Milhões irão se candidatar à presidência ao lado de Lula no dia de hoje

Milhões irão se candidatar à presidência ao lado de Lula no dia de hoje

Juristas, artistas, escritores e lideranças de organizações levam ao STF sua indignação

Foto: Reprodução

Depois de 15 dias de greve de fome, Frei Sérgio entrou naquele suntuoso espaço acompanhado por um médico e recebendo auxílio para se deslocar. Ele, Adolfo Perez Esquivel (prêmio Nobel da Paz) e uma delegação composta por representação dos movimentos sociais, Igrejas, uma deputada do Podemos/Espanha, artistas e juristas fomos todos recebidos pela Presidente do STF, Carmen Lúcia. Para defender a liberdade do Presidente Lula.

Esquivel foi contundente e magnífico ao afirmar que Lula é um preso político, vítima de um golpe de estado que depôs a presidenta Dilma Rousseff, golpe que tem a complacência do Poder Judiciário. Destacou o que Lula representa para a América Latina e para o mundo. Ressaltou que democracia e direitos humanos são indivisíveis. Resgatou os golpes de estado com caráter jurídico e outras lideranças que foram seus alvos como Lugo, Rafael Corrêa e Manoel Zelaia. À ministra também lembrou “são 50 anos lutando pela liberdade do povo.”

A articulação dos juristas pela democracia, através da Carol, resgatou a situação de exceção que vivemos ao lembrar que no Brasil hoje quem é inocente tem que provar a sua inocência e não mais o contrário. Entregou um abaixo assinado com mais de 240 mil assinaturas de intelectuais e juristas do mundo pela liberdade do Lula. Também resgatou todo o diálogo que a articulação tem feito com o Papa Francisco.

Pelos movimentos sociais e Frente Brasil Popular eu relatei à ministra um diagnóstico do resultado do golpe de 2016: 28 milhões de pessoas desempregadas ou subempregadas sendo 3 milhões em Minas Gerais, 12 milhões de famílias que já não conseguem comprar um botijão de gás, a educação e saúde que tiveram os investimentos congelados e perdemos o recurso do pré-sal, as pessoas estão perdendo a condição de moradia. Morando na rua como em Belo Horizonte que já são mais de 6 mil pessoas nesta situação! Reafirmamos nosso compromisso de continuar a luta contra o golpe e pela liberdade do Lula. As eleições se ganham nas urnas, não retirando quem tem a preferência do povo de concorrer!

O ator Osmar Prado questionou à ministra quantos cadáveres ainda teremos como resultados do golpe que estamos vivendo. Lembrou Dona Marisa Letícia, lembrou o reitor Luiz Carlos Cancellier. Reforçou o pedido de todos nós “faça valer a presunção de inocência”! E terminou perguntando “quem tem medo de Luiz Inacio Lula da Silva?

Frei Sergio emocionou todos que tinham coração naquela sala. Da sua profissão de fé disse a ministra de onde vem, as casas que frequenta (do povo pobre e humilde) e diagnosticou: a vida do povo piorou, a estrutura do estado brasileiro está deixando nosso povo no abandono, nossa justiça está ficando desacreditada. Falou representando os outros 6 companheiros que também estão em greve de fome.

Esquivel nos disse que em setembro fará o pedido de indicação do Presidente Lula para Nobel da Paz por tudo o que fez de combate à fome em nosso país!

A greve de fome dos 7 companheiros continua! A Marcha Lula livre já chegou em Brasília!

Hoje será o maior registro de uma candidatura da história brasileira pois será feito por milhares de brasileiros e brasileiras em Brasília!

Beatriz Cerqueira – presidente licenciada da CUT-MG

Jean Wyllys: Não se faz fofoca com o assassinato de Marielle

Jean Wyllys: Não se faz fofoca com o assassinato de Marielle

Foto: Jéssica Moreira

Recebi hoje com muita surpresa a coluna publicada pelo jornal O Globo, com fofocas sobre um suposto desentendimento meu com o deputado estadual Marcelo Freixo por declarações dele à revista Veja, como parte de uma reportagem sobre o assassinato de Marielle Franco. Eu não sei se quem caiu mais baixo foi a política ou o jornalismo, mas não se faz fofoca com o assassinato de uma pessoa. Marielle era minha amiga, minha companheira, e a ausência dela é uma dor que não acaba nunca, um sorriso que falta, uma saudade difícil de explicar com palavras.

Eu sei que estamos em campanha, que há interesses políticos em jogo, linha editorial e tudo o mais, mas deveria existir um limite ético para certas coisas.

Eu não sou apenas um deputado, um político; sou antes de mais nada uma pessoa que tem sentimentos, afetos, dores. Não caiam tão baixo, não com ela!

Para que fique bem claro: eu nada disse, em lugar nenhum, sobre as declarações de Freixo à Veja. Não dialogo com meus companheiros de partido pelos jornais, mas pessoalmente. E, de fato, o que tem me incomodado muito, nos últimos meses, é a maneira com que as informações sobre o crime, que vitimou minha amiga, estão circulando.

Sou coordenador da Comissão Externa da Câmara dos Deputados (CEXVERIO) que acompanha as investigações dos assassinatos de Marielle e Anderson, criada por minha iniciativa e integrada por parlamentares de diferentes partidos da situação e da oposição. E, como coordenador da comissão, tenho questionado, inclusive publicamente, os vazamentos estranhos de informações desencontradas e inconsistentes, que chegam aos jornais antes que à família, à Comissão Externa e às demais autoridades.

Enquanto a Polícia Civil nada nos informa, “fontes” vazam dados sensíveis à imprensa, inclusive alguns que podem atrapalhar a própria investigação.

Se, por um lado, as autoridades policiais respondem oficialmente à comissão que não podem fornecer nenhuma informação, sob o risco de prejudicar a elucidação do caso, por outro lado, dados cruciais sobre supostas testemunhas e (poderosos) suspeitos-chave (vereadores, deputados, policiais, etc.) são publicadas por diversos veículos de comunicação, extraoficialmente.

Assim, a pergunta que fica é: esses vazamentos são parte da estratégia dos investigadores, balões de ensaio ou algo do gênero? Se sim, as autoridades da CEXVERIO deveriam ser avisadas, para que possamos agir com a cautela necessária. Se, pelo contrário, não fazem parte de uma estratégia dos investigadores, deveria se instaurar imediatamente uma sindicância ou procedimento investigatório similar para descobrir o que está acontecendo dentro da própria Polícia Civil.

Eu lamento muito que, num tema tão sensível, com uma família no meio que está sofrendo a dor inimaginável da perda de uma filha, as autoridades policiais e até ministros do governo – que dão entrevistas e contam o que souberam extraoficialmente – ajam com tanta irresponsabilidade, podendo inclusive prejudicar as possibilidades de saber a verdade sobre esse crime horrendo e punir os responsáveis, tanto os que mataram quanto os que mandaram matar.

Eu lamento também que o jornalismo vire fofoca e esteja mais preocupado em divulgar supostas brigas e desentendimentos partidários que em investigar e procurar informações relevantes que permitam que haja justiça. Lamento que a política caia tão baixo, que tudo seja tão sujo.

As relações promíscuas entre o MDB, seus governos, o crime organizado, as milícias e a corrupção policial já é um problema sério demais para que, acima de tudo, transformemos este caso tão grave em uma competência de fofocas. Se alguém quiser lucrar politicamente com esta tragédia, que reflita melhor. Não vale tudo na política, mesmo. A luta pelo poder faz parte do jogo democrático, mas deve ser feita de forma ética e responsável, e, sobretudo, com afeto, sensibilidade, amor.

Tenham, todos, mais respeito pela memória de Marielle!

Segurança pública e eleições

Segurança pública e eleições

Foto: Mídia NINJA

Este assunto sempre embala as campanhas políticas, em especial, no Rio de Janeiro. É tema certo em debates, sabatinas e programas eleitorais. Não sou especialista no tema, mas sou bem curiosa, há muitos anos. Portanto, o que escrevo aqui é fruto de minhas angústias como cidadã e eleitora no Rio de Janeiro, Estado que eu amo e aonde vivo por toda a minha vida.

Hoje (12 de agosto de 2018), tratando-se de assunto de meu maior interesse, dediquei-me a ler, atentamente, as respostas de todos os candidatos a governador do meu querido Rio de Janeiro, no jornal O Globo.

Deixo, então, algumas breves observações:

1 – Embora alguns tenham tangenciado o tema, nenhum deles tratou, em detalhe e com a relevância que deve ter, o imprescindível controle externo das polícias, que deve envolver, necessariamente, a participação efetiva da sociedade civil.

Sem isso, junto a outras providências, fica impossível pensar em tratar, de verdade, o drama da corrupção policial e outros desvios dos integrantes das polícias militar e civil, do sistema penitenciário e do corpo de bombeiros, enfim, do sistema de segurança como um todo;

2 – Também não li nenhum deles (nenhum!) tratar do tema da política de drogas. Sei que este é um tema delicado, que se procura evitar em campanhas eleitorais, em especial, ao Governo do Estado, cujo Governador não tem competência constitucional para propor, se assim entender necessário, mudança na legislação, que é federal. Mas não é preciso ser especialista para se perceber a interferência direta deste tema na segurança pública.

Ora, para ficar, apenas, num exemplo de como os Estados podem ajudar neste tema, deixo a questão das abordagens policiais, totalmente, diferenciadas quanto a brancos, negros, pobres e ricos, quando portam drogas ilícitas.
A superlotação carcerária no Brasil está em muito ligada às prisões por tráfico de drogas. Segundo recentes dados divulgados pelo CNJ – Conselho Nacional de Justiça, no início deste mês de agosto, 24% da enorme massa de presidiários brasileiros estão presos por tráfico de drogas.

Ademais, esse mesmo estudo revela que a população carcerária brasileira é composta por 95% de homens e 5% de mulheres. Quanto às mulheres, sabe-se que a quase totalidade delas está presa por envolvimento com o tráfico de drogas.

E como, então, os Estados devem ajudar neste estado de coisas?

Bom, não é de hoje que branco, na zona sul, portando droga, é enquadrado como usuário e liberado… Enquanto que um jovem negro, descendo a favela, é enquadrado como traficante de drogas e encarcerado, ainda que porte uma quantidade de entorpecente menor do que a do branco, neste caso hipotético(!).

Esta discriminação da abordagem e da condução de casos como esses é uma questão que o Governador pode resolver, investindo no treinamento de suas polícias, de forma a construir uma nova mentalidade para situações aparentemente simples, mas que têm como consequência o encarceramento em massa, que, já se viu, problema algum de violência resolveu.

O Brasil tem hoje a terceira maior população carcerária do planeta e nem, por isso, conseguimos resolver a questão da violência que a todos atormenta;

3 – Por fim, o confronto armado para combater o tráfico de drogas também não resolveu e tende a trazer ainda mais prejuízos ao Estado, notadamente, financeiros.

Em recente decisão do Tribunal de Justiça do RJ, considerando que a política de confrontos é inconstitucional, decidiu-se que a responsabilidade do Estado é objetiva, ou seja, o Estado tem que indenizar vítimas alvejadas por tiros, independentemente de onde tenha saído a bala, se da polícia ou de terceiros.

Estas foram as questões imediatas que me vieram ao ler as respostas dos postulantes ao Palácio Guanabara sobre segurança pública, preocupação recorrente de fluminenses e cariocas.

Segundo o já citado estudo do CNJ, o Rio de Janeiro possui mais de 77 mil presos e, ainda assim, todo o Estado sofre situações de violência, que tomam o noticiário todos os dias, gerando uma sensação de insegurança ainda maior.

Mesmo não sendo especialista no assunto, arrisco-me a dizer que não podemos alcançar resultados diferentes fazendo a mesma coisa. Sei que alguns dos nossos candidatos à Governador fazem uma análise crítica das angústias que trago aqui, mas estamos num momento bem delicado da vida nacional.

Neste contexto, é imprescindível deixar bem claro tudo o que se pretende fazer em relação aos temas considerados “delicados eleitoralmente”, pois, ainda que, infelizmente, haja uma horda querendo “tiro, porrada e bomba”, há, do mesmo modo, um contingente considerável de eleitores que já sabe o quão complexas são estas questões e não esperam milagres, mas uma posição firme diante do massacre e do derramamento de sangue em curso em nossa sociedade, com a justificativa do “combate às drogas”.

Pastor Ariovaldo: As relações de trabalho

Pastor Ariovaldo: As relações de trabalho

No segundo vídeo da série A Bíblia e os Direitos Humanos, Pastor Ariovaldo fala sobre como o trabalho deve proporcionar o ganho necessário para a sustentação da dignidade do trabalhador e da trabalhadora, e para o seu desenvolvimento econômico. A bíblia não concebe uma sociedade onde o trabalhador ou a trabalhadora não desfrutam do resultado do seu trabalho. Para além do salário, se tem direito de participar do resultado de todo o processo que tornou possível a produção do bem, ou seja, de tudo que tal movimento produziu. Assista!

SP Invisível: Maria aparecida de Jesus, mas pode me chamar de Doidinha

SP Invisível: Maria aparecida de Jesus, mas pode me chamar de Doidinha

Foto: SP invisível

“Quem tá na cadeia tá livre, tem visita e tudo. Aqui a gente tá preso, aqui é a verdadeira prisão. A gente tá preso em vaidade, em vício, orgulho. Temos que pensar em coisas boas: amor, carinho, alegria, felicidade. Meu nome é Maria Aparecida, mas pode me chamar de Doidinha.”

Meu sonho é que as pessoas sejam iguais a vocês: amem as pessoas, não o dinheiro. Se eu fosse rica e tivesse muito dinheiro, eu investiria muito em trabalhos como o de vocês, trabalhos que espalham sentimentos bons.

Eu gosto da vida! Eu amo a vida! O problema é que a gente tá preso, não só preso no vício da droga, tem o vício da rua também! Quem tá fora da rua também tem vícios, todo mundo tá preso.
Hoje sou feliz. Tenho pouco, mas sou feliz. Sou feliz até porque tenho pouco. Não sei se eu seria feliz com um carrão e uma mansão, acho que seria deprimida. A felicidade não tá nisso.” #SPInvisivel #ACidade QueNinguemVe

"Quem tá na cadeia tá livre, tem visita e tudo. Aqui a gente tá preso, aqui é a verdadeira prisão. A gente tá preso em vaidade, em vício, orgulho. Temos que pensar em coisas boas: amor, carinho, alegria, felicidade. Meu nome é Maria Aparecida, mas pode me chamar de Doidinha. Meu sonho é que as pessoas sejam iguais a vocês: amem as pessoas, não o dinheiro. Se eu fosse rica e tivesse muito dinheiro, eu investiria muito em trabalhos como o de vocês, trabalhos que espalham sentimentos bons. Eu gosto da vida! Eu amo a vida! O problema é que a gente tá preso, não só preso no vício da droga, tem o vício da rua também! Quem tá fora da rua também tem vícios, todo mundo tá preso. Hoje sou feliz. Tenho pouco, mas sou feliz. Sou feliz até porque tenho pouco. Não sei se eu seria feliz com um carrão e uma mansão, acho que seria deprimida. A felicidade não tá nisso." #SPInvisivel #ACidadeQueNinguemVe Podemos ajudar a Doidinha e mais pessoas ainda nesse inverno! Colabore com a campanha #SPSemFrio link na bio

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Nunca entendi direito o que o apóstolo Paulo quis dizer na Bíblia ao dizer que “as coisas loucas deste mundo são usadas para confundir as mais sábias”, até que numa andança pelo centro da cidade, eu conheci a Maria Aparecida de Jesus ou, como ela prefere ser chamada, a “Doidinha”. Durante nosso papo, esse versículo vinha direto na minha cabeça e vocês vão entender o porque disso.

Era um sábado cinza no Vale do Anhangabaú. Tudo estava meio deserto, uma cena não muito comum pensando que, de segunda a sexta, aquela região é tomada por uma correria maluca. No meio dessa calmaria, vimos uma mulher que estava conversando sozinha. Isso é muito comum na rua devido ao fato da solidão ser, às vezes, a única companhia dessas pessoas. São essas que sempre me chamam atenção. Dessa vez não foi diferente, fui abordá-la junto com as pessoas que estavam comigo. Além do Gabriel Catite, fotógrafo voluntário do SP Invisível, um grupo de faculdade nos acompanhava para um trabalho.

Assim que chegamos perto, como de costume, fui explicar o projeto para ela. Sempre faço isso e algumas vezes as pessoas não topam conversar, outras topam e é bem difícil do papo fluir, mas poucas invertem a situação e começam a puxar o assunto com a gente, normalmente é nós quem perguntamos, nós que puxamos o assunto. Com a Doidinha foi diferente, ela nem respondeu se topava participar ou não e já foi falando:

“As pessoas não gostam de mim porque não gostam de ouvir verdades. Eu sou muito verdadeira comigo mesma e com os outros”.

Hoje, quando ouço essa fala dela no áudio que gravamos, lembro da cena e penso em como a Doidinha é, eu acredito que tenha entendido melhor o que ela quis dizer: a “Doidinha” é de verdade, ela é a vida real, ela é um ser humano que está morando na rua, essa é a realidade que tanto incomoda a gente, por isso fechamos nossos olhos e escolhemos não ver as “doidinhas e doidinhos” que são colocados na nossa frente, eles nos mostram “a verdade da vida que é insuportável”, como diz o Kivitz, rapper, primo e irmão, em seus versos.

Acredito que foi essa verdade que nos conectou ali naquele momento, uma verdade que nos pegou desprevenido, uma verdade silenciosa, que ninguém vê ou ouve, mas ao mesmo tempo tão gritante e tão na nossa frente que assim que assim que alguém vê, é impossível não fazer alguma coisa. Ninguém que passa por ali durante a semana imagina a potência da história de uma Doidinha. Aí que está a loucura dos sábios, ou também, a sabedoria dos loucos.

Não coloquei na história que foi postada na página, mas ela também comentou sobre a sua trajetória de vida, não apenas suas reflexões. A Doidinha é mineira da cidade de Frei Jorge. Segundo ela, veio para São Paulo muito nova procurar a liberdade que a cidade oferecia. Logo depois, ela conheceu a pedra (crack) e aí ficou presa nesse vício. Ela fala de uma maneira muito poética e até melancólica. “Liberdade” e “prisão” foram exatamente os termos que ela utilizou ao se referir à cidade e à droga. Achei que eu tinha alterado alguma palavra devido à repetição (às vezes faço isso, mas sem alterar o sentido – ex: vim morar na rua/vim morar na calçada/caí nessa situação de rua), mas dessa vez não foi, na entrevista ela disse exatamente desse jeito.

Esse paralelo entre liberdade e prisão foi muito frequente na nossa conversa, até utilizei de uma fala dela que ela nos disse no final do papo para começar o seu texto:

“Quem tá na cadeia tá livre, tem visita e tudo. Aqui a gente tá preso, aqui é a verdadeira prisão. A gente tá preso em vaidade, em vício, orgulho”.

Depois, ela também estende isso não só para quem está na rua – “Quem tá fora da rua também tem vícios, todo mundo tá preso”. Se me pedissem pra desenhar essa reflexão que a Doidinha fez, penso na seguinte ilustração: uma pessoa andando em direção a algo que simbolize a liberdade (pra mim é um campo, algo como uma fazenda), mas com uma bola de ferro no pé. Em qualquer lugar que ela estiver, ela vai estar presa se não tirar essa bola do pé. Foi para isso que a Doidinha me abriu os olhos e tenta abrir os seus, para quais são as nossas prisões e onde a gente busca nossa liberdade.

Algumas pessoas eu reencontro, tenho a oportunidade de mostrar a repercussão da foto, bato outro papo, mas nunca mais vi a Doidinha em nenhum lugar. Não tive esse privilégio. Não sei também como ficou o trabalho de faculdade das meninas que acompanharam esse dia, mas elas deram a sorte grande de terem encontrado alguém como a Maria Aparecida neste dia, foi uma aula, bem melhor do que a entrevista que concedi ao grupo delas depois. Espero que elas tenham feito bom proveito dessa conversa com ela, até porque a minha entrevista é o de menos. Se o trabalho era sobre o SP Invisível, era sobre a Doidinha. Ela é o SP Invisível, ela é a verdade.

O que aprendi conversando com o invisível: Genival

O que aprendi conversando com o invisível: Genival

Foto: SP invisível

É com muita alegria que volto a escrever aqui na minha coluna e a contribuir com a Mídia Ninja. Fiquei um tempo parado na escrita, cuidando de questões pessoais, me cuidando, focando em outros projetos, mas o mais importante: sempre na rua, sempre com os invisíveis e com os excluídos e excluídas da cidade. Quer me encontrar? É ali que estou. Essas redes aqui acima são só um detalhe.

Bom, deixa eu primeiro me apresentar, antes de apresentar esse novo projeto. Eu sou o Vinícius Lima, mais conhecido como Vini Lima. Sou co-fundador, junto com o André Soler, do SP Invisível, um movimento de conscientização da sociedade através de histórias de pessoas em situação de rua ou de moradores de rua, como quiserem chamar (na dúvida, pergunte a um deles).

O projeto existe a 4 anos e já contamos mais de 500 histórias que nos ajudou a crescer de uma maneira muito gratificante, tornando-se o maior projeto atuante na causa, em se tratando de alcance nas redes. Hoje, além de contar histórias, também fazemos ações para conectar pessoas como eu e vocês (gosto de chamar de “pessoas em situação de casa”) com as pessoas que estão na rua, então já fizemos o Natal Invisível, o SP Sem Frio, o Carnaval Invisível e até a Páscoa Invisível.
Só que apesar de termos contado tantas histórias de quem está na rua, sempre senti falta de contar as minhas histórias, mostrar alguns bastidores dessas conversas, algumas impressões e pensamentos que eu tinha. Essas coisas são muito ricas, mas nunca soube o momento certo de mostra-las, nem como fazer isso.

Foi aí que tive a ideia de escrever um livro com essas histórias. Um livro que comente cada história que me marcou e mostre “O Que Aprendi Conversando Com o Invisível”. Achei isso uma ótima oportunidade de voltar a contribuir com a Ninja e quando falei com o pessoal, na hora toparam fazer um livro-coluna. Todos os textos que eu fizer para o livro, vou publicar primeiro aqui e no final vou compilar todos e mais alguns e lançar esse sonho. Com certeza, ele vai ser maior do que pensei, com o apoio dessa galera da Ninja!

Espero muito que vocês acompanhem e gostem! Vamos nos ver muito ainda nesse segundo semestre. Torço para que essas histórias te incomodem a ponto de não conseguir mais fechar os seus olhos para o invisível. Muito obrigado.

GENIVAL – 17/03/2014

“Eu sou o Genival. Tenho 50 anos. Nasci e cresci em São Paulo, não tenho mulher nem filhos. Sou o filho mais velho. Quando eu tinha 14 anos meu pai morreu e tive que trabalhar de pedreiro para bancar minha mãe e meus irmãos.
Quando tinha 20 anos recebi uma proposta de emprego no interior que prometia mudar minha vida! Pensei: “vou ganhar muita grana!”. Cheguei lá e não era nada daquilo, nada mesmo, porque a tal empresa nem existia.

Como estava lá, tentei tocar a vida por aqueles cantos, mas não consegui. Decidi voltar pra São Paulo e aqui estou. Procurei minha família e nunca mais achei. A rua virou minha casa e passei a ser invisível para os que são “visíveis”. Esse pessoal não me dá bom dia, você acha que vão me dar oportunidade?”

Eu sou o Genival, tenho 50 anos. Nasci e cresci em São Paulo, não tenho mulher nem filhos. Sou o filho mais velho….

Publicado por SP invisível em Segunda, 17 de março de 2014

 

Não me lembro bem da primeira vez que conversei com alguém que estava em situação de rua. Deve ter sido entre meus 12 e 14 anos em algum projeto social da escola ou da igreja que visitou a Missão Cena, uma ONG muito querida que tem um trabalho maravilhoso com essa população no centro da cidade de São Paulo, especificamente na região da Cracolândia.

Tanto o meu colégio, quanto a igreja que eu frequento sempre tiveram projetos lá que proporcionavam aos adolescentes essa experiência de servir pessoas excluídas desse nosso sistema.

Porém, embora eu tenha algumas lembranças sobre esse primeiro contato como o lugar, minha idade e o contexto, eu não me lembro muito bem da pessoa com quem eu conversei naquele dia. Não sei se era um homem ou se era uma mulher, se era jovem ou idoso, se ainda está na rua ou não, e vergonhosamente, nem me lembro do que essa pessoa me contou.

Pensando dessa maneira, pode até parecer que eu a ignorei ou que nem prestei atenção em nada do que ela disse, mas a verdade é que talvez, pra mim, aquela pessoa ainda era invisível, por isso sua história não fixou em mim.

Hoje, eu consigo ver que isso aconteceu porque eu estava condicionado a pensar que “nós” aqui da igreja, da escola, com estudo, os “desconstruídões”, os justiceiros, vamos ajudar “eles” que estão necessitados. Eu não tinha nenhuma noção do fato de quem estava naquele dia recebendo o serviço da Missão Cena era igualzinho a mim e a você, não era nem melhor, nem pior. Pelo contrário, tinha uma visão totalmente verticalizada desse dialogo com o outro. Isso o invisibilizava. Na minha frente, eu não via um ser humano, mas um coitado.

Embora, eu não aconselhe ninguém que interaja com alguém dessa maneira que fiz acima, tenho plena consciência de que isso não deslegitima o quão marcante foi essa experiência para mim naquela época, pois não posso exigir essa compreensão de alguém de 14, 15 anos. Talvez ali tenha sido plantada uma primeira semente pra eu me tornar o que tenho me tornado.

Contei essa história para mostrar que, mesmo na nossa frente, as pessoas podem ser invisíveis se não enxergamos a sua história e sua trajetória. O relato acima é um exemplo claro de como não ler esse livro, não leia achando que as pessoas acima são coitadas, mas também não leia acreditando que são os erros que cometeram, não as rotule de “noia”, “bandido” ou seja lá o que for… Leia através das lentes do amor, a lente que enxerga o invisível. Cada dia que passa, tenho ajustado essa lente nos meus óculos para ver a vida e as pessoas.

A primeira vez que usei essas lentes do SP Invisível foi em 2014, quando conheci o Genival. A sua foto na página tem uma qualidade bem pior do que as que tiramos hoje, mas é muito significativa e foi postada no dia 17 de março daquele ano. A imagem foi tirada na Praça Cornélia, na Vila Romana, um bairro de classe média na Zona Oeste de São Paulo. A tal praça onde encontrei o Genival fica ao lado da casa da minha avó. Hoje, a postagem tem 360 curtidas, o que nunca quis dizer nada, mas isso só fomos aprendendo com o tempo. Na época, achávamos esse número enorme e ficamos vislumbrados com isso.

No dia em que encontrei com o Genival, eu me lembro que não foi na Praça Cornélia que eu o vi exatamente, mas uns três quarteirões antes de chegar nela. Só que o nervosismo e a inexperiência me fizeram travar, e não consegui fazer nada, além de segui-lo. Não sabia como aborda-lo, não queria ultrapassa-lo e estava animado demais para deixar de lado essa missão.

Eu queria muito começar o SP Invisível. Estava nervoso porque não sabia o que falar, não sabia como falar e nem o que ele ia responder. Já a inexperiência, ela ficava evidente porque eu não sabia como explicar o projeto, uma vez que ele não existia, não sabia até que ponto eu era invasivo ou não e também não sabia tirar uma foto (não que hoje eu faça isso muito melhor, rs).

O que mais me chocou nessa conversa foi a história da proposta de emprego que era mentira numa empresa fantasma. Na minha ingenuidade, só tinha visto isso acontecer em filme ou na novela, nunca tinha visto na prática uma vítima tão cruel desse sistema, do capital. Hoje sei que toda pessoa em situação de rua, independente da história, independente se chegou na calçada por algum problema financeiro, familiar ou com drogas, é uma vítima da maneira que o capital atua. Além disso, com o tempo, fui vendo que são muito comuns esses golpes com as pessoas que estão na rua por ser uma mão de obra barata e que topa qualquer coisa para sair dessa situação.

Outra coisa que me chamou muita atenção, não na hora, mas hoje ao reler essa história é a quantidade de pessoas que tem a família desestabilizada quando perdem o pai. Sempre que ouço isso, eu fico extremamente grato, mas ao mesmo tempo eu vejo como sou parecido com essas pessoas que estão na rua porque eu perdi também o meu pai quando eu tinha 5 anos, mas graças a uma rede de apoio enorme que eu tive, não aconteceu nada comigo: não precisei trabalhar, muito menos fui morar na rua. Muitas vezes, antes de perder tudo, alguém que foi parar na rua, perdeu seus relacionamentos.

Por último, admito aqui que esse “visíveis” foi algo que acrescentei. Ouvi o áudio do nosso papo novamente enquanto escrevo isto e o que o Genival tinha dito quando perguntei se ele se acha invisível (pergunta muito comum nos bate-papos) foi, “a rua virou minha casa e eu sou invisível sim para essas pessoas”. Para não repetir várias vezes, “pessoas”, usei o “visíveis”. Algo que não muda o sentido, apenas a palavra. Peço licença aqui, a vocês visíveis para chamar vocês desse jeito. Muito obrigado!

Fazia tempo que eu não rolava o feed das postagens do SP Invisível até a primeira história que contamos. Porém, acredito que não exista uma maneira melhor de começar um projeto como esse em que pretendo mostrar alguns pensamentos, impressões, lembranças e bastidores sobre as histórias, do que o começo, do início desse movimento que busca abrir os olhos das pessoas e sensibilizar os corações para o invisível. Espero que gostem.

O tango que os Argentinos não gostaram

O tango que os Argentinos não gostaram

 

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A Argentina neste momento requer uma análise sobre os resultados dos planos de ajuste econômicos neoliberais do governo Maurício Macri iniciado em 2016. Em linhas gerais significaram concentração de renda e redução das condições de vida da massa trabalhadora. Historicamente o país desempenhava a liderança no Índice de Desenvolvimento Humano, auferido pela ONU, na América do Sul.

Invertendo as políticas empreendidas por Nestor e Cristina Kirchner, Macri alinhou sua gestão com a dolarização no âmbito cambial e busca do superavit no fiscal. Este paradigma resultou em recessão, diminuição dos salários e elevação da concentração de renda. O resultado foi um hiato entre a classe trabalhadora e os endinheirados.

A indexação com a moeda estadunidense subiu o patamar de preços dos produtos bem como das tarifas públicas e privadas; energia, transporte e comunicação passaram para o setor privado, e o aumento da rentabilidade exigida pelos conglomerados estrangeiros tensionou muito o orçamento das famílias. Desta forma, as receitas das companhias passaram a ser dolarizadas enquanto os salários em pesos perderam para uma inflação anual de 35%. As correções permitidas pelo governo para salários e aposentadorias tinha um teto de 15%,quando não zeravam com desemprego crescente.

Uma das maneiras de atrair o capital financeiro internacional foi aprovar leis de proteção e livre circulação. A rentabilidade era ainda impulsionada por fortes incentivos. O ambicioso programa não apenas desestatizou o país mas também desnacionalizou. Os grupos locais que levaram séculos para se formar ficaram sem capacidade de competição frente as multinacionais, entraram num processo de perdas desindustrializando o país. Muitos passaram a ser meros distribuidores de manufaturados chineses, estadunidenses e europeus.

Diante deste contexto de um setor produtivo sem condições de gerar divisas por falta de apoio e incentivos,o governo escolheu a recessão como forma de diminuir demandas que desequilibravam as contas externas.

Medidas de contração da atividade econômica via redução de crédito ou aumento de juros básico aos 42%, foram conjugadas por medidas fiscais de aumento de impostos, além da subida do dólar que comprimia ainda mais a renda. Esta situação mostrou um alto custo de produzir golpeando o consumo e emprego. O plano recessivo se realimenta para um piso mais baixo do precipício, entre abril e maio, na eminência de não honrar seus compromissos,o dólar disparou asfixiando ainda mais o governo, trazendo de volta depois de décadas o FMI.

Estes capítulos elevaram a concentração, a medida que os endinheirados que tem acesso ao dólar via exportações, obtiveram ganhos com especulação cambial e posteriormente com a alta do juros quando o governo passou utilizar como forma de conter a moeda estrangeira. Enquanto o capital crescia com o dólar a 30 pesos e juros a 45%, os salários e aposentadorias tinha reajuste abaixo da inflação. O país perdeu a independência produtiva, a população ,o emprego e o país, a soberania com uma co-gestão com o Fundo.

A sua cartilha passa determinar que os reajustes para 2019 que sejam de apenas 8% para mensalistas, com uma previsão ‘otimista ‘ inflacionária de 17%, significa que a desvalorização do total de salários deve vir de uma menor reajuste ou literalmente de demissões. O segundo elemento é a exigência de liquidar o ‘Fundo de Garantia de Sustentabilidade de Anses’ que na verdade é a principal fonte de recursos para cadeia produtiva, montante formado por anos de contribuição dos trabalhadores,empresas e pensionistas. Na prática é encerrar o crédito e apoio as empresas argentinas, que poderiam gerar produção e emprego ,portanto aportando mais valores ao fundo. Os recursos auferidos com encerramento, deveriam segundo o FMI, quitar credores e reduzir o déficit público.

A terceira questão refere-se a exigência do FMI em mudar a ‘ Carta Orgânica do Banco Central’. Esta medida visa impedir que o BC empreste valores ao executivo para pagar salários, hospitais ou programas de educação. Assim o banco máximo ficaria independente do governo e por conseguinte mais vulnerável ao sistema financeiro internacional e seus interesses.

Argentina refém deste modelo demonstra cada vez mais rejeição pela gestão Macri. Segundo a pesquisa mensal do Centro de Estudos de Opinião Pública (CEOP) de 5 agosto, 64,3% acham que o país está num rumo errado.Seguindo os dados, 77% condena a situação econômica do país,71% tem menos confiança no governo que há um ano atrás e 60,3% concluiu que o acordo com o FMI é prejudicial ao país. Arrependido do tango que ensaiou com Macri, 39,7% segundo Agência Digital de Notícias (ADN) daria a vitória a Cristina Kirchner em 2019, frente aos 30,3 do atual executivo, cadenciando os passos para o fim destes anos de terror.

Criminalização racista da maconha

Criminalização racista da maconha

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No 24º episódio do programa FUMAÇA DO BOM DIREITO, abordamos as raízes da criminalização da maconha no Brasil. O primeiro lugar do mundo que criminalizou a maconha foi o Rio de Janeiro. Em 4 de outubro de 1830, foi aprovada, pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro, a Lei de Posturas, cujo § 7º consistia na Lei do “Pito do Pango”. Seu texto demonstra bem o racismo, pois começa penalizando com 3 dias de cadeia os “escravos e outras pessoas” – e os escravos eram os negros – que fumassem maconha em pequenos cachimbos de bambu com uma pequena cuia de barro na ponta, o chamado “pito do pango”. Enquanto isso, o vendedor, em geral um boticário, recebia uma multa de 20$000. A primeira lei que criminaliza a maconha é tão racista que o comprador, que é o escravo negro, recebe uma pena mais severa que a do vendedor branco!

Mais emblemático ainda foi que, naquele mesmo ano, aprovou-se o primeiro código criminal do Brasil. Seu artigo 60 estampa como foi terrível a escravidão. Os negros escravizados, que já nasciam punidos, mesmo não sendo considerados juridicamente pessoas, podiam ser réus. Segundo a lei, por praticarem pequenos delitos, como furto de sapatos, conduta comum, pois escravos andavam quase sempre descalços, recebiam uma pena de, no máximo, 50 chicotadas por dia. Isso porque, antes da lei, eram de cem a quatrocentos açoites.

Como fumar maconha também era um pequeno delito, ao qual não caberia a pena de morte ou de galés, sobrava a pena de açoite. É bem possível que, por consumirem o Pito do Pango, sua pena fosse semelhante à sanção pelo furto de sapatos.

A prova maior da existência da Lei do Pito do Pango está no livro “MACONHA”, publicado em 1958 pelo Serviço Nacional de Vigilância Sanitário do Ministério da Saúde. Trata-se de uma coletânea de trabalhos brasileiros sobre maconha, dos quais o primeiro consiste num memorial escrito por Rodriguês Dória, médico e professor da Bahia, que havia também sido presidente de Sergipe. Dória apresentou seu trabalho ao Segundo Congresso Científico Pan-Americano, reunido em Washington D.C., em 27 de dezembro de 1915, e ao referir-se à Guerra do Ópio na China, afirmou que, quando a imposição da importação pelos ingleses se espraiou pelo mundo civilizado e foram abertas inúmeras casas de ópio na Inglaterra e na França, “o vencido se vingava do seu vencedor”. Dória comparou a maconha ao ópio, no sentido de que a erva seria uma vingança dos negros contra os brancos em razão da escravidão.

Conhecer nossa história é reconhecer que o racismo sempre foi e é uma política de Estado no Brasil. É entender que a atual política de segurança pública, que concentra a repressão na venda no varejo de maconha e drogas nas favelas, é uma política racista de Estado, já que a maconha e as drogas são vendidas e compradas em todo o Estado do Rio de Janeiro por todas as classes sociais. Milhares de vendedores de classe média e alta fazem o seu comércio varejista. O sistema penal policial sequer reprime a distribuição de toneladas de maconha e drogas que chegam nas favelas. Permitem que cheguem fuzis, pistolas e drogas, já embrulhadas em pequena mutucas, às mãos de jovens, negros e pobres, que frequentemente morrem antes de completar 24 anos de idade. É necessário e urgente abrir o debate sobre a legalização da venda da maconha nas favelas como medida de justiça, reparação social e de segurança pública!

Assista ao episódio completo

@Fumaça do Bom Direito!!🔥🔥Ep24!!A lei do pito do Pango e o codigo criminal do imperio de 1830.

Publicado por André Barros em Terça-feira, 7 de agosto de 2018

A não-moda brasileira

A não-moda brasileira

Weider Silveiro | Foto: Ricardo Toscani

Começo nossa conversa dessa vez perguntando: agora que o mundo inteiro é carregado em um aparelho móvel, e o tempo já quase passou, onde estão as distâncias? O que nos diferencia? Onde colocamos os nossos desejos?

O alemão karl Lagerfeld – designer superpoderoso da marca Chanel -, afirmou que “a moda é efêmera, perigosa e injusta”. Karl disse isso porque pertence ao velho mundo, aquele mundo que já não nos serve, não nos interessa mais.

O novo mundo já é, e apresenta o novo com formas reais de integração de diferentes fontes criativas, com o entendimento que moda é capaz de humanizar a relação entre roupa e consumidor. E não estou falando de moda romântica não. Nem de peças com formatos nunca vistos.

Falo de roupas que transmitem conceitos, geram sensações; moda reflexiva, moda consciente, moda politizada.

No Brasil, sempre fomos reféns de estereótipos europeus. Nossas roupas eram feitas por nós, mas não eram pensadas por nós. Definições ainda estão incorporadas ao nosso imaginário, mas já bem sabemos que moda não tem fronteiras, e temos aprendido a celebrar a liberdade criativa, e a perceber a moda como o diálogo permanente entre todas as culturas. Estamos atendendo aos nossos anseios, satisfazendo os nossos desejos, definindo os nossos formatos, e nossa imagem final está ficando cada vez mais bacana.

A geração contemporânea de designers de moda brasileiros deu um salto estético, e se apresenta com uma força nobre, cheia de valores fundamentais que já estão movendo a sociedade. Falo dos conceitos de colaboração, interação com o diverso, integração com a natureza, visual personalizado.

Através de suas criações, dão novos sentidos para materiais, reconceituam formas e proporções convencionais, resgatam suas histórias, comunicam suas memórias, reúnem diferentes saberes e fazeres tradicionais com novas linguagens, enfatizam seus costumes, fomentam nossa cultura popular, e fazem dinheiro a partir das próprias ideias. A isso tudo, dou o nome de “a não-moda brasileira”, porque posso, com muita certeza, afirmar que nos últimos tempos ganhamos um novo sopro de vida. Já anda pelas ruas uma moda que não é mais copiada, intimidada, dita sem identidade.

O jornalista e idealizador do evento Casa de Criadores, o maior evento de novos nomes da moda brasileira, André Hidalgo, concordou comigo e disse mais:

“Se hoje já podemos dizer que existe uma moda genuinamente brasileira, é muito graças a essa nova geração de estilistas e profissionais que fazem questão de construir ativamente essa identidade. Fico muito feliz em estarmos vivendo um momento tão bacana da moda brasileira, apesar de todas as adversidade”.

O 43º Casa de Criadores aconteceu esse mês em São Paulo, no MAC-USP, e mostrou lindamente que a evolução com prosperidade é um exercício além-estética, com muito de ética socioambiental, afeto com o próximo, e que as relações de negócios da moda têm cada vez mais alma.

Durante o evento, algumas marcas mostraram ter a genialidade de captar o essencial e torná-lo acessível, como a Brechó replay, que discutiu o bullying, a Heloisa Faria que tratou sobre sororidade [união e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo], e a marca Också que reforçou sua proposta pró-diversidade.

O estilista Weider Silveiro apresentou uma coleção-protesto, denunciando o tratamento dado, pelos familiares e governos, aos LGBTs em situação de rua, grupo crescente em São Paulo

“Não vendo isso como uma situação ideal, mas já que elas estão nesta situação, qual seria a roupa, que roupa seria essa? Então eu faço uma coleção absurdamente plural no sentido de todos os estilos. São vários tipos, como são as pessoas, mas tudo com um grande perfume de utilitário”, disse Weider.

Quando alguém se posiciona sobre o que não concorda, se posiciona em favor de si mesmo. E o ganho é geral. Sabendo disso, o estilista Fernando Cozendey fez um passeio íntimo sensacional e enfrentou suas emoções publicamente, contando sobre um abuso sexual sofrido quando criança.

Já Isaac Silva fez uma intervenção entre as forças do ser íntimo com o ser divino: “Minha coleção é sobre Xica Manicongo. Ela foi a primeira travesti não-índia do Brasil, escravizada de um sapateiro de Salvador em 1591, símbolo de luta e resistência de uma época em que negar o sexo era tido como heresia e digno de punição”, contou em entrevista coletiva o estilista.

Porque nossas convivências são ricas trocas de competências, a marca Angela Brito abordou em sua coleção Cabo Verde e suas memórias afetivas, cheias de histórias místicas e peculiaridades múltiplas, sobre essa que é sua terra natal.

Experimentar o experimental continua sendo a essência da moda, e a Ken-gá, marca de beachwear [ou bitchwear com se intitulam, porque o nome Ken-gá deriva de quenga] “gritou” na passarela empoderamento, fervo e divas inspiração, e se apresenta: “A Ken-gá é uma marca empoderadora que quer subverter rótulos e estigmas, uma marca em que todx podem ser maravilhosx”. Totalmente politizada, a Ken-gá imprime brincos com frases tipo ‘fora temer’, ‘preta’, ‘sai machista’.

Olhar pro mundo mas com o coração dentro de nós mesmos, – o que era incomum no métier nacional, – foi a sacada sensacional do estilista Rafael Caetano, que criou sua coleção com o olhar voltado pro bairro gay de Madri, mas mesclou suas inspirações com a cultura GLBT do bairro Frei Caneca de São Paulo.

Alex Kazuo merece ser citado, porque simplesmente apresentou uma coleção sem tema, provando que regras, mais do que nunca, não cabem no mundo da moda. Além disso, usou tecidos reciclados Ecosimple, tecidos de descarte e sobras de couro.

Transmitir a essência das tendências passadas sem caricaturá-la é um dos grandes desafios da moda atual, e a coleção de Rober Dogani trouxe os anos 80 pra 2018 com muitos acertos.

É isso. Que a nossa inspiração não conheça fronteiras, pois o nosso universo diverso é revolucionário. Nosso mundo da moda é o nosso lugar de fala. Vai Brasil.

 

Angela Brito | Foto: Marcelo Soubhia/FOTOSITE

Isaac Silva | Foto: Marcelo Soubhia/FOTOSITE

Rober Dognani | Foto: Marcelo Soubhia / FOTOSITE

Heloisa Faria | Foto: Marcelo Soubhia/FOTOSITE

Rober Dognani | Foto: Marcelo Soubhia/FOTOSITE

#DebateNaBand: Direita se digladia e esquerda pode se aproveitar do “dividir para conquistar”

#DebateNaBand: Direita se digladia e esquerda pode se aproveitar do “dividir para conquistar”

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Prenúncio da Nova Era, talvez uma sombra do que foi chamado de Nova Ordem Mundial, os candidatos podem não representar novidade na política, mas a forma de estruturação estratégica dos seus discursos colocam a televisão em segundo plano e isto sim é uma novidade. Para muitos candidatos a televisão está sendo utilizada como um gerador de memes, um instrumento para a repercussão massiva na internet no dia seguinte. Os candidatos almejam, assim, viralizar seu rosto e sua mensagem dentro e fora das bolhas pessoais de seguidores nas redes sociais. Falem bem, falem mal, mas falem de mim! Esse é o espírito de muitos candidatos que na era das “fake news” já não se importam com a coerência, verdade, nem sobriedade nos discursos. Só se importam em ser a última sensação nas correntes de WhatsApp.

A noite passada marcou, com nitidez, a confusão e a imprevisibilidade desta eleição, por apresentar cenários absolutamente diversos dos já vividos no País, como um candidato ex-presidente que, tido como mais expressivo nas pesquisas, está preso e impossibilitado de fazer sua campanha política. Ou um candidato de extrema-direita que dá voz a um público autoritário e racista, cujo discurso legitima e normaliza violências, um cenário de assustar os prognósticos mais pessimistas daqueles que acreditavam na evolução lenta e progressiva dos direitos fundamentais. Ou, se não bastasse, outro candidato, o único outsider, Cabo Daciolo (Patriotas), que busca rivalizar o posto de maior conspirador da história com Jair Bolsonaro (PSC) – que um dia também já foi levado na brincadeira e hoje se tornou ameaça real para a democracia, com riscos reais de eleger uma chapa militar para o Governo brasileiro.

Às dez horas, iniciavam-se os debates na Rede Bandeirantes. Os candidatos estavam à postos, com seus assessores monitorando os índices de trackeamento político e as redes sociais. A expectativa era de estreia de Copa do Mundo para os novatos. Enquanto alguns chegaram em carrões e comitivas, a grande entrada deste ano ficou com o candidato Guilherme Boulos que se apresentou no estúdio depois de ter caminhado à pé em ato político, sob palavras de ordem, junto com a expressiva militância do MTST.

Lula – Haddad – Manuela (PT)

Enquanto isso, em outro estúdio, montado pelo PT e transmitido ao vivo, apenas para internautas, Fernando Haddad (PT) e Manuela D’ávila (PCdoB) apresentavam as propostas do governo petista em nome de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A transmissão foi divulgada nas redes do partido, sem grande repercussão nem abrangência midiática, mantendo uma média rotativa de 5 mil espectadores durante toda transmissão. O ex-presidente foi impedido de participar do programa da Rede Bandeirantes em razão de determinação judicial do Tribunal Regional Federal da 4ª Região e a emissora anfitriã do debate não autorizou a participação de Fernando Haddad nem em caráter excepcionalíssimo.

Guilherme Boulos (Psol)

Voltando aos estúdios da Bandeirantes, dada a palavra ao candidato Guilherme Boulos (PSOL) este se apresentou com um “boa noite” à população brasileira e, em especial, um “boa noite” cumprimentando o ex-presidente Lula, em gesto de repúdio à decisão do TRF-4 de cercear a possibilidade do candidato petista apresentar na televisão suas propostas políticas. Pouco conhecido pelo público em geral, Boulos foi destaque até mesmo nas pesquisas do mercado financeiro, que foi apontado como surpreendente, na análise da Idea Big Data.

O candidato estava preparado e afiado nas respostas, com discurso alinhado para responder às questões levantadas pelos concorrentes e jornalistas. Ainda, como estratégia de campanha, percebia-se que seu discurso estava recheado de frases de efeito, possíveis de serem extraídas para a profícua produção brasileira de memes e pequenos vídeos para internet. O ápice da noite foi sua fala ao apontar a mesmice dos outros candidatos como se fossem “50 tons de Temer”, fazendo crítica aos apoiadores do golpe e da semelhança dos seus discursos. Único candidato homem sem terno, mesmo tendo andado alguns quilômetros com a militância, combateu com elegância e objetividade as questões apresentadas, destacando a taxação de grandes fortunas, e a diminuição das benesses dos bancos concedidas em detrimento à população de baixa renda.

Ciro Gomes (PDT)

Assim como o candidato psolista, Ciro Gomes (PDT) foi o presidenciável tido como o mais simpático em pesquisa direcionada ao mercado financeiro. Neste momento, após troca de farpas com o PT por disputas de coligações, o candidato seguiu com discurso mais ameno e tentando disputar votos de Marina Silva, e Geraldo Alckmin. O distanciamento de Ciro com a esquerda foi sinalizada com a escolha de uma chapa pura pedetista ao nomear como sua vice a criticada Kátia Abreu (amiga pessoal e ministra mão de ferro da ex-presidenta Dilma), conhecida como Rainha da Motosserra por sua aproximação com a bancada ruralista. Neste momento, o candidato tenta fortalecer sua base convencendo eleitores indecisos com pretensão ao voto de centro e centro-direita para quem sabe alcançar a faixa presidencial, ou ao menos ter moeda de troca com o PT no caso de negociação no segundo turno.

O seu ponto alto foi conseguir superar o estigma de destemperado e cativar sorrisos dos espectadores ao responder às alucinações de Cabo Daciolo quando o acusou de ser fundador do Foro de São Paulo e do Ursal (o qual não vale nem o espaço para discorrer a respeito, visto o tamanho da aberração argumentativa). De outra sorte, o candidato, de forma oportunista, para se aproximar da direita, saudou o juiz Sérgio Moro, dizendo que ele trouxe inúmeras contribuições ao País. Esta fala soou de forma negativa dentro do público progressista, pois o candidato pedetista ficou reconhecido por ser um dos grandes críticos ao juiz paranaense. Em postagens nas redes sociais, internautas pediram para Ciro se revelar e sair do armário, depois das suas últimas falas e decisões políticas.

Marina Silva (Rede)

Marina Silva, teve mais uma noite de pouco destaque, pois assim como nos outros anos tem tentado se apresentar como uma candidata com posições neutras. Já conhecida pelo público em geral, não gera expectativas sobre a sua atuação política, tendendo a disputar eleitores com uma posição ao centro ou críticos dos extremos. Sua imagem contida, de fala mansa e postura gandhiana busca a todo momento colocá-la em situação de centralidade. Como se fosse uma mediadora de conflitos, mostra-se pronta a solucionar de forma pacificadora qualquer guerra política que venha se envolver. O resultado disso é a manutenção da sua imagem de pessoa que não se posiciona e fica em cima do muro, gerando desconfiança tanto da direita quanto da esquerda. Durante o debate, ao ser perguntada se era a favor do aborto disse que levaria essa discussão para a população brasileira através de plebiscito, mas afirmou pessoalmente de forma tímida e medindo palavras que era preferível manter do jeito que está, ou seja, levando para cadeia qualquer mulher que venha resolver interromper uma gravidez. Estrategicamente, durante os debates, Marina buscou posicionar suas perguntas entre Ciro Gomes e Geraldo Alckimin.

Apesar da Rede ter se constituído objetivando ser uma plataforma da esquerda, Marina Silva, enquanto figura máxima distanciou o seu discurso ao apoiar o populismo da Lava-Jato, o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e Aécio Neves no segundo turno das últimas eleições presidenciais. Marina foi militante do PT por três décadas, hoje recebe apoio de empreendedores sociais a banqueiros, citando a nova economia como plataforma política de convencimento aos eleitores de classe média. Seu discurso varia do liberalismo econômico às defesas e garantias de uma social democracia.

Geraldo Alckmin (PSDB)

Querido naturalmente pelo mercado financeiro, o candidato tucano já não tem sua imagem intocável como nas últimas eleições. Seu público é massivamente concentrado na região sudeste, em especial no Estado de São Paulo, o qual comanda, mantém controles e aparelhamentos institucionais há décadas. Nos últimos dias, com rumores de que haveria uma investigação do Ministério Público contra o presidenciável em operação que investiga o caminho do dinheiro da concessionária de rodovias CCR (Companhia de Concessões Rodoviárias), a bolsa caiu e a tensão sob a sua imagem aumentou para este debate. O tema não veio à tona e Geraldo Alckmin fez aquilo que mais sabe fazer: manter a postura ereta e a fala calma, comedida, de forma a agradar a classe média paulistana com sua áurea de moço honesto e que sabe governar. Nestas eleições, o cenário para o tucano já não é tão confortável, visto a disputa de público direta com Jair Bolsonaro, Henrique Meirelles e Marina Silva, criando um espectro confuso para se posicionar – da extrema-direita à centro-direita. Durante o debate foi criticado pelo candidato Cabo Daciolo ao ser questionada a sua independência, visto o tamanho da sua coligação, com 9 partidos. O militar sugeriu que, caso Geraldo Alckmin ganhasse as eleições, teria que fazer do seu governo um balcão de negócios para agradar todos os seus aliados.

Jair Bolsonaro (PSL) e Cabo Daciolo (Patriotas)

Apesar de estarmos falando de figuras distintas, eles disputam o mesmo tipo de eleitores e com técnicas similares de atuação. Enquanto Jair Bolsonaro está há décadas na política, Cabo Daciolo se fez conhecido em 2012, quando atuava como bombeiro e foi expulso da corporação por comandar uma invasão ao Quartel-General. Em 2014, se filiou ao Psol e foi candidato a deputado dederal por influência da deputada Djanira Rocha, em um momento em que era importante aumentar os votos de legenda do partido. Com passagem perturbada pelo partido, por apresentar propostas completamente divergentes às ideias do Psol, o deputado foi expulso e encontrou guarida no Patriotas.

Na noite de ontem, roubou a cena de Bolsonaro e se apresentou ao público cristão e de extrema-direita como alternativa ao já não tão novidade Jair Bolsonaro. Por meio de ideias conspiratórias, ataques e acusações absurdas e sem fundamentações, Cabo Daciolo virou meme, se tornou o assunto principal nas redes sociais nesta sexta-feira. Coadjuvante, Jair Bolsonaro se colocou de forma tímida, deixando por uma noite a sua coroa de “mito”, mas fazendo um bom trabalho diante de uma expectativa dos seus próprios assessores no ano anterior de que se apresentar em um debate presidencial poderia ser negativo à sua campanha. Não foi, foi medíocre, mas certamente agradou o seu público (Vide comentários abaixo).

Alvaro Dias (Podemos)

O senador paranaense iniciou a sua noite estourando o tempo dos cronômetros, com frases lentas e aparentemente desnorteado no debate. Apesar de mais devagar que o normal, sua estratégia ainda se traduz na mesma linha que levou o PT ao impeachment e ao sucesso da Lava-Jato. Ancorado na proposta de trazer o juiz Sérgio Moro como Ministro da Justiça, Alvaro Dias quer se colocar como o paladino da Justiça e visa criar uma Lava-Jato nacional. O candidato não explicou como isso poderia ser feito e se seria possível, visto que a atuação enquanto presidente é limitada ao Poder Executivo e não se mistura com as atribuições de diversas outras instituições e poderes. Oportunista de plantão, Dias não mexe em time que está ganhando e mantém o mesmo discurso desde 2016, de maneira que o discurso se torna absolutamente frágil. Apesar de Lula não poder participar dos debates, o paranaense se projeta como inimigo do PT, representante da “República de Curitiba” e sonha em se digladiar neste discurso já ultrapassado com o ex-presidente.

Henrique Meirelles (MDB)

Henrique Meirelles, representante do governo ilegítimo de Michel Temer ganhou espaço político em razão da grande rejeição política do golpista e atuação próxima com o mercado financeiro. Insignificante nas pesquisas, sem carisma, Meirelles levou ao sono os espectadores que esperavam qualquer outro candidato falar que não ele. Enquanto alguns se utilizavam da exposição caricatural como Cabo Daciolo, outros fizeram o que sempre souberam fazer, como Marina Silva e Geraldo Alckmin. O ex-ministro de Temer e de Lula não se apresentou altivamente no debate e, ao que tudo indica, não oferece risco nenhum de concorrer em um segundo turno. A sua presença só é benéfica para a esquerda, afinal enquanto a direita mostra seus cinquenta tons de cinza, a tática do dividir para conquistar é a arma política mais importante para superar um golpe que insiste em continuar.

Para fechar a noite, a frase que ecoou os ouvidos dos espectadores neste teatro democrático foi a de Ciro Gomes, que, ao criticar elegantemente as bizarras atuações políticas de alguns candidatos, disse: “A democracia é uma delícia, mas tem um custo”.

Enquanto a democracia não chega, pelo menos os custos a gente já tá conhecendo.

É hora do PT mostrar que aprendeu

É hora do PT mostrar que aprendeu

Foto: Arthur Marrocos

Depois da vitória emocionante no encontro eleitoral que definiu Marília Arraes como candidata ao governo de Pernambuco, segue o principal momento de enfrentamento, junto à direção nacional do PT.

Um dia antes, a executiva nacional resolveu rifar a candidatura de Marília em troca de um acordo de neutralidade com o PSB. O recurso foi interposto e será julgado pela direção nacional hoje. A celeuma reacendeu o debate sobre o pragmatismo da política.

Quem defende a aliança do PT com o PSB, o faz em nome de deliberações de ordem pragmática, a real politica que criou as condições para que fosse dado um golpe em Dilma e no país e colocado Lula na cadeia.

Como bem apontou Marcelo Neves, o que aconteceu no Brasil nunca foi governo de coalizão. Foi um governo de extorsão.

Os “aliados” escarneciam do PT, impunham condições absurdas o tempo todo, sob pena de inviabilizar o governo de Lula, travando a pauta do congresso, criando caos, ameaçando e determinando em boa medida o campo em que Lula podia ou não caminhar.

O golpe foi o preço alto que pagamos por alimentarmos o inimigo de que ficamos reféns.

Ao mesmo tempo, o golpe foi a comprovação cabal de que esse método aliancista tem limites claros e que conhecer e respeitar esses limites é questão de sobrevivência.

E se os olhos de todo o Brasil estão nesse momento voltados para Pernambuco, é porque o que está ocorrendo aqui é determinante para os próximos passos do PT nessa fase de reconstrução do partido.

Ouvi jornalistas de São Paulo alinhados com a orientação da executiva nacional afirmando que um interesse regional não poderia se sobrepor aos interesses nacionais do PT.

Para quem é acostumado a tratar o nordeste como inferiorizado, pode ficar surpreso com o que vou dizer, mas nesse momento, Pernambuco é o Brasil.

O que se decidir acerca de Pernambuco será decisivo para a orientação partidária em todo Brasil.

Será respondida a pergunta: o PT não aprendeu com seus erros?

A resposta da militância já foi dada.

Nós aprendemos.

Aprendemos a não baixar a cabeça para decisões da cúpula quando essas se mostram desconectadas da base e dos movimentos sociais e prejudiciais ao povo.

Real politik não é stupid politik. Pragmatismo é compreensível. Burrice, não.

Ou, como nossas avós ensinaram, quem muito se abaixa mostra as calcinhas.

A quem acha que a decisão da executiva nacional é uma questão de tática e cálculo, vou resumir: essa matemática está errada.

Calculam que o acordo com o PSB neutralizaria Ciro e ainda serviria para fazer uma bancada de deputados federais pernambucanos.

Entretanto, o PDT já anunciou que pretende lançar Túlio Gadêlha, o “namorado de Fátima Bernardes”, ao governo do estado, caso a candidatura de Marília não se consolide.

Pernambuco não tem tradição de votar em celebridades.

Mas o PDT enxergou o óbvio: se houver vácuo deixado por Marília, há uma estrada aberta para um eleitor furioso, que se sente traído e órfão e que não quer votar no golpista Paulo Câmara ou em Armando Monteiro.

Gostem ou não, Ciro Gomes vai ganhar um palanque de peso em Pernambuco, que é, até agora, o estado brasileiro em que a intenção de voto em Lula é maior.

Humberto Costa subirá no palanque com a mesma canalhada que que votou a favor do golpe e ainda dará as mãos a Jarbas Vasconcelos, anti-petista assumido e também candidato à vaga no Senado pela mesma chapa.

Aliás, os golpistas continuam dizendo que são anti-petistas e que não votam em Lula de jeito nenhum.

Conseguem imaginar um palanque esquizofrênico como esse? As vaias que Humberto levou ontem no encontro eleitoral vão se repetir todas as vezes ele subir num palanque.

Pior: se Gleisi Hoffmann vier a substituir Lula no pleito, ela também perderá o palanque em Pernambuco.

Esse acordo é burro porque troca o estado com maior intenção de votos em Lula e com maior possibilidade de transferência de votos em um estado hostil aos candidatos petistas.

Inclusive para nós que pleiteamos uma vaga a deputados e deputadas federais. Fizemos e refizemos esse cálculo várias vezes. A aliança com o PSB aniquila as chances de cumprirmos a tarefa de reforçar nossa bancada na Câmara Federal. Essa tarefa somente conseguiremos cumprir ao lado de Marília, que vai somar os anseios das urnas em Pernambuco: Lula + renovação da política e do partido.

Se a candidatura de Marília for rifada, mesmo que a própria Marília entre para acalmar os ânimos, a revolta da militância e do eleitorado pernambucano não será aplacada.

Porque ao fim e ao cabo essa disputa não é por Marília. É pelo PT. Pelo partido que queremos construir. Mas antes de tudo, é para demarcar nossa posição, de militantes, dentro do partido.

A cúpula pode não ter aprendido, mas nós aprendemos.

Boaventura de Sousa Santos: As esquerdas no novo ciclo político

Boaventura de Sousa Santos: As esquerdas no novo ciclo político

É fundamental que se torne claro para a opinião pública portuguesa que o êxito das políticas dos últimos anos se deve por igual aos três partidos da coligação.

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Na aparência, a articulação entre as forças de esquerda no Governo actual continua estável e os resultados das políticas continuam a ser encorajadores. Por exemplo, a taxa de desemprego é hoje de 6,9%, a mais baixa dos últimos 16 anos, e com tendência a descer segundo as estimativas da OCDE. A inovação política portuguesa, inicialmente vista com grande suspeita pela comentocracia nacional e internacional, é hoje analisada com simpatia, senão mesmo celebrada. Bom exemplo disso é a reportagem do New York Times do passado 23 de Julho, intitulada “Portugal Dared to Cast Aside Austerity. It’s having a Major Revival”. Curiosamente, a análise não se restringe aos dados económicos. Fala numa viragem positiva na “psique colectiva dos portugueses” em contraste com o que se passa, por exemplo, na Grécia. O êxito desta política não podia deixar de mostrar as suas limitações decorrentes, em grande medida, das restrições no investimento público impostas por Bruxelas, com impacto social particularmente significativo nas áreas da saúde e da educação mas também nas infraestruturas, no sistema judicial e prisional, na cultura, etc. Como seria de esperar, nos últimos meses aumentou a contestação social por parte dos sindicatos, sobretudo dos sindicatos de professores. Por sua vez, a viragem política de 2016 devolveu aos portugueses a esperança realista de dias melhores. À medida que o tempo passa querem ver as melhorias passar do discurso para a realidade. Isto é sobretudo visível na área da saúde.

Nos últimos meses, o principal ponto de fricção entre o PS e os seus aliados foi a reforma da legislação laboral. O projecto de lei apresentado pelo Governo ao Parlamento afasta-se do que fora acordado nas negociações com o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista e foi aprovado na generalidade com os votos do partido de direita, Partido Social Democrata, que esteve no poder entre 2011 e 2015. Este facto veio mostrar que o PS pode estar tentado a recorrer ao partido de direita para ultrapassar os bloqueios que lhe possam ser criados pelos parceiros de coligação enquanto estes se mantiverem nela por entenderem que, apesar de tudo, o essencial dos objectivos da coligação estão a ser mantidos.

Neste momento, há a considerar vários factos novos que, longe de prefigurarem o fim próximo da coligação, podem ser próprios da crise de crescimento desta. O primeiro facto foi a eleição, em Fevereiro de 2018, do novo presidente do PSD, Rui Rio, um político respeitado que foi a oposição interna mais visível à vertigem neoliberal que assolou o partido sob o comando de Pedro Passos Coelho. Com Rio, o partido mostrou vontade de voltar à sua origem de direita moderada ou centro-direita, sempre disponível para acordos de governação com o igualmente moderado centro-esquerda, o Partido Socialista. Estes acordos foram responsáveis por vários períodos de governação do “bloco central” nos últimos 40 anos. A eleição de Rio ampliou as opções do PS. Enquanto que com a liderança e a orientação anteriores do PSD seriam improváveis quaisquer convergências com esse partido, agora tais coligações são possíveis (como, aliás, sucedeu no passado). O segundo facto é que, com este novo campo de manobra para o PS, não surpreende que dentro do PS tenham vindo a surgir vozes influentes no sentido de o PS voltar à sua tradição de se coligar com a direita e não com a esquerda. Estas vozes contam com o apoio dos interesses neoliberais internacionais (incluindo a UE), temerosos que a articulação das esquerdas se reproduza noutros países, eventualmente com agendas mais amplas que a portuguesa. Uma variante desta posição é a daqueles que prevêem que o êxito das políticas do Governo pode levar o PS a conquistar maioria absoluta nas próximas eleições no final de 2019, caso em que o partido poderia prescindir de coligações tanto à esquerda como à direita.

De todo o modo, estes factos colocam as forças de esquerda sob novas pressões. Se romperem o acordo em face de recorrentes violações do acordado por parte do PS, temem ser responsabilizados pelos eleitores por terem posto fim a uma solução política que tinha devolvido alguma esperança e maior bem-estar à maioria empobrecida dos portugueses. Se, pelo contrário, mantiverem a coligação, podem ser responsabilizados pelos seus militantes e simpatizantes por terem pactuado com a entrada da austeridade pela janela depois de esta ter sido expulsa pela porta. As alianças pragmáticas terão redundado em perda de identidade.

Os partidos de esquerda têm revelado uma enorme maturidade neste contexto político. O debate interno no Bloco de Esquerda é mais conhecido e por isso lhe dedico particular atenção. As correntes maioritárias do BE fazem um balanço globalmente positivo da articulação política com os outros partidos da coligação e reivindicam para si (para a sua iniciativa política) muitas das medidas que vieram melhorar a vida dos portugueses. E fazem-no com razão. Salientam em especial que na esmagadora maioria das questões houve uma grande consonância com o PCP. São especialmente críticos da posição do PS nos domínios da legislação laboral, com cedências quase totais às exigências das confederações patronais (que ecoam as pressões europeias), e no domínio da saúde, com a manutenção das parcerias público-privadas que alimentam o sector privado da saúde e impedem o Serviço Nacional de Saúde de voltar aos níveis que no passado fizeram de Portugal um caso de sucesso internacional no domínio da promoção da saúde como bem público.

Acima de tudo, as correntes maioritárias do BE entendem que o saldo positivo da experiência dos dois últimos anos e as expectativas positivas que criaram na maioria dos portugueses criaram uma responsabilidade nova ao conjunto dos partidos de esquerda no sentido de não frustrar essas expectativas. Entendem, no entanto, que para que tal seja possível é necessário que a articulação entre forças de esquerda se aprofunde e supere pelo menos algumas das limitações que teve na sua primeira fase. Tais limitações eram compreensíveis no contexto difícil de 2015 mas não o são hoje, ou, pelo menos, devem passar a ser objecto de debate que pode implicar a reformulação e ampliação dos acordos. O êxito da inovação portuguesa é o outro lado dos seus objectivos extremamente modestos, que nem sequer conseguem devolver aos portugueses o bem-estar relativo que tinham antes da crise. Para o BE, tais limitações decorrem em última instância dos tratados que governam a política europeia (sobretudo o Tratado Orçamental), tratados que impedem o investimento público, o reforço do Estado social e o controlo público de sectores estratégicos. E decorrem também da enorme dívida pública que é insustentável e devia ser reestruturada. Para o BE, o êxito internacional da política portuguesa dos dois últimos anos (nem sempre elogiada pelas boas razões) confere alguma autoridade a Portugal para pressionar as instituições europeias, nomeadamente por via de alianças com outros países que têm interesses convergentes com os de Portugal.

Como se pode imaginar, esta posição choca frontalmente com a do Governo do PS, cujo ministro das Finanças, Mário Centeno, foi eleito para presidir ao Eurogrupo e assim selar o alinhamento total de Portugal com o Tratado Orçamental. No meu entender, salvo a ocorrência de maior turbulência financeira internacional (sempre possível devido à impenitente opacidade dos mercados financeiros), os próximos tempos vão trazer grandes desafios à articulação das esquerdas e nada indica que esses desafios não possam ser enfrentados com êxito. Na minha opinião, tal depende dos seguintes factores. É fundamental que se torne claro para a opinião pública portuguesa que o êxito das políticas dos últimos anos se deve por igual aos três partidos da coligação. Só isso permitirá que todos eles cresçam eleitoralmente e todos à custa do eleitorado tradicionalmente indeciso ou de direita. A luta mediática vai ser neste domínio muito forte e a esquerda não tem à partida muitos trunfos dado o predomínio dos comentaristas de direita na comunicação social. Para compensar isso é necessário que os portugueses se mobilizem socialmente para que as melhorias dos últimos anos se consolidem e aprofundem. A mobilização social é, pois, decisiva. Penso, além disso, que as forças de esquerda, sobretudo o BE e o PCP, devem estar particularmente conscientes dos riscos que correm a democracia e o bem-estar das classes trabalhadoras e médias numa Europa xenófoba crescentemente dominada por forças de extrema-direita. Uma análise profunda deste contexto deve ser um incentivo para ousar ter mais imaginação política. Deve ser contemplada a possibilidade de uma coligação entre o BE e o PCP de modo a poder beneficiar da lógica do método de Hondt no sistema eleitoral português (que beneficia os partidos maiores e as coligações em detrimento dos partidos pequenos). Isto permitiria fazer crescer a pressão de esquerda sobre o PS, sem a qual os automatismos antigos e os interesses de sempre inclinarão o partido para a direita, uma direita mais do que nunca disponível para construir a aliança alternativa. Todos sabemos das divergências ideológicas entre o BE e o PCP e das razões que a tal conduziram. Mas também sabemos que nos últimos anos convergiram quase sempre nas políticas principais da governação de esquerda. Muitos acharão esta ideia utópica, mas, como dizia Sartre, antes de se realizarem todas as ideias são utópicas.

Jean Wyllys: 6 perguntas para Jair Bolsonaro

Jean Wyllys: 6 perguntas para Jair Bolsonaro

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Em diversas entrevistas, o deputado Jair Bolsonaro foi questionado pela imprensa sobre tudo o que o país inteiro já sabe sobre ele. Sim, todos nós sabemos que Bolsonaro é homofóbico, machista, racista, que defende a tortura e a pena de morte, que reivindica a ditadura militar, que despreza a democracia. Tudo isso é muito grave, mas não é novidade.

De fato, o candidato fascista usa esse discurso caricato para gerar polêmicas, conseguir que as pessoas falem sobre ele e evitar qualquer chance de ter que expor sua absoluta incompetência e falta de ideias e propostas concretas para a economia, o emprego, a educação, a saúde, o meio ambiente, as relações internacionais, etc.

Por isso, eu estou torcendo para que, nas próximas entrevistas, os jornalistas comecem a questioná-lo sobre esses temas. E acho que chegou a hora, também, de questioná-lo sobre distintos pontos muito obscuros de sua atuação pública que colocam em xeque sua imagem auto construída de político “honesto”.

Os jornalistas poderiam lhe perguntar, por exemplo, o seguinte:

1) Em 2008, a empresa Comunicativa-2003 Eventos, Promoções e Participações comprou uma casa na Barra da Tijuca no valor de R$ 580.000,00. A empresa reformou o imóvel e, apenas quatro meses depois, vendeu a casa para o senhor, pelo inexplicável valor de R$ 400.000,00, um deságio de 180 mil. À época, após a reforma, a prefeitura do Rio avaliava esta casa em R$ 1,06 milhão de reais.

Segundo o COFECI, as “transações imobiliárias com aparente aumento ou diminuição injustificada do valor do imóvel” e “cujo valor em contrato se mostre divergente da base de cálculo do ITBI” tem “sérios indícios da ocorrência dos crimes previstos na Lei nº 9.613, de 1998 [lei de lavagem de dinheiro]”.

Embora esse assunto tenha ido à PGR, não chegou a ser investigado.

Como o senhor, que se gaba de supostamente ser honesto, explica essa transação que, segundo as normas do COFECI, tem sérios indícios de lavagem de dinheiro?

2) Em entrevista à rádio Jovem Pan, o senhor confessou que sempre teve ciência de que o seu então partido, o PP, havia recebido propina de outro partido para que fizesse uma coligação eleitoral. Em outra entrevista à mesma emissora, o senhor também confessou que sabia que, em 1997, o governo FHC estava comprando votos para a emenda da reeleição, tendo ciência inclusive de quem seria o operador do esquema e das quantias oferecidas a cada parlamentar. Mas, mesmo sabendo de todos esses atos de corrupção, o senhor não fez nada durante vários anos – pelo contrário, foi beneficiário da propina supostamente recebida pelo PP, uma vez que este partido financiou a campanha do senhor.

O art. 319 do Código Penal define esse tipo de conduta como crime de prevaricação, punido inclusive com cadeia.

O senhor reconheceu sem querer ou ainda não admite ter cometifo um crime?

3) Recentemente, foi noticiado que o senhor, mesmo sendo dono de um imóvel em Brasília desde 1998, recebeu auxílio moradia por anos a fio. Em diversas declarações à imprensa, o senhor confessou usar esse auxílio para outras finalidades.

Contudo, conforme normas da Câmara dos Deputados, o auxílio-moradia é verba de natureza vinculada, ou seja, não pode ser usada para outra coisa senão o pagamento de aluguel ou estadia em hotéis, sob pena de se caracterizar enriquecimento ilícito e improbidade administrativa.

Tendo em vista que o senhor diz combater a corrupção, pretende devolver os quase 700 mil reais que recebeu indevidamente ou vai fingir que nada aconteceu?

4) Frequentemente, inclusive em um processo judicial, o senhor tem citado como fiadores de sua moral ninguém mais, ninguém menos que Fernandinho Beira-Mar e Alberto Youssef. Um, condenado por homicídios e tráfico internacional de drogas; o outro, condenado por corrupção, associação criminosa e lavagem de dinheiro. Não é estranho que essas sejam as principais testemunhas de sua honra?

5) Verificando documentos oficiais da Câmara, é possível constatar que, além de ter três filhos ocupando cargos eletivos, o senhor já empregou, em outros cargos públicos onde tinha ingerência, diversos parentes próximos: duas esposas, filho, sogro, cunhada… Aliás, mesmo depois do STF decidir que a prática de nepotismo era violadora da Constituição, o senhor manteve sua atual esposa no cargo por algum tempo. O senhor não acha que despreza demais a moralidade pública em benefício próprio ou de membros da sua família?

6) Recentemente, o senhor afirmou que pratica garimpo de ouro manual com bateia. Contudo, seu nome não está registrado no órgão responsável por autorizar esse tipo de exploração (DNPM – Departamento Nacional de Produção Mineral). Em tese, mais uma vez, o senhor teria cometido crimes de usurpação e contra o meio-ambiente. O senhor confessa um crime dessa natureza porque confia na impunidade?

Lula será candidato?

Lula será candidato?

Fumaça do Bom Direito! Ep23�� Lula poderá ser candidato a presidente do Brasil?

Fumaça do Bom Direito! Ep23🔥🔥Lula poderá ser candidato a presidente do Brasil?clique aqui para assisitir: http://bit.ly/bp-andre-barros

Publicado por André Barros em Terça-feira, 31 de julho de 2018

 

No 23º episódio do programa FUMAÇA DO BOM DIREITO, falei que, se seguirmos o que vem sido noticiado, parece ser fato consumado que Lula não será candidato. Ouvimos também muito pelas ruas a frase: “eles não vão deixar”.

Ora, temos uma Constituição Federal e duas leis complementares sobre a matéria. É importante destacar uma das principais garantias individuais em nossa democracia, prevista no artigo 15 da Constituição Federal: “Art. 15. É vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão só se dará nos casos de:……III – condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos;” A garantia individual do pleno exercício dos direitos políticos veio após a ditadura militar, que cassou o direito político de todo brasileiro votar para presidente do Brasil durante 25 anos. De 1964 até 1989, era uma junta militar composta por um general, um brigadeiro e um almirante que escolhia o presidente do Brasil.

O país chegou a ser governado por uma junta completa pelas três armas, apelidada por Ulysses Guimarães de “os três patetas”. Assim, a vedação da cassação de direitos políticos, exceto em caso de condenação criminal transitada em julgada, veio de um grande movimento político que derrubou a ditadura e culminou na Constituição Federal em vigor. Lula não está nessa condição, pois contra ele pesa uma única condenação, que não transitou em julgado. Mesmo tendo sido o próprio Lula a ter sancionado a lei complementar nº 135, a da “ficha limpa”, que emendou a lei complementar nº 64, a mesma é claramente inconstitucional, pois nega, no artigo 15, o registro de uma candidatura declarada inelegível por um órgão colegiado, mesmo que não tenha transitado em julgado.

Diz ainda a lei complementar, em seu artigo 26-C, que a inelegibilidade pode ser suspensa, sempre que o recurso for plausível, por exemplo, quando há FUMAÇA DO BOM DIREITO. Ainda acerca do registro, o mesmo está assegurado pelo direito de petição, previsto na alínea “a” do inciso XXXIV do artigo 5º da Constituição Federal.

O requerimento de registro da candidatura de Lula, como de qualquer candidatura, não pode ser negado e, até para ser negado, precisa cumprir toda a tramitação prevista na lei, com seus respectivos prazos e o exercício do contraditório, da ampla defesa e do devido processo legal, com seus respectivos recursos.

Bruno Ramos: A quem serve Bolsonaro?

Bruno Ramos: A quem serve Bolsonaro?

Tem parlamentar há mais de 20 anos no poder e que não tem sequer um projeto de lei que traga benefício para a população. O que essa galera quer pro futuro do país?

Do funk pro mundo, assista agora a nova coluna de Bruno Ramos, candidato à deputado federal, na Mídia NINJA.

Assista e inscreva-se no canal da Mídia NINJA!

Pastor Ariovaldo: Trabalho como direito e espaço de realização

Pastor Ariovaldo: Trabalho como direito e espaço de realização

No primeiro vídeo da série A Bíblia e os Direitos Humanos, Pastor Ariovaldo conta que na fala de Jesus, o ser humano não pode ficar à deriva de sua fragilidade, entre as medidas necessárias para a libertação está o acesso ao trabalho e ao salário digno. Deus trabalha, logo, o trabalho é o que existe de mais digno. Deus descansa, logo, o mérito do trabalhador ou da trabalhadora é indiscutível. Assista!

Resistência caipira, cultura e identidade em transformação

Resistência caipira, cultura e identidade em transformação

Foto: Mariana Kimura / Caipira Lab

Por Mariana Kimura / Caipira Lab

Não é de hoje que dizem que a identidade caipira e sua cultura não existem mais e há alguns fatores que podem contribuir para esse ponto de vista, elencados por quem defende essa ideia: a industrialização, a globalização, a massificação da cultura, a revolução verde. De fato, esses fatores marcam a trajetória da cultura caipira, porém como pressões que essa cultura sofreu e foi resiliente. Assim, olhar a identidade e cultura caipira como extintas é invisibilizar todas suas formas de resistência.

Antônio Cândido, no livro “Parceiros do Rio Bonito”, já apontou para a transformação do modo de vida caipira. Acentuo que transformação não é prenúncio de extinção, pelo contrário, foi e é processo obrigatório e necessário para sobreviver. O caipira, antes característico do campo, sofreu ciclos de êxodo rural provocados, em um primeiro momento, pela industrialização e mais recentemente pela dita “revolução verde”, projeto de monocultura, transgênica e repleta de agrotóxicos, financiada pelo agronegócio. E não há nada de pop nesse agro, pois cada vez mais, o campo se torna hostil para o modo de vida caipira autossuficiente, por meio da agricultura de subsistência e do modelo econômico de parceria.

Foto: Mariana Kimura / Caipira Lab

O êxodo rural fez e faz com que o caipira seja marginalizado na sociedade do consumo, ocupando a base da pirâmide social. Se antes seu modo de vida era nomeado como “primitivo”, hoje, no auge do “desenvolvimento”, os elementos que o compõe aparecem muito fortemente em movimentos que buscam a sustentabilidade. É o caso da agroecologia, que visibiliza a pauta da agricultura de subsistência, e da economia colaborativa, que nada mais é do que o modelo de parceria já conhecido pelos caipiras. Pode-se dizer então que primitivo é o modelo econômico que trabalha na escassez, isto é, no esgotamento de recursos naturais e competitividade exploratória.

Apesar da mudança do espaço, os sujeitos não são destituídos de sua cultura e a preservam de diferentes maneiras. Muitos dos valores dessa cultura foram preservados, por exemplo, por meio da música caipira, que não é sinônimo da música sertaneja universitária ostentativa, que se confunde com o cowboy americano. Este gênero musical sim é fruto da globalização e dos processos de massificação da cultura e vai de encontro com os valores do latifundiário, o que diverge da cultura caipira.

Foto: Mariana Kimura / Caipira Lab

A religiosidade de um catolicismo não institucionalizado e sincretizado é outro canal pelo qual a cultura caipira resistiu. O termo “não institucionalizado” vem de práticas que fogem à instituição da igreja católica e que não necessitam de um padre, ou qualquer outra figura institucional, para acontecer. Já o sincretismo é consequência da maneira como o catolicismo se alojou no Brasil profundo, misturando-se às religiões indígenas e de matriz africana. Essas práticas, como a rezas em devoção aos santos e as festividades, como a Folia de Reis, ainda acontecem atualmente, mesmo no espaço urbano.

Um último exemplo pelo qual a cultura caipira permeou, que é transversal aos outros, é a própria tradição oral, o contar e ouvir causos, o contar memórias, enfim, o adquirir e repassar conhecimentos acumulados por meio da oralidade. E em uma sociedade em que a escrita é mais valorizada do que o oral, manter a tradição da oralidade é um elemento de resistência.
Veja que os três exemplos citados são contrapontos, ou seja, são frentes de resistência dessa cultura. Ser caipira é resistir ao modelo de desenvolvimento proposto pelo agronegócio, é resistir ao modelo produtivo posto, à desvalorização da oralidade, é resistir identitariamente na música e na religião. Só diz que essa identidade e cultura acabaram quem não conhece sua força.

Aborto: 5 razões para legalizar

Aborto: 5 razões para legalizar

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por Áurea Carolina

A América Latina vai ser toda feminista! Nosso canto passou a ecoar ainda mais forte depois que acompanhamos a mobilização histórica das nossas hermanas. No início de junho, a Câmara dos Deputados da Argentina aprovou a lei que legaliza o aborto até a 14ª semana de gestação, por 129 votos a favor, 125 contra e uma abstenção. A lei precisa ser aprovada no Senado para passar a valer.

No Brasil, a onda verde também tomou as ruas. Temos uma chance real de avançarmos na luta por acesso universal ao aborto legal, seguro e gratuito. O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e a Anis – Instituto de Bioética apresentaram, em março de 2017, uma ação no Supremo Tribunal Federal que pede que mulheres que façam o aborto até 12 semanas não sejam consideradas criminosas. A ADPF (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental), nome que recebe a ação, trata a criminalização do aborto como o que é de fato: uma violência contra as mulheres.

Atualmente, no Brasil, o Código Penal determina que as mulheres que realizam aborto podem ser presas por até 3 anos ou investigadas até 8 anos depois do ato. O medo da prisão e o silêncio imposto pela lei penal acentuam o sofrimento de grande porte dessas mulheres, que, muitas vezes, já se encontram em situação de extrema vulnerabilidade. A criminalização ainda prejudica a discussão pública sobre o assunto, apesar de ser um fato comum na vida das brasileiras.

A ADPF pode mudar essa realidade. O texto argumenta que os artigos 124 e 126 do Código Penal, de 1940, que tipificam o crime de aborto autoprovocado ou feito por outra pessoa com o consentimento da gestante, violam os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e da cidadania.

A ação será relatada pela ministra Rosa Weber, que convocou uma audiência pública para ouvir argumentações sobre o tema. Marcada para os dias 3 e 6 de agosto, pode ser um ponto de virada para a discussão do tema no Brasil.

Na Gabinetona, mandato coletivo e feminista que construímos com uma equipe composta prioritariamente por mulheres na Câmara Municipal de Belo Horizonte, seguimos também de verde e roxo ecoando os gritos que clamam por aborto legal, seguro e gratuito. Aqui, contamos algumas das razões pelas quais defendemos essa pauta – pela vida das mulheres, por todas nós.

1. O aborto é uma realidade na vida das mulheres de todos os credos e classes sociais.

Por mais que a criminalização dificulte sua prática e crie riscos desnecessários para a saúde das mulheres, centenas de abortos são feitos todos os dias no Brasil. Segundo dados do IBGE, estima-se que 7,4 milhões de brasileiras já fizeram pelo menos um aborto. A Pesquisa Nacional do Aborto revela que mais de 500 mil mulheres abortaram apenas em 2015. Uma em cada cinco mulheres até 40 anos já fez, pelo menos, um aborto na vida.

Essas mulheres geralmente são jovens, já tiveram filhos e seguem religiões cristãs. Mulheres comuns que, por dificuldades econômicas, situações de violência ou vulnerabilidade, planejamento pessoal ou qualquer outra razão, decidiram interromper uma gravidez, apesar das condenações morais e do cerco do sistema penal.

2. A criminalização penaliza principalmente mulheres em situação de vulnerabilidade.

“Todos somos pró-aborto. Uns pró-aborto clandestino; nós, pró-aborto legal”, lia-se em alguns dos cartazes levados às ruas por nossas irmãs argentinas. A afirmação diz de uma desigualdade de acesso que se repete por aqui: enquanto algumas mulheres podem pagar caro para realizar o procedimento em clínicas clandestinas, outras precisam recorrer a métodos inseguros – e sofrem graves consequências. A criminalização penaliza principalmente mulheres pobres, negras e indígenas, que são as que têm menos acesso às políticas públicas e estão em situação de maior vulnerabilidade social, perpetuando o racismo institucional.

É por isso que dizemos e repetimos: a legalização do aborto se faz urgente para assegurar a vida e a dignidade das mulheres. Trata-se de uma questão de saúde pública: o aborto clandestino no Brasil é a quinta causa de morte materna. Além disso, internações hospitalares causadas por abortos inseguros são recorrentes, custam caro e poderiam ser evitadas se a legislação garantisse condições dignas de atendimento nos serviços de saúde e acesso ao aborto legal e seguro. A ADPF, apresentada pelo PSOL e Anis ao STF, argumenta ser inconstitucional tratar como criminosas as mulheres que abortam, o que permite que avancemos rumo à garantia de aborto legal, seguro e gratuito a todas as mulheres.

3. A criminalização é um ataque à nossa liberdade de crença.

Ninguém será obrigada a fazer um aborto caso ele seja descriminalizado, é claro! A legalização permite que cada mulher seja livre para tomar essa decisão de acordo com suas crenças e possibilidades. Não por acaso, em meio à onda verde que tomou a Argentina, viam-se tantas pessoas – homens, pessoas cis e trans, crianças, idosos, mães, pais, avós, religiosos ou não. Defender a legalização do aborto é reafirmar a liberdade de crença em nosso país e o Estado Laico, assegurar que valores de parcela da população não impliquem no cerceamento do direito de decisão de todas as pessoas.

4. A legalização não aumenta e pode até diminuir o número de abortos.

Pode parecer contraditório, mas a legalização não aumenta o número de abortos. Pelo contrário, em países em que o procedimento deixou de ser crime, essa taxa caiu, como apontam dados do Instituto Guttmacher. Entre 1990/1994 e 2010/2014, um período de duas décadas, a taxa anual de aborto nas regiões desenvolvidas caiu, principalmente em países ricos onde a prática é legalizada – passou de 46 para 27 abortos para cada mil mulheres em idade reprodutiva. O mesmo não ocorreu em países em desenvolvimento, porção do mundo em que o procedimento é majoritariamente criminalizado.

É fácil entender por que essa conta fecha: o acesso universal e gratuito ao aborto legal e seguro faz valer direitos fundamentais invioláveis protegidos pela nossa constituição – dignidade, igualdade, liberdade, cidadania, direito à vida, à saúde e, vale destacar, ao planejamento reprodutivo.

5. A legalização é condição para a efetivação dos direitos sexuais e reprodutivos.

Não por acaso, nossas irmãs argentinas reforçam: precisamos de educação sexual para decidir, anticoncepcionais para não abortar e, em última instância, aborto seguro para não morrer. Ao contrário do que diz o senso comum, machista e punitivista, não “engravida quem quer”. Além de a cultura machista fazer recair sobre a mulher quase integralmente a responsabilidade de evitar uma gravidez, o acesso a métodos contraceptivos pelo Sistema Único de Saúde ainda é falho e desigual – os entraves encontrados incluem desinformação, falta de equipamentos e treinamento dos profissionais de saúde.

Para prevenir o aborto, é preciso garantir políticas de saúde acessíveis e universais, que levem em conta os direitos sexuais e reprodutivos de todas as pessoas, a fim de diminuir também o número de gravidezes não-planejadas, mortalidade materna e mortalidade infantil. Forçar que uma gravidez não-intencional seja levada a termo é violar esse direito fundamental.

As 23 condenações de junho de 2013

As 23 condenações de junho de 2013

Fumaça do Bom Direito!!Ep22🔥🔥A condenação de 23 manifestantes de junho 2013, com o convidado David Miranda.clique e assista:http://bit.ly/bp-andre-barros

Publicado por André Barros em Terça-feira, 24 de julho de 2018

 

No 22º episódio do programa Fumaça do Bom Direito, convidei David Miranda, vereador da cidade do Rio de Janeiro, para o “bate papo com André Barros”. Ele é candidato a deputado federal e eu sou candidato a deputado estadual, ambos pelo PSOL. Nossa conversa rolou em torno da condenação de 23 ativistas das manifestações de junho de 2013.

Convém esclarecer que a sociedade tem o direito de julgar se o Poder Judiciário está ou não fazendo Justiça, daí os julgamentos e sentenças serem públicos! Portanto, o fato de uma sentença receber críticas faz parte da democracia. Devemos denunciar a referida sentença, na qual “inacreditável” foi a palavra usada para justificar a elevação da pena de 23 condenados por terem ido às ruas, com mais de um milhão de pessoas para xingar Sérgio Cabral. O então governador, líder de uma verdadeira “quadrilha” política, recebeu milhões para que capitalistas assaltassem bilhões dos cofres públicos, através de licitações combinadas, onde vencedores e preços eram previamente ajustados.

Bilhões recebidos para as obras da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, além de bilhões de tributos tirados dos pobres pelo injusto ICMS – Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços -, foram saqueados de tal forma, que o Rio de Janeiro é o Estado da Federação que mais demitiu trabalhadores formais em 2017, segundo dados do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). Rasparam de tal maneira o Tesouro do Estado que nem tiveram como pagar o salário de aposentados, médicos e professores!

Sérgio Cabral (àquela época, do PMDB) ajudou os cartéis a roubarem o Estado do Rio de Janeiro, junto com sua enorme maioria na Assembleia Legislativa, inclusive o presidente da mesma, Jorge Picciani (MDB) e conselheiros do Tribunal de Contas (TCE/RJ). Recordamos que, de sete, cinco conselheiros do TCE/RJ foram presos e afastados de seus cargos por corrupção. É de se consignar que a função do Tribunal de Contas é fiscalizar e julgar as contas do Estado. No final, sobrou apenas uma conselheira titular.

Diante desses fatos, num Estado em calamidade pública, "inacreditável" é a fundamentação para a condenação de 23 manifestantes, que denunciaram com mais de um milhão de pessoas nas ruas, praças e avenidas, todo esse assalto aos cofres públicos. Vejamos um trecho da sentença:

“… e ao ‘Ocupa Cabral’(é inacreditável o então governador deste estado e sua família terem ficado com o direito de ir e vir restringido).”

A fundamentação dessa sentença é uma afronta à população do Rio de Janeiro. Inacreditável mesmo é um juiz se referir ao Sergio Cabral como vítima!

 

Maconha e receita tributária

Maconha e receita tributária

Fumaça do Bom Direito!!Ep21🔥🔥A legalização da maconha e o grande aumento de receita.http://bit.ly/bp-andre-barros

Publicado por André Barros em Terça-feira, 17 de julho de 2018

 

No 21º episódio do programa FUMAÇA DO BOM DIREITO, no dia 17 de julho de 2018,  o bate papo foi com o Fiscal do Estado do Rio de Janeiro, Alexandre Reinhart, que trabalha há 10 anos especificamente com Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços – ICMS. O programa foi sobre a legalização da venda da maconha e o enorme aumento da receita tributária que isso poderia gerar. Pois num mercado legalizado é isto que acontece: o pagamento de impostos sobre a circulação de mercadorias.

O convidado do programa fez um dos concursos mais difíceis da história da Fazenda Estadual, onde passaram apenas 37 candidatos, quando eram 90 vagas, mas não foram preenchidas por falta de pontuação mínima. Reinhart pegou os dados oficiais do Estado do Colorado nos Estados Unidos da América, onde está legalizada a venda da maconha desde 2014, e por uma simples equação obteve a relação entre a legalização da maconha no Brasil e a receita tributária estimada de ICMS que pode gerar para o Estado do Rio de Janeiro.

Verificou que a venda total de maconha e derivados no Estado do Colorado em 2017 foi de US$ 1,507,702,219 (Um bilhão, quinhentos e sete milhões, setecentos e dois mil e duzentos e dezenove dólares). Fazendo a divisão per capita do Produto Interno Bruto da Maconha chegou ao valor de US$ 268,90 (duzentos e sessenta e oito dólares e noventa centavos) por pessoa no Estado do Colorado, que tem uma população de 5.607.000 (cinco milhões e seiscentos e sete mil habitantes). Então converteu US$ 268,90 (duzentos e sessenta e oito dólares e noventa centavos), usando o câmbio oficial de 16 de julho de 2018 que foi de R$ 3,85, e chegou ao PIB per capita da maconha no Estado do Rio de Janeiro de R$ 1035,27 ( um mil, trinta e cinco reais e vinte e sete centavos), por pessoa. Multiplicou pelo número de habitantes do Estado do Rio de Janeiro, que tem uma população de 16.720.000 (dezesseis milhões e setecentos e vinte mil habitantes) e chegou ao PIB da maconha do Estado do Rio de Janeiro de 17 bilhões e 309 milhões de reais. Trata-se de uma estimativa. Utilizando, então, a maior alíquota de ICMS de 37%, que é a do cigarro, chegou ao valor de 6 bilhões e 404 milhões de reais de receita tributária. Valor superior ao que se arrecada em ICMS de Petróleo e energia elétrica, as maiores receitas do Estado. De toda a receita do Estado, a maior parte vem do ICMS, algo em torno de 80%.

O enorme PIB da maconha, querendo-se ou não, está circulando em nosso Estado, mas não é computado pela ilegalidade. Além dos bilhões gastos com o mercado de armas e munições, que seriam reduzidos com a legalização, o Estado está jogando fora mais de 10 % da sua receita. Se o Estado do Rio de Janeiro comemorou o PIB de 47 bilhões e 21 milhões, 2,28% superior à previsão, o que não comemoraria com mais 6 bilhões e 404 milhões de reais em sua receita tributária!

Estamos jogando fora bilhões num Estado que sequer consegue pagar seus professores e médicos. Temos de começar imediatamente a quebrar esse tabu e debater na mesa do bar e em todos os lugares a legalização da venda da maconha nas favelas e em todo o Estado do Rio de Janeiro.

Até quando vão calar prostitutas?

Até quando vão calar prostitutas?

Foto: Kimberly White / Reuters

Por Amara Moira e Monique Prada

Em meios feministas e na própria esquerda, parte considerável dos comentários contrários à luta pelos direitos de trabalhadoras sexuais traz, como explicação para a posição assumida, a narrativa de que existem “meninas nas estradas se sujeitando a fazer sexo oral em caminhoneiros sujos por um prato de comida”. A narrativa é simples mas o que ela diz nas entrelinhas, não.

Um primeiro ponto a destacar é que, se estamos falando de crianças e adolescentes, não estamos falando do trabalho sexual propriamente dito, ocupação reconhecida pela CBO do Ministério do Trabalho desde 2002, mas sim do crime de exploração sexual de menores, crime esse combatido pelo Estado em parceria com o movimento de trabalhadoras sexuais. Insistir numa associação obrigatória entre essas duas realidades – trabalho e crime – insistir que uma inequivocamente leva à outra, tem como consequência direta atravancar a luta que há mais de trinta anos trabalhadoras sexuais vêm tentando organizar em busca de direitos, em busca de melhores condições de trabalho.

Não há como organizar uma categoria de trabalhadoras, quando a mera menção de “prostituição” ou “trabalho sexual” já faz com que as pessoas rebatam com “crianças e adolescentes”. Não há como organizar uma categoria de trabalhadoras quando a mera menção de sua atividade já faz com que as pessoas imediatamente a associem à violência e exploração de crianças e adolescentes. É como se a necessária defesa dos direitos das mulheres que trabalham na indústria têxtil fosse impossível, pois nessa mesma indústria ocorrem casos de pessoas escravizadas, traficadas, famílias inteiras exploradas, exploração de não de obra infantil. Percebem? É preciso diferenciar o que é trabalho do que é crime, é preciso criar condições para que as trabalhadoras se organizem e definam suas prioridades, suas demandas. Nada sobre nós sem nós!

Um segundo ponto é que oferecer o equivalente a um prato de comida como pagamento por um serviço prestado, independente da profissão, é proceder dos mais abusivos, que precisa e deve ser combatido. No entanto, quando se fala em prostituição é como se essa troca fosse a própria definição do que fazemos e como se essa fosse a única forma de exercer a atividade. Ou seja, uma vez prostituta, parece que você forçosamente terá que trabalhar em troca de um prato de comida, sem que essa constatação nos obrigue a investigar o que levaria uma pessoa a aceitar um prato de comida em troca de sexo… seria mesmo a prostituição o problema, ou não seria a pobreza extrema, a exclusão social, as péssimas condições socioeconômicas em que a pessoa se encontra?

Se abrissem o debate para outras modalidades de prostituição, modalidades que envolvem valores mais próximos ou até superiores ao que a maioria dos brasileiros recebe por seus respectivos trabalhos, cinquenta, cem reais a hora, o argumento se enfraqueceria, e talvez seja esta a razão de insistirem tanto na imagem do prato de comida… o procedimento tem estreitas relações com o que o jornalismo sensacionalista e a própria direita reacionária fazem, a repetição insistente das cenas de violência, a linguagem descaradamente apelativa, a homogeneização de uma realidade complexa. Tudo o que sirva para impedir as pessoas de pensarem, pois o imporante é convencer.

A que serve a tentativa de reduzirem a existência da prostituição a essa imagem apenas? Tantas profissões enfrentando repetidas denúncias de situações abusivas, criminosas até, tantas profissões que recebem, não à toa, auxílio insalubridade e periculosidade, e em todas acreditamos que faz sentido a classe profissional atingida se unir em busca de melhores condições de trabalho, mais segurança, remuneração apropriada, menos na classe de trabalhadoras sexuais, a única que seria incapaz de superar esse estado (imaginado como único) em que se encontra.

A mensagem é clara, não querem que nos organizemos, não querem que nossas vozes ecoem, que nos tornemos protagonistas das lutas e decisões que nos afetam… há sempre alguém mais habilitado do que nós para pensar a nossa condição, para definir os rumos a serem seguidos pelo segmento de trabalhadoras sexuais.

Essa é também a única categoria que, a despeito de existir desde tempos imemoriais e de envolver uma das atividades humanas mais incontornáveis, o sexo, parece na imaginação dessas mesmas pessoas irremediavelmente destinada à precariedade, à insalubridade. A invenção da pílula, da camisinha, do gel lubrificante, da PEP e da PrEP, o desenvolvimento das práticas de profilaxia, os saberes a respeito da fisiologia humana, sobretudo do aparelho sexual, o próprio conhecimento sobre formas de contágio das várias ISTs, nada parece suficiente para garantir a criação de um protocolo de segurança para o trabalho sexual… pode-se transar com múltiplas pessoas sem jamais contrair ISTs ou desenvolver lesões, mas a partir do momento em que essa transa envolva pagamento ela será imediatamente considerada um risco, uma ameaça à integridade de quem cobre por ela.

Voltando à narrativa do começo do texto, atentem por fim para o elitismo de associar esse comportamento a grupos sociais específicos. A ideia de caminhoneiros como seres sujos, predadores sexuais, pedófilos capazes de oferecer a menores de idade um prato de comida em troca de sexo oral. O curioso é que isso serve de argumento para que pessoas se mobilizem contra a luta das trabalhadoras sexuais, mas, como se viu bem recentemente, não serve para que deixem de apoiar a greve dos caminhoneiros… por que esse argumento basta pra ir contra a luta das prostitutas mas não contra a classe profissional dos caminhoneiros? Talvez porque nem todo caminhoneiro seja da forma como o pintam nessa narrativa, mas se isso é verdade, convém aplicar a mesma lógica a nosso respeito. Questões morais sobre o trabalho sexual. Hora de permitir que organizações de prostitutas sejam nossas porta-vozes, não associações de pessoas que jamais exerceram esse trabalho e que jamais o exercerão.

Até quando vão calar prostitutas?

Até quando vão calar prostitutas?

Foto: Kimberly White / Reuters

Por Amara Moira e Monique Prada

Em meios feministas e na própria esquerda, parte considerável dos comentários contrários à luta pelos direitos de trabalhadoras sexuais traz, como explicação para a posição assumida, a narrativa de que existem “meninas nas estradas se sujeitando a fazer sexo oral em caminhoneiros sujos por um prato de comida”. A narrativa é simples mas o que ela diz nas entrelinhas, não.

Um primeiro ponto a destacar é que, se estamos falando de crianças e adolescentes, não estamos falando do trabalho sexual propriamente dito, ocupação reconhecida pela CBO do Ministério do Trabalho desde 2002, mas sim do crime de exploração sexual de menores, crime esse combatido pelo Estado em parceria com o movimento de trabalhadoras sexuais. Insistir numa associação obrigatória entre essas duas realidades – trabalho e crime – insistir que uma inequivocamente leva à outra, tem como consequência direta atravancar a luta que há mais de trinta anos trabalhadoras sexuais vêm tentando organizar em busca de direitos, em busca de melhores condições de trabalho.

Não há como organizar uma categoria de trabalhadoras, quando a mera menção de “prostituição” ou “trabalho sexual” já faz com que as pessoas rebatam com “crianças e adolescentes”. Não há como organizar uma categoria de trabalhadoras quando a mera menção de sua atividade já faz com que as pessoas imediatamente a associem à violência e exploração de crianças e adolescentes. É como se a necessária defesa dos direitos das mulheres que trabalham na indústria têxtil fosse impossível, pois nessa mesma indústria ocorrem casos de pessoas escravizadas, traficadas, famílias inteiras exploradas, exploração de não de obra infantil. Percebem? É preciso diferenciar o que é trabalho do que é crime, é preciso criar condições para que as trabalhadoras se organizem e definam suas prioridades, suas demandas. Nada sobre nós sem nós!

Um segundo ponto é que oferecer o equivalente a um prato de comida como pagamento por um serviço prestado, independente da profissão, é proceder dos mais abusivos, que precisa e deve ser combatido. No entanto, quando se fala em prostituição é como se essa troca fosse a própria definição do que fazemos e como se essa fosse a única forma de exercer a atividade. Ou seja, uma vez prostituta, parece que você forçosamente terá que trabalhar em troca de um prato de comida, sem que essa constatação nos obrigue a investigar o que levaria uma pessoa a aceitar um prato de comida em troca de sexo… seria mesmo a prostituição o problema, ou não seria a pobreza extrema, a exclusão social, as péssimas condições socioeconômicas em que a pessoa se encontra?

Se abrissem o debate para outras modalidades de prostituição, modalidades que envolvem valores mais próximos ou até superiores ao que a maioria dos brasileiros recebe por seus respectivos trabalhos, cinquenta, cem reais a hora, o argumento se enfraqueceria, e talvez seja esta a razão de insistirem tanto na imagem do prato de comida… o procedimento tem estreitas relações com o que o jornalismo sensacionalista e a própria direita reacionária fazem, a repetição insistente das cenas de violência, a linguagem descaradamente apelativa, a homogeneização de uma realidade complexa. Tudo o que sirva para impedir as pessoas de pensarem, pois o imporante é convencer.

A que serve a tentativa de reduzirem a existência da prostituição a essa imagem apenas? Tantas profissões enfrentando repetidas denúncias de situações abusivas, criminosas até, tantas profissões que recebem, não à toa, auxílio insalubridade e periculosidade, e em todas acreditamos que faz sentido a classe profissional atingida se unir em busca de melhores condições de trabalho, mais segurança, remuneração apropriada, menos na classe de trabalhadoras sexuais, a única que seria incapaz de superar esse estado (imaginado como único) em que se encontra.

A mensagem é clara, não querem que nos organizemos, não querem que nossas vozes ecoem, que nos tornemos protagonistas das lutas e decisões que nos afetam… há sempre alguém mais habilitado do que nós para pensar a nossa condição, para definir os rumos a serem seguidos pelo segmento de trabalhadoras sexuais.

Essa é também a única categoria que, a despeito de existir desde tempos imemoriais e de envolver uma das atividades humanas mais incontornáveis, o sexo, parece na imaginação dessas mesmas pessoas irremediavelmente destinada à precariedade, à insalubridade. A invenção da pílula, da camisinha, do gel lubrificante, da PEP e da PrEP, o desenvolvimento das práticas de profilaxia, os saberes a respeito da fisiologia humana, sobretudo do aparelho sexual, o próprio conhecimento sobre formas de contágio das várias ISTs, nada parece suficiente para garantir a criação de um protocolo de segurança para o trabalho sexual… pode-se transar com múltiplas pessoas sem jamais contrair ISTs ou desenvolver lesões, mas a partir do momento em que essa transa envolva pagamento ela será imediatamente considerada um risco, uma ameaça à integridade de quem cobre por ela.

Voltando à narrativa do começo do texto, atentem por fim para o elitismo de associar esse comportamento a grupos sociais específicos. A ideia de caminhoneiros como seres sujos, predadores sexuais, pedófilos capazes de oferecer a menores de idade um prato de comida em troca de sexo oral. O curioso é que isso serve de argumento para que pessoas se mobilizem contra a luta das trabalhadoras sexuais, mas, como se viu bem recentemente, não serve para que deixem de apoiar a greve dos caminhoneiros… por que esse argumento basta pra ir contra a luta das prostitutas mas não contra a classe profissional dos caminhoneiros? Talvez porque nem todo caminhoneiro seja da forma como o pintam nessa narrativa, mas se isso é verdade, convém aplicar a mesma lógica a nosso respeito. Questões morais sobre o trabalho sexual. Hora de permitir que organizações de prostitutas sejam nossas porta-vozes, não associações de pessoas que jamais exerceram esse trabalho e que jamais o exercerão.

Ninguém conquista direitos gritando gol

Ninguém conquista direitos gritando gol

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A grande imagem da Copa da Rússia é a quebra do protocolo da FIFA! A mãe do jogador Pogna, de origem guineana, levantou a taça que segundo as regras oficiais só poderia ser tocada pelos campeões do mundo e por chefes de Estado. Não foi a única: as feministas do Pussy Riot invadiram o campo vestidas de policiais, em protesto contra as arbitrariedades de Putin e uma delas trocou cumprimentos com o astro Mbappé.

A grande novidade da Copa da Rússia foi a mulher em cena! Não apenas na cobertura jornalística, narrando partidas e até levantando a taça, mas também pautando o debate de gênero e conquistando protagonismo desde seu lugar de fala. Foi impossível ignorar as mães da seleção brasileira. No time titular de Tite, dos onze titulares, sete foram criados só pela mãe. Até que enfim, o país que ostenta taxas inimagináveis de abandono parental pode reconhecer e aplaudir a nobreza dessas mulheres que carregam famílias inteiras sozinhas em seus próprios ombros. No país em que 6 milhões de pessoas sequer tem o nome do país na certidão de nascimento, por fim ficou clara a farsa de um patriarcado sem pai. No Brasil, machismo, racismo, uma fraquíssima educação sexual de nossa juventude, e a negação sistemática dos direitos reprodutivos da mulher redundam num tipo de privilégio no qual o homem simplesmente se vê isento de qualquer responsabilidade sobre a gravidez. Filhos de mães solteiras, mães sem companheiro, mães que sustentam sozinhas em suas costas o peso de conduzir famílias inteiras, a grande maioria delas, mulheres pretas.

Pela primeira vez na história das Copas e da seleção brasileira, o protagonismo da mulher preta. Isso é uma enorme vitória delas e também nossa, porque já não são invisíveis essas mulheres e seus filhos.

Crianças e adolescentes que são a maioria dos moradores de favelas e periferias, crianças e adolescentes que foram os maiores beneficiários de políticas públicas como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. Crianças e adolescentes, que são os mais vulneráveis à negação de direitos e que juntos de suas mães, principalmente as mulheres pretas, são hoje os que retornam à pobreza extrema no país. Vejam quanta ironia e quanto urgência em reverter o quadro, retomando a redução da desigualdade e ampliando as oportunidades. Só assim seremos realmente campeões e deixaremos de ser um país que nega direitos e abandona na miséria e no genocídio o melhor de sua juventude. É por isso que precisamos falar sobre as crianças sem pai e suas mães.

Precisamos falar também sobre os campeões do mundo, a seleção negra da França. Não se trata de um time de imigrantes. Apenas dois nasceram fora da França: o goleiro Steve Mandanda, que nasceu na República Democrática do Congo, e o zagueiro – autor do gol da vitória na semifinal -, Samuel Umtiti, em Camarões. Em sua maioria, é um time de filhos de pais que passaram pela imigração. Há descendentes de Filipinas, Mali, Mauritânia, Senegal, Argélia, Itália, República Democrática do Congo, Haiti, Angola, Camarões, Guiné, Marrocos, Togo e Martinica e Guadalupe. Uma seleção apesar com origem multiétnica que envolve 17 nações. A nova cara multicultural da França. Uma vitória da diversidade multiétnica é uma vitória de toda a humanidade.

Só na região metropolitana de Paris convivem mais de 140 nacionalidades. Com um modelo social que funciona, oferecendo segurança pública, cidadania e direitos. Até mesmo a formação dos atletas é feita com uma organização de base, com investimentos sociais na ponta e para todos. A França é um país cheio de conflitos, tensões, mas também de enormes conquistas sociais. A jornada de trabalho é de 35h semanais e ainda assim as pessoas continuam lutando por direitos. Na representação política foi implantada a paridade de gênero e todas as câmaras municipais e regionais são compostas por 50% de mulheres. Uma democracia de alta intensidade, onde todos são atendidos por um sistema público de saúde, onde a educação é pública do maternal (a partir dos 3 anos) até o ensino superior. Um país onde quem ganha muito paga muito imposto, onde há seguro desemprego por dois anos ganhando 70% do salário, onde há uma infinidade de bolsas e subsídios sociais, transporte público eficiente, bibliotecas em todos os bairros, festas culturais, museus, parques e praças que continuam sendo inaugurados.

Ninguém conquista direitos gritando gol

Mais importante do que as imagens históricas da copa, é o campeonato da existência humana em meio a uma crise social e política sem precedentes a nível mundial. Até mesmo na França, o Estado de Bem Estar Social se vê ameaçado pela investida neoliberal e o neofascismo ganha corpo político provocando tensões. A vitória da seleção francesa coincidiu também com a festa nacional do 14 de julho. Pelo menos 845 carros foram incendiados e 508 pessoas detidas nas noites de 13 e 14 de julho segundo o Ministério do Interior. O número de carros queimados caiu em relação ao ano anterior, quando se registrou 897 veículos afetados. O número de pessoas presas saltou de 368, em 2017, para 508, este ano.

Aqui no Brasil, é decisivo a partir de agora saber que ninguém conquista direitos gritando gol e focar no close certo, no campeonato que realmente pode mudar nossas vidas.

Nas eleições de outubro precisamos não só assegurar visibilidade e lugar de fala, mas também conquistar representatividade, impedindo a redução de direitos que é o projeto das elites, do capital financeiro, da mídia e do empresariado nacional. Depois do golpe e com o país mergulhado no Estado de Exceção, é fundamental reconhecer que já não vigora a Constituição, portanto, não há mais legalidade e tudo o que nos resta é a luta política.

É decisivo saber que as questões identitárias, a diversidade cultural, étnica e de gênero não são só bandeira de luta, mas também parte indissociável do modo como vemos o mundo. Uma nova matrix, o novo normal. Essa revolução cultural que já empoderou os invisíveis precisa de materialidade institucional e política. É fundamental a conquista de poder político por sujeitos e coletivos que sempre foram sub-representados, apesar de serem a base da pirâmide social. Por isso mesmo essas lutas não podem mais ser vistas como setoriais ou de coletivos específicos, justamente porque são estruturantes. A hora para conquistar representatividade política e assegurar direitos é agora. Até mesmo na Copa do Mundo, as mulheres, as mães solteiras, as feministas, os negros, os imigrantes e os pobres já conquistaram seu lugar de fala e se tornaram protagonistas.

Nunca mais seremos silenciados. Nunca mais seremos invisíveis. Consciência é revolução, por isso mesmo, só nos resta ocupar o poder!

Contra a politização do Judiciário, o remédio é Lula livre!

Contra a politização do Judiciário, o remédio é Lula livre!

Foto: Mídia NINJA

O melhor caminho para libertar Lula, a melhor forma de ratificar sua inocência, é provar que ele é um perseguido político, é demonstrar a desatada obsessão que move parcelas da sociedade brasileira no intuito de privá-lo do embate político – a ânsia de vê-lo fora da disputa das eleições de outubro.

Eis a grande conquista de domingo, 08 de julho.

Domingo, escancarou-se as engrenagens montadas para condenar Lula e sustentá-lo preso. Desnudou-se a divisão de tarefas organizada para dar legitimidade ao esquema. Revelou-se a rede de comunicação clandestina que vem articulando o juizado de Curitiba, o TRF-4, o Ministério Público e a mídia em geral (em particular a Globo) em torno do propósito de inviabilizar política e eleitoralmente Lula.

Em nenhum lugar do mundo um oficial de polícia consultaria um juiz de instância inferior sobre cumprir ou não a decisão de um juiz de instância superior. Em nenhum lugar do mundo preponderaria a decisão de um juiz em férias. Em nenhum lugar do mundo um juiz em recesso tentaria tomar para si um processo alheio, ainda mais de um juiz plantonista. Em nenhum lugar do mundo um habeas corpus seria protelado a espera de uma decisão que o suste. Em nenhum lugar do mundo uma TV determinaria que o presidente de um tribunal judiciário intervenha sobre o caso.

Tudo isso aconteceu em oito horas. Para reverter o habeas corpus de Lula, exigiu-se a intervenção de um juiz de férias em Portugal, de um desembargador em recesso e a presença de um presidente de tribunal federal – além de uma cobertura ampla e enviesada na TV.

Eis porque insisto que o domingo foi de vitória: manter Lula preso custou muito aos golpistas. Exigiu que se desvelasse toda a estrutura que organiza o golpe. Porque há mais e mais elementos comprovando a motivação política que sustenta a perseguição judicial que acossa Lula.

Durante todas aquelas horas, imprensa, mídia, redes sociais, todos os atores políticos, foram obrigados a falar de Lula. Sobre seu sequestro político, sobre as trapalhadas dos atores judiciais, sobre o constrangimento de suas ações.

É óbvio que todos e todas aguardamos com ansiedade a liberdade de Lula. É claro que nos solidarizamos ao martírio pelo que passa sua família frente à expectativa de vê-lo de volta. É mais do que forte nossa certeza de que ele será nosso candidato à Presidência.

Contudo, a batalha deste domingo precisava e seria inevitavelmente vivida. Trata-se de mais um evento na disputa de narrativas que vivemos. É por lutas como essa que sustentamos Lula como o candidato preferido dos brasileiros e brasileiras. É por ocasiões como essa que temos revelado a verdade sobre Moro, o que faz com que hoje ele seja majoritariamente rejeitado pelo povo. É por embates como esse que hoje boa parte da sociedade diz arrepender-se de ter apoiado o golpe contra Dilma.

Vencemos, portanto. Uma vitória breve, mas que abre caminho para conquistas muito maiores.

O episódio, contudo, deixa entrever parte de nosso desafio futuro: o de reconstruir o Estado Democrático de Direito no país.
Reconstruir, uma vez que as bases que aí estão já não nos servem mais. É inadmissível que parte da institucionalidade do país trabalhe ativamente para que um ator político seja inabilitado, como resposta à incapacidade, de seus partidos e candidatos preferidos, de vencer eleições.

É justo lembrar que a Justiça operar para as elites não é fato novo. Há anos dom Mauro Morelli insiste que há dois códigos legais funcionando no país: o código civil para os ricos, o código penal para os pobres.

Por outro lado, o episódio em questão demonstra o quanto erramos quando restringimos nossa atenção ao fenômeno da “judicialização da política”. Muito mais importante seria se tivéssemos desde cedo atentado para os perigos que a “politização da justiça” traria.

O que vivemos no domingo foi o arbítrio da ditadura da toga. Ditaduras assumem qualquer tipo de forma – não são só militares. Configuram-se quando passam a decidir sobre tudo e sobre todos, sem qualquer tipo de controle ou revisão, quando arvoram-se cassar direitos, como fazem com Lula; quando transformam o exercício da justiça em guerra – guerra política.

Ao tratar das políticas desenvolvimentistas instauradas por Dilma em seu segundo mandato, André Singer trata-as como ensaio. Talvez seja esse o termo que melhor defina a democracia brasileira atual, pós-Ditadura Militar, em seu aspecto republicano. Afinal, nunca alcançamos de fato o estabelecimento de um equilíbrio entre os poderes, mesmo quanto a sua constituição interna.

O que temos, na prática, é um judiciário colonizado por poucas parcelas da sociedade, legitimado por um método de recrutamento que privilegia aquela meritocracia hereditária que, há décadas, caracteriza o Brasil – a mesma que, durante muitos anos, fez com que apenas os filhos da elite tivessem acesso à Universidade; a mesma que explica porque há tantos filhos e netos de políticos no Congresso.

O que temos é um dos poderes da República, pouquíssimo ou nada poroso à sociedade, que sob qualquer circunstância alcança exercer algum tipo de controle – democrático e republicano – sobre ele. Um poder que, em vez de comportar-se como mecanismo de freio e contrapeso, atua muito mais como um elemento de desequilíbrio para o sistema. Um poder que está às vésperas de pôr em risco o próprio caráter de igualdade e de liberdade, condição necessária para a realização de eleições.

Um dos pilares do programa de governo de Lula é a defesa da convocação de uma Assembleia Constituinte para tratar exclusivamente de uma reforma política.

Dada a gravidade do momento, não é possível deixar de incluir nessa reforma mecanismos mais claros – e mais justos – que definam a relação entre os poderes e a própria participação da Justiça comum, de modo formal e informal, sobre a política. Não é possível que o Judiciário siga sendo um território feudal, um protetorado de pequenos interesses.

Que a democracia no Brasil alcance todos os espaços.
#LulaLivre

André Barros: Fora Crivella e liberdade para Lula

André Barros: Fora Crivella e liberdade para Lula

Reunião secreta entre pastores e Crivella, crime de responsabilidade e cai a máscara de Sérgio Moro. Cadê a Democracia?

https://www.facebook.com/advogadoandrebarros/videos/1735105833248194/

 

No vigésimo episódio do programa Fumaça do Bom Direito, falamos da liberdade sem limites de Crivella e do alvará de soltura de Lula.

Parece que o prefeito Crivella tem total liberdade de fazer e falar o que bem entende, mas agora acabou essa farra de usar da boa-fé de milhões de pessoas. Um repórter do jornal “Extra” infiltrou-se numa reunião convocada pelo prefeito do Rio de Janeiro no Palácio da Cidade, chamada de “Café da Comunhão”. No convite, foi pedido aos religiosos que levassem suas reivindicações, relação de suas igrejas e número de membros. Além disso, foi cobrada, de cerca de duzentos pastores, a realização de reuniões, nas suas igrejas, com os dois pré-candidatos a deputado presentes.

Em áudio gravado em celular pelo jornalista infiltrado, Crivella diz que a Prefeitura foi um “presente de Deus” e que isso, portanto, deveria ser “aproveitado”. Informou que milhares de cirurgias para catarata, vasectomia e varizes seriam realizadas pela prefeitura e que, para marcar, bastava “falar com a Marcia”, sua assessora. O prefeito confessou que a fila de espera para operações de muitos idosos, que inclusive ficam cegos pela falta de cirurgia, seria furada, “em nome de Deus”. Disse ainda que as isenções de IPTU para as suas igrejas, dependendo do interesse, poderiam ser facilitadas ou procrastinadas por seus assessores. Enquanto várias pessoas da terceira idade sofrem com ameaças de leilões de seu único imóvel pela cobrança de IPTU abusivo, o prefeito oferece a seus pastores todas as vantagens e a isenção da cobrança do mesmo, muitas vezes em casas próprias feitas de igreja para não se pagar impostos.

Na realidade, foi uma reunião de “formação de quadrilha para a prática de crimes”, previstos em vários dispositivos penais, especificamente, com a pena de 2 a 12 anos de reclusão para prefeitos que utilizem, indevidamente, em proveito próprio ou alheio, de bens, rendas ou serviços públicos. No artigo 1º, inciso II, do Decreto-Lei 201 de 1967, estão previstos os crimes de responsabilidade dos prefeitos municipais, tais como os ocorridos na referida reunião.

Na segunda parte do programa, analisamos o descumprimento de ordem judicial que determinou a liberdade de Lula no último domingo. A ordem de habeas corpus foi concedida liminarmente pelo desembargador de plantão, portanto, competente e com jurisdição para tal decisão, em razão de fato novo atribuído. A decisão poderia até ser derrubada pelo próprio TRF, na segunda-feira seguinte, ou pelo Superior Tribunal de Justiça. Mas o descumprimento da decisão foi determinado pelo juiz Sérgio Moro, um juiz inferior ao desembargador, que ainda estava de férias e em outro país. A máscara de Sérgio Moro caiu, pois ele não tinha a menor competência para desautorizar uma decisão de um desembargador e demonstrou que sua real tarefa é manter Lula no cárcere, sem se comunicar com o povo brasileiro.

Realizar uma eleição no Brasil sem o Lula, líder das pesquisas e ex-presidente reeleito, é uma fraude eleitoral que fere o pluralismo político, fundamento da República previsto no artigo 1º da Constituição Federal, bem como viola a soberania popular e o sufrágio universal. Nesse imenso país pluripartidário, impedir a candidatura de Lula é uma afronta à diversidade e à liberdade ideológica, uma posição fascista dos herdeiros saudosistas da ditadura militar, que cassou de brasileiras e brasileiros o direito de votar para Presidente da República por 25 anos, de 1964 a 1989!

Rio de Janeiro, 11 de julho de 2018

Zumbis

Zumbis

Cento e trinta e três anos, vinte e seis dias se completa hoje que a lei de n. 3.353 foi sancionada. Esta previa abolir a escravidão em nosso país.

Foto: Mídia NINJA

Apresentada no Senado imperial no dia 11 de maio de 1888, votada e aprovada em primeira seção do dia 12 de maio, assinada pela então Princesa imperial e regente do Brasil, Dona Isabel, e por Rodrigo Augusto da Silva, Ministro da Agricultura, pouco antes das treze horas do dia 13 de Maio de 1888, nesse dia se comemora o nascimento de D. João VI.

No dia 20 de novembro de 1695 teve sua cabeça cortada salgada, levada com o pênis na boca ao então governador Melo e Castro. Em Recife, esta ficou exposta em praça pública no pátio do Carmo. Em 14 de março de 1696, o então governador de Pernambuco, Caetano de Melo Castro determina que a cabeça de Francisco seja colocada em local visível a todos, com o intuito de desfazer qualquer superstição que este, mais conhecido como Zumbi, o imortal, estivesse ainda vivo e pudesse mais uma vez liderar qualquer resistência contra a escravidão. Cento e noventa e sete anos antes da dita lei de abolição da escravatura ter sido assinada, foi assassinado o maior abolicionista do Brasil.

A situação do povo preto não mudou muito desde então, a Senzala vira favela, o trabalho escravo tem nome de carteira assinada, capitão do mato é polícia, coisa ruim se chama de preto, mercado negro, buraco negro, a coisa tá preta, somos sinônimo de coisa ruim. A religião de matriz africana é coisa do capeta, o Jesus que te salvou tem olhos azuis e pele clara, cabelos longos e lisos, mas aí eu que sou um preto muito louco, né? Esse negócio de racismo não existe, simplesmente, você possui características de alguém que pode estar cometendo crimes, por isso, ocorre essa abordagem policial pela terceira vez no dia, mas pra melhorar, vamos “esclarecer” as coisas.

Meu país continua racista, escravocrata, genocida, miserável, oportunista, vendido. Assistimos nossa saudosa burguesia entregar nossas riquezas pros gringos a preço de branco, e branco barato e fudido, com medo do preto que foi aprovado no curso de medicina na Universidade Federal via cursinho popular e que ninguém botava fé. O burguês fez os cálculos, os royalties do petróleo serão destinados boa parte pra educação. Esse tal de Lula universalizou a educação. O que é isso? Educação para todos? Na velocidade que as coisas andam, esses pretos todos inteligentes, mais dia menos dia, se apossam do que lhes pertence. Eu serei atendido por um geriatra preto, meu neto por uma pediatra preta, o juiz e desembargador que irão julgar meus crimes financeiros e minhas sonegações de impostos serão pretos. Daqui a pouco irão elegem uma mulher preta como presidenta.

Hoje completam trezentos e vinte e três anos, sete messes e vinte dias que assassinaram Zumbi dos Palmares, mas seu espirito de resistência continua vivo em cada preta e em cada preto de responsa dessa treta.

Hoje comemoramos cinco dias que minha irmã ancestral Ayana Amorin teve seu TCC aprovado na universidade Estadual de Minas Gerais – UEMG, no curdo de Pedagogia, com a nota máxima. Realmente, é de assustar.

Como diz um camarada meu ( nós bota terror no setor).

Lula Livre no Bagui.

Me solta Nego do Borel

Me solta Nego do Borel

*Por Pedro Henrique França, jornalista, roteirista e ativista LGBT+

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Foi um estrondo: “Nego do Borel beija homem em novo clipe”. Milhões de views, furor nas redes, como ele provavelmente nunca experimentou. Fui conferir. Ele começa o clipe travestido de mulher numa referência às bichas afeminadas, muito popularmente conhecido agora como POCs (apesar de ser um termo antigo). Um homem hetero como esses milhares que se travestem de mulher em bloco de carnaval para fazer piada (ou liberar algo que vivem oprimindo).

Cara gente hetera, bichas afeminadas – especialmente pretas – são motivos de piada todos os dias, na rua, na favela, nas escolas, nas comunidades. Não bastassem as piadas, que matam por dentro, elas são também alvos de discurso de ódio e muitas vezes assassinadas – vale lembrar sempre que somos o país que mais mata LGBT+ no mundo.

Adiante, ele simula um beijo mais técnico do que novela das 8 há 40 anos. Visivelmente constrangido, para não dizer com nojo, e possivelmente constrangedor para quem assiste. Logo se desvencilha do boy, canta “me solta”, para no frame seguinte se desmontar e voltar a ser quem ele é: homem hetero. A música até é boa, a batida é dançante, deve ser sucesso na pista. Mas seu clipe é desnecessário e profundamente desrespeitoso. Claramente oportunista.

Nego do Borel não tem nenhum histórico de apoio à causa LGBT+. Nunca se envolveu com qualquer temática ou evento relacionado às manas. Não é representante, simpatizante, jamais associado às cores da bandeira LGBT+. O que faz ele então? Pinkwashing – ou oportunismo em cima das gays. Seu clipe é uma soma de erros.

Primeiro faz piada com as bichas afeminadas – porque uma hetero simulando uma bicha afeminada reforçando todos seus estereótipos nada mais é do que escárnio. Depois faz um beijo forçado e engata numa repulsa. Por fim, de quebra ainda engana umas gays que acham que ele tá sendo friendly. Oras, trata-se de um método muito eficaz do sistema opressor. Você morde, assopra, traz o oprimido para o seu lado e ainda faz ele acreditar que isso tá certo.

Te lembrou alguém? Sim, é o que faz por exemplo o candidato Jair Bolsonaro, que acumula muitos eleitores gays, negros, nordestinos e mulheres – mesmo ele já tendo declarado aversão a todos esses grupos diversas vezes em eventos, palestras, etc. A última dele foi dizer que no Brasil não existe racismo – tudo intriga dos comunistas.

Nego do Borel já fez foto com Bolsonaro, já fez comentário na maior brodagem com o candidato à presidência mais extrema-direita, à beira da loucura que temos hoje. Mas isso pra mim nem é o agravante ao contrário do que tanta gente tá querendo atacar. Eleitor do Bolsonaro tem aos montes, você mesmo com certeza conhece vários. Inclusive pessoas aparentemente sãs, ludibriadas por seu discurso calhorda, supostamente apolítico quando é uma das raposas mais velhas do sistema.

Me atenho primeiro à piada. “Mas gente, eu acho que ele só quis gastar, que mundo careta, agora não pode mais nada”. Oras, realmente deve ser muito triste ter de parar de fazer piada dos outros. Que pena ter de se esforçar para tentar um humor mais inteligente que não dependa da humilhação do outro para conquistar audiência. Deve ser muito difícil ter de pensar em vez de apenas apontar o dedo e rir. O mundo mudou. E o humor é um dos primeiros alunos que precisa voltar pra escola ou fazer um supletivo bem intensivo para voltar à sociedade. Piada do outro é um instrumento opressor, uma arma que pode ser fatal.

Todo mundo deveria assistir à Nanette, show de stand up comedy da britânica Hannah Gadsby, em cartaz no Netflix. Mulher, lésbica, “gorda e feia” (em suas palavras). Durante anos, essa mulher fez do humor um lugar de autodepreciação. E ela diz isso logo no início. “Eu construí uma carreira com base no humor autodepreciativo. Vocês entendem o que autodepreciação significa quando vem de alguém que já existe à margem? Não é humildade. É humilhação. Eu me coloco pra baixo para poder falar, pra pedir permissão”. Querer que aceitemos esse tipo de piada não é humildade, é humilhação.

Segundo, o oportunismo baseado em exploração indevida do pink money. E é preciso, aqui, deixar um recado bem claro às marcas e artistas que viram no pink money (o mercado LGBT+ que gira em torno de 3 trilhões de reais ao ano no mundo) uma possibilidade de abocanhar uma fatia do bolo. Queridxs marcas e artistas, todo apoio é bem-vindo para fortalecer a causa de uma turma que sofre pra caralho pra estar vivo aqui hoje. E eu digo vivo, porque inteiro mesmo ninguém pode estar vivendo na pele o preconceito que LGBT+, negros, mulheres, deficientes, gordos, entre outras minorias vivem nesse mundo.

Mas estar junto é muito mais que colorir o seu logo ou pintar uma camiseta com arco-íris, ou um homem hetero se vestir de mulher ou dar um beijo forçado num outro boy. Isso não é marketing social, nem arte: é forçação de barra para fazer barulho. Não apenas se apropriem ou explorem essa causa. Querer fazer dinheiro ou oba oba em cima das manas que ralam e morrem diariamente na tentativa de ser visibilizadas é oportunismo, má-fé, falta de caráter.

Sugiro uma outra ideia. Em vez de fazer dinheiro, deem dinheiro, doem para instituições que realmente estão na luta por essas causas. Patrocinem artistas que buscam espaço para sobreviver, financiem turnês e espetáculos que endossem o seu suposto compromisso com a representatividade.

Porque de verdade, caso contrário, deixa pra lá. É mais coerente. A gente já tá na luta e morrendo há décadas sem a ajuda (ou com a omissão) de vocês. De golpistas, já estamos infelizmente fartos. Queremos respeito. Me solta Nego do Borel.

Por outro modelo de segurança

Por outro modelo de segurança

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Por Áurea Carolina e Andréia de Jesus

Marcus Vinícius tombou. Um futuro todo pela frente e nem seu uniforme foi capaz – até o menino agonizando se surpreendeu – de salvar sua pele. É que tem peles no Brasil para as quais nem o uniforme, nem a carteira de trabalho, nem qualquer outro frágil subterfúgio servem de escudo.

O Estado brasileiro – forjado pela colonização, pela escravidão e pelo patriarcado –, é genocida e empreende no país uma política de segurança ancorada na repressão, na truculência e no encarceramento em massa. A chamada “guerra às drogas” vem sitiando comunidades periféricas e intensificando sobremaneira o genocídio da população negra, com a matança sistemática de jovens negros e periféricos. Por trás dos números, das mães que choram e das vidas perdidas, uma realidade nefasta que tem origem no racismo estrutural: o sistema está programado para exterminar corpos negros antes que possam deixar frutos para a coletividade.

Relatório preliminar apresentado pela Comissão Especial do Genocídio da Juventude Negra e Pobre de Belo Horizonte [da qual Áurea Carolina foi relatora] mostra que a capital segue as médias estatísticas do restante de Minas Gerais e do país. Sua juventude está entre os públicos mais vulnerabilizados da cidade, sendo que a cada quatro jovens mortos em BH, três são negros. O relatório mostra também que todos os dias um jovem negro morre na cidade e que existe uma associação perversa entre raça, território e homicídios dessa população.

Na outra ponta, a polícia brasileira, militarizada, mata e também morre muito. O desmonte das políticas sociais agrava o quadro e Temer responde à escalada de violência com mais repressão, a exemplo da intervenção federal militar no Rio, e mais cadeias.

O evidente fracasso do modelo, com suas desastrosas e perversas consequências sociais, exige uma reflexão profunda sobre uma outra política de segurança possível. Uma política que vai além da reestruturação e da desmilitarização das polícias, da correção das distorções do Judiciário e da migração do encarceramento para um sistema efetivo de responsabilização com reinserção social. Uma política pensada a partir de ações articuladas entre o poder público e a sociedade civil, associada a políticas intersetoriais de educação, saúde, cultura, habitação, assistência social, trabalho e renda e, principalmente, participação popular, construída junto com as comunidades em busca de soluções diversas para territórios que são também diversos.

Fazer a travessia da atual política de segurança para uma política de segurança cidadã é repensar todo o Estado historicamente enraizado na lógica penal. Algo tão emancipatório e, por isso mesmo, perigoso para os donos do poder, só pode emergir da construção, da luta e da resistência popular aliada à ocupação da institucionalidade por pessoas comprometidas com o bem comum e o bem viver. Para que o Estado e a sociedade, no lugar de desenharem um alvo no peito de cada jovem negro que vive no Brasil, possam oferecer condições efetivas de acesso à felicidade, à dignidade, à justiça e à democracia.

Quem é a bichinha no baile funk?

Quem é a bichinha no baile funk?

Personagens como a bicha travestida e ridicularizada por Nego do Borel já não passam mais pelo crivo crítico de um público feminista e LGBT. Bons tempos!

 

Nega do Borelli, a caricatura da bicha poc idiotizada não convence mais.

Por Clayton Nobre, Mídia NINJA

Em seu novo clipe Me Solta, o funkeiro carioca Nego do Borel é Nega do Borelli, personagem que o mesmo cantor já havia usado em outras oportunidades. Saudosa Lacraia, muitos assim mencionavam nos comentários com teor visivelmente LGBTfóbico. A bichinha da favela que o macho ama odiar (e vice versa?). Essa personagem já conhecemos.

Diferente daquelas que se forjam com naturalidade simplesmente porque são genuinamente travestis da quebrada, como Xuxu ou Leona Vingativa, a caricatura de Nega do Borelli é uma só. Quando o homem se porta como mulher ou como gay, utiliza sempre o mesmo código, numa tendência a perpetuar uma imagem de mulher ou de “bichinha” engraçada por ser ridícula. Peça o homem para imitar sua mulher, os códigos aparecem.

Esta imagem que tanto perdura na televisão e nas mídias de massa, tomara, tem seus dias contados. Em tempos de ampla expressividade dos “corpos diversos” nos palcos da música e de outras artes, personagens como esta já não passam pelo crivo crítico de um público feminista e LGBT.

Aquela bichinha poc, chave do mais banal preconceito, o “viado mais baixo”, aquela que passa e todos riem dela, começa a virar a chave do orgulho quando ganha os espaços de expressividade na cultura. Esta bichinha poc, um parêntesis útil, é a expressão viva, dizem, de uma identidade que amedronta o homofóbico enrustido – ele se torna macho e violenta os demais justamente pelo medo de chegar à sua expressão mais feminina. O caminho mais útil é ridicularizar.

Hoje as identidades genuinamente LGBT ganham muito mais valor não somente para a representatividade, mas por uma estética reputada entre os mais severos críticos, e nós, público. Já não vale mais homens héteros e cisgêneros argumentarem “homenagem” às mulheres, como ainda escutamos de humoristas como Paulo Gustavo (as mulheres mais ridículas da TV e do cinema).

No caso da bicha preta, o poço de preconceitos e privilégios ainda é mais profundo. Quem já foi a bailes funks sabe que resiste uma expressividade de pessoas LGBT que quanto mais expostas, mais estão abertas à violência. Sabemos, portanto, qual valor há quando nos sentimos representados com artistas como Xuxu, Pepita, Linn da Quebrada. Assim como as mulheres ou outros grupos que têm ganhado ascensão a partir da invisibilidade.

Além de colocar nossas identidades em outra escala de valor, elas movimentam temas que dificilmente outros fariam. Muito diferem do másculo Nego do Borel, numa abordagem “Me Solta” sobre um assédio um tanto estranho. Um beijo gay cuja polêmica poderia traduzir um debate tão mais valioso, acaba por reforçar algumas intolerâncias.

Daniel Zen: entenda o habeas corpus expedido para Lula

Daniel Zen: entenda o habeas corpus expedido para Lula

Foto: Mídia NINJA

Sobre a decisão do Desembargador Federal Rogério Favreto, do TRF-4, respondendo pelo plantão judiciário, que concedeu liminar, em sede de habeas corpus, determinando a soltura imediata do ex-Presidente Lula, há que se considerar o que segue:

O entendimento de que é possível a prisão após decisão em segunda instância, para cumprimento antecipado da pena, antes do trânsito em julgado final da sentença penal condenatória, de fato foi firmado pelo STF.

Ainda que eu considere tal entendimento uma aberração jurídica, por ferir o princípio da presunção de inocência, tomemos ele como firmado e, portanto, válido.

Ocorre que, para que tal prisão seja determinada, ela precisa estar embasada nos mesmos requisitos que fundamentam a prisão preventiva/provisória, quais sejam:

1) prova irrefutável da materialidade;

2) forte indício de autoria;

3) risco de que o crime pelo qual o réu esteja sendo processado continue sendo praticado;

4) risco de fuga do réu;

5) risco de que o réu, solto, possa embaraçar as investigações ou a regular tramitação do processo. Sem a presença de tais requisitos, não há que se falar em prisão ou cumprimento antecipado da pena. A regra geral é responder ao processo em liberdade, até o trânsito em julgado final da sentença penal condenatória.

É por isso que dizemos que a prisão de Lula é política. Porque os requisitos para prisão após decisão em segunda instância são semelhantes aos da prisão preventiva/provisória e não se fazem presentes neste caso do ex-Presidente.

Até agora, tanto o TRF-4 quanto o STF não haviam se debruçado sobre isso: apenas haviam assentado o entendimento de que, sim, a prisão após decisão em segunda instância é possível – mas não obrigatória. Assim, decretaram a prisão automaticamente, após confirmação, pelo TRF-4, da sentença de Moro, mas não houve nenhuma fundamentação quanto à presença dos requisitos que autorizam tal prisão…

O juiz federal Sérgio Moro, no entanto, que não tem mais nenhuma jurisdição sobre o processo – e ainda por cima de férias – entrou no circuito e OBSTRUIU o cumprimento do alvará de soltura expedido pelo TRF-4.

Um alvará concedido por um Desembargador Federal não pode ser revogado por um juiz de primeiro grau. É uma inversão absurdamente ilegal: o juiz de primeiro grau decretando a incompetência do Desembargador Federal plantonista. Trata-se de um ilegal “recurso de ofício” do Moro que ele próprio julga e barra o cumprimento da decisão da instância superior. Só instância igual ou superior ao TRF-4 teria competência para obstruir.

É um dos atos mais autoritários da história do judiciário brasileiro. Um juiz de primeira instância descumprir ordem de tribunal superior. Não existe isso. Qualquer questionamento deve se dar em instâncias superiores.

O Uber Juiz, que acha que tem jurisdição sobre tudo e sobre todos, no Brasil inteiro, praticou assim abuso de autoridade, infração funcional e crime de desobediência à ordem judicial.

Com a procrastinação de Moro e do delegado da PF em dar cumprimento a decisão judicial de Favreto, o Desembargador Federal, relator do processo de Lula no TRF-4, Gebran Neto – em pleno recesso judiciário – cassou a liminar do Desembargador Favreto.

Ocorre que o HC deveria seguir seu rito processual normal. A turma – e não o desembargador relator – ou o plenário é quem teria atribuição/competência para confirmar ou suspender liminar e decidir sobre o mérito do HC. A decisão do plantonista deveria ser soberana, até manifestação colegiada.

Não pode o magistrado relator do processo na corte, em pleno recesso, monocraticamente, revogar a decisão do plantonista que neste período representa o tribunal. Ainda mais de ofício, sem ser provocado, sem recurso, sem nada. Há súmula do próprio TRF-4 na qual se afirma que o desembargador relator de um processo não pode cassar a decisão do desembargador plantonista.

A verdade é uma só: pra lascar o Lula, o PT, a esquerda e o progressismo no Brasil, vale tudo. Até desdizer o direito.

#LulaLivre
#LulaInocente
#LulaPresidente
#TemeréMoro
#MoroéTemereAecio

Marcha da Maconha e Junho de 2013

Marcha da Maconha e Junho de 2013

Foto: Mídia NINJA

No 19º episódio do programa FUMAÇA DO BOM DIREITO, falamos das “Manifestações de junho de 2013 e da Marcha da Maconha”. Pela primeira vez, o programa convidou um pré-candidato: o vereador da cidade do Rio de Janeiro Renato Cinco. Como sou pré-candidato a deputado estadual, tive a iniciativa de divulgar o lançamento da pré-candidatura de Cinco para deputado federal.

Fizemos várias relações entre esses dois fenômenos sociais, começando pelo protagonismo da juventude, que vem para as ruas de forma horizontalizada, sem aquela maneira verticalizada das organizações, como os partidos políticos, sindicatos, entidades estudantis, em convocações por panfletos e palavras de ordem definidas em reuniões comandadas por dirigentes. A Marcha da Maconha voltou a crescer nos idos anos de 2006, através do Orkut e grupos de emails, mas ainda sem dispensar os panfletos. Já as manifestações de 2013 foram organizadas com a força das redes sociais.

Foi pela mobilização nas redes que, na terceira manifestação de junho de 2013, 100 mil pessoas tomaram a avenida Rio Branco. Uma manifestação da juventude de esquerda, que lutava contra o aumento das passagens, contra a repressão da polícia, atacava o governador Sérgio Cabral, denunciava o rombo da Copa e das Olimpíadas, o assassinato e desaparecimento de pobres e negros nas favelas pela polícia militar, quando gritava “Cadê o Amarildo?”. Os aparelhos tradicionais de esquerda, mergulhados na crise do sistema de representação, não poderiam imaginar que milhares de pessoas se mobilizariam sem um único panfleto!

Trata-se de uma reflexão importante que a esquerda precisa fazer, pois outras manifestações virão, lançando mão desses novos instrumentos de mobilização. Essa mesma informatização da sociedade que trocou pessoas por máquinas, como, por exemplo, trabalhadores substituídos pelos caixas eletrônicos, os mesmos instrumentos do neoliberalismo e do capitalismo cognitivo que precarizaram o trabalho e levaram ao desemprego milhões de jovens, também serviram à mobilização contra o próprio capitalismo financeiro sanguinário.

Foi na Marcha da Maconha de São Paulo, em 2011, que conheci a Mídia Ninja: ali nascia o midiativismo, com várias pessoas transmitindo ao vivo toda a repressão policial, o mesmo midiativismo que vai emergir muito forte e é uma marca das manifestações de 2013. Advogados também surgiram na Marcha da Maconha, assim como, em grande número, em 2013, impedindo a prisão de centenas de pessoas, lutando nas ruas pela garantia constitucional e humana da liberdade de manifestação.

É a juventude que vem de todas as partes da cidade, conectada, e sente na pele a repressão do sistema policial e a política racista de Estado. É a nova multidão que nunca se sentiu representada e vem para ação direta, tomando ruas, avenidas, praças e pontes das cidades. Mas, ao que parece, o sistema de representação não acordou. O capitalismo de fortunas da ordem de cem milhões, que só gera mais acumulação, aponta para mais desigualdade social e ainda quer conviver pacificamente em meio à miséria de milhões.

Levantamos a grave situação da juventude precarizada e escravizada na venda ilegal do comércio varejista de drogas nas favelas, onde os corredores da morte estão formados com o assassinato pela polícia, amparada pelo sistema judicial penal, de milhares de jovens, negros e pobres. É urgente abrir o debate acerca da legalização da venda da maconha nas favelas, como forma de reparação social e alternativa para quem está no trabalho ilegal armado.

Leandrinha Du Art: Em um relacionamento sério com o Congresso Fora do Eixo e Mídia NINJA

Leandrinha Du Art: Em um relacionamento sério com o Congresso Fora do Eixo e Mídia NINJA

Foto: Mídia NINJA

Parecia um mundo novo, um mundo onde todos que ali habitavam, falavam a mesma língua: a língua da empatia e do respeito. Mas parecia um sonho de um lugar que estou longe de ver, onde a harmonia é regra. Andar livremente sem se preocupar com olhares e apontamentos.

Um mundo onde tenho meninos vestido de abelhinha, cores diversas, corpos variados e de manhã discutimos como vamos revolucionar a nação e em seguida vamos batucar a alegria que TRANSborda de nós num ritmo que toda dança é bem vinda, todo molejo ou não é bem vindo.

Choramos só de alegria, de contemplação, vivi o mais próximo que li sobre o arrebatamento da igreja na bíblia, corpos celestiais, de luz e de uma energia imensurável.

O amor transcende gêneros e orientação sexual, nem o frio mais tinha efeito sobre os corpos quentes que se privilegiavam em viver aquele momento.

Minha respiração, meus sussurros, minha pele pareciam mil vezes mais intensos. O gozar não é a mesma coisa, o suor brindava com energia que emanava daquele espaço.

A excitação não tinha hora o tesão era algo natural e nada programado, antes mesmo que os eletrônicos despertassem pela manhã, estávamos acordados celebrando o mais refinado e apurado sexo. A comporta de metal que se abria, fazendo com que o sol tocassem nossa cama era o batismo que selava definitivamente que naquele lugar as mais variadas formas de amar e ser amado se tornavam uma só e que não estamos mais falando de matéria e sim de sensações.

O sorriso era contagioso no café da manhã, os corpos pareciam ter sido contemplados com orgasmos múltiplos, a química parecia fazer de 400 pessoas um único organismo vivo.

Incontestável era a união de ideias e ideais, construção e celebração andando de mãos dadas. As únicas marcas que deixamos pra trás foram as do lençol todo amassado e de um box que se pudesse falar, cantaria, lavou, levou e revigorou o melhor de nos dois.

O último momento não tinha sabor de adeus, éramos eu e ele no meio do povo, como diz Karlota: Fazendo romance. Ele um piso mais baixo e eu de joelhos na cadeira de frente pra ele, seus braços me abraçaram, seus olhos me olharam, seus lábios me tocaram. Foi tudo natural, passamos despercebidos, a não ser por Karlota, mais enfim, ela tem licença poética pra gritar “OLHA O ROMANCE”, mal sabia ela que todos nós estávamos apaixonados pelos 4 dias que 400 pessoas passaram juntos. O último momento não tinha sabor de adeus e sim de um, até breve.

Bolsonaro e a Tortura

Bolsonaro e a Tortura

Charge Carlos Latuff

No 18º episódio do bate papo com André Barros, no programa FUMAÇA DO BOM DIREITO, transmitido toda terça-feira pela página do Facebook, trouxemos a seguinte chamada: “Bolsonaro apoia a ditadura militar, que torturou, assassinou e desapareceu com pessoas”.

O tema surgiu em razão das últimas pesquisas eleitorais que apontaram Bolsonaro em primeiro lugar nas intenções de voto para presidente em São Paulo, mesmo com Lula concorrendo. Agora, o sinal de alerta está ligado, pois o colégio eleitoral de São Paulo é o maior do país, com mais votos que toda a região Nordeste.

Trata-se de uma ameaça real, um perigo para o Brasil.

Infelizmente, os arquivos da ditadura militar até hoje não foram abertos e todo o movimento por memória, verdade e justiça não conseguiu mostrar ao país o que foi a ditadura militar. O líder das pesquisas em São Paulo defende abertamente esse período de 25 anos em que os brasileiros não podiam votar para Presidente da República: de 1964 até 1989. O candidato tem total consciência de todas as atrocidades ocorridas no período em que generais governaram o país e, mesmo assim, faz uma defesa da ditadura.

Bolsonaro tem pleno conhecimento de que torturas, assassinatos e o desaparecimento de pessoas consistia numa política de Estado da ditadura militar. Quando votou a favor do golpe contra a Presidenta Dilma Rousseff, Bolsonaro fez uma homenagem ao Coronel Brilhante Ustra. O referido coronel, àquela época, divertia-se colocando ratos na vagina das mulheres torturadas. Ele fez do DOI-CODI de São Paulo um dos lugares mais terríveis do país, onde milhares de pessoas sozinhas e nuas eram colocadas em paus de arara e covardemente espancadas por muitos homens. Para se ter uma ideia de como eram as torturas, o jornalista Cid Benjamim contou que, quando foi torturado, quebraram sua cabeça e deram pontos sem anestesia. O mais terrível de sua narrativa é que esse ainda foi um momento em que pôde ficar um tempo sem ser torturado enquanto era costurado sem anestesia.

A ditadura que ocorreu no Brasil fazia parte de um contexto da América Latina e do mundo, dividido, naquele período, entre os impérios norte americano e soviético. A América Latina era, e ainda é, tratada como um quintal estadunidense. Embaixadas americanas nela tramaram golpes de Estado, como aconteceu no Brasil, liderado pelo embaixador Lincoln Gordon.

A CIA mandou especialistas em tortura que davam aulas coletivas em salas com dezenas de sádicos, que assistiam ao vivo a uma sessão de tortura.

Esses agentes da polícia dos EUA mostravam em quais partes do corpo os choques eram mais fortes. Praticavam essas barbaridades com aparelhos de tortura que traziam como bagagem de mão. De forma similar, o golpe já tinha sido aplicado no Paraguai. Em 1973, os golpes de Estado ocorreram no Chile e no Uruguai, com milhares de pessoas presas, torturadas e assassinadas. Em 1976, o golpe foi na Argentina, com 30 mil mortos e desaparecidos.

Tanto a tortura, assassinatos e desaparecimentos eram políticas de Estado. No Brasil, vigorava o Decreto-Lei 898 de 1969. A lei de exceção estabelecia que um encarregado de polícia poderia prender qualquer pessoa, sem ordem judicial ou flagrante delito por 30 dias. Estabelecia que o preso deveria ficar incomunicável por 10 dias e sua prisão poderia ser prorrogada por mais trinta dias, com autorização de uma autoridade policial, por exemplo, um delegado de polícia. O juiz de direito, a autoridade judiciária, deveria ser apenas comunicada e não poderia decidir sobre a legalidade daquela prisão.

Bolsonaro sabe muito bem que tudo isso aconteceu, mas defende abertamente a ditadura militar. Ele deveria esclarecer, portanto, se, em seu governo, a tortura será, também, como foi na ditadura, uma política de Estado!

Rio de Janeiro, 29 de junho de 2018

ANDRÉ BARROS, advogado

A Provação do Presidente

A Provação do Presidente

Foto: Eduardo Matysiak

por Frei Sérgio Görgen*

Na visita fraterna que fiz ao Presidente Lula na prisão de Curitiba, ele explicou que encarava sua situação de preso político sem culpa e sem prova como uma provação.

Mais não disse e nada mais lhe perguntei.

Encuquei depois quando me perguntaram o que estaria querendo dizer o Presidente com esta expressão. Não sei. Na próxima vez, se houver, lhe pergunto.

Enquanto isto, puxo por minha memória e reflito sobre o conteúdo desta expressão ao longo de minha formação religiosa, onde este conceito é muito utilizado.

Na pedagogia franciscana, o período de noviciado, o primeiro ano de frade, é considerado “tempo de provação”. Um tempo de aprendizado, de experiências novas, de muita contemplação, muita oração, muito discernimento sobre o que se quer para o futuro e tempo de testar limites. Experimentar o novo e a capacidade de cumprir os deveres implícitos na vocação que se está assumindo.

Meu mestre de noviciado colocava como elemento de provação ser capaz de exercer a humildade no dia a dia, superar a autossuficiência e a arrogância e ser capaz de executar atividades que me eram difíceis de fazer. “Você não pode fazer só o que gosta, tem que fazer o que é preciso”. Nesta pedagogia, a provação é uma preparação para ser capaz de enfrentar limites, superar dificuldades e capacitar-se para ser fiel à vocação e exercer a missão em qualquer situação, mesmo difíceis e com sacrifícios.

Mas no cristianismo primitivo é que lembro o significado de provação mais próximo do que passa o Presidente Lula.

Nos tempos do Império Romano e dos cristãos perseguidos, provação significava ser fiel a Jesus, à fé, ao Reino de Deus, apesar da perseguição, da prisão e da tortura. Alguns casos, até à morte. Foi o tempo do cristianismo das catacumbas – esconderijos em cavernas – onde os cristãos se reuniam, se fortaleciam, celebravam, partilhavam o pão, se solidarizavam e voltavam para a missão.

Passar pela provação era não fraquejar, não desanimar, não negar e não trair.

Creio que é isto o que está vivendo Lula. E com ele, os pobres deste país, com a fome voltando, com o sistema de saúde aos pedaços, com o gás caro, com o desemprego desgraçando as famílias, com a insegurança nas portas das casas, etc, etc. E o motor da esperança trancafiado em Curitiba.

Aos cristãos daquela época, o Senhor Jesus lhes dizia, conforme o Evangelho de Mateus: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da Justiça, porque deles é o Reino dos Céus”.

E antes que me venham com aquele lugar comum de que “Reino do Céu” é uma alienação e uma quimera, recordo o que rezamos eu e o Presidente no Pai Nosso “venha a NÓS o VOSSO REINO assim na TERRA como no CÉU”.

Na vida, na prática e na pregação do Nazareno, Reino de Deus começa aqui e é vida digna e feliz, com abundância, para todas e todos.

Sairemos da provação – Povo e Lula, Lula e Povo – com luta e organização, para um longo período de profundas transformações estruturais na construção da Nação Brasileira.

*Por Frei Sérgio Antônio Görgen – Frei da Ordem Franciscana, militante do MPA e autor do livro “Trincheiras da Resistência Camponesa”

Em meio à Semana Nacional de Política sobre Drogas, Senado e PF mostraram que não entenderam droga nenhuma

Em meio à Semana Nacional de Política sobre Drogas, Senado e PF mostraram que não entenderam droga nenhuma

por Ítalo Coelho de Alencar; Rodrigo Medeiros Albuquerque Bardon; José Tiago de Queiroz Mendes Campos.

Entre os dias 18 e 26 de Junho deste ano, aconteceu a Semana Nacional de Política sobre Drogas, promovida pelo Ministério da Justiça. Quando do anúncio desta iniciativa, ainda no mês de maio, o ministro Humberto Viana anunciou, dentre outras coisas, o repasse de R$100.000.000,00 (Cem milhões de reais) às chamadas “comunidades terapêuticas”, instituições privadas que têm como fonte de lucro o tratamento de usuários de drogas ilícitas. Em sua grande maioria ligadas às igrejas evangélicas, estas instituições têm recebido críticas de especialistas pelos métodos questionáveis de tratamento, sendo algumas alvo de investigações pelo Ministério Público Federal por casos de maus tratos, cárcere privado etc. Além de pautar uma suposta preocupação com o abuso de novas drogas, ainda não tornadas ilícitas.

Na mesma semana, ocorreu na Comissão de Assuntos Sociais do Senado uma audiência pública sobre o Projeto de Lei Suplementar (PLS) 514/2017, que discutiu a legalização do cultivo caseiro de maconha para fins medicinais. Nesta audiência, dirigida pela relatora do projeto, a senadora Martha Suplicy (MDB/SP), especialistas sobre o tema, como o neurocientista Renato Filev (UNIFESP), o psiquiatra Luis Fernando Tofoli (UNICAMP), mães de crianças que utilizam a Cannabis como tratamento de suas enfermidades , e também presidentes de Associações de pacientes e familiares usuárias da planta, Cidinha Carvalho (CULTIVE) e Margarethe Guete (APEPI). Foram discutidas as possibilidades terapêuticas da Cannabis, o sucesso na utilização em tratamentos de diversos quadros, além das dificuldades enfrentadas por quem opta por esta via de tratamento, reconhecida em diversos países do mundo, mas proibida em nosso país pela lei 11.343/06, a nossa lei de Drogas.

Em meio a estes eventos, a equipe de comunicação do Senado Federal resolveu publicar em suas redes sociais, com base em uma cartilha feita pela Academia Nacional da Polícia Federal, um banner “educativo” sobre os efeitos, imediatos e do uso continuado, de diversas drogas, dentre elas a maconha. O conteúdo da imagem traziam informações equivocadas, distante da realidade empírica e científica que a planta vem mostrando. Dentre os equívocos divulgados pela Polícia Federal, há a falsa informação de que a maconha pode levar à morte. Não há registro histórico ou médico que sustente a afirmação de que o uso da maconha possa causar a morte do usuário.

A reação da comunidade científica e de ativistas pelo país foi imediata, inconformados com a falta de cuidado ao reproduzir informações sem nenhuma base na realidade, reforçando o estigma criado sobre a maconha, e dificultando o trabalho daqueles que dedicam seus esforços à desmistificar esse pensamento. Diante desta reação, a equipe de comunicação do Senado retirou do ar a publicação, mas não se retratou da irresponsável propagação de fake news.

O que mais preocupa neste caso é ver uma instituição como a Polícia Federal propagando informações sem fundamentação, que acabam por reforçar ou servindo de base para o preconceito contra drogas, desprezando o potencial terapêutico cientificamente comprovado de drogas como a maconha.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) compreende que Droga é “toda substância, natural ou sintética, que em contato com o organismo vivo pode modificar uma ou mais de suas funções”. Conclui-se, a partir do entendimento da OMS, que a maconha, assim como o álcool, tabaco, açúcar, analgéssicos, é uma droga e deve ser compreendida como tal por àqueles que optam pelo seu uso, tanto em suas potencialidades benéficas quanto maléficas. Portanto, não existe droga ruim em absoluto. Os efeitos destas devem ser observados em cada indivíduo, dentro de um contexto específico. Por exemplo, há pessoas que podem comer açúcar sem maiores problemas. No entanto, quem exagera pode adquirir diabetes ou obesidade. Com a maconha, da mesma forma! Adolescentes devem evitar seu uso, devido à interferência na sua fase de desenvolvimento cerebral. Por sua vez, há quem a use socialmente por toda a vida sem maiores danos. Outras usam no tratamento de câncer, AIDS, epilepsias, Alzheimer etc.

Segundo Burgierman, estudos mostram que as leis têm efeito insignificante na decisão de usar determinada droga. Dito isto, independente de seus benefícios ou malefícios, o que não tem eficácia é a política proibicionista, a tal de “guerra às drogas” e a falta de diálogo franco e sincero sobre um tema tão complexo, mas comum na vida de muitos brasileiros. Diversos países estão revendo suas políticas de drogas, devido a sua pouca efetividade, além dos danos sociais causados pela guerra às pessoas que fazem parte direta ou indiretamente a este ramo econômico. Uruguai, Colômbia, EUA, Canadá, dentre outros estão neste caminho, discutindo as melhores formas de cuidar das pessoas usuárias de drogas, apostando em educação para prevenir e investimento em saúde pública para cuidar daqueles que fazem uso problemático de alguma substâncias. É preciso responsabilidade com as informações divulgadas para, respeitar a autonomia dos indivíduos. O Brasil não pode mais andar na contramão!

Referências

BURGIERMAN, Denis Russo. O fim da guerra: a maconha e a criação de um novo sistema para lidar com as drogas. São Paulo: Ed. Leya, 2011.

BORGES, Helena. Comunidades terapêuticas são acusadas de tortura. O Globo. Acessado em: 28 jun 2018.

Debatedores pedem regulamentação de cultivo da maconha para fins medicinais. Senado Federal. Acessado em: 28 jun 2018.

Projeto de Lei do Senado PLS 514, de 2017. Senado Federal. Acessado em: 28 jun 2018.

CAS debate projeto que regulamenta o uso medicinal da maconha. Senado Federal. Acessado em: 28 jun 2018.

Perguntas e respostas sobre Drogas. Polícia Federal. Acessado em: 28 jun 2018.

FRENTE NACIONAL DROGAS E DIREITOS HUMANOS. Acessado em: 28 jun 2018.

Jean Wyllys: Stonewall, nosso orgulho

Jean Wyllys: Stonewall, nosso orgulho

Foto: Arquivo pessoal de Jean Wyllys

Hoje é o dia em que se comemora em todo mundo o Orgulho LGBT. Porque foi num dia 28 de junho, há 49 anos, que aconteceu o levante do bar Stonewall, em Nova York, nos EUA. Gays, lésbicas, bissexuais e trans, cansados das freqüentes humilhações e violências físicas por parte da polícia, reagiram em nome de sua dignidade, inaugurando uma nova fase do então movimento homossexual, no rastro dos movimentos de contracultura do final dos anos 60 e início dos 70, como o feminista, o hippie e o de afirmação dos direitos civis dos negros.

Comemorar o levante de Stonewall é, portanto, mais que constituir uma mitologia para LGBTs: é reafirmar as conquistas políticas e culturais feitas por aquela geração.

A herança dos anos 60 e 70 é bastante considerável e devemos defendê-la a qualquer preço contra todas as tentativas de retorno às situações anteriores. Contudo, o que nos surpreende é o fato de que essa herança, que afetou a situação das mulheres em geral e de LGBTs, ao menos nas sociedades ocidentais, não tenha alterado, definitivamente, a estrutura mesma daquilo que o sociólogo Pierre Bourdieu chama de “dominação masculina”.

Devemos, portanto, refletir não somente sobre o que mudou a partir de Stonewall, mas também analisar o que permaneceu; o que não variou e denunciar as instituições que operam para perpetuar as ordens social e sexual, promovendo, em contrapartida, o orgulho que poderá desafiar política e culturalmente essa ordem.

Por que precisamos promover o orgulho LGBT?

Porque a sociedade define um lugar estigmatizado para nós e, por causa disso, somos assim definidos coletivamente, seja qual for a maneira através da qual cada indivíduo pensa — aceita ou recusa — a sua relação com tal coletivo. Essa definição coletiva é feita, sobretudo e primeiramente, a partir do insulto que vitima “viados”, “travecos” e “sapatões” desde a mais tenra infância, quando se apresentam os primeiros sinais da “inversão”, seja a da identidade de gênero (o menino que gosta de “coisas de meninas” e vice-versa), seja a da orientação sexual (o garoto que gosta de garotos em vez de garotas ou o contrário). Cada LGBT é, assim, e desde muito cedo, ao menos potencialmente, vítima do insulto em sua própria família, na rua, no local de trabalho, em todos os lugares onde se desenvolve sua vida.

E esse insulto aparece também sob a forma de estereótipos ridículos ou difamantes em jornais, na tevê e no cinema. Tudo isso forma o que o antropólogo Didier Eribon chama de “mundo de injúrias”, responsável pela estruturação da relação da pessoa LGBT com os outros e consigo mesmo (no caso da relação consigo, é praticamente impossível não experimentarmos, principalmente na adolescência, um ódio ou vergonha de quem somosi; de nossa identidade ou desejo).

Ora, é justamente essa subjetividade (eu, caráter, identidade) insultada e inferiorizada que se deve superar por meio da afirmação de si; por meio da reinvenção da própria personalidade e da vida, num gesto pessoal e coletivo de desconstrução e ruptura das normas que nos inferiorizam. A ordem social homofóbica da cultura heteronormativa nos impõe um status inferiorizado, o que determina profundamente nossa personalidade, mas também nossa identidade coletiva.

Logo, não temos outra escolha que não aceitar(-se) e se reapropriar positivamente dessa identidade forjada pela cultura homofóbica na qual nascemos e crescemos ou então vivê-la na vergonha e na dissimulação, frutos da homofobia internalizada. Ser um LGBT “autêntico” ou “rebelde” é, portanto, sentir orgulho de si, daquilo que a cultura homofóbica e transfóbica fez de nós; de nosso desejo/afeto (orientação sexual) ou da maneira como nos percebemos e nos sentimos (identidade de gênero).

Sempre que uma minoria reivindica direitos ou tenta mexer em certas peças do jogo que lhe oprime e estigmatiza, os guardiães da ordem social – e que gozam de privilégios por conta dela – mobilizam-se para se oporem às transformações e ao progresso que a reivindicação da minoria pode trazer. E a mobilização mais frequente desses guardiães da “ordem e da moral” consiste em afirmar que as minorias estão impondo uma “ditadura” (quem já não ouviu estupidezes como a expressão “ditadura gay” ou “ideologia de gênero:?). Como se afirmar o direito à homossexualidade e transexualidade significasse impedir os heterossexuais e cisgênero de ser o que são… Essa mobilização reacionária é apenas a maneira pela qual os dominantes sempre defendem os próprios privilégios.

Não, não creio que estejamos nos dirigindo para uma sociedade melhor na qual a opressão exercida contra LGBTs desapareça por completo. Mas acredito que é possível construir espaços políticos, culturais e sociais de resistência a essa opressão. Meu mandato é um desses espaços. Acredito em resistência. Nós somos resistência!

Jean Wyllys: A história da seleção brasileira também é a história de muitas mulheres negras

Jean Wyllys: A história da seleção brasileira também é a história de muitas mulheres negras

Gabriel Jesus e Paulinho com suas mães, que os criaram sozinhas

Quem vê os craques da seleção brasileira em campo, no auge de suas carreiras como jogadores nos melhores clubes de futebol do mundo, talvez não imagine a realidade que eles vivenciaram durante boa parte das suas vidas. A mesma de tantas e tantos outros de nós.

Seja no que diz respeito às privações e dificuldades impostas por juventudes pobres, como são as da maioria dos brasileiros, seja, como ressaltam hoje vários veículos da imprensa, naquilo que diz respeito à estrutura familiar.

É interessantíssimo observar que 6 dos 11 titulares da seleção do Brasil foram criados só pela mãe, sem a presença em casa de uma figura paterna.

Essa é uma realidade que, segundo dados divulgados pelo IPEA, já é a de 40% das famílias brasileiras.

Se antes o modelo tradicional era de pai, mãe e filha (ou filho), com o aumento no número de separações e a redução na média de duração dos casamentos mais os casos de abandono pelos pais, o que está se tornando cada vez mais comum é que mulheres no mercado de trabalho passem a chefiar as casas, assumindo as despesas e as regras de criação dos filhos.

Uma situação que é particularmente mais recorrente em famílias negras, já que as estatísticas também comprovam que as mulheres negras são as que menos se casam (comparativamente às mulheres brancas) e as que mais cedo se tornam viúvas. E como o racismo alimenta a desigualdade econômica, reduzindo o valor do trabalho da população negra ou mesmo afastando de oportunidades de estudo e trabalho, estas também são as mais suscetíveis às desestruturações familiares relacionadas à pobreza, como os índices de mortes por homicídio ou deslocamento forçado.

Mulheres recebem menos que os homens pelos mesmos trabalhos. Homens negros recebem menos do que homens e mulheres brancas.

E mulheres negras recebem ainda menos que os homens negros. O ocaso é a estrutura familiar particularmente partida por histórias de dificuldade que outros segmentos da população não experimentam com a mesma frequência.

E aí é que a análise dos modelos de família se tornam importantíssimos de serem observados e para que possamos entender, de fato, as trajetórias de pessoas como Gabriel Jesus, Miranda, Thiago Silva, Marcelo, Casemiro e Paulinho, nossos ídolos no futebol.

Pois, se é verdade que as mulheres negras são desfavorecidas duplamente, pelo sexismo e o racismo, a repetição de casos em que elas são as responsáveis únicas pelos lares também significa que elas suportam com muito mais dificuldade despesas que deveriam caber em igual proporção aos homens.

Falar sobre isto é importante para que não façamos o erro de analisar as condições de vida dessas pessoas só a partir de uma pobreza idealizada e mistificada. Mas que seja possível entender essas histórias na sua real complexidade.

Quando um desses jovens brilhantes encanta o mundo através das transmissões das partidas da Copa do Mundo, como outros antes deles, o que está inscrito também nas suas chuteiras é o heroísmo de mulheres que trabalharam mais do que a média, que acordaram mais cedo do que a média, que sacrificaram-se nos seus anseios pessoais, de algumas das suas vaidades, de hábitos que são comuns a muitas pessoas e que para elas acabaram se tornando luxos.

A camisa do Brasil carrega inevitavelmente o peso de braços de mães pretas que, aos trancos e barrancos, engolindo sapos e poupando o que era possível, deu aos filhos a boa criação que em outros tempos se dizia que só um pai poderia fazer. Elas provaram ser capazes de tudo que outrora diziam que era exclusividade de homens. No futebol e em todas as áreas de conhecimento.

Mulheres negras precisam ser lembradas e enfatizadas, no que fizeram e ainda fazem nas suas vida pessoais, mas também por esse histórico de combinações das desigualdades que elas transformam em histórias dignas de cinema, porque este ainda é um país que dá responsabilidades desiguais para pais e mães e que tem uma arraigada e persistente herança escravocrata.

Mulheres negras merecem nossas honras porque ergueram o país, literalmente, nos braços.

Porque, se ganharmos a próxima Copa, na Rússia, também terá sido graças ao amor e à dedicação de Veras Lúcias de Jesus, Rosângelas Freddas, Magdas Casemiros, Delanes Alves, Marias Mirandas, Ericas Nascimentos e Marias de Lourdes Ramos

Fora do Eixo e Mídia NINJA: estado permanente de vigília e ação

Fora do Eixo e Mídia NINJA: estado permanente de vigília e ação

Foto: Mídia NINJA

A rede de iniciativas sociais denominada Circuito Fora do Eixo e sua filha mais nova, a Mídia Ninja, completou doze anos de existência e realizou o seu VI Congresso, ocorrido entre os dias 21 e 24 de junho de 2018.

Essa rede nasceu no início do ano de 2006, como uma articulação de artistas e produtores culturais em torno da necessidade de intensificar a ação de suas bandas, festivais e de tudo que gira em torno da cadeia produtiva da música independente.

Passou, aos pouco, a agregar iniciativas de outras linguagens artístico-culturais, até inserir-se nos debates de construção de políticas públicas de cultura, como sujeitos ativos, atores sociais protagonistas destes processos.

Indo além, passou a se relacionar com iniciativas de temáticas distintas à cultura, bem como com outros movimentos sociais e entidades tradicionais da sociedade civil (de sindicatos e partidos políticos a novos movimentos sociais – NMS’s), tanto no Brasil, quanto nos países da América do Sul e em diversos países de outros continentes.

O VI Congresso Fora do Eixo e Mídia Ninja passou em revista toda a trajetória destas duas redes que congregam essas diversas iniciativas, a maioria das quais não podem sequer se classificar como Organizações Não-Governamentais (ONGs), Organizações da Sociedade Civil (OSCs) ou mesmo como movimentos sociais. Muitos desses grupos (ou coletivos, como costumavam se intitular) não são sequer entidades, no sentido técnico-jurídico: não tem CNPJ, estatuto, dirigentes ou qualquer coisa que o valha ou que caracterize o paradigma jurídico das entidades da sociedade civil. A maioria delas sequer precisa ou sente necessidade de trabalhar no âmbito destes marcos de institucionalidade formal: são “organelas sociais” (que podem ou não se agrupar em células, órgãos e sistemas), que se articulam em redes, que se juntam a outras redes e assim por diante. O que tais iniciativas, tão plurais e díspares em suas temáticas, têm em comum? O experimentalismo e o progressismo, como pensamentos balizadores e fundantes de suas narrativas existenciais.

No dizer de Pablo Capilé, um de seus fundadores e maior articulador, o conjunto da obra, do acúmulo dessa trajetória representa “uma movida, um levante do Brasil profundo”. É uma “busca por um novo mundo possível”, que se constrói no desenvolvimento e ressignificação de tecnologias sociais (novas formas de relacionamento e convivência social, cultural, econômica e política a partir da apropriação e uso da tecnologia pelas massas) na busca pelo usufruto e pelo exercício de direitos e garantias sociais de novíssimo tipo, de 4a ou 5a geração/dimensão.

Negritude, periferia, ativismo digital, cultura hacker, contracultura, latinidades, feminismo, midiativismo, midialivrismo, inserção dos novíssimos movimentos sociais na política eleitoral como estratégia de ocupação de espaços foram somente alguns dos temas debatidos nos quatro dias do congresso, dentre muitos outros.

Como militante fundador e atual colaborador e entusiasta dessas redes, verdadeiras trincheiras da resistência em tempos de golpismo e retrocessos democráticos, atendo a mais um chamado para um “estado permanente de vigília e ação”, visando retomar a hegemonia do pensamento progressista na América Latina.

Fake news, democracia e redes sociais

Fake news, democracia e redes sociais

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Quarta-feira passada (21 de junho), os internautas brasileiros foram surpreendidos com a notícia de que a Rede Globo de Televisão havia solicitado ao Twitter a retirada de imagens, gifs e memes produzidos a partir de prints de conteúdos de sua programação. Pedido que causou estranheza. Ainda que indiretamente, a reprodução desse tipo de material vem servindo como uma ferramenta de propaganda para a emissora.

A explicação para o episódio veio já no dia seguinte. Não foi a Globo a realizar tal solicitação, mas sim usuários fakes do Twitter, que se passaram por funcionários da emissora e denunciaram os conteúdos por infração de direitos autorais, pedindo sua retirada e punição a quem os produzisse e compartilhasse.

Apesar de rapidamente esclarecido, tal episódio contém um elemento de significativa relevância. Uma das mais importantes redes sociais existentes conseguiu ser enganada por simples usuários. Mais do que isso, dispôs-se a censurar conteúdo sem checar se os denunciantes eram efetivamente representantes da Globo – é bastante provável que tenham aceitado a denúncia apenas por se referir à maior emissora de televisão brasileira.

Esse episódio acaba servindo como síntese para o momento que vivemos, quando o tema das fake news suscita preocupações e expõe riscos incidentes sobre o processo eleitoral que se avizinha.

Em 2013, as redes sociais brasileiras serviram de meio para a proliferação de um boato que especulava sobre o encerramento do Bolsa Família. Como consequência, milhares de famílias cadastradas no programa acabaram por procurar agências bancárias e da Previdência para sacar seus benefícios. As filas formadas ilustraram o desespero de quem depende dessa política para sobreviver.

A consciência da gravidade de casos como esse apenas ressalta o fato de que redes sociais são uma realidade, que vieram para ficar e que são e serão uma essencial ferramenta na disputa política. Nossa disposição deve orientar-se, portanto, a que seu emprego ocorra sem que se criem desequilíbrios e se corrijam eventuais desigualdades de forças.

O caso de Lula é emblemático. A intensa perseguição imposta a ele por mídia, Judiciário e Ministério Público fez com que a taxa de rejeição a sua figura pública alcançasse mais de 50% em fins de 2016.

Foi aí que Lula desencadeou suas Caravanas políticas, ignoradas pela mídia tradicional mas cobertas com fervor pela comunicação alternativa. A situação se reverteu de tal modo a que hoje, mesmo preso, Lula figure como franco-favorito à disputa para a Presidência da República.

Não resta dúvida que o gesto de Lula, de se pôr a marchar pelo país, tenha sido a causa fundamental para que o PT “saísse das cordas” e virasse o jogo. Foi nas redes sociais que se travou a disputa de narrativas: militantes conectados enfrentaram a omissão ou a antipatia da mídia tradicional no rádio, na tevê, nos jornalões, e pautou para o Brasil, por exemplo, os ataques sofridos pela Caravana de Lula no Rio Grande do Sul e no Paraná.

A prisão de Lula, as extraordinárias imagens de sua comunhão com o povo nesse processo, o ato religioso em São Bernardo, a “carta testamento “ antes da prisão, todas essas passagens da história online alcançaram o país pelas redes, impactaram a população em seu coração e transformaram em jornada épica o que seria apenas humilhação e derrota.

O sucesso da campanha #LulaLivre está presente nos inimagináveis percentuais de intenção de voto que cada pesquisa eleitoral apresenta à opinião pública. Hoje, sim, o povo quer votar em Lula e quer saber quem matou Marielle. Acha, sim, que as eleições podem melhorar a situação do país. E julgam, pasmem todos, a reputação de Moro muito pior que a reputação de Lula.

A compreensão da força das redes intensifica o pleito de que as redes venham a ser um ambiente comunicativo saudável, controlando e reduzindo as fake news. Nesse sentido, é esperado que surjam as chamadas “agências de checagem”, instrumento já empregado em eleições anteriores para verificar veracidade e plausibilidade das notícias na rede, inclusive alegações e propostas de candidatos.

Tais agências funcionam, portanto, como instrumentos de “freios e contrapesos”, essenciais à democracia. No caso das agências contratadas pelo Facebook, cabe reconhecer o esforço de incluir figuras e institutos de credibilidade – como reconhecido, por exemplo, por Luís Nassif.

Cabe, porém, refletir sobre o poder conferido a tais agências. A alternativa proposta pelo Facebook não se ocupa de apenas classificar notícias como verdadeiras ou falsas, dando a oportunidade para que o leitor, o internauta, o eleitor, decida por si próprio como proceder com a fonte. Ela vai além, classificando a própria fonte como disseminadora ou não de fake news.

As consequências dessa medida ficaram evidentes em caso recente, quando um consultor do Papa Francisco presenteou Lula com um rosário abençoado pelo líder católico. O caso rapidamente foi tratado como fake news, punindo-se não a notícia, mas páginas que a compartilharam – páginas que sequer eram a fonte original das informações. Mesmo com o episódio esclarecido, restaram sobre tais fontes a pecha de mentirosas, contra a qual terão que combater por muito tempo.

Menciono esse aspecto também para lembrar as insuficiências da estrutura jurídica para lidar com esse novo fenômeno: corremos o risco de ter que lidar ou com disposições excessivamente engessadoras ou inteiramente vazias de consequências.

Sobre esse último aspecto, lembre-se episódio ocorrido em 2014, na véspera ao segundo turno da eleição presidencial, quando a revista Veja antecipou sua edição e estampou em sua capa dias antes do pleito fotos de Lula e Dilma com a epígrafe “Eles sabiam de tudo” sobre a Operação Lava-Jato. A redução da votação de Dilma no Sudeste sem dúvida refletiu essa operação de difusão de boatos.

Vale perguntar: houve alguma punição para o episódio? Claro que não.

Por outro lado, também essa semana vimos o atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Luiz Fux, dizer que fake news podem provocar a própria suspensão de uma eleição.

Se as fake news exigem tamanha preocupação do TSE – e creio que mereçam – o tribunal deveria estender sua atuação não apenas às redes sociais mas à comunicação política como um todo. Em particular para evitar que casos como o de 2014 se repitam.

Em tempos de golpe progressivo, como o que se iniciou em 2016, esse cuidado é absolutamente indispensável. Para que não se tornem as fake news o pretexto atualizado para cassar a soberania do povo e mudar os resultados das eleições de 2018: que apontam a cada dia como hipótese mais provável uma grande vitória da esquerda para o Brasil!

100 dias sem Marielle e Anderson: a quem interessa?

100 dias sem Marielle e Anderson: a quem interessa?

Foto: Mídia NINJA

Por João Tancredo, advogado das famílias de Marielle Franco e Anderson Gomes

Hoje completam-se 100 dias sem Marielle Franco e Anderson Gomes. Até o momento, as investigações não trazem nada de concreto sobre a autoria e a motivação do crime. Por trás do afinco de investigadores policiais realmente comprometidos, há apenas demagogia e omissão dos governos estadual e federal. Frente a assassinos altamente profissionais, vemos especuladores irresponsáveis apresentarem suspeitos antes das provas, invertendo o processo.

Os familiares das vítimas preferem um culpado solto a um inocente preso. Inadmissível, porém, é a displicência diante da brutal execução que continua a assombrar nossas cabeças. Todos os dias. Sem arrego. Essa é a vitória parcial dos assassinos. Mas, desgraçadamente, é também o combustível que impulsiona a busca por justiça. Essa era a tradição de luta, secular, que Marielle seguia e reinventava. Cotidiana e coletivamente. Esse é o seu legado e ele grita: basta! Mova-se! Quem é capaz de ignora-lo?

Favelada, mulher, negra, feminista, lésbica, íntegra, militante de esquerda, defensora dos direitos humanos, revoltada contra as injustiças e indignada contra todas as opressões, Marielle obteve 46 mil votos e conquistou o posto de vereadora para dar lugar a essas falas historicamente negligenciadas. Dona de um espírito coletivo que a distanciava das mazelas do personalismo, fez de seu gabinete uma rede, um exercício de participação popular com forte protagonismo de mulheres, a mandata. Marielle era semente e personagem concreta da inovação política que tantos idealizam por aí.

Graduada e pós-graduada, Marielle era uma intelectual orgânica do seu tempo e do seu povo. Inconformada com as tragédias que predominantemente atingem pretos e pobres, geradas em nome da guerra às drogas e da privatização dos territórios do Rio de Janeiro, Marielle agia na ponta e lutava para transformar o todo. Ao mesmo tempo, acolhia as vítimas nas emergências, denunciava as estruturas que fabricam a “guerra” – a qual definia como política sistemática de exclusão e punição de pobres – e propunha políticas alternativas para a segurança pública e a garantia de direitos.

Ainda assim, Marielle não conseguiu escapar do genocídio do povo negro e do extermínio de defensores de direitos humanos que assolam o Brasil. E que ela denunciava.

Ainda assim, Marielle não foi protegida pela segurança militarizada que avança pela cidade. E que ela advertia não funcionar para o povo.

Ainda assim, há quem tergiverse ou se mantenha displicente quanto ao significado da execução de Marielle. Por má-fé, conveniência, antipatia política ou mesmo inocência.

A quem interessa?

Cinco anos depois de junho de 2013

Cinco anos depois de junho de 2013

 

Foto: Mídia NINJA

Em cinco anos, muita coisa aconteceu na política brasileira. Muita coisa mesmo, mal dá pra acompanhar tantas reviravoltas e acontecimentos, mas lembrar das mobilizações em junho de 2013 nos ajuda a entender o momento que estamos vivendo hoje. Naquele ano, as grandes mobilizações assustaram o Estado brasileiro e a classe dominante, afinal fazia muito tempo que não víamos tantas pessoas nas ruas protestando e por pautas progressistas. As mobilizações que estavam relacionadas às altas taxas do transporte público também buscavam a melhora dos serviços públicos de saúde e educação, eram contra a violência policial e também dialogavam com a descrença no sistema político, representado na crítica a corrupção. Nessa época eu morava em Natal, que assim como Porto Alegre, Goiânia e outras cidades, já vivenciava grandes mobilizações contra o aumento da passagem antes do processo começar em São Paulo e ampliar a quantidade de gente na rua, de uma forma nunca antes vivida por minha geração. Lembro que conversava com militantes de várias cidades do Brasil, e o sentimento de esperança e alegria por estar vivenciando essa efervescência nas ruas era partilhado em nós que já lutávamos e nos organizávamos para transformar o país.

Por outro lado, esse processo gerou medo do lado de lá, os poderosos se preocupavam com o que poderia resultar os protestos de junho. Rapidamente, o Estado brasileiro e a burguesia aprenderam a lidar com a situação. Até 13 de junho, a linha era a mesma que sempre existiu, criminalização e repressão. Como os atos não paravam de aumentar e com a emergência da mídia popular que cobria em tempo real e de dentro as mobilizações, a grande mídia se viu encalacrada no seu próprio discurso. Para se safar realizou um giro coeso e passou a apoiar as manifestações enquanto disputava seus objetivos. A tal PEC 37 (que propunha retirar o poder de investigação criminal do Ministério Público) e a luta contra a corrupção passou a ser evidenciada pela grande mídia como as bandeiras principais dos atos. Hoje essa pauta histórica da esquerda, segue sendo usada no golpe pela direita de forma demagógica.

A grande mídia, também apontava as diferenças entre manifestantes, caracterizado como os cidadãos de bens, e criminalizava os “vândalos” mascarados, os sindicalistas e partidários apontava como oportunistas reforçando uma linha individualista contrária às organizações políticas. Nesse sentido, os grupos políticos novos, que apontavam a corrupção como a pauta principal dos atos e, teoricamente, sem nenhuma relação com partidos passaram a ser referenciados pela mídia. Com grandes investimentos por trás, grupos como MBL e Vem pra Rua aprenderam nesse período a usar as Redes Sociais para promover e disputar, junto com a grande mídia, as mobilizações. Mesmo que o animo inicial dos protestos fossem progressistas, o contexto de pouca capilaridade das organizações de esquerda e de baixa consciência política tornava os protestos ideologicamente ecléticos e, portanto, abertos para a disputa de suas bandeiras e rumos. E a direita aprendeu a disputar os protestos, tornando os atos de junho politicamente difusos na medida em que cresciam. Deste modo, em um determinado momento havia no mesmo metro quadrado militantes de esquerda e de extrema-direita disputando os atos. De junho pra cá, principalmente a partir de 2014 nas eleições, e com a tentativa de desestabilização do governo Dilma em 2015, houve um processo de decantação e polarização, ou seja, as mobilizações foram assumindo maior identidade política. Desde então, temos visto os atos nitidamente de Direita (Fora Dilma e após o Golpe, estão com dificuldade de continuar mobilizando durante o desgoverno Temer, mas continuam agindo contra Lula e se preparando para o processo eleitoral) e atos abertamente de Esquerda (Fica Dilma, Fora Cunha, Fora Temer, Greve Geral, Lula Livre).

E pensando em como nossos inimigos aprenderam com junho de 2013, observamos na maioria das cidades uma ação mais branda da polícia depois do dia 13, pois existia uma preocupação na repercussão cada vez maior da repressão e violência policial. Porém, esse recuo foi apenas momentâneo. Um estudo lançado esse mês pela “Artigo19” demonstra como os instrumentos de criminalização e violência aumentaram nos últimos cinco anos, assim como a democracia vem diminuindo no país. Diversos projetos de lei passaram a criminalizar ainda mais as mobilizações como a proibição do uso de máscaras, lei contra o terrorismo que na realidade age contra as organizações populares, lei contra o bloqueio de vias públicas, a burocratização do aviso prévio do trajeto nos atos. E ao mesmo tempo, a ação de vigia da polícia passou a contar cada vez mais com o mapeamento das redes sociais, filmagem dos protestos, infiltrações (como o caso Balta, nome usado pelo capitão infiltrado através do Tinder que deteve 18 jovens por supostas ações que eles iriam realizar em atos contra o golpe, novos armamentos pesados (blindados de Israel, traje robocop) e o uso de armamentos “menos letais” de forma indiscriminada (um grande perigo, foi por esse tipo de ação que a Deborah Fabri perdeu o olho esquerdo com uma bomba de efeito moral).

Além dessas ações coordenadas entre as Polícias, o Exército e a Agencia Brasileira de Inteligência, o sistema de Justiça também contribui com a criminalização dos movimentos sociais ao realizar censuras prévias de greves e atos através de interditos proibitórios, da proibição de protestos, condenações de manifestantes, culpabilização das vitimas pela repressão policial, ao mesmo tempo em que não investiga os abusos da polícia. É importante ressaltar que toda essa atualização na criminalização das organizações populares foi fundamental no processo do golpe e está totalmente relacionada a uma antiga estrutura de segurança pública marcada pelo racismo, pela relação corrupta com o tráfico de drogas e com a repressão da ditadura militar. Assim, Rafael Braga foi condenado, estamos com mais de 90 dias da morte sem explicação de Marielle Franco e Lula é preso político desde o dia 7 de abril.

Mas, Junho de 2013 também ensinou muito pra esquerda brasileira. Junho de 2013 foi a primeira experiência de luta para muita gente, um processo importante pra mudar a forma como o brasileiro lida com a política, apenas na urna. Ir para rua e protestar, passou a ser uma experiência cada vez mais comum pra juventude. Depois de junho vivenciamos lutas feministas, contra Cunha e a Cura Gay, ocupações de escolas e a resistência ao Golpe. Foi um momento onde se evidenciou a falência de uma prática política burocratizada e institucionalizada na esquerda. A crítica à velha política e aos discursos nos carros de som demonstrava a necessidade de inovar, da criatividade e a importância da articulação da arte e política, encontramos caminhos com a batucada, teatro, faixas e repensando o diálogo com o microfone, os Slams, as batalhas de Rap e diversos artistas e expressões culturais da juventude crescem relacionando a poesia com a política. Mas junho também demonstrou a importância das organizações de esquerda que atuam na política brasileira por décadas e com sua experiência ajudaram a resistir contra o fascismo e a disputa da grande mídia e da direita nos atos. É importante lembrar que as manifestações continuaram em julho, mobilizados pelos sindicatos, movimentos e partidos que não baixaram suas bandeiras no período e foram fundamentais na resistência ao golpe nos últimos cinco anos.

Unir “Junho” e “Julho” é a grande lição de 2013, ou seja, a nova geração que se formou a partir de junho apontando a necessidade de inovar não deve desprezar o acúmulo histórico das organizações populares que se forjaram nos últimos 40 anos, assim como essas organizações devem se abrir para o novo e resgatar o acúmulo histórico da organização popular e do trabalho de base. Unificar essas gerações de lutadores em torno de um projeto popular para o Brasil, é única forma de vencermos o Golpe. Cinco anos depois de 2013, o processo eleitoral que se aproxima aponta grandes possibilidades de dialogo com o povo, de conscientização e de criatividade, mas ir além do convite ao voto é uma lição que junho nos trouxe. Nesse sentido um caminho que estamos trilhando é a construção do Congresso do Povo, um espaço de dialogo e luta que muito me anima.

Por fim, acho que o maior aprendizado que junho de 2013 me trouxe foi a esperança no povo, nesse momento onde nossos inimigos estão ganhando diversas batalhas e vemos cada vez mais a democracia como a conhecemos diminuir, é importante ter animo e saber que em junho de 2012 ninguém apostaria que teríamos tantas pessoas nas rua defendendo pautas progressistas. Assim como não apostaria que a morte de Marielle Franco daria tanta repercussão ou que depois de tanto massacre midiático e perseguição jurídica, o Lula continuaria ganhando nas pesquisas. Temos que nos preparar, pois existe um fogo no povo e nós temos que estar prontos para ascender esse pavio e alastrar essa chama!

André Barros: Direitos humanos e fascismo

André Barros: Direitos humanos e fascismo

Foto: Mídia NINJA

Ontem, falamos sobre Direitos Humanos e Fascismo, no episódio n. 17 do bate papo com André Barros no programa “Fumaça do Bom Direito”, que ocorre toda terça-feira, às 21 horas, na minha página.

Inicialmente, buscamos demonstrar que os Direitos Humanos não são, como se mente repetidamente, a defesa do comunismo, do socialismo, a defesa de bandidos: tudo isso não passa de difamação. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é na realidade uma declaração contra o fascismo. O mundo viu onde chegou a teoria da superioridade e inferioridade de raças. Quando os campos de concentração foram sendo libertados, a humanidade viu-se frente a frente com o holocausto, e tomou conhecimento de até que ponto de barbárie a humanidade havia chegado. O fascismo e o nazismo conseguiram unir dois polos antagônicos da geopolítica mundial da época. Uniu capitalistas e comunistas, liderados pelos dois gigantes imperialistas, os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), a fim de impedir a volta das atrocidades do nazismo.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em 10 de dezembro de 1948, por 58 países, foi uma carta contra o fascismo e o nazismo no mundo. Os Direitos Humanos foram explicados por Norberto Bobbio, como direitos conquistados no processo histórico. Os de primeira geração vieram contra o Absolutismo, regime onde as pessoas eram condenadas sem defesa, através de confissões sob tortura legalizadas, com forca e esquartejamento em praça pública, conforme descreve a execução de uma sentença, Michel Foucault, em “Vigiar e Punir”.

Os Direitos Humanos de segunda geração vieram para reduzir as desigualdades sociais e regionais produzidas pelo capitalismo. Esses colocaram um limite ao número de horas diárias de trabalho, estipularam um salário digno para viver com o necessário, estabeleceram o direito à saúde e à educação pública. Os Direitos Humanos de terceira geração estão relacionados a direitos difusos e coletivos como o direito à água, à informação e à mobilidade urbana.

O fascismo volta a avançar no mundo, com Trump nos Estados Unidos e com os nazistas ocupando a terceira maior bancada na Alemanha. No Brasil, Bolsonaro, junto com uma bancada de 100 deputados militares, quer governar o país defendendo as políticas da ditadura militar. Durante esse terrível período de nossa história recente, a tortura, o assassinato e o desaparecimento de pessoas consistiam numa política de Estado. Em 1969, foi editado o Decreto-Lei 898, em que um encarregado de polícia podia prender e deixar incomunicável por trinta dias qualquer pessoa, sem mandado judicial ou em flagrante delito.

Não sabemos quem matou e mandou matar Marielle Franco. Mas sabemos que foi esse discurso de ódio que faz do Brasil um dos países do mundo onde mais se mata negras, mulheres, lésbicas, defensoras de direitos humanos e militantes de esquerda, tudo o que Marielle era. Temos de fazer uma grande bancada de defensores de direitos humanos, que já vêm enfrentando o crescimento do fascismo no Brasil, no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas estaduais.

Henrique Vieira: Ser a favor da vida é ser a favor do aborto legal

Henrique Vieira: Ser a favor da vida é ser a favor do aborto legal


A criminalização do aborto, não reduz o número de abortos praticados em nosso país. E além disso, acaba gerando muitas mortes porque muitos abortos são feitos de forma insegura, são feitos de forma clandestina. Inscreva-se e assista agora a coluna completa do Pastor Henrique Vieira no canal da Mídia NINJA!

Carlos Minc: Mar de Plástico

Carlos Minc: Mar de Plástico


A poluição gerada nas cidades chega aos oceanos: os plásticos são as maiores ameaças ao ecossistema marítimo. Carlos Minc explica alguns mecanismos para diminuir o impacto desses produtos no meio ambiente em sua nova coluna da Mídia Ninja.

Quanto custa seu outfit – a quem interessa essa onda?

Quanto custa seu outfit – a quem interessa essa onda?

Gil Sotero e seu outfit luxuoso – estilo que usa há mais de 3 anos, “por não se ver representado entre os blogs de moda masculina, na maioria brancos, que só mostram marcas inacessíveis e desfiles fashionistas”. Imagem acervo.

O poeta Manoel de Barros já bem disse: lugar sem comportamento é o coração. Ai meu coração![sabe quando a gente só consegue pensar com palavrões?] Então. Isso. Nem palavras encontrei pra reagir verbalmente a essa onda. Senti: “caramba, nessa situação desesperadora em que cerca de 200 milhões de brasileiros vivem, a gente tem que ver isso? Mas decidi que nem vou entrar nesse “blablabla”, porque né, respeito pra mim está acima de tudo e todos. E também ok ok, a gente vive pra se agradar! Mas na boa: qual percepção ter de uma pessoa que chega a ficar dezenas de horas em uma fila pra comprar um tênis caríssimo [e ainda conta o que fez]? Risos.

Será que é alguma anomalia? Egocentrismo? Estratégia de autopromoção?

Todos os observadores do momento sabem que as marcas gigantes perdem a cada dia mais importância, e quem ganha destaque são as pessoas. Enquanto a galera sustentada pelos pais do vídeo brasileiro “Quanto custa o outfit?” sai por aí gastando uma grana pra se autoafirmar, e fazer papel de andante-cafona como outdoor de marcas, uma galera milionária com fama internacional, que é produtiva e inteligente, frequente na mídia mundial, sai em defesa do meio ambiente, da compra consciente, e cola nas marcas totalmente clean.

Tsc tsc, brasileiros têm que deixar de ser consumidores passivos. Essas roupas e acessórios que pensam ser exclusivas, têm uma estética que veio da rua [mais popular impossível], e não, não são feitas em pequenas quantidades por serem especiais, mas por ter muito pouca gente, digamos, emocionalmente/mentalmente limitada, que se propõe a pagar tipo mais de 15 mil reais em um moletom, cerca de 500 reais em um boné ou meia, 18 mil em um relógio, no mínimo mil em um tênis… e tipo 1k em bolsinhas uó, e várias outras pecinhas tipo nada a ver. [Ta. Não posso chamar pessoas de idiotas porque elas têm o direito de escolher o que fazer com o dinheiro dos pais. Chamo de ostentadores, ultrapassados, seres errantes, “pobres” coitados…].

Enquanto nós, os comuns, nos dedicamos a levar uma vida mais significativa, verdadeira, criando realidades novas, um adorador de maxietiquetas tem muito pouca intimidade com o fato de nascer e viver sua própria existência. Por isso, bora apreciar a nossa liberdade, sem moderação, porque um devoto dessa onda, um “hype beast”, não sai de casa sem se “montar” de cifras, e o que é pior, com certeza não pode sair repetindo o uso das mesmas peças entre seu grupo.

Na verdade é muito erro em um pensamento só. E se é pra falar em pompa vejamos: a duquesa de Cambridge, Kate Middleton, tem mais poder e grana do que qualquer um desses aí, certo? Mas ela sempre repete suas roupas e usa [e aparece em público] vestido de 90 euros. Muito tranquilamente. Isso significa que roupa é business, mas moda é mais.

Ainda bem que, paralelo ao mundo pior está o mundo melhor!

Nunca assumir nosso próprio estilo foi tão poderoso. Eleger nossas afinidades particulares, racionalizar e humanizar o nosso próprio cotidiano.

Vivemos um processo de construção de futuro desejável, onde a onda real é potencializar os saberes. Nosso conhecimento de nós mesmos é como as PANCs – e existem mais 5 mil delas no Brasil. Quero dizer que sim, podemos ser o que, como e se quisermos. Isso não tem preço.

Às vezes, a sensação geral é que ser feliz nunca foi tão fácil, mas agora está mais difícil.

Ser bacana nos anos 80, – em plena onda do dress-for-sucess [vestir para o sucesso] ou o power-dressing [vestir para o poder]- era ser megaconsumista. Hoje, bacana é quem já descobriu que o indivíduo é mais importante que a roupa, e escolhe muito, repensa o uso, e consome o mínimo. Não gasta, mas investe.

São facetas culturais desvendadas pela moda, que garantem alegria na alma. Então né, vamos falar de valor e não de preço?

Quanto vale o seu estilo? Quem responde lindamente essa questão é o cicloativista Gil Sotero. Ele compõe seu outfit misturando peças de brechó, ou feitas localmente ou até por ele mesmo.

E conta: “outfit é uma expressão através das roupas. Roupa é uma linguagem pra mim. Meu outfit é para ajudar a desenvolver um estilo descobrindo possibilidades dentro do dress code masculino e também para mostrar que é possível se vestir se sentindo bem, sem arruinar as finanças. Gosto de resgatar também a história das roupas e como elas foram feitas”.

E você, conta/envia pra gente: quanto vale o seu estilo?

Do outro lado da estrada, uma visão contracolonizadora do modelo rodoviarista

Do outro lado da estrada, uma visão contracolonizadora do modelo rodoviarista

Povo krain-a-kore à beira da rodovia Cuiabá-Santarém (BR-163). Orlando Brito/03-03-1974

por Áurea Carolina e Rafa Barros

A paralisação dos caminhoneiros e a greve dos petroleiros escancarou, para além do desmonte e da venda do setor energético brasileiro e da inoperância do governo ilegítimo, o fracasso do modelo rodoviarista e sua consequente dependência do petróleo. A opção por esse modelo vem desde o governo JK, foi ampliada durante a ditadura militar e exacerbada com a privatização – e também o desmonte – da malha ferroviária nos anos FHC, como nos mostra o excelente artigo publicado pela socióloga Fernanda Regaldo na Revista Piseagrama. É uma opção que nos leva a gastar mais, poluir muito e morrer aos milhares. Uma opção não somente predatória, mas colonizadora, tanto por aumentar a dependência econômica do Brasil no contexto internacional quanto por devastar territórios e modos de vida dos povos e comunidades tradicionais.

O não reconhecimento das diversas formas de vida, aliás, é uma condição da colonização. O projeto colonizador não é de convivência, encontro ou partilha – como alguns discursos hegemônicos tentam romantizar desde a invasão portuguesa. Ele pressupõe que existem grupos que, por terem mais poder econômico e, portanto, mais “poder de fogo”, também seriam superiores em termos culturais, simbólicos, étnico-raciais e religiosos, e que têm o direito – divino – de subjugar, massacrar e aniquilar.

O mestre quilombola Antônio Bispo dos Santos, o Nego Bispo, nos diz em Colonização, Quilombos: modos e significações: “(…) as pessoas afro-pindorâmicas foram e continuam sendo taxadas como inferiores, religiosamente tidas como sem almas, intelectualmente tida como menos capazes, esteticamente tidas como feias, sexualmente tidas como objetos de prazer, socialmente tidas como sem costumes e culturalmente tidas como selvagens”.

Na década de 1970, o governo militar estabelecia como prioridade a abertura de estradas no norte do país e a propaganda oficial vendia à população a ideia de um Brasil em desenvolvimento, orgulhoso de seu crescimento e da integração com suas áreas mais remotas. O que o ufanismo escondia era o genocídio de cerca de 8 mil indígenas, exterminados sobretudo nas frentes de construção de estradas. O número foi revelado em 2013 pela Comissão Nacional da Verdade, sabendo que a precariedade dos registros é ainda um obstáculo para a averiguação do tamanho real dessa matança.

A Transamazônica, a Perimetral Norte e as BRs 174 e 163 deixaram pelos caminhos abertos um rastro de destruição não apenas de vidas, mas de modos de vida, de existências inteiras. A Comissão apontou, por exemplo, o extermínio quase total do povo Jiahui e dos índios Yawarip, um sub-grupo Yanomani, de boa parte dos Tenharim e dos Wairimi-Atroari. Muitos sobreviventes passaram a trabalhar nas obras em regime de escravidão.

A opção rodoviarista-colonialista não se encerrou com o fim da ditadura militar. Em 2017, a comunidade quilombola Abacatal, do Pará, entrou com ação na Organização Internacional do Trabalho para tentar impedir a construção da rodovia ironicamente chamada Liberdade, que impedirá o acesso a seu território tradicional. No mesmo ano, o Conselho Indigenista Missionário denunciou a ameaça que a construção da estrada Puerto Esperanza – Iñapari, na fronteira do Brasil (Acre) com o Peru (Madre de Dios), traz a povos indígenas amazônicos.

A dicotomia entre natureza e produção, presente e futuro, sagrado e profano, vida e morte, indivíduo e comunidade são fruto da cosmovisão ocidental eurocêntrica, construída a partir da temporalidade linear. Para os povos e comunidades indígenas e quilombolas, o tempo é circular – ou espiralar – e, na roda infinita da vida, o que foi ainda é, e o que é será. Ou seja, passado, presente e futuro não se dividem, e o território ancestral é sagrado, inviolável, é o chão dos mortos, da comunidade e dos descendentes. É para a comunidade que se vive, se trabalha, se cria: “eu sou porque nós somos”. Do outro lado da estrada, portanto, na cosmovisão afro-pindorâmica, para ficarmos com a expressão de Nego Bispo, o individualismo dá lugar ao bem comum, a destruição à convivência com a natureza, a busca pelo lucro à busca pela autossuficiência.

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É urgente defendermos a soberania popular sobre o setor energético brasileiro. O tamanho da crise, no entanto, deve nos convidar a uma reflexão mais profunda sobre o modelo de transporte adotado no país e de sociedade que estamos construindo. O que assistimos diante do caos causado pela paralisação dos caminhoneiros, do crime inacreditável e até hoje sem responsabilidade imputada da Samarco/Vale em Mariana, dos conflitos no campo, do genocídio dos povos indígenas e da população negra, é o colapso de um modo de vida que privilegia alguns poucos em detrimento das maiorias sociais e que se tornou insustentável e incompatível com a felicidade e a sobrevivência. Temos muito a aprender com os povos e comunidades tradicionais. Saberes que as rodovias – a mineração, o agronegócio, a especulação imobiliária, a urbanização predatória… – insistem em ameaçar e destruir.

Rússia e esporte, mais do que um xadrez

Rússia e esporte, mais do que um xadrez

Foto: Pxhere.com

Reportagem especial de Nicolás Cabrera para ON CUBA / Tradução Thais Tostes

O passado da Rússia é imprevisível. Winston Churchill, famoso em frases de calendário, definiu o gigante europeu como “um enigma envolvido em um mistério dentro de um enigma”. É que a Rússia parece ser uma das nações mais estudadas e menos compreendidas. Se conhece suas greves de trabalho e as vanguardas artísticas. Há lembranças de lutas camponesas e czares excêntricos. Os líderes políticos são contados em quantidade, bem como as canetas literárias que empoeiram as bibliotecas. E, mesmo assim, a história da Rússia é criptografada como um código da KGB.

Há outra chave para a leitura: o esporte. Se pensado como pão e circo, ou como uma grande feira de nações, o esporte sempre fala das sociedades que o praticam. Poucas semanas depois do início da Copa do Mundo no maior país do planeta, nós nos juntamos à onda que pergunta por que o evento esportivo mais global será disputado na Rússia. Tradição ou novidade? De Lênin a Putin, o que há com os russos e o futebol?

Nem o esporte nem a Revolução Soviética começaram em 1917. As causas do ataque bolchevique ao céu czarista devem ser procuradas, pelo menos, na Primeira Guerra Mundial. Para o esporte e o futebol, você precisa retroceder ainda mais. Os primeiros jogos de futebol datam de 1860.

Quando o século 20 estava apenas começando, os russos já tinham uma liga nacional de futebol, que tinha o primeiro campeão em São Petersburgo. Nesse mesmo, ano o selecionado estreia contra a Finlândia nos Jogos Olímpicos de Estocolmo. Nos peitos empinados de atletas, lê-se Российская Империя: Império Russo.

Com a tomada do palácio de inverno em 1917, começa outra etapa. A Rússia czarista começa a morrer, enquanto a URSS tenta nascer. Uma transição foi transformada em guerra civil. O esporte assume um papel pedagógico, militar e moral. Procura educar, ensinar e curar.

Nikolai Podvoisky, responsável pelo treinamento militar, incorpora a obrigatoriedade da ginástica. Xadrez, passatempo fetiche de Lênin, tem o seu primeiro campeonato nacional em 1920. Confrontado com a Liga da Juventude Comunista, Vladimir Ilyich Ulyanov disse que o esporte deve servir para o trabalho, defesa e criatividade. Os camaradas serão atléticos ou não serão.

Como diz Rainer Matos Franco, o esporte dos primeiros anos da URSS é marcado pelo isolacionismo mundial em relação às nações capitalistas. O Comitê Olímpico Internacional e a FIFA são “instituições burguesas”. Os bolcheviques fundaram sua própria associação esportiva internacional por meio da Internacional Comunista.

Em 1921, foi criada a “Associação Internacional de Associações de Esportes e Ginastas Vermelhas” ou Sportintern. Nascem as Spartakiadas, as Olimpíadas comunistas. Em 1922, com a consolidação da URSS, foi criada a equipe de futebol “nacional”, que estreia-se perante a Federação Desportiva dos Trabalhadores Finlandeses. Na guerra, na fábrica, no campo: une-se.

Durante os anos 1930, a URSS não participa de nenhuma copa do mundo de futebol. No entanto, com Stalin, a competição internacional contra o Ocidente burguês começa a se tornar mais flexível. As Olimpíadas vermelhas desaparecem e as “quebras de recorde” são instigadas em franca competição contra as nações capitalistas. O sucesso aumenta. A produtividade de cinco anos atinge um esporte que é exportado como propaganda. O internacionalismo socialista de Lênin dá lugar à carreira competitiva de Stalin.

O fim da Segunda Guerra Mundial não modifica a política stalinista em relação ao esporte; mas sim o poder. Em novembro de 1945, há um evento que marca a globalização do futebol russo: a turnê do Dinamo Moscou, na Inglaterra. A amizade anglo-soviética e o desejo de Stalin de derrotar o Ocidente são o pano de fundo. O passeio também serve como uma desculpa para a cultura letrada da época sobrepor o estilo de jogo com a idiossincrasia nacional. O “coletivismo, organização e determinação” do Dinamo mostra sua “superioridade” contra o “individualismo” inglês. Na nascente Guerra Fria, você joga como vive.

Em meados do século 20, a URSS começa a participar regularmente dos Jogos Olímpicos e das copas do mundo de futebol organizadas pela FIFA. Sua inclusão em mega eventos esportivos globais é total. Os sucessos olímpicos, principalmente nos jogos de inverno, vão na contramão da pobreza futebolística, com exceção do seu primeiro e último Campeonato Europeu, conquistado em 1959.

Seleção da União Soviética posa antes da partida da Copa do Mundo entre URSS e França, em León, México, em 6 de junho de 1986. Da esquerda para a direita, de pé: Vladimir Bessonov, Pavel Yakovenko, Oleg Kuznetsov, Sergi Aleinikov, Rinat Dassaiev, Anatoli Demianenko. Primeira fila, de esquerda para a direita; Ivan Yaremchuk, Nikolaj Larionov, Igor Belanov, Alexandr Zavarov, Vasili Rats. A partida terminou empatada em 1 a 1. Foto: Michel Lipchitz / AP.

Já no crepúsculo do século 20, a URSS agoniza ao pulso da Perestroika. O colapso é inevitável. Dos escombros do muro, doze novas repúblicas se rearmam, mas apenas a Rússia receberá os pergaminhos esportivos da URSS.

Em 1992, nasce a união do futebol russo e sua equipe nacional. Boris Yeltsin, em 1993, propõe um novo hino patriótico, cuja melodia, sem letras, foi composta pelo monarquista Mikhail Glinka, do século 19. Os jogadores reclamam que nos jogos internacionais não há nada para cantar.

A Rússia nunca parou de fantasiar sobre sua grandeza. Czarista, soviética ou emergente, recusa-se a enterrar seu passado, como o Lênin embalsamado. Carrega um DNA imperial. E o esporte sempre foi uma trincheira a se expandir. Não por acaso, eles são os melhores na estratégia do xadrez. Vladimir Putin, soberano e estadista do século 21, que desafia o Ocidente, doma os ursos e varre as eleições. Parece determinado a restaurar o status internacional perdido. Nada melhor do que a Copa do Mundo de Futebol para demonstrar o orgulho nacional. Ninguém deve duvidar que o esporte é a continuação da política por outros meios.

Sensacional Marcha das Favelas

Sensacional Marcha das Favelas

Foto: Marcha das Favelas

No histórico sábado de 9 de junho de 2018, defendendo a legalização da maconha e das drogas, foi realizada a primeira Marcha das Favelas do Brasil. Em torno de 200 ativistas saíram da favela de Manguinhos, passaram por trás e pela frente da Cidade da Polícia, recuaram e atravessaram a favela do Jacarezinho, voltando pela boca de fumo de Manguinhos, onde alguns aproveitaram para fazer compras, tendo a marcha terminado no mesmo lugar da partida: o campo de society de Manguinhos, onde a bola rola sem parar, ao lado do maior centro de pesquisas do Brasil, a Fiocruz. Foi nessa fundação que o saudoso Pacheco realizou, antes de sua passagem, um curso de agente comunitário de saúde.

Morador do seu amado bairro do Jacaré, apelidado pelo próprio de Jahcaré, Pacheco foi um dos organizadores do movimento e sua alma estava lá. Em vida, o “velho barbudo”, como era carinhosamente chamado pelos sócios do primeiro Coffee Shop das favelas, ele marcava diariamente a sua presença no “Stuffa”. O copo vendido na Marcha das Favelas levava sua foto e sua famosa caricatura, maravilhosamente desenhada pelo grande artista Zanon.

O evento teve a participação fundamental do brilhante advogado Ricardo Nemer e dos incansáveis David e Felipe. O Coffee Shop do Xandão de Manguinhos, sob o embalo dos batidões selecionados por Raoni Mouchoque, formou a grande concentração. Roncos de motos do tráfico armado passavam no meio da mobilização fazendo o som e a performance do ato. Um pouco depois de 4:20 h. da tarde, após marcantes discursos de pessoas do lugar de fala, Felipe comandou a democracia direta. Com a necessária cautela que merecia o momento, perguntou aos presente se preferiam realizar um ato parado ali ou seguir a passeata. Por unanimidade, em votação, ganhou a proposta de saída da Marcha das Favelas. A corajosa e esperada decisão muito agradou os pioneiros da Marcha da Maconha de São Paulo, que vieram da capital paulista, pois não queriam perder esse momento histórico. O evento partiu acompanhando várias marchinhas do maravilhoso e engajado bloco da maconha “Planta na Mente”, cantando “um, dois, três, quatro, cinco, mil, vamos legalizar a maconha no Brasil.

O cenário das antigas fábricas e do histórico movimento sindical de trabalhadores foi o palco da primeira Marcha das Favelas pela legalização da maconha e de todas as drogas ilícitas vendidas nas comunidades. No mesmo lugar, operações policiais racistas são realizadas por rasantes de helicópteros a metralharem moradores negros e pobres em suas lotadas vielas perto da linha do trem da Central que cruza por dentro da favela do Jacarezinho.

Em plena intervenção militar, foi realizado o evento mais ousado contra toda essa política racista de Estado. Ao contrário da repressão policial militar, confessada por seus próprios comandantes e interventores como uma ação de “enxugar gelo”, a Marcha das Favelas levantou a proposta concreta e séria da legalização da venda do varejo das drogas. Enfrentou e pagou pra ver se um evento realizado todos os anos na orla de Ipanema seria proibido na Favela. O evento foi tranquilão: como em Ipanema, a polícia acompanhou o ato de longe, sem repressão. Muito moradores observaram que a maconha é fumada abertamente nas favelas, assim como na orla do Leme ao Pontal. No entanto, muito diferente de Ipanema, a repressão policial é muito mais violenta com quem fuma maconha na favela. Por isso, a igualdade de tratamento foi cobrada pela pioneira Marcha das Favelas pela Legalização.

Rio de Janeiro, 13 de junho de 2018

Jean Wyllys: Rússia, destino perigoso

Jean Wyllys: Rússia, destino perigoso

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O Ministério das Relações Exteriores elaborou e publicou recentemente o “Guia consular do torcedor brasileiro”, destinado aos turistas brasileiros que irão ou já estão na Rússia para acompanhar o mundial de futebol. O documento, elaborado pela área consular do ministério em parceria com o Ministério do Esporte e a Embaixada do Brasil em Moscou com o objetivo de preparar e informar os turistas brasileiros sobre as legislações e costumes locais, chamou a atenção nos últimos dias por trazer uma página sobre a lei homofóbica que vigora na Rússia – que prevê multas e até a detenção de estrangeiros -, acompanhado de recomendações para que a comunidade LGBT evite “demonstrações homoafetivas em ambientes públicos” e manifestações públicas sobre “temas políticos, ideológicos, sociais e de orientação sexual”.

Acredito que o Itamaraty e todos os técnicos envolvidos na elaboração do material tiveram boa intenção e, sobretudo, motivos para fazer esse alerta aos turistas brasileiros. É necessário informar as pessoas porque muitas delas desconhecem a existência de leis discriminatórias em outros países, em especial a Rússia neste momento, e podem ver um momento de festa e celebração se tornar um pesadelo e trauma pessoal em suas vidas, longe do seu país de origem.

Esse trabalho de divulgação sobre a restrição de liberdades individuais no país que está sediando a Copa do Mundo é importante e eu saúdo esta iniciativa. Porém, me causou espécie o fato de a lei homofóbica ser apresentada às pessoas sem estar acompanhada de um parecer crítico no documento do guia. É, ou deveria ser, função do Ministério das Relações Exteriores estabelecer alguma crítica e se somar à pressão internacional que está aproveitando que os olhos do mundo estão voltados para a Rússia e está denunciando, questionando e pedindo a revogação dessas leis que violam os direitos humanos de uma parcela da população.

A quem não sabe, hoje, na Rússia, qualquer marcha, pôster, parada LGBT, revista, livro, filme ou informativo sobre a homossexualidade, bissexualidade ou transgêneros pode ser enquadrado como ato criminal, assim como qualquer pessoa que se identificar publicamente como sendo LGBT. Em junho de 2013, o presidente Vladimir Putin promulgou uma lei que proíbe “propaganda da homossexualidade” (sic) e que é um atentado à liberdade individual e, antes, uma estupidez, já que um movimento político internacional que luta pela garantia de direitos, igualdade e respeito para a população LGBT não pode ser chamado de “propaganda”.

Essa homofobia institucionalizada pelo governo russo respalda a ação de grupos de ódio no país que, com impunidade, atacam pessoas LGBTs, submetendo-as à humilhações e violências físicas que são filmadas e disponibilizadas virtualmente. Ativistas LGBT que se manifestavam nas ruas da capital, Moscou, e em outras cidades do país antes da aprovação da lei já eram vítimas de ataques em praças públicas e de detenções policiais arbitrárias, mas a violência e repressão aumentaram com a atual legislação. Veio daí a preocupação e recomendação do Itamaraty.

É lastimável que o Estado brasileiro tenha que pedir aos seus cidadãos LGBTs que mudem seus comportamentos, voltem para um armário temporário e legitimem as leis discriminatórias de outro país. As pessoas têm que ser livres para serem como são e não devem ter seus direitos violados por isso. Quem tem que mudar o comportamento é o Estado-nação que se propõe a sediar um evento esportivo mundial que mobiliza pessoas de todas as partes do mundo.

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Caetano Veloso entrevista Ciro Gomes em sua coluna na Mídia NINJA

Caetano Veloso entrevista Ciro Gomes em sua coluna na Mídia NINJA

Estreia agora no Youtube da Mídia NINJA em sua coluna, Caetano Veloso, na segunda edição de uma série de entrevistas, que se iniciou com Mangabeira Unger, segue adiante com o convidado da vez: Ciro Gomes, pré-candidato à Presidência da República pelo PDT nas Eleições 2018. Caetano é um apoiador declarado de Ciro e conduziu a conversa sobre a trajetória do político cearense e de seus projetos para o Brasil.

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