloqueadas por pneus queimando centenas de pessoas gritam para exigir “a destruição do Hamas e o ataque a Gaza de uma vez por todas”.

No dia seguinte, 14 de novembro, logo pela manhã, seguiu-se o bloqueio na parte comercial de Kerem Shalon,entre Israel e a Palestina bloqueada. Segundo a mesma linha da noite anterior exigiam o “fogo baixo” criticando o governo por escolher a artilharia de maior altura de caráter mais defensivo.

A maioria dos israelense pressionam o governo de Benjamin Netanyahu, não pela uma solução necessariamente de paz, mas por um resultado prático de segurança, esquecendo que a escalada da violência em muito é reflexo do modelo de ocupação escolhido pelos sionistas. Corrobora para este ambiente os 460 foguetes e morteiros sem direção, lançados desde Gaza. Apenas 20 não foram interceptados e caíram em zona desabitada, atingindo mortalmente um palestino que trabalhava para um israelense. Mesmo abatidos na sua maioria, o Hamas está usando mísseis de 333 mm que chega à 11 km, podendo atingir as baterias e os comandos de Israel, devido o lançamento passar a ser móvel de qualquer veículo médio.

Mesmo lutando contra uma nação nuclear que dificilmente pode vencer, aparece no horizonte a possibilidade de mudar as regras, repetindo Israel que sempre usou de violência para obrigar uma negociação vantajosa.

O país sionista percebeu que sua segurança foi rompida e isto captado na alta cúpula.

As desavenças no gabinete entre o chefe do executivo, Reuven Rivlin, defensor de uma posição mais moderada, e o ultra-direitista e Ministro da Defesa Avigdor Lieberman resultou no pedido de demissão deste último, aclarando o embate interno na administração israelense.

Lieberman aproveitou a visita de Netanyahu à França, devido a comemoração do centenário da primeira guerra, para solapar as negociações do governo com o Hamas com ajuda da ONU e Egito.

O ex-ministro é representante do partido de ultra-direita Ysrael Beitenu (Israel Nossa Casa) e junto com setor mais belicista do exército puseram em prática uma operação militar de invadir a Faixa de Gaza com a intenção de executar El Sheir Nur, destacado membro do Hamas.

A ação foi descoberta, gerando um enfrentamento e resultando na morte do militar palestino bem como um tenente-coronel israelense, além de três militares sionistas feridos levados em estado grave para o Hospital Soroka de Beer Sheva.

O fracasso desencadeou um intenso bombardeio aéreo e de artilharia por parte de Israel, causando a morte de seis palestinos.Ainda foram atacados a canal de TV Al-AQSA e um centro cultural. A resposta palestina mostrou as dificuldades para a população de Israel ter garantida sua segurança, o que levou a renúncia de Lieberman.

Netanyahu, percebendo a situação delicada, suspendeu a visita à França, retirou o “fogo baixo” e tenta convencer o Egito a se manter na negociação diante da fracassada invasão. Comemorada pelo líder do Hamas, Ismail Haniya, a situação gera acirramento do nacionalismo extremo que leva a política de genocídio defendida por parte da população e que fortalece Lieberman em detrimento de Netanyahu, que enfrenta processos por comprovadamente ter recebido suborno.

Afinal, as justificativa do ex-ministro de “razões inconciliáveis” serve como combustível para próxima eleição com data marcada para novembro de 2019, e quem sabe antecipada.

Avigdor Lieberman pode ser caracterizado por suas posições racistas e extremas. Foi porteiro de “night club” em Chisinau, capital da Moldávia, ex-república soviética, o técnico hidráulico migrou em 1978 para terras ocupadas dos palestinos. Hoje reside em outra colônia sionista de Kordim na parte ocidental, também resultado de ocupação.

No que diz respeito ao conjunto de suas ideias políticas pode-se citar a defesa pelo assassinato de Yasser Arafat, bombardear Teerã e Beirut,esmagar a Cisjordânia até não deixar “pedra sobre pedra”, decapitar aqueles árabes-israelenses que sejam “desleais à Israel”. Os devaneios de Liebarman se tornam ameaças reais a medida que ascende politicamente, não apenas como no passado com apoio dos migrantes da antiga União Soviética, mas com abrangência nacional. Em 2016, poucos meses antes de assumir o ministério, declarou em entrevista ao jornal Al-Quds que “em Gaza como no Irã , querem eliminar o Estado israelense… se começarem uma guerra ,será a última guerra, pois eliminaremos a todos”. São falas de Liebarman o ” desejo da morte de todas as mães dos palestinos” ou de ” jogar todos palestinos no Mar Morto se possível, já que é o ponto mais baixo do mundo”.Uma clara alusão que seu pan-nacionalismo dialoga com premissa racista e genocida.

Olhar para Netanyahu perto do ex-ministro pode trazer a ilusão de um político moderado.

Em verdade o mandatário atua estrategicamente apenas pela situação, acionando o “fogo alto” por 48 horas diante das desventuras militares israelense.

Neste dia 18 Netanyahu assumiu o Ministério da Defesa, preocupado com a maioria frágil que lhe restou depois da separação. Ele só possui agora apoio de 61 dos 120 parlamentares, uma vantagem que indica queda de governo, logo num momento que Lieberman lhe supera nas pesquisa. O mandatário sentenciou que as eleições antecipadas “seriam uma grande erro… especialmente neste período sensível em matéria de seguridade”.

Estas horas de aparente paz não impediu a marinha de Israel, que faz o bloqueio de 3 KM no mar frente a Gaza, matar Nawwaf al-Attar de 20 anos que pescava no limite autorizado. Nem mesmo evitar o desespero de Ahlam Al-Yazji ,a proprietária de um jardim de infância atingido pelo bombardeio. A sexta passou sem mortes de palestinos, mas pelo menos 40 foram feridos por Israel nas “marchas de retorno” perto do limite de Gaza.

Em virtude destas informações mostra-se difícil lançar olhos com alguma esperança de paz. Fica claro que a Palestina precisa negociar, mas em que pese sua responsabilidade no processo, não há muito mais para pedir a esta nação. Pelo lado de Israel, é preocupante a sensação que os dois principais políticos só olhem para um pan-nacionalismo que na prática ambiciona implantar um Estado onde já existia outro. Corrobora com esta conclusão outra declaração de Netanyahu neste domingo , indicando qual é a tratativa sobre territórios ocupados ilegais pelo acordo de 1967:”Israel sempre permanecerá nas colinas Golã, elas sempre estarão em nossas mãos!”

O receio é latente quando se vislumbra que Netanyahu e Liebarman são legítimos representantes da maioria da população, aquela que queima pneus exigindo a aniquilação, esquecendo o caminho da paz. Existe pouca dúvida que o objetivo é de avançar, e em pequenos intervalos, usar a trégua. Uma equação de perdas e mais perdas para Palestina e a humanidade.

Pobreza por merecimento

Pobreza por merecimento

O discurso meritocrático, impulsionado pela distopia neoliberal, tem duas dimensões gêmeas, que precisam, ambas, ser reconhecidas.

 

Desigualdade Social.

A primeira, que eu chamaria de “teoria positiva do mérito”, é matéria de textos de auto-ajuda vendidos em aeroportos, alguns até enobrecidos como bibliografia de MBAs, e corresponde ao processo de glorificação do indivíduo esforçado, ascético, comprometido com o sucesso da corporação com a qual “colabora”, determinado em sua própria “vitória” e focado no seu Lattes, ou no seu Linkedin. Este (ou esta) reencarnação do Fausto avança por meio de concursos públicos, ou, eventualmente, por meio de dinâmicas sofisticadas de Gestão de Pessoas… Em todo caso, sempre descartando qualquer suposta intervenção “patrimonialista”, demônio que Jessé de Souza bem diagnosticou como sendo a preocupação máxima da “tolice da inteligência brasileira”.

A segunda, a “teoria negativa do mérito”, com sua expressão silenciada e até constrangida nos círculos dos “cidadãos de bem”, tem a ver com a sina da maioria: dos desempregados, sub-empregados, mal-empregados, terceirizados, autônomos, vendedores de saco alvejado, ou de qualquer outra coisa nos sinais de trânsito, precarizados de uma forma geral. Essa maioria trabalha muito (desempenha diariamente várias ocupações) e ganha muito mal. Várias destas pessoas acreditam na Teologia da Prosperidade e, entre uma e outra de suas diversas jornadas de trabalho, oram a Deus: na condução, na igreja, em casa… São sempre obrigados a recorrer aos serviços públicos, cujo acesso, todos sabemos, é pra lá de estrangulado: o que os leva muitas vezes a recorrer a relações pessoais para entrar na fila; ou para furar a fila… Patrimonialismo puro!

Caricaturas à parte, essa representação da desigualdade social preocupa por ter ascendido a um caráter de normatividade discursiva, que não só justifica e legitima a vida “como ela é”, como passou a fundamentar a proposição ( ou a eliminação) de políticas públicas, focadas na redução da iniquidade.

Essa reflexão é tornada relevante pelo primeiro aniversário (em 11 de Novembro) da reforma trabalhista, aprovada com a escusa da geração de mais empregos, mas de fato responsável pela redução da massa salarial e pelo agravamento da precarização do trabalho, agora despojado da rede de proteção que compensava o baixo valor de sua remuneração. Dependendo do nosso sistema de consentimentos, podemos interpretar as vítimas desta política como gente sem sorte, ou sem mérito, ou, em termos mais tradicionais, como pessoas brutalmente exploradas.

Essas considerações também se destacam no contexto de uma discussão cada vez mais atrasada sobre políticas educacionais. Começando pela infame “Escola Sem Partido”, na verdade Escola Sem Ciência, Sem Debate e Sem Crítica.

Escola que quer jogar no lixo o acúmulo de quase duzentos anos de investigação e elaboração analítica sobre a sociedade, a cultura, a linguagem, a arte, a vida.

Engraçado que quando o lado de lá se beneficia deste legado científico (por exemplo, usando Inteligência Artificial para disparar mensagens mentirosas em listas de zap e influenciar o resultado eleitoral), aí a Ciência é bem vinda… Ou alguém acha que sem pesquisa linguística (lexicográfica) e psicossociológica (especialmente, antropológica), esses desenvolvimentos tecnológicos seriam possíveis? Pensam que vão fazer essa graça só com estatística? Vão sonhando…

Mas quando se recorre às ciências históricas, às ciências sociais, às ciências cognitivas para interpelar e interpretar as desigualdades de classe, de gênero ou de raça, aí tudo é “ideologia”… e a “civilização cristã” fica em perigo! Na verdade, o perigo está em que o legado das ciências desnaturaliza a desigualdade e coloca sua reversão como uma possibilidade real.

Eis porque a aliança perversa entre obscurantistas e mercadistas radicais _ essa aliança materializada no personagem Bolsonaro _ ajuda a criar o pior dos mundos. Um mundo em que as pessoas, como agentes uniformes e descontextualizados, são responsáveis pelo seu próprio sucesso _ ou pelo seu próprio fracasso.

Um mundo em que o estado nada mais é que um estorvo para os briosos indivíduos, investidos de benignos valores tradicionais; nesse mundo, a esfera da política oscila entre a irrelevância e a crítica moralista.

Curiosamente, esta visão de mundo vem sofrendo contestação ativa no próprio centro do capitalismo de onde procede. Alguns sinais a serem considerados: as reestatizações em curso na Grã Bretanha, onde a onda thatcheriana já quebrou e as pessoas descobriram que educação, saúde, saneamento são melhor geridos na órbita pública. Da mesma forma a constituição de um sistema público de saúde e a gratuidade da educação superior foram bandeiras vitoriosas nas midterm elections dos Estados Unidos, quando os Democratas recuperaram a maioria na Câmara dos Deputados e elegeram um número maior de governadores.

Assim como gênero, a pobreza é também uma construção social. O resultado de dinâmicas históricas iníquas, de expropriação, às vezes violenta, da riqueza comum. Nesse momento da história humana em que a quinta revolução tecnológica promete um acúmulo inédito da riqueza do mundo ( em condições inclusive de maior sustentabilidade), ninguém merece a pobreza.

E mais que imerecida, a pobreza é uma afronta à condição humana e uma ferida aberta no tecido civilizacional.

Por isso cabe combatê-la: na escola, na política , na gestão da economia. Nesse combate, a razão humana é aliado imprescindível. Não permitiremos nem que a suprimam nem que a domestique.

Israel avança com genocídio e prende criança de oito anos

Israel avança com genocídio e prende criança de oito anos

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No que diz respeito a aliança EUA e Israel, não existe apenas sintonia de atuação na política externa ou econômica, mas na prática de golpear os direitos humanos com o aprisionamento de crianças. É representativo notar que no caso estadunidense a prática condenável está ligada a detenção de imigrantes com filhos, mas quanto a israelense é um modelo do Estado num dos estágios persecutórios aos palestinos.

As forças de Israel detiveram sem nenhuma razão, neste último dia 9, na entrada da cidade de Beit Ummar ao norte do distrito de Hebron, Omar Rabie Abu Ayyash de 8 anos. Ele é mais uma das 8000 crianças pelestinas presas desde 2000 segundo a organização “Defense for Children”. A instituição a favor dos direitos humanos Human Rights Watch (HRW), no seu relatório de 2017 alarga estes números. Enumera mais de 6100 palestinos nas prisões israelenses, 453 sem processos jurídicos e o cita a alarmante situação de 300 crianças encarceradas atualmente. Completando os números , existem 1,9 milhão (70 % da população de Gaza) necessitando de ajuda humanitária.

Vinte crianças sofreram assassinatos para um montante de 1500 feridos no total. Existem hoje, fruto de invasões, 8000 unidades de assentamentos ilegais e o bloqueio de construir para 17800 casas demolidas por Israel. Uma situação que só se agrava a cada dia.

Em um novo capítulo, Israel acelera a aprovação da lei que permite pena de morte desde que os tribunais militares classifiquem que o indivíduo seja terrorista. O projeto é do partido de ultra-direita Ysrael Beitenu, o mesmo do ministro da defesa Avigdor Lieberman e aliado do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Esta votação deve ocorrer em segundo turno neste 15 de novembro , já que o primeiro teste de janeiro foi aprovado por 51 a 49. Apesar da pena de morte já existir, ela atualmente é de difícil execução devido a exigência de condenação unânime por 3 juízes, a última ocorreu em 1962. A nova lei é direcionada aos palestinos, já que israelenses não são julgados por tribunais militares, um situação contraditória em relação aos colonos que cometem crimes nos territórios ocupados.

É interessante perceber que as práticas de Israel visam impedir a possibilidades de existência do Estado Palestino e caso não se alcance aniquilar, criar um sistema de castas, onde estes últimos sejam a base da pirâmide.

É neste caminho que aponta outra lei em trâmite no parlamento. Ela visa permitir que qualquer pai ou mãe sejam expulsos dos territórios ocupados, caso Israel declare seus filhos terroristas.

Em Paris, o secretário da ONU, Antonio Guterres advertiu ao mundo que “uma nova guerra em Gaza seria um tragédia incrível”, depois de assistir Israel bombardear a Faixa neste dia 11, deixando 6 palestinos e um israelense mortos. Netanyahu sentenciou : “A diplomacia não funciona”. A realidade que se apresenta é que Israel não quer paz desde 1948, e que o objetivo é desaparecer com a população palestina tanto da Cisjordânia como de Gaza.

Quanto a Omar , caso não seja solto e as leis aprovadas , pode crescer junto com outras 300 crianças presas, poderá ver mais de 6100 palestinos serem condenados a execução e seus pais, expulsos das terras ocupadas por considerarem seu filho um terrorista. Todo este conjunto são ferramentas de um genocídio contemporâneo. Apesar de mais lento, segue o ritual de um passado que o povo de Israel sendo vítima , não deveria repeti-lo.

Caetano Veloso entrevista Guilherme Boulos

Caetano Veloso entrevista Guilherme Boulos

O líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto – MTST, em entrevista, fala sobre o momento a criminalização dos movimentos sociais, eleições e perspectivas para os próximos passos após o resultado das eleições. Assista a nova coluna de Caetano Veloso na Mídia NINJA.

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Ana Julia: Ideologias e pensamentos políticos existem. Aceite isso.

Ana Julia: Ideologias e pensamentos políticos existem. Aceite isso.

Luta contra a reforma do Ensino Médio e em apoio aos estudantes em Sapucaia do Sul. Foto: Mídia NINJA

A agenda em pauta da educação brasileira é preocupante. Como já é de conhecimento público, há pouco mais de dois anos passamos pela infeliz ratificação da Reforma do Ensino Médio e da Emenda Constitucional 95. Ambas medidas nos legaram um prejuízo incalculável para a educação. Agora, voltamos a redobrar nossos esforços e atenção ao Escola Sem Partido. Além de que, não sabemos direito o que esperar do governo que assumirá em 2019, já que são astutos em nos surpreender quando o assunto é desinformação, estupidez e retrocesso.

O Projeto de Lei do Escola sem partido (PL 7180/14) que está em tramitação na Câmara dos Deputados pretende obrigar as escolas a se submeterem às convicções familiares sobre sexo e religião.  O projeto de lei assume um papel de prioridade para o que resta do Governo de Michel Temer que, não por acaso, advém de ligeira parceria com o presidente eleito Jair Bolsonaro.

De maneira acelerada, o projeto está em discussão na comissão especial da Câmara dos Deputados. Na última quarta-feira, dia 07/11, a audiência foi cancelada por estar em conflito com as atividades do plenário. No entanto, foi reagendada para a próxima terça-feira 13/11. A comissão tem como objetivo analisar o relatório do deputado Flavinho (PSC-SP), o qual pede que toda sala de aula tenha um cartaz com os seis deveres dos professores. Em apertada síntese, dizem que os professores não podem emitir opiniões em sala de aula ou sequer fazer menções a ideias político-partidárias e ideológicas. Além disso, pretende estabelecer a proibição de conteúdos que abordem questões de gênero e de orientação sexual.

Verdade seja dita, o projeto da Escola Sem Partido tem objetivos que não condizem com o discurso oficial. Ao contrário do que prega, o PL busca uma escola alienadora.

Vou tentar simplificar dando um exemplo simples, mas que reflete nas verdadeiras intenções de uma escola sem partido. Você já assistiu ao desenho “De onde vem” da TV Escola, que tem como protagonista a Kika, uma menina de cinco anos de idade? Sim, Não? Se ainda não viu, convido-os a assistir. Mas, se você a conhece, assim como eu, deve ter se frustrado junto com ela. Digo isso porque a vida da Kika é ela querer aprender de onde vem as coisas e os adultos darem alguma resposta apática e vazia. Respostas do tipo: De onde vem o livro? Da prateleira. De onde vem a água? Da torneira. Ou seja, infelizmente estamos prestes a ter escolas e, por consequência, uma sociedade que vai viver de respostas tão superficiais como as que a Kika recebe.

Vamos combinar que nenhuma dessas perguntas merecem respostas tão simplórias. No desenho, como uma boa obra de ficção, elas são pretexto para que a menina converse com todos os objetos possíveis: como o sapato e o caco de vidro em busca das reais explicações para descobrir a origem de cada uma das coisas que lhe causam dúvidas. Hipoteticamente, as respostas vazias não trazem problemas. Contudo, na vida real, no cotidiano da escola, é no mínimo preocupante que se queira que os estudantes lidem com um ensino limitado e de ausência de questionamento. Tão pouco, se conviva com um tipo de ensino que censure as respostas.

Proibir o professor do seu direito do livre ensinar, da sua liberdade de cátedra, é ferir a educação e quem mais precisa desfrutar dela, a sociedade.

Arrisco-me a dizer que tecnicamente, o primeiro problema do projeto de lei é a sua inconstitucionalidade em censurar os professores e querer limitá-los a dar respostas vazias, obrigar que o docente esconda o mínimo resquício de opinião é limitar o aprendizado. O projeto reforça a possibilidade de uma escola totalmente conteudista e pior, sem politizar o conteúdo. A não politização dos temas se traduz no contexto de impedir que os conhecimentos obtidos em sala de aula tenham uma relação com o cotidiano fora dos muros da escola. Faz com que o pluralismo dos professores, de suas opiniões e de suas aulas se moldem numa grotesca uniformidade. Não se enganem, porque por trás do dito “sem partido” está acobertado o ideal de um partido único. O partido do preconceito, do racismo, da opressão, da omissão, do atraso e principalmente, o partido da censura.

Vamos tentar ser práticos, levemos em consideração tudo o que a Escola Sem Partido diz preocupar-se para dentro da sala de aula. Digamos que estamos em uma aula de história, cujo assunto é a segunda guerra mundial. Tanto didaticamente quanto humanamente é impossível oferecer um ensino de qualidade aos alunos sem dizer nada sobre quem foi Hitler, o que foi o nazismo, o que significou a vertente ideológica que exacerbou a xenofobia e o racismo. Ou então, estamos numa aula de geografia que o conteúdo é revolução verde, é preciso, por exemplo, que se explique a teoria malthusiana. Mas, falando dela é improcedente que não se dialogue com os modelos econômicos e por consequência, discutir o modo de produção ao qual nós estamos inseridos. Ou ainda, como falar de Getúlio Vargas, seja para o bem ou para o mal, sem omitir o seu partido? Como contar o episódio da Revolução Francesa sem mencionar os Jacobinos e Girondinos? Como falar dos Estados Unidos sem dizer quem são os Democratas e os Republicanos?

A questão é que corriqueiramente, as disciplinas e seus respectivos conteúdos necessariamente vão abordar assuntos ideológicos e políticos porque a nossa sociedade é assim, complexa e plural. Nós somos, por inteiros, seres políticos.

Esta diferença nos distingue dos demais animais irracionais. Socialmente, nos organizamos de maneira política e, por vez ou outra, somos livres para querer ou não se ver representado por partidos políticos.

Mas há quem diga que a famigerada Escola Sem Partido não tem a intenção de barrar o debate, mas sim de impedir que a escola aborde assuntos que ferem a moralidade familiar e que incentive as crianças e adolescentes a serem LGBT’s. Além dessa contestação ser ingênua, ela não leva em conta que a escola deve ser um lugar de pluralidade e diversidade. Há sem sombra de dúvidas uma variedade de famílias, por definição, de moralidades dentro do ambiente escolar. Sendo assim, precisamos assegurar uma escola em que respeite todas, sem exceção, maneiras de pensar ou contornos familiares. Não se pode aceitar que uma crença x ou y prevaleça sobre as outras. Ademais, faz-se necessário ressaltar que não existe qualquer modo de incentivar ninguém a ser lésbica ou homossexual, pois se dependesse só de incentivos, ninguém seria, uma vez que, como bem sabemos, historicamente as pessoas que se enxergam e se reconhecem como LGBT’s são perseguidas e violentadas.

Você em algum momento já ouviu falar ou até mesmo sentiu que não gostava da escola? Garanto para quem tem empatia com essa declaração que tal sentimento não nasce do desprezo pelo conhecimento ou por preguiça.

A banda inglesa Sex Pistols traduziu a aflição que os estudantes têm com a escola na música “Schools Are Prisons”. A composição reflete a frustração em não poder ser livre e nem ao menos ter o pensamento livre. O desgosto dos estudantes com a escola não é com a instituição em si, mas com a maneira em que o seu propósito está voltado. De antemão já podemos dizer que o projeto da Escola Sem Partido é o prenúncio que pode aumentar ainda mais o desprazer dos estudantes com a educação brasileira, já que ela limita a liberdade de expressão tanto de professores quanto dos alunos.

Infelizmente, o real problema que enfrentamos nas escolas é a deturpação de seu objetivo fim, colocadas a mercê de projetos de poder e alienação, fazendo com que o espaço do livre pensamento seja o do pensamento único. A estrutura verticalizada e em alguma medida militar, nos faz reféns do silêncio, da opressão e da angústia.

Contudo, se existe uma certeza quando o assunto é educação é o fato de que nos últimos anos conseguimos fazer com que a escola se desprendesse dos resquícios do aprisionamento intelectual para caminhar rumo a um espaço onde as liberdades são predominantes, onde a apropriação da palavra é bem-vinda e a consciência de si e do mundo é a chave para compreender as posições que ocupamos em nossos contextos sociais.

No papel, vivemos em um Estado de Direito, o qual condiz com uma sociedade democrática. Assim, os pilares da escola numa sociedade com essa característica devem ser o respeito ao livre pensamento, à liberdade, à discussão, à criatividade, à tolerância e a emancipação do ser. Em países equilibrados com a democracia já é um enorme desafio fazer cumprir estes pilares e ampliá-los. Mas, em países que estão em situação similar com a do Brasil, de risco democrático e de estabilidade das instituições, defender os pilares da escola é algo verdadeiramente árduo. Não digo que estamos em desestabilidade pela eleição de Jair Bolsonaro, mas sim, pelo discurso de ódio que está emergindo gradativamente, o qual, infelizmente, o presidente eleito contribuiu demasiadamente para puxar o coro.

Discursos que não respeitam a sublimidade da dignidade humana colocam a democracia do Estado e da vida das pessoas em xeque. Dessa maneira, o projeto da Escola Sem Partido faz com que a educação brasileira saia da condição de avanço, do apropriar-se do livre pensamento, do ensinar, da democracia e das liberdades, para caminhar de volta a um ambiente de alienação e de cárcere.

Não deixemos que o avanço tardio que lentamente fizemos na educação brasileira nas últimas décadas seja destruído pelo projeto de poder e de alienação de alguns. Não deixemos as escolas serem prisões de pensamentos

 

Os drones de Israel que eliminam o povo palestino poderão matar brasileiros

Os drones de Israel que eliminam o povo palestino poderão matar brasileiros

Neste conjunto de ideias, a utilização de drones é uma das ferramentas para aniquilação.

Foto: Mohammed Abed | AFP | Getty Images

Para o governo de Benjamin Netanyahu existem razões que justificam aprofundar o insano genocídio palestino. Uma delas é que não pode existir, na região berço das religiões monoteístas do mundo, uma paz de convívio entre os que acreditam em Abraão, Cristo ou Maomé no mesmo patamar de importância. Nesta linha de raciocínio, não basta se apropriar das terras palestinas, cobrar por uma água que já era da Cisjordânia, roubar suas casas e o futuro da população, o objetivo é o genocídio.

Neste conjunto de ideias, a utilização de drones é uma das ferramentas para aniquilação.

Assim como o modelo de campo de concentração na Faixa de Gaza e operações abertas de bombardeios, os drones transformam qualquer palestino em um alvo de tiro, com a garantia de impunidade para o israelense que disparou.

Esse tipo de assassinato seletivo que se realiza fora do campo de batalha, são dirigidas também a população civil, trazendo perigo imenso a sociedade. São adultos e crianças sendo mortos em comércios, perto de hospitais e escolas. Quando a seletividade falha, propositalmente ou não, são as pessoas em volta do alvo que são eliminadas. Não se conta a quantidade de vidas perdidas num buraco de 15cm gerado por inúmeros disparo de drones.

Mesmo depois de bombardeios , estes aparelhos que espiam e matam, continuam voando e podem atacar a qualquer momento. É difícil de imaginar que uma mãe com filhos seja obrigada a caminhar por um bairro escuro ouvindo o motor de um drone em cima de sua cabeça, um som que ecoa como um relógio a avisar os últimos segundos da sua vida.

Omor Samur foi um dos 16 mortos em ataques seletivos dentre os 1272 feridos no dia 30 de março deste ano no campo de refugiados de Kan Yunis, e 15 dias antes foram os periodistas da TV Al Jazeera, “armados” com coletes de identificação e máquinas fotográficas. Outro jornalista chamado Hoda Abdel-Hamid, gravou o ataque felizmente sem mortes. Em 28 de outubro chegou a vez três crianças entre 12 e 14 anos a oeste de Jan Yunis, eles foram brincar perto do limite de Gaza, e sem qualquer identificação pelos israelenses, sofreram disparos de drones. Durante quase uma hora a equipe de médicos não pôde entrar na zona próxima militar, depois da exigência do padrão de segurança israelense, só coube buscar os corpos.

Em 13 de Julho de 2014 foram quatro crianças numa recreação na praia sul de Gaza, em seus pés uma bola de futebol, nas mãos um simples balão. Mas os militares viram terroristas em vez de crianças, e armas em vez de um brinquedo.

Dois tiros de drones mataram quatro garotos, deixando outros feridos. Passado 48 meses o exército concluiu que “houve algo estranho”, muito pouco como reclamou a advogada Suhab Bishara.

Estes fatos são apenas exemplos de desculpas para militares seguirem com o objetivo de aniquilar.

Os robôs assassinos de Israel vão poder chegar a matar brasileiros. Em que pese nos territórios ocupados, a população a ser abatida é a palestina, no Rio de Janeiro serão as comunidades pobres nas favelas, e sempre contando com o erro humano de encontrar um fuzil num brinquedo e uma ameaça terrorista em uma criança.

Os governos de ultra-direita, tanto no estado do Rio de Janeiro como no plano nacional, defendem comprar estes drones com autorização de eliminar quem portar um fuzil. A questão que se apresenta é se o armamento estará realmente presente nos recorrentes erros, alguns propositais, ou se será implantado pelas forças de segurança que operarão os drones.

Especialistas denunciam que nem sequer a legislação permite o abate , caso este indivíduo não estiver ameaçando explicitamente um terceiro.

A história registra nomes como de Guilherme Jurgensen de Itapeva(SP) em 2015, Ronald William de Oliveira em Macapá(AP) em 2018, Haíssa Vargas Motta em Nilópolis em 2014, vinda de uma lista extensa de erros praticados por militares e governantes despreparados, que mesmo assim ambicionam perdão para matar. Estes casos gritam para o poder público que o caminho está na estratégia, inteligência e políticas de inclusão social, nos afastando de importar a ideia do genocídio implementado por Israel.

O Brasil já passa por um genocídio sem essas armas de assassinatos em massa, utilizar os drones israelenses só irá aumentar as mortes e a impunidade em um país que sofre com a extrema violência e despreocupação com direitos humanos, enquanto buscam eliminar programas que prezam pela vida, como o Mais Médicos.

A preservação da vida não tem ideologia, enquanto os novos governos têm. A da morte de quem não dá lucro.

Sérgio Moro, o rei nu

Sérgio Moro, o rei nu

Esse juiz será ministro do candidato que prometeu deixar Lula a apodrecer na prisão. Coincidência ou pagamento?

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“Não, jamais. Jamais. Sou um homem de Justiça e, sem qualquer demérito, não sou um homem da política” disse Sérgio Moro em 2016 quando foi questionado sobre as suas motivações e ambições políticas.

Agora o super-juiz da Lava Jato aceitou o convite de Jair Bolsonaro para ser o próximo ministro da justiça do Brasil. Aliás, namorou o lugar durante a campanha, negociou-o assim que o ultra conservador foi eleito, e até este momento ainda não renunciou à magistratura, limitou-se a tirar férias.

Toda a gente compreende a indignação de muitos e a atrapalhação de outros. A única reacção pouco genuína é a dos que se fingem surpresos.

Citando Miguel Sousa Tavares, “este é o juíz que, sem nenhuma prova direta e baseado apenas em delações premiadas, sozinho, investigou, acusou, despachou para julgamento, julgou, condenou e meteu na prisão o homem a quem todas as sondagens davam larga vantagem no Brasil”.

O homem que anunciava condenações como quem faz promessas eleitorais. O homem que prometeu por Lula na cadeia. Que o condenou por “convicção”. Que montou um conluio com a polícia e recusou libertá-lo apesar da decisão de um tribunal superior.

Esse juiz será ministro do candidato que prometeu deixar Lula a apodrecer na prisão. Coincidência ou pagamento?

Com a hipocrisia dos canalhas, Moro diz que vai ocupar um lugar técnico. Mas é evidente que está finalmente no lugar certo para fazer aquilo que sempre fez: política. Não há dúvida de que Moro sempre foi um ativista anti-PT que utilizava a toga para manipular politicamente a justa indignação do povo brasileiro contra a corrupção endémica no país.

Isso não quer dizer que a verdadeira agenda de Moro fosse o combate à corrupção, certamente não mais do que o combate ao PT. Para seguir essa verdadeira agenda atropelou várias vezes a lei, como quando recolheu e divulgou escutas ilegais de conversas entre Dilma e Lula.

Um abuso de poder deste género, ao ponto de mandar escutar conversas entre a Presidente e o ex-Presidente de um país, indignaria muita boa gente que sabe o que significa Estado de Direito. Mas na época Dilma estava à beira de sofrer um golpe e a fuga dava demasiado jeito ao impeachment.

Moro mandou para o espaço a separação de poderes, e por isso foi um aliado indispensável quando a direita corrupta deu um golpe político e quis disfarçá-lo de combate à corrupção.

A indignação da esquerda é a de quem vê escancarada a veracidade das denúncias de falta de imparcialidade no julgamento de Lula, de judicialização da disputa política com o PT, de participação ativa na campanha pró-golpe. A atrapalhação da direita é a vergonha de quem quis fingir que acreditava na farsa de Moro e se vê de repente desmascarado.

Por ter posto Lula na cadeia e ter sido cúmplice do golpe, a direita glorificou um juíz-político sem olhar aos custos para o Estado de Direito e para a democracia. Moro era rei. Agora não há como não pôr em causa todas as decisões que tomou enquanto condenava na justiça aqueles que não teve coragem para enfrentar nas urnas. Por ironia, foi a coerência do político que denunciou a farsa do juiz. O rei vai nu.

Maria, Maria sou Dona De Mim

Maria, Maria sou Dona De Mim

Cenas dos clipes de Maria Maria e Dona de Mim

Crescendo com pais dos anos 60 e 70, ouvia muita coisa diferente em casa. Amado Batista, Rita Lee, Odair José, Emílio Santiago, Djavan e… Milton Nascimento.

“Maria Maria” era um hino. Tocava nos domingos, nas reuniões dos amigos dos meus pais, na oficina de costura da minha mãe. Nesse último cenário, talvez seja o primeiro que mais me marcou – eu sentada no chão, entre retalhos e giz, com a tilintar das verloques.

É preciso ter manha, é preciso ter graça, é preciso ter sonho sempre.

Exatamente essa parte da música era trilha sonora do sorriso da minha mãe. Das minhas tias. Das mulheres negras da minha família. Que entre moldes e filhos correndo, contavam relatos de uma vida cheia de violência, sempre assumindo que eram culpadas por tudo que a vida tinha colocado em seu caminho.

Lembro da minha mãe me contando no dia que ela percebeu que minha avó não corria pela roça que moravam porque estava feliz ou brincando noite adentro e sim porque fugia para não apanhar do meu avô no meio da madrugada. Por uma triste coincidência, o nome a minha vó é Maria.

Talvez por isso, quando aos 14 anos, dentro de uma sala de coral, me chegou a mão a partitura de Maria Maria, eu respirei fundo. Eu entendi melhor a construção da música, admirei a inteligência do arranjador, mas de certa forma ela me pareceu ainda mais cruel. A minha linha, de contraltos, tinha menos presença na melodia e acabava deixando a letra ainda mais deprimente

Ao ficar mais velha e entender melhor que algumas mulheres estavam fadadas a trajetórias diferentes das outras e que a maioria dessas mulheres tinham a minha cor, vi esse hino se transformar na música de fundo da infelicidade das minhas tias, mãe, avó e amigas.

Na verdade, quem traz na pele essa marca misturava a dor e alegria.

Avanço pra 2018. Mulheres empoderadas, nas ruas. Minha mãe perto de se tornar a primeira mulher da minha família a se formar numa universidade. Minha avó na sua rocinha, cuidada pelas filhas. Em determinado ato de mulheres, surge a dúvida – Maria Maria poderia ser tocada e ser encarada como uma ode a nossa força?

Muitas dizem que não. O verso “De uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta” amargurava a garganta de qualquer uma. Com flashes dos sofrimentos da minha família, concordei.

Eu não queria que minha avó risse quando deveria chorar quando era espancada. Eu não queria que minha mãe forçasse o riso até a depressão passar. Eu desejava para elas vida, não apenas aguenta. Votei contra.

20 de setembro. 9 dias antes do #EleNão que tomaria o país, Milton Nascimento lança o clipe de Maria Maria. As correntes de whatsapp gritam, choram, comemoram. Eu, ignoro. Até a madrugada. E quando assisto, não resisto a um minuto sem cantar cada palavra, mas também chorar cada segundo. Em tempo real, entendia a letra, a melodia, a intenção e as mulheres da minha família.

É preciso ter força, é preciso ter raça e é preciso ser humilde sempre. Ao ver e ouvir novamente percebo a arrogância que era negar aquela música como parte da história linda, e mais importante, REAL que minhas matriarcas construíram.

Negar “Maria Maria” também era negar minha mãe, Maria Conceição de Sene Faria.

Feminismo nenhum deu tanto descanso pra minha vó quanto os domingos cantando essa música. E eu que, como nós, luta para que isso mude, não consigo negar que todas nossa vida foi uma sequência de rir em momentos de dor e continuar tendo fé na vida. É isso, ou morrer.

Fazer as pazes com a música me abriu caminhos. Oito dias depois recebi “Dona de Mim”, da Iza. Mais próxima do imaginário atual das mulheres negras, sua letra põe musicalidade na história da geração de mulheres negras que faço parte:

“Sempre fiquei quieta, agora vou falar, se você tem boca, aprende a usar. Sei do meu valor e a cotação é dólar, porque a vida é louca, mano, a vida é louca”.

O clipe conta a história de várias mulheres negras diferentes – professora de escola pública sob um tiroteio, uma jovem mãe solo e seu filho, uma advogada trans defendendo uma senhora de um tribunal de homens brancos. Somos nós contendo o pânico em sala de aula, embalando o bebê em condições precárias e com algemas na mãos. Somos nós também impondo nossa existência em todas essas situações.

A letra segue contando

“Já não me importa a sua opinião, o seu conceito não altera minha visão.
Foi tanto sim que agora eu digo não”.

A canção cura e guia. Aceita as vezes que me perdi, mas me lembra que não posso parar. Me deixa chorar, mas não me afogar. Coincidentemente também com um coral no enredo, o clipe termina com o encontro dessas mulheres. Ali ser mãe, professora, advogada, trans, cantora, dançarina, se misturam. Como queremos nossa militância atual.

Ao fim, entendo que “Maria Maria” está para minha mãe como “Dona de Mim” está pra mim.
E finalmente feliz, assumo:

Sou Dríade. Filha de Maria. Dona de Mim que mereço amar como outra qualquer planeta.

Guilherme Boulos: Jair Bolsonaro não teve um cheque em branco do povo

Guilherme Boulos: Jair Bolsonaro não teve um cheque em branco do povo

Tentar calar oposições não é um caminho aceitável.

Foto: Mídia NINJA

Artigo de Guilherme Boulos publicado originalmente na Folha de São Paulo

Jair Bolsonaro teve a maioria dos votos e foi eleito presidente da República, o que não significa um cheque em branco do povo brasileiro a um pensamento único sem espaço para a oposição de ideias. O sufrágio se dá nas urnas, mas a democracia é prática cotidiana e pressupõe respeito a quem pensa diferente e, sobretudo, às liberdades constitucionais.

As declarações do presidente eleito, no entanto, são preocupantes: denúncias jornalísticas tornam-se “fake news”, movimentos sociais viram “organizações terroristas”, e manifestações populares são tachadas como “ataques à democracia”.

A uma semana das eleições, o ainda candidato do PSL falou a seus seguidores que os “marginais vermelhos serão banidos da nossa pátria”. Em entrevista ao Jornal Nacional, já depois de eleito, tentou moderar o tom, mas reafirmou a ideia, apontando as cúpulas do PT e do PSOL como alvos de sua perseguição.

Citou-me nominalmente por ter, segundo ele, “ameaçado invadir” sua casa. Não é verdade. Valeu-se de uma ironia que fiz em uma manifestação e que todos que lá estavam ou assistiram assim notaram. Bolsonaro sabe disso, mas preferiu usar o caso para legitimar seu discurso de intolerância.

Eles têm pressa. Esses 45 dias de transição já começaram a ser utilizados para aprovação de uma agenda de retrocessos em direitos sociais e liberdades democráticas.

Em menos de uma semana, anunciaram-se o esforço para aprovar a toque de caixa uma reforma da Previdência rejeitada por 71% dos brasileiros (segundo o Datafolha) e a tentativa apressada de votar em comissões do Senado e da Câmara os projetos que criminalizam movimentos sociais como “terroristas” e o chamado Escola Sem Partido, instituindo uma patrulha de censura aos professores em escolas e universidades.

Os ataques a movimentos sociais têm tomado como alvos principais o MTST e o MST. Parecem desconhecer o fato de que estes não existem por vontades de lideranças, mas pela histórica negação dos direitos à moradia e à terra. Temos uma das estruturas agrárias mais concentradas do mundo e mais de 6 milhões de famílias sem acesso a moradia digna.

Além disso, é uma invenção absurda que o MTST “invade a casa das pessoas”. Há, sim, uma enorme quantidade de imóveis abandonados, grilados ou com dívidas impagáveis, que descumprem tanto a Constituição quanto o Estatuto das Cidades e que só não foram desapropriados para habitação social porque a lei frequentemente falha quando se trata de enfrentar grandes interesses econômicos.

São esses imóveis que os movimentos de moradia ocupam. Tratar essas organizações como “terrorismo” é um atentado à democracia.

Lutar por direitos sociais e fazer oposição são regras básicas do jogo democrático e não “ação de marginais”. Tentar calar opiniões e oposições, impondo uma agenda de medo até mesmo sobre as liberdades de imprensa e manifestação, não é um caminho aceitável. Por isso, mais do que nunca, temos o desafio de construir uma Frente Ampla pela Democracia, com a participação de partidos, movimentos sociais, lideranças políticas, juristas e todos aqueles que tenham preocupação com os caminhos do nosso país.

Cabe aos movimentos sociais seguir lutando por direitos. Cabe à imprensa manter um trabalho independente e crítico, sem censuras ou ameaças. E, finalmente, cabe aos demais Poderes da República –Congresso e, em especial, o Supremo Tribunal Federal– saber frear excessos do Executivo, preservando o respeito à diversidade, a democracia e condenando qualquer tipo de perseguição política.

Minha deficiência não está disponível para caridade

Minha deficiência não está disponível para caridade

O governo tem como obrigação constitucional garantir os direitos das pessoas com deficiência. Não se trata de caridade, ou medidas beneficentes, mas de respeitar o que foi definido pela Convenção elaborada pela ONU.

Michelle e Jair Bolsonaro fazem o sinal de “Eu te Amo”, em Libras.

Já faz uma semana que as eleições acabaram, mas o amargo ainda não saiu da boca. Mais do que ver a derrota do nosso candidato, dói ver a vitória do discurso da mentira. Do ódio. Sempre foi característica das campanhas o embate passional das ideias, mas nunca se viu tanto preconceito como nesta. Ver pessoas comemorando a “legitimação” da morte do outro. Ou melhor dos outros de pele, orientação sexual e corpos diferentes é muito difícil.

A dor é muita, o medo existe, mas amanhã sempre será um novo dia e com ele a possibilidade de continuar a viver, desta vez com mais força e resistência ao que vier.

Para muitos é apenas mais um dia de luta, mais um momento em que precisamos afirmar nossas existências e direitos.

Assim é para muitas pessoas com deficiência que precisaram assistir o surgimento de uma nova personagem disposta a assumir o protagonismo de nossas urgências. A próxima primeira dama, Michele Bolsonaro.

Curioso o surgimento, ou a descoberta, dos talentos de Michele na segunda etapa da campanha do novo presidente. Há três dias após o segundo turno, descobrimos que a primeira dama possuía um trabalho com surdos da sua igreja, em função da sua experiência com um tio surdo.

A semente plantada por ele, como Michele disse em entrevista ao Jornal Nacional, é o principal motivador para sua participação na luta da comunidade surda pela inclusão social. Assim, durante a campanha de segundo turno resolveram ampliar os compromissos com outras áreas da comunidade de pessoas com deficiência no Brasil como uma garantia de que o governo do novo presidente atendesse nossas demandas.

Essas ações fizeram com que muitos a observassem com bons olhos, trazendo um olhar humanizado para a campanha de seu marido que sempre protagonizou discursos repletos de grosserias e desumanidades.

Não estou aqui realizando juízos de valor aos trabalhos sociais de Michele, pois bem sei a relevância de alguns deles, entretanto saliento aqui o capacitismo arraigado nos assuntos relacionados a pessoas com deficiência.

Porém, não deixo de achar curiosa essa história e resolvi fazer uma pequena pesquisa para organizar minhas considerações sobre isso tudo. Por esse motivo, recordarei das atividades no primeiro turno, mais precisamente no dia 21 de setembro de 2018, dia nacional da pessoa com deficiência no Brasil, diversas matérias mostraram como os candidatos abordavam a temática em seus projetos de governo e CURIOSAMENTE o presidente eleito apresentava um total de ZERO projetos. Junto com ele seguiam Álvaro Dias (PODE), Henrique Meirelles (MDB), João Amoêdo (NOVO) e Vera Lúcia (PSTU). 

O site Inclusive.org publicou um quadro ilustrativo com as áreas que cada candidato deveria apresentar propostas para a qualidade de vida das pessoas com deficiência, podendo ser visto a seguir:

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Portanto, meu questionamento é por qual motivo nosso novo presidente não apresentou nenhuma proposta se sua esposa já possuía este trabalho com LIBRAS?

Por que esta preocupação surgiu apenas no segundo turno e, após o resultado das eleições?

Importante lembrar que o papel da primeira dama é cuidar de ações sociais e eventos beneficentes do governo, por isso ver nossas demandas atendidas por Michele se tornam um assunto polêmico e controverso para a luta das pessoas com deficiência no Brasil.

A Lei Brasileira de Inclusão (LBI) estabelece no artigo 8º o seguinte dever:

“Art. 8º É dever do Estado, da sociedade e da família assegurar à pessoa com deficiência, com prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à sexualidade, à paternidade e à maternidade, à alimentação, à habitação, à educação, à profissionalização, ao trabalho, à previdência social, à habilitação e à reabilitação, ao transporte, à acessibilidade, à cultura, ao desporto, ao turismo, ao lazer, à informação, à comunicação, aos avanços científicos e tecnológicos, à dignidade, ao respeito, à liberdade, à convivência familiar e comunitária, entre outros decorrentes da Constituição Federal, da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo e das leis e de outras normas que garantam seu bem-estar pessoal, social e econômico.”

Ou seja, o governo tem como obrigação constitucional garantir os direitos das pessoas com deficiência. Não se trata de caridade, ou medidas beneficentes, mas de respeitar o que foi definido pela Convenção elaborada pela ONU, órgão internacional que nosso novo presidente já manifestou interesse de desligar.

Sei bem que existem muitas pessoas com deficiência que reagiram de maneira positiva a novidade, inclusive o comitê paraolímpico. A discordância de opiniões em nosso meio é natural, afinal de contas somos antes de tudo pessoas com visões e pensamentos diferentes, apesar de estarmos inseridos no mesmo grupo.

Entretanto, não posso deixar de considerar este apoio preocupante.

Esse viés assistencialista, caridoso é muito presente no imaginário popular. Reforça estereótipos sobre a deficiência e nossa participação na sociedade.

Enfatizamos sempre em nossas militâncias o desejo de combater este olhar capacitista, buscando sempre demonstrar nossos direitos como seres humanos que somos. Compreendo se considerarem o tom de minhas palavras duro, mas confesso ser resultado de um certo cansaço de precisar repetir sempre o óbvio:

Pessoas com deficiência não precisam de caridade. Precisamos de garantia de direitos. Só isso.

O neoliberalismo semeia a pobreza que faz os hondurenhos migrarem

O neoliberalismo semeia a pobreza que faz os hondurenhos migrarem

Neste presente, os hondurenhos escrevem mais um capítulo desta história, que nos permite lançar olhos mais nas causas do que nas consequências já recorrentes

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Os processos migratórios contemporâneos latino-americanos estão correlacionados com a demanda por melhores condições de vida.

As primeiras mil pessoas saíram de San Pedro de Sula no dia 13 de outubro. A cidade sustentou durante anos o título de ser a mais violenta do mundo, com a taxa de assassinatos por ano de 148 por 1000 pessoas(PNUD 2012). Honduras, com alta concentração de renda, ocupa posição 136 dentre os 193 integrantes da ONU por renda per capita, sendo penúltimo em miserabilidade da região centro-americana. A população, no patamar de 60%, vive abaixo da linha de pobreza, enquanto mais 38% na extrema pobreza. As suas exportações são concentradas em 70% para os Estados Unidos, basicamente produtos primários como banana, café e camarão. O país importa 50 % de manufaturados e serviços do mesmo parceiro, aclarando uma relação de troca digna do modelo colonial espanhol.

A caravana, depois de atravessar a Guatemala, alcançou o México com 7 mil pessoas, absorvendo um montante de excluídos pelo caminho. São homens, mulheres e crianças decididos a chegar aos EUA para se tornarem refugiados econômicos, resultante de um modelo sustentado pelos próprios americanos do norte, que lhes permitem apenas aceitar. Mesmo que a violência e a insegurança sejam premissas fundamentais, é no campo sócio-econômico que se revela com o desemprego, a fome, falta de moradia, as razões que expulsam milhares de seu próprio país.

O presidente Donald Trump ,em seus devaneios propositais, aborda a questão acusando os opositores internos como George Soros que poderia financiar a migração para ajudar os democratas, rivais dos republicanos. Em outro caminho, se reporta até a possibilidade descabida de apoio do sempre ameaçado de invasão: mandatário da Venezuela, Nicolás Maduro Moros. Entretanto, a divagação atinge até tratar os migrantes com teor de marginalidade, esquecendo a polêmica essencial na atualidade, que é identificar a distribuição de renda com crescimento econômico para inibir fluxos migratórios:

Um grande percentual destas pessoas que querem entrar em nosso país são criminosos. São delinquentes. Caso passem pelo México, vou convocar o exército. Eles trazem drogas e violência

Neste 27 de outubro em Tegucigalpa, capital de Honduras,uma multidão pela segunda semana seguida foi oprimida nas manifestações contra o governo ilegítimo de Juan Orlando Hernandez. O presidente, que nem sequer poderia ter tentado se reeleger em 2017 por ser impedido pela constituição, foi autorizado pelos EUA-OEA em disputar e até fraudar as urnas, depois de uma parada na apuração, quando perdia na contagem.

As ameaças de Trump não amedrontam os descamisados, acostumados a viver em casas de plástico com menos de um dólar por dia. Os olhos dos excluídos miram apenas lograr uma pequena parte do que foi retirado de seus países, trabalhando como vassalos na potência que lhes golpeou. Afinal, o que lhes resta é tentar sobreviver.

O que levou Bolsonaro ao Planalto: um balanço das eleições de 2018

O que levou Bolsonaro ao Planalto: um balanço das eleições de 2018

A eleição mal acabou e Bolsonaro já começou o que anuncia ser um governo desastroso para o país. De toda forma, acho que a compreensão dessa eleição é fundamental para pensar no caminho adiante.

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Arrisco aqui um balanço das eleições de 2018, não sem antes fazer duas ressalvas. Estive envolvido como voluntário na campanha presidencial do PT em dois momentos: primeiro na formulação do programa, quando coordenei o capítulo das políticas de comunicação. Depois, logo após o primeiro turno, em ações de engajamento de ativistas. Assim, tudo o que falo deve ser lido com lentes que considerem este viés.

A outra ressalva: errei muito nas previsões que fiz este ano. Não que tenha menosprezado o perigo de Bolsonaro – achava que tínhamos que discuti-lo a sério –, mas menosprezei sim sua capacidade de arregimentar tanto apoio popular e de conduzir a campanha sem apoios partidários e tempo de TV. Menosprezei também a rejeição popular a Alckmin e ao PSDB. Vários amigos alertaram sobre o potencial de Bolsonaro (Leonardo Sakamoto, Pedro Abramovay e Pablo Ortellado, para citar só alguns), mas não consegui enxergar por completo o movimento subterrâneo que acontecia.

Apresento minhas percepções como uma contribuição adicional a vários outros balanços já publicados. Faço ele aqui sustentado em nove pontos:

• Resultado geral
• A condenação e a prisão de Lula
• A não aliança entre o PT e Ciro
• O antipetismo
• A perspectiva antissistema e anticorrupção
• A dificuldade em desconstruir o antipetismo
• Os acertos e erros da campanha
• Notícias falsas e o papel do whatsapp
• A resiliência do PT e o lugar da ‘nova política’

• Resultado geral

Uma eleição que elegeu Bolsonaro não pode ser lida senão como um desastre. Considerando uma perspectiva de esquerda, é verdade que o PT sobreviveu bem, fez 45% no segundo turno, elegeu a maior bancada e 4 governadores. Também é verdade que o PSOL elegeu 10 deputados e passou a cláusula de barreira. Tudo isso é importante e deve entrar na conta, mas mesmo assim o balanço é horroroso. Mas diferentemente de alguns colegas que apontam apenas as responsabilidades da esquerda, acho que precisamos incluir os setores conservadores na análise. Não dá para falar dessa eleição sem entender como foram construídos os sentimentos antissistema, anticorrupção e antipetista. Se os erros da esquerda bastassem para explicar os resultados, o primeiro turno não teria terminado com o Alckmin com 5% e a Marina com 1%.  Mais que tudo: não dá para falar desta campanha sem tocar na condenação e na prisão de Lula.

• A condenação e a prisão de Lula

O golpe de 2016 começa logo após as eleições de 2014, mas só se consumou com a condenação de Lula em segunda instância e com sua prisão em 2018. Sem a condenação, Lula era o favorito para ganhar as eleições; sem a prisão, causaria muitos estragos como articulador político. A ação penal que o condenou não para de pé. Moro e os desembargadores do TRF-4 dizem que Lula ganhou um apartamento – em que nunca dormiu, nunca teve a chave, nunca saiu do nome da construtora – em troca de ‘atos indeterminados’ praticados em favor da OAS. Um escândalo. A imprensa brasileira, via de regra, validou o processo, porque sabia que era preciso trabalhar com decisões heterodoxas como essa para impedir que Lula voltasse à Presidência da República. Ainda assim, o PT manteve sua candidatura, já que o TSE tem jurisprudência que permitiria a Lula fazer campanha e ter seu nome na urna mesmo sub judice – nesta eleição, houve cerca de 1.400 candidatos nessa situação. No meio dessa disputa, o Comitê de Direitos Humanos da ONU tomou decisão liminar que obrigava o Estado brasileiro a manter os direitos políticos de Lula – e, portanto, sua candidatura. Mesmo neste quadro, o Tribunal Superior Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal fizeram enorme ginástica para deixar Lula de fora. Tacitamente, as cortes apontaram que não era possível comprometer o arranjo político promovido pelo golpe.

• A não aliança entre o PT e Ciro

Diante da impossibilidade de manter a candidatura de Lula e tendo em conta o resultado de vitória de Bolsonaro, a conclusão mais fácil é de que a frente ampla era desejável e poderia ter gerado um resultado diferente. Minha dúvida sincera é se ela era possível ou se era mera quimera. A meu ver, nenhum dos lados topou abrir mão do mínimo para a aliança se viabilizar. O PT não queria abrir mão da cabeça de chapa porque tinha o líder disparado nas pesquisas (Lula), calculava que sua sobrevivência política estava ligada à candidatura presidencial e precisava manter a candidatura de Lula para fortalecer a denúncia de prisão política. Ciro, por sua vez, desde 2017 falava claramente em se afastar do PT e não topava ser vice nem de Lula nem de qualquer outro candidato do PT. A manobra do PT que gerou a neutralidade do PSB foi uma reação às tentativas de Ciro de aglutinar PCdoB e PSB com seu PDT. Os dois movimentos não me parecem obscenos – fazem parte do jogo da política –, mas mostram que nenhuma das partes queria mesmo compor com a outra.

Se a aliança, ainda assim, tivesse saído, não é fácil prever o que teria acontecido. A falta de protagonismo do PT poderia ter lhe custado uma bancada muito menor no Congresso e o enfraquecimento de sua referência junto à sociedade. Ciro, por sua vez, mesmo que fosse cabeça de chapa, poderia ter o antipetismo contra si. Ele concorreu sem a etiqueta de petista e teve 12% dos votos, então é difícil alegar força eleitoral de um candidato que teve menos da metade dos votos de Haddad, que pela primeira vez disputava uma eleição nacional. Isso mostra que em termos de peso eleitoral, Ciro tinha menos votos a entregar do que o PT.

De toda forma, acho que é um erro tentarmos explicar essa eleição a partir desta variável da aliança PDT-PT, como se uma estratégia diferente fosse necessariamente levar a um resultado diferente. Pode ser que sim, mas a análise precisa levar em conta o fenômeno do crescimento da direita nos últimos anos no Brasil e no mundo, a lava-jato e sua seletividade, o golpe, a perseguição a Lula e a narrativa midiática que se coloca em posição adversária não apenas ao PT, mas à própria política. Ou seja, é preciso lembrar que tinha muito jogo além daquele jogado pela esquerda e centro-esquerda.

• O ‘antipetismo’

Acho que há dois problemas ao se falar de antipetismo. Um é adotar a generalização sem compreender as diferentes origens da rejeição ao PT nessas eleições. O outro é negar a ideia de que haja um antipetismo e dizer que ele é só um disfarce para a luta de classes e a defesa de uma agenda regressiva. Os principais argumentos de rejeição ao PT observados nas redes eram: 1) o PT quebrou o Brasil e nos trouxe a esse estágio da crise econômica; 2) os governos do PT desorganizaram a sociedade brasileira e nos levaram a essa crise política e social (sensação de insegurança, violência e ‘crise moral’) em que estamos; 3) o PT roubou muito e é o partido mais corrupto do Brasil. Além disso, estava presente a perspectiva dos que sempre rechaçaram o PT por divergência ideológica. Assim, o antipetismo é uma generalização que carrega motivações distintas.

Havia ainda um sentimento de mudança, que rechaçava o PT não por um ‘antipetismo orgânico’, mas por uma percepção de que era preciso buscar uma opção ‘nova’, apostar em um caminho diferente. Em diálogo com esses aspectos, o detalhamento da motivação de voto em Bolsonaro nas últimas pesquisas mostrava três grupos relativamente iguais em tamanho: aqueles organicamente de ultradireita, tanto em questões políticas e sociais como econômicas; aqueles que não tinham Bolsonaro como primeira opção, mas topavam ir com ele por serem contra o PT e aqueles que nem são tão antipetistas, mas viam em Bolsonaro uma possibilidade de mudança.

• A perspectiva antissistema e a anticorrupção

A todos os aspectos do antipetismo listados acima somou-se o questionamento a todo o sistema político, que fez com que partidos e candidatos tradicionais tenham perdido muito espaço. Esse questionamento é diariamente alimentado pela mídia tradicional pela cobertura extensa e sensacionalista sobre casos de corrupção, de menor e maior monta, que acaba por eclipsar a complexidade do funcionamento da gestão pública. Nessa cobertura, os veículos se afirmam como paladinos da moralidade, vigilantes da atuação pessoalmente desonesta dos políticos. No entanto, pouco contribuem para a compreensão do funcionamento do Estado e do caráter estrutural da corrupção dadas as regras do jogo da política brasileira.

É evidente que a corrupção é um problema grave, mas a forma como ela é tratada é que corrói a confiança no sistema político e na democracia. Apenas para tomar alguns exemplos: a propina da Odebrecht, a empresa mais implicada na lava-jato, é estimada em R$ 10,5 bilhões em nove anos, ou cerca de R$ 1,17 bi por ano. Uma enormidade de dinheiro, mas cerca de 1% do orçamento anual da Saúde ou da Educação, ou 0,1% do orçamento anual do Executivo federal. Também não se compara com benefícios que o Estado brasileiro concede para os grandes grupos empresariais. Em 2017, em uma única operação, uma comissão do Ministério da Fazenda isentou o Itaú de pagar R$ 25 bilhões em impostos – mais de duas vezes toda a propina da Odebrecht. O programa de renegociação de dívidas (REFIS) de 2017 esperava arrecadar R$ 13 bi, mas negociações no Congresso diminuíram essa expectativa para R$ 0,5 bi. Ou seja, só o Congresso liberou “uma Odebrecht na lava-jato” para os sonegadores.

Ou seja, a corrupção é um problema grave, mas os prejuízos financeiros diretos que ela traz não a transformam no problema mais grave do Brasil. É evidente que o debate é mais complexo – como já tratei aqui – mas é difícil dizer que os efeitos para população são piores do que uma política de juros pró-rentistas ou um teto de gastos públicos que retira bilhões por ano da educação e da saúde, por exemplo.

Ao simplificar o debate, a mídia tradicional traz a ideia de que tudo poderia ser muito diferente, como se a corrupção fosse apenas um desvio de caráter dos políticos vistos individualmente. Essa perspectiva traz a impressão de que todos os interesses escusos presentes no jogo político poderiam ser eliminados de uma hora para outra, numa visão idealizada da política. Esse questionamento, quando carrega a expectativa de uma mudança súbita e repentina, traz graves riscos para a democracia, pois estimula, direta ou indiretamente, o desprezo pelas instituições políticas.

• A dificuldade em desconstruir o antipetismo

Em cenário totalmente desfavorável, a campanha de Haddad não conseguiu produzir um discurso que rebatesse os três elementos principais que o enfraqueciam: a crise econômica, a crise política e social e os casos de corrupção da lava-jato. Os três elementos eram fatos fortes, palpáveis e sentidos pela população. Portanto não havia como argumentar contra os fatos, mas sim disputar sua interpretação, o que é difícil em um contexto de muitos anos de ataques da mídia, de seletividade do judiciário e do Ministério Público e da exploração política desses fatos pelo centro e pela direita.

Em uma eleição, fica muito difícil mostrar que a crise econômica não foi fruto apenas dos erros do governo Dilma (como as desonerações), mas se alimentou e foi alimentada fortemente pela crise política e por um cenário internacional desfavorável. Haddad tentou fazer isso nos debates, mas é um argumento complicado para sustentar porque não há contrafactual possível. Haddad também tentou mostrar que a crise política foi alimentada por uma movimentação da oposição que não aceitou o resultado eleitoral de 2014 e que promoveu o golpe de 2016. Entretanto, isso exigia que a população interpretasse o PT não só como um ator político que cometeu erros, mas também como vítima de uma oposição que desrespeitou a soberania do voto popular.

O PT também não conseguiu produzir um discurso que desse à corrupção o tamanho que ela tem – nem maior nem menor, como citei no ponto acima. Muito menos tinha um discurso convincente para lidar com o tema da segurança pública, em um cenário de crescimento dos homicídios e de forte sensação de insegurança da população. Dizer que a responsabilidade é dos estados ou que temos de investir em políticas sociais não convence ninguém. Apresentar medidas técnicas de reorganização de responsabilidades federativas também não conseguiu dialogar com o medo e o senso de urgência dos eleitores. Ou seja, ao fim, a campanha de Haddad estava em desvantagem em todos os debates importantes das eleições.

Foram inúmeras as pessoas que sugeriram que o partido deveria fazer uma autocrítica sobre o envolvimento de integrantes do partido com a corrupção e sobre os erros do governo Dilma. Haddad reconheceu vários erros e defendeu punição para todos os envolvidos com corrupção, mas os que cobravam a autocrítica defendiam um discurso mais solene, que implicaria no reconhecimento de que o partido era institucionalmente responsável pelos casos descobertos pela lava-jato. Fazer a autocrítica dessa forma significaria legitimar a narrativa seletiva que atribuía ao partido um papel significativamente diferente dos outros nos escândalos apurados na lava-jato, o que não corresponde à realidade. Nesse sentido, é difícil entender como Jair Bolsonaro, que construiu sua história política no Partido Progressista (partido que mais implicados tinha na lava-jato e que apareceu em todos os escândalos de corrupção), pôde aparecer como mais honesto que Haddad. De um jeito ou de outro, espremido entre a narrativa seletiva e o risco de cavar a própria cova, o PT não encontrou uma forma de diminuir o amargor causado pela lava-jato na boca dos eleitores.

• Os acertos e erros da campanha

Os elementos tratados no ponto anterior compõem o cenário que já estava dado no início da campanha eleitoral, ou no momento em que Haddad assumiu a candidatura petista, em 11 de setembro. Tudo que se poderia produzir a partir daí tinha esse pano de fundo, já complicadíssimo. Durante a campanha, havia muitos esforços paralelos a serem feitos: apresentar o candidato à população, mostrar que era o candidato de Lula, gerar confiança pessoal nele, impedir o crescimento da rejeição além da já ‘precificada’, e tentar lidar com todos aqueles elementos listados acima que compõem o antipetismo. Além disso, a campanha tinha também que tentar rebater a enxurrada de mentiras e notícias falsas. Tarefa inglória.

A campanha conseguiu apontar Haddad como o candidato do Lula e ativar a memória positiva de parte da população. Todo o primeiro turno foi gasto praticamente nesse esforço. A crítica a Bolsonaro demorou demais a aparecer. Quase ocorreu na eleição federal o que aconteceu na eleição municipal, quando Doria bateu Haddad no primeiro turno sem ter sido atacado pela campanha petista. Na virada para o segundo turno, a campanha conseguiu se reposicionar e trazer elementos fortes para o tabuleiro: mostrar como Bolsonaro defendia as mesmas bases econômicas e antipopulares do rejeitado Michel Temer, como ele defendia a violência contra opositores e minorias, e relembrar os avanços do governo petista de Lula. Conseguiu também apresentar o candidato e, ao fim, conquistar a confiança de parte significativa do eleitorado. Mas não conseguiu mostrar que Bolsonaro passou grande parte da sua carreira no partido com mais envolvidos na lavajato (PP). E, principalmente, foi tarefa muito difícil rebater as notícias falsas.

Além disso, a campanha não conseguiu produzir fatos novos na virada para o segundo turno. Seria preciso uma ampliação significativa, a partir de uma negociação política de alto nível, para gerar algum fato político novo. Sem isso, o único fato político relevante até a véspera da eleição foi a matéria da Folha de S.Paulo que mostrou a existência de financiamento empresarial para difusão em massa de mensagens de whatsapp, configurando caixa 2.

Essa ausência de fatos políticos relevantes por parte da campanha atrasou o engajamento espontâneo dos apoiadores de Haddad, que só ganhou tração na última semana. No dia anterior à eleição, as declarações de Joaquim Barbosa e Rodrigo Janot foram sinalizações importantes, mas não houve tempo de valorizá-las politicamente.

• Notícias falsas e o papel do Whatsapp

Um dos grandes personagens dessa campanha foi o whatsapp. Diferentemente das eleições dos EUA, em que o protagonismo foi do Facebook, aqui o debate e a distribuição massiva de conteúdo (inclusive mentiras) aconteceram principalmente no aplicativo de mensagens. A ocorrência de fake news nas eleições foi especialmente intensa a partir dos sete dias anteriores ao primeiro turno, que terminou com Bolsonaro à frente com 46% dos votos válidos. A difusão de mensagens em massa esteve voltada fundamentalmente a criar medo em um eleitorado conservador a partir de questões morais, com a divulgação de mentiras sobre a vida pessoal e a história política de Fernando Haddad e Manuela D´Ávila. As notícias falsas eram sobre questões pouco importantes para o grande debate político, mas de grande relevância para parte significativa do eleitorado. Um dos exemplos mais emblemáticos foi o suposto ‘kit gay’.

A rede de whatsapp de Bolsonaro foi construída ao longo de pelo menos três anos, com uma estratégia profissional de criação de grupos políticos e de interesse geral a partir de administradores que atuavam de forma discreta, mas intencionalmente partidária. Fazendo um paralelo com as formas tradicionais de militância, eles organizaram um competente trabalho de base durante esses anos. Ao mesmo tempo, durante as eleições, as redes de Bolsonaro tiveram alto engajamento orgânico, que se combinou com apoio pago para difusão de mensagens em massa, especialmente às vésperas do primeiro turno, como foi revelado por reportagens do jornal Folha de S. Paulo. Esses envios eram ilegais, já que baseados em financiamento não contabilizado (caixa 2) e em bases de dados compradas.

De sua parte, o PT e os outros partidos não tinham uma estratégia nem de longe similar. A partir da última semana antes do primeiro turno, montou-se uma estratégia de campanha baseada na distribuição de conteúdos top-down para milhares de grupos, que se somou a estratégias descentralizadas de iniciativa de vários coletivos em todo o país. Mas mesmo ao final da campanha não era possível comparar o peso das duas redes.

É difícil mensurar o peso que as notícias falsas tiveram na decisão de voto, mas o fato de grande parte delas estar sustentada em valores morais permite presumir algum nível de influência no voto especialmente de eleitores evangélicos. Para se ter uma ideia, em pesquisa Datafolha publicada no dia 25 de outubro, a diferença de intenções de voto entre Bolsonaro e Haddad era de 12 pontos. Dependendo da religião, a diferença se alterava muito. Entre católicos, a diferença era de 1 ponto, enquanto entre evangélicos a diferença era de 33 pontos.

Ao fim, essas eleições deixaram claro que o whatsapp não pode ser considerada apenas uma ferramenta de comunicação interpessoal. Pela possibilidade de redistribuição exponencial das mensagens e da formação de grupos e listas de distribuição, é uma ferramenta de comunicação de massa. O grande problema do debate político pelo whatsapp é que ela é uma ferramenta de comunicação de massa protegida por total privacidade e anonimato, sem qualquer transparência (críticas similares têm sido feitas por Pablo Ortellado e Leonardo Sakamoto). Isso cria um espaço público ao mesmo tempo volumoso e obscuro, propício para a disseminação de notícias falsas e para a sustentação de um debate público de baixo nível.

A impossibilidade de identificar os responsáveis pelas postagens originais no whatsapp combinado com o volume de mensagens e a velocidade de disseminação criou um cenário de desinformação em que não havia como discernir fatos, interpretações e mentiras. O ambiente durante as eleições foi de ‘apocalipse informacional’. Este tema parece de grande relevância não apenas para o período eleitoral, mas para todo o debate político realizado nas redes, e exige reflexão sob pelo menos dois aspectos: de um lado, o impacto, para a democracia, da comunicação de massa combinada com anonimato e privacidade. De outro, a ausência de formação educacional da população para leitura crítica das informações.

• A resiliência do PT e o lugar da nova política

Considerando todos os elementos desfavoráveis, os 31 milhões de votos obtidos por Haddad no primeiro turno (29% dos votos válidos) e as 56 cadeiras obtidas na Câmara pelo PT são um resultado excepcional, que demonstram a resiliência do partido. Comparado com a queda da bancada do PMDB e do PSDB e com a votação de Alckmin e Marina, o PT mostra que continua contando com a fidelidade de parte do eleitorado e segue sendo o maior partido da esquerda brasileira. Os 16 milhões de votos a mais obtidos no segundo turno, que fizeram Haddad chegar a 45% dos votos válidos, vieram principalmente de apoiadores de Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Marina Silva e Guilherme Boulos, inclusive pessoas que não apoiariam o PT em situações outras, mas o fizeram ante a candidatura de Jair Bolsonaro.

Ao mesmo tempo, houve mais renovação na Câmara dos Deputados do que em todas as eleições desde 1998. Dos 513 deputados que vão tomar posse em 2019, 49% foram reeleitos, número que variou de 54% a 58% entre 1998 e 2014. A maior parte da renovação foi puxada pela direita, especialmente pelo PSL. Na esquerda e centro-esquerda, o PT e o PDT trouxeram nomes novos no Nordeste, enquanto o PSOL trouxe nomes novos no Sudeste e Sul. Mulheres identificadas como parte da renovação política foram bem votadas, como Sâmia Bomfim (PSOL-SP), Tábata Amaral (PDT-SP), Marília Arraes (PT-PE) e Talíria Petrone (PSOL-RJ).

A ideia de renovação também fez com que nomes antes desconhecidos fossem eleitos governadores de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Distrito Federal, Amazonas, Rondônia e Roraima. Vários políticos tradicionais não foram eleitos, como Romero Jucá, Eunício Oliveira, Eduardo Suplicy, César Maia, Lindbergh Farias, Edison Lobão, Marconi Perillo, Cristovam Buarque, Magno Malta, Beto Richa e Roberto Requião. A onda de renovação parece ter sido mais arrasadora para a centro-direita que para a esquerda, mas significou, na prática, um congresso mais conservador.

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Ao fim, a eleição presidencial se transformou num plebiscito entre dois plebiscitos: rejeição ao PT x rejeição a Bolsonaro. Parte da população preferia a volta do PT, com seus acertos e seus erros, a dar poder a um ex-militar autoritário e tosco. Outra parte preferia tirar o PT, mesmo que em uma guinada radical à direita, que acabou prevalecendo.

O fato de as eleições terem terminado com um enorme gás da militância de esquerda e com a tendência de diminuição da diferença entre Haddad e Bolsonaro faz com que a derrota eleitoral não necessariamente venha a se transformar em derrota política. Por mais que os prenúncios sobre o governo Bolsonaro sejam tenebrosos, sua capacidade de impulsionar a agenda regressiva em relação a direitos civis e direitos sociais vai depender da capacidade de reação e das estratégias de organização da oposição, que vai se reunir em torno de diferentes polos.

No entanto, é preciso lembrar todos os dias que o maior líder político brasileiro das últimas décadas está preso arbitrariamente. Enquanto Lula não estiver livre, a democracia brasileira estará maculada. No dia em que eu encerrava este texto, o juiz Sérgio Moro, algoz de Lula, aceitava o convite para ser Ministro da Justiça de Bolsonaro, desvelando totalmente o caráter político da operação lava-jato. Dá vontade de seguir o textão, mas isso já é assunto da próxima temporada dessa série.

Opinião: Cai de vez a máscara de Moro

Opinião: Cai de vez a máscara de Moro

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Artigo de opinião de Ariel Cahen

Sérgio Moro acaba de aceitar o convite do presidente eleito Bolsonaro. O Ministério da Justiça lhe dará oportunidade de retomar a relevância que perdeu ao cumprir a missão que lhe foi atribuída. Com Lula preso e as eleições em curso, o proeminente magistrado perdeu o protagonismo do enredo que ele próprio ajudou a criar. E que, em seguida, o descartou.

Integrar a máquina dará a ele acesso pleno ao mecanismo – e legitimidade para se enveredar por novos capítulos da caçada que o alçou, outrora, ao posto de herói nacional tomado recentemente por aquele que hoje passa a ser seu patrão.

“Sergio Moro não descarta participar do governo Bolsonaro”, destacava reportagem publicada no início da semana pelo O Globo – que já antecipava a propensa decisão do juiz. Despretensioso, o conteúdo por trás da notícia é na verdade barulhento. Escandaloso.

Ao mesmo tempo guardião e algoz de preceitos constitucionais básicos, Moro se dispõe agora ao papel de escudo da sociedade. De resposta a um medo legítimo de quebra do Estado Democrático de Direito que ele mesmo ajudou a trincar.

Com referências constantes e não contestadas a “interlocutores” do juiz, a matéria assinada pela jornalista Cleide Carvalho jogou luz à verdade velada que todos conheciam. Para Moro, “a volta do PT ao poder seria inaceitável”.

Em 1º de outubro, diante de amplo crescimento do candidato petista Fernando Haddad nas pesquisas de intenção de votos, o juiz de primeira instância deixou as sombras para alardear ao noticiário, uma vez mais, delações feitas pelo ex-ministro Antonio Palocci, do PT. Declarações fortes e que, como de costume, carecem de robustez probatória – foram recusadas, por essa razão, pelo Ministério Público Federal no início do ano. O fez em tempo oportuno para interferir diretamente no processo eleitoral, extrapolando uma vez mais os limites de sua atividade e ajudando a consolidar a eleição de seu novo chefe.

Suas convicções, que sem ineditismo algum voltam a relativizar a corrupção e a própria justiça, também tiveram espaço no bate-papo vazado à jornalista por seus interlocutores não contestados. “Mesmo diante da notícia de que grandes empresas poderiam ter financiado disparos em massa de WhatsApp para o candidato do PSL”, diz trecho da reportagem, “manteve [Moro] a convicção de que o caso poderia ser um erro da campanha, mas não corrupção, já que Bolsonaro poderia não saber do apoio dos empresários feito por fora da campanha oficial”.

O crime eleitoral, portanto, dos opositores do PT, que segundo denúncia representam montantes não declarados que superam R$ 12 milhões, se reduzem a “erros de campanha” nas convicções do juiz símbolo da Operação Lava Jato.

Convicções, é fundamental destacar, que foram suficientes, ao arrepio da lei, para a acusação dos integrantes do Ministério Público que puseram Lula, a maior liderança petista e popular do país, atrás das grades.

Bolsonaro, tudo indica, considerado o juízo controverso de Moro, governará com uma certeza: estará amparado por seu Ministro da Justiça com a garantia do mesmo direito constitucional da presunção de inocência negado ao ex-presidente preso.

Lula sabia. Bolsonaro “poderia não saber”.

Pequenos detalhes carregam em si potencial necessário para entregar grandes segredos. Verdades discretas, da mesma forma, de tempos em tempos revelam mentiras que sustentam fachadas poderosas, que se pressupõem inatingíveis. A máscara de Moro, nunca muito firme, finalmente caiu.

Ivana Bentes: A educação vai para o espaço

Ivana Bentes: A educação vai para o espaço

Foto: Leandro Taques

Depois de ter proposto educação a distância para crianças, a proposta de Bolsonaro é que o ministério da educação perca a gestão do ensino superior para o Ministério da Ciência e Tecnologia. Ou seja, todo o ensino universitário e o campo das ciências humanas, artes, letras, etc. gerido por um Tenente-Coronel ASTRONAUTA, Marcos Pontes, engenheiro formado no ITA. Na prática é o início do fim do MEC.

Na área educacional, o Ministério da Educação deve perder a responsabilidade pelo ensino superior, que seria transferido para o Ministério de Ciência e Tecnologia.

O primeiro e único brasileiro a ter voado para o espaço pode desmontar e mandar para o espaço um dos maiores e mais estratégicos Ministérios do Brasil: o MEC.

A educação pública no Brasil e o campo cultural são os dois maiores campos visados pelo ódio e desmonte (vide Temer) porque disputam as ideias, a visão de mundo, quebram dogmas e produzem resistência de forma imediata e a longo prazo. Mas são campos resilientes, capazes de fazer muito com pouco.

Os campi universitários estão fincados sobre o que temos de mais sólido para resistir: pensamento, juventude, autonomia, liberdade e coragem. Serão erros e decisões exdrúxulas uma após a outra. Veremos como um governo se manterá assim!

Ivana Bentes: Um meme Presidente

Ivana Bentes: Um meme Presidente

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Vendo as primeiras imagens do pronunciamento de Jair Bolsonaro depois da vitória nas eleições nos damos conta que o Bozo será o nosso primeiro Meme Presidente! A literalidade do seu discurso contamina também as imagens, literais. O clichê no seu sentido puro.

Bolsonaro de olhos fechados e Magno Malta, o pastor ruralista, parlamentar derrotado nas urnas, de mãos dadas em uma roda de reza, com Alexandre Frota, educador-pornô, ao fundo, evocando Deus, a pátria e a moral.

Misto de reza e exorcismo, já que “os tentáculos da esquerda jamais seriam arrancados sem as mãos de Deus”, oraram fervorosamente e agradeceram! O Senhor ganhou as eleições para esses “homens de bem” e o Estado brasileiro jamais será laico com tão poderoso cabo eleitoral!

Antes da reza, a fala do Bozo veio ladeada pela presença de Hélio Negão, o militar Deputado Federal pelo PSL, que virou Hélio Bolsonaro, um negro com a camisa amarela onde se lê ‘esta é a cor do Brasil” e que decorou o set das lives de Bolsonaro, sempre ao seu lado. Um personagem que sempre entra mudo e sai calado nos pronunciamentos do Bozo. E que tem uma clara função na memética. É o seu “personal negro” que o blindaria da acusação de racismo. Está lá como um signo, vivo e estático.

Na lógica do clichê, basta Bolsonaro colocar um negro ao seu lado, ou uma mulher ou uma indígena e suas declarações ofensivas seriam “neutralizadas”. Simples e simplório. A comunicação por “clichês” e literalidade. Ninguém está sendo “manipulado” ali, trata-se de uma negociação em que todos estão felizes em ocupar esses lugares.

É isso. A estética na nova era passa por Black Mirror, Mad Max, Terra em Transe e Zorra Total. Uma memética que remixa a cultura de massas e os tipos caricaturais. O capitão Bolsonaro será um Presidente que terá que concorrer com Inês Brasil, Carreta Furacão, Gretchen, Nazaré e outros clássicos da memética brazuca. É uma caricatura, eis sua eficácia!

Jair Bolsonaro é o triunfo dos memes na política! O Brasil produziu uma incrível fábrica de fake news e memes nestas eleições. E ao final, elegeram um meme!

Os memes nos próximos anos virão prontos diretamente da Esplanada, teremos uma memética de Estado, vinda do planalto central do país!

Também tivemos uma memética da resistência, da alegria e do humor na política, extraordinária! Mas é perturbador ter uma figura tão “literal” e francamente tosca representando o Brasil e os brasileiros, um país e povo tão lindamente complexos!. Fomos reduzidos a uma cartilha e conteúdos daquela matéria primária que era OSPB, regredimos para as aulas simplórias e cafonas (geralmente dadas pelos professores mais opacos) de Moral e Cívica.

Mas a memética tem que ser levada a sério! Vamos precisar de escolas de memes para a resistência e para as novas lutas. Aqui um pouco sobre os memes, e sua força na comunicação e na política. #Eleições2018#JairBolsonaro

Ganhamos!

Ganhamos!

Imagem: Mídia NINJA

Por Alexandre Lyrio

Jair Bolsonaro já perdeu essa eleição! Quando alguém vai para uma praça e serve uma xícara de café e um pedaço de bolo em troca de um bom papo sobre política, um papo sincero e delicado, qualquer forma de autoritarismo cai de joelhos diante da democracia.

Independentemente do resultado das eleições, vencemos! Essa campanha vai deixar um legado de união dos que não pensam no próprio umbigo, dos que querem um estado para todos. Perdeu a admiração por alguns parentes? Perceba quantas pessoas passou a admirar! Deixou para trás amizades antigas? Veja quantos novos amigos surgiram!

Olhamos para frente!

Famílias brasileiras!

Lembrem-se que tradição rima com inclusão. Ou passou da hora de ser enterrada!

Deve ser horrível não ter esperança. Deve ser angustiante acreditar que um país só pode mudar na base da brutalidade. E que a violência só acaba com o uso de munição pesada.

Deve ser triste querer ter um arma.

Deve ser perturbadora a necessidade de criminalizar o outro para garantir o seu. Deve ser desesperador viver com medo!

Do lado de cá, não temos medo de nada!

Nem do grito, nem do canhão!

Nem do milico, nem do patrão!

Sonhamos!

Queremos melhorar!

Nossas mães aceitam filhos gays!

Nossos homens querem ser menos machistas!

Nossas mulheres querem igualdade!

Nossos brancos não toleram o racismo!

Nossos negros querem liberdade!

Seguimos em frente e seguramos o rojão!

Bolsonaro já perdeu essa eleição!

Ganhamos!

Ganhamos luta pela frente!

Gostamos de lutar!

Em paz!

26/10/18

Daniel Zen: O Salvador da Pátria… só que não

Daniel Zen: O Salvador da Pátria… só que não

Arte por James Zortéa

O eleitor de Jair Bolsonaro é como se fosse filho do eleitor de Fernando Collor, de 1989; e neto do eleitor de Jânio Quadros, de 1960. Como seus pais e avós, estão sempre ávidos por um Salvador da Pátria, alguém que prometa que vá “varrer com a vassourinha”, “caçar os marajás”, ou “mudar tudo que esta aí.”

Essas figuras, os Salvadores da Pátria, aparecem de tempos em tempos e são efeitos colaterais da decepção e da desesperança das pessoas com a política e com os políticos. Alegam sempre honestidade, patriotismo e respeito a Deus e a família, quando, na realidade, são falsos moralistas: vendem uma imagem de arautos da moralidade, vestais da honestidade, chicotes do povo e palmatória do mundo, mas, não resistem a 5 minutos de investigação.

Vejamos o caso do próprio Bolsonaro: foi filiado ao Progressistas (antigo PP) por 11 anos, o partido que mais tem políticos envolvidos e indiciados na Operação Lava-Jato (31 contra 6 do PT) e nunca se insurgiu contra isso ou contra os casos de corrupção de Paulo Maluf, maior liderança do seu antigo partido, por exemplo.

Foi citado na lista de corrupção de Furnas, como um dos recebedores de propina do famoso Mensalão Tucano, de Minas Gerais; recebeu, por décadas, auxílio-moradia, mesmo tendo casa própria (e disse que usava esse dinheiro pra “comer gente.” Isso mesmo: usava o dinheiro do auxílio-moradia para alugar imóvel que ele utilizava pra transar com mulheres); ocultou bens em sua declaração de patrimônio à Receita Federal; pagava funcionária fantasma com sua verba de gabinete da Câmara Federal; recebeu doação ilícita em sua última campanha para deputado federal (R$ 200 mil da JBS); e, por fim, foi pego com a boca na botija em um grande e pernicioso esquema de caixa 2 eleitoral, fazendo manipulação da opinião pública por intermédio da distribuição, robotizada e em massa, de fake news (notícias falsas) a grupos de WhatsApp, operação paga, a peso de ouro, com dinheiro de doações ilegais de campanha.

A solução “Salvador da Pátria” (ou Sassá Mutema, pra lembrar da novela homônima, que o jovem eleitor não assistiu) nunca deu certo. Mas, é como se, a cada quase exatos 30 anos, as pessoas esquecessem o que já aconteceu. Lembremos: quando Fernando Collor foi eleito, em 1989, pela maioria esmagadora dos votos e depois começou a fazer suas trapalhadas, tais como o confisco da poupança, não se achava um eleitor que admitisse ter votado nele. Com Jânio Quadros foi parecido.

Alguém tem dúvida que também será parecido com Bolsonaro, caso ele ganhe as eleições?

No caso de Bolsonaro, ainda há uma agravante em face de seus predecessores: nem Jânio e nem Collor tinham tantos arroubos de autoritarismo, não flertavam tanto com o totalitarismo e nem vomitavam tantas barbaridades preconceituosas. Bolsonaro é muito, mas muito mais venal, perigoso e pior do que eles.

Ademais, não podemos atribuir a responsabilidade de uma eventual vitória de Bolsonaro na conta de Lula ou do PT, por não ter cedido a formar uma aliança/chapa com Ciro Gomes (PDT). Essa responsabilidade recai muito mais sobre os ombros dos integrantes do “Condomínio do Golpe” –  dos quais fazem parte Michel Temer, sua curriola e sua trairagem; Eduardo Cunha, seus 300 ladrões e sua sabotagem; o procurador da República, Deltan Dellagnol; o delegado da Polícia Federal, Maurício  Moscardi; o juiz federal, Sérgio Moro; os desembargadores federais Gebran Neto, Paulsen, Laus, e Thompson Flores; a Ministra do STJ, Laurita Vaz; além de setores do grande empresariado, representados pela FIESP; e da grande mídia familiar, tradicional, conservadora e sonegadora de impostos do país – do que nas costas do PT.

Isso porque Bolsonaro é um efeito colateral do processo de defenestração da política e dos políticos, que fez derreter até o mais “imaculado”, “impoluto”, preferido e poupado pelos condôminos do golpe, o candidato Geraldo Alckmin (PSDB).  Da mesma forma em que o ódio ao PT é um efeito da judicialização da política e da politização da justiça, com endereço certo (contra o PT). Decorre muito mais disso do que da questionável “roubalheira” em si (porque roubalheira sempre teve, e muito maior em partidos como o PP, por exemplo, e nem por isso o PP é odiado).

A essas alturas do campeonato, não escrevo essas mal traçadas linhas para tentar convencer ou virar o voto de ninguém.

Como na passagem da história, “alea jacta est” (a sorte está lançada). Escrevo apenas para demarcar minha posição em mais essa travessia do Rubicon. Para poder ter orgulho de, no futuro, contar para os meus filhos de que lado da história eu estive.

Sonia Guajajara: Democracia pela mãe terra

Sonia Guajajara: Democracia pela mãe terra

Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real

O verde não ocupa área de destaque na bandeira brasileira à toa: ele é a nossa maior riqueza, mais do que o ouro. Quem reconheceu isso foi o próprio homem branco, que a desenhou há mais de um século. Mas parece que ele anda meio esquecido disso ultimamente, pois há anos a natureza vem sendo vítima de ataques cerrados e o horizonte próximo se desenha ainda mais sombrio. Temos um Congresso renovado, mais aparentemente também hostil à ideia de preservação ambiental; e um candidato à Presidência que ameaça não demarcar mais Terras Indígenas: “Se eu assumir, índio não terá mais um centímetro de terra”, disse.

No entanto, ele comete um erro fundamental: não se dá a alguém o que já é seu. Temos direito às nossas terras porque chegamos nelas primeiro, pois brotamos delas – e elas nos moldaram. A Constituição de 1988 só veio confirmar por escrito o que para nós era uma lei natural. Somos democráticos também por natureza e, por isso, nos sentamos civilizadamente à mesa para negociar. Tivemos nosso próprio constituinte, o deputado federal Mário Juruna. Ajudamos a redigir o artigo 231, que diz que “são reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens”.

Ao mesmo tempo, acatamos o artigo 20, que estabelece que nossas terras são bens inalienáveis da União: nós não podemos vendê-las ou doá-las. Ou seja, estabelecemos um pacto de confiança com a sociedade brasileira. E temos feito a nossa parte, pois nossos territórios são os mais preservados do país. Mas a União tem deixado muito a desejar em se tratando de cumprir a parte que lhe cabe. Nos afastamos durante décadas da política tradicional, pois o artigo 232 nos garante que “os índios, suas comunidades e organizações são partes legítimas para ingressar em juízo em defesa de direitos e interesses, intervindo o Ministério Público em todos os atos do processo”.

Porém a intensificação dos ataques aos nossos direitos nos últimos quatro anos fizeram necessária a nossa volta ao Congresso: elegemos na última eleição Joênia Wapichana, deputada federal por Roraima. Ela será nossa representante, mas a ideia é que não seja porta-voz somente de nossas reivindicações, mas um novo canal de comunicação entre nós e o restante da sociedade brasileira. Temos muito a oferecer e estamos dispostos a colaborar no desenvolvimento do país.

Resistimos há 500 anos. Somos poucos para dar conta de cuidar da vida de tanta gente. O próprio candidato está sendo obrigado a dizer que vai voltar atrás de fundir os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, sabe que parte dos votos que está perdendo é porque a sociedade brasileira está rechaçando essa proposta. “Nossos bosques têm mais vida”, diz o nosso Hino Nacional Brasileiro, também escrito há mais de cem anos. É essa biodiversidade cantada por ele que faz de nosso verde tão rico. Isso pode pôr o Brasil em papel de destaque na nova economia, mais sustentável, que se desenha para o mundo.

Caetano Veloso entrevista Roger Waters

Caetano Veloso entrevista Roger Waters

Em um encontro histórico, Caetano Veloso entrevista Roger Waters, em sua nova coluna na Mídia NINJA. O músico está no Brasil há algumas semanas e vem se manifestando durante seus shows pelas principais capitais do país em repúdio ao avanço do neofascismo no mundo.

Se inscreva no canal Mídia NINJA no Youtube e assista na íntegra!

Que estilo de brasileira[o] é vc?

Que estilo de brasileira[o] é vc?

Moda é essencialmente um instrumento político, que pode tornar o mundo melhor. Como sociedade, estamos sempre em transição, construindo caminhos.

Momento maravilhoso do final do desfile do estilista Ronaldo Fraga na SPFW46, que propõe o amor como base pra relações humanas bem construídas [Imagem Renan Gaspar]

Hoje mesmo, um consumidor pra ser considerado antenado/moderno, tem que ter consciência dos valores agregados a um produto e saber apreciar a sua história e o conceito da sua criação. Um criador de moda contemporâneo pra ser “vendável”, tem que desenvolver a sua marca com identidade.

Isso quer dizer que o seu trabalho deve conter sua história, sua cultura, sua relação com o meio ambiente e as cores dos seus sonhos.

Criação politizada da marca LED, do estilista Célio Dias, desfilada na SPFW46 [Imagem Marcelo Soubhia/Fotosite]

E por falar em cores, tem gente por aí achando que a cor vermelha será oficialmente banida do Brasil. Grito que nunca!!!!!! E sabe por quê?

O vermelho é a cor da nossa devoção; é exatamente o significado do nome do Brasil, que vem da brasa, do Pau-brasil. O mundo da moda retrata a evolução de um povo. Somos vermelhos na nossa essência, e verdes e amarelos, e azuis, e pretos, amarelos, rosas e todas as cores e tons que quisermos. Usamos e usaremos vermelho em nossos corpos e criações. Ontem, hoje e sempre.

Nós brasileiros somos gigantes, criativos. Temos a capacidade de reinventar nossa própria sobrevivência, reaprender a subsistir. Mas contra leis que regem nosso País não fomos, não podemos, não queremos, e não seremos.

Somos vermelhos. E multicolores. Criação com pegada sustentável da marca Osklen, desfilada na SPFW46 [Imagem Zé Takahashi/Fotosite]

Já reparou que quando o País se apresenta no exterior, o principal chamariz “marketeiro” é sua cultura popular? Sim, a cadeia criativa é o que nos movimenta economicamente. Nos anúncios vendem também a nossa natureza “exuberante”. E o que seria do Brasil sem o poder da sua natureza? Andam matando nossos ativistas, e andam dizendo que nossos índios não terão mais suas poucas terras, e que nossos negros não valem nada. Os heróis ativistas ambientais são os que nos defendem de nós mesmos, porque uma grande parcela de nós acha que é superior à natureza, e a despreza, e a consome absurdamente, sem se dar conta de que somos totalmente dependentes dela, e que somos todos uma mesma estrutura viva, dividindo o mesmo espaço, finito.

Nossos indígenas são os verdadeiros donos do Brasil. Os negros do Brasil construíram com suas mãos tudo o que existe de melhor na nossa terra. Mulheres devem ser totalmente respeitadas, pessoas indefesas protegidas, doentes assessorados e necessitados acolhidos. Isso sim é legítimo. E também é legítimo o acesso irrestrito a informações verdadeiras, e a liberdade de escolhas. Trocas sociais humanizadas são indispensáveis à vida.

Liberdade de expressão é legítima, mas não existe justiça na intolerância, no sexismo, na xenofobia, na violência física e emocional, na ruptura de direitos humanos, na incitação à homofobia, no racismo.

Vermelho é a cor da nossa pátria. Criação trabalhada com bordados feitos à mão, da marca Patricia Viera, desfilada na SPFW46 [Imagem Zé Takahashi/Fotosite]

Nós todos temos que ter a responsabilidade de conhecer de onde vêm os nossos sentimentos. Vivemos um momento político gravíssimo, e eu te pergunto: com qual mundo você está conectado? Qual é o seu estilo? Quem e o que você defende? O que você quer encontrar/deixar no seu caminho, flores ou sangue?

Na boa, te convido a seguirmos juntos e fortes nessa fascinante busca por nós mesmos, concentrados em nossos próprios pensamentos, conhecedores do passado e voltados pro futuro livre e democrático.

Que o nosso amor grite mais alto nas urnas no próximo dia 28, pois ou avançamos como um todo, ou ninguém existirá verdadeiramente. Somos um.

Uma casa sobre a rocha…

Uma casa sobre a rocha…

Ao que indicam as pesquisas eleitorais recentes, mais ou menos a metade dos evangélicos vota em Bolsonaro. Essa hora nos insta a uma escolha que é ética e estratégica. Está posta a reiteração de uma cultura política autoritária pelos evangélicos ou sua possível subversão.

Bolsonaro se alia com líderes odiados pela maioria dos evangélicos.

Por Vítor Queiroz de Medeiros

O campo evangélico progressista se depara com a maior fratura que a Igreja brasileira já viveu e creio que temos acertado até aqui. Daqui em diante duas estratégias me parecem centrais: uma é o trabalho de base na educação em direitos humanos e a disputa da leitura bíblica junto do nosso povo. Outra é a de um testemunho público que seja confrontador dos crentes conservadores, pedagógico ao crente médio e empoderador do crente progressista. Público e também profético para denunciar a elite eclesiástica e as injustiças sociais e anunciar o juízo de Deus e os horizontes históricos da justiça.

A quebra do pacto democrático com um golpe, a frustração dos que ascendiam socialmente e regrediram com a crise, a indignação contra a corrupção – cuja vulgata se tornou um mantra na mídia – tudo isso parece ter resultado num forte ressentimento anti-democrático, de desconfiança e raiva da política. Um efeito disso é a autorização dos discursos e práticas de ódio – em nossas igrejas inclusive. Os instintos destrutivos até então reprimidos pelos interditos da civilização e pelo avanço da redemocratização, passam a balizar a atitude cotidiana das pessoas. O sentimento de medo pela rua e o assassinato do mestre Moa do Katendê, cometido por militante bolsonaristas, e antes disso os atentados a Marielle e à caravana de Lula, mostram não o que está por vir, mas o que já chegou.

Lição primeira: o fascismo não é eleitoral, é cotidiano. Não passa com as eleições; antes, porém, tem ancoragem social profunda. Eleição é guerra, é marketing, é pouca reflexão. Mas ninguém se torna adepto do, ou indiferente ao discurso do Bolsonaro da noite para o dia. Então a pergunta é: onde estavam os fascistas esse tempo todo? Em nossas igrejas inclusive. Dói admitir. E num país em franca transição religiosa, cada vez mais evangélico, a esquerda brasileira conseguiu a proeza de arrogantemente desprezar a possibilidade de trabalho de base neste segmento. O fato é que a igreja sairá mais conservadora desse processo eleitoral. Como enfrentar isso?

Por primeiro, combater o autoritarismo em nossas igrejas. O fascismo demonstra facilidade em dialogar com disposições subjetivas das massas, com os modos de pensar e agir arraigados na vida cotidiana. Tem lastro num autoritarismo que está socialmente implantado – tal como nos advertiu Paulo Sérgio Pinheiro. É verdade que nossas igrejas são relativamente mais democráticas, onde o leigo pode falar, há livre-exame e discussão das Escrituras e a autoridade pastoral pode ser contestada em algum grau. Mas é verdade também que há uma certa ordem do discurso, lógicas de exclusão, interdição e controle. Todos podem falar, mas nem tudo pode ser dito. A dúvida é quase proibida. Parece que cada um dos irmãos na escola bíblica dominical é um teólogo bem resolvido com os dogmas de sua fé. O saber teológico é semi-repartido com os fiéis, mas a última palavra ainda é monopolizada; ainda se reproduz a divisão católico-romana entre corpo e clero. Superar essa clivagem corresponde à tarefa de defender a Palavra livre, a fala insubordinada, o direito à heresia como momento da construção do conhecimento sobre Deus, porque o Verbo não está nas alturas, está entre os homens. Seu Espírito aconselha o povo de forma conciliar, comunitária, coletiva. Deus habita onde há liberdade de expressão e diálogo. Ele está no concílio, não na cátedra.

De igual modo a pluralidade é um desafio para nós. O movimento de Bolsonaro é puro tabu e Fake News. A defesa da família, da moral e etc precisa ser enfrentada pelo campo progressista nos próximos anos. Precisamos falar de ideologia de gênero e direitos sexuais com o povo de nossas igrejas. Há uma preocupação por parte dos evangélicos progressistas em se aproximar do crente médio evitando as polêmicas. Acontece que agora elas são inevitáveis. Se respeitarmos tabus e cultivarmos a auto-censura, iremos reiterar o princípio fascista que é o do silenciamento complacente ao preconceito – que aliás, afeta muitos LGBTS que são evangélicos, assim como irmãs que optam pelo aborto e outras “minorias” que estão presentes em nossas igrejas. Assumi-las é optar pela porta estreita.

É claro que não vamos almejar um consenso teológico sobre união homoafetiva, por exemplo, até porque ele não é a contrapartida do respeito. Podemos disponibilizar aos irmãos a opção de construção da laicidade e dizer de forma didática que a atitude cristã diante da diversidade religiosa, étnica, sexual e de gênero é de respeito do direito à diferença, sem que isso custe sua opinião teológica particular.

Também é importante dar prumo à disputa interna na igreja a partir da identidade de classe do trabalhador. A teologia da prosperidade, tão nefasta, expressa, convenhamos, uma indignação moral contra a miséria. Mas o faz com o sinal trocado, por vias mágicas e individualistas. Podemos oferecer aos seus adeptos um caminho ético-político para o bem estar coletivo a partir da nossa fé, em que a prosperidade seja integral e seja para todos.

Ora, um país de formação escravocrata-senhorial, sempre teve na sutileza da dominação pessoal e paternal, o esteio de sua vida política. Entre a Casa Grande e a senzala existiu sempre um abismo, a ausência de estratos médios, a incipiência de uma sociedade civil complexa com disputa de opinião associação política. Temos um espaço público diminuto, uma sociedade frágil e um Estado patrimonialista. Por mais que isso tenha mudado um tanto, por aqui toda polarização política e cultural imita esse antagonismo primário entre povo e elite; ganha feições de classe.

O fascismo brasileiro, diferente da experiência italiana e alemã nos anos 30, não tem o menor compromisso com a defesa do direito do trabalhador, não é estatista; é neoliberal e entreguista. É de massas, mas tem um conteúdo de classe mais elitista que nunca. Isso precisa ser esclarecido para organizar a luta: a democracia é o projeto dos de baixo e o crente quer pão.

Neste contexto, a esquerda secular deve ser solidária à desconstrução do fascismo. Repetir o chavão de que “os evangélicos são conservadores” não ajuda, só atrapalha. Essa estigmatização corrobora o discurso dos coronéis da fé que dizem representar todos os evangélicos e também invisibiliza as iniciativas progressistas nesse meio. Em vez disso, cumpre à esquerda dar visibilidade às nossas ações e abrir as portas de suas bases lotadas de crentes para que nós, os únicos que temos a linguagem adequada, façamos a sensibilização certa. Até porque nem tudo é terra arrasada. Se metade apoia Bolsonaro, a outra metade não apóia. A outra metade afirma que Deus defende o trabalhador, o pobre, o órfão, a viúva, o imigrante; que para Deus bandido bom é bandido convertido e ressocializado; que nem tudo que julgamos pecado deve ser objeto de lei e que Deus é Amor. Além do povo disperso pelo país, um contra-ativismo emergiu à esquerda nos últimos anos: Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, Movimento Negro Evangélico, Frente Evangélica pela Legalização do Aborto, atos de “Jesus cura a homofobia” e outros.

As bancadas parlamentares também se renovaram, para o bem e para o mal. O perfil dos candidatos eleitos destoa do político tradicional, a esquerda elegeu candidatos jovens e em São Paulo conseguimos a primeira deputada estadual negra e trans ao mesmo tempo em que um descendente da decadente família imperial brasileira também foi eleito; temos um general eleito aqui para o congresso, mas temos a primeira deputada indígena da história, vinda lá de Roraima. O fascismo e o anti-fascismo crescem juntos. Há uma polarização mútua. Não há poder que não provoque resistência. Eu mesmo nunca vi tanta gente da minha família, irmãos de fé e colegas dos tempos de escola assim mobilizados como estão agora para derrotar o fascismo e preservar o direito. A Esperança é um bem por demais valioso para ser trocado por apenas uma parte da realidade.

Tão grave quanto apoiar este candidato anti-cristão, é a omissão de muitos pastores e líderes que escolhem o conforto morno da indiferença, que nauseia a Deus. Temos que pressioná-los a tomar posição.

Neste momento, a seara é grande e os ceifeiros são poucos. Nos resta sair das redes sociais e ir para o corpo-a-corpo, apresentar aos irmãos as virtudes do candidato democrático e expressar o repúdio, embasado biblicamente, ao adversário da democracia. E mais: tão grave quanto apoiar este candidato anti-cristão, é a omissão de muitos pastores e líderes que escolhem o conforto morno da indiferença, que nauseia a Deus. Temos que pressioná-los a tomar posição. Não se pode coxear entre dois pensamentos, entre dois deuses. Seja “sim, sim; não, não” – dizem as Escrituras.

À parte do resultado das urnas, venceremos. Mas saibamos vencer, construamos uma resistência e um trabalho de base sustentável, paciente e persistente, do contrário tudo será casa sobre a areia. Combater o autoritarismo, o moralismo e individualismo acumulador nas nossas igrejas é algo central para desarticular o fascismo nesse tempo histórico. É preciso dizer que o povo da Bíblia é diferente da Bancada da Bíblia e que nós estamos dispostos ao arrependimento e ao Bom Combate. É preciso dizer que o medo é um sentimento reacionário, conservador, porque nos paralisa. Antes o perfeito amor lança fora todo medo (1 Jo.4:18).

Vítor Queiroz de Medeiros é facilitador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito em São Paulo.

Um apelo aos pastores brasileiros: até quando coxeareis entre dois pensamentos?

Um apelo aos pastores brasileiros: até quando coxeareis entre dois pensamentos?

Os evangélicos serão uma das parcelas mais afetadas por um eventual governo fascista.

Ecce Homo, de Antonio Ciseri, 1871. Cristo também enfrentou fake news, quando os fariseus diziam que planejava uma revolta popular contra o poder romano.

Por Vítor Queiroz de Medeiros

Cerca de 60% do eleitorado evangélico vota em Bolsonaro. Isso equivale a quase 40 milhões de votos. O mapa eleitoral lido pela variável “filiação religiosa” diz que Haddad tem melhor desempenho em municípios com menores taxas de pentecostais. Mas Deus não tem nada a ver com isso e Sua Palavra condena o projeto bolsonarista.

O candidato Bolsonaro tem ao seu lado líderes odiados pela maioria dos evangélicos: Edir Macedo, Estevam Hernandes, Silas Malafaia – todos metidos em escândalos referentes à extorsão de fiéis, evasão de divisas e lavagem de dinheiro; construíram impérios para si às custas do povo pobre iludido com a prosperidade mágica; enriqueceram com o comércio da fé. É preciso desautorizá-los e livrar da ilusão aqueles que se permitem guiar por ideologias mundanas e mitos da velha disputa entre “esquerda” e “direita”. O embate dessa hora é entre Evangelho e anti-Evangelho; entre civilização e barbárie; entre democracia, paz, direitos humanos e fascismo.

Nosso povo crente está enredado por polêmicas de cunho moral. A campanha de Bolsonaro é puro tabu e fake news. Inventam que Haddad vai transformar o Brasil numa Venezuela, distribuir kit gay, fechar igrejas, entretanto em 13 anos de governos petistas isso não passou nem perto do ocorrer. Aliás foi nesse período que o povo evangélico mais cresceu, muito em função da liberdade religiosa irrestrita desses tempos. Jesus também enfrentou fake news em sua época: os fariseus diziam que ele iria abolir a lei, que planejava uma revolta popular contra o poder romano e que destruiria o templo. Temos que combater as falsas notícias, sem, contudo, ficar refém delas.

Além disso temos que transpor o moralismo e pautar a agenda econômica: o povo evangélico é majoritariamente pobre, beneficiário de políticas sociais; serão as parcelas mais afetadas por um eventual governo fascista. A chapa de Bolsonaro se opõe ao 13º salário, às férias remuneradas, à licença maternidade e esteve com Temer durante a aprovação da reforma trabalhista e a aprovação da “PEC do Teto” que congelou, por vinte anos, os investimentos públicos em saúde e educação.

O povo evangélico é pobre e trabalhador. Nós, irmãos preservados democráticos, temos que denunciar profeticamente: “o trabalhador é digno do seu salário” (1 Tim. 5:18); dizer que Deus abomina a exploração do pobre pelas elites patronais (Tg.5:1-16); que o trabalhador não deve ser extorquido por bancos e afins, mas deve ser socialmente protegido (Lv.25:35-38). Deus defende política social, Bolsa Família, tributação progressiva para os que os ricos paguem mais e demais políticas de transferência de renda, não para sobrecarregar alguns, mas “para que haja igualdade” (2Cor.8:13-15). Deus está do lado do trabalhador e seu beneplácito está sobre a velha CLT; sobre o Prouni; o Fies; o Minha Casa, Minha Vida; o investimento na agricultura familiar e do imposto justo.

Também temos que avisar nossos irmãos que Bolsonaro elogia a tortura, a ditadura, propaga a violência e defende o armamento civil. Ora, o protestantismo sempre foi defensor da democracia. A Reforma foi anti-absolutista e mesmo no Brasil, muitos irmãos lutaram contra o regime militar: Jaime Wright, que publicou com Dom Paulo Evaristo Arns, o relatório “Brasil nunca mais”; seu irmão que fora assassinado pelos repressores, Paulo Wright; o irmão metodista, torturado e resistente, Anivaldo Padilha entre muitos outros que inclusive constam nos anais do relatório da Comissão da Verdade.

Estivemos nas Ligas Camponesas; estivemos com João Goulart como se viu na conferência “Cristo e o Processo Revolucionário” em 1962; militamos sob viadutos, por entre vielas, dentro dos presídios, sempre defendendo a dignidade humana. O fascismo não combina conosco. Sempre estivemos do lado certo da história. Enquanto a maioria do pastorado e das igrejas se calou diante dos horrores da ditadura sanguinária, muitos irmãos fiéis à democracia e à liberdade, por amor do Evangelho, foram ao martírio nos paus-de-arara e outras máquinas de morte.

Jesus foi um torturado; açoitado, teve ainda uma coroa de espinhos sobre sua cabeça e morreu crucificado de maneira brutal. Como pode um eleitor de Bolsonaro, defensor da tortura, participar na eucaristia do corpo e do sangue de um torturado? “Quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, o faz para sua própria condenação” (1 Cor.11:29). E como subscrever a ideia de que “bandido bom é bandido morto”, quando Jesus não hesitou em impedir o apedrejamento da mulher adúltera (Jo.8:7) e ainda salvou o malfeitor pregado na cruz ao lado da sua (Lc.23:39)? Bandido bom é aquele que é ressocializado e transformado.

Bolsonaro ainda defende, talvez por lobby da indústria armamentista, a ampla liberação do porte de armas. Cristãos que o apoiam deveriam ler o texto em que Jesus censura Pedro que, mesmo agindo em legítima defesa, lançaria mão de uma arma, o que apenas reproduz a violência (Mt.26:52). Lembremo-nos de que “bem aventurados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus” (Mt. 5:9).

Vamos ver os frutos. Um é temperado, tolerante e democrata. O outro comete atos de homofobia, de racismo e de machismo. Alguém consegue imaginar Jesus chamando a mulher samaritana de “vagabunda”? (Jo.4:4-26). Precisamos declarar claramente que a violência, o desrespeito e a discriminação não são opções ao cristão. E nós, cristãos democráticos, sobretudo os pastores, temos que dizer como claramente que “Deus não faz acepção de pessoas” (At.10:34; Tg.2:9).

Bolsonaro é um lobo travestido de ovelha; é uma ameaça à democracia. Quanto a pseudo-salvadores, o Novo Testamento está repleto da exortação à vigilância, “Acautelai-vos!”. Temos que exortar nossos irmãos para que não se enganem e temos que cobrar posicionamento claro dos nossos pastores contra o candidato. Não podemos admitir a indiferença, a omissão covarde e conivente de nossos líderes. Cobremo-los. Há muitos pastores que são contrários ao fascista Bolsonaro, mas hesitam em se posicionar, talvez temendo perder dizimistas ou algo do tipo. A estes digo claramente: sejam quentes ou frios, não mornos, nem hipócritas!

Na Alemanha nazista, a Igreja Confessante, erigida por Bonhoeffer e Karl Barth, foi um luzeiro nas trevas ao mobilizar a cristandade contra o nazismo enquanto a famosa maioria embarcava no projeto do Maligno. Em meio à noite escura que se abate sobre nós, sejamos corajosos e coerentes com o Evangelho, com o espírito radicalmente democrático da Reforma Protestante e com o testemunho histórico dos irmãos brasileiros que tombaram durante a ditadura. Não compactuemos com o ódio. O inimigo é quem vem para matar, roubar e destruir; mas o projeto de Jesus é dar vida com abundância a todos e todas (Jo.10:10).

Por fim, aos cristãos que militam pela paz e pela democracia: não nos deixemos tomar pelo medo. O medo é um sentimento reacionário, conservador, nos paralisa. Antes, porém, o perfeito amor lança fora todo medo (1Jo.4:18). A Esperança é um bem por demais valioso para que ser trocado por apenas uma parte da realidade. Bolsonaro não, em nome de Jesus.

Vítor Queiroz de Medeiros, 22, é coordenador estadual da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito/SP.

Aos meus amigos e amigas da produção cultural e artística brasileira

Aos meus amigos e amigas da produção cultural e artística brasileira

Foto: Mídia NINJA

Para meus amigos e amigas da produção cultural e artística brasileira, alguns pontos importantes sobre Fernando Haddad:

1- Como prefeito de São Paulo, Haddad tratou a produção cultural da cidade e do Brasil com carinho e respeito pelas diferenças de opinião, de gosto estético, de visão política e partidária. O que seria algo bastante óbvio – o respeito aos produtores culturais e artistas de todas as vertentes, pensamentos e crenças – hoje passou a ser, no meu entender, um valor imenso. A produção cultural só respira em ambiente de liberdades individuais e coletivas. E no respeito e diálogo com quem pensa diferente. Especialmente nas políticas culturais. Ou seja, em termos culturais Haddad demonstrou que sua visão é 100% liberal, no que diz respeito ao zelo a total liberdade de expressão artística e pelas opiniões diferentes e – especialmente – as contrárias.

2- Esse diálogo é fundamental. Quem acompanha a política cultural brasileira sabe que ela vem de um processo de diálogo, embate e construção, em que convivem pessoas que pensam diferente: socialdemocratas, anarquistas, liberais, petistas, tucanos, comunistas, empresários, trabalhadores, jornalistas e terceiro setor. E muitos outros. As políticas de cinema e audiovisual, por exemplo, dos últimos 15, produziram filmes de todo tipo de visão de Brasil: de Tropa de Elite à Aquarius. Comédias despretensiosas e filmes altamente politizados e críticos aos rumos do Brasil. Filmes para todos os gostos, públicos e visões de mundo. Nada disso seria possível em regimes totalitários, de esquerda ou direita. Foram anos e anos de socialdemocracia vibrante.

3- A apropriação – pela sociedade brasileira – da necessidade de um Ministério da Cultura, não tem volta. O direito dos artistas de criar e se expressar – assim criticar os governos – não apenas foi respeitado nas políticas culturais, como a produção cultural foi assegurada por linhas de apoio que impulsionaram a produção em todo País. Leis e programas federais – comuns em todos os países democráticos avançados – foram implantadas no Brasil. Não há país desenvolvido sem política cultural – usando fundos públicos ou usando incentivos fiscais.

4- Vale, no contexto das políticas culturais recentes, lembrar de atitudes concretas do ex-prefeito Haddad em dobradinha com ex-secretário e ex-Ministro Juca Ferreira. Ampliar o orçamento da cultura, criar políticas culturais abrangentes na cidade de São Paulo: dos saraus periféricos ao audiovisual e games; das culturas indígenas à moda; diversas áreas compreendidas como parte da cultura. Haddad liberou as ruas da cidade e organizou um dos maiores carnavais de rua do mundo. Adotou uma política para valorizar o uso do espaço público em uma cidade tão carente desses espaços. Criamos a maior rede de salas públicas de cinema do Brasil. Com um detalhe: na periferia onde, segundo pesquisas, 30% das pessoas nunca pisou num cinema.

5- No caso do audiovisual, com a criação da Spcine, feita por Haddad e mantida pela gestão do PSDB, é outro exemplo de claro compromisso dele com a centralidade da cultura e seu impacto na qualidade da democracia que podemos ter. Ali foram lançadas linhas de apoio que dialogaram com distintas formas de criar, produzir, respeitando a todos. Do audiovisual comercial, ao autoral, até a implantação de salas de cinema na periferia. Das séries de TV aos festivais e feiras de músicas. Garantir os direitos culturais é o básico em qualquer democracia, mas Haddad foi bem além disso.

6- A economia da cultura, e especialmente no audiovisual, é um dos setores que todos os governos do mundo protegem (incluso os EUA). Aplicar o ultra-liberalismo na produção cultural de um País é um ato de violência, pois significa renunciar a desenvolver sua própria indústria cultural num mundo globalizado e competitivo, significa renunciar à circulação da própria língua, renunciar a ser um polo produtor e exportador de cultura na acirrada era digital.

7- Se o audiovisual brasileiro chegou até aqui é porque houve uma política de conteúdo nacional que hoje permite que muitas séries brasileiras de TV, feitas por produtores e roteiristas brasileiros, e exibidas nos canais estrangeiros da TV paga. Muitos tornaram-se os programas de maior audiência. Sucesso das nossas séries na TV e no streaming, e do cinema em festivais do mundo. Abrir mão de políticas culturais significa reduzir o país a mero mercado de consumo cultural. Ser um polo produtor é o desafio de toda cinematografia e produção audiovisual nacional. Sem políticas específicas, sobram os piores empregos, pior remunerados, o que não condiz com a força da produção cultural brasileira.

8- Adotar o ultraliberalismo na cultura é deixar as empresas culturais brasileiras, no máximo, como meras terceirizadas, prestadoras de serviço de baixo valor agregado, sem regulação e financiamento estratégico nacional. Isso é algo inimaginável, inclusive em países baluartes do liberalismo. Do Estado da Georgia (EUA), responsável pela série Walking Dead até um país workaholic como Coréia do Sul, não há país capitalista que não proteja sua produção cultural com pesados incentivos público e políticas de proteção e desenvolvimento. Ninguém brinca nesse jogo. A combinação de autoritarismo nos costumes e ultraliberalismo na economia é certamente o pior cenário para o desenvolvimento cultural no século XXI.

9- A Ancine foi criada por Fernando Henrique/PSDB e o FSA a revolucionária lei da TV paga pelos governos Lula/Dilma do PT. O caminho que foi trilhado até aqui na política cultural brasileira não é obra de um só partido e nem é imune a críticas. Há muito por fazer. Haddad já demonstrou seu compromisso com a importância da cultura num projeto de sociedade, e mais que isso: a percepção da conexão da cultura com o aprofundamento da democracia, com a educação, com o desenvolvimento econômico e social. Vemos que esse carinho e respeito pela diferença não é assim tão básico assim como se imaginava há poucos anos. Preservar e democracia demanda – de todos e todas – enorme nível de compromisso. A defesa da democracia é – sempre, e em especial nos tempos atuais – uma tarefa diária, com a valiosa contribuição de todos os que fazem cultura e arte no Brasil. Independente de resultado eleitoral, essa luta não tem fim.

Milícias Digitais de Bolsonaro colapsam a democracia

Milícias Digitais de Bolsonaro colapsam a democracia

O candidato promete governar pelo WhatsApp, mas as mesmas redes usadas para uma ditadura digital servem para combater o estado de hipnose coletiva.

Imagem: Mídia NINJA

Não está tudo bem! Diante das forças políticas que emergiram no contexto das eleições de 2018 no Brasil, atropelados por fake news e uma memética corrosiva, a subcultura da internet está produzindo um estado de exceção digital, que afronta a justiça e as instituições analógicas. Mas o que seria um colapso de proporções e efeitos catastróficos, radicaliza também a potência das redes e de uma democracia digital capaz de calibrar as ditaduras por domínio informacional. Estamos no meio de uma encruzilhada.

As campanhas eleitorais e a democracia representativa como conhecíamos chegaram no seu limite e impasse. Em uma das maiores crises de desinformação em escala global, o Brasil (depois da eleição de Donald Trump nos EUA) protagoniza o que talvez seja o início do fim das democracias tais como conhecemos, com a desconfiguração radical, pós mídias digitais, do sistema de comunicação, de autoridade, institucionalidade e sociabilidade.

A regressão vingativa dos discursos políticos, encarnado no Brasil em um antipetismo alucinatório, as fake news produzidas de forma industrial, põem em xeque uma justiça analógica, corroem mas também reinventam o que conhecíamos como democracia.

Uma mutação dos sistemas de governança que poderia ser desejável, com uma desordem criadora, mas que, no contexto brasileiro, emerge na sua face mais arcaica e sombria: movimentos políticos de novo tipo que configuram novos fascismos e regimes digitais de exceção que tornam o sistema analógico de justiça obsoleto e ineficiente.

Tudo o que fabulamos sobre a potência da cultura digital, a apropriação tecnológica pelos muitos, o poder dos desorganizados, se efetuou pelo seu avesso. 2018 é um anti Junho de 2013, ou sua face mais sombria.

Uma desordem informacional e uma desorientação política que longe de nos levar para um novo tipo de governança, mergulhou o Brasil em uma onda de violência nas ruas e nas redes, com ataques, linchamentos reais e simbólicos, pautas regressivas, propagação epidêmica de discursos de ódio e mentiras contras as mulheres, os negros, os grupos LGBTQI, indígenas, quilombolas, os ativistas, as ONGs, os artistas e fazedores de cultura, os professores e estudantes universitários, ambientalistas e cientistas, defensores dos direitos, um campo diverso e plural chamado de “esquerdas”.

Em oposição a um campo político e cultural, Jair Bolsonaro, candidato a presidência da República, é o primeiro resultado de um experimento político baseado em um novo modelo de negócio e governança: as fake news e a memética impulsionadas artificialmente em escala industrial.

Diante de um campo e de valores humanistas, formou-se uma onda de extrema-direita, uma sensação, uma crença, que produz dogmas e certezas em meio a desorientação informacional, repertórios reduzidos e que forma novos grupos de pertencimento. Estar na onda é uma alegria e uma potência!

“Eu perdi a fé, mas que enfermidade mais terrível”

A profunda desilusão dos “revoltados on line” com o sistema político e a corrupção endêmica, a polarização como estratégia midiática que nutriu a desinformação e o ódio, produziu efeitos de discurso, “efeitos de verdade” que têm consequências reais e imprevisíveis.

Um processo que se acirrou com o impeachment de Dilma Roussef , um linchamento em praça pública protagonizado por atores, mídias corporativas, o judiciário, os partidos políticos rivais e movimentos de novo tipo, como o MBL, que souberam catalisar toda insatisfação para um alvo político: o PT, suas lideranças e programas. Com base em seus erros passam a reverter seus acertos e minar parte das conquistas sociais e políticas públicas das últimas décadas que produziram commons: bem comum.

Antipetismo alucinatório

O processo – as denúncias e delações diárias da Lava Jato, de forma serial, naturalizando delações, naturalizando a devassa da privacidade, naturalizando um justiçamento midiático travestido de liberdade de expressão e de investigação de fatos – produziu discursos extremistas e autoritários, de baixa institucionalidade e baixo republicanismo.

Jair Bolsonaro é o resultado desse antipetismo alucinatório, que em cima da exposição dos mecanismos de funcionamento do sistema político (caixa dois, capitalismo mafioso das empresas, corrupção endêmica) produziu uma aberração política e um experimento comunicacional.

Um Meme Presidente

Bolsonaro é o representante de um estado de exceção político e informacional permanente na passagem fulminante de democracias representativas para uma governança em tempo real. As mídias digitais como o whatsapp e suas milícias digitais, a produção de efeitos de verdade de forma simultaneamente artificial e orgânica, podem ser a nova base de sustentação de uma governança digital de tipo autoritária? A base de Bolsonaro são esse exército de eleitores, trolls, bots e pessoas comuns que acharam na velocidade e viralidade da memética um vetor de propagação de crenças e consensos provisórios.

As milícias digitais produzidas nesse contexto da hiperpolarização e da pós-verdade são o avesso da cultura digital celebratória e utópica das primeiras décadas da internet, da inteligência coletiva e de uma democracia em rede gestada por uma multidão direcionada para o bem comum.

A revolução digital desceu aos infernos e o que emergiu é um cenário de pesadelo com toques de Black Mirror, Mad Max, Terra em Transe e Zorra Total. Uma memética que remixa a cultura de massas e seus personagens (os memes já clássicos com Inês Brasil, Carreta Furacão, Xuxa Meneghel, Gretchen, Renata Sorrah/Nazaré), as bonecas Barbie e Susi, tornadas avatares e personagens de uma cena em que Jair Bolsonaro também significa o triunfo dos memes na política.

Bolsonaro, se eleito, seria o Presidente Meme, o Bozo, o Palhaço, o troll, em que a fala tosca e o ideário retrógrado e totalitário é relativizado por parte dos seus seguidores como piada, escracho, deboche, o “Mito’, mas também levada ao pé da letra, na sua literalidade, por um outro contingente de eleitores que se apega às verdades e truísmos maniqueístas e simplórios e se identificam com um ideário ultraconservador.

Domínio informacional e fake news. Um novo modelo de negócio e de política

Autoprofecia anunciada, o cenário das eleições de 2018 foi antecipado pelos players importantes de dentro e de fora do jogo eleitoral. Plataformas como o Facebook e WhatsApp, com base nos escândalos da Cambridge Analytica na eleição de Trump, têm total consciência de como seus negócios de comunicação incidem sobre crenças, comportamentos, humores e sociabilidade.

O que estamos vendo no Brasil são os efeitos dessas “psyops”, operações psicológicas de produção da opinião pública pelo direcionamento de informações: “mudando a cabeça das pessoas não através da persuasão, mas por meio de ‘domínio informacional’, uma série de técnicas que incluem rumores, desinformação e fake news” (…) “brincando com a psicologia de um país inteiro no contexto de um processo democrático”, como explicou de forma didática Christopher Wylie, ex-empresário da Cambridge Analytica sobre os processos que culminaram com a eleição de Trump.

No contexto brasileiro, para além das operações de coleta de dados e perfis psicológicos no Facebook, o uso da rede WhatsApp pelos marqueteiros de Bolsonaro, com apoio de Steve Bannon e financiado por empresários brasileiros produziu uma avalanche, uma onda em seu favor alavancando um inimigo público: o petismo. Disparos de mensagens a níveis industriais turbinaram a combinatória de ceticismo político, fake news e a formação da opinião pública com um efeito assustadoramente degradante para a democracia no Brasil.

O contigente que foi bombardeado e se apropriou da memética como linguagem política, com memes panfletos, memes de zombaria, memes de celebração, memes propagadores de dogmas, estímulo a linchamentos virtuais e mentiras poderia formar um senso crítico capaz de destituir e reverter esse mesmo estado de coisas? Como escapar das bolhas de influência e domínio informacionais?

Milícias Digitais

A questão é que as fake news e a comunicação massiva automatizada são um novo modelo de negócio e um novo modelo de gerência política. A #LavaZap não é uma piada da internet, a operação de financiamento ilegal de disparos massivos no WhasApp, denunciada em matéria da Folha de São Paulo do dia 8 de outubro de 2018 que repercutiu em todas as mídias dentro e fora do Brasil, é apenas a ponta de um iceberg de uma governança que flerta com regimes ditatoriais digitais.

As milícias digitais alimentadas por fazendas de fake news em escala industrial surfando na onda antiestablishment só cresceram desde 2013, um contigente de eleitores distópicos que se valem de uma comunicação descentralizada como o WhatsApp para escrachar, zombar, desconstruir reputações ou celebrá-las.

Uma extrema direita que mistura uma militância orgânica, mas também cidadãos zumbis, bots e uma opinião pública forjada pela era da comunicação automatizada. A questão é o desequilibro estrutural de um ecossistema político já em decomposição em que as regras de transição para nossos sistemas de governos digitais não foram criadas e nem consensuadas:

“Para alcançar mais eleitores, as campanhas políticas obtiveram neste ano programas capazes de coletar os números de telefones de milhares de brasileiros no Facebook e usá-los para criar grupos e enviar mensagens em massa automaticamente no WhatsApp. A prática viola as regras de uso dos dados do Facebook e, para alguns especialistas, pode ser considerada crime eleitoral. À BBC News Brasil, o Facebook disse estar investigando o caso, e o WhatsApp disse estar levando a denúncia a sério e tomando medidas legais. O WhatsApp declarou ainda ter banido centenas de milhares de contas suspeitas neste período eleitoral.”

Um novo regime de verdade?

Trata-se de uma nova forma de produção de consenso, por clicks, likes, compartilhamentos, distribuição massiva de memes, mensagens que criam uma comunidade imaginada de iguais, no momento em que as instituições produtoras de consenso entraram em crise de credibilidade: a justiça, a mídia, a escola, os políticos, a própria ciência.

“Como o mundo verdadeiro acabou por se tornar fábula”, reencontramos Nietzsche de Crepúsculo dos Ídolos (1889) quando mostra como verdade como “A História de um Erro”: “o mundo verdadeiro é uma ideia que já não serve mais para nada, que não obriga mesmo mais nada – uma ideia que se tornou inútil, supérflua; consequentemente uma ideia refutada; suprimamo-la!”

O que Nietzsche, Foucault, Derrida, Deleuze e tantos pensadores contemporâneos estão dizendo é que cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política geral’ de verdade. É que devemos nos perguntar e questionar:
– Quais os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos?
– Quais as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade;
– Qual o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro, com suas leis, enunciados científicos, o que é ou não crime, pois todas são  “verdades construídas”.

Os discursos que colocam a verdade em crise não significam que todos os discursos se equivalem. Quais as consequências éticas, subjetivas, em termos de relações de poder, de comportamento e visão de mundo resultado das crenças? Quantas verdades (e mentiras) somos capazes de suportar?

E a questão que importa: Quais os efeitos daquilo que cremos ser verdadeiro? Pois acreditar que se é racialmente superior, moralmente superior, se acreditarmos em uma distinção e assujeitamento do outro pelas nossas diferenças, nossas verdades se tornarão armas de destruição e morte do outro.

É o que estamos vendo nas redes sociais e digitais. Verdades fabricadas e crenças produzidas por domínio informacional, por click, likes e deslikes, enxameamento, que produzem consensos e verdades provisórias ou duradouras com efeitos reais.

A guerrilha memética

No seu livro Kill All Normies, Angela Nagle faz uma análise brilhante das guerras culturais on-line, analisando a estética e os discursos de plataformas com o 4Chan e o Tumblr para entender a “direita alternativa” (alt-right) que elegeu Trump nos EUA.

No Brasil, o fenômeno Bolsonaro passa por outras subculturas, a zoeira das redes sociais, as batalhas de memes no twitter, como a primeira e a segunda guerra memética entre Brasil e Portugal, os grupos de WhatsApp produzindo novas formas de pertencimento, desconfigurando as hierarquias familiares, os influenciadores, youtubers, a epidemia comunicacional que mexe com a sociabilidade brasileira na veia.

Um exemplo dessa paixão bélico-criativa foi a #primeiraguerramemeal no Twiter em 2016, com trocas ferozes e intensas de um humor altamente inventivo e veloz por tweets e memes que mostrava o jorro criativo dos brasileiros para os combates cognitivos e afetivos.

O problema foi sua transposição catastrófica para um mundo político em dissolução. Paixão bélica, rivalista, que no Brasil se expressa nas torcidas de futebol, nas mortes no trânsito e nas brigas de bares por motivo fútil. Passamos do humor à tragédia em um meme. Da festa à cultura de morte, da cordialidade aos discursos de ódio com a mesma rapidez e euforia.

A Partilha do Monopólio da Violência

Mas para além do humor e das guerras memeais lúdicas, vimos emergir uma onda de violência dos eleitores de Bolsonaro que explicita um desejo primário e assustador: a promessa de Bolsonaro de partilhar o monopólio da violência do Estado com todos os “cidadãos de bem”. Uma espécie de milícia cidadã que fará justiça pelas suas próprias mãos diante do descrédito na política e no Estado.

Daí o imaginário das armas liberadas, do justiçamento sumário, com crianças e adultos empunhando os dedos/armas contra seus inimigos. Metralhar, fuzilar, varrer o inimigo. Um tornar-se fascista, de que falam Gilles Deleuze e Michel Foucault.

“Enfim, o inimigo maior, o adversário estratégico: o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e de Mussolini – que tão bem souberam mobilizar e utilizar o desejo das massas -, mas o fascismo que está em nós todos, que martela nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz amar o poder, desejar esta coisa que nos domina e nos explora”, como analisa Foucault em Por uma Vida Não-Fascista, texto belíssimo e inspirador.

Para os “idiotas da objetividade”, como diria Nelson Rodrigues, que querem reduzir o fascismo às suas características históricas leiam um pouco de Foucault, ou melhor ouçam os discursos de Bolsonaro, porque no momento precisamos esclarecer o que é o fascismo no cotidiano, contra os corpos, contra os sujeitos, os microfascismos do vovô, do titio, dos irmãos, primos, dos amigos, da mamãe, os microfascismos que estão em nós e nas nossas casas.

O fascismo como desejo de poder acendendo todos os ressentimentos de grupos, de classe, as frustrações pessoais, o desejo de morte dos que se sentem desorientados e humilhados e aceitam a promessa de assujeitar os outros.

Não se reprima! Não se reprima! Conclama Bolsonaro para seus eleitores. Bolsonaro é o anti-herói que desreprime os nossos mais baixos e piores instintos. Exatamente como o fenômeno das fake news, em que as pessoas querem acreditar por mais absurdas e inverossímeis que elas sejam.

Por isso não importa se Bolsonaro está certo ou errado e nem nada do que diz racionalmente. Ele não tem e nem precisa de coerência, ele não precisa entender de economia, nem de educação, nem de saúde e nem ser razoável e nem ter apreço a nada do que é caro a democracia.

Apela para o gozo mais primário e descomplicado: o gozo e o prazer em aniquilar os oponentes, a “esquerdinha”, os “fracos” (negros, mulheres, quilombolas, gays) que precisam de direitos e proteção, vistos como privilégios para fracassados.

O gozo dos que se identificam com a violência real e simbólica dos que oprimem exercem poder. Mesmo que seja um gozo fantasioso e que esse fascismo e violência se volte contra todos. O fenômeno Bolsonaro é uma questão de crença, de desrepressão boçal e de linguagem.

A pergunta que devemos fazer é quantos eleitores Bolsonaro ganharia sendo “politicamente correto” e quantos eleitores ele ganha quando desreprime um insconsciente fascista e violento, ativado por testosterona, delírio de onipotência e com a possibilidade, mesmo fantasiosa, da aniquilação dos seus inimigos, promessa de vingança regressiva: “vamos destampar os arquivos de Dilma e do PT e esquecer o passado e a ditadura e olhar para frente”, brada. Leia-se vamos destruir nossos inimigos!

Bolsonaro alia crenças primárias com o gozo sádico e celebratório: “o ladrão que me assaltou apareceu morto”, prescreve a castração química para estupradores, e vocaliza o triunfo dos impotentes que se sentem injustiçados e oprimidos por uma elite intelectual e política, por um repertório que não dominam, por leis e um aparato jurídico que não fala a língua de ninguém. Goza com sua imunidade parlamentar que o permite vocalizar o invocalizável.

E como não poderia faltar em uma linguagem fanfarrona e ao mesmo tempo paranóica e de suspeição, todas as teorias conspiratórias cabem no discursos de seus eleitores, sendo a maior de todas a que quer acabar com o voto eletrônico por suspeita de fraude.

As urnas e a própria democracia são o dispositivo de maldade que elegeu as esquerdas nos últimos tempos. Por isso sua ode às ditaduras como o céu político. Pois quem mais elegeu os governos progressistas? Bolsonaro não pode xingar o povo, então inventa uma máquina de manipulação: a urna eletrônica fraudada, única força capaz de deter sua vitória.

Diante de toda a suspeição diante do Estado, dos políticos, da democracia, uma parte dos brasileiros se identifica com o sincericídio tosco e fascista de Bolsonaro: que vocaliza os medos mais primários e traz soluções igualmente simplórias. Estamos diante da “Verdade Sufocada” que explode, título do seu livro de cabeceira escrito por um torturador. É a barbárie como libertação!

Governar utilizando o WhatsApp

E se o próximo Presidente do Brasil utilizar redes e grupos de transmissão massivos para governar com base nas suas milícias digitais? Essa é a proposta de Jair Bolsonaro que anunciou que, caso seja eleito, vai transformar o aplicativo em uma de suas principais ferramentas de governo e de comunicação. “Seus assessores e conselheiros gostaram bastante da ideia de criar um programa de governo para distribuir celulares com acesso à internet para a população de baixa renda” .

Falam em “Cidadania Digital” um conceito que inspirou as gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira no Ministério da Cultura nas eras Lula e Dilma e onde participamos ativamente pensando, elaborando, fabulando, como a cultura digital, os Pontos de Mídia Livre, poderiam alavancar formas participativas e diretas de gestão, transformado o comentariado das redes sociais e digitais em uma nova força das democracias comunicacionais.

A extrema-direita digital está a ponto de fazer o download deste programa e disputar o mesmo imaginário, mas de forma pragmática para a produção de uma hegemonia cultural e informacional que inauguraria as ditaduras digitais. A cultura de redes com o sinal inverso: produzir e inundar o cidadão de informações desencontradas, quase nunca verdadeiras, difíceis de checar, transmitidas de forma massiva em multiplataformas de tal forma que “inundem” com fake news, “fatos alternativos”, com um jato de informações incessantes (firehose of falsehood) e repetitivas e sem qualquer compromisso com a consistência ou a veracidade.

A Carta de Bolsonaro ao Povo Brasileiro

Cena final para configurar a governança pelo domínio informacional e as milícias nas redes e nas ruas:

Em vídeo gravado da lavanderia da sua casa, aos gritos para um celular, e endereçado os manifestantes na Av. Paulista no domingo, 21 de outubro de 2018, a uma semana das eleições presidenciais, Bolsonaro ameaça parlamentares, ativistas, partidos, ongs, movimentos sociais e a mídia.

Nomeia grupos, pessoas, instituições e redes como seus inimigos e diz como irá persegui-los com prisão, exílio e os rigores da lei e do Estado aparelhados. O Estado será usado como extensão de um delírio de onipotência sem limites e sem qualquer sentido republicano. As redes digitais serão suas milícias. Um Estado paramilitar comunicacional.

Ameaças aos seus rivais políticos, regressão vingativa e nenhum sentido de institucionalidade. Essa é a marca de Jair Bolsonaro, o antiestadista, que ameaça, às vésperas da eleição, em seu discurso nauseante, destruir todo o sistema e a ecologia política utilizando um discurso fascista, atravessado de metáforas de extermínio e das guerras: como a “limpeza”, varrer do mapa, expulsar do Brasil os “vagabundos”. As “raças” a serem extintas são os “vermelhos”, os movimentos sociais, os defensores dos direitos em todos os campos.

Para a imprensa “vendida”, dá os seus pêsames! A parlamentares rivais e ao candidato a presidência Fernando Haddad ameaça com prisão e um “vão apodrecer na cadeia” em um discurso fora de qualquer institucionalidade em que linchamentos políticos sumários antecipam qualquer justiça.

“Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil. Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos”, diz Bolsonaro sem qualquer constrangimento.

O discurso de Bolsonaro gravado em vídeo para a multidão como o discurso de um vencedor das eleições de 2018 não tem mais qualquer mediação ou moderação. É feito para alimentar uma plateia de cidadãos zumbis que urram com as fantasias mais brutais da política tornada regressão vingativa contra os “inimigos” e um petismo alucinatório que alimenta a violência real e simbólica nas redes e nas ruas.

Bolsonaro poderia tomar para si a fala catártica de Paulo Autran, em Terra em Transe de Glauber Rocha, no filme de 1997, que encarna toda a potência dos fascismos e seu efeito catártico e salvacionaista: “Aprenderão, aprenderão. Dominarei essa terra. Botarei essas histéricas tradições em ordem, pela força, pelo amor da força, pela harmonia universal dos infernos e chegaremos a uma civilização”.

Não chegaremos a uma democracia no século XXI com Jair Bolsonaro. Mas esse processo que ataca os ossos da democracia representativa como um ácido que destrói e corrói estruturas férreas é uma parte do processo e do expurgo. Que o preço não seja alto demais e que esse horror, esse messianismo e fascismo de novo tipo, essas novas forma dos regimes autoritários, com eleições com tudo, possam ser decisivas para abrir novos caminhos para as democracias no século XXI.

Seja qual for o resultado das eleições de 2018, teremos que combater uma extrema direita digital com as armas da democracia, das ruas, das redes, com as tecnologias e aplicativos, com a inteligência popular brasileira.

Muitos movimentos de novo tipo surgiram, mídias e redes com capilaridade e uma linguagem nova (Mídia Ninja, a plataforma 342 capitaneada por artistas e ativistas do mainstream, a primavera das mulheres utilizando as redes contra os machismos e patriarcalismo, a geração tombamento utilizando o consumo e a festa como forma de política, etc), é essa linguagem pop, esse ativismo mainstream, a mesma força usada pelas milícias digitais, que podem derrotar o obscurantismo.

Só uma reviravolta nessa onda fascista nos tira da hipnose coletiva, um ativismo potente, uma coragem inclusive intelectual para assumir que o fascismo tomou forma em um projeto político. E é contra esse ódio alucinatório que lutamos!

Contágio!

Essa eleição também desconfigura o campo da comunicação corporativa. Bolsonaro usou transmissões ao vivo no Facebook, um canal no Youtube e o impulsionamento de memes e fake news em redes gigantescas e descentralizada criadas no WhatsApp.

Apesar da manipulação inicial dos disparos pagos de notícias falsas contra Haddad e o antipetismo alucinatório, essas redes são incontroláveis e existe um fora que produz fatos e uma contranarrativa que furam bolhas.

Avalanches de fake news, memes, teorias estapafúrdias, crenças, teorias conspiratórias, produção de medo, histeria, mas também contranarrativas, resistências e esperanças serão despejadas em uma corrente sanguínea que já começou a produzir anticorpos.

As eleições de 2018 serão decididas por contágio e onda. Um modo epidêmico de fazer política. Sejamos nós também o viral, as forças capazes de produzir ondas, formação pelas mídias, ampliação dos repertórios usando as próprias redes, feitiços capazes de quebrar encantos e produzir novos consensos, disseminar o vírus da democracia e injetar nessa corrente sanguínea os anticorpos contra os fascismos.

O genocídio palestino

O genocídio palestino

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Israel demonstra o quanto a história pode ser recorrente, quando as vítimas do século XX se transformam em alcaides do presente. O povo judeu, que sofreu o holocausto praticado pelos nazistas e possui uma memória de superação, ao manter um governo genocida em Israel permite um processo que objetiva dizimar, com requintes de crueldade, o povo palestino.

Uma agente policial de apenas 20 anos atirou atingindo um palestino na Cisjordânia ocupada, sem nenhuma razão. O ato resume que a vida pode ser apenas um exercício de tiro ao alvo. Os soldados israelenses incorporaram a prática de disparar contra civis, incluso mulheres e crianças, protegidos por uma impunidade garantida pelo Estado. Assim como o exemplo da policial, eles são levados a uma corte para averiguação.

Muitos vitimados apresentam disparos na cabeça e tórax a curta distância,um ato deliberado para matar ou ferir gravemente. A única consequência prática é a expulsão do exército, mesmo praticando um crime de guerra.

No último dia 12 de outubro, foi a vez de Aisha Muhamad Aravi de 47 anos na cidade de Nablus quando viajava com seu marido. Um grupo de colonos israelenses apedrejaram o para-brisa. A mulher faleceu com traumatismo craniano, enquanto seu esposo ficou gravemente ferido. Como num livro de capítulos intermináveis de atrocidades, este fato ocorreu poucos dias após outro grupo de colonos apedrejarem alunos palestinos na aldeia de Urif.

Enterros como de Nayi Muhamad al-Zanin neste 17 de outubro, fruto de bombardeios israelenses, são quase diários. O objetivo é intensivar o processo de aniquilamento dos palestinos. A Faixa de Gaza nada mais é que um campo de concentração, onde é aprisionado uma população inteira, controlando o fornecimento de água, alimentos e remédios.

Uma matemática macabra de fornecer muito menos que um ser humano precisa, para resultar em mortes planejadas.

As consequências práticas são novos degraus deste genocídio, acobertado pelo silêncio da ONU e apoiado pelos EUA. No que tange a verdade,para o governo de Benjamin Netanyahu, não basta se apropriar das terras palestinas, escravizar seu povo, mas sim, retirar suas vidas. Enquanto os palestinos não desistem de defender seu país com as “caravanas de retorno”, o Estado de Israel pratica a barbárie de transformar um ser humano em apenas um alvo.

Vítimas no passado, um governo genocida no presente.

Delírio de onipotência: A carta de Bolsonaro ao povo brasileiro é um obituário para a democracia

Delírio de onipotência: A carta de Bolsonaro ao povo brasileiro é um obituário para a democracia

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Em vídeo gravado para os manifestantes na Av. Paulista, neste domingo, 21 de outubro, a uma semana das eleições presidenciais, Bolsonaro ameaça parlamentares, ativistas, partidos, ongs, movimentos sociais e a mídia. Os nomeia como seus inimigos e diz como irá persegui-los com prisão, exílio e os rigores da lei e do Estado aparelhados. O Estado será usado como extensão de um delírio de onipotência sem limites e sem qualquer sentido republicano.

Ameaças aos seus rivais políticos, regressão vingativa e nenhum sentido de institucionalidade. Essa é a marca de Jair Bolsonaro, o antiestadista, que ameaça, as vésperas da eleição, em seu discurso nauseante, destruir todo o sistema e a ecologia política utilizando um discurso fascista, atravessado de metáforas de extermínio e das guerras: como a “limpeza”, varrer do mapa, expulsar do Brasil os “vagabundos”. As “raças” a serem extintas são os “vermelhos”, os movimentos sociais, os defensores dos direitos em todos os campos.

Para a imprensa “vendida” dá os seus pêsames! A parlamentares rivais e ao candidato a presidência Fernando Haddad ameaça com prisão e um “vão apodrecer na cadeia” em um discurso fora de qualquer institucionalidade em que linchamentos políticos sumários antecipam qualquer justiça.

“Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil. Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos”, diz Bolsonaro sem qualquer constrangimento.

O discurso de Bolsonaro gravado em vídeo para a multidão já como um discurso de vencedor das eleições de 2018 não tem mais qualquer mediação ou moderação é feito para alimentar uma plateia de cidadãos zumbis que urram com as fantasias mais brutais da política tornada regressão vingativa contra os “inimigos” e um antipetismo alucinatório que alimenta a violência real e simbólica nas redes e nas ruas.

O pronunciamento fere toda noção de institucionalidade, presunção de inocência, justiça, decoro parlamentar e aposta nos discursos de ódio e na pulsão de morte.

É contra esse ódio alucinatório que lutamos! Pois cada afirmação celebra a própria morte e fracasso da democracia.

A verdade de Bolsonaro é obscena e está escancarada para quem quiser ouvir:

Frases de Bolsonaro em seu vídeo para os manifestantes na Paulista:

“Vocês verão uma polícia militar e civil com retaguarda jurídica para fazer valer a lei do lobo de vocês. Bandido do MTST, bandido do MTST, as ações de vocês serão tipificadas como terrorismo, vocês não levarão mais o terror ao campo ou a cidade. Ou vocês se enquadram e se submetem as leis ou vão fazer companhia ao cachaceiro lá em Curitiba”

“Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora ou vão para a cadeia”

“A Folha de São Paulo é a maior fake news do Brasil Vocês não terão mais verba publicitária do governo. Imprensa livre parabéns, imprensa vendida meus pêsames!”

“Seu Lula da Silva se você estava esperando o Haddad ser presidente você vai apodrecer na cadeia. Brevemente terá Lindbergh Farias pra jogar dominó no xadrez. Aguarde, o Haddad chegará aí também. Mas não será para visitá-lo não, será para ficar alguns anos ao seu lado. Já que vocês se amam tanto, vocês vão apodrecer na cadeia. Porque lugar de bandido que rouba o povo é atrás das grades.”

“Petralhada, vai tudo vocês para ponta da praia. Vocês não terão mais vez na nossa pátria, pois nós vamos cortar todas as mordomias. Não terão mais ONGs para saciar a fome de mortadela de vocês. Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil.”

“Vagabundo vai ter que trabalhar. Vai deixar de fazer demagogia junto ao povo brasileiro.”

Soberania Alimentar e o que está em jogo nesta corrida presidencial

Soberania Alimentar e o que está em jogo nesta corrida presidencial

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Por Adilvane Spezia | Jornalista |MPA e Rede Soberania

Na semana em que celebramos o Dia Mundial da Alimentação e da Soberania Alimentar, 16 de outubro, pouco temos a comemorar, hoje, uma em cada nove pessoas sofrem de fome crônica, ao mesmo tempo em que 1,9 bilhões de pessoas estão acima do peso no mundo, como informa a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no seu fôlder da campanha deste ano do Projeto #FomeZero. Segundo o relatório global da entidade publicado em 16 de setembro de 2014 em Roma, apontava o Brasil fora do Mapa da Fome, porém, dois anos após o golpe midiático e parlamentar – que tirou uma presidenta democraticamente eleita -, o país corre sérios riscos de voltar a esta triste e famigerada realidade. As Políticas Públicas adotadas pelo Governo de Michel Temer têm levado o país há um cenário de escassez alimentar e mais grave que isso, a beira da miséria as custas dos mais pobres.

Porém não é apenas a Soberania Alimentar ou a volta ao Mapa da Fome que está em jogo nesta corrida presidencial, diz respeito diretamente a vida da população brasileira. Aqui buscamos listas algumas da Políticas Públicas criadas pelos governos Lula e Dilma que transformaram profundamente a vidas das famílias camponesas e da agricultura familiar, políticas estás que tem sofrido fortes ataques no governo ilegítimo de Temer e que se, o candidato à Presidência da República, Jair Bolsonaro, for eleito, podem ser consideradas extintas já que em seu programa de governo ele não prioriza a Agricultura Familiar e Camponesa, e sim para o Agronegócio, representando pela Bancada Ruralista que já declarou apoio a sua candidatura.

Entre as Políticas Públicas que nesses últimos anos ajudaram o Brasil a construir um país mais justo, mais igualitário e que construíram para com a Soberania Alimentar do povo brasileiro estão:

O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) foi um dos principais programas de fortalecimento da Agricultura Familiar e Camponesa. “Em 2001 tínhamos um investimento de 2 bilhões de reais por ano do orçamento, e enceramos 2016, que foi o ano do golpe, com 30 bilhões de investimento por ano do orçamento do Pronaf para a Agricultura Familiar e Camponesa”, relata Charles Reginatto, da coordenação nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). O programa foi fundamental para nacionalizar essa política de investimento de custeio, sem contar que empoderou as famílias, tirando muitas delas da linha da pobreza e deu condições para que cada uma pudesse produzir o seu próprio alimento, sem contar que o programa foi fundamental na diversificação da Agricultura Familiar e Camponesa e no aumento da renda das famílias, o que tirou, com certeza, muitos agricultores e agricultoras da pobreza extrema. Famílias que recebiam alimentos, passaram a produzir para o seu sustento e passaram a comercializar uma diversidade de produtos, afirma Reginatto.

Outro programa que foi fundamental, – e que compõe as lutas históricas do MPA -, é o Programa Minha Casa Minha Vida, e como parte dele o Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR), política está que tornou possível a construção de mais de 150 mil casas no campo. Como descreve Reginatto, “casas bonitas, casas que trouxeram dignidade as famílias e que nós chegamos no final de 2016, ano do golpe, com uma linha de investimento com para as famílias mais pobres com subsídios de mais de 30 mil reais, por beneficiário”. Com o governo Temer o Programa sofreu cortes drásticos, comprometendo sua viabilidade no campo.

Se formos mais criteriosos, percebemos que outra Política Pública que transformou o modo de vida no campo, foi o Programa Nacional de Eletrificação Rural Luz para Todos, conforme Reginatto, o programa “levou energias para mais de 8 milhões de famílias, muitas delas saíram da escuridão e seus filhos não precisam mais estudar segurando uma vela. Realidade esta que o Luz para Todos transformou, fazendo com que as famílias saíssem do século XIX para o século XX em poucos minutos”. Em 12 anos do Programa, completos em 2016, os investimentos somavam 22,7 bilhões de reais, 16,8 bilhões do governo federal e o restante aportado por governos estaduais e distribuidoras de energia.

Diretamente ligados a Produção de Alimentos Saudáveis e a Agricultura Familiar e Camponesa estão o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), que são programas complementares. Destes programas conforme explica o dirigente do MPA:
– “Tinham um investimento de mais de 4 bilhões, chegando a quase 5 bilhões juntos, programas estes que ajudavam a fortalecer a cooperação, o cooperativismo, o associativismo, dinamizava a economia regional e local. Assim como, contribuiu para a criação de pequenos negócios, acabou com os atravessadores, ajudou na geração de emprego e renda. Tínhamos uma produção de alimentos orgânica e agroecológica, e, conseguíamos fazer chegar, por meio destes programas, alimentos saudáveis na merenda escolar, nos hospitais e creches”, completa ele.

Já o Programa Água para Todos transformou de forma histórica a vida da população do semiárido, associado ao Programa de Segurança Alimentar e Nutricional do Governo Federal era destinado a população em situação de extrema pobreza. “Com a construção de cisternas, com acesse a água para consumo e para a produção, o Programa Água para Todos, assim como os outros programas, tirou milhões de pessoas da extrema pobreza, sem contar aquelas que conseguiram ter acesso a água para produzir e consumir”, descreve Reginatto.

Nesses dois anos do golpe o povo brasileiro teve uma perda, ou seria uma retirada, extraordinária dos direitos da Classe Trabalhadora e quando direcionamos nosso olhar especificamente para as políticas públicas destinadas para a Agricultura Familiar e Camponesa, nos damos conta que o golpe, nestes dois anos de governo Temer foram devastadores. Imagina o que significa o Bolsonaro presidente por quatro anos, ele vai acelerar a retirada de direitos em todas as áreas, no campo e na cidade.

O dirigente do MPA faz ainda um alerta, “mas uma das coisas mais preocupantes que vamos ter com a eleição de Bolsonaro é o fim da aposentadoria rural, com a Reforma da Previdências eles querem tirar o direito dos homens e das mulheres de se aposentar, as mulheres aos 55 anos e os homens aos 60 anos. Muitas pessoas não vão conseguir provar suas atividades rurais porque vão ter que fazer contribuições mensais e individuais, sem contar que querem aumentar a idade mínima para os 67 anos”.

Neste momento histórico, não há outro caminho para reestabelecer essas políticas públicas criadas ao longo dos 13 anos de governo do Partido dos Trabalhadores, para termos novas políticas públicas e melhorar as já existentes, é Haddad presidente, avalia Reginatto, “Nós não temos dúvidas neste momento da importância que é o Haddad se tornar presidente da República e em hipótese alguma podemos deixar que o Bolsonaro se torne presidente”, afirma ele.

É importante termos claro que, quando Bolsonaro trata de que devemos ter um Estado Mínimo, um Estado Menor, que temos que ter um Estado Eficiente, que é preciso cortar gastos, que o Estado Brasileiro deve ser administrado como as finanças das nossas famílias, está mensagem é para dizer o seguinte, os pobres não vão estar no orçamento federal, e de fato, os pobres não estão inclusos em seu Plano de Governo. “Então neste momento, para garantir a nossa Soberania Alimentar e Nacional é preciso nos organizar ir para rua e fazer muita campanha para que elejamos Haddad e Manuela presidente do Brasil para que a gente possa ter novamente um país mais feliz e que a esperança vença o ódio”, conclui Charles Reginatto, do MPA.

Se “As Nossas Ações São o Nosso Futuro”, como diz o lema central da Campanha deste ano da FAO, é preciso refletir sobre qual é o país que queremos, pois está não é só mais uma eleição, o que está em jogo é um governo democrático e popular x um governo neoliberal e fascista.

Boaventura de Sousa Santos: As Democracias também morrem democraticamente

Boaventura de Sousa Santos: As Democracias também morrem democraticamente

Habituamo-nos a pensar que os regimes políticos se dividem em dois grandes tipos: democracia e ditadura.

Foto: Cecília Marraschi

Por Boaventura de Sousa Santos

Depois da queda do Muro de Berlim em 1989, a democracia (liberal) passou a ser quase consensualmente considerada como o único regime político legítimo. Pese embora a diversidade interna de cada um, são dois tipos antagónicos, não podem coexistir na mesma sociedade, e a opção por um ou outro envolve sempre luta política que implica a ruptura com a legalidade existente.

Ao longo do século passado foi-se consolidando a ideia de que as democracias só colapsavam por via da interrupção brusca e quase sempre violenta da legalidade constitucional, através de golpes de Estado dirigidos por militares ou civis com objectivo de impor a ditadura. Esta narrativa, era em grande medida, verdadeira. Não o é mais. Continuam a ser possíveis rupturas violentas e golpes de Estado, mas é cada vez mais evidente que os perigos que a democracia hoje corre são outros, e decorrem paradoxalmente do normal funcionamento das instituições democráticas.

As forças políticas anti-democráticas vão-se infiltrando dentro do regime democrático, vão-no capturando, descaracterizando-o, de maneira mais ou menos disfarçada e gradual, dentro da legalidade e sem alterações constitucionais, até que em dado momento o regime político vigente, sem ter formalmente deixado de ser uma democracia, surge como totalmente esvaziado de conteúdo democrático, tanto no que respeita à vida das pessoas como das organizações políticas. Umas e outras passam a comportar-se como se vivessem em ditadura. Menciono a seguir os quatro principais componentes deste processo.

A eleição de autocratas

Dos EUA às Filipinas, da Turquia à Rússia da Hungria à Polônia têm vindo a ser eleitos democraticamente políticos autoritários que, embora sejam produto do establisment político e econômico, se apresentam, como anti-sistema e anti-política, insultam os adversários que consideram corruptos e vêem como inimigos a eliminar, rejeitam as regras de jogo democrático, fazem apelos intimidatórios à resolução dos problemas sociais por via da violência, mostram desprezo pela liberdade de imprensa e propõem-se revogar as leis que garantem os direitos sociais dos trabalhadores e das populações discriminadas por via etno-racial, sexual, ou religião. Em suma, apresentam-se a eleições com uma ideologia anti-democrática e, mesmo assim, conseguem obter a maioria dos votos. Políticos autocráticos sempre existiram. O que é nova é a frequência com que estão a chegar ao poder.

O vírus plutocrata

O modo como o dinheiro tem vindo a descaracterizar os processos eleitorais e as deliberações democráticas é alarmante. Ao ponto de se dever questionar se, em muitas situações, as eleições são livres e limpas e se os decisores políticos são movidos por convicções ou pelo dinheiro que recebem.

A democracia liberal assenta na ideia de que os cidadãos têm condições de aceder a uma opinião pública informada e, com base nela, eleger livremente os governantes e avaliar o seu desempenho. Para que isso seja minimamente possível, é necessário que o mercado das ideias políticas (ou seja, dos valores que não têm preço, porque são convicções) esteja totalmente separado do mercado dos bens econômicos ( ou seja, dos valores que têm preço e nessa base se compram e vendem).

Em tempos recentes, estes dois mercados têm-se vindo a fundir sob a égide do mercado econômico, a tal ponto que hoje, em política, tudo se compra e tudo se vende. A corrupção tornou-se endêmica. O financiamento das campanhas eleitorais de partidos ou de candidatos, os grupos de pressão (ou lobbies) junto dos parlamentos e governos têm hoje em muitos países um poder decisivo na vida política.

Em 2010, o Tribunal Supremo dos EUA, na decisão Citizens United v. Federeal Election Commission, desferiu um golpe faltal na democracia norte-americana ao permitir o financiamento irrestrito e privado das eleições e decisões políticas por parte de grandes empresas e de super-ricos. Desenvolveu-se assim o chamado “Dark Money”, que não é outra coisa senão corrupção legalizada. É esse mesmo “dark money” que explica no Brasil uma composição do Congresso dominada pelas bancadas da bala, da bíblia e do boi, uma caricatura cruel da sociedade brasileira.

As fake news e os algoritmos

A internet e as redes sociais que ela tornou possível foram durante algum tempo vistas como possibilitando uma expansão sem precedentes da participação cidadã na democracia. Hoje, à luz do que se passa nos EUA e no Brasil, podemos dizer que elas serão as coveiras da democracia, se entretanto não forem reguladas. Refiro-me em especial a dois instrumentos.

As notícias falsas sempre existiram em sociedades atravessadas por fortes clivagens e, sobretudo, em períodos de rivalidade política. Hoje, porém, é alarmante o seu potencial destrutivo através da desinformação e da mentira que espalham. Isto é sobretudo grave em países como a Índia e o Brasil, em que as redes sociais, sobretudo o Whatsapp (o conteúdo menos controlável por ser encriptado), são amplamente usadas, a ponto de serem a grande, ou mesmo a única, fonte de informação dos cidadãos (no Brasil, 120 milhões usam o Whatsapp).

Grupos de investigação brasileiros denunciaram no New York Times (17 de Outubro) que das 50 imagens mais divulgadas (virais) dos 347 grupos públicos do Whatsapp em apoio de Bolsonaro só 4 eram verdadeiras. Uma delas era uma foto da Dilma Rousseff, candidata ao Senado, com o Fidel Castro na Revolução Cubana. Tratava-se, de facto, de uma montagem feita a partir do registo de John Duprey para o jornal NY Daily News em 1959. Nesse ano Dilma Rousseff era uma criança de 11 anos. Apoiado por grandes empresas internacionais e por serviços de contra-inteligência militar nacionais e estrangeiros, a campanha de Bolsonaro constitui uma monstruosa montagem de mentiras a que dificilmente sobreviverá a democracia brasileira.

Este efeito destrutivo é potenciado por outro instrumento: o algoritmo. Este termo, de origem árabe, designa o cálculo matemático que permite definir prioridades e tomar decisões rápidas a partir de grandes séries da dados (big data) e de variáveis tendo em vista certos resultados (o sucesso numa empresa ou numa eleição). Apesar da sua aparência neutra e objectiva, o algoritmo contem opiniões subjectivas (o que é ter êxito? Como se define o melhor candidato?) que permanecem ocultas nos cálculos.

Quando as empresas são intimadas a revelar os critérios, defendem-se com o segredo empresarial.

No campo político, o algoritmo permite retroalimentar e ampliar a divulgação de um tema que está em alta nas redes e que, por isso, o algoritmo considera ser relevante porque popular. Acontece que o que está em alta pode ser produto de uma gigantesca manipulação informacional levada a cabo por redes de robots e de perfis automatizados que difundem a milhões de pessoas notícias falsas e comentários a favor ou contra um candidato tornando o tema artificialmente popular e assim ganhar ainda mais destaque por via do algoritmo. Este não tem condições para distinguir o verdadeiro do falso e o efeito é tanto mais destrutivo quanto mais vulnerável for a população à mentira.

Foi assim que em 17 países se manipularam recentemente as preferências eleitorais, entre eles os EUA ( favor de Trump) e agora, no Brasil (a favor de Bolsonaro) numa proporção que pode ser fatal para a democracia. Sobreviverá a opinião pública a este tóxico informacional? Terá a informação verdadeira alguma chance de resistir a esta avalanche de falsidades? Tenho defendido que em situações de inundação o que faz mais falta é a água potável. Com a preocupação paralela a respeito da extensão da manipulação informática das nossas opiniões, gostos e decisões, a cientista de computação Cathy O’Neil designa os big data e os algoritmos como armas de destruição matemática (Weapons of Math Destruction, 2016).

A captura das instituições
O impacto das práticas autoritárias e anti-democráticas nas instituições ocorre paulatinamente. Presidentes e parlamentos eleitos pelos novos tipos de fraude (fraude 2.0) a que acabo de aludir têm o caminho aberto para instrumentalizar as instituições democráticas, e podem fazê-lo supostamente dentro da legalidade, por mais evidentes que sejam os atropelos e interpretações enviesadas da lei ou da Constituição.

Em tempos recentes, o Brasil tornou-se um laboratório imenso de manipulação autoritária da legalidade. Foi esta captura que tornou possível a chegada ao segundo turno do neo-fascista Bolsonaro e a sua eventual eleição. Tal como tem acontecido noutros países, a primeira instituição a ser capturada é o sistema judicial. Por duas razões: por ser a instituição com poder político mais distante da política eleitoral e por constitucionalmente ser o orgão de soberania concebido como “árbitro neutro”. Noutra ocasião analisarei este processo de captura.

O que será a democracia brasileira se esta captura se concretizar, seguida das outras que ela tornará possível? Será ainda uma democracia?

Aos que votavam em Bolsonaro por “honestidade”, podem arrumar outro motivo ou voto

Aos que votavam em Bolsonaro por “honestidade”, podem arrumar outro motivo ou voto

Foto: Yasmin Veloso

O jornal Folha de São Paulo revelou, nessa quinta-feira, 18/10/2018, em reportagem investigativa que repercutiu em jornais do mundo inteiro, o que já se sabia nos bastidores: um milionário esquema de Caixa 2, que financia sua cruzada digital de fakenews pelo whatsapp. Uma das maiores fraudes de toda a história das eleições presidenciais brasileiras.

Empresas ligadas a candidatura de Jair Bolsonaro, dentre elas a Havan, de Luciano Hang; e a Gazin, de Mário Gazin, teriam financiado disparos em massa de fake news (notícias falsas), difamatórias do PT e do candidato Fernando Haddad, para mais de 40 mil grupos de WhatsApp, a um custo de R$ 12 milhões cada contrato, em um total de 156 contratos distintos, totalizando, em estimativa, R$ 1,872 bilhões em operações ilegais.

Tais ações encerram em si diversas condutas ilícitas: em primeiro lugar porque esse tipo de prática (impulsionamento extraoficial de postagens) é considerada crime eleitoral; em segundo lugar, porque foi financiada/custeada com dinheiro de doações ilícitas (outro crime eleitoral, o de caixa 2); em terceiro lugar, porque os conteúdos divulgados/impulsionados eram falsos (fakenews); e, por fim, porque tal prática configuraria manipulação em massa de opinião pública.

Já havia descrito essa prática em outras postagens, antes mesmo da divulgação da reportagem da Folha: o uso de BigData (tratamento de dados de perfis e de preferências de navegação de usuários de redes sociais, com algoritmos, visando o direcionamento ou propagação seletiva de conteúdos virtuais), para a distribuição de fake news prejudiciais ao candidato do PT. Somente isso, em si, já seria crime passível de cassação de candidatura. Porém, eu não fazia ideia de que isso estava sendo feito com dinheiro de doações ilegais de empresas, o que adiciona mais crimes a prática que, sozinha, já seria criminosa.

Ou seja: ao menos quatro crimes (tem juristas falando em seis) estão configurados na prática descrita na reportagem da Folha de São Paulo, o que faz com que as eleições possam ser anuladas, por fraude, e a candidatura de Bolsonaro possa ser cassada.

A PF e o MPF poderiam iniciar as investigações do WhatsAppGate interrogando @luciano_hang, proprietário das Lojas @havan. Se apertar o careca ele entrega o resto da quadrilha e o esquema do #Caixa2doBolsonaro: manipulação de massas, com uso de tecnologia a preço/peso de ouro, paga com dinheiro oriundo de doações ilegais.

Logo eles, que falam tanto em combate a corrupção, que suscitam fraude nas urnas eletrônicas antes mesmo do resultado do pleito, são aqueles que estão hackeando e fraudando as nossas eleições, com a providencial ajuda de Steve Bannon, o homem que manipulou os resultados das eleições norte-americanas e do plebiscito do Brexit, na Inglaterra.

Vai meu conselho ao candidato nazifascista: @jairbolsonaro, pega o Steve Bannon, o @luciano_hang e os R$ 1,872 bilhão do teu #Caixa2doBolsonaro, do teu #Bolsolão e, como diria @cirogomes, “vá pra casa do @romerojuca”

Podem ter roubado seus dados do Facebook para alterar o resultado da eleição

Podem ter roubado seus dados do Facebook para alterar o resultado da eleição

Alerta! Podem ter roubado seus dados do Facebook para alterar o resultado da eleição para Presidente do Brasil, divulgando mentiras e desinformação de forma massiva pelo WhatsApp com recursos ilícitos.

Ilustração: @brunolanza.art

 

Por enquanto a afirmação acima é apenas uma suposição, já que não há dados suficientes que me permitam afirmar que isso ocorreu de fato. Mas o alerta é fundamental e o questionamento muito pertinente, já que se trata de uma interferência grave que pode alterar o resultado da eleição, e isso é um crime contra a democracia.

O tema é ainda mais relevante porque não parte de uma teoria conspiratória, parte da premissa de que isso já aconteceu, pelo menos na eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e do resultado do plebiscito para que o Reino Unido se retirasse da União Europeia, que ficou conhecido como Brexit.

Nos dois episódios acima e na eleição brasileira há um personagem comum: Steve Bannon.

Além disso, em todos os casos ocorreu um fato importante – o vazamento de dados de usuários do Facebook, que ficou conhecido como escândalo do Cambridge Analytica.

Uma breve retrospectiva do escândalo

Em 2015, dados de mais de 80 milhões de usuários do Facebook foram coletados de forma indevida por um aplicativo que tinha autorização para realizar uma pesquisa acadêmica sobre comportamento baseado em psicometria na rede social. Esses dados foram vendidos para uma empresa de tecnologia britânica, Cambridge Analytica, que os usou para influenciar de forma definitiva as eleições nos Estados Unidos em 2016. Parte dos dados também foram usados por outras empresas para influenciar na campanha do Brexit no Reino Unido.

E quem foi o estrategista e mentor intelectual desse processo? Steve Bannon, que foi vice-presidente da Cambridge Analytica, e conselheiro e estrategista da campanha de Donald Trump. Bannon foi braço direito do presidente norte-americano até agosto de 2017, quando foi demitido.

Quem é Steve Bannon

Bannon é um ultraconservador de direita que tem atuado para desestabilizar governos em várias partes do mundo. Ele é o fundador do site de ultra-direita BreitBart News e é um dos articuladores de um movimento nacional-populista na Europa.

Bannon tem trabalhado para produzir uma onda nacionalista, de caráter xenofóbico e racista. Para disseminar suas mensagens e atingir a emoção das pessoas a seguir a sua ideologia populista de direita antistablishment, como ele mesmo denomina, o estrategista utiliza os dados pessoais coletados de forma indevida das plataformas — principalmente o Facebook.

Com informações como gênero, faixa etária, religião, interações, buscas realizadas e outros dados, é possível traçar um perfil psicológico, e com os números de telefone vazados direcionar desinformação, mentiras que reforcem os medos e preconceitos e, assim, alavancar candidaturas ou destruir outras através do submundo do WhatsApp.

E o que tudo isso tem a ver com a eleição no Brasil?

Bom, vamos a cronologia dos fatos.

Em agosto de 2018 Eduardo Bolsonaro se encontra com Steve Bannon em Nova York, onde acerta uma “contribuição” do estrategista político a campanha do pai. Ele tuitou o encontro no dia 03 de agosto: “Conheci hoje Steve Bannon, estrategista da campanha de Trump. Conversamos e concluímos ter a mesma visão de mundo. Ele afirmou ser entusiasta da campanha de Bolsonaro e certamente estamos em contato para somar forças, principalmente contra o marxismo cultural”.

À revista Época, o filho de Bolsonaro afirmou: “Bannon se colocou à disposição para ajudar. O suporte é dica de internet, de repente uma análise, interpretar dados, essas coisas”.

Bem, entre os dias 14 e 18 de setembro ocorre um ataque ao Facebook explorando três falhas de segurança nos tokens de acesso de quase 90 milhões de contas. A informação só veio a público no dia 25 de setembro, uma semana depois, quando a plataforma desconectou automaticamente cerca 90 milhões de usuários, mas sem fornecer maiores detalhes do vazamento.

Nesta quarta-feira, 17 de outubro, uma atualização da notificação de segurança foi enviada pela plataforma para os usuários que tiveram comprovadamente suas contas afetadas. Eu sou uma delas. Nesta notificação, há um detalhamento de quais informações foram coletadas. 

Minha conta do Facebook foi afetada por esse problema de segurança?

Sim. Com base no que descobrimos até o momento em nossa investigação, os invasores acessaram as seguintes informações das contas do Facebook: Nome, Endereço de e-mail principal, Número de telefone mais recente adicionado, além disso, os invasores acessaram outras informações das contas, como:

  • As seguintes informações associadas à conta do Facebook: Nome de usuário, Data de nascimento, Gênero, Tipos de dispositivos usados para acessar o Facebook, O idioma escolhido para usar no Facebook.
  • Se você adicionou as seguintes informações específicas à conta do Facebook, elas também foram acessadas: Status de relacionamento, Religião, Cidade natal, Cidade atual, Trabalho, Educação, Site.
  • As dez localizações mais recentes nos quais você fez check-in ou foi marcado. Essas localizações são determinadas pelos locais mencionados nas publicações, como pontos de referência ou restaurantes, e não pelos dados de localização de um dispositivo.
  • As 15 pesquisas mais recentes inseridas na barra de pesquisa do Facebook.
  • Páginas ou pessoas que você segue no Facebook.

Com base no que descobrimos até o momento em nossa investigação, os invasores não conseguiram acesso a determinadas informações, como: Senhas de contas, Informações de cartão de crédito ou de pagamento.

Será que estamos diante de uma interferência na eleição brasileira?

Até 18 de setembro, Bolsonaro estava crescendo dentro da margem de erro nas pesquisas. Ele estava em segundo lugar oscilando entre 26 e 28% das intenções de voto. No dia 14 de setembro, Fernando Haddad assume oficialmente a candidatura a presidente e começa a crescer.

Bolsonaro começa a despontar no final de setembro e é na primeira semana de outubro que cresce uma onda conservadora que resulta numa votação expressiva do candidato do PSL à presidência e de outras candidaturas ligadas a ele, algumas desconhecidas e que nem apareciam nas pesquisas como o candidato ao governo do Rio de Janeiro, Wilson Witzel e no Rio de Janeiro, Romeu Zema.

Nesta quinta-feira, 18/10, o jornal Folha de São Paulo trouxe reportagem de capa dizendo que empresários estão comprando envios em massa no WhatsApp para divulgar os conteúdos de Bolsonaro. Além de o fato ser crime eleitoral, porque configura caixa 2, é preciso perguntar: como estão construindo essa base de contatos telefônicos de WhatsApp? Lembre-se que o Facebook já confirmou acima que um dos dados vazados é exatamente o número de telefone dos usuários.

Claro que tudo pode ser apenas mera coincidência. Mas o papel de um jornalista e das organizações sociais é questionar, fazer perguntas. Como se desenvolve essa campanha de Bolsonaro? Como a campanha está conseguindo esses contatos telefônicos para envio de mensagens em massa de mensagens de WhatsApp? Como Steve Bannon está ajudando de fato na campanha?

E ainda:

  1. Há ou não relação entre a enxurrada de mentiras e desinformação que o candidato do PSL coloca na rede com o vazamento dos dados do Facebook?
  2. Quantos usuários brasileiros foram afetados pelo vazamento?
  3. De que regiões do Brasil?

Ainda não há informações de quantos usuários brasileiros foram afetados, mas pipocam relatos de pessoas em todo o país dizendo que receberam a notificação do Facebook. Esse episódio configura gravíssima quebra de privacidade dos usuários e a rede social deveria prestar informações mais detalhadas além da origem do ataque.

Isso é relevante porque o padrão de campanha de difamação utilizando o WhatsApp e o Facebook promovido por Bolsonaro se assemelha muitíssimo à campanha de Trump e do Brexit.

O TSE, que até o momento está inerte diante de uma campanha impulsionada por mentiras e difamação, deveria cobrar explicações mais rigorosas do Facebook – principalmente porque a Lei eleitoral beneficiou essa plataforma ao permitir que as campanhas pagassem para impulsionar posts de candidatos no Facebook.

O Tribunal deveria, também, cobrar explicações de Bolsonaro sobre a participação de Steve Bannon em sua campanha, um homem que está atuando em vários países de forma no mínimo questionável.

O envio massivo de mensagens via WhatsApp também tem que ser apurado. O ex-diretor do DataFolha, Mauro Paulino, diz que as pesquisas no final do segundo turno são incompatíveis com o resultado da eleição e que os institutos identificaram na reta final uma onda que pode estar relacionada ao uso massivo e indevido de mensagens via whatsapp para impulsionar as candidaturas no RJ, DF e MG.

Não podemos ficar numa zona cinzenta e cheios de dúvidas sobre se houve ou não uma intervenção indevida no processo eleitoral do país.

Precisamos saber, ou melhor, temos o direito de saber se o vazamento de dados pode estar sendo utilizado para manipular as eleições no Brasil.

 

 

Jean Wyllys: Operação Lava-Zap

Jean Wyllys: Operação Lava-Zap

#Caixa17 | Arte: Ribs

Parte da imprensa está preferindo, sabe-se-lá a troco do quê, omitir o escândalo denunciado por Folha de São Paulo em sua edição de hoje. O jornal obteve acesso a materiais claríssimos sobre a atuação de grandes empresários para financiar de forma ilegal a estratégia de campanha da equipe de Jair Bolsonaro.

Folha teve acesso a dados que apontam para quem pagou, quem recebeu e de que forma foram entregues os chamados pacotes de mensagens distribuídas por whatsapp e perfis falsos no Facebook, boa parte delas notícias falsas.

Estima-se que os pacotes teriam custado até 12 milhões de reais cada, valor muito superior ao montante até agora declarado pela campanha de Bolsonaro, o que configura #Caixa2doBolsonaro

O assunto, claro, não é surpresa para ninguém. Nos últimos dias as redes foram inundadas de materiais absurdos. Desde boatos que associavam Haddad à pedofilia até falsas mensagens e declarações de sua vice, Manuela D’Avida. A novidade consiste na demonstração de provas cabais.

Eu, mesmo, como muitos sabem, fui um dos alvos preferidos desta quadrilha. Aproveitando-se da pré-disposição das pessoas em acreditar em calunias sobre LGBT’s orgulhosos das suas identidades, a campanha de Bolsonaro tentou me associar a um filme apócrifo sobre a Bíblia, à suposta tentativa de autorizar crianças a trocar o próprio sexo e também à pedofilia, entre outras manchetes criminosas.

Por este motivo tomei a iniciativa de protocolar junto a Procuradoria-Geral Eleitoral um pedido de instigação da matéria de Folha de São Paulo e dos seus argumentos. Se tudo for comprovado, e parece muito difícil que não o seja, a obrigação da justiça é punir todos os responsáveis e reparar os danos causados pela organização criminosa.

Bolsonaro é acusado de caixa dois para envio de mensagens contra o PT no whatsapp

Bolsonaro é acusado de caixa dois para envio de mensagens contra o PT no whatsapp

Investigação diz que 12 milhões foram investidos por empresários para divulgação pelo app

Foto: Alessandra Angelis

Jair Bolsonaro (PSL) está recebendo investimento de empresários para campanha contra o PT no whatsapp, de acordo com investigação do jornal Folha de S. Paulo divulgada nesta quinta-feira, 18. Segundo o periódico, o candidato teria recebido em torno de 12 milhões para a campanha, prática que é considerada crime eleitoral.

A reportagem ainda indica que na próxima semana, que antecede as eleições, os empresários estão planejando uma ofensiva em massa, tanto para divulgação de Bolsonaro, quanto para campanha contra o PT.

A intensa e milionária movimentação no whatsapp mostra como a rede é importante para a construção do eleitorado bolsonarista: pesquisa do Datafolha, publicada no último dia 02/10, mostrou que 61% dos eleitores do militar acompanham informações sobre política no app, e 40% compartilham essas notícias.

Além disso, a distribuição de boatos e notícias falsas já marcam a eleição, tanto porque analistas apontam que o TSE falhou em contar a onda de mentiras distribuídas pelo whatsapp, quanto pela influência delas no resultado final das eleições.

Entre os grupos empresariais que estariam investindo na campanha de Bolsonaro, está a Havan, de Luciano Hang, notório apoiador do militar nas redes sociais, e que chegou a ser acusado de coagir funcionários da rede a votarem em seu candidato.

Eles compram um serviço chamado “disparo em massa”, usando bases de usuários tanto comprados em agências, quanto do próprio Bolsonaro. As agências que realizam os envios conseguem segmentá-lo por território e por classe social dos usuários.

O custo de envio varia, conforme o dono da lista. Se a lista for do próprio contratante, cada disparo fica de R$ 0,08 a R$ 0,12. Se a base for da agência, o custo vai de R$ 0,40 a R$ 0,50. Em alguns casos, as bases são vendidas clandestinamente por funcionários de empresas de telefonia.

A legislação permite o envio de informações apenas para bases construídas voluntariamente, ou seja, quando o eleitor dá o seu número. Em todos os outros casos a prática é ilegal.

As empresas que, conforme informa a investigação, estão prestando serviços para os disparos são a Quickmobile, Yacows, Crock Services e SMS Market.

Na prestação de contas da campanha de Jair Bolsonaro, consta apenas a empresa AM4 Brasil Inteligência Digital para a comunicação, no valor de R$ 115.000,00 para mídias digitais. Sendo assim, caso se confirme, o candidato estaria fazendo caixa dois, o que se configura como crime eleitoral.

Tanto Hang, dono da Havan, quanto as agências e a AM4 negam as acusações, alegando que o alcance das publicações são orgânicos, e não houve investimento ilícito para promover os conteúdos.

Economia pelo bem viver

Economia pelo bem viver

Foto: Juliana Afonso

por Áurea Carolina

Em suas diferentes facetas, o golpe político-jurídico-midiático consumado em 2016 afeta profundamente as lutas por justiça econômica e pelo bem viver no país. Uma das suas expressões mais nefastas é a aprovação, pelo Congresso Nacional, da Emenda Constitucional 95, o “Teto dos Gastos” (derivada da PEC 241/55), que congela o gasto público real por 20 anos. A longa duração da medida, sua vinculação à Constituição e sua inflexibilidade, que impede a correção pelo crescimento ou aumento populacional, fazem com que seja uma política de austeridade sem precedentes no mundo.

Em paralelo, políticas sociais muito importantes de enfrentamento à pobreza e às desigualdades sofrem as consequências de um processo deliberado de sucateamento. Importantes ministérios e secretarias são unificados e/ou extintos, equipes são reduzidas e orçamentos são contingenciados em favor de um novo regime fiscal supostamente dedicado a “salvar o país” da recessão e da crise. Em conjunto, o que se observa é um desmonte acelerado (e invisibilizado) das políticas sociais no país, conquistadas no processo de redemocratização brasileira.

Essa situação tem aprofundado as já abissais desigualdades socioeconômicas da nossa sociedade, com impactos desproporcionais para quem já está em situação de vulnerabilidade. O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo: de acordo com pesquisa da Oxfam Brasil, os cinco homens mais ricos concentram a mesma riqueza que os 50% mais pobres da população. Para piorar a situação, especialistas têm apontado um risco iminente de retorno ao Mapa da Fome da ONU, que o país havia deixado em 2014.

Além disso, a dinâmica da economia em nosso país está estritamente ligada ao histórico de opressões sofridas por diversos grupos sociais. Segundo o IBGE, os indicadores de pobreza são maiores em função da cor, do sexo e da estrutura familiar: uma mulher preta ou parda sem cônjuge e com filho, por exemplo, tem alta probabilidade de ser pobre (64% das mulheres nessas condições estão abaixo da linha da pobreza estipulada pelo Banco Mundial), enquanto as chances de um homem branco ser pobre é bem menor (dos declarados brancos, 15,3% são pobres). O genocídio da juventude negra é outro fenômeno cujas consequências podem ser vistas à luz da economia, tendo em vista as milhares de vidas produtivas precocemente perdidas. Por isso, é fundamental debater justiça econômica e outras questões estruturais enfatizando as dimensões de raça, gênero e sexualidade, faixa etária, território e outros marcadores sociais.

Injustiça econômica

A crise do atual modelo econômico que vivemos também se assenta no modelo de arrecadação do Estado brasileiro. Sabemos que tributos importam e sua incidência tem impactos de gênero, raça, classe. O Brasil opta por um sistema majoritariamente regressivo, tendo como base principal a tributação por consumo (como o ICMS e o ISSQN). A conta aperta para quem está já em situação de vulnerabilidade: as pessoas pobres pagam proporcionalmente mais impostos.

Já fontes de arrecadação que poderiam contribuir mais efetivamente para a diminuição das desigualdades – como tributos sobre o patrimônio (IPVA e IPTU) e, especialmente, sobre renda, doações e heranças –, são pouco priorizadas como base fiscal. Outro gargalo é o imposto sobre grandes fortunas, previsto na Constituição mas ainda não regulamentado, embora exista um projeto de lei sobre o tema tramitando no Congresso.

O cenário no Brasil é de injustiça econômica. Organismos internacionais têm alertado que o atual modelo de tributação e de execução dos gastos públicos e as transferências de renda não têm sido eficientes na redução das desigualdades. Ao não se utilizar do sistema fiscal para garantir oportunidades equivalentes a todas as pessoas – corrigindo, assim, opressões históricas associadas a fatores como o gênero, a raça e a classe – o Estado atua para concentrar riquezas e impedir que as pessoas possam viver suas vocações e seus talentos. As mulheres, a população negra, a juventude, as comunidades LGBTIQ, indígenas, quilombolas, pessoas que vivem nas periferias, ou seja, as maiorias sociais, são as mais afetadas por isso.

Cenários possíveis

A economia também é política e a (re)democratização de qualquer nação passa, necessariamente, pela busca da democracia fiscal. Além da arrecadação/tributação (receitas), é fundamental acompanhar o orçamento e os gastos públicos (despesas), que refletem as prioridades e as escolhas de uma determinada gestão. A ausência de investimentos também é significativa. Assim, é necessário acompanhar limitações e cortes no orçamento, em termos quantitativos (quanto está sendo cortado e/ou não executado) e qualitativos (quais áreas sofrem tais cortes e por quê). Mantemos a defesa firme de políticas de ação afirmativa e de redistribuição de renda, que jamais devem retroceder. Também defendemos uma reforma tributária consequente, participativa e atenta à democracia fiscal, e que viabilize a distribuição de renda, o provimento de serviços de qualidade à população e a correção de desigualdades históricas.

As saídas para esse quadro tão desfavorável passam pela construção de alternativas econômicas com participação da sociedade. Acreditamos na economia solidária, na economia criativa, no empreendedorismo social e em outros arranjos produtivos que buscam superar a lógica tradicional de mercado, desde que estejam a serviço do empoderamento econômico e social dos sujeitos. O impacto local/territorial de tais iniciativas deve ser levado em conta, bem como seu potencial de articulação em redes. Outro ponto de atenção é a informalidade: lutamos por condições dignas para trabalhadoras e trabalhadores, o que nem sempre implica formalização a todo custo – vide a questão dos trabalhadores informais ambulantes em BH e o compromisso da Gabinetona com essa luta.

Estamos integralmente comprometidas com o enfrentamento à pobreza e às desigualdades. É nosso papel qualificar essa discussão, sempre em perspectiva interseccional.

Perdemos bem mais do que as eleições

Perdemos bem mais do que as eleições

“Querer ser livre é também querer livres os outros.” Simone de Beauvoir

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Medo. Essa tem sido uma das palavras mais repetidas pelos meus amigos em suas timelines. Rolo a tela do celular e vejo postagens carregadas de um forte sentimento de desesperança. Textos feitos com o coração nos dedos na tentativa de causar o despertar naqueles que, sem pudor, apresentam sua predileção pelo horror. Sem falar nos diversos links de matérias sobre como o mundo avalia este momento, ignorados por vídeos torpes e montagens mal feitas no whatsapp.

Tento buscar em mim alguma força para enfrentar estes dias, mas principalmente ajudar meus amigos a não perder o brilho no olhar. Sinto-me resistente, porém ao mesmo tempo triste em presenciar tal realidade. Jamais imaginei experimentar um cenário distópico como nos filmes e, apesar de conhecer o roteiro básico destas narrativas não sei dizer como ou o que fazer nestes casos. Talvez a vida tenha extrapolado os limites.

Acompanho outras pessoas eleitoras do Bolsonaro. Sim, direi o nome dele porque a ameaça já não é mais uma sombra. É real e datada. Bolsonaro. A boca amarga quando a palavra sai, os dedos embolam, mas é preciso dizer. É preciso entender como essa criatura chegou ao lugar de destaque de modo tão avassalador.

Seu eleitorado não é homogêneo em sua composição. Nem todos são fascistas, mas todos estão tomados pelo medo. Quer dizer, todos estamos. Do lado de lá há os que temem a falta de segurança nas ruas, os que temem o diferente, as mudanças. Tem aqueles que estão cansados de tanta corrupção, especialmente as relacionadas e midiatizadas em torno do PT.

É comum em momentos de crise surgirem a figura do vilão e do mocinho. Hoje o antipetismo alimentou-se do medo e criou um novo Messias. Essa figura messiânica é bem diferente da outra. Nada de amor ao próximo, ao dar aos pobres e acolher aos aflitos. Para ele a máxima é que se dane o próximo, que se virem as minorias e viva aqueles que eles julgarem ser “de bem”.

A quantidade de pessoas com deficiência a favor do Bolsonaro é assustadora, mas resume muito bem a condição do nosso movimento no país. Somos fragmentados e presos em nossas realidades. Não nos vemos no outro. Não há representações consistentes. A maioria das pessoas com deficiência ainda não se veem como cidadãos, entendem seus direitos como favores e sua condição como penitência. Seu corpo é para ser escondido e assim vivem uma vida de lamentações e ausência total de amor próprio.

Claro que temos diversas outras realidades que atravessam esse cenário, a falta de educação de qualidade desde o ensino infantil, a falta de socialização, o super protecionismo familiar e a ausência de infraestrutura arquitetônica e sociais contribuem para essa apatia de muitos.

Porém, como disse, eleitores do Bolsonaro não são homogêneos. E considero de suma importância fazer esta distinção, pois se defendemos a diversidade devemos aprender a enxergá-a no próximo também. Principalmente se este possuir ideias diferentes. Se queremos e precisamos lutar pela nossa democracia, precisamos estar dispostos a enfrentar o embate de ideias.

Contudo, há uma diferença entre ser ingênuo e agir com sabedoria. Ser ingênuo é considerar que devemos tentar conversar com quem não está interessado em ouvir. É perder tempo com aquele colega fascista que tem prazer em falar mal de minorias.

Agir sabiamente é observar com quem estamos relacionando, tentar identificar o que motiva as ideias daquela pessoa tão diferente de você. É saber a hora de não dizer nada. Às vezes, por mais que doa admitir, existem aqueles que apoiam esse candidato por gostar das ideias dele.

Dói demais quando descobrimos alguém bacana apoiando e fazendo campanha para Bolsonaro. A gente perde a admiração, há um lamento miúdo e uma decepção única. É como se vivêssemos o bolsoluto.

Primeiro nos tiraram a alegria e nos deram medo. Acredito que nesse momento perdemos bem mais que as eleições porque perdemos a empatia. Tiraram a capacidade de se importar com o outro e deram o egoísmo. Aquele estado de “tudo bem ele ser (insira aqui algum preconceito), pelo menos vai (insira aqui alguma fake news).

Entretanto, não é mais tempo de luto. É tempo de resistir. Seja qual for o resultado do segundo turno precisaremos agir em conjunto, alinhados com um mesmo pensamento de mudança e preservação dos nossos direitos.

Encontre seus amigos, renove suas energias, cuide de sua saúde mental, de sua integridade física e se prepare. Podem nos chamar de minorias, mas juntos somos muito mais fortes.

Leandrinha DuArt: Quem é a próxima vítima do ódio?

Leandrinha DuArt: Quem é a próxima vítima do ódio?

Ninguém está sentindo medo? Sério!?

Foto: Reprodução

Quem é a próxima vítima do ódio? Eu? Você?

Uma das minhas tombou.

Ninguém está sentindo medo? Sério!? Porque eu temo a minha vida quando estou em lugares abertos ou superlotados. Quando entro no metrô também. Eu ando de janelas fechadas, prefiro carro de vidro fumê. Minha cadeira de rodas tem cinco níveis incríveis de velocidade, eu ando no cinco correndo para que eu não seja parada em momento algum, porque dependendo do lugar, eu tenho medo.

Não converso com todo mundo que me aborda. Se alguém me grita na rua eu aceno, às vezes. Nunca conversei, mesmo sendo a coisa que eu mais amo fazer, e já ia me esquecendo, também ando de cabeça baixa se estou sozinha.

Me esquivo de toques surpresas, e às vezes reajo mal, porque tenho medo que alguém queira me puxar. Se estou de joelhos na cadeira de rodas pra conversar, como sempre fico, quem me conhece sabe, prefiro que alguém fique próximo a mim, me sinto mais segura.

Quando algum macho hétero branco me elogia ou pede foto, fico receosa. Se daqui a algumas horas minha página ser bombardeada de ataques, idem. Quando tem muita gente no local e eu não consigo visualizar a saída, devido estar sentada e mais baixa, peço para alguém abrir caminho para que eu passe, não só por causa da acessibilidade, mas também porque consigo andar com mais agilidade para sair da multidão, nunca sei o que pode acontecer.

Estrelismo!? Parece neh? Antes fosse… Agora me dei conta que ser quem eu sou me torna um alvo fácil. Parece uma loucura, mas neste momento está muito mais palpável a insana brutalidade cega, disfarçada de posicionamento político alienado.

Meu país não é um lugar seguro para mim.

Welcome to Brazil.

Jean Wyllys: Legado dos governos petistas foi mais importante na educação

Jean Wyllys: Legado dos governos petistas foi mais importante na educação

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A chegada das esquerdas ao poder em 2002, foi importante em vários sentidos. Um dos mais importantes foi a educação, e um dos grandes protagonistas das conquistas desse período foi Fernando Haddad.

Com Haddad a frente do Ministério da Educação, houve universalização do ensino básico e salto de um percentual irrelevante de jovens matriculados no ensino superior para uma porcentagem muito maior, que começou a incluir pobres, negros, indígenas e moradores das favelas e das periferias. Programas como REUNI, que ampliou muio a oferta de vaga em universidades públicas, o FIES e o PROUNI, que ampliaram a oferta de vagas nas universidades particulares, foram importantíssimos para dar a oportunidade a milhares de jovens de obter pela primeira vez em suas famílias um diploma.

A unificação dos vestibulares em torno do ENEM significou não só uma simplificação do acesso como também uma democratização, a medida que barateou os antigos custos elevados com várias provas diferentes e viagens.

O sistema de cotas, implementado progressivamente, para alunos pobres e oriundos de escolas públicas, com recortes de raça, para negros e indígenas, modificaram o perfil social das instituições de ensino e, ao fazê-lo, modificaram também as comunidades de onde saíram estes alunos. Modificaram a relação de todo sistema de ensino com as comunidades dos alunos.

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Agora médicos negros atendem mais pacientes, antes um fato raríssimo. Filhos e filhas de empregadas domésticas, uma profissão que foi a de milhões de pessoas em gerações passadas, agora fazem cursos de arquitetura ou direto, antigamente associados exclusivamente às elites.

A transformação pela educação que experimentamos ainda reverbera e está na raiz de um nível maior de exigência com relação às políticas públicas.

É certo que também há resistência, aqueles que agora falam em falta de necessidade de diplomas e na necessidade de cortas disciplinas nas escolas, mas todos os sinais apontam para uma mudança irreversível, uma nova era de brasileiros mais críticos e socialmente responsáveis. O legado petista na educação será fato social para qualquer novo governo e é maior do que o próprio partido poderia controlar. E com Haddad na presidência, esse legado pode ser ampliado para novos avanços e desafios, por uma educação pública cada vez mais inclusiva, democrática e de qualidade!

Milagro Sala: Os mil dias de uma prisão injusta

Milagro Sala: Os mil dias de uma prisão injusta

Foto: Telesur

Os mil dias de prisão de Milagro Sala,mesmo sem condenação, chegam como demonstração que a Argentina se encontra mais próxima ao autoritarismo. A análise este processo aclara que o judiciário do pais se encontra enfermo manuseado pelo executivo. Cada papel que cai sobre a mesa que possa envolver o governo Macri evapora-se automaticamente, enquanto dos seus opositores são criados a cada dia. Um exemplo aparente é a tentativa de prender a ex-presidente Cristina Kirchner baseada por cópias de um caderno. O objetivo é se prender a carne e osso, para impedir um ideia .

A caçada judicial sobre Milagro e movimento La Tupac começa com a chegada do Partido Cambiemos no executivo nacional e no estado de Jujuy em dezembro de 2015.Os argumentos vão desde organizar um movimento pacífico nos jardins da sede do governo de Geraldo Morales,até mal uso do dinheiro público na construção de habitações. As cooperativas construíram 16 bairros inteiros e 2800 casas, o maior projeto da história da província.

A líder do maior movimento social argentino, serve de laboratório para o uso do judiciário como arma política. Uma justiça injusta para aprisionar opositores de um modelo liberal que levou o país a insolvência,hipotecou a soberania ao FMI e transformou Macri num mandatário impopular. Em verdade , ao construir milhares de habitações num modelo solidário para os mais necessitados, Milagro gerou emprego para os desocupados e arruinou o negócio de construção para empresas privadas golpeando a especulação imobiliária. Uma prática “imperdoável” na cadeia de acumulação de capital.

Presa numa casa na região de ” La Ciénaga”, Milagro escreve um livro a quatro mãos com seu esposo Raul Noro, enquanto ler sobre ascensão de Evo Morales e suas políticas que recuperaram a Bolívia. A líder reafirma sua pretensão de ser governadora justificando que a justiça só voltará,incluso a social, com a mudança na administração. A ação de Milagro é comprovação que existem muitos que pensam e fazem para os que menos tem.

Demostrando total conhecimento do processo histórico que decorre na Argentina e no continente, Milagro clama neste dia:”Desejo que os governos administrem para seu povo e não para o FMI. Pátria sim, colônia não.”

Caetano Veloso responde a Olavo de Carvalho

Caetano Veloso responde a Olavo de Carvalho

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Olavo de Carvalho sugere em texto que, caso Bolsonaro se eleja, imediatamente à sua posse seus opositores sejam não apenas derrotados mas totalmente destruídos enquanto grupos, organizações e até indivíduos.

Ele diz que os que consideram Bolsonaro uma ameaça à democracia não estão lutando para vencer uma eleição e sim “pela sobrevivência política, social e até física”. Isso é anúncio de autoritarismo matador.

Bolsonaro já disse que a ditadura matou pouco, já apareceu usando tripé de câmera como fuzil a metralhar petistas, já louvou o torturador e assassino coronel Brilhante Ustra. Quando atacado a faca por um maníaco, todos os outros concorrentes à presidência condenaram veementemente o atentado e seu autor; quando um eleitor seu matou um artista baiano que declarara voto no PT, Bolsonaro disse que não tinha nada a ver com isso.

Esse texto de Olavo anuncia uma escalada de ações violentas e conclama seus seguidores a perpetrá-las tão logo Bolsonaro chegue (se ele chegar) ao Alvorada.

É evidente que todo cidadão brasileiro que mereça esse nome –seja ele Fernando Henrique Cardoso, Roberto Carlos, Roberto Schwartz, Suzana Vieira, Chico Buarque, Luiz Tenório de Oliveira Lima, Letícia Sabatela, Fernando Haddad, Zezé de Camargo, Miriam Leitão ou ACM Neto– deve agir contra a possibilidade de eleição de Bolsonaro. A não ser que este desautorize publicamente o texto de Olavo. Único modo, aliás, de dar credibilidade a suas tentativas de amenizar o sentido de seus antigos brados.

Olavo, o sub-Heidegger do nosso sub-Hitler (ou sub-Spengler do nosso sub-Goebels), diz que petistas, artistas, mídia, professores, jornalistas e intelectuais apelam a recursos ilícitos e imorais para obter vitória. No entanto, acabo de ler um texto em letras grandes, produzido pelos correligionários do capitão, que diz: “o PT quebra imagens, esfrega o crucifixo nos órgãos genitais, urinam (sic) na Bíblia e agora quer apoio católico”.

Deve ser a milionésima fake news expedida pela campanha bolsonarista. Olavo é figura histórica da anti-esquerda. Catequizou gerações de jovens brasileiros a um anticomunismo delirante e ressentido.

Faz décadas uma jovem conhecida minha tinha se convertido ao islamismo através dos ensinamentos de Olavo, seu carismático professor. A força dos parágrafos de Fritjof Schuon, autor que li fascinado, devem ter chegado com beleza aos ouvidos da moça, através das explanações brilhantes de Olavo. Mas desconfio de que o que o animava não era a beleza do Islã, sua tradição, sua riqueza espiritual. O que o entusiasmava eram as teocracias tardias que o desfiguram.

Olavo hoje posa nos EUA segurando arma pesada. Quão útil será sua cruzada para a indústria armamentista? É-se inocente útil mesmo quando se torna paranoicamente suspicaz. Para ele, o que há na aventura da modernidade é necessariamente o mal.

Intelectual erudito e mente insana, nem sabe que eu só sei de um caso de artista que masturbava-se com um crucifixo (ele o declarou em entrevista na TV) –e era justamente um que hoje aparece ao seu lado.

Eu nunca fui petista. Nunca fui comunista. Odeio ter ouvido de Dirceu que o caso não é de ganhar eleição mas de tomar o poder. Meu pai me ensinou a ser anti-stalinista e, vendo a discrepância entre a vida real dos trabalhadores e os planos das “vanguardas” políticas, aprendi a ser anti-leninista (diante das filas para ver a múmia de Lenin em Moscou, reafirmou-se meu desprezo: detesto o mais ínfimo resquício de culto à personalidade que ronda Lula). Mas farei o que me for possível para vencer o crescimento da desigualdade e, acima de tudo, defenderei os direitos da pessoa humana.

Considero o texto de Olavo incitação à violência. Convoco meus concidadãos a repudiá-lo. Ou vamos fingir que o candidato dele já venceu a eleição e, por isso, pode mandar matar quem não votou nele? Respeitarei como presidente quem quer que se eleja. Mas exijo dele que exiba compromisso com os direitos da pessoa humana e, como os outros cidadãos, rejeite o que foi sugerido por Olavo de Carvalho.

É o Whatsapp, estúpido!

É o Whatsapp, estúpido!

Foto: Divulgação

Por Wilson Gomes, publicado na Revista Cult

Dizem que Lula disse que Haddad tem que ir às ruas, para ganhar a eleição. Ruas são legais e, afinal, não já combinamos que todo político popular tem que ir aonde o povo está? Na verdade, contudo, ruas são boas mesmo é para gerar tomadas para os programas eleitorais e para se conquistar “free media” nas coberturas dos jornais e telejornais. Além disso, não foi nas ruas que a campanha pró-Bolsonaro achou 49 milhões de eleitores.

Dizem que a esperança agora é uma campanha televisiva com mais tempo e com apenas dois adversários. O PT, afinal, sempre foi bom de propaganda na televisão, desde o longínquo 1989, quando parodiou com grande sucesso de público e crítica a arqui-inimiga Globo ao inventar a Rede Povo. Mas, não, não foi no sofá em frente à TV que os bolsominions encontraram 49 milhões de eleitores e ainda tomaram eleitores de Alckmin, que tinha 40 vezes mais tempo de tela do que o seu candidato. Nem certamente foi nas entrevistas e debates televisivos que o deputado simplesmente ignorou quando quis, que Bolsonaro foi buscar os votos de que precisava para quase liquidar a fatura da corrida eleitoral no primeiro turno.

Dizem que a campanha do PT decidiu que vai ser preciso dar mais atenção às redes sociais digitais e aos blogs (que petistas digitais tem uma crença enternecedora em blogs), dando um “up” nos perfis públicos do candidato e, quem sabe, investindo em impulsionamento. Bolsonaristas e o próprio Bolsonaro mandaram muito bem no Twitter e no Facebook, inclusive trocando entrevistas em redes de televisão por “lives” no Facebook e por vídeos improvisados postados no Twitter. Até mesmo, forçando o centro da visibilidade pública nacional, o prime time do telejornalismo, a reproduzir vídeos mambembes publicados digitalmente pelo próprio candidato, em direto, provocador e inusitado desafio à televisão. Mas a campanha em redes sociais foi apenas a superfície da campanha digital, cujo centro foi constituído por um aplicativo de comunicação instantânea e não por uma “rede social”. Sim, desculpem os petistas, mas não foi exatamente em redes sociais digitais que a campanha pró-Bolsonaro capturou, motivou, mobilizou e transformou em ativistas os bolsominions que foram à cata dos 49 milhões de votos depositados na conta do deputado no primeiro turno da corrida presidencial.

“Redes sociais” são um negócio antigo, totalmente 2017. O termo do ano em 2018 é “mídias digitais”. Se quisermos ser mais específicos, a palavra é WhatsApp. A campanha digital pró-Bolsonaro é centrada no aplicativo, para onde e de onde se dirigem os fluxos de tráfego que vão e vêm das e para as redes sociais digitais, sites de fake news, YouTube, portais dos jornais e telejornais.

Há evidentes vantagens em se preferir WhatsApp a redes sociais digitais. A visibilidade nas redes sociais é gerenciada por algoritmos fora do controle dos seus usuários, o WhatsApp não tem algoritmos controlando a distribuição e o alcance dos conteúdos. Redes sociais são públicas e, portanto, as pessoas podem ser chamadas a responder pelo que publicam, enquanto o WhatsApp é privado e facilmente passa sob o radar da autoridade eleitoral. O que é publicado em redes sociais digitais chega às pessoas se elas ativamente se conectarem a essas redes e procurarem tais conteúdos, enquanto o material publicado no WhatsApp chega aos telefones pessoais até de forma passiva, inadvertidamente. É um conteúdo invasivo e onipresente que chega aos bolsos e às mentes das pessoas por meio dos hoje indispensáveis e altamente disseminados aparelhos celulares.

Grupos de WhatsApp de apoio a Bolsonaro (há dois meses frequento alguns deles) serviram basicamente para fins de veiculação de teorias da conspiração, fake news de desmascaramentos de fantasiosos complôs, fakes news para disseminar mentiras sobre os adversários, declarações de “já ganhamos”, mobilizações para “vamos atacar fulano que não gosta de nós” e ampla oferta de memes e áudios para serem distribuídos, a partir dos grupos, para os formigueiros digitais. O WhatsApp é a superfície comunicacional, o ambiente digital, que conecta e articula dezenas de milhões de telefones celulares, portanto, de pessoas. Demora poucos segundos apenas para que um meme, um áudio, uma fake news inserida no sistema linfático dessa rede gigantesca de smarphones e militantes por meio de um grupo de WhatsApp de apoio a Bolsonaro passe para os grupos de família, de amigos, de colegas de trabalho ou faculdade, da turma do futebol ou do tênis e, enfim, chegue a todas as pessoas listadas nos contatos do meu telefone. Não há precedentes históricos para um sistema tão eficiente de disseminação de conteúdo de campanhas.

A campanha no WhatsApp é muito peculiar: é de baixo para cima, funciona independentemente da coordenação de campanha (se há), apoia-se em uma infraestrutura enorme de grupos hiperativos, tem extrema capilaridade, um alcance inigualável e uma velocidade de difusão até então desconhecida. Por outro lado, não conhece limites morais: mente-se, falsifica-se, forja-se, inventa-se, faz-se o que se julgar apropriado para defender o próprio candidato ou para atacar adversários. Como as moderações são mínimas, e servem basicamente para banir infiltrados, podem imaginar como esses grupos são um vale-tudo incessante.

No sábado, véspera do primeiro turno, por exemplo, circulou amplamente que o TSE estava armando uma cilada para anular os votos dos bolsonaristas que fossem votar com a camisa do Mito e que Rui Costa havia proibido que os militares fossem votar na Bahia. Tudo postado em tom de urgência e conspiração. Quatro minutos depois que o áudio “denunciando” o recolhimento dos militares aos quarteis por obra do governador, o mesmo material já estava em todos os meus grupos pessoais de amigos que conta com algum bolsominion (e quem não os tem?). No domingo pela manhã, a mesma febril e paranoica atividade de “denúncias” da conspiração das urnas eletrônicas: que em 70% das urnas ou não havia o nº 7 ou não aparecia a foto do deputado ou não foi convalidado o voto nele. E que faltava pouco para uma intervenção militar. O resto da energia foi empregado para o acompanhamento de eventos, em tempo real, como a retumbante vitória do Mito na Ásia e na Oceania. E depois, à noite, para celebrar o fato de que Jean Wyllis não havia sido eleito, provavelmente o mais desejado prêmio da campanha, depois da vitória de Jair. Tudo isso, fora os feitos na Ásia, era falso, mas quem se importa?

Os grupos de WhatsApp enfrentaram a TV e ganharam, mas também não fizeram menor estrago nas ruas. A campanha digital baseada em dispositivos móveis passou por cima de mobilizações de protestos de rua sem grande esforço no seu primeiro teste, quando ressignificaram completamente o #elenão e ganhou do movimento como quis, no modo como o editaram, empacotaram e o distribuíram online. Inclusive o foram desconstruindo em tempo real, enquanto as manifestações ainda estavam acontecendo. Assim, um belíssimo movimento de rua foi desconfigurado e reeditado, para fins de mobilização da rede ultraconservadora, disparando (não falei causando), paradoxalmente, a corrida para o voto em Bolsonaro a que assistimos na última semana da campanha antes do primeiro turno.

Desde a eleição de Obama em 2008, a gente esperava que alguém de esquerda no Brasil fosse entender e dar valor à campanha digital “de baixo para cima”. Nunca a entenderam, nunca a valorizaram. Nem a esquerda nem a direita. Aí veio a extrema direita digital em 2018 e anulou os efeitos da campanha televisiva, derrotou o único grande movimento de rua acontecido nesse período, passou por cima de todas as barreiras que as empresas de plataforma quiseram impor à distribuição de campanha negativa e conteúdo falso e ainda ganhou de goleada das formas tradicionais de articulação política de base.

Os petistas foram muito ágeis em 1989, ao adotar rapidamente a gramática da televisão, que era o meio dominante. Por isso ganhou de Brizola, um homem de palanque e rádio, e disputou o segundo turno com Collor, um homem-TV. Mas nunca foram bons no mundo digital nem o entenderam. Chegaram no máximo à fase dos blogs, o instrumento preferido dos “bloqueiros sujos” – ou lulistas, segundo as más línguas. Nunca se deram bem em redes sociais. Um desastre. Dilma deixou o seu perfil no Twitter abandonado por, literalmente, 4 anos. É, portanto, claro que ainda não compreendem os paranauês de uma campanha baseada no WhatsApp. O ano que vem eles os entendem, não os apressem.