Pretas, Gordas, na Praia!

Pretas, Gordas, na Praia!

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Fotos de Mídia Ninja, Coletivo Iso314 e LuaLeca

15 mulheres marcam de ir a praia. O número por si só chama atenção. Onde vai tanta mulher junta? Porque tanta mulher junta?

Impacto número dois: são negras. Dançando entre os espectros coloristas, com miscigenações indígenas, todas negras. Olhares de curiosidade, cochichos entre os homens, alguns ambulantes param pra ver.

Impacto número três: são gordas. Gordas. Não são cheinhas, fofas, de ossos grandes. São gordas, se chamam de gordas e se abraçam gordas. Agora as pessoas já param pra olhar, apontam o dedo e gritam ofensas aleatórias. Quando param para uma pose, outras cinco ou seis câmeras aparecem e é preciso explicar a essas pessoas que nossos corpos são são públicos.

Somos só 15 mulheres negras e gordas na praia.

Tudo bem, não é qualquer praia.
É o Porto da Barra, praia turística, point do carnaval, cheia de gringos. Uma das referências de Salvador, sempre nas listas de top praias do Brasil.

A proposta começa como um ensaio desses corpos nessa praia, mas se torna intervenção. Jornalistas, transeuntes, vendedores, todes param para ver as gordas passarem.

Mesmo com os olhares de reprovação e indignação, uma coisa é fato — não é possível ignorar mulheres. Pretas. Gordas.

E daqui pra frente, vai ser sempre assim.

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Daniel Zen: 48 dias de governo Bolsonaro

Daniel Zen: 48 dias de governo Bolsonaro

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Fabrício José Carlos de Queiroz, o famoso Queiroz, administrava o misto de laranjal com lavanderia do gabinete do então deputado estadual e hoje Senador da República, Flávio Bolsonaro (PSL), na Alerj.

Em apenas três anos, ele teria movimentado a quantia de R$ 7 milhões em uma conta em seu nome.

Saques e depósitos frequentes, de assessores parlamentares de Flávio, para Queiroz – incluindo sua esposa, duas filhas, a ex-mulher, o esposo da ex-mulher e mais 3 outros colegas – que coincidiam com as datas de pagamento na Alerj, sugerem a prática de “mensalinho” ou “raxadinha”, que é a coleta de parte do salário dos assessores para o parlamentar, por intermédio de uma “conta de passagem”, no caso, em nome do próprio Queiroz.

O esquema envolve, diretamente, o Presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL) e a Primeira-Dama, Michelle Bolsonaro, pois ambos teriam recebido cheques de Queiroz, além de ter havido nomeações cruzadas entre os Gabinetes de Jair e Flávio – justo uma das filhas do Queiroz. O Presidente alega tratar-se de pagamento de empréstimos, feitos por ele a Queiroz, seu amigo pessoal.

Queiroz tem comprovado envolvimento com milicianos de Rio das Pedras-RJ, berço das milícias cariocas, a ponto de Flávio Bolsonaro empregar a mãe (Raimunda Veras Magalhães) e a esposa (Danielle da Nóbrega) de Adriano da Nóbrega, chefe do “Escritório do Crime” em seu gabinete parlamentar, a pedido de Queiroz.

Milicianos do tal “Escritório do Crime”, de Rio das Pedras-RJ, figuram entre os principais suspeitos do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista Anderson. Esses mesmos milicianos foram homenageados, reiteradas vezes, por Flávio Bolsonaro.

Em meio a tais suspeitas, vem à tona a notícia de que Marcelo Álvaro Antonio (PSL), Ministro do Turismo do Governo Bolsonaro, criou candidatas laranjas, em Minas Gerais, para desviar recursos do Fundo Eleitoral nas Eleições 2018. Segundo revelou a imprensa, teriam sido desviados, nesse esquema, mais de R$ 250 mil.

Dias depois, outra candidata laranja surge em Pernambuco: Maria de Lourdes Paixão, Secretária Executiva do PSL no estado, teria recebido R$ 400 mil e apenas 273 votos. As verbas foram liberadas por Gustavo Bebianno, então Presidente do PSL e atual Secretário-Geral da Presidência da República.

Tentando se desvencilhar do escândalo do laranjal do PSL, o filho do Presidente, vereador Carlos Bolsonaro (PSL), chama Bebianno de mentiroso. O Presidente, em pessoa, teria reiterado tal posição, tanto pelas redes sociais quanto pela televisão.

A postura de “fritura” da Famiglia perante um aliado de dentro da própria cozinha amedrontou os demais aliados e gerou uma mobilização pró-Bebianno.

Em reunião tensa, recheada de bate-boca, foi oferecido um cala-a-boca ao Ministro: a diretoria da estatal de Itaipu e a garantia de que Moro não mexeria com ele. Bebianno negou e, nas redes sociais, ameaça o Presidente: a se confirmar sua exoneração, na segunda-feira, 18/02, o “Brasil vai tremer”. Tremei, Brasil! Tremei…

P.S.: Isso tudo acontecendo e a gente tendo que se preocupar com a profusão diária de asneiras da Damares Alves, Ernesto Araújo, Vélez Rodríguez e Ricardo Salles… O buraco da corrupção é bem mais embaixo. Ou melhor: mais acima. E nem falamos do Caixa 2 do Onyx porque, esse, o Moro já perdoou…

Daniel Zen: 48 dias de governo Bolsonaro

Daniel Zen: 48 dias de governo Bolsonaro

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Fabrício José Carlos de Queiroz, o famoso Queiroz, administrava o misto de laranjal com lavanderia do gabinete do então deputado estadual e hoje Senador da República, Flávio Bolsonaro (PSL), na Alerj.

Em apenas três anos, ele teria movimentado a quantia de R$ 7 milhões em uma conta em seu nome.

Saques e depósitos frequentes, de assessores parlamentares de Flávio, para Queiroz – incluindo sua esposa, duas filhas, a ex-mulher, o esposo da ex-mulher e mais 3 outros colegas – que coincidiam com as datas de pagamento na Alerj, sugerem a prática de “mensalinho” ou “raxadinha”, que é a coleta de parte do salário dos assessores para o parlamentar, por intermédio de uma “conta de passagem”, no caso, em nome do próprio Queiroz.

O esquema envolve, diretamente, o Presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL) e a Primeira-Dama, Michelle Bolsonaro, pois ambos teriam recebido cheques de Queiroz, além de ter havido nomeações cruzadas entre os Gabinetes de Jair e Flávio – justo uma das filhas do Queiroz. O Presidente alega tratar-se de pagamento de empréstimos, feitos por ele a Queiroz, seu amigo pessoal.

Queiroz tem comprovado envolvimento com milicianos de Rio das Pedras-RJ, berço das milícias cariocas, a ponto de Flávio Bolsonaro empregar a mãe (Raimunda Veras Magalhães) e a esposa (Danielle da Nóbrega) de Adriano da Nóbrega, chefe do “Escritório do Crime” em seu gabinete parlamentar, a pedido de Queiroz.

Milicianos do tal “Escritório do Crime”, de Rio das Pedras-RJ, figuram entre os principais suspeitos do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista Anderson. Esses mesmos milicianos foram homenageados, reiteradas vezes, por Flávio Bolsonaro.

Em meio a tais suspeitas, vem à tona a notícia de que Marcelo Álvaro Antonio (PSL), Ministro do Turismo do Governo Bolsonaro, criou candidatas laranjas, em Minas Gerais, para desviar recursos do Fundo Eleitoral nas Eleições 2018. Segundo revelou a imprensa, teriam sido desviados, nesse esquema, mais de R$ 250 mil.

Dias depois, outra candidata laranja surge em Pernambuco: Maria de Lourdes Paixão, Secretária Executiva do PSL no estado, teria recebido R$ 400 mil e apenas 273 votos. As verbas foram liberadas por Gustavo Bebianno, então Presidente do PSL e atual Secretário-Geral da Presidência da República.

Tentando se desvencilhar do escândalo do laranjal do PSL, o filho do Presidente, vereador Carlos Bolsonaro (PSL), chama Bebianno de mentiroso. O Presidente, em pessoa, teria reiterado tal posição, tanto pelas redes sociais quanto pela televisão.

A postura de “fritura” da Famiglia perante um aliado de dentro da própria cozinha amedrontou os demais aliados e gerou uma mobilização pró-Bebianno.

Em reunião tensa, recheada de bate-boca, foi oferecido um cala-a-boca ao Ministro: a diretoria da estatal de Itaipu e a garantia de que Moro não mexeria com ele. Bebianno negou e, nas redes sociais, ameaça o Presidente: a se confirmar sua exoneração, na segunda-feira, 18/02, o “Brasil vai tremer”. Tremei, Brasil! Tremei…

P.S.: Isso tudo acontecendo e a gente tendo que se preocupar com a profusão diária de asneiras da Damares Alves, Ernesto Araújo, Vélez Rodríguez e Ricardo Salles… O buraco da corrupção é bem mais embaixo. Ou melhor: mais acima. E nem falamos do Caixa 2 do Onyx porque, esse, o Moro já perdoou…

“O samba está muito bem representado”, afirma Rubem Confete

“O samba está muito bem representado”, afirma Rubem Confete

Rubem Confete

Entrevista e foto por Eduardo Sá

Rubem Confete já fez de tudo um pouco. Jornalista, compositor, cantor, teatrólogo, radialista, estudioso das questões afro-brasileiras e militante, dentre outras atividades. Trabalha na Rádio Nacional há mais de 30 anos, na qual conviveu com grandes artistas da cultura popular brasileira nos seus programas. Profundo conhecedor do samba, aos seus 83 anos continua na luta mesmo com deficiência visual. Nos recebeu na sede da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), onde trabalha até hoje, para falar sobre a renovação do samba carioca.

Após mais de 60 anos convivendo no meio do samba, inclusive compondo e cantando músicas famosas, Confete considera que essa nova geração é ainda melhor que a anterior.

Segundo ele, a garotada tem estudado muito e vem compondo músicas lindíssimas embora não tenha a visibilidade na mídia e o reconhecimento que merece. Defende, no entanto, que está faltando profissionalização no meio com uma produção mais estruturada de forma a possibilitar mais renda e visibilidade aos artistas.

Veja na entrevista abaixo os principais temas abordados durante a conversa.

Alguns colegas denunciaram, logo depois da entrevista, o péssimo tratamento da empresa com ele. Idoso, deficiente visual, é obrigado a ir todo dia marcar o ponto, embora seu programa entre no ar apenas aos domingos. Dizem que uma das mudanças institucionais da EBC desde o governo Temer foi tentar afastar os aposentados pelo cansaço. É possível encontrá-lo todo dia a tarde na portaria do edifício durante seis horas.

Vários sambistas da antiga estão morrendo e tem uma galera de uns 30 pra 40 anos se consolidando que está na estrada há uns 15 anos, concorda?

Concordo, na Lapa teve muita gente boa, o Moisés Marques, João Martins, uma galera de jovens que começou praticamente por ali. Tem também um grupo que começou com o Moacyr Luz no Samba do Trabalhador, no Renascença, há uns dez anos. No Cacique de Ramos também apareceram vários jovens para cantar, compor, etc. Considero que está havendo uma renovação, que não é ligada a escola de samba, que é um desastre, mas principalmente às rodas. Gabrielzinho de Irajá, Juninho Thybau e vários outros.

Esses músicos estão todos no Samba Social Clube, qual a relação com esse movimento?

É a oportunidade que eles têm de mostrar seus trabalhos.

O Samba Social Clube dá uma abertura, porque a divulgação está muito difícil através da rádio e televisão. Eles vivem buscando mais espaço nas redes sociais do que propriamente nos meios oficiais.

Essa mídia que botava os ícones do samba não existe mais. Trabalho aqui na Rádio Nacional, já tive programa de até três horas, e agora tenho dois no domingo de uma hora cada um. Dava espaço para todos durante toda a semana e hoje não tem mais. A Roquete Pinto, por exemplo, mudou o governo, não sei qual a linha que eles vão adotar, fica difícil. Mas a turma está encarando assim mesmo, através das redes sociais eles se comunicam e montam suas rodas. Você tem percussionistas, músicos bons, muitos deles filhos de músicos. O filho do Claudio Jorge, o Gabriel Versiani, por exemplo, tá tocando um violão muito bom. O Chico Alves também fazendo um trabalho bom e trazendo uma galera, tinha o pessoal do Candongueiro, de Niterói, que agora tá muito disperso. Está acontecendo muita coisa, só que de outra maneira.

Você citou algumas casas tradicionais, mas o mercado do samba mudou? O músico profissional precisa ganhar dinheiro, né, ele se reinventou então com novas formas?

Tá muito complicado! Primeiro porque essas casas de samba sempre pagaram muito mal, não deram muito prestígio. Com toda aquela história da Lapa, por exemplo, os meninos ganhavam muito mal ou não ganhavam. Eles estão se agrupando, estão se arrumando do jeito deles. O Grupo Arruda, por exemplo, consegue fazer algo que eu considero sensacional: fecham praça, rua, eles têm o público deles e ganham dinheiro.

É mais interessante assim, muito mais ousado, não ficam restritos aos locais fechados aguardando na portaria.

Mas tem um problema nisso, você teve recentemente a Festa da Raça sendo embargada na Praça Tiradentes e a tradicional roda da Pedra do Sal também, que sempre foi na rua.

Isso é a política do prefeito atual, ele não tem a mínima sensibilidade para a manifestação popular chamada samba. Ele é um pastor protestante e bota pessoas lá que ele quer. O Leandro Fregonesi estava fazendo samba também na rua, mas essa autorização dos órgãos públicos é outro problema. Esse prefeito não conta, é uma pessoa avessa à manifestação popular porque ele quer implantar a igreja dele. Claro que ele não vai conseguir, porque a turma vai resistir e sempre encontrar um caminho.

Falando em resistência, você acha que mudou muito a aceitação da sociedade em relação ao samba? Você fala da questão do Mano Elói criando sindicatos e tudo mais lá atrás, como é hoje?

O samba hoje está fixado e não tem jeito. Assim como você tem o artista jovem tem também o público jovem, um público mais intelectualizado, porque é um jovem que tem o nível superior e gosta do samba. O tempo do mano Elói era o da força, da porrada, não tinha nada disso aí, brigava muito para ser incluído.

Hoje ele não sofre um processo de inclusão, está acontecendo naturalmente e cada dia tem mais jovens interessados.

E nessa dinâmica histórica perdeu sua essência e raiz, ou se transformou de uma forma positiva?

Ele tem mutações, mas temos os jovens aí com composições magníficas. Tem um grupo lá em Campo Grande que os caras são sensacionais, todos estudaram música e estão sabendo o que estão fazendo com os instrumentos, entende? Ninguém perdeu musicalidade, pelo contrário. Esses dias estava lembrando do Alfredo Del Penho, que eu conheço desde o Candongueiro, ele tem uma atuação incrível tanto como compositor ou cantor. O Gabrielzinho de Irajá, que tivemos a honra de colocá-lo na Rádio Nacional, hoje é um cara incrível. Ele é parceiro do Marquinho PQD, por exemplo, são duas gerações que se respeitam. O jovem está cada vez mais interessado, sabendo música, estudando, seja ele um percussionista ou músico de harmonia, os próprios cantores.

Essa transição geracional pode ser considerada como uma continuidade, então? Até porque o pessoal da antiga já abraçou muitos deles, não é uma ruptura.

Não é uma ruptura, essa juventude está hoje muito melhor que na época que nós começamos.

Tenho 60 anos nessa história aí, e a juventude hoje é outra coisa! Eles estão indo pra academia, procurando professores, ninguém está de bobeira.

E embranqueceu um pouco o samba com essa coisa da erudição, perde um pouco a espontaneidade também?

O embranquecimento foi natural porque o jovem negro está em comunidades carentes sufocadas principalmente pelo tráfico de drogas, e lá não tem oportunidade porque o traficante impõe o funk que dá dinheiro com suas festinhas. Então ele está acostumado a isso, o jovem não tem oportunidade numa comunidade carente. O samba desceu e o jovem branco entendeu a força musical e foi estudar e participar. Mas na Serrinha, por exemplo, de vez em quando nasce um grande percussionista ou compositor negro. Na turma lá do Ponto Chic em Padre Miguel você encontra uma galera negra, porque nesses lugares o funk não entrou e o samba predomina dando oportunidade a eles aprenderem.

Os artistas nos sambas das casas e nas ruas do centro e zona sul têm se manifestado bastante politicamente, geralmente mais a esquerda, isso é uma coisa que já vem lá de trás do samba?

O sambista sempre foi um pensador, sempre teve sua opinião política. Evidentemente que no tempo do seu Elói eles tinham outra maneira de se manifestar, mas existia a resistência. Se você ouvir samba do Paulo da Portela, por exemplo, e Candeia posteriormente você nota que existia uma resistência. No momento atual o poder de manifestação é esse mesmo da rua, mas hoje não adianta mais!! Há 40 anos eu tinha preocupação de que o samba poderia ser massacrado e hoje não tenho mais.

As ruas, redes sociais, bares, estão com samba.

Aquele movimento da Praça Tiradentes é incrível e acontece, não tem jeito. Tem muitos pólos acontecendo essas coisas tranquilamente. Você tem o filho do Marcos Esguleba tocando percussão pra caramba, um filho do João de Aquino tocando muito violão. Está tudo aí, não tem mais aquela história de dizer que vai acabar. Considero apenas que o samba sofre um processo de desorganização editorial.

Você diz no sentido da profissionalização da parte de produção?

Você vê os sertanejos, todos eles têm uma linha editorial, escritórios. Esses caras eram catadores de tomate, vieram da roça, só que alguns viram que isso ia dar dinheiro então se organizaram, fizeram contratos. Os caras começaram na rua.

Mas facilita também porque eles não têm nenhuma conotação política, é tudo comercial…

O negócio deles era cantar, aí encontraram algumas pessoas que criaram produtoras e foram embora. O samba não tem essa profissionalização, e isso me assusta ao saber que tem pessoas que estão há muitos anos sem ninguém por trás assessorando. O camarada batendo de frente não dá certo, tem que ter uma equipe para assessorar, fazer a publicidade, etc.

Enquanto jornalista, você acha que a mídia é um pouco reativa a dar voz e visibilidade ao samba?

É tradição, e eu digo em causa própria porque trabalho há muitos anos com isso e só agora estou conseguindo ter um contato com uma produtora. Então não tem papo, eu vou agora e já sei onde será o show, eles divulgam, etc. É outra história, a gente nunca teve essas coisas de assessoria e marketing e sem isso não vai. Hoje faz parte e não adianta, ou você está no núcleo do Cacique de Ramos ou Renascença, por exemplo, que são casas já com público próprio, ou fica muito difícil.

Sem a produção a coisa não vai porque o camarada fica sozinho trabalhando. Fico admirado como ainda vejo vários sambistas que ainda fazem essas coisas sozinhos.

Mas ainda assim essa geração nova ainda vai dar muito fruto por ai?

Não tenho a mínima dúvida, quanto a isso estou sossegado. O samba está muito bem representado. Conversando recentemente com o Paulão Sete Cordas ele dizia que não ligava quando o filho queria tocar e quando foi ver ele já estava tocando e estudando por aí. Quer dizer, tem muita gente estudando e fazendo bem, inclusive saindo do país e substituindo grandes obras. O samba está muito bem representado só que não está mais só nas escolas de samba, porque elas estão viciadas e os dirigentes são preguiçosos e se desfizeram da ala de compositor em prol do mercado. Colocam lá samba para disputar o samba enredo e cada um tem que botar tantas cabeças dentro da quadra pagando ingresso e cerveja.

Virou outra coisa, o cara não tem mais oportunidade de fazer o samba dele ali e prosperar.

O Renato da Rocinha, por exemplo, tem lá o seu lugar e está lançando outro CD e faz bem as suas coisas. O problema não é o artista, o compositor, o percussionista, e sim a questão mercadológica por falta de organização e isso é imperdoável. A juventude está aí e eu não esperava, isso porque eu venho do tempo do compositor que estava preocupado em mostrar o seu trabalho aguardando que um cantor gravasse as suas músicas. Agora não, é um outro momento e muito legal. Quem é, vai ficar.

Em relação às escolas de samba, como você vê o carnaval de hoje?

A escola de samba está num processo de decadência porque a entidade que administra, a Liesa, deitou-se em berço esplendido e desconsiderou colocar dez compositores num samba e isso não existe. O meio de divulgação através de CD além dele ser mal feito é mal divulgado. Então as pessoas não vão mais com aquele entusiasmo a Marquês de Sapucaí e aí acabou, mas em contraposição o jovem veio pra rua e foi criando os grandes blocos. Não vou discutir o bloco da Preta Gil ou da Anitta, mas o jovem está na rua fazendo carnaval. O samba tinha que se organizar para fazer uma grande produção e botar um grande bloco na rua também, entende? Repertório tem, público também.

A Classe Média no poder

A Classe Média no poder

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Bem na sua cara! A Classe Média no poder! Interrompendo minhas férias para comentar essa foto sensacional a partir das observações do Ricardo Sardenberg. Isso é que é choque cultural! O que temos aqui? Uma foto típica dos grupos no poder, o Presidente da República ladeado por aliados na Biblioteca do Palácio da Alvorada. E no centro da foto, entronizado, o Presidente de chinelo Rider, calça de moletom, camiseta e um paletó improvisado e mal ajambrado jogado por cima de tudo. Bolsonaro está “em casa” de chinelo recebendo as visitas.

Qual o problema? Quando Lula chegou ao poder também produziu um escândalo: por carregar isoporzinho nas férias, por sua afetividade e fala desengessada e improvisada, pela quebra dos protocolos em muitas ocasiões formais. E claro por políticas públicas para os pobres, as mulheres, os negros, as minorias, mesmo com todas as suas limitações.

E hoje temos sim um segundo choque cultural, dos novos ocupantes do Planalto. Mas o contexto e injunções dessa “revolução conservadora” são outras.

A figura de Bolsonaro que provoca identificação com tantos eleitores é a desse mal ajambrado, improvisado que “afronta” o sistema e que expressa literalmente um governo de improviso, feito por “não-políticos”. O anti-sistêmico de Bolsonaro é um sistema de extrema-direita e conservador, mas com a cara do tiozão do churrasco que torna tudo risível ou “palatável”. O homem “sem qualidades” é a nova “qualidade”.

Bolsonaro comanda uma equipe de improviso, vindo de um partido de aluguel como o PSL, que aluga legenda, e cujos escândalos começam a explodir com uma corrupção gotejante e sistemática, perto, muito perto das corrupções concretas e reais do cidadão de bem: para “ajudar” a familia, os primos, os amigos.

Um governo cujos desentendimentos são de um grupo formado às pressas para ocupar o poder, misturando a presidência da República e o Estado com o humor e comando dos filhos do presidente e seus estilo de vida boçal e violento, agressivos nas redes, o parlamentar-playboy-filhinho de papai com costas quentes, falando sem consequência. Toda essa informalidade que se alia aos poderes fáticos e pára-militares.

A “informalidade” da milícia, dos amigos dos amigos nos gabinetes, do espetáculo de improvisos em um chat de condomínio, que se tornou o país. Toda uma corrupção apresentada como “mal menor’ diante dos “profissionais” da política. Daí criminalizar tudo que é organizado: partidos, movimentos, todas as conquistas coletivas.

Triunfo do indivíduo e sua network e rede em um capitalismo e governo mafioso: a família, o clã, acima de tudo.

O problema não são os hábitos culturais populares da família Bozo, mas esse ethos classe média e moralista dos almoços de domingo e da família conservadora tornados políticas públicas e políticas de perseguição e ódio as diferenças.

E muito bem notado por Ricardo Sardenberg sobre o distinto grupo, a tapeçaria monumental com as mulheres de Di Cavalcanti sinuosas e libidinosas, a música, a arte, as pernas escancaradas de uma mulher (se automassageando?) e prestes a soltar um gozo na cara dos moralistas.

É a tapeçaria Músicos de Di Cavalcanti na parede da biblioteca do Palácio da Alvorada pairando na foto.

Para um governo que acha que cultura e arte “não são importantes”, o modernismo brasileiro de Di, com sua liberdade e vitalidade, dá uma resposta, mesmo que simbólica: a arte e a cultura vão jogar e jorrar na cara da extrema-direita e dos conservadores emergentes, de forma pedagógica, explicando o que é uma vida não fascista! #governos#Cultura #arte

Já imaginou isso na sua casa?

Já imaginou isso na sua casa?

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Essa é a casa de uma pessoa humilde, que em meio aos confrontos de anteontem à noite, durante ação não registrada da polícia no Complexo do Alemão, teve sua casa alvejada, pela chamada “bala perdida”, que só se perde nas favela, em espaços determinados para isso, onde operação policial é a política pública de nossos governantes para nós. .

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O estado deveria parar toda vez que a casa DE UMA PESSOA é atingida dessa forma.

Deveriam decretar dias de luto, toda vez que um pobre morre de forma violenta, diante das ações policiais que ao longo da história sempre aconteceram do mesmo jeito, sem nunca mudar nada.
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Enquanto não assumirmos o papo reto de dizer que a favela não é a culpada, nem a fonte de toda essa violência, mas que foi escolhida como palco do terror por conta das desigualdades deste país, nada vai mudar.

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Não se trata de “guerra às drogas”, não é, nem nunca foi.

É controle violento e exploração de violência, mascarado por essa justificativa hipocrisia. .

#FORÇAFAVELAS
Nossas vidas importam! 👊🏽

Liberdade vigiada

Liberdade vigiada

Foto: Reprodução

Documentos sigilosos da Ditadura, em 1974, tratavam de registrar o movimento no Brasil de padres e bispos que criticavam o regime militar. Assinado pelo Serviço Nacional de Informações, aparato de espionagem dos militares, o registro enfatizava um alerta à época: “Os pronunciamentos de Dom Helder Câmara, Arcebispo de Olinda e Recife, versam críticas sobre o sistema político vigente no país e alegadas violações dos direitos humanos”. A tática era vigiar para oprimir reações contrárias, até mesmo de religiosos. Lamentavelmente, o medo de questionamentos dos representantes da Igreja não foi sepultado. Volta reeditado a partir da grave denúncia de espionagem sobre a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), promovida pelo Governo Bolsonaro.

A suposta movimentação da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) para vigiar reuniões fechadas da CNBB preparatórias para o Sínodo da Amazônia, no Vaticano, ressuscita o espírito arbitrário que manchou a História de nosso país nos “anos de chumbo”. Temendo críticas por parte dos representantes católicos em evento internacional, o Governo violaria assim as bases de nossa Constituição.

O poder público estaria invadindo a privacidade do cidadão e de instituições não governamentais autônomas, utilizando recursos públicos para fins políticos de um grupo ou partido (que está eventualmente no poder) exercendo espionagem, possivelmente violando comunicações privadas sem autorização judicial. Tudo isso fere profundamente o Estado de Direito e anuncia uma espécie de Estado Policial, como na década de 70.

Tal prática, que exala o mofo da repressão ditatorial, deve ser denunciada, investigada e punida.

Pois fragiliza a democracia e rasga o direito à privacidade, liberdade e de organização. A bancada federal do PCdoB – em respeito à sua trajetória de luta nas trincheiras pela democracia e aos que por ela tombaram – agirá. O deputado maranhense Marcio Jerry protocolou esta semana requerimento à Mesa da Câmara dos Deputados solicitando convocação do ministro do GSI, Augusto Heleno Ribeiro, para prestar esclarecimentos sobre essas denúncias. É uma prerrogativa legítima e esperamos brevidade na marcação da vinda do Ministro à Câmara.

Religiosos foram mortos, desapareceram e foram perseguidos durante a Ditadura. Simplesmente por levantarem a voz contra injustiças, como ocorre hoje. Quão fragilizada está nossa democracia para que permita esse descalabro? Em normalidade democrática, as críticas podem desagradar, mas nunca enfrentadas a partir de um aparato estatal. Às críticas, o governo deve responder com argumentos e correções de injustiças ou erros em políticas públicas. Nunca se valendo da mão forte do Estado para fazê-las desaparecer. A jovem democracia não permite retrocessos, especialmente à nossa liberdade de expressar nossas opiniões. Não há preço para a liberdade. A minha, a sua, a de todos. Queremos ouvir as respostas para as denúncias. Resta saber se haverá quem se apresente para responder.

“Para que eu possa um dia contemplar-te / dominadora, em férvido transporte, / direi que és bela e pura em toda parte, / por maior risco em que essa audácia importe”

(LIBERDADE, Poema de Carlos Marighella)

Levanta, Brasil!

Levanta, Brasil!

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Só não vê quem não quer. A verdade é que o país vai aos poucos se adaptando à grave situação criada pelo golpe. É como uma onda deslizando e cobrindo o país inteiro.

Mas essa onda reacionária e conservadora não se parece com uma onda do mar, dessas que os surfistas gostam.

O Brasil está sendo tragado por uma onda com todas as características daquela que soterrou Brumadinho e todos os sonhos que ali existiam. Onda que segue avançando em direção ao rio São Francisco.

Começou pelo afastamento ilegal e ilegítimo da presidenta eleita, interrompendo nosso processo democrático; foi agravada com a perseguição e prisão injusta de Lula e, depois, com a eleição tutelada de Bolsonaro para dirigir o país.

Estão dando um cavalo de pau no Brasil!
O país já está voltado para o passado. Tudo o que conquistamos, construindo um projeto de felicidade e de futuro, está ameaçado.

O Brasil e o povo brasileiro não cabem nesse projeto reacionário, antipopular, autoritário e contra nossa soberania e nossa felicidade. Mas, mesmo assim, eles avançam e avançam na direção do passado.

Eles estão atacando em muitas frentes. Para não ficar pedra sobre pedra.

Atacando nossa soberania; entregando nossas riquezas. Atacando os direitos sociais conquistados em décadas de luta; destruindo o que conquistamos na educação, na cultura, na saúde e em outras frentes. Estão deliberadamente desconstruindo o Estado nacional.

Estão se preparando para restringir a liberdade conquistada depois da queda da ditadura.

Não há espaço nem dimensão da nossa realidade, ou na esfera do simbólico que não esteja sendo atacada.

Estão tentando destruir o país e o futuro que o Brasil vinha tecendo a duras penas.

O ambiente apocalíptico vem gerando perplexidade, tristeza, pessimismo em muitos brasileiros e brasileiras.

E nada neste momento parece chocar ao ponto de despertar uma comoção. Nada.

Nem a morte de mais de trezentas pessoas, vítimas da ganância e da usura de uma empresa mineradora responsável por outras tragédias depois de privatizada; nem a destruição da natureza, a morte dos animais e a morte dos rios. Nada.

Choramos solitariamente diante dos nossos aparelhos de TV. Vendo as imagens de morte e destruição, comentamos com os mais próximos a gravidade dos fatos como se comenta uma partida de futebol que nosso time acaba de perder.

O crime é gigantesco e a irresponsabilidade da Vale, das autoridades e da sociedade em geral é imensa!

E tudo continua como se a tragédia brasileira fosse uma fatalidade. Mesmo sabendo que muitas outras bombas-relógio podem se romper a qualquer momento.

Agimos como se não fôssemos perder direitos fundamentais para uma vida decente. Ver a liberdade conquistada por uma nação ser ameaçada não parece nos tocar.

A mídia captura a indignação da sociedade, ainda no nascedouro. E, apesar das mortes e da destruição, transforma o crime e a tragédia em mais um espetáculo, como um reality show que todos acompanham em HD.

Outros “acidentes” virão. Como esse com os 10 meninos que foram mortos no incêndio do centro de treinamento do Flamengo.

Ou como em Santa Tereza, 13 mortos em tiroteio. Ou foram execuções? Quem se importa com essas diferenças?

A nossa única garantia é de que a dor vai ser rapidamente convertida em espetáculo… E choraremos novamente na solidão das nossas casas.

Vivemos um grande pesadelo coletivo. Ou seria um surto psicótico nacional?

O clima de otimismo que vivíamos desde a primeira eleição de Lula vai sendo substituído pelo pessimismo e pela depressão, sem passarmos por uma reação coletiva.

Temos que reconhecer que o golpe foi bem urdido e bem planejado. Uma parte dos brasileiros apoiou ou se deixou manipular em algum momento pela narrativa golpista e tornou-se cúmplice ou inocente útil.

Hoje, muitos estão envergonhados ou em vias de perceber o erro que cometeram. Essas pessoas estão atônitas e resistem a admitir que erraram, que foram manipuladas como crianças.

Mesmo entre as pessoas mais críticas às mazelas sociais e políticas do país vemos sintomas desse processo de submissão à avassaladora “realidade dos fatos”. Como se nada pudesse ser feito para interromper esse pesadelo.

Há muitas outras barragens de lama tóxica prontas para explodir sobre nós.

A reforma da Previdência vem sendo construída à montante do futuro dos nossos jovens.

A Amazônia, o Cerrado, os rios, a fauna, a flora, toda a nossa biodiversidade está sendo ou será sorrateiramente atacada por grupos econômicos ainda mais gananciosos do que a Vale.

As escolas vão ser transformadas em templos de ignorância. A política de segurança pública joga nas mãos do cidadão a responsabilidade por sua própria defesa, incentiva o armamento de todos e a violência policial.

Hostes reacionárias preparam várias frentes de ataque à liberdade de expressão e à livre produção cultural. O direito à informação já está restrito. Até choques elétricos nos manicômios, como linguagem e submissão dos portadores de distúrbios mentais, estão voltando.

Os sintomas não deixam dúvida de que as instituições estão sendo capturadas por esse processo regressivo e de rapina de nossas riquezas. Isso aumenta a sensação de que estamos caminhando em direção ao reino de Tanatos.

E, apesar de tudo, para a maioria dos brasileiros e brasileiras, a vida segue seu curso.

Eles, os que tomaram o poder e estão dando as cartas no país, são como a lama de Brumadinho. Avançam inexoravelmente e de forma avassaladora, contaminando, destruindo e matando tudo que encontram pela frente. Sem resistência significativa. Pelo menos por enquanto. Espalhando morte, destruição, tristeza e infelicidade.

Não está na hora de um grande NÃO?

Não só a ele, mas a todo esse cavalo de pau que botou o Brasil voltado para o passado.

Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima, Brasil!

A falácia do projeto de “lei anti crimes” de Sérgio Moro

A falácia do projeto de “lei anti crimes” de Sérgio Moro

Foto: Lula Marques / Agência PT

O pretensioso e auto denominado projeto de “lei anti crimes”, de autoria do Ministro da Justiça, Sérgio Moro, é de um amadorismo sem precedentes na história da política criminal e do direito brasileiro. Com a proposta de alterar 14 leis já em vigor no país, o PL sugere diversas medidas que apontam para o encarceramento máximo, o endurecimento do regime de execução e para a ampliação de penas para determinados crimes. Até aí, nada de novo, louvável, até certo ponto. No entanto, o PL chama a atenção sobre três aspectos:

O primeiro deles é a pretensa “regularização” da execução antecipada da pena, ou seja, a autorização da prisão após condenação em segunda instância. Já escrevi em outros artigos (publicado aqui no portal em 08/04/2018) que o entendimento que autoriza a prisão após decisão em segunda instância, antes do trânsito em julgado final da sentença penal condenatória é uma flagrante ofensa ao princípio da presunção de inocência, direito fundamental previsto no art. 5º, LVII, da Constituição Federal.

O sentimento de impunidade da população não pode ser “compensado” com uma afronta à Constituição.

Pior do que a pretensa impunidade é o abuso de prisões preventivas, provisórias e de cumprimento antecipado de penas que ainda não se confirmaram por completo. Se a justiça é morosa e o sistema recursal é excessivo, a ponto de postergar, ad infinitum, o início do cumprimento de penas, não é com o postulado do “encarceramento máximo” que se irá resolver tal impasse. Afinal, não se pode agir com farisaísmo quando estamos tratando de direitos e garantias fundamentais do cidadão.

O projeto de lei segue com outro absurdo, em se tratando de política criminal: os dispositivos que tratam do alargamento das hipóteses de excludente de ilicitude para casos de homicídio, quando praticados por policiais, desde que acometidos de “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”. Na prática, é a transformação do “auto de resistência” em inocência automática ou, como no dizer de Guilherme Boulos “é a legalização da pena de morte, sem julgamento, praticada por agentes públicos”.

É claro que se um policial, no exercício de sua função de servir e proteger, tem como resultado de sua ação o óbito de outrem, não pode ele ser processado e julgado sob os mesmos parâmetros de um homicida comum. Para isso, ele já conta com uma série de prerrogativas, dentre elas, as hipóteses de “estrito cumprimento do dever legal” e de “legítima defesa” como excludentes de ilicitude, além do julgamento pela Justiça Militar. O que se combate, no caso de mortes perpetradas por policiais em ação, é o chamado “excesso punível”: uma pessoa, já rendida, ser alvejada, por exemplo. A medida proposta por Moro amplia para o infinito as hipóteses de “justificativa” do chamado excesso punível e da legítima defesa. Temerário, para dizer o mínimo.

É líquido e certo que a maioria dos mortos em ação policial são jovens, negros, pobres e de periferia. Não raro, este é o perfil sócio-cultural e étnico-racial da maioria das pessoas envolvidas com o tráfico. Mas, nem todo jovem, negro, pobre e de periferia é bandido.

E muitos destes, inocentes, também acabam se tornando vítimas da ação policial nas famosas “batidas” aos morros e favelas, por exemplo.

Alterar os dispositivos legais no sentido proposto ampliará, consideravelmente, as estatísticas de morte destes grupos sociais, o que aponta para uma deplorável política de “higienização social” e não de combate ou de prevenção à criminalidade.

Por fim, há a regulamentação da delação premiada, denominada, no direito americano, de “plea bargain”.

Na prática, significa a regularização da premiação para o caguete, o X9, o traíra.

Também na prática, significa ampliar as hipóteses em que o suspeito ou acusado confesse o crime, mesmo sendo inocente, apenas para não enfrentar os rigores da lei. Ou ainda, que incrimine outrem, mesmo que sem provas, para obter uma pena mais branda.

Ironias e sarcasmos à parte, diria que, na quebrada, se aprende que homem que é homem assume o seu BO. No condomínio fechado onde Deltanzinho e Serginho cresceram, criados com Nutella, quando pegos fazendo traquinagem, para escapar da pisa, gritavam: “Não fui eu, mãe, foi ele”. Plea bargain para incriminar o alheio é refresco…

André Barros: Brumadinho não foi tragédia

André Barros: Brumadinho não foi tragédia

Foto: Leo Otero / Mídia NINJA

Em 25 de janeiro de 2019, ocorreu o rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho/MG. Na realidade, foram praticados homicídios dolosos qualificados por motivo torpe. Torpe é a ganância por lucro e a outra qualificadora é o meio, a asfixia, pois as pessoas morreram soterradas pela lama dos rejeitos da mineração.

A palavra “tragédia”, usada desde o primeiro dia em que esses crimes foram praticados, tem o sentido de uma catástrofe, algo imprevisível e inevitável, como se fosse um caso fortuito. A palavra é utilizada pela mídia como tese defensiva das privatizações, numa clara busca de manipulação da opinião pública em relação aos crimes que aconteceram. Ressaltamos que, além dos homicídios, foram praticados todos os crimes contra o meio ambiente da Lei 9605/98.

A previsibilidade era patente, em razão do maior crime ambiental ocorrido há apenas três anos em Mariana, tempo característico da reincidência. Teria sido evitado se a Vale tivesse suspendido todas as atividades de suas barragens e mudado o modelo de armazenamento de seus rejeitos.

Estamos assistindo a uma batalha ideológica dos meios de comunicação que defendem a entrega das riquezas do Brasil. A privatização da Vale do Rio Doce pelo governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso e pela aliança PSDB, PMDB e PFL, agora DEM, foi um dos maiores crimes praticados contra o Brasil. O edital de privatização da Vale do Rio Doce divulgava o excelente negócio, registrando que as reservas de minério de ferro da empresa chegavam a 40 bilhões de toneladas, além da enorme malha ferroviária e navios graneleiros, com capacidade de transportar até 400 mil toneladas. Assim, a Vale hoje extrai toneladas de minérios de rochas, colocados diretamente em vagões de trem, que vão despejá-los direto em navios que exportam nossas riquezas sem qualquer valor agregado. Os rejeitos de água, terra e minério viram lama e são armazenados nas cidades brasileiras, sem que sejam recolhidos impostos pela riqueza exportada. Nada fica para Minas Gerais, só rejeitos, e os minérios vão enriquecer os executivos da Vale e gerar dividendos aos seus acionistas na Bolsa de Valores, a arquibancada do capital.

O discurso da tragédia visa a Petrobrás. Os crimes contra a vida e o meio ambiente ocorridos em Brumadinho são mais uma desmoralização para o governo Bolsonaro, eleito sob a propaganda contra as licenças ambientais. Recordemos que o presidente havia afirmado, durante a campanha, que as licenças ambientais não passavam de barreiras ao desenvolvimento econômico do Brasil. O primeiro objetivo desse governo é ferrar as aposentadorias dos pobres. Outro grande objetivo desses sabujos do Trump é privatizar a Petrobrás. A fiscalização de mais de trezentas barragens em Minas Gerais é realizada por três funcionários, portanto, não há fiscalização. Quase 800 quilômetros de rios foram destruídos com o crime de Mariana. Imaginem o que pode acontecer com nosso Oceano Atlântico, caso a Petrobrás seja privatizada, uma empresa altamente desenvolvida na extração de Petróleo em alto-mar?

O Brasil precisa ter consciência ecológica, pois essas privatizações vão acabar com nossos rios, oceano e nossas vidas! A luta pela reestatização da Vale e contra a privatização da Petrobrás é pelas atuais e futuras gerações.

Uma breve crónica sobre cultura do estupro e o silenciamento de mulheres

Uma breve crónica sobre cultura do estupro e o silenciamento de mulheres

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por João Victor

É início de semana e o foco já é no final. Checa lista. Checa evento. Checa baile. Passa o tempo. Passou a semana e a noitada foi escolhida. Bailão! Agora é só escolher sua roupa e a cor do seu batom. Ela decide com a ajuda das amigas pra ficar linda. Ela decide na hora de sair que não tá pronta ainda. Tá se achando feia, não sabe o que vestir, mas ela sabe que naquela noite ninguém vai resistir. Já tá atrasada meia hora, ta na hora de sair.

No uber é uma criança ansiosa pra se divertir. No baile é uma mulher que dança até o corpo permitir.

Enquanto se diverte, no cabelo vem um puxão. Em seguida, não satisfeito, vem o primeiro agarrão.

“Quem mandou ser gata assim e querer chamar muita atenção?”

Ela ir toda arrumada e você não resistir, não te dá o direito de encostar sem ela permitir.

A noite continua e a cena se repete. Não é cena de amor, é violência, meu querido, e digna de manchete. E ele insiste no machismo. Insiste no preconceito. Acha que seu balde com vodka e energético te faz o homem perfeito. Piada, meu camarada. Isso não quer dizer nada. A verdade é que isso só demonstra que tu é o merda da noitada. Ela quer ver o teu sorriso, se atrair pela sua conversa, quer saber da sua vida e não ser só mais uma “peça”. Mas o cara não entende e tem seu ego pra inflar. Continua. Enche o saco. Força até um beijo ela dar.

“Será que agora eu me livrei desse embuste?”

Porra nenhuma, querida, ele vai continuar ainda que isso custe.

A noite, acabou. Feia, nojenta e com tristes intenções. Na sua memória e de várias outras só tem péssimas recordações. Se juntam e retratam tudo que aconteceu.

Agressão, abuso, assédio e estupro, talvez com uma lista as meninas não sejam difamadas e virem o foco do assunto. Mobilizaram uma cidade e revoltaram uma parcela.

Parece até mentira, parece história de novela. Na noite são os machões, na vida são os vilões. Mas eles não podem se queimar, têm que manter a pose de durão. Pra isso, um dos muitos “inteligentes” fez uma lista pra dizer qual sexo é o bom. Caíram em mais um erro e promoveram outra agressão. Talvez seja doença ou falta de informação, se ponha no seu lugar e preste muita atenção.

Você não é dono de ninguém e aprenda: NÃO É NÃO

Caetano Veloso entrevista Peu Meurray

Caetano Veloso entrevista Peu Meurray

Mais um episódio da temporada Bahia da coluna de Caetano Veloso na Mídia NINJA, dessa vez entrevistando o músico e artista plástico Peu Meurray, que tem um trabalho de transformar pneus em instrumentos musicais, e dentre tantas iniciativas está à frente do Galpão Cheio de Assunto em Salvador, Bahia.

Boaventura de Sousa Santos: A Nova Guerra Fria e a Venezuela

Boaventura de Sousa Santos: A Nova Guerra Fria e a Venezuela

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O que se está a passar na Venezuela é uma tragédia anunciada, e vai provavelmente causar a morte de muita gente inocente. A Venezuela está à beira de uma intervenção militar estrangeira e o banho de sangue que dela resultará pode assumir proporções dramáticas. Quem o diz é o mais conhecido líder da oposição a Nicolas Maduro, Henrique Capriles, ao afirmar que o presidente-fantoche Juan Guaidó está a fazer dos venezuelanos “carne para canhão”. Ele sabe do que está a falar. Sabe, por exemplo, que Hugo Chávez levou muito a sério o destino da experiência socialista democrática de Salvador Allende no Chile. E que, entre outras medidas, armou a população civil, criando as milícias, que obviamente podem ser desarmadas, mas que muito provavelmente tal não ocorrerá sem alguma resistência. Sabe também que, apesar do imenso sofrimento a que o país está a ser submetido pela mistura tóxica de erros políticos internos e pressão externa, nomeadamente por via de um embargo que a ONU considera humanitariamente condenável, continua entranhado no povo venezuelano um sentimento de orgulho nacionalista que rejeita com veemência qualquer intervenção estrangeira.

Perante a dimensão do risco de destruição de vidas inocentes, todos os democratas venezuelanos opositores do governo bolivariano fazem-se algumas perguntas para as quais só muito penosamente vão tendo alguma resposta. Por que é que os EUA, acolitado por alguns países europeus, embarca numa posição agressiva e maximalista que inutiliza à partida qualquer solução negociada?

Por que é que se fazem ultimatos típicos dos tempos imperiais dos quais aliás Portugal tem uma experiência amarga? Por que foi recusada a proposta de intermediação feita pelo México e o Uruguai, que tem como ponto de partida a recusa da guerra civil?

Porque um jovem desconhecido do povo venezuelano até algumas semanas, membro de um pequeno partido de extrema direita, Voluntad Popular, directamente envolvido na violência de rua ocorrida em anos anteriores, se auto-proclama presidente da República depois de receber um telefonema do vice-presidente dos EUA, e vários países se dispõem a reconhecê-lo como presidente legítimo do país?

As respostas virão com o tempo, mas o que vai sendo conhecido é suficiente para indicar por onde surgirão as respostas. Começa a saber-se que, apesar de pouco conhecido no país, Juan Guaidó e o seu partido de extrema-direita, que tem defendido abertamente uma intervenção militar contra o governo, são há muito os favoritos de Washington para implementar na Venezuela a infame política de “regime change”. A isto se liga a história das intervenções dos EUA no continente, uma arma de destruição maciça da democracia sempre que esta significou a defesa da soberania nacional e questionou o acesso livre das empresas norte-americanas aos recursos naturais do país. Não é difícil concluir que não está em causa a defesa da democracia venezuelana. O que está em causa é o petróleo da Venezuela.

A Venezuela é o país com as maiores reservas de petróleo do mundo (20% das reservas mundiais; os EUA têm 2%). O acesso ao petróleo do médio oriente determinou o pacto de sangue com o país mais ditatorial da região, a Arábia Saudita, e a destruição do Iraque, da Síria, da Líbia, no Norte de África; a próxima vítima pode bem ser o Irão.

Acresce que o petróleo do Médio Oriente está mais próximo da China do que dos EUA. Enquanto o petróleo da Venezuela está à porta de casa. O modo de aceder aos recursos varia de país para país, mas o objectivo estratégico tem sido sempre o mesmo. No Chile, envolveu uma ditadura sangrenta. Mais recentemente, no Brasil, o acesso aos imensos recursos minerais, à Amazónia e ao pré-sal envolveu a transformação de um outro favorito de Washington, Sérgio Moro, de ignorado juiz de primeira instância em notoriedade nacional e internacional, mediante o acesso privilegiado a dados que lhe permitissem ser o justiceiro da esquerda brasileira e abrir caminho para eleição de um confesso apologista da ditadura e da tortura que se dispusesse a vender as riquezas do país ao desbarato e formasse um governo de que o favorito pró-norte-americano do futuro do Brasil fizesse parte.

Mas a perplexidade de muitos democratas venezuelanos diz especialmente respeito à Europa, até porque no passado a Europa esteve activa em negociações entre o governo e as oposições.

Sabiam que muitas dessas negociações fracassaram por pressão dos EUA. Daí a pergunta, também tu Europa? Estão conscientes de que, se a Europa estivesse genuinamente preocupada com a democracia, há muito teria cortado relações diplomáticas com a Arábia Saudita. E que, se a Europa estivesse preocupada com a morte em massa de civis inocentes, há muito que teria deixado de vender à Arábia Saudita as armas com que este país está a levar a cabo o genocídio do Iémen. Mas talvez esperassem que a responsabilidades históricas da Europa perante as suas antigas colónias justificasse alguma contensão.

Porquê este alinhamento total com uma política que mede o seu êxito pelo nível de destruição de países e vidas?

A pouco e pouco se tornará claro que a razão deste alinhamento reside na nova guerra fria que entretanto estalou entre os EUA e a China, uma guerra fria que tem no continente latino-americano um dos seus centros e que, tal como a anterior, não pode ser travada directamente entre as potências rivais, neste caso, um império declinante e um império ascendente. Tem que ser travada por via de aliados, sejam eles num caso os governos de direita da América Latina e os governos europeus, e noutro caso, a Rússia.

Nenhum império é bom para os países que não têm poder para beneficiar por inteiro da rivalidade.

Quando muito, procuram obter vantagens do alinhamento que lhes está mais próximo. E o alinhamento tem de ser total para ser eficaz. Isto é, é preciso sacrificar os anéis para não se irem os dedos. Isto é tão verdade do Canadá como dos países europeus.

Tenho-me reconhecido bem representado pelo governo do meu país no poder desde 2016. No entanto, a legitimidade concedida a um presidente-fantoche e a uma estratégia que muito provavelmente terminará em banho de sangue faz-me sentir vergonha do meu governo. Só espero que a vasta comunidade de portugueses na Venezuela não venha a sofrer com tamanha imprudência diplomática, para não usar um outro termo mais veemente e verdadeiro da política internacional deste governo neste caso.

Acessibilidade nos afetos

Acessibilidade nos afetos

Foto: Valentin Salja

Quando falamos sobre a vivência com deficiência é muito comum abordarmos os temas inclusão, educação, saúde e acessibilidade. Não necessariamente nesta ordem, tampouco isolados. Vemos vídeos, reportagens e depoimentos sempre girando nestes assuntos como se fossem apenas os mais importantes de nossas vidas.

Eu e alguns amigos com deficiência tentamos um outro caminho. Com blogs, canais no youtube ou projetos pessoais mostramos como nossa vida não é tão diferente quanto a de alguém sem deficiência. Claro que temos algumas diferenças, porém as emoções, pensamentos e desejos são iguais. Afinal de contas, somos humanos.

Pode parecer óbvio dizer isso, mas infelizmente precisamos enfatizar nossa humanidade constantemente. É engraçado, eu sei. Entretanto é necessário lembrar deste “pequeno” detalhe, pois nossa mera existência ainda não é suficiente uma vez que somos diferentes da maioria das pessoas.

Aliás, o que seria esta diferença? Acredito que seja uma marca social que nos diz onde, o que e como devemos viver. Um eterno lembrete de qual é o nosso lugar. Ser diferente é ser alguém que não tem lugar definido. É ser construtor de lugares. É muitas vezes viver só.

É muito comum em grupos de facebook para pessoas com deficiência encontrar enquetes com perguntas sobre relacionamento. “Quem namoraria um cadeirante?”, questionam. Confesso que às vezes essas dúvidas incomodam, soam como um lamento constante.

Porém, lembro da solidão que experimentei durante minha adolescência. Foi muito difícil ver minhas colegas tendo suas primeiras experiências amorosas, seus corpos transformados pela idade enquanto o meu pouco mudava. Doía pensar que poderia passar por esta vida sem saber como seria ser o “bem querer” de alguém. Lembrar desta fase me faz entender essas enquetes.

Dia desses Duda Salabert, primeira candidata trans ao Senado em Minas Gerais e professora, concedeu uma entrevista  ao programa mineiro “Mistura Fina” sobre diversidade onde comentou o seguinte:

Existe uma dimensão fundamental para construção da humanidade que significa afeto. Então mais do que tolerar nós temos que experienciar afetos diferentes, de campos diferentes. E aí sim, nós vamos poder construir um elo coeso de humanidade. Porque senão fica a minha humanidade que exclui alguns grupos dessa categoria de humanidade. Porque para ser humano, aquele ser tem que se reconhecer como um ser que recebe e propaga afeto. E aí pergunto:

Quem está disposto a receber afeto de uma travesti?

Ao ver esse questionamento lembrei das enquetes facebookianas, não eram tão fora da realidade como muitos podem pensar. Quem estaria disposto a receber afeto de uma pessoa com deficiência?

Infelizmente pessoas marcadas pela diferença não são escolhidas para afetividades, não são lembradas tampouco vistas. Há um estigma sobre sua existência.

Ora são hipersexualizadas, sendo dispensadas para relações duradouras. Ora são assexualizadas, castradas socialmente e submetidas a relações infantilizadas. Em todos os casos, a solidão acaba se tornando a única opção.

Claro que existem as exceções (ainda bem!), contudo é preciso atentar para a regra. Por quais motivos essas pessoas encontram tanta dificuldade em acessar esse afeto? Quais são os requisitos necessários para fazer parte deste jogo e sair deste lugar marginal?

A resposta destas questões transita pelos elementos que norteiam nossas escolhas. Repetimos os padrões na seleção de nossos pares, sem perceber os diferentes.

Lembro de um cara que mesmo me considerando uma mulher linda, não poderia se relacionar comigo. O fato de ser cadeirante era demais para ele. Por outro lado, um ex-namorado já deixou claro que eu deveria agradecer aos céus pelo relacionamento, pois não teria outro tão cedo.

Essa dualidade “super” afeto x solidão é muito desgastante, mas é resultado da discriminação que a Duda citou. Sabemos que relações são complicadas, o “mar não está para peixe” para ninguém. Todavia há uma diferença entre oportunidade e exclusão. Este é o ponto.

O problema não é ter deficiência ou ser travesti, como no exemplo citado. A questão é como a sociedade lida com essa diversidade corporal. Não adianta saber que essas pessoas existem, mas sim permitir que elas façam parte de suas escolhas.

Acho irrelevante dizer que nestes corpos marginais existem seres incríveis se você não se abrir para eles. Se seu afeto for inacessível, não adianta dizer “ame seu corpo” e continuar ignorando a existência de outros corpos.

Todo mundo precisa de amor. Todo mundo merece ser amado.

Povos indígenas e acesso a justiça na pauta do Supremo

Povos indígenas e acesso a justiça na pauta do Supremo

Foto: STF

Uma reflexão séria sobre o relacionamento do Estado brasileiro com os povos indígenas no decorrer da história requer necessariamente reconhecer a existência de um poder tutelar e verificar as suas mais variadas formas de exercê-lo. Durante um bom tempo, uma dúvida pairou sobre se os indígenas eram ou não seres humanos. Eles foram elevados à categoria de humanos somente por intermédio de uma bula papal reconhecendo que os indígenas tinham alma e, portanto, eram passíveis de evangelização. O resultado disso foi trágico. Ficaram submetidos ao regime tutelar, sendo tratados juridicamente como relativamente incapazes para os atos da vida civil.

Imposto ainda no Brasil-Colônia, o regime tutelar continuou presente na legislação republicana com guarida legal até os dias atuais, já que o Estatuto do Índio, de 1973, ainda não foi revogado expressamente.

Os caciques mais velhos têm viva na memória a chamada guia de trânsito, um documento expedido pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) sem o qual o indígena não poderia deixar sua aldeia. Ou seja, o indígena era tratado como criança que dependia de seu tutor para praticar qualquer ato, inclusive o de ir e vir.

No âmbito do judiciário, a tutela sempre esteve presente, e seu modo de exercê-la acarretou muitos prejuízos aos povos indígenas. Basta lembrar que foi somente com a Constituição de 1988 que os “índios, suas comunidades e organização” tiveram reconhecido o direito de participar dos processos judiciais, defendendo seus interesses. Até então, essa prerrogativa ficava restrita aos procuradores da agência indigenista estatal.

No próximo dia 06 de fevereiro, estará na pauta do Supremo o julgamento do Agravo Interno na Ação Cível Originária N.º 2323, de relatoria do ministro Alexandre de Morais. Este processo, em síntese, é uma ação interposta pelo Estado de Santa Catarina contra a União Federal e a Fundação Nacional do Índio (Funai), visando à nulidade do processo administrativo que culminou na edição da Portaria Declaratória n.º 771, de 18 de abril de 2008, do Ministério da Justiça.  Essa portaria deixa clara a posse permanente dos grupos indígenas Guarani Mbya e Nhandeva da Terra Indígena Morro dos Cavalos. É o típico caso no qual os “índios, suas comunidades e organizações” não foram citados para compor o pólo passivo da ação.

Ou seja, trata-se de uma ação, em que se discute o direito fundamental da comunidade indígena. Mas, em momento algum, teve-se a preocupação de ouvir a comunidade.

Por isso, em 15 de maio de 2015, por meio de advogado próprio, os indígenas requereram ingresso na ação, na condição de litisconsórcio passiva necessária. Passado mais de um ano sem que seu pedido sequer fosse analisado, no dia 14 de outubro de 2016, o advogado apresentou contestação e reiterou seu pedido de ingresso no feito. E, na data de 05 de fevereiro de 2017, a Comunidade Indígena de Morro dos Cavalos renovou o pedido de ingresso nos autos.

Somente no dia 26 de março de 2018, o ministro Alexandre de Morais decidiu pela não admissão da comunidade indígena como assistente litisconsorcial, mas, sim, como assistente simples. São figuras jurídicas que trazem impacto significativo no processo e nos resultados da ação. No entendimento do ministro, o processo que discute a regularidade do processo demarcatório de terra indígena afeta indiretamente a comunidade indígena, tendo em vista que a União e a Funai já estão presentes na ação, justificando, assim, seu ingresso apenas na condição de assistente simples. Em outras palavras, numa ação em que se discute se você poderá ou não habitar num determinado local originário, você não pode participar decisivamente, sob a justificativa de que o resultado daquela disputa judicial não o afetará diretamente. Nota-se que, além de ser uma interpretação equivocada e sem levar em consideração o significado do território para os povos indígenas, vem carregada de uma visão tutelar que faz crer que a simples presença da Funai no processo já supre a ausência da comunidade indígena nos autos.

Assim, o exercício do poder tutelar tem sido instrumentalizado desde tempos imemoriais. São expedientes estatais da máquina pública promulgados sem levar em conta a vontade da comunidade indígena, sem ouvi-la.

É a turbação do exercício da cidadania cultural dos povos indígenas, na ânsia de se colocar na posição de quem sabe o que é melhor para os indígenas, sem ao menos consultá-los. Isso não é casual. Há pouco tempo atrás, no mesmo Supremo, ouvimos da boca de outro ministro a afirmação de que ele era profundo conhecedor da causa indígena, pois já havia jogado “futebol com índios”.

Para se garantir o acesso à Justiça aos povos indígenas, é fundamental romper com os paradigmas tutelares, que se baseiam na relação colonial para subjugar os povos indígenas.  Esse tipo de distorção justifica, de maneira absurda, a dominação e a cooptação dos indígenas pelos agentes estatais.

Festa de Iemanjá é um caleidoscópio de culturas

Festa de Iemanjá é um caleidoscópio de culturas

Iemanjá, para o povo de candomblé, é, “a mãe do mundo”. Portanto, não é estranho que em sua festa caiba um mundo de possibilidades e sensações.

Perfomance Oferenda L.A.V.A.G.E.M. por @gameleiraintegra Foto: Mariana David

Aparentemente, a Festa de Iemanjá, ocorrida anualmente em Salvador no dia 2 de fevereiro, no bairro do Rio Vermelho,  pode ser resumida em um rito: os pescadores oferecem um presente àquela que é considerada a governante do mar. Mas da madrugada até às 16 horas, momento em que o barco leva a escultura com os agrados que possuem natureza reservada ao campo dos segredos do candomblé, cabe uma diversidade caleidoscópica dentro deste evento, que é uma festa com perspectivas múltiplas, como indica as análises dos atuais estudos da antropologia da festa.      

A Festa de Iemanjá, portanto, comporta na madrugada do dia 2, o presente para Oxum no Dique do Tororó, uma área localizada a cinco quilômetros do Rio Vermelho. Mas também a chegada do presente principal- a escultura onde está o agrado dos pescadores- por volta das cinco horas da manhã à sede da colônia de pesca. A partir daí, enquanto devotos fazem filas para entregar suas ofertas no espaço preparado especialmente para recebê-las em balaios que serão levados nos barcos que seguem a procissão principal, o entorno da Casa do Peso é tomado por uma profusão de manifestações culturais.   

Senhor Vítor, há 57 faz arriamento de oferenda pra Oxum no Dique do Tororó. Foto: Maíra Cabral / Mídia NINJA

Foto: Heitor Salatiel

Tem o desfile das mais variadas linguagens artísticas: bandinhas de percussão; blocos organizados por amigos, gente da vizinhança ou donos de bares para festejar com sua freguesia. Cabe o “samba raiz”, aquele que a gente dança “miudinho” sem tirar o pé do chão e com um movimento cadenciado dos quadris- coisa que só especialista de Cachoeira e Santo Amaro faz à perfeição-, e também as rodas de capoeira.

No âmbito religioso vêm os muitos presentes: eles chegam trazidos por terreiros de candomblé de Salvador, de outras cidades da Bahia, mas também de muitos outros estados brasileiros. O afoxé Filhos de Gandhy dá um espetáculo quando desfila com o seu agrado para a Rainha do Mar ao som do irresistível ritmo característico da sua trajetória: o ijexá.

Foto: Jonas Eduardo Santana

O povo da umbanda monta suas tendas na areia. Ali cantam, dançam e os caboclos, especialmente os que são originários das áreas de porto, como os marujos, tomam o corpo das suas filhas e filhos. O cheiro do charuto se mistura ao de alfazema que devotos de Iemanjá distribuem em meio aos desfiles dos presentes.

E na edição deste ano teve até manifesto político lembrando outras duas festas bem proeminentes na Bahia: a Lavagem do Bonfim e o 2 de Julho. Estas manifestações incluíram performance-protesto em solidariedade a Brumadinho e Mariana e o  “Lula Livre”, um bloco que desfilou em defesa do ex-presidente preso em Curitiba. Não adiantou, portanto, a Prefeitura de Salvador ter divulgado nota dizendo que estavam proibidas manifestações com faixas, banners ou balões alusivos a políticos.

Foto: Holanda Cavalcanti

Aliás, a prefeitura soteropolitana teve o seu próprio imbróglio político para resolver. A história começou de mansinho com protestos em grupos de Whatsapp e no Facebook: um repúdio à propaganda oficial da festa espalhada ao longo do circuito em que acontece com a chamada “2 de Fevereiro”. Cadê a “Festa de Iemanjá?, bradaram as redes. Como uma onda, o protesto cresceu a partir da tarde do dia 1º e até o Ministério Público, via o Grupo de Atuação Especial de Proteção dos Direitos Humanos e Combate à Discriminação (GEDHDIS), sugeriu que a propaganda oficial usasse a denominação “Festa de Iemanjá”. A prefeitura respondeu em nota com um certo atraso em relação à polêmica defendendo-se com argumentos de que não houve desrespeito ao evento, mas deve ter aprendido que o protagonismo conquistado por Iemanjá ganhou mais um ambiente de defesa: o ciberespaço.   

Tanto barulho se justifica. Só o povo de candomblé sabe o que passou e passa nessa cidade da bela Baía de Todos-os-Santos para manter sua prática religiosa, mesmo quando ela está dispersa em uma festa feita na rua, portanto muito diversa do que acontece no aconchego dos seus templos que insistem e resistem.

Foto: Felipe Iruatã / Mídia NINJA

Um exemplo: tem apenas 43 anos que já não é necessário conseguir uma autorização policial para fazer uma festa pública de candomblé. Era assim até 1976 quando o então governador Roberto Santos assinou o decreto acabando com o controle sobre o ambiente dos terreiros que estava com a Delegacia de Jogos e Costumes. A unidade era a mesma que controlava os  jogos de azar e prostituição.      

Esta é apenas uma amostra da relação dúbia que o poder público e vários segmentos da Bahia mantiveram e ainda mantém com o candomblé e as manifestações que subvertem os roteiros das elites. Se esta prática religiosa é usada pelo estado, de forma mais articulada para “vender a Bahia” a partir da década de 1970, como mostra o antropólogo Jocélio Teles dos Santos em seu livro O poder da cultura e a cultura no poder, na hora de manter seus direitos, o povo de santo, na esmagadora maioria das vezes, se vê sozinho. A defesa é a sua inteligência na construção das próprias estratégias de resistência. É esta experiência que lhe serve de escudo contra os variados ataques que continua sofrendo em variadas frentes, especialmente os desencadeados por denominações neopentecostais e suas variadas alianças de poder.    

Multidão no multi-espaço Lalá. Vídeo: @hedernovaes

Por isso a Festa de Iemanjá é um caldeirão multifacetado, mas, sobretudo um monumento à resistência das devoções que nascem do povo. Ortodoxias e normatizações quase sempre não conseguem manter controle por muito tempo. Há disputas narrativas, variadas tensões e sempre novas faces, como as da economia em torno deste evento. A movimentação de dinheiro nesta festa vai desde a poderosa indústria do entretenimento baiana com as chamadas “festas de camisa” capitaneadas por astros como Carlinhos Brown até aquelas que surgiram na movimentação do “black money”. Um exemplo desta última é a Yemanjá é Black.

Foto: Taciana Pereira

Foto: @OlaAudiovisual

Foto: Clarissa Beretz

O surgimento ou transformações de negócios são dinâmicas próprias destes eventos que não se submetem a controles rígidos. Ainda bem porque têm aqueles que não dispõem de meios de produção ou financiamento público para se virar na cidade que sofre como tantas outras com o desemprego. A informalidade, outra marca da festa, é alternativa para muita gente . O isopor de cerveja já não é um negócio tão seguro diante da normatização da prefeitura que estabelece a venda apenas de uma marca.  Mas há os ambulantes que insistem em correr o risco. Outra possibilidade de renda é a venda de rosas por R$ 2 a unidade, que uma comerciante me disse ter melhorado em relação ao ano passado.

Foto: Diogo Andrade

Um negócio que bombou este ano foi a venda de chapéus com abas bem largas. Eles são realmente ótima proteção contra o sol ardente, enquanto se anda para lá e para cá buscando acompanhar tudo que movimenta o Rio Vermelho em dia de festa.

Mas sempre tem aqueles negócios bem inusitados. O meu eleito deste ano na categoria “criatividade” foi o “banho para os pés”.  O serviço estava sendo oferecido nas escadas de acesso ao calçadão para quem decidiu ir colocar sua rosa diretamente nas águas. O valor do “banho” variava de R$ 1 a R$ 2 dependendo da capacidade de pechincha dos clientes e o tamanho do anseio para livrar os pés do incômodo de areia molhada.   

Foto: Diogo Andrade

E como registrar, catalogar, conceituar e escrever tudo isso? Foi esta umas das perguntas que me inquietaram durante a pesquisa para a minha tese sobre as festas de verão em Salvador; e que agora reapareceu nesta colaboração com o projeto de cobertura realizado de uma forma bela e responsável pelo Mídia Ninja, a partir de um bate-papo descontraído. A minha resposta é múltipla como a festa: andando por ela, observando, experimentando e seguindo. Iemanjá, para o povo de candomblé, é, “a mãe do mundo”. Portanto, não é estranho que em sua festa caiba um mundo de possibilidades e sensações.

Foto: Muntaser Khaziz

Daniel Zen: Milícias e Facções

Daniel Zen: Milícias e Facções

O filme ‘Tropa de Elite 2’ retrata o poder das milícias no Rio.

Há algo de podre no reino da Dinamarca. A célebre frase do clássico Hamlet, de Shakespeare, mais citada do que Zack Magiezi em card do Instagram, parece se aplicar ao Brasil de hoje e, também, ao Estado do Acre.

E não me refiro à lama que escorreu da barragem da Cia. Vale do Rio Doce, em Brumadinho-MG ou à cheia que leva as águas barrentas do Rio Acre a inundar os bairros periféricos de nossa capital Rio Branco, durante o “Inverno Amazônico”.

Refiro-me às relações promíscuas do Presidente da República, Jair Bolsonaro (PSL) e de seu filho, Flávio Bolsonaro (PSL), Senador da República, com milicianos de Rio das Pedras-RJ, berço das milícias cariocas, por sua vez suspeitos do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson.

Tal envolvimento está sobejamente comprovado pelo fato do então deputado estadual Flávio Bolsonaro ter nomeado, em seu gabinete na Alerj, a mãe (Raimunda Veras Magalhães) e a esposa (Danielle da Nóbrega) de Adriano da Nóbrega, conhecido como chefe do “Escritório do Crime”, ele próprio, principal suspeito de ter efetuado os disparos contra Marielle e Anderson.

Aqui no Acre, na quarta-feira, dia 30/01, ao trigésimo dia de governo, veio à tona, em reportagem publicada no portal de notícias UOL, a revelação de que o novo secretário estadual de Polícia Civil estaria, supostamente, envolvido com uma das facções criminosas mais poderosas do Brasil, o Comando Vermelho (CV), em uma investigação que já havia levado à prisão um oficial do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar do Estado, detido em dezembro de 2018, nos desdobramentos da Operação Sicário.

A matéria foi publicada no dia seguinte a divulgação de uma carta aberta de um Delegado de Polícia Civil em que o mesmo faz diversas críticas a conduta dos membros do governo recém empossado, com atuação na área de segurança pública.

Tal suposição respinga, diretamente, no núcleo mais íntimo do governo do Acre, por intermédio de seu Vice-Governador, Maj. PM RR Wherles Rocha (PSDB).

Afinal, o Vice-Governador avocou para si o título de “Homem da Segurança”, responsável por solucionar os problemas da área e autor das indicações de todos os nomes que integram a cúpula dos órgãos que compõem o Sistema Integrado de Segurança Pública (SISP) do Estado, incluindo o Secretário de Polícia Civil.

Além disso, todos ainda se lembram de reportagem publicada na imprensa local, em 2016, em que se noticiou a prisão de uma assessora parlamentar do então deputado federal Wherles Rocha (PSDB) e de seu esposo, por integrarem postos de relevo na facção CV. Naquela ocasião, fomos solidários ao então deputado federal e hoje Vice-Governador.

Eu mesmo, ainda que sendo seu adversário político, subi à tribuna da ALEAC e me pronunciei em defesa do colega parlamentar, afinal, ninguém pode ser responsabilizado pelos atos de outrem.

Domínio do fato, nunca mais. Nem mesmo contra os meus adversários.

Por enquanto, o Secretário não é formalmente investigado ou sequer indiciado. Não repousam sobre ele acusações ou suspeitas formais. Muito menos em desfavor do Vice-Governador. A ampla defesa, o contraditório e o devido processo legal devem, sempre, ser respeitados. A eles, o benefício da dúvida.

Contudo, enquanto assistimos às consequências do crime ambiental cometido em Brumadinho-MG; e enquanto nos distraímos com as arengas na vizinha Venezuela; as milícias e facções se aproximam, cada vez mais, do núcleo duro do Poder Executivo, respectivamente, no Brasil e no Acre. Esperamos que aquilo que aparenta ser – e, por enquanto, apenas aparenta – não se torne uma realidade: a de que milícias e facções já estariam, íntima e confortavelmente, infiltradas em ambos os governos. Ao governador do Acre, Gladson Cameli (PROGRESSISTAS), todo cuidado é pouco.

Amara Moira: Corpos livres, corpos trans

Amara Moira: Corpos livres, corpos trans

Foto: Mídia NINJA

Expostas em revistas e vídeos pornográficos sempre de forma a ressaltar tanto o genital com que nascemos quanto o paradoxo que é a presença do mesmo num corpo percebido como de mulher, esse mesmo genital sendo também o atributo que mais requisitam de nós na prostituição e, ao mesmo tempo, aquilo que impede o reconhecimento efetivo de nossas identidades nessa sociedade. Corpos que fascinam e causam medo, corpos que mexem com os desejos de gente que se acreditava imune aos nossos encantos, gente acostumada a nos ver como lixos, aberrações, corpos que explicitam que é possível existir de outras formas e que genital não é mais tão capaz assim (se é que um dia foi) de definir gênero, eis então o perigo de nossa existência, eis a razão de nos quererem mortas ou, no mínimo, segregadas.

Visíveis, demasiado visíveis. Corpos mortos em matérias sensacionalistas, corpos absurdos na prostituição e pornografia (o país que mais mata pessoas trans é também o que mais consome pornô envolvendo nossos corpos), o desrespeito ao nosso nome e gênero existindo justamente para que as demais pessoas possam continuar acreditando que o genital com que nasceram e o nome recebido ao nascer definem, de forma incontornável, toda e qualquer pessoa.

A transfobia tem, sim, sua razão de existir: aceitar a existência de pessoas trans não é somente nos reservar um cantinho ao fundo da sala, mas reconhecer que mulheres podem nascer com pênis, homens com vagina, mudando seus nomes inclusive, e reconhecer ainda que nem todo mundo deseja ser enquadrado nas etiquetas homem/mulher.

O reconhecimento desses direitos, no entanto, só pode se dar quando concluímos que genital já não dá conta de explicar o que uma pessoa é, o que uma pessoa pode se tornar. E qual o problema disso?

Pessoas que, por nascerem com pênis ou vagina, desde sempre existiram respectivamente como homens ou mulheres terão que buscar outra explicação para seu gênero, uma vez que vai crescendo o número de pessoas que nasceram com o mesmo genital e hoje se reivindicam de maneira distinta. Nossa existência, uma vez legitimada, põe em xeque a forma como as identidades funcionavam antes de nós, obrigando essa mesma sociedade a ter que pensar outras explicações para o que é um homem, o que uma mulher.

Mas a questão vai além. Lembro-me sempre dum diálogo que escutei no ponto de ônibus entre dois adolescentes, ambos com doze, treze anos no máximo: “pô, mas como é que eu vou saber se é mulher mesmo e não traveco?” A dúvida me fez sorrir. Ele queria ser hétero da forma mais tradicional, mas agora não basta seguir o instinto, é preciso cuidado. Sua dificuldade em diferenciar as duas categorias e a angústia que isso lhe causava, o que isso significa senão que mulheres cis e trans (cis é o contrário de trans, toda pessoa que não é trans) talvez já não sejam assim tão diferentes? Com os homens trans mais ainda, ou você jura que é capaz de perceber diferenças objetivas entre um Thammy Miranda e um galã global?

O desenvolvimento das tecnologias médico-farmacêuticas, mas também as reivindicações de liberdade que cada vez de modo mais firme emanam desses corpos, não mais tão dispostos a se sujeitarem a um modelo de feminino/masculino hegemônico, a um modelo de feminino/masculino opressor, tudo isso faz com que as diferenças entre esses corpos fiquem cada vez menos visíveis, identificáveis.

Não sendo mais tão simples nos diferenciar, pessoas xis começam a se perceber atraídas por nós, sua primeira reação ao descobrir quem somos sendo o choque: nova instância de perturbação.

Mulheres cis deixando de entender como insulto serem “confundidas” com travestis, travestis problematizando o “parece mulher”, o “nem dá pra perceber”, o “me enganou direitinho” com que tentam nos elogiar, daí a impossibilidade de nos manterem segregadas, vivendo às margens da sociedade apenas, daí também os homens trans brincando de sumir na multidão e de reinventar as masculinidades, pensa a sociedade que vai se construindo a partir disso!

Quinze anos do fatídico dia em que 27 travestis lançaram, junto ao Ministério da Saúde, a campanha “Travesti e respeito – já está na hora dos dois serem vistos juntos”, convertendo esse dia em Dia Nacional da Visibilidade Trans, hoje, 29 de janeiro de 2019, celebremos a presença cada vez mais massiva de pessoas trans na sociedade e celebremos também as transformações por que passa essa mesma sociedade ao se permitir conviver conosco, ao se permitir aprender conosco outras possibilidades de existir.

Marcelo Yuka: a voz pela paz sem medo

Marcelo Yuka: a voz pela paz sem medo

Foto: Divulgação

Perder Marcelo Yuka nesse janeiro de 2019 é desolador. Quem curte sua produção certamente já estava bem triste com tudo que temos vivido nos últimos tempos.

Ao chorarmos e lamentarmos a sua morte somos convidadas e convidados a (re)conhecer seu grande legado, destacando-se as lutas por igualdade, contra a violência e de denúncia das arbitrariedades do Estado.

E quanto mais nos aproximamos de sua história mais lamentamos que ele não possa continuar conosco para seguir na luta por um mundo melhor.

Marcelo Yuka foi fundador, baterista e principal compositor do grupo O Rappa. A ele devemos clássicos da música brasileira que nos inspiram e sensibilizam. Nos ajudam a ver o que, muitas vezes, está longe de ser visto, como em Minha Alma:  “A minha alma tá armada e apontada para a cara do sossego. Pois paz sem voz – paz sem voz – não é paz, é medo”. Sua arte engajada trazia a denúncia da violência racial, como na música “Todo Camburão Tem Um Pouco de Navio Negreiro”  e “A Carne”, que tem destaque na voz de Elza Soares, porque “ A carne mais barata do mercado é a carne negra”.

Assisti o documentário depois de sua morte. Lamentei conhecê-lo pouco, não estar com ele no PSOL em 2012,  quando foi candidato a vice prefeito junto com Marcelo Freixo. Intitulado “Marcelo Yuka no Caminho das Setas”, da diretora Daniela Broitman, o documentário é resultado de 8 anos de trabalho e conta a história a partir de Yuka como pessoa pública, sensível aos problemas da humanidade, inconformado com a desigualdade social, com a injustiça, e que coloca a sua fama e a sua música a serviço da mudança.

Nessa dimensão destaca-se além a crítica social poderosa nas suas músicas, o vínculo com a luta pela terra, expressa na presença das bandeiras do MST nos shows, seu engajamento em projetos educativos nos presídios, as lutas pela acessibilidade.

Marcelo Yuka morreu no mês que o velho governo de Bolsonaro decretou a flexibilização do porte de armas. Antes disso ele já dizia que os setores médios estavam enganados, achando que poderiam se defender tendo armas. Os setores populares não poderão ter armas porque são caras e, mesmo se pudessem, isso só aumentaria a insegurança. Nós, as mulheres, sabemos bem que, com uma arma, será mais fácil sermos mortas por aqueles que são chamados, erroneamente, de nossos companheiros.

Em tempos em que a depressão se alastra como se fosse vírus, que cresce o número de suicídios até na infância, armas em casa constituem grande risco. Em tempos de intolerância e discursos de ódio, de desemprego e violência, mais armas só servem mesmo para fazer caixa para indústria bélica e favorecer político corrupto. Não atende aos interesses do povo brasileiro que precisa de educação, cultura e arte para viver e expressar sua sensibilidade. Mas se extingue o Ministério da Cultura e armas de fogo são apontadas como a solução para os problemas do país.

Sobre as armas, Yuka afirmou em entrevista ao Estadão, publicada em 17 de março de 2014:

“O cerne do meu ponto de vista é que a arma de fogo é o fim da tolerância. A guerra se dá quando a tolerância termina. E não há regras numa guerra. Isso só acontece a partir do momento em que o Estado assume que terminou o diálogo. E terminar o diálogo é uma posição política absoluta, ditatorial. O Estado não foi feito para se curvar à falta de diálogo, mas, sim, para promover sua importância. (…) Sou, talvez ingenuamente, um dos últimos que se assume como pacifista”.

O Yuka músico e lutador é mais conhecido. É extraordinário saber mais também do Marcelo pessoa física, na sua intimidade, no seu dia a dia. Um homem que sente seu corpo como limitado por conta das balas que o tornaram paraplégico. Um homem que sente muita dor nos anos que se seguem ao assalto. Uma pessoa que, segundo ele mesmo, tinha autoestima baixa e era desengonçado. Uma pessoa corajosa, que buscou ser sujeito, apesar dos dramas. Marcelo tinha um grande amor pela humanidade. Desejava também ser amado. Sua condição de cadeirante, segundo ele, confundiu mais suas emoções.

Alguém poderia amá-lo? “Me abrace e me dê um beijo, faça um filho comigo, mas não me deixe sentar na poltrona no dia de domingo procurando novas drogas de aluguel nesse vídeo coagido, é pela paz que eu não quero seguir admitindo”.

Ele não teve o filho e não se conformou à poltrona nos dias de domingo. Marcelo teve muita dificuldade em aceitar sua condição de cadeirante, o que é compreensível em uma sociedade marcada pelo capacitismo. Mas foi nessa condição de cadeirante que ele diz ter aprendido a diferença entre fazer sexo e fazer amor.

A participação de Marcelo No TEDx Sudeste também é bastante especial. Nela ele fala de como a adversidade o constituiu no pós assalto, com uma nova noção do seu corpo.  E que “como artista eu percebi que o tamanho do meu corpo, tem que ser, nem que seja na porrada, o tamanho da minha sensibilidade, ela não é meu tamanho físico, nem da minha vontade mas o tamanho daquilo por que, por quem e como eu me emociono. (…) Um corpo social”. Tiraram essa vida cedo. Marcelo Yuka não vive, assim como Marielle não vive. Estão presentes em nossas lutas, nos inspiram. Mas para a mãe e o pai de Marcelo Yuka, para a mãe, filha e a esposa de Marielle, palavras de ordem certamente não curam a dor da ausência, a história interrompida, a falta que sentem dos seus. Não nos calemos com suas mortes.

Por que janeiro vermelho? Reação indígena aos primeiros atos de Bolsonaro

Por que janeiro vermelho? Reação indígena aos primeiros atos de Bolsonaro

Desde o início da colonização, os povos indígenas têm sido vítimas do genocídio levado a cabo no território brasileiro. São 519 anos de resistência para manter viva a riqueza que se traduz atualmente em mais de 300 povos com mais de 270 línguas diferentes. Povos que, com seu modo de vida, protegem os territórios tradicionais onde vivem, garantindo, assim, o seu bem-viver e o bem-estar de toda a humanidade.

Desde a campanha eleitoral, observamos com preocupação as promessas ventiladas pelo presidente Jair Bolsonaro, que à época já declarava abertamente ser contrário aos direitos dos povos indígenas e demais povos tradicionais. Já no primeiro dia de governo, ele assinou a Medida Provisória (MP) nº 870, que fere de morte os direitos dos povos indígenas.

Esta nefasta MP transferiu para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) a atribuição de identificar, demarcar e registrar as terras indígenas (TIs), promovendo o esvaziamento da Fundação Nacional do Índio (Funai), o órgão indigenista oficial do Estado brasileiro. Além de retirar da Funai sua principal função, colocou sob as asas do agronegócio o poder de decidir sobre a demarcação dos territórios tradicionalmente ocupados pelos povos indígenas. O governo, portanto, deu carta branca aos ruralistas para ditar as regras sobre demarcação das TIs. Como se não bastasse, a titular da pasta de Agricultura, Tereza Cristina, representa os interesses do agronegócio no país. A ministra, que deveria dar bons exemplos, tem um histórico de envolvimentos em conflitos em territórios indígenas. Sua família possui propriedades rurais em TIs, no Mato Grosso do Sul, onde é fato público e notório seus confrontos com os Terena da TI Taunay-Ipegue.

A MP 870 retirou também a Funai do Ministério da Justiça e realocou-a no Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, pasta comandada por Damares Alves, uma pastora de linha conservadora. Não é a primeira vez que a agência indigenista estatal fica subordinada a interesses escusos. Em 1910, quando foi criado o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), o órgão indigenista ficou vinculado ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio (MAIC), e ao longo dos anos passou pelos ministérios da Guerra, do Interior, retornando à pasta da Agricultura. Foi somente na década de 1960, após a apuração de inúmeras violações perpetradas contra os povos indígenas, com a conivência do Estado brasileiro, que o órgão indigenista passou a ser associado ao Ministério da Justiça.

As denúncias de violações cometidas contra povos indígenas e de corrupção no órgão indigenista provocaram quatro Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) – no Senado, a CPI de 1955; e, na Câmara, as de 1963, 1968 e 1977. Em 1967, houve uma CPI na Assembleia Legislativa do estado do Rio Grande do Sul e, no mesmo ano, uma comissão de investigação do Ministério do Interior produziu o Relatório Figueiredo, motivo da extinção do SPI e criação da Funai. Só então a demarcação das TIs passou a ser aprovada pelo Ministério da Justiça.

A demarcação de Terras Indígenas representa uma garantia de proteção à floresta e aos povos que dela dependem para viver. A terra é a base do habitat de um povo e da sustentabilidade das riquezas naturais ali presentes. Ela dá suporte à reprodução física e cultural das populações indígenas.

A fragilização dessa base já tem consequências extremamente graves, na medida em que os órgãos responsáveis pela execução da política indigenista foram ainda mais sucateados. A irresponsabilidade do poder público com a questão indígena já está sendo sentida nos territórios: várias comunidades estão sofrendo com invasões e ataques concretos perpetrados por agentes ligados aos interesses dos ruralistas, garimpeiros e madeireiros.

Diante da crescente ameaça e dos retrocessos impostos pelo Estado aos povos originários do país, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) lançou a campanha “Sangue Indígena: nenhuma gota a mais”, com o objetivo de mobilizar a sociedade pelos direitos indígenas.
Junte-se a nós parentes, aliados e aliadas!

#JaneiroVermelho #DemarcaçãoJA

O agronegócio e a agricultura familiar

O agronegócio e a agricultura familiar

Foto: Tiago Giannichini

Tenho acompanhado, com atenção, pela imprensa, sucessivas declarações do governador do meu estado, Gladson Cameli (PROGRESSISTAS) reputando ao agronegócio a condição de suposta redenção econômica para o Acre. Chama a atenção a contundência de sua defesa, sobretudo em uma semana em que Mato Grosso e Goiás, estados autoproclamados celeiros do Brasil, que figuram entre os quatro maiores produtores de soja da nação, decretaram calamidade financeira.

De fato, o agronegócio movimenta bilhões, por ano, em comércio exterior. Tem uma importância significativa para manter o saldo positivo (superavitário) da balança comercial brasileira. Sem dúvida, é um vetor importante para uma matriz de desenvolvimento econômico que se pretenda bem sucedida em um país com vocação agrícola.

No entanto, nem tudo são flores. Tampouco o agronegócio é, sozinho, a salvação da lavoura, com perdão do trocadilho. As monoculturas, típicas do agribusiness, trazem problemas de natureza ambiental, econômica e social.

Ambientais, porque desequilibram o ecossistema, fazendo prosperar pragas, empobrecendo o solo e anulando a biodiversidade presente em extensas áreas antropizadas para plantio de lavouras.

Econômicos porque, em primeiro lugar, geram poucos empregos, pois trabalham com plantio e colheita mecanizada, exigindo pequena quantidade de mão de obra; e, em segundo lugar, porque também geram poucas receitas tributárias para os municípios e estados, por conta de incentivos fiscais, tanto nos tributos estaduais, tais como o ICMS, quanto nos tributos federais, como no caso das isenções da Lei Kandir.

Sociais porque, gerando poucos empregos diretos, não promovem distribuição de renda e não contribuem assim para a redução das desigualdades e inclusão social.

Já a agricultura familiar, embora não possua o glamour das imagens de grandes colheitadeiras jorrando grãos e armazenando-os em gigantescos silos, é quem produz mais de 65% de tudo o que vai para a mesa de cada brasileiro.

São muito mais sustentáveis com relação ao solo e ao meio ambiente, em virtude da diversificação de culturas em extensões territoriais pequenas. O que se perde em escala de quantidade, se ganha em diversidade e equilíbrio ambiental.

A agricultura familiar gera mais de 70% dos empregos no campo, número este que chega a mais de 90% em municípios de pequeno porte, segundo o IBGE. Em algumas centenas de hectares se consegue manter produtivas dezenas de famílias da agricultura familiar. Sem desmerecer o agronegócio, os médios e grandes produtores agrícolas, a capacidade que um produtor rural da agricultura familiar tem de gerar renda em uma pequena propriedade é proporcionalmente superior à rentabilidade de qualquer grande fazenda de gado.

Tal modelo se coaduna com o conceito de “economia de base diversificada”, que procura incluir os pequenos, sem excluir os grandes e que mais se aproxima dos princípios de democracia e justiça social. Já a renda obtida na atividade rural dos latifúndios, embora importante, fica concentrada nas mãos de poucos, afinal, para uma lavoura de monocultura se tornar viável e lucrativa, um único proprietário necessita de uma grande extensão de terra.

É claro que não se desconhece os demais elos da cadeia produtiva do agronegócio, sobretudo na área de maquinários, implementos e defensivos agrícolas. Contudo, para além do crescimento econômico, em um modelo de agronegócio restam prejudicadas a geração de emprego, a distribuição de renda, a inclusão social e a redução das desigualdades, sobretudo quando este modelo se contrapõe a outro, de estímulo a reforma agrária com assentamento de famílias e produção competitiva e em escala, na agricultura familiar de médio porte.

O Brasil perdeu mais de 1,5 milhão de empregos no campo entre 1996 e 2017, segundo o IBGE. É urgente que se busque alternativas para reverter esse processo.

Para isso, é preciso ampliar a aplicação de conceitos como os de sistemas agroflorestais (SAF’s), consorciamento de culturas, ilhas de alta produtividade (IAP’s), dentre outros. Plantar macaxeira, milho, ter tanques de piscicultura, unidades de terminação (engorda) de frangos ou suínos, hortaliças, pomares de fruteiras perenes, banana, café, seringais de cultivo, tudo isso é possível, de maneira simultânea, em áreas de produção familiar.

Dá trabalho, exige muita dedicação do colono e sua família e exige assistência técnica, mecanização, garantia de escoamento da produção e crédito facilitado, com juros subsidiados e prazos de carência generosos. É isso ou a concentração de renda do latifúndio e do agribusiness.

Juca Ferreira: É difícil ficar calado diante deste horror

Juca Ferreira: É difícil ficar calado diante deste horror

Foto: Isis Medeiros / MAB

por Juca Ferreira

Raio não cai duas vezes no mesmo lugar?
Esse mote não vale para o Brasil e muito menos para a Vale.

É difícil ficar calado diante deste horror.

Horror! Crime! Crime horroroso!

Não é a primeira, nem a segunda tragédia de proporções causadas pela Vale. Depois de privatizada, diga-se de passagem.

Acidente? Não me façam rir de uma tragédia. Crime! Usura!

Cadê a magnifica eficiência da empresa privada que nos vendem pela TV e pelos jornais todos os dias e o dia todo?

Cadê a superioridade técnica e operacional das empresas em relação ao poder público? Cômico, se não fosse trágico.

A usura, somada à autossuficiência e à arrogância, dá nisso.

Claro, tendo como pano de fundo a falta de consciência ambiental e falta de cidadania, agravadas pela promiscuidade e pela cumplicidade entre poder público e o mundo empresarial.

Estado mínimo é o nome do liberou geral que querem impor no Brasil.

Se não conseguirmos interromper esse retrocesso político, vamos viver a tragédia da terra sem lei. Para os “amigos”, tudo! Para os inimigos, a lei!

No mundo inteiro, pelo menos na sua parte desenvolvida e capitalista, EEUU e Europa, o poder público tem plenos poderes para regular, fiscalizar as atividades empresariais, especialmente as potencialmente perigosas e punir rigorosamente em caso de descumprimento. As coisas funcionam razoavelmente bem, por isso.

Regulação rigorosa, regras técnicas com forte caráter preventivo; Estado com poderes e capacidade técnica e administrativa, capaz de representar de fato os interesses da sociedade; fiscalização rigorosa e punição drástica para desestimular a negligência e o crime.

Crimes ocorrem, óbvio, mas não com a frequência e a impunidade que vemos aqui.
Se fosse lá, empresas que agem como a Vale estariam fechadas e seus responsáveis presos.

Esse não é o primeiro nem o segundo crime ambiental cometido pela Vale. E, se depender do governo e da omissão da sociedade, não será o último.

Cadê o movimento e as organizações ambientalistas? É preciso levantar a sociedade para defender os interesses mais elementares. O direito à vida e a um meio ambiente saudável!

Quantos crimes mais para nos levantarmos?

Ê, ê, vida de gado, diria Zé Ramalho.

Estou desconfiando de que querem nos transformar em um país de eunucos. Todos bem-comportados, passivos e cordatos em frente da TV, vendo Faustão, Ratinho ou o JN, com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar e a próxima tragédia acontecer.

A moda no Brasil, neste momento, é a mentira. E o estado mínimo a meta a ser alcançada. O governo e os grupos econômicos que interromperam nossa vida democrática e que tomaram o poder no Brasil sabem que, se não agirem rápido na implantação do seu projeto neoliberal, o povo pode acordar. Alarmes não faltam.

“Somos o país que mais preserva o meio ambiente”, afirmou Jair Bolsonaro em Davos. Preciso dizer que é mentira?

O atual presidente está apresentando um projeto de lei que é demanda dos setores empresariais agrários, mineradores e madeireiros para desregulamentar em definitivo as atividades ambientalmente perigosas.

Eles pretendem acabar com o Eia-Rima, a análise prévia de ameaças potenciais. Autorregulação, dizem.

Já liberaram os agrotóxicos mais perigosos para o meio ambiente e para a saúde das pessoas. Não importa, parecem dizer…

Eles nos adoecem para nos oferecer a curar depois. E assim vai crescendo a economia predatória…

O que hoje é escândalo, descontrole total, abuso desmedido, crime hediondo, amanhã estará devidamente legalizado. As mortes e a devastação ambiental serão apenas efeitos colaterais do modelo predatório que estão tentando implantar no Brasil. Tudo dentro da lei e da ordem.

Nhotim fica na região atingida por esse crime. É muito forte simbolicamente a arte sendo soterrada ou inviabilizada pela lama da atividade empresarial predatória.

Não precisa ser assim. Mas assim é neste momento no nosso país. E, se não agirmos logo, em breve será ainda pior.

Ê, É Vida de Gado?

Ivana Bentes: Jean Wyllys não está desistindo, está sendo expulso do país por criminosos

Ivana Bentes: Jean Wyllys não está desistindo, está sendo expulso do país por criminosos

Foto: Mídia NINJA

“Eu já servi à Pátria amada!”. Eu só queria dar esse abraço apertado em Jean Wyllys nesse momento em que, vivendo sob escolta policial e ameaçado de morte ele tomou a difícil decisão de abandonar a vida pública e sair do Brasil, deixando do seu mandato como Deputado Federal. É muito triste para o país, para as lutas e para a democracia. Mas Jean será uma voz no exílio de combate a política mafiosa que se apodera do Brasil.

Como milhares de pessoas participei de todas as campanhas de Jean Wyllys com empolgação e entusiasmo desde que apareceu na cena política, como o primeiro parlamentar brasileiro a se assumir gay e travar todas as lutas contra o obscurantismo!

Jean foi um dos mais combativos e corajosos parlamentares de nossa instável democracia.

Com uma trajetória surpreendente e imprevisível, literalmente “hackeou” a mídia e os mecanismos de visibilidade máxima da TV e da cultura de massa, saindo de um programa de entretenimento como Big Brother Brasil para chegar no Congresso brasileiro e subverter o conservadorismo mais tacanho e propor outras pautas. Jean não fazia a diferença simplesmente, ele era a diferença. Sua causa passa pela sua vida, toda implicada nas lutas que trava.

Jean Wyllys tem a cara de uma nova geração de políticos: antenado com seu tempo, pop, com uma presença forte e diária nas redes sociais, interagindo com qualquer um, e que abraça as causas mais impopulares e as mais difíceis, no campo do comportamento e das diferenças.

Era um contrapeso no Congresso para Felicianos, Bolsonaros, Malafaias e Sarneys e tudo o que temos de mais atrasado! É preciso ter muita convicção e crença para lutar, com as armas da democracia representativa tão combalida, pelo que acreditamos. Num pais em que nos ensinaram a ter “horror” a política.

Nesse momento sai do Brasil ameaçado pelas mesmas forças e milícias associadas a morte de Marielle Franco. Uma mulher negra da periferia e um parlamentar gay! Uma assassinada e outro ameaçado de morte pelos mesmos poderes fáticos e odiosos, pelo lodo que se subiu para a superfície!

Na Folha de São Paulo de hoje expõe suas razões: “De acordo com Wyllys, também pesaram em sua resolução de deixar o país as recentes informações de que familiares de um ex-PM suspeito de chefiar milícia investigada pela morte de Marielle trabalharam para o senador eleito Flávio Bolsonaro durante seu mandato como deputado estadual pelo Rio de Janeiro.”

“Me apavora saber que o filho do presidente contratou no seu gabinete a esposa e a mãe do sicário”, afirma Wyllys. “O presidente que sempre me difamou, que sempre me insultou de maneira aberta, que sempre utilizou de homofobia contra mim. Esse ambiente não é seguro para mim”, acrescenta.’

Jean adora música e fala por música. Só lembrei de Raul Seixas, nesse momento: “Mamãe, não quero ser prefeito/ Pode ser que eu seja eleito/ E alguém pode querer me assassinar/Eu não preciso ler jornais/ Mentir sozinho eu sou capaz/ Não quero ir de encontro ao azar/ Papai não quero provar nada/ Eu já servi à Pátria amada/ E todo mundo cobra minha luz/ Oh, coitado, foi tão cedo/ Deus me livre, eu tenho medo/ Morrer dependurado numa cruz”

Jean Wyllys queremos você vivo! Volte logo! Volte com a democracia! Todo nosso amor e apoio nesse momento!

Não tenho dúvida que serão as Marielles e os Jeans que vão derrotar os governos mafiosos. Com suas ideias!

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Transformamos um Bobo da Corte em mito e demos a ele o piloto da nave

Transformamos um Bobo da Corte em mito e demos a ele o piloto da nave

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Desde o dia 1° de Janeiro de 2019 o Brasil, com seus 209 milhões de habitantes, tem como presidente da República um personagem que não parece com nada e não lembra ninguém. Jair Bolsonaro vem sugando do Estado, às custas do povo, há quase três décadas e ao longo desse período no Congresso Nacional, de 171 propostas apresentadas, apenas duas viraram lei. Era um Zé Ninguém até virar um delírio coletivo por mudança muito bem conduzido pelos velhos donos do poder.

Fez uma campanha inteira distante do povo, desleal e com dinheiro ilícito, se negou a participar de debates, assumiu discursos de ódio infectando o clima das ruas por todo o país e não teve vergonha em apresentar propostas ocas e simplistas a problemas complexos como desemprego, segurança e educação. Atacou principalmente os povos mais vulneráveis: indígenas, quilombolas, periféricos, negras e negros, nordestinos, mulheres e LGTBs, sinalizando um governo para grandes corporações estrangeiras, igrejas e para a sempre insaciável elite brasileira.

Após se deixar levar por slogans que prometiam mudar tudo sem especificar nem como nem o quê, nosso povo começa a assistir nesses primeiros dias do ano a um desmantelamento do Estado sem precedentes.

Foram 30 anos de uma democracia capenga até essa nova fase, ainda sem nome, em que políticos debochados, sem histórico de luta, se unem como nunca a bancos, monopólios gringos e nacionais e aos reis do agronegócio para vender e detonar o que não lhes pertence.

No cargo mais alto tá esse cara altamente despreparado se fazendo de rei, quando não passa de um Bobo da Corte, rindo tolamente enquanto destrói o pouco que sobrou após dois anos do (des)governo de Michel Temer.

Sua gestão mal começou e já extinguiu ministérios fundamentais como os da Cultura e do Trabalho, por exemplo, o que deve ser encarado como um projeto declarado de sucateamento do país, uma vez que vivemos hoje o bônus demográfico da juventude com 51 milhões de jovens que já têm que lidar, a essa altura do campeonato, com filas de desemprego que somam 12 milhões de brasileiras e brasileiros.

Órgãos de promoção de direitos civis de minorias também foram destruídos, a população indígena rifada aos ruralistas (com a demarcação de terras agora sob o comando do ministério da agricultura), além de outras decisões irresponsáveis que atingem diretamente a população mais frágil do país, como as ameaças que levaram o Governo Cubano a retirar os médicos do programa Mais Médicos, que há 5 anos trabalhavam com populações carentes por todo o território nacional.

Em um país onde mais de 60 mil pessoas morrem por armas de fogo, e a grande maioria é de jovens entre 15 e 29 anos vindos das periferias; a população carcerária já ultrapassa os 700 mil e pelo menos 300 mil desses detentos se encontram em situação de trânsito injulgado, sem falar no déficit habitacional, no caos da saúde, na falta de creches e escolas etc etc. Não há outra maneira de se resolver nossas problemáticas que não seja pela criação de políticas públicas cirúrgicas.

Com a faixa no peito, o novo presidente prefere se armar para uma guerra que – ainda que ele pense que é contra seus adversários políticos que ele insiste em transformar em inimigos da pátria – é contra a própria pátria, onde a maioria é pobre, jovem, negra, mulher e precisa de terra, trabalho, educação e saúde para se desenvolver.

Respondendo ao título desse texto, esse equívoco coletivo vai nos render, sem dúvida, dias de caos, mortes, miséria e perdas de direitos. Mas desde as favelas, ocas, terras e casas que são nossas por direito ancestral ou constituído, avisamos que seguiremos lutando, exatamente como temos feito há mais de 500 anos.

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Texto publicado também no portal argentino “La Garganta Poderosa” 

Caetano Veloso entrevista Russo Passapusso

Caetano Veloso entrevista Russo Passapusso

Caetano Veloso, na sua mais nova coluna para Mídia NINJA, entrevista Russo Passapusso da banda Baiana System, abrindo a série de episódios com convidados baianos gravados na Casa NINJA Bahia.

No meio do caminho tinha um Coaf

No meio do caminho tinha um Coaf

A estratégia de comunicação e de relacionamento com a opinião pública adotada até aqui por Bolsonaro tem sido bastante eficiente. Porém, ela é de curta duração, posto que, sozinha, não se presta a satisfazer os anseios da população por mudanças concretas, além de já ter sido desvelada por diversos jornalistas, analistas políticos e internautas.

Desde antes da campanha eleitoral, prosseguindo agora no início do governo, o Presidente aposta na comunicação direta por meio de redes sociais. Para isso, usa de um linguajar leve, não raro em tom de deboche, com chavões, “memes”, slogans da campanha, enfim, todo um arsenal linguístico e argumentativo necessário para atingir aquilo que as gerações “Y” e “Millenium” convencionaram chamar de “lacração”. Além disso, volta e meia, prossegue instigando a violência, a intolerância para com os que pensam diferente e, o mais curioso: trabalha junto ao senso comum teórico coletivo da população a criação de inimigos imaginários (comunismo, viés ideológico, marxismo cultural), no melhor estilo adolescente “hater”.

Tudo isso, adicionado aos anúncios de medidas mirabolantes e absurdas, sempre seguidas de desmentidos e recuos, além de demonstrar uma certa falta de preparo para o mister governamental e para o múnus público, aparenta ter uma outra finalidade: gerar uma cortina de fumaça, através da qual ele consegue, ao mesmo tempo, distrair os opositores e descredibilizar a mídia, que perdem tempo debatendo e dando repercussão aos anúncios das medidas absurdas e mais tempo ainda repercutindo os desmentidos e recuos do Presidente, enquanto o Ministro da Economia, Paulo Guedes, fica sossegado para fazer o que a eles de fato importa: o desmanche do Estado de bem estar social, com medidas que, como nas palavras de Requião, promovem a desnacionalização, o entreguismo e a supressão de direitos do povo, tais como a reforma da previdência que abrange trabalhadores comuns, mas exclui militares, judiciário, ministério público, deputados, senadores e todos os demais privilegiados; a agenda de privatizações; os cortes no Sistema S; juros mais altos para o financiamento habitacional pela Caixa Econômica e… estamos apenas começando!

Se o Líder Maior se comporta de tal forma, não é de se estranhar que uma parte significativa de seus ministros também o façam: Onyz Lorenzoni, Damares Alves, Ernesto Araújo e Vélez Rodríguez parecem não só repetir a receita em suas próprias pastas como, em certas ocasiões, fazer parte da estratégia no sentido mais amplo do governo. Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse da Esplanada do Reich Bolsonarista são os mais frequentes em anúncios bombásticos, medidas polêmicas e – sobretudo e em grande quantidade – profusão de asneiras.

Com esse modus operandi, acaba não sobrando tempo para se indagar ou perquerir sobre aquilo que deveria ser prioridade: quais são as propostas de políticas públicas que serão implementadas pelo novo governo pelos próximos quatro anos? Até agora, nem sinal delas. Em 20 dias de gestão não houve nenhum anúncio de nenhuma medida concreta e significativa que possa gerar desenvolvimento: crescimento econômico, com geração de emprego, distribuição de renda, redução das desigualdades e promoção da inclusão social.

Ocorre que Onyx, Ernesto e Damares já viraram alvo da Rede Globo e de outros veículos da grande imprensa, como revide à declaração de guerra do Presidente à emissora e demais veículos por ele considerados como “rebeldes” ou não alinhados ao governo.

Onyx vem sendo alvo por conta de sua arrogância, petulância, prepotência e sucessivas descobertas de casos de corrupção por ele praticados. Em três semanas de governo ele já coleciona denúncias de um “dual core 2 duo” de caixa 2; passagens aéreas utilizadas na campanha eleitoral, mas, pagas com recursos de seu mandato parlamentar; e uso de notas fiscais frias para recebimento de verbas indenizatórias da Câmara dos Deputados. Pediu desculpas e o Ministro de Estado-Chefe da Passadoria Geral de Pano da República, Sérgio Moro, perdoou. Do contrário, já estaria fora.

Ernesto, além de já ter sido atacado por suas excentricidades, textos e posições polêmicas, foi alvo de críticas pela trapalhada na nomeação e demissão do Presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações – Apex; e pela divulgação de uma fake news sobre um almoço inexistente entre ele e os embaixadores da Bolívia e Itália, em que estariam tratando da extradição de Cesare Battisti. Detalhe: ambos os embaixadores negaram que o encontro tenha acontecido.

E Damares… Ah, pobre Damares! Já foi alvo de sucessivas e diárias matérias jornalísticas desairosas sobre, ao menos, três de suas declarações inusitadas: a de que viu Jesus na goiabeira; a de que agora estamos a ingressar em uma Nova Era, em que meninos vestem azul e meninas, rosa; e uma terceira, questionando a validade científica da teoria da evolução.

Dos quatro, por enquanto, só Vélez Rodríguez está sendo poupado. Mas, precisa explicar melhor a trapalhada com as mudanças nas regras do edital para aquisição de livros, no âmbito do Programa Nacional do Livro Didático – PNLD; além da nomeação, seguida de instantânea exoneração, de um energúmeno designado para gerir o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira – INEP, responsável, dentre outras políticas, pela elaboração e aplicação do ENEM.

O fato é que, em apenas três semanas, Bolsonaro acumula tantos recuos quantos são os seus dias no exercício do cargo de Presidente, o que demonstra, das duas, ao menos uma coisa: ou ele não acreditava que poderia ganhar a eleição e não se preparou adequadamente para este “momento”; ou ele, de fato, não sabe para que lado a banda toca, sequer imagina para que rumo direcionar o Brasil.

Por enquanto, o povo e sobretudo seus eleitores e admiradores seguem distraídos pelas medidas inócuas até aqui adotadas, tais como a edição do decreto que flexibiliza a posse de armas como se, doravante, os problemas de criminalidade, violência e segurança pública fossem resolvidos pelo fato de se poder ter uma arma guardada em casa. Essas mesmas pessoas continuam acreditando no Presidente, aplaudindo-o e repetindo o mantra do “mito” todas as vezes em que ele “lacra” no Twitter. Mas, não sabemos até quando. Porque, muito mais do que “lacração”, o que o povo quer mesmo é emprego, renda e o exercício de seus direitos e garantias fundamentais assegurados.

O que ninguém esperava era que, além de todas as trapalhadas e ausência de propostas, no meio do caminho houvesse um Coaf. E, junto com ele, um Queiroz, R$ 7 milhões, vários Micheques, 48 depósitos de R$ 2 mil cada em apenas um mês, um pagamento de R$ 1 milhão e várias cascas de laranja pra escorregar… Afora que, em 2 meses pós-eleições e 20 dias de Governo já teve Wal do Açaí, JBS, lista de Furnas, disparo ilegal de mensagens de zap com dinheiro de caixa 2 eleitoral, ocultação de patrimônio… Se investigarem mais um pouco vão descobrir que a facada foi fake, que tem milícia pelo meio e… Quem matou Marielle?

Ninguém solta a mão de ninguém

Ninguém solta a mão de ninguém

Num ano apocalíptico, lançamos o clipe de “Pedrinho” , da cantora Tulipa Ruiz, para despertar liberdade e resistência; YouTube impôs restrição de idade a algo que não tem nada de inapropriado e Instagram já censurou três vezes uma foto que contém nádegas e um teaser que não mostra nada. Nos despedimos de 2018 e entramos em 2019 com uma missão: não admitir censura à arte, ao amor e aos corpos.

Foi no fim de 2017 que Pedrinho começou a renascer e ganhar rosto. Aquele menino ingênuo cantado no álbum de estreia da Tulipa Ruiz (“Efêmera”), acordou um dia assustado: tinham censurado uma performance do Wagner Schwartz, no MAM-SP. Um vídeo em que uma criança – acompanhada de sua mãe – encostava em seu corpo nu ganhou as redes da direita conservadora, que foi à porta pedir sua extinção. E sua arte e seu corpo terminaram censurados. O mesmo movimento reacionário já tinha conseguido encerrar mais cedo outra exposição em Porto Alegre, o Queermuseu.

Os dois acontecimentos alertavam para o que veríamos mais à frente com a eleição de Bolsonaro: o Brasil dopado pela caretice e os bons costumes.

Chegamos ao fim de 2018 com um Natal marcado por diversas desavenças familiares. Não tinha como ser diferente. Pais, irmãos, tios, amigos, colegas de trabalho ignoraram os gritos de socorro de negros, mulheres, LGBTQs e deficientes em nome de um ódio alimentado por uma imprensa irresponsável e uma classe supostamente liberal que botou para fora os preconceitos desencorajados diante de uma sociedade que andava até então pra frente.

E lá virão eles outra vez armados de atraso, preconceito, intolerância – e agora com o posse de arma flexibilizado por aquele que acha que criança tem de aprender a usar armas desde os 5 anos de idade para se protegerem (?). Mas nós precisamos refutar tudo isso. Temos de nos despir dessas armaduras que estão querendo nos colocar outra vez. Essas camadas que os padrões estéticos e comportamentais (e Jesus na goiabeira) nos colocam é um dos piores males da sociedade.

Porque somos essencialmente diferentes. E precisamos aceitar isso. Oprimir seu corpo é a pior automutilação que podemos fazer. E eu sei bem o que é isso.

Durante muitos anos achei que meu 1,40m de altura e ser gay eram aberrações. Os dois juntos, então, não poderia. O preconceito foi talvez a primeira palavra que entrou no meu vocabulário quando ainda nem sabia falar. Os dedos apontados, as risadas, os apelidos. Aí vem as reuniões de família, a escola, as piadas com mulheres, negros, corpos diferentes e… gays. Corpos estranhos… Estranhos pra quem?

Pedrinho é sobre se libertar de tudo isso. É sobre se despir de cada peso que carregamos como um fardo porque um dia nos disseram que era inaceitável, feio, fora do padrão.

A liberdade é o bem mais precioso que temos. E só entendemos o que é liberdade quando de fato estamos nus, sem nenhuma dessas peles falsas que tentaram nos vender – e a gente um dia comprou.

Parar de erotizar o corpo do outro é um dos primeiros passos para encarar nossos próprios corpos com outro olhar. Também é sobre isso que falamos nesse vídeo, que meus parceiros e fotógrafos Fábio Lamounier e Rodrigo Ladeira (autores do maravilhoso projeto Chicos) entenderam muito bem. É deles a ideia do tecido de céu, que reflete exatamente essa outra mensagem.

Kelner Macêdo, nosso ator convidado para personificar esse artista libertador, é o agente que nos desamarra, mas não é ele que nos despe, somos nós mesmos. Pedrinho é sobre o outro e a gente.

A liberdade de ser e amar quem quisermos. Sobre existir na nossa matéria-prima básica: nus.

Encontrei Wagner Schwartz pela primeira vez no dia do lançamento do clipe. Ele soube que era nosso agente propulsor através de uma nota do Estadão que informava que o clipe de “Pedrinho” tinha sido inspirado em “La Bête”. Wagner postou em seu Instagram o registro e eu o chamei pro evento de lançamento. E ele foi. Encontrei um artista sensibilizado e claramente emocionado com nossa homenagem depois de tanto ter sido violentado. A presença dele levou nossas próprias presenças a outros lugares.

Aquela chama de liberdade de Wagner apagada covardemente, reacendeu no mesmo efeito dominó que propusemos no clipe. Foi uma noite inesquecível para todos nós Pedrinhos – um “estado de espírito”, como define Tulipa. Tememos censura, e ela de certa forma veio. O YouTube impôs restrição de publicidade e de idade para assistir ao clipe – num conteúdo que não tem absolutamente nada de inapropriado para menores (é sobre esse peso do nu que levamos desde criança que também tratamos no vídeo). Já o Instagram, que demonstra sucessivos equívocos em suas diretrizes, apagou imagens de bastidores publicadas por quase todos os envolvidos no clipe. Censurou três vezes uma foto com todos os Pedrinhos e Tulipa porque aparece pedaços de nádegas.

Mas sinto-lhes informar: continuaremos aqui, nus. Afirmando a beleza onde insistem em colocar maldade e endossando a liberdade onde insistem em colocar algemas e armaduras. O poema de Walt Whitman que abre nosso clipe não é à toa:

“Há quem duvide de que todo aquele que perverte o corpo esconde a si mesmo?
Há quem duvide de que aquele que profano os vivos seja tão perverso quanto quem profana os mortos?
E se o corpo não valer tanto quanto a alma?
E se o corpo não for a alma, o que será a alma?”

Afinal, se a gente não é o que a gente carrega, quem seremos diante daqueles que tentam nos dizer como ser, como agir, como amar? Se estamos aqui, em 2019, é porque sobrevivemos a um ano muito doido e muito doído. Estamos todxs muito felizes por sermos todos pedrinhos, independentemente de gênero, raça, cor, tamanho. Tem sido lindo o retorno das pessoas que entenderam e admiraram nossa arte-resistência. Lindo de ver como tocamos fundo algumas pessoas, seja pela sensibilidade, pelos corpos políticos, pela “poesia”, como definiu Lenine para nossa honra.

Mas a luta ainda não acabou. 2019 só começou e teremos muito tempo ainda de luta e resistência.

E é por isso que estamos todxs juntos, mais uma vez nesse making of, de peito aberto e bunda de fora, pra lembrar que seremos quem e como quisermos, sem esquecer da frase que mais nos marcou em 2018: ninguém solta a mão de ninguém. Despertemos-NUS o Pedrinho que existe em cada um. E vamos à luta. Nus, de preferência.

E desde 1 de janeiro, com aquele discurso de posse separatista lamentável, até 31 de dezembro de 2022: ele não, ele nunca, ele jamais (se é que ele chega até lá, né Queiroz?).

 

Assista o Clipe

De homem para homem: o que a Gillette provoca sobre mercado e masculinidades

De homem para homem: o que a Gillette provoca sobre mercado e masculinidades

Em nova peça publicitária, Gillette convoca seu público a questionar os males de nossas virilidades.

Já está dando o que falar. A nova propaganda da Gillette revela uma chave fundamental para o avanço no debate de gênero, suas opressões e desigualdades: precisamos falar com os homens. Principal público da marca, o vídeo já divide opiniões entre os barbudinhos, conquistando os trending topics mundiais.

O vídeo é uma peça de quase dois minutos sobre assédio e bullying, parte da campanha We Believe (Nós Acreditamos). São cenas comuns do cotidiano masculino na cultura do assédio e da virilidade. Intercalando homens e meninos, aponta um fundamento básico para o debate dos novos velhos tempos: como educar nossos garotos?

Sim, é uma marca americana, líder mundial. Com 116 anos, é das mais antigas, portanto. Expandiu seu mercado por bilhões de dólares porque, certamente, o conhece muito bem. E não faz nada além de nos situar no espaço-tempo das discussões sobre papéis de gênero, mirando obviamente para o futuro.

Antes de querermos levantar a crítica do pink money (o vídeo não trata diretamente sobre sexualidade) ou propaganda de conveniência, façamos o exercício de avaliar o impacto do homem-propaganda de nossos tempos. O vídeo recebeu dez vezes mais dislikes do que o contrário, agitando nas redes digitais a masculinidade tóxica que critica.

De todos os debates que já estão na tônica dos 280 caracteres, vale refletir como a marca desloca a figura deste homem-imagem que ela própria ajudou a construir. Pois, esta figura de homem que conhecemos bem, o patriarcal, com cheiro de macho, assim como a mulher submissa e sensual tiveram na propaganda da TV uma de suas principais difusoras em época de indústria cultural.

No início do vídeo, os novos personagens rasgam uma antiga propaganda da Gillette, que tinha um mote similar ao atual: The Best a Man Can Get (O melhor que um homem pode ficar). E nos apresenta este novo: The Best a Man Can Be (O melhor que um homem pode ser). O homem assediado pelas mulheres começa também a ser questionado. Aquele garoto-propaganda que o pai levou para pescar pode ser um potencial produtor de abusos e sofrimentos contra as mulheres, os negros e os mais fracos.

Vocês lembram da loira da Gillette? Se avaliarmos a linha do tempo a partir dos produtos que os brasileiros produziram, o avanço é ainda mais nítido. Uma propaganda como “Vai Amarelar?”, de 6 anos atrás, certamente cairia no purgatório do #CloseErrado dos novos tempos.

O homem-propaganda é Vitor Belfort e lutadores da UFC. A imagem de virilidade que eles carregam, não precisamos discutir. O “vai amarelar” que a propaganda provoca, em brincadeira contra os barbeadores da BIC, usa expressão que todos nós, homens fracos imberbes, escutamos na nossa juventude. De boxeador a jogador de futebol, Neymar assumiu a cara da Gillette na defesa de um homem que tem suas quedas e fragilidades.

Sabemos bem, os papéis de gênero já estão rendendo produtos mundo afora graças à luta incansável do movimento de mulheres. Talvez, tomara, seja a tônica dos novos debates colocar o homem no centro dos argumentos. Este homem pai irmão líder chefe responsável que também produz pecados, papel ainda atribuído religiosamente às mulheres. A notar pela reação de seu público, a discussão está longe de se esgotar.

Por que vestem a camiseta do torturador e se incomodam tanto com uma performance?

Por que vestem a camiseta do torturador e se incomodam tanto com uma performance?

foto: Letícia Sabbatini

Sejamos literais! O que é chocante nessa performance que foi censurada na Casa França Brasil não são as baratas de plástico e nem a mulher de pernas abertas. O chocante é que o governador do Rio de Janeiro, o presidente da República, seus filhos parlamentares e parte do seu eleitorado defendem o torturador que colocava baratas e ratos nas vaginas das mulheres presas pelo regime militar. E a performance nos lembra dessa ignomínia e nos faz ver o horror e a demência desses que vestem camisetas com o rosto do Coronel Ustra e o chamam de herói.

Por que vestem a camiseta do torturador e se incomodam tanto com uma performance? Porque ela produz na sua literalidade e “mau gosto” a crueza e o horror desses atos. Diante do horror e das palavras e atos brutais de nossos governantes só nos resta o “choque do real” na mesma moeda e com o mesmo “mau gosto” e demência.

Censurada pelo governador, a performance aconteceu na rua e foi enviada a Polícia Militar para quem sabe nos impedir de ver o óbvio e/ou “tirar as crianças da sala”.

O que não podemos ver afinal que o Coronel Ustra fazia e gabava-se e seus seguidores celebram? Se celebram porque querem esconder? Por que sabem que é vergonhoso e a performance expõe o óbvio. Aliás as mulheres também eram mantidas nuas nas sessões de tortura! Porque agora querem censurar a nudez?

Se estamos em uma “guerra cultural” é a cultura que tem o maior poder de produzir um curto circuito em “tudo que está ai”. Uma arte sim brutal, literal, que nos embrulhe o estômago, nos enoje e não nos deixe acostumar com o horror!

Daniel Zen: O que esperar do governo Gladson Cameli?

Daniel Zen: O que esperar do governo Gladson Cameli?

Grafvision photography

Nessas duas primeiras semanas de 2019, o vazio de conteúdo e a paranoia anti-comunista, de combate ao tal “viés ideológico”, para extirpar um suposto “marxismo cultural” do governo e da sociedade, presentes na narrativa dos membros da equipe do governo bolsonarista, parecem contaminar as administrações estaduais.

Do Rio de Janeiro de Witzel às Minas Gerais de Zema, chegando ao Acre de Cameli, todos parecem se deixar levar pela idiotia coletiva da qual são porta-vozes, além do próprio Presidente e seus Três Patetas (Flávio, Eduardo e Carlos), também os Quatro Cavaleiros do Apocalipse que ocupam lugares de destaque na Esplanada do Reich: Onyx Lorenzoni, Damares Alves, Ernesto Araújo e Ricardo Vélez Rodríguez.

“Despetizar”, “desideologizar” e outros termos esdrúxulos são alguns dos neologismos criados – e usados – por quem não tem muito mais a oferecer, a não ser demonizar e colocar a culpa por seus próprios infortúnios nos seus antecessores. Ou, simplesmente, apostar no obscurantismo.

Ocorre que a pressa e a ansiedade de quem está iniciando, no plano nacional; ou ficou muito tempo longe do exercício do poder e agora retorna, no plano estadual, não podem se converter em “foba”. Vejamos o caso do Acre:

Na Educação, o novo secretário, Prof. MSc. Mauro Sérgio, afirmou que recebera “o convite do governador Gladson Cameli para tirar a educação do Acre da propaganda de fachada”. Complementou dizendo que “a valorização do servidor público deve ser prioridade” e que, por isso, está “seguindo orientações da Casa Civil e formando uma equipe com critério técnico.” Teria feito tal declaração em repúdio a acusações de aliados de que estaria mantendo boa parte dos membros do governo anterior nas equipes dos diferentes setores da Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte (SEE). Para justificar o critério – justo e razoável – adotado para escolha dos membros de sua equipe atacou, sem necessidade, o trabalho daqueles servidores que ele próprio está fazendo questão de aproveitar. A pressa é sempre uma grande inimiga.

Na Segurança, o secretário, Cel. PM RR Paulo César declarou que “em 10 dias, voltaremos a nos sentir seguros”. Sabe-se que segurança material é diferente de sensação de segurança. Andam juntas, são interdependentes, mas, quem lida com a área sabe que são coisas distintas.

É plenamente possível ter péssimos indicadores de criminalidade e violência, mas, manter uma sensação de segurança em nível aceitável. A recíproca é verdadeira: pode se ter uma péssima sensação de segurança, mas ter índices e taxas de violência e criminalidade sob controle.

A sensação de segurança depende mais das ações de impacto visual, das aparências e da propaganda. A segurança, em si, nem tanto. A pressa, ela de novo, levou o Secretário a dar uma declaração que não passa de um sofisma.

Na Saúde, o secretário Alysson Bestene disse – e adotou a medida – que o Hospital de Urgências e Emergências de Rio Branco (HUERB) “voltaria a realizar consultas”, ou seja, atendimento ambulatorial. Sabe-se que, no âmbito do SUS, o atendimento de ambulatório, cujo paciente não apresenta risco iminente de morte, deve ser realizado nos PSF’s, UBS’s, Policlínicas e UPA’s. Um hospital de urgência e emergência deve ser destinado, exclusivamente para, adivinhem o quê? Urgências e emergências.

O resultado dessa precipitação foi uma verdadeira enxurrada de pacientes em apenas uma semana, que se recusam, agora, a ir às UPAs: todos querem ser atendidos no HUERB, sobrecarregando a unidade. Mais uma vez, a pressa e o populismo da medida não só não melhorou, como agravou a situação.

Seguiram-se a isso, ao longo dos últimos 15 dias, uma série de acusações de boicotes, desde suposições sobre a forma como a escala de férias das equipes das forças policiais teria sido concedida, no apagar das luzes do governo anterior, de modo a prejudicar os trabalhos do início do atual governo; um suposto sumiço de equipamentos da área de tecnologia da informação; a nomeação do Diretor do Instituto de Previdência do Estado sem o necessário aval da ALEAC, conforme determina a lei; além de nomeações de pessoas condenadas por improbidade administrativa para desempenhar funções no primeiro escalão do governo que prometeu tolerância zero com a corrupção.

Antes de prosseguir, faço questão de salientar: aqui não se trata de uma crítica pessoal, nem tampouco de uma análise de biografia, currículo ou competência dos membros da equipe de governo. Todos os três secretários citados são profissionais altamente qualificados.

O Cel. PM RR Paulo César foi meu colega de faculdade e é um dos oficiais mais qualificados dos quadros da PMAC, tanto da ativa quanto a da reserva remunerada. Alysson Bestene é um jovem idealista e estudioso, tem plena capacidade para lidar com os problemas e liderar as equipes da saúde na direção de bons resultados. E o Prof. MSc. Mauro Sérgio é, dentre todos os membros da equipe de Governo, o que detém o melhor currículo, além de uma bela trajetória como servidor efetivo da SEE, já tendo servido ao Estado, anteriormente, como diretor de escola, dentre outras funções que desempenhou, todas com honradez.

A questão é que, nos três exemplos citados, observa-se uma ansiedade desnecessária em querer apresentar resultados imediatos ou instantâneos. Ou ainda, de se auto-afirmar, elencando, para isso, supostas falhas de seus antecessores adversários. Ocorre que reside aí, além da pressa, do sofisma e do populismo, uma boa dose de deslealdade: primeiro porque diversos dos líderes do atual governo já fizeram parte das administrações ou da relação política da FPA e do PT, conquistando seus primeiros mandatos conosco; segundo, porque diversos dos membros que lideram as atuais equipes também tiveram passagem pelas nossas administrações; e terceiro, porque vários dos servidores escolhidos para compor tais equipes de governo também marcharam durante anos ao nosso lado.

Se errávamos tanto ou éramos tão ruins assim, porque permaneceram conosco por tanto tempo?

Tenho dito, reiteradas vezes, que farei oposição de forma responsável, sem qualquer traço de revanchismo, rancor ou ódio. O que a oposição espera do atual governo é que faça o mesmo: governe com honradez, sem se desfazer das conquistas dos governos anteriores, ainda que sejam os governos de seus adversários. O que precisamos mesmo é do mínimo de lealdade. Bola pra frente e olhos no futuro que, se o trabalho for feito de forma digna, os resultados virão.

Sendo assim, deixemos a insegurança, a pressa e a ansiedade de lado. O povo saberá esperar o tempo suficiente para, se necessário for, começar a fazer as devidas cobranças. Nós, da oposição, também.

Boaventura de Sousa Santos: A inauguração do passado

Boaventura de Sousa Santos: A inauguração do passado

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Os começos do ano são propícios a augúrios de tempo novo, tanto no plano individual como no colectivo. De tempos a tempos, esses augúrios traduzem-se em atos concretos de transformação social que rompem de modo dramático com o status quo. Entre muitas outras, destaco três ações inaugurais que ocorreram em 1 de Janeiro e tiveram um impacto transcendente no mundo moderno. Em 1 de Janeiro de 1804, os escravos do Haiti declararam a independência da que era ao tempo uma das mais lucrativas colônias da França, responsável pela produção de cerca de 40% do açúcar então consumido no mundo.

Da única revolta de escravos bem sucedida nascia a primeira nação negra independente do mundo, o primeiro país independente da América Latina. Com a independência do Haiti o movimento para a abolição da escravatura ganhou um novo e decisivo ímpeto e o seu impacto no pensamento político europeu foi importante, nomeadamente na filosofia política de Hegel.

Mas, como se tratava de uma nação negra e de ex-escravos, a importância deste feito tem sido negada pela história eurocêntrica das grandes revoluções modernas. Os haitianos pagaram um preço altíssimo pela ousadia: foram asfixiados por uma dívida injusta, que só viria a ser liquidada em 1947. O Haiti foi o primeiro país a conhecer as consequências fatais da austeridade imposta pelo capital financeiro global de que ainda hoje é vítima.

No dia 1 de Janeiro de 1959, o ditador Fulgêncio Batista era deposto em Havana. Nascia a revolução cubana liderada por Fidel Castro. A escassos quilômetros do país capitalista mais poderoso do mundo emergia um governo revolucionário que se propunha levar a cabo um projeto de país nos antípodas do big brother do norte, um projeto socialista muito consciente da sua novidade e especificidade históricas, inicialmente tão distante do capitalismo norte-americano como do comunismo soviético. Tal como Lenin quarenta anos antes, os revolucionários cubanos tinham a consciência de que o pleno êxito da revolução dependia da capacidade de o impulso revolucionário alastrar a outros países. No caso de Cuba, os países latino-americanos eram os mais próximos. Pouco tempo depois da revolução, Fidel Castro enviou o jovem revolucionário francês, Regis Debray, a vários países do continente para auscultar o modo como a revolução cubana estava a ser recebida. O relatório elaborado por Debray é um documento de extraordinária relevância para os tempos de hoje. Mostra que os partidos de esquerda latino-americanos continuavam muito divididos a respeito do que se passara em Cuba e que os partidos comunistas, em especial, mantinham uma enorme distância e mesmo suspeita em relação ao “populismo” de Fidel. Pelo contrário, as forças de direita do continente, bem conscientes do perigo que a revolução cubana representava, estavam a organizar o contra-ataque; fortaleciam os aparelhos militares e tentavam promover políticas sociais compensatórias com o apoio ativo dos EUA.

Em Março de 1961, John Kennedy anunciava um plano de cooperação com a América Latina, a realizar em dez anos, cuja retórica visava neutralizar a atração que a revolução cubana estava a gerar entre as classes populares do continente: “Transformemos de novo o continente americano num amplo cadinho de ideias e esforços revolucionários, uma homenagem ao poder das energias criadoras de homens e mulheres livres e um exemplo para todo o mundo de como a liberdade e o progresso caminham de mãos dadas”.

A expansão da revolução cubana não ocorreu como se previa e sacrificou, no processo, um dos seus mais brilhantes líderes: Che Guevara. Mas a solidariedade internacional de Cuba com as causas dos oprimidos ainda está por contar. Desde o papel que teve na consolidação da independência de Angola, na independência da Namíbia e no fim do apartheid na África do Sul até aos milhares de médicos cubanos espalhados pelas mais remotas regiões do mundo (mais recentemente no Brasil), onde nunca antes tinham chegado os cuidados médicos. Sessenta anos depois, Cuba continua a afirmar-se num contexto internacional hostil, orgulha-se de alguns dos melhores indicadores sociais do mundo (saúde, educação, esperança de vida, mortalidade infantil), mas falhou até agora na acomodação do dissenso e na implantação de um sistema democrático de tipo novo. No plano econômico ousa, mais uma vez, o que parece impossível: consolidar um modelo de desenvolvimento que combine a desestatização da economia com o não agravamento da desigualdade social.

Em 1 de Janeiro de 1994 o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) insurgiu-se no estado de Chiapas, no sudeste do México, por via de um levantamento militar que ocupou vários municípios da região.

A luta dos povos indígenas mexicanos contra a opressão, o abandono e a humilhação irrompia nos noticiários nacionais e internacionais, precisamente no dia em que o governo do México celebrava a assinatura do tratado de livre comércio com os EUA e o Canadá (NAFTA, seu acrônimo inglês) com a proclamada ilusão de, com isso, se ter juntado ao clube dos países desenvolvidos.

Durante um breve período de doze dias houve vários enfrentamentos entre a guerrilha indígena e o exército mexicano, findos os quais os zapatistas renunciaram à luta armada e iniciaram um vasto e inovador processo de luta política, tanto a nível nacional como internacional. Daí em diante, a narrativa política e as práticas do EZLN passaram a ser uma referência incontornável no imaginário das lutas sociais na América Latina e dos jovens progressistas em outras partes do mundo.  O porta-voz do EZLN, o sub-comandante Marcos, ele próprio não indígena, afirmou-se rapidamente como um ativista-intelectual de tipo novo, com um discurso que combinava as aspirações revolucionárias da revolução cubana, entretanto descoloridas, com uma linguagem libertária e de radicalização dos direitos humanos, uma narrativa de esquerda extra-institucional que substituía a obsessão da tomada do poder pela transformação do mundo num mundo libertário, justo e plural “onde caberiam muitos mundos”. Um dos aspectos mais inovadores dos zapatistas foi o carácter territorial e performativo das suas iniciativas políticas, a aposta em transformar os municípios zapatistas da Selva de Lacandona em exemplos práticos do que hoje podia prefigurar as sociedades emancipadoras do futuro. Vinte e cinco anos depois, o EZLN enfrenta o desafio de concitar um amplo apoio para a sua política de distanciamento e suspeição em relação ao novo presidente do México, António Lopes Obrador, eleito por uma vasta maioria do povo mexicano com uma proposta que pretende inaugurar uma política de centro-esquerda sem precedentes no México pós-revolução de 1910.

Estes três acontecimentos pretenderam inaugurar novos futuros a partir de rupturas drásticas com o passado. De diferentes formas, apontavam para um futuro emancipador, mais livre de opressão e de injustiça.

Qualquer que seja o modo como os avaliamos com o benefício da posterioridade do presente, não restam dúvidas de que eles alimentaram as aspirações libertadoras das populações empobrecidas e vulneráveis, vítimas da opressão e da discriminação. Haveria lugar para um acontecimento deste tipo em 1 de Janeiro deste ano? Especulo que não, dada a onda reacionária que o mundo atravessa. Pelo contrário, houve vasta oportunidade para momentos inaugurais de sentido contrário, re-inaugurações de um passado que se julgava superado. O mais característico acontecimento deste tipo foi o empossamento do presidente Jair Bolsonaro do Brasil. A sua chegada ao poder significa o retrocesso civilizacional a um passado anterior à revolução francesa de 1789, ao mundo político e ideológico que se opunha ferozmente aos três princípios estrelares da revolução: igualdade, liberdade e fraternidade. Da revolução triunfante nasceram três famílias políticas que passaram a dominar o ideário da modernidade: os conservadores, os liberais e os socialistas. Divergiam no ritmo e conteúdo das mudanças, mas nenhum deles punha em causa os princípios fundadores da nova política.

A todos se opunham os reacionários, que não aceitavam tais princípios e queriam ressuscitar a sociedade pré-revolucionária, hierárquica, elitista e desigual por mandato de deus ou da natureza. Eram totalmente hostis à ideia de democracia, que consideravam um regime perigoso e subversivo.

Dada a cartografia política pós-revolucionária que espacializou as três famílias democráticas em esquerda, centro e direita, os reacionários foram relegados para as margens mais remotas do mapa político onde só crescem ervas daninhas: a extrema-direita. Apesar de deslegitimada, a extrema-direita nunca desapareceu totalmente porque os imperativos do capitalismo, do colonialismo e do hétero-patriarcado, quer diretamente quer através de qualquer religião ao seu serviço, recorreram à extrema-direita sempre que a vigência dos três princípios se revelou um empecilho perigoso. Esse recurso nem sempre foi fácil porque a ele se opuseram com êxito as diferentes famílias políticas democráticas. Quando esta oposição não teve êxito, foi a própria democracia que foi posta em causa, encostada à parede da alternativa entre ser totalmente eliminada ou ser desfigurada até ao ponto de ser irreconhecível. Bolsonaro, um neo-fascista confesso, admirador da ditadura e defensor da eliminação física dos dissidentes políticos, representa, por agora, a segunda opção.

Não somos cortina de fumaça!

Não somos cortina de fumaça!

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Não tenho a intenção de ter a verdade sobre a avaliação do governo em curso no Brasil e muito menos indicar como as pessoas devem reagir, especialmente nas redes sociais, em relação aos descalabros do presidente e seu séquito. Frente a tantos reveses em nossa história contemporânea, o caminho da resistência, a meu ver, precisa ser construído com vontade real de dialogar, sem sectarismo e dogmatismo.

Parto da premissa, entretanto, de que a discussão sobre azul e rosa, que a fala da Ministra Damares Alves traduziu em vídeo e viralizou nos primeiros dias do governo, não é uma cortina de fumaça para nos fazer esquecer os temas realmente importantes, quais sejam os relacionados à agenda econômica. É óbvio que Bolsonaro foi eleito com o compromisso de retirar direitos da classe trabalhadora, para que os patrões, os ricos, os do andar de cima possam ter fatias maiores de lucro, às nossas custas. É também óbvio que os que se juntaram a ele nesse projeto o fizeram para garantir a contrarreforma da previdência, a entrega das riquezas naturais, a desregulamentação da política ambiental, entre outras tantas agendas regressistas. Querem um Estado Mínimo para os pobres e máximo para os ricos.

Essa constatação não nos faz, porém, ter que desconsiderar o fato, na minha compreensão, de que a discussão sobre gênero, etnia/raça, orientação sexual seja apenas uma forma de distração para que não observamos o realmente importante.

Aliás, para começo de conversa, eu imaginava que essa discussão tinha sido superada, pelo menos nos setores progressistas. Parece que não. Essa ideia de que gênero, raça/etnia, orientação sexual… dividem a classe ou distraem sobre os temas realmente relevantes durou todo século XX, acho que já chega. Se formos pensar nesses termos tenho que contar uma coisa: a classe já é dividida. Ela tem mulheres, negros, pessoas com deficiência, LGBTs, jovens, idosos, religiosidades, locais de nascimento. Cada pessoa e grupo vai viver suas relações materiais a partir de seu lugar. Na sociedade brasileira, que é oligárquica, machista, racista, capacitista, idadista, lgbtfófica, essas diferenças são fatores de desigualdades e opressões. Então, se para você amiguinho, homem, cis, escolarizado, branco, dos setores médios, Damares é uma piada e as declarações do governo são cortina de fumaça, para todas nós outras, não é fumaça; é fogo que nos queima, que já queimava, mas que agora ganha autorização para queimar. No país que “mais mata LGBTs no mundo: 1 a cada 19 horas”, “lidera ranking mundial de assassinatos de transexuais”, “feminicídio é causa de 87% dos assassinatos de mulheres em MG” não podemos achar que essa questão é secundária, distracionista.

Não faltaram questionamentos de internautas, pós eleições e posse de Bolsonaro, se já estavam autorizados a “matar viados” e se “pretos já estavam de volta à senzala”. Eles estão numa cruzada para nos eliminar. Não só por uma questão econômica, que tem uma importância inegável, mas por uma questão simbólica, expressa na chamada “ideologia de gênero”.

Essa ideia traduz todo desconforto que sentem com o avanço do feminismo, das cotas, da presença de negros e negras nas universidades, de LGBTs afirmando seu direito de existir, de pobres em aeroportos e por aí vai.

Li agora no facebook um internauta afirmando que gosta da Damares porque ela o diverte. Infelizmente não consigo me divertir com isso. Seria engraçado se ela não fosse ministra de Estado e se não tivesse poder. Se ela fosse apenas a pastora e todo mundo pudesse escolher livremente ir ou não ir ao seu culto. Mas não. Ela traduz uma concepção. Gênero foi central na campanha de Bolsonaro e será central em seu governo. Damares cumpre um papel estratégico. Assim como Michele cumpriu na posse. Dentro de marcadores conservadores, dentro de um projeto de voltar mulheres, negros, indígenas, LGBTs, pessoas com deficiência para um lugar menor, de onde as elites gostariam que nunca tivéssemos tido a ousadia de pensar em sair.

Eles têm razão. Gênero é realmente perigoso. Essa categoria de análise vem para dizer que as relações humanas são construções sociais e não naturais e nos dá força para sermos o que quisermos. Gênero, de fato, acaba com um tipo tradicional de família no Brasil. Aquela construída a partir da violência da casa grande, do mando do homem branco e da exploração de mulheres e crianças. Aquela família fundada na violência, que não aceita a orientação sexual de cada pessoa, está ameaçada pela discussão de gênero.

Neste sentido é preciso procurar compreender as razões pelas quais esse governo foi eleito, a partir dessa proposta de retomar o que para eles é uma idade de ouro das relações sociais, dessa era em que “menino veste azul e menina veste rosa”. Não temos que compreender só o papel das fakenews nessas eleições, mas o que pode ser pensado como o sequestro do cristianismo pelo pensamento conservador. Bolsonaro afirmou na posse que vai acabar com o politicamente correto. Está legitimando o racismo, o machismo, a lgbtfobia no Brasil e isso é muito grave. É compreensível que os que tem privilégios lutem pela sua manutenção.

É preciso grande esforço para sair desse lugar e precisa de vontade também, por isso muita gente fica aí se escondendo na “cortina de fumaça” para não enfrentar o gosto pelos privilégios.

O que temos para dizer é que não estamos dispostas a recuar. Vamos continuar afirmando nosso direito de ser e existir na diversidade. Nossos corpos políticos continuarão ocupando todos os espaços que quisermos para afirmar nossos desejos, sonhos e projetos. A sabedoria popular diz que onde há fumaça, há fogo. Então vamos procurar compreender essa “fumaça” para termos melhores condições de agir. Ao invés de nos incomodarmos com as discussões de gênero, raça/etnia, orientação sexual, gerações, deficiências, religiosidade, podemos pensar que esses elementos são dimensões culturais da classe trabalhadora, e que sem eles não é possível compreendê-la.

O fogo que incomoda pode ser a chama da revolução.

SP Invisível – Gilberto Maivei

SP Invisível – Gilberto Maivei

“Eu fiquei conhecido por ser aquele morador de rua que devolveu quase 3 mil cheques. Meu nome é Gilberto, só que eu sou conhecido aqui como ‘Maivei’, é o diminutivo de ‘mais velho’.

Em 2007, eu tava catando latinha e de repente achei várias folhas de cheque numa caçamba, tudo assinado de pessoa física e jurídica. Tinha de 100 reais até quantia que dava pra comprar um carro, tudo preenchido.

Na hora eu tremi muito e saí andando com aquele bolo de dinheiro até um lugar mais calmo. Eu não sabia o que fazer. Como sou evangélico, fui ver a resposta na Palavra e abri e fechei a Bíblia 7 vezes no mesmo versículo, ‘de que vale o homem ganhar o mundo e perder a alma’. Vi que não era coincidência e fui na delegacia devolver. Hoje to com a consciência limpa e devolveria de novo, mesmo sabendo que eu seria bilionário. Pelo menos, a imprensa e o governo abriram o olho pro morador de rua. Ainda não tá bom, mas tá melhor. Eles gastam mais purificando o Rio Tietê do que purificando o ser humano. O rio é importante, mas e o morador de rua? Esse outro programa também: eu queria entrar nesse negócio, mas só empregam como varredores. Queria ensinar minhas habilidades.” #SPinvisivel #SP

Gilberto Maivei

 

Eu ando bastante a noite sozinho pela rua. A cidade de São Paulo é uma de noite e outra de dia. O silêncio noturno consegue proporcionar o ambiente perfeito para pensar na vida durante uma caminhada para casa. Quem me conhece e sabe desse hábito sempre me pergunta, “mas você não tem medo?”. Agora, quem me conhece mesmo sabe que morro de medo, mas não de gente, medo de cachorro. Sempre imagino que um cachorro vai correr atrás de mim nessas horas da madrugada.

Sei lá se é um trauma de infância, mas de gente eu não tenho medo, isso foi uma coisa que aprendi no SP Invisível, não ter medo de gente. Gente é gente. O que existe são estereótipos. De cachorro é outra história… Como um homem branco, tenho alguns privilégios como esse de poder andar sozinho a noite na rua sem temer ou temendo menos.

A rua a noite já não é tão acolhedora assim para as mulheres. Os homens acham que “fulana está usando uma roupa x e por isso tem o direito de abusá-la”.

Posso também andar na rua a noite sem passar medo para as pessoas. Já para um homem negro não é assim. As pessoas os temem, acham que a pessoa “tem cara de bandido”. O que é, afinal, uma “cara de bandido”? É alguém que tem o rosto parecido com o de um político? De um empresário?

Por que será que a gente tem tanto medo de outros seres humanos? Medo é um sentimento muito forte. Para mim, o contrário do amor não é ódio, é medo. Quando você odeia alguém, é porque você teve uma experiência com essa pessoa, se aproximou dela, mas essa experiência foi negativa e te gerou ódio. Agora, quando você tem medo de uma pessoa, você nem quer se aproximar, quer evitar essa experiência antes mesmo dela acontecer. O medo afasta, o amor aproxima. Na Bíblia diz, “no amor não existia medo, pois o amor lança fora todo medo”. No SPi, aprendi a andar sem medo, andar com amor nos olhos.

            Além da parte espiritual do medo, há também no medo algo que é construído socialmente através de vários discursos que nos condicionam a sentir “medo” de pessoas com determinadas características. São elas, cor de pele, idade, sexo.

Por exemplo, se você vê é uma menina de 16 anos, branca, loira, dos olhos azuis andando em sua direção, você atravessaria a rua? Agora, muitas pessoas fazem isso quando veem alguma criança negra bem mais nova se aproximando. Esse medo construído é sustentado pelo nosso preconceito, nossas crenças equivocadas sobre o ser humano. Chegamos onde eu queria. Esse texto não é muito bem sobre o medo, mas sobre o preconceito, o medo construído através de um estereótipo.

Eu conheci um senhor que se chama Maivéi. Sim, desse jeito mesmo que você entendeu, “Mais Velho”. Ou, se preferir, Gilberto. Tanto faz. O Maivéi é um senhor negro que mora na rua há bastante tempo e em 2007 teve a oportunidade de mudar de vida e recomeçá-la fora das ruas. Só que o meio que ele faria isso não seria muito honesto, como vocês leram no seu relato. Ele teria que pegar muito dinheiro que achou numa caçamba. Cheques e mais cheques, todos preenchidos e assinados. Somados, ali tinha dinheiro para comprar um imóvel e ainda sobraria. Eu não garanto que não pegaria. Pelo menos um pouquinho. Só vivendo para saber. E você?

O dinheiro estava ali, vacilando. Ninguém ia saber se o Maivéi pegasse. Porém, segundo ele, ele olhou, pensou, abriu a Bíblia e fechou 7 vezes no mesmo versículo – “de que vale o homem ganhar o mundo e perder sua alma”.

A oportunidade estava ali, como diria o Mano Brown, a “vaga tá lá esperando você”, mas ele não pegou, escolheu, como ele disse, preservar sua alma. Pegou o dinheiro e levou para a delegacia. Sete anos depois, eu o encontro na rua e ele pôde me contar essa história com um sorriso no rosto bem sincero de quem não se arrepende do que fez.

Quando ouvi essa história, lembro que achei isso o máximo. Lembro que fui conferir essa história e é verdade. Tem até em portais da época. Achei o Maivéi uma exceção entre as pessoas que estão na rua. Hoje, vejo que tinha muito moralismo e preconceito na minha compreensão. A verdade é que ele é uma exceção entre todas as pessoas. A gente acha 10 reais no chão e pega para gente, imagine achar milhões de reais, sabendo que se a gente pegasse não ia acontecer nada com a gente.

Eu, particularmente, não acredito que se ele pega esse dinheiro, ele é considerado um ladrão. Juro que não sei. Enquanto escrevo isso penso muito nos contrastes entre essa história que é uma história que fala sobre honestidade e a situação que o Brasil está vivendo hoje. As pessoas gritam contra a corrupção, mas todos os dias temos nossa honestidade colocada a prova e nos entregamos nas mãos da incoerência. Eu sou corrupto, você é corrupto. Só o Maivéi não é corrupto. Do nada, honestidade virou o valor mor no Brasil.

 

As pessoas estão realmente preocupadas com a corrupção? Quem quer combater a corrupção é o Maivéi. Custava um senhor, já com mais de 60 anos, escolher se salvar e recomeçar a sua vida ao invés de continuar na rua? Um senhor com mais de 60 anos que escolhesse isso seria um ladrão? Eu não sei de nada disso, são questionamentos que me faço enquanto fico indignado com esses valores folclóricos que temos de honestidade no Brasil.

Talvez você possa perguntar ao Maivéi quando ele te parar no farol pedindo uma moeda. Mas pera, não fecha o vidro. Ele não vai te roubar, não precisa ter medo. Ele tem mais medo do seu carro com um adesivo fascista do que você dele.

Aqui foi feita uma pausa. Escrevi até o paragrafo acima num dia. Agora, dois meses depois, volto a escrever esse livro. Tudo acima escrevi num momento de histeria cogitando a possibilidade do Bolsonaro ser eleito. Infelizmente, o Bolsonaro já foi eleito. Aguardemos os próximos episódios.

Sabe o que me fez querer continuar esse texto? Ontem encontrei o Maivéi na nossa ação do Natal Invisível, em nossa ceia para 1000 pessoas em situação de rua. O Maivéi continua na rua e com o mesmo sorriso de sempre. Recebeu a nossa refeição e ficou muito grato. Naquele momento comecei a pensar como a sua vida poderia ser totalmente se ele optasse por pegar aquele dinheiro. Ele poderia, talvez, estar participando da nossa ação, ao invés de estar recebendo uma refeição por ela.

O mais louco dessa história toda? Todos os voluntários da ação não conheciam o Maivéi. Alguns até, em outro momento, teriam medo dele. De quem você tem medo? Por quê? Quem que você acha que tem medo de você? Por quê? O medo paralisa, nos impede de viver, nos impede de conviver, nos impede de amar.

O amor manda o medo embora. Viva com amor, lute com amor. Enxergue o mundo e os outros através das lentes do amor. Assim, viverá sem medo.

 

 

 

 

 

Pra quem você é luz extraordinária?

Pra quem você é luz extraordinária?

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Me senti tão bem, me senti tão segura, não porque tinha alguém do meu lado naquele momento e sim porque tinha me dado conta que eu havia superado alguém que não me deixava sentir outros prazeres. Mas olha, eu estava sentada a beira da cama, cinco da manhã, olhando pra janela aberta, vestindo uma camisa de goleiro de um cara que me encheu durante quase 2 meses. Cheio de carinho, me paparicando de uma forma tão respeitosa, eu não tinha sido tratada como fetiche dele, um carinha que se dispôs a ser meu amigo, que se dispôs a me ouvir como uma mulher de 23 anos que estava prestes a dar um grande passo em sua vida.

Mesmo que a realidade que eu enfrentaria não fosse a dele, ele falava para uma Leandrinha que ele mesmo não teve acesso, a que chora, a que se irrita, a que sente ciúmes, a que se desmonta ao falar da família, sem saber ele estava ali, sem querer nada em troca, ele quase virou meu melhor amigo rs. Eu cheguei a arremessar um peso de papel na parede do quarto dele, por causa de uma garota que nada tinha a ver com ele e que hoje é uma das minhas amigas. Ufa! Quanta informação né?! Mas já deu pra entender que ele tava se tornando minha best friends forever.

Eu estava ali, sentindo o vento gelado daquela janela balançando meu cabelo bem devagarinho e pensando em meio a lágrimas tímidas, nos meus próximos desafios, nos próximos passos do qual ele não faria parte, planos meus dos quais ele não estaria dentro. Eu ia entrar em campanha, a primeira jovem cadeirante trans a se candidatar a deputada de um estado, um desafio. Ele não fazia ideia da etapa que eu enfrentaria, do estresse, dos percalços no meio do caminho, das fortes emoções. Já eu, eu tinha noção, e mais noção eu tinha que não teria durante aquela caminhada alguém que eu pudesse surtar, pois se eu surtasse, como em um baralho de cartas, tudo caía.

Mais uma vez era só eu, e por mais que soe solitário e triste, eu estava sozinha lidando com um turbilhão de informação, vou escrever novamente, SOZINHA. Eu não estava dependendo de alguém para “processar a vida”, lá atrás, em um passado quase remoto eu necessitava do “aval” de uma pessoa me falando que tudo ficaria bem ou que era uma péssima ideia, nesse remoto passado eu fui essa pessoa pra alguém “frágil” também. Eu estava liberta e preparada para saber lidar com minha cabeça.

Eu estava ali, sentindo o vento gelado, até sentir a mão imensa daquele carinha mais velho nas minhas costas. Como era de praxe dele. “Minha luz extraordinária, deita aqui comigo.”

Sempre achei nomes fofos de namoradinhos uma tolice, tipo “baby, amore, anjo, flor e etc” e eu achava no começo um nome tão grande e nada fofo, um não, dois! Luz Extraordinária. “Luz extraordinária, é só fechar a tampa que o liquidificador liga”, “luz extraordinária, você leu a notícia que saiu hoje?”, eu ouvi isso várias vezes, não repentinamente porque ele sabia que eu não curtia essa melação, mas em diálogos que não necessariamente eram ricos em afeto.

Alguns dos significados do adjetivo “Extraordinário”:

Que não se adequa ao costume geral ou ordinário; algo excepcional. Característica do que é raro, singular ou esquisito. Extremo, excessivo; em elevado grau. Que é merecedor de admiração; algo fantástico ou incrível. Que possui a responsabilidade para a realização de alguma tarefa específica.

Agora alguns significados de “Luz”:

No figurado, diz-se de tudo que esclarece o espírito, conhecimento das coisas, inteligência, vir à luz, ser publicado, revelado. Homem/Mulher de mérito, de elevado saber, guia, orientação, verdade, evidência, certeza, brilho, fulgor, cintilação, coisa de grande apreço.

No fundo eu sabia que me enquadrava para tal “título”, mas nunca tinha me permitido me apropriar dessas duas palavras fortes. Eu deitei, deitei com a certeza que não precisaria daquele homem abraçado de “conchinha” comigo, assim como não precisei de nenhum depois daquele do “passado remoto” para lidar com o que a vida tinha a me oferecer. Afinal sou luz extraordinária pra mim mesma.

Daniel Zen: O que esperar do Governo Bolsonaro?

Daniel Zen: O que esperar do Governo Bolsonaro?

Foto: Ed Ferreira / Brazil PhotoPress

Não há muito o que esperar do Governo Bolsonaro. Não se trata de torcer contra ou de não ter esperança de que as coisas melhorem, mas, de não haver o que esperar (e nem o que “esperançar”) de uma equipe que consumiu todo o período de transição com “balões de ensaio” e “cortinas de fumaça”. Não há (ou, ao menos, não foram apresentados à sociedade) programas, projetos ou propostas de políticas públicas, com ações concretas, que possam refletir em melhoria na qualidade de vida das pessoas e pelas quais possamos torcer para que dêem certo.

Até aqui, salvo uma ou outra exceção, não restou demonstrado que os membros do Gabinete Ministerial detenham o essencial para que esse mandato seja minimamente bem sucedido: conhecimento técnico em sua respectiva área de atuação governamental e um bom Plano de Governo. Ao contrário disso, tanto quanto na caixa craniana de seu Líder Maior, habita o vácuo. Esse verdadeiro vazio de ideias e de conteúdo útil restou demonstrado em ambos os discursos de posse do Presidente, tanto no Congresso, quanto no parlatório do Palácio do Planalto, uma verdadeira coletânea de tuítes, memes e chavões de campanha: libertar o Brasil do “socialismo” (experiência que nosso país nunca vivenciou), do “politicamente correto” e das “ideologias nefastas” foram algumas das pérolas de uma fala dirigida muito mais aos seus fanáticos seguidores do que ao conjunto do Povo Brasileiro ou às nações amigas.

O oco presente no lugar do cérebro do Comandante-em-Chefe está refletido no ideário e no “não-programa” de sua equipe. Senão vejamos:

Na Economia, as prioridades anunciadas pelo Ministro, Paulo Guedes, são a reforma da previdência que, no formato proposto, coloca apenas na conta do trabalhador o ônus de conter o déficit previdenciário, estimulando a proliferação dos regimes de previdência privada, baseados na capitalização individual, que extirpa do nosso modelo contributivo/redistributivo as demais facetas da seguridade social; a agenda de privatizações que, a pretexto de livrar-se de um certo entulho estatal – o que seria, até certo ponto, positivo – procura repassar o filet mignon das empresas públicas e sociedades de economia mista a conglomerados multinacionais do capital internacional; e os cortes nas contribuições do Sistema S, sucateando o pouco de ação social que as entidades patronais da indústria, comércio, transporte e demais setores produtivos ainda praticam em prol de seus trabalhadores. De bom, apenas a anunciada “simplificação de impostos”, ponto fora da curva que, se concretizada, será muito bem vinda diante do cipoal que é o sistema tributário brasileiro.

Nas Relações Internacionais, o Chanceler, Ernesto Araújo, um ardoroso seguidor do pseudo-filósofo, místico e astrólogo Olavo de Carvalho, já fez declarações constrangedoras sobre o conjunto dos Países Árabes, o Mercosul e a China, simplesmente os três principais parceiros comerciais do Brasil, posto que são os três maiores importadores de produtos brasileiros. Tal preterição se dá em favor de estreitar laços com os EUA e Israel, por certo parceiros importantes, mas cuja participação na balança comercial não tem, nem de longe, o mesmo peso dos demais. Justo aqueles que acusam os governos anteriores de priorizar relações internacionais por “questões ideológicas”, passam a priorizar relação com EUA e Israel por motivos meramente… Ideológicos! Afora que rezar “Ave Maria” em tupi-guarani é, mais do que uma demonstração desnecessária de erudição, um contra senso: é o símbolo máximo do aculturamento em um governo que, em seu primeiro dia útil de trabalho, retira da FUNAI a atribuição quanto à identificação, delimitação e demarcação de terras indígenas. Como disse Bernardo Mello Franco, é o “samba do diplomata doido”. Não se concebiam tamanhas idiotices desde antes da fundação do Itamaraty.

Na Educação, o mesmo anticomunismo paranóico que orientará as relações exteriores se prenuncia como princípio norteador da agenda educacional, já que, como nas palavras do próprio Presidente, há que se “combater o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino”. Os “grandes temas” suscitados pelo Ministro, Vélez Rodríguez (outro seguidor de Olavo) foram a abolição de Paulo Freire das escolas (reconhecido mundialmente pela excelência de sua obra); a instituição do projeto “Escola sem Partido” que, sob o pretexto de “desideologizar” o ensino, quer instituir uma pedagogia da ideologia unicista, do monismo e do monoculturalismo, extirpando o pluralismo pedagógico e o multiculturalismo das escolas; e, por fim, estabelecer a “censura prévia” sobre questões do ENEM, de modo que não venham a abordar temas considerados “proibidos” pela Gestapo Bolsonarista. Para eles, todas são medidas importantes contra um suposto e ilusório “marxismo cultural” que deve ser combatido, tal qual Dom Quixote combatia os moinhos de vento. É rir pra não chorar…

Na Segurança, afora o anúncio de algumas medidas operacionais para os presídios, feitas pelo Ministro Justiceiro, Sérgio Moro, a bala de prata do futuro governo é a facilitação do acesso à posse de armas de fogo. Confesso que não tenho opinião formada, favorável ou contrária, à tal medida. Contudo, não há estudo sério e conclusivo que relacione a ampliação da posse ou porte de armas com a redução da criminalidade ou violência. Porém, de outra banda, há estudos sérios que apontam que a posse ou porte massivo de armas de fogo gera o aumento de casos de morte por acidentes domésticos, uso e emprego da arma em discussões banais (como brigas em família, de trânsito ou entre vizinhos), tiroteios em escolas por alunos que sofrem de problemas psicológicos (como acontece, recorrentemente, nos Estados Unidos) e assim por diante. A medida, embora sem eficácia, dialoga com os desejos e anseios da população por mais segurança e agrada, sobretudo, as indústrias armamentistas.

Na Saúde, não houve sequer alguma proposta de relevo ventilada até agora, há não ser o flerte com a ampliação das benesses a planos privados de saúde, em detrimento de um SUS universal.

Em todas estas e também nas demais áreas de Governo, assim como em ambos os discursos de posse do Presidente, observa-se algo que orienta a ele e à maioria dos membros de sua equipe: um obstinado – e imbecilizado – combate ao que eles denominam de “viés ideológico”. O termo ideologia pode ter diversos significados, mas aqui não é outro senão o conjunto estruturado e sistemático de ideias, convicções filosóficas, sociais, políticas, de visões e interpretações de mundo de um indivíduo ou grupo de indivíduos. O próprio Presidente, seu partido político, sua equipe e, via de conseqüência, todo o seu governo possuem a sua própria ideologia que, consagrada vencedora nas urnas, deve ser colocada em prática. O que demonstra que essa investida contra o que eles chamam de “viés ideológico” é, na verdade, o combate a ideologia de seus adversários, em um movimento que tenta imprimir um conceito de ideologia única (a deles). Não há problema que alguém pense diferente de mim. O problema é quando esse alguém começa a achar que o meu pensamento não possa existir por ser diferente do dele. Essa é uma visão – e ação – própria de regimes totalitários, sejam eles de esquerda ou de direita, algo típico de quem tem dificuldades de dialogar com os diferentes e com as diferenças.

No contrafluxo da ausência de propostas, recaem sobre o Presidente e sua família fartas e robustas denúncias de esquemas de corrupção e relações obscuras, típicas de quem habitou, por décadas, a sarjeta e os pântanos da política – no caso, o chamado “baixo clero” da Câmara dos Deputados.

Não sou adepto das teorias da conspiração, mas, o vídeo-documentário intitulado “A facada no mito” é revelador. Se os seus autores, ainda anônimos, com uma acurada análise de imagens, conseguiram observar movimentações e contatos suspeitos entre Adélio Bispo e os seguranças da equipe de Bolsonaro, no dia do suposto “atentado” em Juiz de Fora-MG, imagina o que a Polícia Federal não conseguiu descobrir.

Quer dizer que, além da mistura de laranjal com lavanderia, personificada na figura de Fabrício Queiroz, ex-assessor, amigo pessoal do Presidente e homem forte da “Famiglia”; da assessora fantasma do então Deputado Federal e hoje Presidente (a Wal do Açaí), contratada e paga, com dinheiro público, para alimentar os cachorros do patrão em sua casa de veraneio em Angra dos Reis-RJ; o recebimento de doação ilícita de R$ 200 mil da JBS, lavado no partido e devolvido ao então parlamentar, para uso em uma de suas campanhas à Câmara Federal; o uso ilegal de disparos em massa de mensagens falsas de WhatsApp, durante a campanha presidencial, pagos, ilicitamente, com recursos de caixa 2 eleitoral; o patrimônio da família, declarado em R$ 6 milhões, porém, avaliado em R$ 15 milhões; repousam, também, sobre o Presidente, suspeitas de conluio para orquestração de um atentado fake, hipótese em que ele não teria sido vítima e sim algoz de uma ardilosa trama. Sem contar que vale investigação do envolvimento de membros da Família Bolsonaro com milícias e, via de conseqüência, com o assassinato de Marielle Franco e de seu motorista, Anderson.

Não se tratam apenas de ilações ou de acusações vazias, injuriosas, caluniosas ou difamatórias. Aliás, nem acusações são. São apenas indícios, porém, suficientes para que sejam deflagradas as respectivas investigações, posto que apontam para a prática de corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio, elisão fiscal, sonegação de tributos, falsidade ideológica e estelionato, crimes estes que se dessumem dos diferentes casos que envolvem não só a figura do Presidente, mas também de seus filhos parlamentares, sua esposa e diversos de seus antigos assessores.

Sendo assim, a pergunta é: por que não investigar? Haveria um esforço institucional para barrar, blindar ou para manter em sigilo a apuração de tais fatos? Por que razão o Ministro da Justiça, paladino do combate a corrupção (dos outros), está comprometido com o sigilo de tais apurações? Por qual motivo haveria ele de decretar a censura ao presidente, conselheiros e servidores em exercício do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), como foi feito no último dia 03/01? Se são bobagens, que sejam logo esclarecidas e desveladas como tal. Mas, são perguntas que, em um legítimo Estado Democrático de Direito, não poderiam ficar sem respostas…

Quer ficar com a pulga atrás da orelha? Assista abaixo ao vídeo “A facada no mito”:

Tudo sobre minha raba

Tudo sobre minha raba

Qual das duas fotos você prefere?

Fotos: Lucas Aniceto

Vamos ser honestos: Se você já me viu pessoalmente em algum momento você já reparou na minha bunda.

Seja de um jeans marcante, uma legging pregada, um short enfiado, uma saia que insiste em subir ou num maiô descarado, você já reparou na minha bunda. Tudo bem, eu sei que ela chama atenção. Que das vezes é minha característica mais, er, proeminente. E tô de boa com isso. Demorou, mas tô de boa.

Explicando aqui rapidinho porque: bunda pra mulher preta é um assunto sério. É paixão nacional, é propriedade pública, é métrica de sucesso pra muitas de nós. Eu faço parte das mulheres negras que têm bunda grande, ou seja, nascemos com dois caminhos: ou você a aceita e utiliza desde criança para barganhar pelo pouco de atenção que homens estão dispostos a dar. OU você esconde, tampa e foge do arquétipo de puta que sobrou. Qual dos lados da Vênus Negra sou eu?

Se ainda resta dúvida, procure os vídeos da Nátaly Neri onde ela fala sobre como ela vê a bunda dela e como ela já usou roupas para escondê-la.

ENFIM, o ponto aqui é que minha bunda, querendo ou não faz parte da minha identidade.

E minha bunda, chocantemente, não é perfeita. Estrias, manchas, espinhas e tudo que nós mulheres sabemos que rola ali. Além disso anos de “prendendo” a bunda pra caber nas roupas e nos padrões amassaram minha bunda. Se você passa a mão você sente ela plana. É uma parada que eu sou overconsciente, pra mim todo mundo nota que minha bunda não é redonda, empinadinha, é plana. ANYWAY, o formato não é classicamente bonito.

Resumo da obra, crescer sendo a negra de bunda grande, gorda, que chama atenção e tem uma raba imperfeita fez eu ser eu. Tive que lidar com isso e aprender a amar minha bunda real. E é isso, revolucionário e simples ao mesmo tempo.

Chega em dezembro de 2018. 31, último dia desse ano louco. Seguindo a onda da timeline das férias, resolvi que ia fazer foto na praia também. 300 cliques do Lucas Aniceto depois, chegamos a uma seleta das toperz.

Um dos takes favoritos sou eu de raba pra cima. E tava linda. Tava redonda nesse ângulo, tava porra, tarra bem. Tava pra postar.

Mas dai eu olhei de novo e percebi: ESSA NÃO É MINHA BUNDA.

Minha bunda plana agora estava em formato coração.

Editaram minha bunda. Me editaram.

Agora entendam, eu não sou purista. Não tenho nada contra editar sua foto numa parada ou outra. Se não for acabar virando uma pessoa totalmente diferente e vender uma estrutura completamente irreal, vai fundo. Ou cê sabe, se não for pra embranquecer a pessoa, né. Tira sarda, põe sarda. Apaga aquela estria chata, pincel em umas celulites ali… Você continua sendo você, fora da caixinha da Naomi.

Masssssss, não. Na minha bunda não.

É foda, mas naquele momento pensei: essa bunda sou eu. Flashback de tantas frustações, beira de choro, picos de ansiedade porque iam ver minha bunda, tocar na minha bunda e ver que ela não era o que era pra ser, que eu e minha bunda éramos uma farsa. A minha caminhada para me desfazer desse “instinto” cruel e mano, aceitar esse popô G!!!!

É isso, ver ali minha bunda editada me parou. Se eu postasse ninguém ia saber que minha bunda era outra, tava de boa. Mas eu queria? Eu queria que as pessoas conhecessem minha bunda falsa? Dramas cancerianos à parte, a minha pergunta era: se eu demorei tanto pra construir minha autoimagem positivamente, por que quando eu tenho a oportunidade de publicizá-la faria justamente o contrário?

Decidida que ia postar a foto original, nos perguntamos – eu e minha família coletiva que participou desse debate-montanha-russa no meio de uma cozinha na Bahia – mas e outras pessoas? Outras pessoas também tem nóia com a bunda? Se sim, eu queria ouvir.

Manas pretas com certeza. Brancas “desbundadas” também. Homens gays também.

Pra cabá, me diz: O que você sente sobre sua bunda?
Você postaria uma foto da sua bunda falando disso com a tag #Desbunde?

E o mais importante:
E minha bunda tá bonita? 😉

Retirem o Viés Ideológico de Bolsonaro e não sobra nada!

Retirem o Viés Ideológico de Bolsonaro e não sobra nada!

O meme presidente. Foto: Sergio Moraes/Reuters

O Capitão chegou! Mas o Mito tem pés de barro. Ouvindo os dois discursos de posse de Bolsonaro a vacuidade é o mais impressionante, em ritmo de memes, slogans e frases para o whatsapp. A expressão mais repetida por Bolsonaro é “sem viés ideológico”. Falou em livrar da “submissão ideológica” e que o “Brasil voltará a ser um país livre das amarras ideológicas”. Depois de “libertar o país do socialismo” e do “politicamente correto”, “da ideologia de gênero” e valorizar o “cidadão de bem” e ainda “retirar o viés ideológico das relações internacionais”.

Combater o “viés ideológico” para os bolsonarianos é simplesmente combater e reprimir a liberdade de pensamento. Impressionante como a mídia não consegue vocalizar que Bolsonaro chegou e foi eleito com um ideário e um “VIÉS IDEOLÓGICO” de extrema-direita e o que isso significa em termos de direitos e de liberdade. De ataque ao humanismo e mesmo ao liberalismo, para nem falar de esquerda, mas de valores civilizatórios e iluministas.

Com sua retórica ideológica contra as ideologias atacou os direitos humanos, vistos como ameaça: “É urgente acabar com a ideologia que defende bandidos e criminaliza policiais.”

A segunda palavra mais citada é Deus e em nome de Deus se propõem todo um programa de intolerância que ameaça defender a família brasileira e a bandeira verde-amarela com “sangue”. Repetiu sob aplausos que “Nossa bandeira jamais será vermelha”. O verde-amarelismo da direita e da extrema-direita não tem nada de “técnico” e é um “viés ideológico” perverso que manipula o sentimento de país e de comunidade.

Na lógica delirante (um dos componentes fortes da grandeloquência bolsonarista, dos seus ideólogos como Olavo de Carvalho e de parte dos eleitores) surge a promessa de combater o “Brasil socialista”. E aqui o termo socialista, completamente fora de lugar, serve apenas para criar um “fantasma” e uma ameaça ficcional (leia-se, dizimar direitos e programas sociais, desmontar o Estado e vender seus ativos).

O General Mourão discursando parecia emitir um intenso urrar: como se pode passar tantos signos de truculência apenas com a voz?! Temer, o pusilânime, ao passar o cargo, parecia ter encolhido, portando uma enorme faixa presidencial que o diminuiu ainda mais.

A tradução para surdos (com seu gestual dramático) usando Libras poderia ser entendida sem o discurso de Bolsonaro, tal sua obviedade. Mas Michele Bolsonaro fez um show à parte e trouxe o tema da inclusão de uma minoria: os surdos e o ideário de uma primeira-dama que cuida dos “projetos sociais” do governo e apoia o marido com beijos.

Lembram da LBA? Legião Brasileira de Assistência? A LBA que acabou no governo Collor com denúncias de fraude e tinha as primeiras-damas do governo federal como presidentes.

O nível de expectativa criada é gigantesca. Agora veremos o desgaste e o peso da faixa presidencial. E se os memes e palavras de ordem, tão maniqueístas, são sustentáveis!

O tratamento dado a imprensa na cobertura da posse causou indignação: os jornalistas estrangeiros abandonaram a cobertura, acusando a organização de os manterem sem mobilidade e em cárcere privado, confinados em uma sala.

Justiçamento e Ressentimento

Mas afinal quem Bolsonaro representa no Planalto? Por que temos a impressão que elegeram o “tiozão do churrasco” para Presidente do Brasil? O tiozão e seus amigos reaças. Um grupo que fala diretamente a linguagem da classe média brasileira, do homem médio, mediano. Aquela figura sem feitos e sem qualidades que produz uma identificação imediata: “olha ali ele batendo um prato de macarrão com a faixa presidencial”, “olha ali ele puxando a caneta Bic”, “olha ali ele desajeitado com o terno que parece lhe incomodar”, “olha ai a mulher dele que simpatia!”.

Todo o ressentimento produzido nos últimos anos pela e para a classe média brasileira universal (que se estende por qualquer grupo que tenha os mesmos valores) reaparece em cada frase de Bolsonaro que promete ataque e vingança: destruir o Brasil que se ergueu nos últimos anos, retirar todos os “privilégios” (leia-se os direitos) dos mais pobres, das minorias, da cultura, de todos que afrontam essa maneira de ver o mundo simplificada.

Um mundo anacrônico, onde meninos são príncipes e meninas são princesas, onde menino veste azul e menina veste rosa, como discursou a Ministra da Disney, Damares Alves, ao assumir o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos. Bolsonaro é o homem sem qualidades, o catalisador de todo esses anacronismos e também o vingador que dá voz aos ressentimentos acumulados.

Eis ai alguns dos primeiros sinais emitidos pelo governo de extrema-direita que começa. Estejamos prontos!

P.S. Grande momento da posse: um cavalo rebelde dos Dragões da Independência tenta impedir o carro com Bolsonaro de avançar : ) #2019 #Bolsonaro #posse #FelizAnoBozo

Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo

Daniel Zen: Temer, o pior Presidente da História do Brasil

Daniel Zen: Temer, o pior Presidente da História do Brasil

Foto: Evaristo Sá / AFP

Temer encerra sua passagem pelo Palácio do Planalto como um dos piores Presidentes da República da História recente do Brasil. Alçado do Jaburu ao Alvorada, em virtude do impedimento de sua titular, propôs uma farisaica “Ponte para o Futuro”, que não passou de um engodo de marketing político barato.

Os indicadores sociais, políticos, econômicos e culturais sofreram duro baque. A iniciar pela taxa de desemprego que, com Dilma, havia chegado a 4,3% da população economicamente ativa, em 2014; e, com Temer, atingiu o patamar recorde de 13,3% em 2017. O maior dos últimos 20 anos.

O dólar fecha o ano de 2018 em sua pior cotação para o último ano de mandato de um Presidente da República, desde FHC: R$ 3,90 contra R$ 3,74 (2010) do tucano. Com Lula, chegou a R$ 1,69 em 2010 e, com Dilma, a R$ 2,67 em 2014.

A dívida líquida do Brasil, em relação ao PIB, também atingiu patamares históricos, à frente apenas do último ano de FHC: 54,1% em 2018, contra 59,9% em 2002. Em 2010, último ano de Lula, a dívida líquida era de 40,1%. Em 2014, com Dilma, era de 35,7%.

A desigualdade social e a distribuição de renda são as piores possíveis. A versão mais recente do estudo anual da ONG Oxfam retratou que, em 2018, o Brasil interrompeu uma série histórica de 15 anos de redução das desigualdades. Quer dizer que, pela primeira vez em 15 anos, paramos de reduzir a diferença abissal entre os mais ricos e os mais pobres. O estudo demonstrou ainda que os 10% mais pobres da população tiveram uma redução de 11% nos seus rendimentos, enquanto os 10% mais ricos tiveram um crescimento de 6%.

A crise, portanto, não é para todos e os seus efeitos foram suportados apenas pelos mais pobres, enquanto os ricos ficaram ainda mais ricos.

Um dos indicadores símbolos do equívoco das políticas econômicas e sociais do Governo que se encerra é o preço público dos combustíveis. Entre outubro de 2017 e outubro de 2018, o preço médio da gasolina e demais combustíveis fósseis subiu 22%.

O salário mínimo também não poderia passar incólume: no último ano de FHC o ganho real do SM, obtido a partir da subtração entre o percentual de reajuste e a inflação medida pelo índice de preços ao consumidor foi negativo de – 3,63%. Já no último ano de Lula, o ganho real foi de 3,22% (no ano de 2006, por exemplo, foi de 13,86%, o maior em um período de 20 anos). Com Dilma, o ganho real foi de 5,10% em seu último ano, tendo atingido 7,94% no ano de 2012. Com Temer, houve decréscimo: -1,73% em 2018.

Mortalidade Infantil, expectativa de vida ao nascer, dentre outros, todos são indicadores que pioraram. Mas, justiça seja feita, inflação e reservas internacionais foram dois indicadores que melhoraram sob Temer: a inflação fecha o ano de 2018 com taxa de 3,69% e as reservas internacionais atingem a monta de US$ 380,2 bilhões.

A queda na maioria dos indicadores é sintoma, resultado e consequência das escolhas feitas pela Equipe Econômica do Governo. Ao mesmo tempo em que concedeu generosos pacotes de isenção fiscal, anistia e perdão de dívidas a grandes devedores do fisco, reduziu, drasticamente, o orçamento e o alcance de programas sociais, que cuidam de assegurar distribuição de renda e condições de uma vida minimamente digna àqueles que mais precisam. Dessa forma, praticou a “austeridade” – tão propalada pelos liberais da economia – apenas para com o povo, beneficiário dos programas sociais; e foi perdulário para com aqueles que deveriam colaborar e contribuir mais com a função redistributiva do Estado, posto que maior é a sua capacidade de contribuição.

Além da baixa nos indicadores, da qual foram causa os equívocos da política econômica e social, Temer acumulou escândalos. Enfrentou (e barrou, liberando emendas parlamentares aos deputados federais) duas denúncias no Congresso Nacional que poderiam ter lhe custado o mandato. As imagens de seu assessor, Rocha Loures, correndo pela rua com uma mala preta de dinheiro ainda povoam o imaginário das pessoas.

Contudo, uma coisa é certa: Temer é competente e tem palavra, naquilo com o que se comprometeu. Entregou tudo que as forças que constituíram o “Condomínio do Golpe” lhe impuseram como condição para patrocinar, apoiar e financiar o impeachment. Os interesses de tais condôminos eram difusos, porém, convergentes: manutenção de privilégios a membros dos poderes; concessão de benefícios a setores “produtivos”, com destaque ao capital especulativo internacional; manutenção da relação incestuosa com os conglomerados da mídia familiar, tradicional, conservadora e sonegadora de impostos do país e assim por diante.

Foi nessa senda que Temer aprovou a Emenda Constitucional n. 95/2016, que limita, por 20 anos, o crescimento do orçamento apenas a variação da inflação; aprovou uma reforma trabalhista que desonerou o empregador e sacrificou os empregados, dificultando-lhes ou restringindo-lhes o acesso a benefícios trabalhistas; entregou, à multinacionais, a exploração do petróleo do pré-sal; privatizou concessionárias de distribuição de energia elétrica; abriu, à empresas estrangeiras, sem restrições, a participação no capital de empresas do setor aéreo nacional, dentre outros “entreguismos”.

Afora as medidas consumadas, houve ainda as tentadas: tentou aprovar a Reforma da Previdência e o denominado “Pacote do Veneno”, que procura liberar o uso de 14 tipos de agrotóxicos proibidos em outros países, para beneficiar os seus fabricantes, sem se preocupar com o prejuízo que isso causará a saúde dos brasileiros e à qualidade dos alimentos que consumimos.

Para quem mantinha uma trajetória parlamentar invejável até então, é um triste fim de carreira, cuja biografia resta profunda e definitivamente maculada por sua ganância, ambição e vaidade. Aliás, como diria o Diabo de Al Pacino, “ah, a vaidade! O meu pecado favorito”.

P.S.: Fajutas as explicações de Fabrício Queiroz, em entrevista concedida à jornalista Débora Bergamasco, do SBT, sobre a origem do vultoso volume de recursos movimentados em sua conta bancária. Até se admite que alguém movimente altas somas de recursos comprando e revendendo automóveis. Porém, é pouco provável que as vendas tivessem sido feitas, sempre, nas datas do pagamento da Alerj. E que todos os seus clientes fossem seus colegas assessores, incluindo suas duas filhas, sua esposa, sua ex-mulher e o marido da ex-mulher. A desculpa, esfarrapada, deixa claro uma coisa: Queiroz não era um simples laranja da Famiglia. Laranja eram os outros assessores. Ele era o Chefe da Lavanderia Bolsonaro. Um PC Farias do Século XXI. Como diria Humberto Gessinger, “a história se repete, mas a força deixa a história mal contada”.

Feliz ano novo de resistência

Feliz ano novo de resistência

Para comemorar o fim de ano, o Pastor Henrique Vieira preparou uma mensagem em sua coluna, o significado da ressurreição de Jesus Cristo para os lutadores e lutadoras do nosso país. Feliz Ano novo para todos e todas

Raull Santiago: A culpa não é da favela

Raull Santiago: A culpa não é da favela

Foto: Mídia NINJA

Ontem eu estava na casa da minha vó, conservando sobre varias coisas com ela, até que em meio a sorrisos e reflexões, as falas soltas foram tomando outro rumo, quando começamos a relembrar a nossa vizinhança e perceber a quantidade de pessoas que cresceram conosco, mas se foram dessa vida de forma violenta.

Mães que tiveram seus filhos assassinados e assim ficaram doentes e também morreram. Vários jovens crescidos comigo, ou filhos e netos daquela vizinhança, assassinados de forma violenta, na brutalidade dos significados de sobreviver no lado desigual, da chamada desigualdade.

Infelizmente aqui na favela, as pessoas sabem o quanto dói a dor. O quanto é agonizante a saudade que a morte deixa. E também, o quanto pesada pode ser uma lágrima.

Quem não convive com a realidade de existir neste cenário, onde resistir muitas vezes é o verbo e o processo do dia a dia, jamais conseguirá ter noção dos significados que isso tem. Podem fazer um milhão de pesquisas, tentar de vários formas, mas aqui dentro, existem coisas que não são possíveis serem expostas ou expressadas em palavras e gestos, porque surgem dentro de cada alma.

O julgamento construído no privilégio de quem não vive aqui, construiu ao longo da história muitas dessas resultantes, que foram forjadas a base de um racismo e desigualdade extremamente violentos, semeados aqui em forma de política pública.

Quantos futuros poderiam ter acontecido?
Quantos caminhos poderiam ter trilhado tantas dessas pessoas incríveis?

Pessoas essas que jogaram bola de gude, soltaram pipa, peão e brincadeiras comigo… ou ajudaram a desentupir esgotos, ou a secar casas inundadas pelas chuvas e enchentes, ainda mais para quem como nós, ali daquela área, morava na encosta do valão, que sempre enchia com qualquer chuva…

Sei lá, sabe. Tenho quatro filhos aqui dentro dessa favela. Dois meus, os da minha companheira, ou seja, os nossos. E o tipo de preocupações que mães e pais da favela tem, são sempre relacionados a coisas sérias, violência extrema e muito medo. É desesperador!

Em meio as correrias, tive a oportunidade de viajar algumas vezes pelo Brasil e mundo, só que, sempre para as mesmas missões, importantes obviamente, porém, para falar sobre estratégias de enfrentar a violência, aprender sobre, ou criar junto com outras juventudes essas estratégias. No mundo inteiro, as pessoas sabem quem vive as violências extremas. E sabem também que são pelos mesmos motivos, ou seja, racismo, desigualdade e preconceitos.

O lance é que eu sozinho não conseguiria, por exemplo, promover para minha família uma missão dessas, viajar juntos, ainda mais para fora do pais e assim poder tirar umas férias. Essa não é a realidade financeira de onde cresci. Não é a minha realidade.

Então, ao longo da vida, passamos a conhecer nossos demônios, a tentar lidar com isso e quem sabe, mudar alguma coisa nessa realidade.

Conversando com a minha vó, ficamos alguns momentos naquelas reflexões quase silenciosas, em resmungos que dizem, “nossa, quanta gente”, “que triste isso tudo”. Olhando para o nada, sacudindo a cabeça em concordância, mas sem muita coisa para dizer, enquanto se sente tudo.

Sabemos de dentro, sentimos por dentro. Casos de pessoas com uso problemático de drogas, envolvimento com o varejo das drogas, violências vividas pela mão da polícia, tantas mortes.

A primeira vez que a polícia me agrediu, eu falei comigo mesmo: vou aprender à atirar, vou tirar meu prejuízo. Quantos de nós, daqui, nunca pensou isso? Nas agressões seguintes, revolta facilmente ia se tornando ódio.

Muitas pessoas foram importantes para eu aprender a canalizar as dores, revoltas e ódio, como combustível para tentar construir mudanças, garantir direitos e transformar as coisas a partir da educação, informação e disputa de narrativas. Pessoas acreditaram em mim. E eu acredito nas pessoas daqui. E acredito neste lugar. Eu sou daqui.

Neste lugar a principal política pública chega através da secretaria de segurança.

A polícia como contato direto entre “nossos” governantes e a população que aqui vive. A “guerra às drogas”, onde a parte da -guerra- tem endereços e corpos específicos como alvo: as periferias nacionais, de corpos pretos, indígenas e periféricos… segue tentando nos segregar e silenciar através de UPP, Intervenção Militar e toda forma de contenção militarizada da vida cotidiana na periferia.

Gasta-se milhões em publicidade do medo, colocam a favela como “bode expiatório” através de discursos fakes como “guerra às drogas” e assim, seguem lucrando a grande empresa multinacional de nome fictício “Segurança Pública”, que tem atuação privada e promove espetáculos de terror, vendendo falsa segurança e alimentando egos do privilégio, através de violência direcionada a nossa população das periferias.

Enfim, são milhares de questões em efervescência em cada beco, viela e ladeiras da favela. Que precisam de atenção, investimento, cuidado, empatia, oportunidade, de tudo. Menos do seu racismo, violência, preconceito e estrutura desigual crescente.

A cada novo dia, um sonho, uma esperança, uma dificuldade superada, uma barreira atravessada, um sorriso, um choro, um dia sem luz, outro sem água, as vezes os dois. Busão lotado, metrô lotado, transito infernal. Uma mensagem, um moto táxi, tá calor e vem chuva. É dia de feira, é dia de bar, passar no mercado. A vida acontece, os baques perseguem.

Hoje eu recebi a notícia de que uma prima se suicidou. Fazia pouco tempo que ela havia se tornado mãe. Um dos meus avós também se suicidou no passado. A morte é presente, quase uma amiga. Uma pena, não é daquelas que tentamos cultivar.

Mas a vida é algo lindo. Vale lutar para garanti-la, mesmo que as estruturas nas quais se fundaram essa sociedade, desde a exploração colonizadora, a escravidão, os genocídios, hoje chamados de “guerra às drogas” tentem nos frear. E a luta por garantia de vida e direitos também é linda. E você encontra muitas pessoas inspiradoras nessa caminhada, que fazem o acreditar queimar forte e te impulsiona a seguir em frente.

A culpa não é da favela, por isso não podemos deixar o silêncio como mensagem!

Eu ia dar bom dia.
Mas agora já é de tarde.

Um cara pediu pra transar no escuro

Um cara pediu pra transar no escuro

*Conteúdo não recomendado para menores de catorze anos.

Pensou e um carinha lindo ? idealize por um minuto um carinha perfeito, pois é, um desses pediu pra apagar a luz antes de começarmos a transar porque o mesmo não queria que eu visse uma cicatriz em seu corpo.

Após muitas risadas em uma mesa de bar, flertes, olhares afiados e um gesto de solidariedade ofereceu uma carona inocente “-que a gente bem sabe onde vai dar”. Cadeira de rodas desmontada e dentro do carro, no primeiro semáforo, o primeiro beijo de uma longa noite, sem cinto (não façam isso) apoiada em suas coxas, beijei devagarinho seu pescoço, subindo lentamente até a sua boca, que beijo lento, molhado, pra não dizer babado. O farol abre, volto pro meu lugar de origem, o banco do passageiro, agora com cinto, já prendo meu cabelo, me preparando claro.

Chegamos na casa dele, a cadeira ficou no carro mesmo, aqueles imensos braços deveriam servir pra algo neh ? Ele me pega, de frente pra ele, me encosta na porta da sala que dava acesso a casa, porta essa que o mesmo estava tentando abrir enquanto eu o beijava e ria ao mesmo tempo daquela cena, me lembrei da cena do filme Titanic, aquela do corredor inundado e os coleguinhas deixam o molho de chaves cair na água. Entramos finalmente, literalmente fui jogada no sofá, não há cabelo que fique preso a isso, a sala parecia um forno de tão calor, foda-se o calor que o cabelo causava. Na minha frente, um império tirando a roupa diante os meus olhos, peito largo, alto, não era o homem definido de academia, porém esse homem era um armário todo talhado no trabalho manual, peludinho. Quando vi sinais de alegria no meio de suas pernas e uma gota de suor que desceu do seu pescoço até o umbigo, junto com ele tirei minha blusa e meu salto alto, pelo cinto de sua calça o puxei pra cima de mim naquele sofá imenso, ele me virou bruços , tirou meu cabelo da nuca, beijando minha bunda ainda por cima da roupa, subindo minhas costas, até chegar ao meu ouvido, sua barriga encostava na minhas costas.

Sinto agora suas mãos por debaixo da minha saia tirando minha meia calça e minha calcinha, sendo carregada por ele novamente, concluiremos nossa noite no quarto, fico sentada no centro da cama, ele tira a calça e sua cueca azul clara, eu estava satisfeita com o que eu via, vou até ele de joelho em cima da cama, da altura da sua cintura, camisinha, dou início a um sexo oral lento que não podia durar muito, pois eu sabia que ia segunda chance, se eu quisesse aproveitar a noite toda não dava pra acabar o show cedo. Já que minha autoconfiança permite, eu estava deslumbrante, vestindo apenas uma saia pra la de curta, com o cabelão todo bagunçado, ele me pega novamente de frente pra ele, se deitando comigo na cama, em frações de segundos, faço uma cena que eu via em slowmotion, jogo meu cabelo pra não ficar preso embaixo do meu corpo, olho pro imenso espelho no guarda roupa embutido a parede, vejo uma cena linda, um homem imenso de uma bunda linda em cima de mim, meu cabelo estendido como um lençol espalhado na cama, quando do nada, tudo fica escuro. Eu pensei que era a volta de jesus buscando seus colegas.

Eu fiquei sem reação, eu não via nada, eu perdi o foco, broxei, como seu eu tivesse acordando de um sonho eu perguntei : “-O que aconteceu? Me fala que a energia da casa caiu”. E a resposta foi pra mim surpreendente “-Apaguei a luz no interruptor da cabeceira da cama”. Na hora sai debaixo dele, procurando igual louca esse botão e acendi a luz novamente, o tesão já tinha caído por terra. – Não foi por mim que você apagou essa luz. Foi o que eu disse a ele, que muito sem graça sentou na ponta da cama, eu quebrei, parti ao meio a sensualidade, a confiança daquele homem, que em palavras meio enroladas me disse que sentia vergonha de uma cicatriz enorme que ele tinha na parte posterior da coxa devido a um acidente. Aquilo me fez ficar calada por aproximadamente dois minutos, minhas mãos começaram a suar de nervosa.

Pensei, que eu sim tenho motivos para querer fazer sexo no escuro, é o meu corpo que foge da “normalidade”, meu corpo que carrega grandes cicatrizes de inúmeras cirurgias, porém eu só não tinha vivido episódios onde senti vergonha do meu corpo na hora do sexo, pois antes mesmo que eu tivesse vergonha de tirar a roupa pra alguém ou perdesse minha virgindade, teve uma pessoa que despertou o meu olhar de desejo pelo meu próprio corpo. Mesmo escondendo meu corpo e todas suas “imperfeições”, esse meu primeiro homem, dentro de um banheiro escolar me fez acreditar que meu corpo era sim desejável, era sim belo e que seria injusto me privar de conhecer e amar meu corpo.

Muito emocionada, mas segurando as lágrimas, olho aquele homem na beira da cama de costas pra mim, já de blusa. “-Olha pra mim, olha bem pra mim, olha pro meu corpo que até cinco minutos te deixou de pau duro, esse corpo tem todos os motivos para não estar nesse quarto se deitando com alguém que conheceu em um bar, pra não querer transar de luz acesa, então não vai ser sua cicatriz que vai atrapalhar nossa foda, você não pode deixar que seja isso o motivo de suas frustrações, volta aqui e me beija”

Com todas as luzes que havia no quarto acesas, calmo, ele me beija, retomamos de onde paramos, quando terminamos, com a cabeça na minha barriga, ele sorriu e me disse que a conta de luz viria mais cara a partir daquele dia.

¿Tu feminismo incluye a las mujeres con discapacidades?

¿Tu feminismo incluye a las mujeres con discapacidades?

Traducción de Pressenza

(Imagen de Mídia NINJA)

El fin del año siempre viene con esa atmósfera de retrospectiva. No importa dónde ni cuándo, de alguna manera reflexionamos sobre nuestras acciones, conquistas, y dificultades enfrentadas durante el período que termina. Hacemos nuestros balances personales con promesas de intentar nuevos pasos el próximo año. Rituales necesarios para mantenernos en movimiento en esta vida errante.

Tengo el hábito de analizar críticamente mis experiencias. Quizás porque soy minera¹ estoy acostumbrada a ser desconfiada por naturaleza, pero lo cierto es que la duda es parte mía.

Nací con una enfermedad genética progresiva incurable, llevé adelante mi vida viendo mi cuerpo perder estabilidad física y, en cierto momento, con una esperanza de vida reducida. Algo muy común para las personas con diagnósticos raros, que viven contra el tiempo. Sin embargo, como la capacidad médica para calcular las existencias no es la más confiable, pude ir más allá del período que se me había destinado.

Podría decir que es una gran conquista, pero al mismo tiempo es resultado de mi estilo de vida, de mi mirada crítica sobre el lugar en que la sociedad insiste en poner a las personas con discapacidad.

Me molesta esa posición marginal, medicada, infantilizada y nebulosa en la que nos pusieron. No nos ven porque estamos aisladas en nuestras casas. No podemos salir porque la sociedad no es accesible. La gente no sabe cómo “lidiar” con nosotros porque no convivimos y tampoco tienen interés en conocer nuestra realidad.

La lista de exclusión es larga… después de todo el capacitismo (prejuicio contra las personas con discapacidad) no es sólo las groserías y los prejuicios descarados. Son sutilezas. Si el diablo vive en los detalles, también vive en nuestras máscaras.

2018 fue el año en que nos revelamos, no sólo por el voto sino también por la actitud. Por pensar en el otro, por no pensar. Hemos visto movimientos, acciones y reacciones de todo tipo. Temas y más temas debatidos y combatidos. Sin embargo, una cosa no cambió este año: el silenciamiento de las personas con discapacidad.

No importa el nombre, el tema o lo que sea. Ningún movimiento incluye a las personas con discapacidad en su discurso. Es como si nuestra realidad fuera un caso aparte, un lugar que el sol no toca y que no debe ser visitado. El baile continúa y nunca nos invitan.

Soy feminista. Aprendí mucho de las teorías, consiguiendo finalmente reconocerme como mujer con derechos y valores como cualquier otra. Hice ese camino sola, siguiendo mis pensamientos e ignorando la indiferencia dentro del movimiento.

Después de participar en Ella (Encuentro Latinoamericano de Feministas) en la ciudad de La Plata, Argentina, aprendí mucho. Tantas historias diferentes aportaron una nueva mirada a esos días. No puedes pasar indiferente por este tipo de experiencia.

Aprendí a luchar por mi espacio en el movimiento.

Sí, hermanitas. Lamento ser tan franca, pero la mayoría de ustedes no se acuerdan de nosotras. No nos ven como mujeres, ni buscan entender nuestra realidad. Creen, al igual que el resto de la sociedad, que nuestra problemática se resume en la accesibilidad. O mejor dicho, a la rampa y la escalera.

No las juzgo. Tal como el machismo, el capacitismo es estructural. La mayoría de la personas no necesitan lidiar con ciertas capas de prejuicios. Para las mujeres sin discapacidad hay, en la mayoría de los casos, tres cuestiones a enfrentar: género, raza y clase social. Para nosotras son: identidad, autonomía, género, raza, clase social.

Todo el mundo es visto como persona con deseos, pensamientos, anhelos y demás sentimientos. Por el contrario, las personas con discapacidad son diagnósticos, objetos, no seres humanos. A pesar de los derechos garantizados por ley, todavía no tenemos el potencial de nuestras decisiones; nuestras autonomías son cuestionadas en detrimento de nuestras capacidades corporales.

Se nos juzga por nuestro cuerpo, por la capacidad de no parecer que tenemos una discapacidad, como si eso fuera una especie de “privilegio de semejanza”. Cuanto más estándar sea, mejor será aceptado por la sociedad.

Por esta razón, no voy a suavizar mi discurso. Lo siento mucho. No puedo hacer eso.

Hay muchas mujeres con discapacidades que sufren en relaciones extremadamente abusivas, porque no se creen merecedoras de un amor verdadero. Del mismo modo en que las mujeres negras sufren la soledad causada por el color, nosotras luchamos con nuestra castración social por no ser queridas.

Nadie discute la importancia de un examen ginecológico para una mujer con discapacidad, no estamos invitadas a debatir. No se imagina una vida sexual para nosotras o nuestras sexualidades. Somos cis, heteras, bisexuales, lesbianas, trans, no binarias y estamos en las redes hablando de nuestras experiencias en blogs, videos y páginas, pero nuestras voces permanecen atrapadas en las burbujas de amigos y familiares.

Este año dimos algunos pasos tímidos, lascerantes. Todavía no sabemos cómo será el próximo, así que estoy lanzando esta provocación. No es un ataque al feminismo, especialmente porque la indiferencia hacia las personas con discapacidad sucede en TODOS los movimientos sociales. Necesitamos que no den espacio para hablar, una escucha empática que apoye nuestra lucha.

Si el año que viene nadie le suelta la mano a nadie, espero que algunas manos también se extiendan hacia nosotras.

Tem um rio no meio do caminho

Tem um rio no meio do caminho

Por Bella Gonçalves e Cida Falabella

Livro ‘Rios invisíveis da metrópole mineira’, de Alessandro Borsagli.

Cristina Pereira Matos morreu abraçada com sua filha Sofia, de seis anos, dentro de um carro levado pela correnteza. A estudante Anna Luísa Fernandes de Paiva, de 16 anos, foi sugada por um bueiro que teve a tampa arrancada pela força da água. Robson, um companheiro morador da Ocupação Vitória, se afogou ao tentar cruzar uma área alagada. Jonnattan Reis Miranda, de 28 anos, foi arrastado pelas águas e teve seu corpo encontrado apenas cinco dias depois.

No Bairro Santa Terezinha, na região do Serrano, lar da vereadora Cida Falabella há mais de 30 anos, o córrego Sarandi transbordou. Infelizmente, um episódio comum quando chove forte no bairro, que faz parte da bacia da Pampulha. Colchões, camas, móveis e mesmo uma prótese – foram muitas perdas com o temporal, que deixou um rastro de lixo (aquele acumulado há tempos no rio) na moradia dessas famílias.

No último dia 15 de novembro, feriado da Proclamação da República, vivemos outro capítulo dessa que é uma tragédia anunciada: as cinco pessoas mencionadas morreram durante um temporal que alagou a Avenida Vilarinho, em Venda Nova, uma das vias mais castigadas pelas chuvas na capital.

Todos os anos, em Belo Horizonte, esse enredo se repete. Nos períodos chuvosos, enchentes e alagamentos de grandes proporções perturbam o cotidiano da cidade, trazendo acidentes e prejuízos e, não raro, levando embora vidas inocentes. Vidas levadas não só pela chuva, mas por anos de negligência, por um modelo de cidade que privilegia o asfalto e o concreto.

Sabemos que a culpa por desastres como esses não é da natureza. As tragédias estão muito mais ligadas às intervenções humanas e ao nosso despreparo para o convívio harmonioso com os elementos naturais. No caso das enchentes em Belo Horizonte, precisamos nos questionar sobre o modelo de gestão das águas adotado pela capital desde a época de sua fundação, no final do século XIX. Em vez da coexistência com os cursos d’água em seu leito natural, optou-se pela prática sistemática da canalização de rios, córregos e ribeirões. Muita gente não sabe, mas vias centrais da cidade escondem águas que em outros tempos eram parte da paisagem urbana, como a Av. Prudente de Morais (Córrego do Leitão), a Av. Antônio Carlos (Córrego da Lagoinha) e o famoso Boulevard Arrudas, construído sobre o ribeirão de mesmo nome.

Em princípio, essa parece uma boa solução para os “problemas” que surgem quando precisamos conciliar os cursos d’água com uma malha urbana em constante crescimento. Um olhar mais detido, no entanto, mostra que canalizar rios e córregos para conter inundações é como tapar o sol com a peneira – ou com concreto, no caso. As enchentes são parte do ciclo das águas e, as margens dos rios, áreas naturais de inundação. Especialistas afirmam que a canalização faz aumentar a velocidade da água e, assim, o seu poder de destruição à jusante (lado para onde se dirige a água corrente). A situação é agravada pelo assoreamento da calha dos rios, com o acúmulo de lixo e sedimentos provenientes, entre outros, de margens erodidas e desmatadas.

Sob um grande volume de chuvas, a vazão natural dessas águas fica seriamente comprometida, fazendo com que elas tenham muito mais chance de transbordar. Além das dificuldades para serem absorvidas pelo solo das cidades, impermeabilizado pelo excesso de concreto e asfalto. Essa combinação de fatores é desastrosa e tem consequências que já conhecemos muito bem.

Os mais prejudicados são trabalhadoras e trabalhadores que, embora ajudem a construir diariamente nossa cidade, vivem às suas margens, em regiões periféricas onde a regra é a falta – de moradia adequada, de investimentos em infra-estrutura, de políticas públicas eficientes. Um descaso com a vida.

Plano Diretor é aliado

Em que pese a complexidade do desafio, nossas práticas políticas nos ensinam que nada deve parecer impossível de mudar. É possível conviver de forma mais respeitosa com a natureza e seus cursos d’água e essa já é uma realidade em muitas grandes cidades mundo afora (como Cleveland, Londres, Paris e Seul) e aqui dentro (Maringá, no Paraná). Rios e córregos são elementos importantes da paisagem urbana.

Essa busca pelo bem viver nas cidades, com respeito e convivência harmoniosa entre todas suas formas de vida, deve ser a mola-mestra das políticas urbanas.

Especial atenção deve ser dada às pessoas mais pobres, que sabemos ser as mais afetadas por desastres como as enchentes na Avenida Vilarinho. O que está em jogo é a vida de muita gente que mora nas bordas e nas periferias, sem acesso a saneamento básico, moradia adequada, transporte digno para ir e vir. A responsabilidade é da Prefeitura, mas também é nossa, como legisladoras e legisladores.

No último 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, comemoramos na Câmara Municipal uma vitória muito importante para a cidade: a aprovação em primeiro turno do novo Plano Diretor de BH. Ele passará, agora, por uma nova rodada de discussões na Casa, momento em que serão apreciadas as emendas ao projeto – mudanças feitas ao texto pelos vereadores e vereadoras da Casa e pelo Executivo.

O Plano é um instrumento que estabelece o desenvolvimento do município a fim de garantir uma cidade mais justa, inclusiva e saudável. Com os recursos derivados da outorga onerosa, instrumento proposto no Plano, é possível financiar obras que sirvam, entre outros, para evitar enchentes e salvar as vidas de nossa gente. Também é possível incorporar um estudo das bacias hidrográficas do município e da utilização adequada dos fundos de saneamento, por exemplo. Por meio do Plano, também podemos reconhecer os territórios de ocupações urbanas como Áreas de Especial Interesse Social (AEIS) e, assim, garantir sua urbanização, produzindo moradias dignas e em respeito ao espaço natural. Leia mais aqui.

Essas são apenas algumas das ações possíveis para lidar de forma mais sábia com os elementos naturais e evitar que tragédias como a da Vilarinho e do Serrano se repitam ano após ano.

Não podemos governar a cidade com base apenas nos interesses de quem quer verticalizá-la, impermeabilizando seu solo, tapando seus rios. Estamos em busca de uma vida digna e plena para todas as pessoas.

Debater o Plano Diretor de forma consequente e responsável é tarefa de todos e todas que querem melhorar a vida nas cidades. Como cidadãs, é nosso papel trabalhar por outras formas possíveis de vida.

O Bolsonarismo e a tática da cortina de fumaça

O Bolsonarismo e a tática da cortina de fumaça

Por Jones Manoel – militante do PCB, educador popular e professor.

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Em alguns momentos da história surgem novos fenômenos políticos de forma mais rápida que o pensamento crítico dos intelectuais e organização dos trabalhadores conseguem acompanhar. Com o bolsonarismo, me parece, acontece o mesmo. Até março desse ano a maioria dos intelectuais, partidos políticos, movimentos sociais e “formadores de opinião” consideravam que Bolsonaro teria uma expressiva votação, mas não teria chance de vencer. Não só venceu a eleição presidencial, como o bolsonarismo se tornou a força comandante do sistema político brasileiro desbancando o PT e o PSDB. Uma das grandes dificuldades de compreender o que representa essa “nova” extrema-direita brasileira é que ela se move sob uma constante cortina de fumaça: falsas pautas e debates para esconder o que é central na economia, política, condução do Estado e política externa.

Alguns coisas, porém, já sabemos com clareza. Uma delas é que o bolsonarismo representa a continuidade da ofensiva de classe burguesa iniciada com o Governo Dilma e seu ministro Joaquim Levy, aprofundada com Michel Temer e agora radicalizada com Bolsonaro sob a “legitimidade” das urnas. É um projeto da burguesia interna sob o comando do imperialismo estadunidense que visa intensificar a superexploração da força de trabalho (retirando qualquer resquício de direito trabalhista), aprofundar a privatização dos bens públicos e das riquezas naturais, destruir completamente os direitos sociais (completando o serviço da EC -95/2016, conhecida como PEC da MORTE), despedaçar a soberania nacional e aprofundar, como nunca antes na história desse país, a dependência e o subdesenvolvimento. Todas essas contrarreformas socioeconômicas exigem, é claro, uma radical transformação do sistema de dominação política tornando-a ainda mais autoritária, violenta e repressiva – uma ditadura aberta do grande capital com fachada constitucional.

Para distrair o conjunto dos trabalhadores das consequências desse programa antinacional e antipopular, é fundamental desviar constantemente a atenção pública para temas secundários, laterais, brigas paroquiais. Aprofundando a arte que obteve êxito na eleição (quando em um país com 14 milhões de desempregados, o tema central das eleições foi “Kit Gay”, “doutrinação nas escolas”, Venezuela, “mamadeira de piroca” etc.), o futuro governo Bolsonaro e seus associados, especialmente seus filhos, atuam nas mídias sociais – como Twitter, Instagram, Facebook – provocando, diariamente, falsos debates. A postura de adolescente “hater” na internet do presidente eleito e seus colaboradores não deve ser interpretada como sinal de despreparo de um deputado medíocre (embora Bolsonaro seja realmente medíocre e burro, no sentido pleno da palavra), mas como uma tática de comunicação, até esse momento bastante eficaz, que visa criar uma cortina de fumaça sobre os temas fundamentais.

Recentemente, fui usado como uma matéria-prima para a cortina de fumaça típica do Bolsonarismo. Compartilhei um twitter com uma piada que dizia “sacanagem jogar ovos podres na cara de Bolsonaro que fica na rua…” e em seguida, vinha um endereço (que não faço ideia se é real). Dois dias depois o site “República de Curitiba” lança uma matéria com o título “militante do PCB incita ato de vandalismo contra residência de Bolsonaro”. Em um episódio digno do teatro de José Serra atingindo pela bolinha de papel e da “grávida” de Taubaté, os filhos de Bolsonaro e o próprio presidente, compartilham a notícia como “prova” de que a vida do presidente é ameaçada por uma esquerda violenta e intolerante – ovos podres: a maior arma de destruição em massa da humanidade.

Várias páginas no Twitter e Facebook compartilham a “matéria” com o mesmo discurso e outras personalidades do circo da direita, como Alexandre Frota e Lobão, também divulgam a “horrível ameaça” contra a vida do presidente. Bolsonaro e seus associados passam todo dia 24, em pleno natal, circulando a matéria em todas as suas redes. Vídeos e mais vídeos são criados no Youtube com a notícia bombástica: “militante do PCB ameaça a vida de Bolsonaro”. Um exército de bolsominions loucos marca a Polícia Federal e passa a proferir ofensas racistas e ameaças de morte contra minha vida. Alexandre Frota passa todo dia 25 no Twitter me xingando e convidando para um duelo físico, onde segundo o ex-ator pornô, eu iria “entrar na porrada”. A Revista Fórum, repercute a ameaça do deputado eleito e ele compartilha a matéria orgulhoso em suas redes sociais.

Pronto. O circo está armado. Durante 48 horas um dos principais assuntos do presidente, seus apoiadores, filhos e assessores próximos foi uma piada compartilhada por mim no Twitter. Esse tipo de comportamento é extremamente eficaz para distrair seus seguidores, desfocar do que é central e ainda garantir a reprodução do mito da “esquerda totalitária” – não sem ajuda de uma própria parcela da esquerda brasileira. Por falar em esquerda, muitos se perdem nesse tipo de tática de comunicação e inclusive, ajudam na sua efetivação, como no caso de “Jesus no pé de Goiaba”. Por exemplo, nos dias decisivos que antecedem a entrega da Embraer à Boeing o tema principal de várias “bolhas progressistas” na internet foi Damaris e o sumiço de Queiroz.

O enfrentamento eficaz ao Bolsonarismo exige de todos os militantes e lutadores (as) sociais do país uma postura propositiva que saia da reação e deixe de se pautar pelo absurdo do que é dito pelo presidente e sua equipe. A reconstrução de um projeto radical de transformação política do país que crie uma nova hegemonia que não só consiga organizar uma forte resistência, mas que também forje as condições para uma ofensiva dos explorados e oprimidos do país. E não conseguiremos isso sem desviar-se da forte cortina de fumaça ideológica e infantil produzida em escala industrial pelo bolsonarismo.

Chico Mendes, 30 anos: uma memória a honrar. Um legado a defender

Chico Mendes, 30 anos: uma memória a honrar. Um legado a defender

Foto: Ramon Aquim / Mídia NINJA

Com início no sábado, 15/12 e término no sábado, 22/12, a Semana Chico Mendes de 2018 assinalou os 30 anos do assassinato e passou em revista todo o legado deixado ao planeta pelo líder sindical, ambientalista e herói nacional Chico Mendes.

Além de participar, como ouvinte, de algumas das atividades da extensa programação da Semana, também pude participar, como debatedor, da roda de conversa que teve como catalisador o filme “Chico Mendes: eu quero viver”, de Adrian Cowell e Vicente Rios.

O filme é, sem sombra de dúvidas, um dos registros históricos mais densos, importantes e significativos dos últimos 3 anos de vida de Chico e, ao mesmo tempo, o mais didático: essencial e indispensável para quem deseja iniciar-se no tema e conhecer um pouco de sua trajetória.

Do filme, é possível compreender três contribuições vitais de Chico para o debate da sustentabilidade e que constituem parte de seu legado: a Aliança dos Povos da Floresta; o Socioambientalismo; e as Reservas Extrativistas.

A Aliança dos Povos da Floresta foi o nome dado a pactuação havida entre seringueiros, riberinhos, extrativistas e índios, em torno de pautas comuns: o acesso a direitos e garantias fundamentais e, sobretudo, o combate a expropriação de suas terras, decorrente da expansão da fronteira agropecuária, que avançava pelo Acre nas décadas de 1970 e 1980.

Foto: Ramon Aquim / Mídia NINJA

Tal aliança foi uma importante chave para uma percepção de que a luta sindical de seringueiros e demais trabalhadores da floresta não estava dissociada da questão ambiental. Porém, ao contrário da ortodoxia do ambientalismo pioneiro – fortemente preservacionista – e para além da mera instrumentalização das causas ecológicas, a luta sindical de trabalhadores da floresta agregou o ambientalismo como condição sine qua non para a continuidade de suas existências e de seu modo de vida: sem a floresta em pé, não há seringueiros, ribeirinhos, extrativistas, povos indígenas, populações tradicionais. Preservar, nesse caso, é condição para trabalhar e, em última instância, sobreviver. Nascia, então, o socioambientalismo, fruto da fusão das causas do movimento sindical, oriundas da relação capital-trabalho, com as causas do movimento ecológico.

Nesse sentido, a instituição de reservas extrativistas tornou-se uma bandeira de luta do socioambientalismo: para conter a pressão fundiária, da especulação imobiliária, da pecuária e da exploração madeireira predatória, era necessário, além dos “empates”, instituir um modelo de gestão territorial que permitisse a permanência das populações tradicionais nas florestas, onde habitavam, no mínimo, há quatro gerações. Assim nasceu o conceito de Reservas Extrativistas (Resex), unidades de conservação e produção onde a propriedade/domínio é do Poder Público e a população que lá habita, na condição de posseiros legítimos, passa a ter assegurado os seus direitos de posse e usufruto, mas, sem a propriedade da terra. Uma gestão territorial coletiva, que permite a manutenção do trabalhador em suas terras, com seu modo de vida, de trabalho, habitação, lazer e demais características culturais.

Romantismo? Não. Isso se chama “princípio da autodeterminação dos povos”. Isso se chama preservar e assegurar direitos.

As Resex permitiram que milhares de famílias não fossem destituídas de suas posses e expulsas, violentamente, de suas terras por fazendeiros/grileiros e seus jagunços, estancando um pouco a violência e os assassinatos decorrentes de conflitos agrários, além de reduzir o fluxo de migração destas para a periferia das cidades, do que decorria a constituição de bolsões de miséria urbana, com pessoas vivendo em condições precárias e sub-humanas de habitação, trabalho e exercício dos demais direitos fundamentais.

Se, hoje, há desmatamento no interior das Resex para criação de gado, certamente é algo mais sutil do que o desmate de antanho. E que seja feita para o usufruto de seus legítimos e originais posseiros e não pelos latifundiários e especuladores.

Chico foi também Vereador, pelo antigo MDB; fundador do PT no Acre (sua ficha de filiação, no Estado, é a de número 01) e candidato a deputado estadual pelo partido, junto com Marina Silva, então candidata a deputada federal.

Foto: Ramon Aquim / Mídia NINJA

Apesar de toda sua brilhante trajetória de lutas há, no Acre, aqueles que afirmem que Chico Mendes era preguiçoso, cachaceiro, baderneiro, arruaceiro, desordeiro…

É o que dizem de todos aqueles que resolvem lutar e defender direitos dos menos favorecidos, contrariando interesses de ricos e poderosos. Escondem o fato de que Chico começou a cortar seringa aos 9 anos de idade e só diminuiu sua produtividade aos 29, quando ingressou no movimento sindical, para lutar por causas muito maiores do que o próprio sustento e subsistência, seu e de sua família. É óbvio que só se luta por todos, pelo coletivo, com o sacrifício do trabalho individual.

É por isso que não podemos descansar na defesa dos que mais precisam. É por isso que não podemos descansar na defesa da honra, da memória e da história de quem deu a vida pela causa do desenvolvimento econômico viável, ambientalmente correto e socialmente justo.

Chico Vive!

Israel assassina descapacitado palestino pelas costas

Israel assassina descapacitado palestino pelas costas

 

Oficialmente o exército de Israel admitia ter matado o jovem Muhamad Hosam Habal, de 22 anos da cidade Tulkarem (noroeste palestino), em razão de um “violento motim em que dezenas  palestinos lançaram pedras”. Esta “estória” se faz presente de forma recorrente na narrativa por parte do Estado de Israel para justificar prisões que já beiram 6.000 neste ano, sendo 300 crianças mantidas em cárcere.

Imagens do circuito de segurança conseguidas pelo jornalista Sam As-Sai, desconstruíram a versão israelense. O vídeo mostra Habali, descapacitado física e mentalmente, caminhando com ajuda de um bastão ao lado de amigos, antes do início dos disparos do exército próximo a um restaurante.

O palestino é alvejado pelas costas numa distância de 80 metros. O jovem, segundo a família, somente conseguia realizar trabalhos simples devido a deficiência cognitiva.

Em 9 de março, Israel já tinha assassinado outro deficiente, segundo o jornal “The Times Of Israel”. Mohamad  al-Jabari era da localidade de Al-Jalil (Hebrón) na Cisjordânia ocupada. Nesta sexta (14/12) foi a vez do adolescente Mahmud Yusef Najleh, de 16 anos, no acampamento de refugiados de Al-Jalazun ao norte de Ramalá, lado oeste da Palestina. Mais uma vida quitada, num montante que já chega a 348 neste ano.

Foto: Prensa Islamica

 

O país sionista que somente possui os EUA como aliado dentre 194 nações na ONU, tenta talhar uma “estória” que mesmo tendo o poder bélico nuclear, se coloca apenas como uma posição de defender-se de pedras lançadas de batoques. Este ato de defesa, esconde uma prática de ataque como ferramenta de uma política de extermínio. O modelo permite apropriar-se de terras palestinas, impedir novas construções por parte dos muçulmanos ao passo que lhes derrubam residências, escolas e templos.

Enfim, nesta última semana os israelenses marcharam em protesto contra Benjamin Netanyahu aos gritos de criminoso. Não se apresentava no ato nenhuma referência  a preocupação humanitária com os palestinos assassinados, nem mesmo o genocídio de 2.300 palestinos em 2014, na maioria crianças e idosos. Em verdade, para os israelenses os crimes do primeiro-ministro não são contra a humanidade, e sim na escalada dos preços internos ou nas denúncias de corrupção do seu governo.

Coube neste sábado o filho, e não o pai, externar o sentimento real dos israelenses sobre a população palestina e muçulmana. Segundo Yair Netanyahu:

“Somente haverá paz nos territórios ocupados quando todos os muçulmanos forem embora. Sabe onde não ocorre ataques terroristas? Na Islândia e no Japão. A razão é que não existe população palestina e muçulmana nestes países.”

Ao alardear pelo mundo que se defende, Israel avança sobre o que não é seu por direito. Pouco se preocupa com as vidas palestinas, quando objetiva crescer seu patrimônio a partir de apropriar-se de bens dos territórios ocupados. Nesta ordem de ideias se alinha o presidente turco Tayyip Erdogan no discurso que proferiu na conferência sobre a Palestina, no final de semana:

“Hoje em dia os palestinos estão sujeitos as pressões, violência e intimidação não menos graves que a opressão imposta aos judeus na Segunda Guerra Mundial. Bombardear crianças que brincam nas praias de Gaza é um crime tão grave contra humanidade como o crime desumano chamado holocausto. Estão cometendo um genocídio cultural usurpando terras, negócios e casas de oração dos muçulmanos. Estão enganando a si próprios crendo que podem destruir a espiritualidade de um povo ao mover consulados e embaixadas.”

Cabe a história abordar quem são os verdadeiros terroristas do tempo presente. Se existe uma relação da escala do poder bélico e do aporte de capital nas guerras induzidas por interesses da grande potência, e como avaliar seu peso na denominação do que é em realidade um ato terrorista. Entrementes, podemos ficar presos a uma falácia de que qualquer força que enfrente o poder hegemônico tenha caráter terrorista.

Em verdade quando as tensões aumentam no mundo islâmico, os conglomerados ocidentais aumentam seus ganhos. Quando os conflitos se intensificam no Oriente Médio, os países ocidentais vendem mais armas.

Neste projeto parece evidente que Israel desempenha o papel de representante da OTAN e dos EUA na região, com a capacidade de gerar o desequilíbrio. No sentido de dirimir qualquer dúvida, basta olhar o mapa da Palestina de 1967 e comparar com o da Palestina de 2018, é um genocídio xenófobo demasiadamente claro.

Seu feminismo inclui mulheres com deficiência?

Seu feminismo inclui mulheres com deficiência?

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Final de ano sempre surge com aquela atmosfera de retrospectiva. Não importa onde ou quando, de alguma maneira refletimos nossas ações, conquistas e dificuldades enfrentadas durante o período que se finda. Fazemos nossos balanços pessoais com promessas de tentar novos passos no próximo ano. Rituais necessários para nos manter em movimento nessa vida errante.

Tenho o costume de analisar criticamente minhas vivências, talvez por ser mineira esteja habituada a ser desconfiada por natureza, mas a realidade é que a dúvida faz parte de mim.

Nasci com uma doença genética progressiva sem cura, levei minha vida vendo meu corpo perdendo estabilidade física e, em um certo tempo, com a expectativa de vida reduzida. Algo bem comum para pessoas com diagnósticos raros, viver contra o tempo. Entretanto, como a capacidade médica em calcular existências não é das mais confiáveis, consegui ultrapassar o período destinado a mim.

Poderia dizer que esta é uma grande conquista, mas ao mesmo tempo é resultado do meu estilo de vida. Do meu olhar crítico sobre o lugar em que a sociedade insiste colocar pessoas com deficiência.

Me incomoda essa posição a margem, medicalizada, infantilizada e nebulosa em que nos colocaram. Não somos vistos porque estamos isolados em nossas casas. Não conseguimos sair porque a sociedade não é acessível. As pessoas não sabem como “LIDAR” conosco por não terem convívio e tampouco interesse em conhecer nossa realidade.

A lista de exclusão é extensa, afinal capacitismo (preconceito contra pessoas com deficiência) não são apenas grosserias e preconceitos escancarados. São sutilezas. Se o diabo mora nos detalhes, ali também reside nossas máscaras.

2018 foi o ano em que nos revelamos, não apenas pelo voto, também pela atitude. Pelo pensar no outro, pelo não pensar. Vimos movimentos, ações e reações de todos os tipos. Pautas e mais pautas sendo debatidas e combatidas. Entretanto, uma coisa não mudou neste ano: o silenciamento das pessoas com deficiência.

Não importa o nome, pauta ou o que for. Nenhum movimento insere pessoas com deficiência em suas falas. É como se nossa realidade fosse um caso a parte, um lugar onde o sol não toca e não deve ser visitado. O baile segue e nunca somos convidados.

Sou feminista, aprendi muito com as teorias conseguindo finalmente me reconhecer como mulher com direitos e valor como qualquer outra. Fiz esse caminho sozinha, seguindo meus pensamentos e ignorando o apagamento dentro do movimento.

Após participar do Ella (Encontro Latinoamericano feminista) na cidade de La Plata, Argentina, aprendi muito. Tantas histórias diferentes trouxeram um novo olhar sobre os dias. Impossível passar por este tipo de experiência sem ser impactada.

Aprendi a lutar pelo meu espaço no movimento.

Sim, manas. Me desculpem a franqueza, mas grande parte de vocês não lembram de nós. Não nos veem como mulheres, tampouco buscam entender nossa realidade. Creem, assim como o resto da sociedade, que nossa pauta se resume a acessibilidade. Ou melhor, a rampa e escada.

Não julgo vocês, tal como o machismo, o capacitismo é estrutural. A maioria das pessoas não precisam lidar com determinadas camadas de preconceitos. Para a mulher sem deficiência existem, na maioria dos casos, três camadas a serem enfrentadas: gênero, raça e classe social. Para nós, são: identidade, autonomia, gênero, raça, classe social.

Todo mundo é visto como pessoa com desejos, pensamentos, anseios e demais sentimentos. Ao contrário, pessoas com deficiência são diagnósticos, objetos, não seres humanos. Apesar dos direitos garantidos por lei, ainda não temos a potência de nossas decisões, nossas autonomias são questionadas em detrimento de nossas capacidades corporais.

Somos julgados pelo nosso corpo, pela capacidade de não parecer ter deficiência como se isso fosse uma espécie de “privilégio da semelhança”. Quanto mais padrão for, melhor será aceito pela sociedade.

Por esse motivo, não suavizarei meu discurso. Sinto muito. Não posso fazer isso.

Existem várias mulheres com deficiência sofrendo abuso em relacionamentos extremamente abusivos porque não se julgam merecedoras de um amor verdadeiro. Do mesmo modo que as negras sofrem com a solidão provocada pela cor, nós lidamos com nosso castramento social por não sermos desejadas.

Ninguém discute a importância de um exame ginecológico para uma mulher com deficiência, não somos convidadas ao debate. Não se imagina uma vida sexual para nós ou nossas sexualidades. Somos cis, héteras, bi, lésbicas, trans, não binárias e estamos nas redes falando sobre nossas vivências em blogs, vídeos e páginas, porém nossas vozes permanecem presas nas bolhas de amigos e familiares.

Este ano demos alguns passos, tímidos, lancinantes. Ainda estamos sem saber como será o próximo, por isso estou aqui realizando esta provocação. Não é um ataque ao feminismo, principalmente porque o apagamento das pessoas com deficiência acontece em TODOS os movimentos sociais. Precisamos que nos dêem espaço de fala, uma escuta empática endossando nossa luta.

Se no próximo ano ninguém solta a mão de ninguém, espero que algumas estejam estendidas para nós também.

Reflexões de um domingo: À mulher de César, não basta ser honesta, tem que parecer honesta

Reflexões de um domingo: À mulher de César, não basta ser honesta, tem que parecer honesta

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O mais curioso nessa história toda que envolve o ex-motorista e segurança Fabrício José Carlos Queiroz, nomeado assessor parlamentar no gabinete do então Deputado Estadual e hoje Senador eleito, Flávio Bolsonaro; a futura Primeira-Dama do Brasil, Michelle Bolsonaro; e o Presidente da República eleito, Jair Bolsonaro, além do misterioso sumiço do primeiro, é que as explicações e as contas não batem. Senão vejamos:

Fabrício Queiroz tinha dois vínculos empregatícios, em tese acumuláveis por lei: em um, recebia algo em torno de R$ 8.517,00; em outro, R$ 12.600,00. Isso dá uma receita anual bruta aproximada de R$ 281.479,61. É uma renda alta, considerando a(s) função(ões) que ele desempenhava, mas é quase 5 vezes menor do que a quantia que ele movimentou, em um ano, em sua conta bancária.

Pois bem. Tendo movimentado R$ 1,2 milhão (5 x mais do que seus rendimentos), ainda assim se sentiu impelido – por força, talvez, de alguma necessidade – a contrair um empréstimo de R$ 40.000,00.

Com todo esse lastro de movimentação bancária, ele poderia ter solicitado tal empréstimo ao próprio banco ou a qualquer outra instituição financeira.

Porém, solicitou ao pai de seu patrão – o então Deputado Federal e Presidente eleito, Jair Bolsonaro – que, sendo seu amigo pessoal desde o ano de 1984, quando se conheceram em um curso no Exército, prontamente, lhe atendeu.

A suposta necessidade de Fabrício foi tamanha que ele recebeu “ajuda”, na forma de vultuosas e frequentes transferências ou depósitos bancários de, ao menos, 8 colegas assessores parlamentares do mesmo gabinete (o de Flávio Bolsonaro), incluindo sua própria esposa, duas filhas e ex-mulher e o esposo da ex-mulher. Uma das filhas de Fabrício, Nathalia Melo de Queiroz, foi tão generosa com seu pai que chegou a transferir o valor equivalente a quase 99% de sua receita anual líquida para seu genitor!

Prossigamos: o mesmo assessor teria realizado 176 saques em um único ano, que sempre ocorriam após transferências ou depósitos feitos pelos colegas assessores em valor similar e em espécie, geralmente na véspera dos saques. As datas das transferências ou depósitos, por sua vez, coincidiam com as datas do pagamento da Alerj.

Fabrício resolveu honrar com o empréstimo que lhe fora supostamente concedido por Jair Bolsonaro. E o fez em 10 cheques de R$ 4.000,00.

Mas, como Fabrício Queiroz talvez seja uma pessoa muito esquecida – ou mesmo desorganizada – pagou novamente a dívida dando um cheque de R$ 24.000,00 a Dona Michele Bolsonaro, esposa de Jair Bolsonaro e futura Primeira-Dama do Brasil.

Mas, ainda não acabou: no mesmo relatório em que o Coaf aponta as movimentações bancárias suspeitas de Fabrício, aponta também que um de seus colegas assessores, que teriam transferido dinheiro para sua conta (Wellinton Sérvulo), passou mais de 400 dias, em 3 anos, fora do Brasil – em Portugal – no período em que deveria estar trabalhando na Alerj; e que Nathalia, a filha generosa de Fabrício, também exercia os empregos de recepcionista em uma academia de ginástica e de personal trainner de famosos, concomitantemente com as suas atribuições de assessora parlamentar.

Agora, analisemos a situação: o empréstimo de Jair Bolsonaro e as altas somas de transferências ou depósitos dos colegas assessores talvez expliquem o montante movimentado na conta de Fabrício. Explicam, mas não justificam. O valor, a frequência e as datas das transferências e depósitos, assim como a inassiduidade habitual de alguns desses assessores demonstram uma prática comum nos parlamentos.

É a devolução de parte do salário dos membros de um gabinete – ou mesmo do salário integral – ao parlamentar, na pessoa de um assessor, o famoso “laranja” ou “coletor do pedágio”, que o faz em uma “conta de passagem”, onde o verdadeiro destinatário do dinheiro não é o titular da conta.

Tal prática, conhecida como “cachorro”, “gafanhoto”, “caixinha”, coleta da “xixica”, do “jabaculê”, da “lambidela”, da “bola”, do “faz-me-rir” ou, simplesmente, “mensalinho”, configura o crime de peculato, previsto no art. 312, do Código Penal. Sendo assim, Fabrício Queiroz parece ser o PC Farias de Bolsonaro. E os R$ 64.000,00 (40 + 24) de Michelle Bolsonaro, o Fiat Elba de Roseane Collor.

Some-se a isso a assessora fantasma de Jair (a Wal do Açaí), contratada para alimentar os cachorros do patrão em sua casa em Angra dos Reis; o recebimento de doação ilícita de R$ 200 mil da JBS, lavado no partido e devolvido ao parlamentar; o uso ilegal de disparos em massa de mensagens de WhatsApp, durante a campanha, pagos, ilicitamente, com recursos de caixa 2 eleitoral; o patrimônio da família, declarado em R$ 6 milhões, porém, avaliado em R$ 15 milhões e… Voilá: temos robustos indícios de corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio, elisão fiscal, sonegação de tributos e falsidade ideológica. Motivos mais do que suficientes para que o presidente eleito e, agora, já diplomado, sequer tome posse.

Por fim, na quinta-feira, 13/12, dia do aniversário de 50 anos do AI-5, o Presidente eleito teria dito: “Se tiver algo errado, que paguemos”. Então pode começar a se coçar – e a coçar os bolsos – Presidente! Afinal, por muito menos, Fernando Collor foi impechmado. Por menos ainda, Dilma Roussef foi impeachmada.

É isso ou ser governado pelo chefe dos Irmãos Metralha: um contumaz e recorrente ladrão de galinhas.